Arquivo de 3 de Fevereiro de 2008

Retrato da (in)justiça social

Caco Barcellos amplia seus horizontes na televisão, nos livros e agora também nos palcos

Marcos Fonseca

Caco Barcellos é um dos poucos jornalistas brasileiros que fazem carreira como repórter, quando a regra na profissão é subir nos cargos internos das redações e se afastar da rua. Ele valoriza o papel das chefias, mas acha que falta reportagem no jornalismo atual. Como se tentasse compensar essa carência, trabalha até 18 horas por dia, dividindo-se entre os compromissos na TV Globo, os livros de não-ficção - prepara outro provável best-seller, na esteira dos sucessos de Rota 66 e Abusado - e, agora, o teatro. Ainda este ano, deve estrear sua peça Osama, o homem-bomba do Rio, escrita para o projeto Conexões, do National Theatre de Londres, que atua em doze países.

Cláudio Barcelos de Barcelos nasceu na periferia de Porto Alegre e, entre outras profissões, foi taxista, antes de ser empregado no jornal Folha da Manhã de sua cidade. Em seguida, ajudou a fundar a Cooperativa dos Jornalistas local, integrou a equipe que criou a revista Versus e se destacou na imprensa combativa dos anos 1970, época em que colaborou em diversas publicações alternativas. Mudou-se para São Paulo e passou pelas revistas semanais IstoÉ e Veja, antes de se tornar nacionalmente conhecido como repórter da TV Globo. Depois de 20 anos produzindo matérias de grande repercussão para o Jornal nacional e para o Globo repórter - período que inclui os tempos de correspondente da emissora em Nova York, Londres e Paris e a apresentação de programa semanal na Globo News -, criou em 2006 o quadro Profissão Repórter, exibido aos domingos no Fantástico.

Trata-se de um projeto pessoal, no qual acompanha, durante a semana, uma equipe de jovens jornalistas que têm a missão de abordar um mesmo assunto de diferentes maneiras. Para isso, eles se envolvem com todas as funções do jornalismo da televisão, desde o levantamento da pauta, a apuração das informações, a produção da reportagem, o trabalho de campo, a captação de imagens, a realização das entrevistas, a elaboração dos textos e a edição final. Caco vai junto. É o orientador e o chefe, mas sem grandes preocupações hierárquicas, ou seja, do único jeito que se poderia imaginá-lo ocupando um cargo desses.

Um dos mais respeitados profissionais de imprensa do País nem tem sala própria na sede paulistana da Globo. Sua mesa se confunde com a dos outros integrantes do Profissão Repórter, num espaço de cerca de três metros de largura por oito de comprimento. Ali, cercado de estudantes de jornalismo, cumpre expediente o profissional de TV, cuja rotina inclui os exaustivos pescoções de fechamento do quadro dominical, muitas vezes varando a madrugada. O resultado, como mede o Ibope do Fantástico, é um sucesso de público, além do crescente prestígio do jornalista entre universitários de comunicação.

O escritor trabalha nos horários livres, nas folgas e nas férias. Começou com Nicarágua: a revolução das crianças, sobre o movimento sandinista, nos anos 1980, e continuou com Rota 66, a história da polícia que mata, resultado de oito anos de pesquisa que levaram à identificação de 4.200 vítimas jovens e pobres abatidas pela Polícia Militar de São Paulo. O livro foi oito vezes premiado por instituições de defesa dos direitos humanos e recebeu o Prêmio Jabuti de melhor obra de não-ficção. Sua obra mais recente - Abusado, o dono do morro Dona Marta, outra exaustiva reportagem sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro - ganhou o Jabuti em 2004.

Conquistou leitores, mas arrumou também muita encrenca e vários inimigos, principalmente entre policiais que não gostaram de como foram mostrados. Desde a noite de autógrafos de Rota 66 em São Paulo, à qual compareceram ruidosamente alguns de seus principais personagens, Caco se acostumou às ameaças de morte. Deve ter medo, mas provavelmente descobriu a melhor forma de enfrentá-las: o jeito calmo e sereno com que conversa com as pessoas, sejam elas os seus jovens colegas do Profissão Repórter, sejam as fontes de suas importantes reportagens, sejam os entrevistadores da Cult.

CULT - Fale de sua futura peça de teatro.
Caco Barcellos - Foi um convite do National Theatre, de Londres, que tem um projeto que se chama Conexões. Ele atua em doze países e é bastante presente nos lugares em conflito, como os países muçulmanos. Eles escolhem dois escritores por país e encomendam peças de teatro com a mesma temática básica: a realidade da juventude em cada país. No Brasil, o tema é juventude e violência. Penso que me escolheram, junto com o Marcelo Rubens Paiva, por conta dessa temática. A partir daí, eles traduzem o texto e fazem o intercâmbio entre as peças.

CULT - Em que pé está o texto?
C. B. - Eu escrevi a minha primeira versão, passou pelo processo de leitura dos atores e agora está nas mãos dos diretores. Como não tenho experiência nessa área, eles sugeriram que eu cortasse um pouco. Tem mais de duas horas e eles querem algo em torno de uma hora e meia. Mas gostaram. Fiquei muito feliz.

CULT - Qual é a previsão de estréia?
C. B. - Eu acho que este ano, ainda. Já fizeram a leitura, teve um workshop com os atores e diretores londrinos e agora escolheram duas escolas de São Paulo para fazer a montagem. A idéia é o elenco de cada país montar a peça na versão nacional. Mas, de repente, o meu texto pode ser montado pelos afegãos, por exemplo. Não sei exatamente quais são os doze países: acho que Canadá é um, Reino Unido, Índia…

CULT - E o Brasil…
C. B. - Sim, eu e o Marcelo somos os primeiros do Brasil.

