"Kosovo será um Estado inexistente", diz candidato radical a presidente da Sérvia

Ramón Lobo
Enviado especial a Belgrado

Não parece que o candidato do Partido Radical à presidência da Sérvia se chame Tomislav Nikolic, nem que as pesquisas lhe dêem possibilidades de ganhar amanhã. Os militantes que pululam pelos corredores levam placas vistosas com o rosto de Vojislav Seselj, presidente dos radicais e preso há cinco anos em Haia (Holanda), acusado de crimes de guerra.
Nikolic, que completará 56 anos em 15 de fevereiro, parece descontraído depois de uma intensa campanha que foi dirigida por uma consultoria americana. Na entrevista realizada ontem, tentava manter a moderação que lhe deu um bom resultado no primeiro turno, em 20 de janeiro, quando conseguiu o apoio de 1,6 milhão de sérvios.

Andrej Isakovic/AFP - 31.jan.2008

O candidato ultranacionalista Tomislav Nikolic participa de comício em Belgrado

El País - A UE vê sua possível vitória como uma catástrofe.
Tomislav Nikolic -
Foi pior na última vez. Desta vez o tom da UE foi moderado. Se impôs o critério de deixar que os sérvios decidam e depois continuar falando sobre o convênio de associação. É um alívio, porque em 2004 parecia que os cidadãos iriam sofrer as conseqüências de minha eleição. É Tadic quem dissemina o medo. Os EUA e a UE não o apoiaram. Estão fartos de suas mentiras.
EP - Qual seria sua reação diante da independência imediata de Kosovo?
Nikolic -
A rápida proclamação da independência de Kosovo não seria uma conseqüência de minha vitória, porque já está preparada. A reação será igual, ganhe quem ganhar, porque a Sérvia é um Estado que não depende da vontade de um indivíduo. A decisão será tomada pelo Parlamento e será obrigatória para o presidente. Independentemente do resultado, vou propor várias medidas. Kosovo será para a Sérvia um Estado inexistente. Não aceitaremos seus passaportes nem seus contratos nem seus funcionários. Não poderão passar seus produtos nem seus habitantes, e teremos problemas com os países que ajam de forma hipócrita, que apliquem em Kosovo o que jamais permitiriam em seu território.
EP - O que acontecerá com o norte de Kosovo? Haverá separação?
Nikolic -
Não há norte nem sul. Vamos lutar política, jurídica e diplomaticamente por cada metro de terra.
EP - Está tudo perdido, ou o senhor crê que ainda há esperança?
Nikolic -
Os representantes da comunidade internacional fizeram o possível nesses nove anos para que os sérvios abandonem Kosovo. Aconteceu em Krajina e na República Srpska quando foram expulsos dezenas de milhares de sérvios. E acontece em Kosovo. Existe o perigo de que o processo continue em Sandzak (região sérvia habitada por bósnios muçulmanos) e no sul da Sérvia (vale de Presevo; 90% albaneses). Quem vai conter o processo de decomposição da Sérvia?
EP - Houve crimes de guerra cometidos pelo regime de Milosevic em Kosovo?
Nikolic -
Milosevic foi acusado pela UE de cometer esses crimes, inclusive quando estava agindo muito bem. Os albaneses foram animados ao boicote das instituições e isso foi apresentado na Europa ocidental como conseqüência da ditadura. Depois os albaneses passaram ao terrorismo e a Sérvia teve de se defender. Antes dos bombardeios da Otan não houve crimes de guerra em Kosovo. Depois houve, por parte de todos. A Sérvia pagou muito caro pelos crimes cometidos pelos indivíduos.
EP - Qual seria sua atitude diante da UE quando Kosovo se tornar independente?
Nikolic -
Depende de como a UE reagir. Se haverá um reconhecimento institucional ou se deixarão que cada país tome sua decisão. É óbvio que os países maiores e mais ricos vão reconhecer a independência. Isso freará as negociações.
EP - O senhor estaria disposto a negociar a mudança de política de vistos e assinar o Acordo de Associação e Estabilização?
Nikolic -
A assinatura depende de a UE reconhecer as fronteiras da Sérvia definidas pela ONU. Como presidente não posso pôr uma parte do país na UE e deixar outra fora. O que nos pedem não tem sentido.
EP - Sente isso como uma chantagem?
Nikolic -
Sinto como uma humilhação. A UE não pára de fazer exigências que a Sérvia não pode aceitar.
EP - Qual seria sua atitude no caso de Ratko Mladic?
Nikolic -
Se Mladic estivesse na Sérvia, Tadic o teria detido há muito tempo. Se eu tiver a oportunidade de ser presidente, vou comprovar se é verdade que mil agentes estrangeiros estão em território sérvio. Eles também não o encontraram.
EP - Tadic afirma que o verdadeiro líder de seu partido é Seselj.
Nikolic -
É um presidente que, por enquanto, não pôde exercer sua função. Está ocupado com o julgamento e não tem tempo de interferir no trabalho do partido. A Sérvia seria governada por mim.
EP - O senhor crê que há necessidade de uma catarse na Sérvia para que as pessoas tenham consciência do que aconteceu em Vukovar e Srebrenica?
Nikolic -
A Sérvia conhece a verdade: na guerra todos cometeram crimes, mas fomos os únicos acusados como população e como Estado. Não justifico nenhum crime, mas não permito que ninguém nos chame de animais. Houve bestas do nosso lado, mas também no dos outros. Só Milosevic foi declarado criminoso. Quando levam para Haia o presidente da República, o do Parlamento, o ministro da Política e o chefe do exército, estão levando um povo inteiro.
EP - Rússia ou UE?
Nikolic -
A Sérvia é uma casa com duas portas abertas tanto para a Rússia como para a UE. Com a Rússia vai ser mais fácil colaborar.
EP - Acabaram as guerras nos Bálcãs ou há perigo com Kosovo?
Nikolic -
Eu gostaria que não houvesse mais, mas quem pode garantir? Quem poderia, a ONU, tem membros importantes que se afastam de seus princípios básicos. Existe uma nova ordem mundial que não respeita os valores alheios. Há países em que não se pode estabelecer a democracia com bombas.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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