CULT - Ao todo, são quantos personagens?
C. B. - Seis principais e três secundários, mas muita gente no palco. O ambiente é um barraco de favela. Jovens de favela e de classe média, uma gangue “pitbull” de classe média. O outro cenário se passa na academia onde os dois segmentos sociais se cruzam. Tem um conflito aí que a gente está vivendo, só que na peça é mais acentuado.

CULT - Qual é o enredo do espetáculo?
C. B. - A peça se chama Osama, o homem-bomba do Rio e trata de uma história centrada em dois jovens adolescentes cariocas, um da favela e outro de classe média, que se unem através das drogas e do desejo de libertarem suas mães. O garoto da favela é o Osama, filho da empregada doméstica do garoto de classe média, Diboa. Ele começa um movimento de questionamento do fato de os jovens da classe média terem duas mães, a verdadeira e a empregada doméstica, e os da favela não terem nenhuma. Por sua vez, Diboa se revolta com seu pai, um alto executivo de transnacional que defende o desemprego como um modo de aumentar os lucros de sua empresa e é muito conservador no que se refere à violência. Neto de político, ele acha que a polícia deveria matar muito mais que as por volta de mil pessoas que executa anualmente. Ele também é alcoólatra, fica mais doido com uísque que seu filho com maconha, e, completamente alterado, bate bastante na mãe de Diboa, que se revolta com isso. Ou seja, o background do espetáculo é a guerra entre classes no Rio de Janeiro.

CULT - Qual foi a maior dificuldade que você sentiu ao fazer um trabalho que foge do jornalismo?
C. B. - Na verdade, para mim, virou uma camisa de força. Eu não me libertei da minha experiência de não-ficção. Então, ficava estranhando quando inventava histórias. Acabei usando muitas histórias do cotidiano do trabalho na periferia e nas favelas. É ficção porque as histórias não obedecem ao rigor da não-ficção, mas as tensões são verdadeiras.

CULT - É o contrário do jornalismo em que se usa a ficção para fazer a reportagem?
C. B. - Quando eu escrevo um livro, uso a técnica da ficção para fazer a não-ficção. Na peça, eu tentei criar, mas me sentia preso. Fui recorrendo a histórias antigas.

CULT - Você também escreve letras de música e roteiros para cinema?
C. B. - Não. Eu gosto de rap, pois eles são os verdadeiros repórteres da periferia. Eles contam as histórias e isso me fascina. Aliás, o Rota 66 inspirou vários CDs de grupos de rap. Tem um inclusive que se chama Rota 66. Tem outros que, no meio das letras das músicas, citam: “Isso vai virar história do livro do Caco Barcellos”. Na peça, eu escrevi um funk sinistro, mas é uma coisinha curta.

CULT - E livro, você está escrevendo algum? Qual é a sua editora?
C. B. - Estou na fase de apuração das informações para um novo livro, mas, como se trata de investigação, não falo a respeito antes de estar pronto, pois pode prejudicar seu andamento. Também não aceito assinar com a editora antes de estar com a versão final. Eles querem fazer contrato assinado, mas eu não aceito. Sou muito rigoroso comigo mesmo. Se falar o que estou fazendo, já fico (pensando) “tem que acabar rápido”. Não posso realmente ter esse compromisso, porque é uma loucura. Eu trabalho demais na televisão. O Abusado foi um livro cansativo. Talvez um título mais coerente que Abusado seria Cansado. Eu o escrevi na exaustão. Escrevi três vezes. Sentia-me cansado, caía de sono quando estava escrevendo. A apuração também foi um sacrifício. Morria alguém no morro, ligavam-me. Eu ia para lá e ficava no velório - que é muito importante, já que tem muita história - até três, quatro horas da madrugada e dormia um pouquinho. Nove horas da manhã, já corria para o Jornal nacional. Fim de semana e o período de férias; duas licenças não-remuneradas. Escrevia nas madrugadas e ficava um capítulo para o dia seguinte.

CULT - Teve uma equipe que te ajudou na confecção do livro?
C. B. - Eu contratava uns freelas. Mas eu mesmo fiz a apuração quando estava em Londres. De lá, eu fui à falência com a conta do telefone celular, ligando para outros lugares. Fiz muita apuração. Achava, quando fui para Londres, que já tinha terminado a apuração no Brasil, mas as coisas mudam a cada 15 minutos. Eu perseguia o universo das drogas. Até ofereci para a televisão, mas eles não quiseram. Eles não querem dar espaço para criminoso falar e eu não podia abrir mão do meu trabalho na TV, porque o mercado editorial não é ainda profissional, as editoras não remuneram bem. Complicado isso. Acho que tem dois ou três autores que vivem de livros no Brasil. Talvez o Fernando Morais, mas ele já tem vários livros. Luis Fernando Veríssimo, Ruy Castro…

CULT - Se pudesse, largaria a imprensa e viveria como escritor?
C. B. - Se o mercado editorial fosse profissional, viveria.

Revista Cult
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Banco Central dos EUA, o parceiro silencioso nos banhos de sangue

Mike Whitney

A economia de um país é um espelho de água que nos reflecte. A face que nos olha da água é a da cultura e das características prevalecentes. Não é diferente com a América. Os comissários do sistema económico estado-unidense — Paulson e Bernanke — estão inextricavelmente ligados a um establishment político/militar totalmente impregnado na cultura da violência e da corrupção. O “Plano Marshall” de Paulson destinado aos proprietários de habitações subprime é apenas a mão enluvada do déspota. A outra mão ainda está ocupada a arrancar olhos em Guantanamo, ou a moer de pancada cidadãos estrangeiros nos sítios negros da CIA, ou a despejar bombas incendiárias sobre escolas de crianças em Faluja. Isto é tudo igual. A cultura de guerra e demagogia tem suas raízes no sistema económico. Os seus líderes financeiros são tão culpáveis quanto qualquer GI de baixa patente em Abu Ghraib.

O plano Paulson nada tem a ver com salvar pessoas da classe trabalhadora das devastações dos arrestos. Ah, não. A administração Bush opõe-se ideologicamente a ajudar pessoas em estado de necessidade. Já sabemos isto. Basta olhar para o Katrina. A finalidade real da proposta “salvação de emergência” (”bailout”) é permitir que bastantes pessoas continuem a fazer pagamentos mínimos das suas hipotecas de modo a que o sistema bancários não se estilhace em um milhão de pedaços. É isso. Não preciso chamar um génio para ver que o desespero tomou conta do Federal Reserve. A última vez que o governo orquestrou uma salvação de emergência desta grandeza foi na década de 1930. E o que mais? George Bush não é Franklin Dellano Roosevelt.

A verdade é que o sistema está em erupção e o botão de pânico do Fed está a “piscar vermelho”. É óbvio. Eles estão a fazer tudo o que podem para manter o comboio sobre os carris, mas não estão a conseguir. Estão a cortar taxas, a aceitar colaterais dúbios (como papel comercial e tremulantes títulos apoiados por hipotecas) como reposição, e estenderam o período das reposições indefinidamente, o que equivale a “monetizar” a dívida. Paulson tentou estabelecer um Super SIV [1] para ajudar os grandes bancos de investimento a descarregarem o seu lixo apoiado por hipotecas sobre o público desconfiado, mas isto tão pouco está a funcionar. Nada está a funcionar. Enquanto isso, os ventos contrários continuam a ficar mais fortes, as ondas continuam a esmagar-se sobre a proa, e o navio do Estado continua a declinar perigosamente de lado. Ele está numa confusão.

Os bancos são o canal para o papel-moeda inescrupuloso emitido pelo Federal Reserve. É um negócio torto dirigido pelas mesmas pessoas que enviam nossos filhos para a guerra enquanto premeiam-se a si próprios com cortes fiscais. Agora o sistema está em horrendas dificuldades. Deveríamos sentir-nos mal por isso?

Bancos centrais estrangeiros e investidores estão a livrar-se dos seus dólares e dos seus activos denominados em dólar, os Estados do Golfo ameaçam desligar o petróleo do dólar, e investidores por toda a parte sabem que foram roubados por uma burla ordinária de lavagem de hipotecas que obteve o “sinal verde” dos reguladores dos Estados Unidos. O cenário em torno de nós é mau. E agora as galinhas voltam a casa para se empoleirarem.

CÓ-CÓRÓ-CÓ

O colapso no mercado imobiliário continua a enviar tremores a toda Wall Street. Milhões de milhões de dólares em títulos complexos (CDOs e MBSs) estão a ser degradados quando aumentam os arrestos e os inventários de casas sobem. Bancos, companhias de seguros, fundos de pensão, títulos de companhias de seguros, hedge funds, todos eles estão entre a vida e a morte. Muitos já insolventes e muitos mais os seguirão. É apenas uma questão de tempo. Os fundamentos dos mercados financeiros estão a esfarelar-se. O esquema de transformar os passivos dos candidatos a empréstimos com mau crédito numa fonte confiável de lucros gordos fracassou. A alquimia não funciona. Nunca funcionou.

A crise subprime e o (subsequente) esmagamento do crédito teve origem no Federal Reserve. O Fed disparou um frenesim especulativo ao baixar taxas de juros abaixo da taxa de inflação durante mais de 31 meses entre 2002 e 2004. Milhões de milhões de dólares alimentaram então o sistema bancário criando a maior bolha equity da história. Agora que a bolha imobiliária está a estraçalhar-se na terra – e milhões de milhões de dólares em títulos tremelicantes estão destinados ao aterro sanitário – o Fede está a tentar distanciar-se de qualquer responsabilidade. Mas nós sabemos a verdade. O plano foi concebido e executado pelo Fed e é nele que reside a culpa. Todos os outros são apenas “pequenos actores”.

O que importa é que o sistema está a entrar em colapso. Está a ser vagarosamente esmagado pelo peso acumulado da sua própria corrupção. Quando o sistema cair, a bandeira será arriada na Baía de Guantanamo, a actual oligarquia de extorsionários (racketeers) será removida do gabinete, e as tropas no Iraque voltarão para casa. Por vezes resultados positivos decorrem da tragédia.

Poderia haver anarquia ou tirania ou lei marcial ou campos de detenção. Quem é que sabe, realmente? É compreensível que o público esteja preocupado quanto “ao que poderia acontecer” no futuro próximo. Mas, considere-se isto: podemos nós continuar a derramar o sangue de pessoas inocentes por todo o planeta enquanto afirmamos possuir o mundo e todos os seus recursos? Podemos nós ignorar desafios que ameaçam as espécies, como o aquecimento global [2] , o pico petrolífero e a proliferação nuclear?

Não.

Bem, nesse caso, haverá qualquer probabilidade de que os media, o congresso, os tribunais, ou o presidente cheguem a cair em si, a traçar uma rota diferente, a restaurar liberdades civis, a parar o abuso de direitos humanos e a retirar as tropas?

Não

Então, caro leitor, diga-me que esperança há de mudança senão através de um colapso económico de todo o sistema?

Sistemas políticos não têm de ser perfeitos para serem aceitáveis. Não sou ingénuo. Mas – para muitos de nós – há critérios morais básicos que têm de ser cumpridos para merecer o nosso apoio. A administração Bush elevou a matança, a tortura e o sequestro a um nível de política de Estado. Isto é inaceitável por qualquer padrão e, com isso, todas as alavancas do poder são controladas por pessoas que apoiam a doutrina actual.

NÃO É ASSIM?

Os Estados Unidos não são um foco de esperança ou uma luz no mundo. São, sim, uma ameaça, e cada vez maior, para a sobrevivência na Terra. A política da América e a beligerância militar constituem apenas uma extensão de um sistema económico dominador que serve unicamente aos interesses dos ricos e poderosos. O Banco Central desempenha um papel crítico neste paradigma. O país não vai à guerra sem a bênção das suas principais instituições financeiras. Os sujeitos do “big money” são os parceiros silenciosos nas pilhagens e nos banhos de sangue.

Os homens que possuem e fiscalizam o sistema financeiro dos EUA criaram o cancro que actualmente está a devorá-lo por dentro. Agora o tumor entrou em metástases e espalhou-se através de todo o organismo. A situação é irreversível. A economia está nos seus últimos passos e destinada a uma queda. Os líderes políticos estado-unidenses terão de aceitar um mundo no qual a América será apenas um entre muitos Estados de igual poder e significância. O financiamento militar reduzir-se-á a umas gotas. A matança acabará. Finalmente.

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[NT1] SIV: Structured Investment Vehicles .
[NT2] Pelo menos este podemos seguramente ignorar, pois é um desafio fictício. O autor deixou-se influenciar pela enxurrada desinformativa acerca do suposto “aquecimento global”. Para uma informação rigorosa ler, por exemplo, Rui G. Moura: A fabricação do pânico climático e A paranóia do dióxido de carbono .

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Algumas histórias que o Caçador de Pipas não conta

O filme “Caçador de Pipas” apresenta um painel sobre a história recente do Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. Flutuando entre a imaginação e a história, o filme denuncia monstruosidades mas silencia sobre o papel de alguns dos pais dos monstros que devastaram o país.

Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior

O filme “O Caçador de Pipas”, dirigido por Marc Foster, tem o mérito de apresentar um painel sobre a cultura, as tradições e a vida no Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. É uma obra de ficção mesclada com uma tentativa de painel histórico sobre um período da história do país que compreende a queda da monarquia nos anos 70, a invasão dos soviéticos e a ascensão dos talibãs ao poder. É aí, em seu pano de fundo histórico, que os méritos definham e os problemas florescem. O filme é uma adaptação do best-seller do médico Khaled Hosseini, nascido em 1965 em Cabul e que vive nos Estados Unidos desde 1980. O livro foi escrito inteiramente na Califórnia. Hosseini só voltou ao Afeganistão depois do livro ter sido lançado, 27 anos após ter deixado o país. Essa distância espacial e temporal ajuda a entender as omissões históricas e a visão generosa do autor com o papel dos EUA na destruição de sua terra natal.
Quando visitou o país, após a publicação de seu livro, Hosseini ficou chocado. “Infelizmente, o que vi por lá era pior do que aquilo que imaginei e narrei. A destruição do país é impressionante, muito triste”, declarou em entrevista à revista Época. No livro (e no filme), o escritor é grato pela acolhida que teve nos EUA. Ao imaginar como poderia ter sido a vida do personagem Hassan, caso tivesse conseguido fugir para a América, escreve que o amigo estaria vivendo em um país “onde ninguém se importa com o fato de ele ser um hazara”. Essa visão, escancarada em todo o filme, mostra os soviéticos e os talibãs como seres monstruosos e pervertidos sexualmente, mas omite alguns “detalhes” históricos relacionados ao papel que os EUA tiveram no fortalecimento dos talibãs e na sua chegada ao poder. Assim como ocorreu com Saddam Hussein no Iraque (contra o Irã), os talibãs também foram aliados dos EUA (na luta contra os soviéticos). O civilizado e laico Ocidente foi cúmplice direto dos terríveis crimes cometidos pelos talibãs.
Guerra pela civilização?
Se Hosseini não tivesse escrito o livro inteiramente na Califórnia, baseado apenas em sua memória e imaginação, talvez tivesse produzido um relato um pouco mais equilibrado historicamente. Ao final do filme, o que fica, do ponto de vista histórico, é o seguinte: a selvageria soviética e talibã, de um lado, e o papel salvador e civilizatório do Ocidente, do outro. Nenhuma referência sobre como países como EUA e Inglaterra – e seus aliados na região, como Paquistão e Arábia Saudita - contribuíram decisivamente para tornar o país um monte de ruínas. Alguém poderá objetar que não se pode cobrar do autor o relato sobre fatos que não presenciou. Objeção discutível. Mas, mesmo que a tomemos como razoável, isso não elimina o problema de que o pano de fundo histórico que caracteriza o filme é repleto de omissões, buracos e deformidades. Mesmo quem tenha gostado do livro e do filme, portanto, não sairá perdendo com algumas informações.
Em seu filme “Fahrenheit 9/11”, Michael Moore expôs as ligações entre a família Bush, empresas petrolíferas do Texas, a Halliburton, a Enron e os talibãs para a construção de um gasoduto que partiria do Turcomenistão, seguindo através do Afeganistão e chegando ao Paquistão. Mostrou também que, quando era governador do Texas, Bush chegou a receber uma visita de autoridades afegãs do Talibã para tratar de negócios. Depois da guerra contra o Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro, o projeto do gasoduto foi entregue a Halliburton, empresa que tem entre seus executivos o atual vice-presidente dos EUA, Dick Cheney. Todos esses fatos já são bem conhecidos. Mas a obra de Moore não é o melhor relato sobre como os EUA ajudaram os talibãs chegar ao poder e sobre como, durante um bom tempo, silenciaram sobre as atrocidades que estavam sendo cometidos no país. Silêncio e cumplicidade justificados pela geopolítica e por interesses econômicos.
Um pedido de moderação aos talibãs
Na página da embaixada dos EUA do Brasil, há um interessante material na seção “Resposta ao Terrorismo – Programas Internacionais de Informação”, sobre a situação das mulheres no Afeganistão durante o regime talibã. Lá, podemos ler o seguinte: “Antes dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, oficiais dos EUA opunham-se à subjugação das mulheres pelo Talibã através de reuniões com talibãs para pedir moderação, além de trabalhar com outros países, tanto bilateralmente quanto multilateralmente, para refrear os excessos do Talibã”. Não há porém nenhuma referência sobre como foi asfaltado o caminho para que os excessos do Talibã chocassem o mundo.
Uma boa fonte para preencher essa lacuna é o livro “A grande guerra pela civilização – A conquista do Oriente Médio”, do jornalista inglês Robert Fisk, que passou os últimos 29 anos cobrindo as guerras no Oriente Médio.
Em seu livro de quase 1.500 páginas, publicado no Brasil pela Editora Planeta, Fisk conta algumas histórias que o caçador de pipas não conta. Vejamos algumas delas:
“Os sauditas e os paquistaneses ajudaram, por encargo dos EUA, a armar as milícias do Afeganistão contra a União Soviética, e depois – enojados pelas disputas entre os vencedores – apoiaram o exército de clérigos camponeses iluminados do mula Omar Wahhabi o Talibã. A Arábia Saudita havia investido milhões de dólares nas madraçais - escolas religiosas – do Paquistão ao longo de todo o conflito afegão soviético, e o Talibã era um produto genuíno do wahabismo, a fé estatal muçulmana, estrita e pseudo-reformista da Arábia Saudita.
“E o Paquistão? Ao juntar-se à “guerra contra o terror” promovida pelos Estados Unidos, o general Musharra conseguira de fato a aceitação internacional do golpe de Estado que perpetrou em 1999. De repente, tudo o que havia desejado – a suspensão das sanções, grandes investimentos para a cambaleante indústria paquistanesa, empréstimos do FMI, uma renegociação da dívida de 375 milhões de dólares e ajuda humanitária – foi concedido. Evidentemente, tivemos que esquecer também que foram unidades dos Interserviços de Inteligência do Paquistão – o escalão mais alto das agências de segurança do país – que ergueram o talibã, fizeram entrar armas no Afeganistão e ficaram ricas com o tráfico de drogas. Desde a invasão soviética do Afeganistão em 1979, o ISI havia trabalhado junto com a CIA, financiando os mulas do talibã, mais tarde condenados como arquitetos do terror mundial”.
“Depois do 11 de setembro os EUA, incapazes de conseguir a rendição do Talibã por meio de bombardeios, tentaram ficar bem com os assassinos e estupradores da Aliança do Norte, responsável por mais de 80% da exportação de drogas (heroína, principalmente) do país, após a proibição talibã do cultivo. De 1992 a 1996, a Aliança do Norte foi um símbolo de carnificinas, estupros sistemáticos e pilhagem. Por esse motivo, nós – e incluo o Departamento do Estado dos EUA – demos boas vindas ao talibã quando chegou a Kabul”.
“Após o 11 de setembro bombardeamos povoados afegãos até transformá-los em um monte de ruínas, junto com seus habitantes e culpamos o Talibã e Bin Laden pela carnificina.. Depois permitimos que nossa desapiedada milícia aliada executasse seus prisioneiros. O presidente George W Bush assinou uma lei que aprovou a criação de uma série de tribunais militares seretos para julgar e depois eliminar todo aquele que fosse um “assassino terrorista” aos olhos dos serviços de inteligência”.
Há muitos outros relatos sobre esses temas. A fonte de Fisk não é a imaginação, mas a experiência direta. Ele viu e presenciou in loco o que relata. A obra de Hosseini é uma ficção, é certo, devendo ser avaliada com outros critérios. No entanto, tem pretensões históricas que acabam produzindo um cenário esburacado. Não seria tão grave se, ao sair do cinema, não ouvíssemos frases do tipo: “não dá para defender esses muçulmanos, que povo bárbaro”. Aí a imaginação do Caçador de Pipas presta um desserviço à verdade e à justiça.

Carta Maior

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Ideologia da repressão

João Baptista Herkenhoff

O país redemocratizou-se há vinte anos. Uma Constituição foi votada com intensa participação popular, como nunca havia acontecido no transcurso de nossa História. A Assembléia Constituinte que votou a Constituição de 1988 abriu-se à escuta dos anseios da cidadania. Dessa escuta resultaram emendas populares assinadas por cerca de quinze milhões de eleitores. As vozes da rua pleitearam justiça social, educação, democracia, direitos humanos. Não houve emendas populares pedindo o retrocesso institucional, o endurecimento da repressão, a supressão de garantias. Chegava-se ao fim do túnel e a comunidade nacional queria respirar liberdade.

Entretanto, em contraste com a esperança de um novo ciclo histórico, bolsões de pensamento e comportamento ditatorial permaneceram em muitas instituições e espaços sociais, inclusive na Justiça, na polícia, em órgãos de governo, na universidade, nos meios de comunicação.

É esse substrato cultural autoritário que está atrás de atos de violência praticados por autoridades públicas contra o cidadão. É esse substrato cultural que faz com que a polícia, e até mesmo a Justiça, presuma a culpa e determine que a inocência seja provada. É esse substrato que admite que, na persecução do crime, vidas de inocentes possam ser sacrificadas.

Faço estas reflexões a propósito da morte do advogado Geraldo Gomes de Paula, nas dependências de uma Delegacia de Polícia de Vitória. Esse digníssimo advogado foi vítima da brutalidade quando se encontrava no estrito cumprimento do dever. Seu falecimento é chorado, não apenas por sua família, mas também por milhares de pessoas que testemunharam sua retidão moral e dignidade de espírito.

À luz da ideologia da repressão não se entende o papel do advogado criminal, que é visto como “inimigo público”. Não se compreende que o advogado é indispensável à Justiça e que sem respeito ao advogado a Democracia naufraga. O advogado não defende o crime, mas sim o acusado de um crime ou até mesmo o culpado. Julgamento criminal que se faça sem a presença independente e atuante do advogado não é julgamento, mas arremedo de julgamento, farsa.

A violência urbana que, com razão, amedronta o povo, encoraja a ideologia da repressão. Segundo essa ideologia, tropas especializadas, com atiradores de elite, estão autorizadas a matar, uma vez que se encontram no desempenho de papel estratégico para preservar a segurança pública. O resultado disso é uma ilusória segurança, como estamos vendo todo dia.

Sem prejuízo da honesta, transparente e integral apuração dos fatos que causaram a morte do advogado Geraldo Gomes de Paula, o trágico episódio deve ser motivo para uma discussão ampla sobre o papel da Polícia numa sociedade democrática, debate esse que deve ser travado na sociedade e dentro da corporação policial.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Guerra e campanha presidencial 2008 se encontram

Michael R. Gordon

Ao longo do último ano, eu levei uma vida dupla, dividindo meu tempo entre a cobertura da guerra no Iraque e do debate eleitoral nos Estados Unidos.

Eu segui para o norte, até Baqouba, com uma brigada Stryker que varreu os rebeldes da cidade e permaneci com um esquadrão de cavalaria que encontrou uma causa em comum com os xeques sunitas em Hawr Rajab. E de Iowa a Washington, eu falei com os principais candidatos que estavam dispostos a ser entrevistados sobre a guerra (quatro, até o momento) e fiquei atento àqueles que não estavam.

Eram universos paralelos, nos quais a discussão da exigente estrada à frente e potenciais opções alternativas freqüentemente eram tão divergentes que generais e políticos pareciam não estar falando sobre a mesma guerra.

Os oficiais militares americanos com quem conversei estavam longe de apresentar um consenso sobre como proceder no Iraque, mas estavam lidando com decisões sobre como tentar estabilizar um país traumatizado, acompanhados de um senso de que apesar dos ganhos significativos, um trabalho longo e difícil ainda os aguardava -uma suposição que freqüentemente está ausente na campanha.

Os políticos, por outro lado, parecem mais dispostos a tratar a impaciência da população com um compromisso ilimitado no Iraque com a promessa de uma pronta retirada (os democratas) ou com a sugestão de que a vitória pode estar próxima (os republicanos).

Anthony Cordesman, um especialista em assuntos militares do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos que visita regularmente o Iraque, colocou desta forma: “É preciso dar uma nota entre D- e F+ para todos os candidatos. Os republicanos estão conversando sobre isto como se tivéssemos vencido e como se o Iraque fosse o centro da guerra contra o terrorismo, em vez do Afeganistão, do Paquistão e de uma série de movimentos em 50 outros países”.

“Os democratas falam sobre isto como se o único problema fosse a retirada e a dúvida fosse quão rapidamente fazê-lo.”

Em solo com as tropas, fica claro que uma grande mudança militar de fato ocorreu no Iraque no ano passado - não tanto a adição de 30 mil soldados, mas a adoção de uma estratégia de contra-insurreição para usá-los. Tal estratégia tornou a proteção do povo iraquiano a meta principal, em um esforço para separar a população dos militantes e encorajar os iraquianos a fornecer a inteligência que as forças armadas americanas precisam para caçar um adversário esquivo.

Mas contra-insurreição é uma proposta inerentemente de longo prazo, e tal proposta tem guiado grande parte do pensamento militar sobre o futuro, ao mesmo tempo em que aumenta o debate político em casa.

“A menos que haja uma supressão dos rebeldes da forma como os romanos faziam -criando um deserto e o chamando de paz - isso normalmente levará uma década ou mais”, disse Andrew Krepinevich, um especialista em assuntos militares do Centro de Avaliação Estratégica e Orçamentária.

“O paradoxo é que a contra-insurreição exige convencer os iraquianos da nossa permanência. Ao mesmo tempo, o povo americano vê sucesso em termos de quão rapidamente sairemos de lá”, ele acrescentou.

Os militares americanos planejam para meados de julho uma volta às 15 brigadas de combate, o total no Iraque antes do aumento do número de soldados. Nenhuma decisão foi tomada em relação a novas reduções, mas oficiais americanos prevêem a necessidade da manutenção da presença das forças de combate americanas e costumam antecipar uma transferência mais gradual das responsabilidades para as forças iraquianas do que dizem muitos candidatos - uma demonstração de cautela que dizem ser resultado de anos de experiência conscientizadora.

“Se trata de reduzir o risco e não repetir os erros do passado”, disse um alto oficial americano no Iraque, se referindo à abordagem cautelosa.

Os políticos estão sugerindo que podem produzir resultados mais rápidos. Mas os candidatos que atacaram o presidente Bush por não ter feito as perguntas difíceis sobre o que aconteceria após a remoção de Saddam Hussein do poder, freqüentemente não abordam as duras questões sobre o que aconteceria após uma retirada militar americana.

A senadora Hillary Clinton, democrata de Nova York, defende uma rápida retirada das forças americanas, deixando apenas uma força residual para lutar contra os terroristas, proteger os curdos, impedir uma agressão iraniana e, possivelmente, apoiar os militares iraquianos. Mas é notável que entre as tarefas não esteja a missão central da doutrina de contra-insurreição: proteger os civis iraquianos da violência sectária, que ela considera um envolvimento das forças americanas em uma guerra civil.

Foi pedido a ela em uma entrevista que explicasse seu pensamento. “Nós tentaríamos não nos meter entre as várias facções xiitas e sunitas”, ela disse em março passado, em seu gabinete no Senado. “Este é um problema iraquiano - nós não podemos salvar os iraquianos de si mesmos.”

Mas isso levanta a pergunta sobre se as forças americanas poderiam realmente permanecer dentro da segurança de suas bases enquanto milhares de civis são mortos do lado de fora de seus portões. Provavelmente não demoraria para a imprensa e talvez até para os próprios soldados começarem a perguntar se o país que tinha aberto a caixa de Pandora ao invadir o Iraque não seria o responsável por proteger os indefesos.

O senador Barack Obama, democrata de Illinois, prometeu retirar as forças de combate, mas talvez não as unidades de contraterrorismo ou treinadores, em um prazo de 16 meses de sua posse. Ciente do risco de que tal retirada em massa possa levar a uma escalada da violência sectária, ele disse que estaria preparado a enviar soldados americanos de volta ao Iraque como parte de uma força internacional para deter ataques genocidas.

(Isto está longe de ser um cenário exagerado: uma Avaliação Nacional de Inteligência sobre o Iraque, apresentada em janeiro de 2007 pelas agências americanas, alertou que uma rápida retirada de todas as forças americanas provavelmente levaria a “baixas civis em massa e deslocamento populacional forçado”.)

“É concebível que chegue a um ponto onde as coisas mergulhem em um caso que choque a consciência e em que diremos a nós mesmos: ‘Isto é inaceitável’”, disse Obama em uma entrevista em novembro, em seu escritório em Chicago. “Nós não sabemos se isto é, de fato, um problema, mas eu reconheço que você nunca sabe o que poderá acontecer.”

Mas lutar para voltar ao Iraque no meio de uma guerra civil em andamento poderia ser muito mais difícil e perigoso para as forças americanas do que suas operações atuais.

“Quando passar pelas estradas, você encontrará bombas, porque não passou os últimos meses patrulhando os locais onde foram plantadas”, disse Michael O’Hanlon, um especialista em assuntos militares da Instituição Brookings. “Você se deparará com emboscadas porque não contará com os informantes locais que trabalhavam com você, porque seriam os primeiros alvos nas primeiras semanas de um genocídio.”

John Edwards disse que removeria todas as tropas do Iraque em um prazo de 10 meses após tomar posse, exceto por uma pequena força para proteger a embaixada americana e possivelmente trabalhadores humanitários. Mas ele também enfatizou que manteria uma força de contraterrorismo no vizinho Kuwait ou talvez na Jordânia; ela poderia ingressar no Iraque e agir contra os militantes dentro do país.

Mas isto coloca em dúvida se, de tamanha distância, essa força poderia responder a tempo a ameaças terroristas, e sem o tipo de inteligência obtida por meio da interação regular com os civis iraquianos.

Um argumento apresentado por Edwards e outros candidatos democratas é de que a retirada das tropas de combate americanas forçaria os líderes políticos iraquianos a tomarem as decisões difíceis sobre reconciliação política, que podem evitar com o apoio das forças armadas americanas. Mas se estiverem cientes de que as forças americanas sairão independente do que façam, os iraquianos estariam mais dispostos a responder com superação de suas diferenças ou se preparando para o banho de sangue sectário que se seguiria?

Os principais candidatos republicanos não falam sobre uma rápida retirada de tropas, mas fornecem pouco detalhe sobre como ampliariam as vitórias táticas para obter a “segurança sustentável”, que é a meta declarada do plano militar.

O senador John McCain, republicano do Arizona, que argumentou que os Estados Unidos careciam de número suficiente de tropas antes de Bush enviar o reforço de 30 mil soldados, declarou como sendo um sucesso o “aumento” das tropas ao mesmo tempo em que reconheceu que o progresso político iraquiano que deveria estimular tem sido lento.

Entre as perguntas não respondidas em solo no Iraque estão: os Estados Unidos podem persuadir o atual governo a conseguir algum progresso em sua agenda política? Que abordagem alternativa poderia ser seguida caso os esforços de acomodação política dos iraquianos fiquem aquém do esperado?

À procura de uma segunda possibilidade, alguns analistas como Stephen Biddle, um especialista em assuntos militares do Conselho de Relações Exteriores, disseram acreditar que a segurança poderia, supostamente, ser mantida pelo recrutamento de voluntários sunitas para proteção das áreas de seus lares enquanto soldados americanos e estrangeiros policiariam um cessar-fogo ao estilo da Bósnia. Mas essas sugestões parecem ser debatidas mais pelos especialistas do que pelos candidatos.

Rudolph Giuliani, Mitt Romney e Mike Huckabee discutiram o Iraque em menos detalhe do que McCain. Em uma aparição em novembro em New Hampshire, Giuliani resumiu sua estratégia em uma única palavra: “vitória”. Mas vitória parece um conceito quase irrelevante em um conflito que envolve o compromisso de construção de uma nação e tem mais em comum com o esforço para evitar massacres étnicos nos Bálcãs do que com as batalhas decisivas da Segunda Guerra Mundial.

Generais e diplomatas são ensinados a permanecerem distantes da política americana. No momento, eles estão muito ocupados tentando conceber uma forma de reduzir a presença de soldados americanos e transferir um maior fardo para os iraquianos sem comprometer os ganhos duramente conseguidos. A esperança deles, disse um funcionário americano, é conseguir neste ano avanços militares e políticos suficientes para que o próximo presidente tenha tempo para reavaliar os desdobramentos no Iraque e talvez optar por uma correção de curso em vez de uma mudança total.

Enquanto isso, alguns altos oficiais parecem confusos com o debate em casa. “O que me surpreende é o fato de não ter ouvido nenhum candidato descrever quais são suas metas de curto e longo prazo para o Iraque, como isto se encaixa em suas metas regionais para o Oriente Médio e o terrorismo transnacional”, disse um oficial americano. “A meta deles é apenas retirar as tropas o mais rápido possível?”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte III)

Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado "O Homem Revoltado" , uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.

O efeito Koestler

Para Ronald Aronson, um estudioso norte-americano do panorama do existencialismo francês daquela época, o fator que muito impulcionou a virada de Camus para um anticomunismo mais radical deveu-se a presença de Arthur Koestler, um refugiado húngaro que passara a freqüentar a troupe que cercava Sartre e Simone e que alcançara a celebridade com um livro que antecipou os começos da guerra fria: Darknes at Noon (Do zero ao infinito), aparecido em 1941, que relatava a capitulação ficcional de Bukharin durante os Processos de Moscou ( 1936-38), seguido de um outro intitulado Le Yogi et le Commissaire ( "O Ioga e o Comissário"), de 1945, onde denunciava caminho violento tomado pelos comunistas.

A .Koestler ( 1905-1983)

Koestler era o exemplo vivo do intelectual renegado, um ex- agente comunista que durante a prisão na Guerra Civil da Espanha, desiludido com a causa, assumira uma posição crescentemente anticomunista, efeito que levou ao escritor franco-argelino, seu amigo recente, a afirmar que "comunismo = assassinatos".

A influência dele sobre Camus fez por acelerar a sua mutação. O romancista que fora um militante do Partido Comunista na sua Argélia natal (1936-38), um ativista da Resistência, o tão admirado homem engajado de Sartre, começou a se desengajar no após-guerra, procurando um outro caminho que não o levasse a aliar-se ao comunismo, como Sartre terminou fazendo.

Em verdade, a postura que ele assumiu era um tanto irreal ou mesmo utópica devido a dimensão das forças em crescente colisão, a do Bloco Capitalista-Ocidental contra o Bloco Comunista do Leste. Rivalidade que envolveu o mundo e o ameaçou durante anos com um apocalipse atômico. Naquela situação era impossível haver "uma terceira posição" que conseguisse permanecer eqüidistante deles.

Tenha-se em conta o medo que a Guerra da Coréia indiretamente provocou na população parisiense, entre 1950 e 1952. Muitos passaram a temer que com o acirramento do confronto no extremo-oriente, os soviéticos em represália à intervenção norte-americana comandada pelo general MacArthur, poderiam invadira a França. Francine, a mulher de Camus, confessou à Simone de Beauvoir que, se tal acontecesse, ela se veria obrigada a matar seus dois filhos e se suicidar, pois não poderia suportar viver "sob os vermelhos". Os alunos de Simone, por sua vez, juram fazer um "pacto de morte" pelo mesmo motivo. A geração que sobreviera a Hitler não queria entregar-se a Stalin. Este pois era o clima que cercou a polêmica.

Seja como for o desentendimento entre os dois, entre Camus e Sartre, teve uma conotação universal resumindo os conflitos da inteligência ocidental no século XX ( pelo menos desde 1917).

Afinal, ao longo do século XX, todos os seres pensantes foram chamados a se colocarem a favor ou contra o comunismo, da mesma forma que ocorrera quatro séculos antes no Ocidente por ocasião da Reforma Religiosa nos começos do século XVI. Fato que dissolveu o Partido dos Humanistas da época do renascimento, forçado a abraçar a ortodoxia católica ou a dos protestantes.

Nem o afeto e admiração recíproca que ambos sentiam um pelo outro resistiu à pressão da Guerra Fria. Camus somente tinha olhos para os crimes de Stalin e para os desatinos da esquerda, enquanto Sartre insurgiu-se contra a guerra colonialista que a França movia primeiro na Indochina (1945-54) e depois na Argélia (1956-1961) e também contra os Estados Unidos que lhe dava apoio.

O resultado disso é que Camus tendia a silenciar frente aos desmandos e atrocidades praticadas pelo colonialismo, enquanto Sartre, ao contrário, fechava os ouvidos para a denúncia dos campos forçados soviéticos, ao Processo Slansky, à "conspiração dos médicos", ao fuzilamento dos trabalhadores alemães alçados contra os soviéticos em Berlim, em 1953.

Somente afastou-se dos comunistas em 1956, com o famoso ensaio Le phantome de Stalin ("O fantasma de Stalin"), escrito em repúdio à invasão da Hungria pelo Exército Vermelho.Numa entrevista ao L’Express anunciou "Eu estou rompendo, com pesar, mas totalmente, meus laços com meus amigos escritores soviéticos que não denunciam (ou não podem denunciar) o massacre na Hungria. Nós não mais podemos qualquer amizade com a facção dominante da burocracia soviética."

Envolvidos na Guerra Ideológica do Século, Camus e Sartre terminaram mergulhando fundo nela pondo fim a uma das mais produtivas amizades intelectuais da literatura francesa do século XX.

Bibliografia

Aronson , Ronald – Camus e Sartre: o fim de uma amizade. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2007.

Beauvoir, Simone – A Força das Coisas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,1995.

Beevor, Anthony – Paris after liberation: 1944-1949. Londres: Penguin Books, 1994.

Camus, Albert – O Homem Revoltado . Lisboa:Livros do Brasil, s/d.

Cohen-Solal, Annie – Sartre: 1905-1985. Porto Alegre: LP&M, 1986.

Furet, François – O Passado de uma Ilusão. Ensaios sobre a idéia comunista no século XX.São Paulo: Editora Siciliano, 1995.

Levy, Bernard-Henri – O Século de Sartre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

Lottman, Herbert – Albert Camus. Paris: Seuil, Paris, 1978.

Lottman, Herbert – Rive Gauche.Paris: Points, 1984

Mounier, Emmanuel – Malraux, Camus, Sartre, Bernanos. Paris: Point, 1970.

Rowley, Hazel – Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

Sartre, Jean-Paul – Situações IV . Lisboa: Europa-América, 1972.

Thody, Philip – Sartre: uma introdução biográfica .Rio de Janeiro: Bloch, 1974.

Todd, Olivier – Albert Camus: una vida. Bacelona: Tusquets, 1997.

Winock, Michel – O século dos intelectuais. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000)

Voltaire Schilling (Terra)

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Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte II)

Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado “O Homem Revoltado” , uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.

A traição dos intelectuais

Irritava-o ainda o estrabismo dos intelectuais comprometidos com a esquerda que eram incapazes de formular sequer uma só crítica ao regime soviético. Podia-se ser rebelde contra tudo, menos contra Moscou! O que lembrava o sermão em forma de livro de Julien Benda, La Trahison des Clercs, "A Traição dos Clérigos", de 1927, que falava do abandono deles aos princípios da razão, seduzidos e apaixonados pelas religiões terrenas ( as ideologias), que abraçavam.

O desacerto de Camus com o socialismo milenarista, com os apocalípticos que viam sinais da crise derradeira do capitalismo a cada dobrar de esquina, vinha de mais longe, do final da guerra.

Ainda que ele fosse um dos homens-chave do célebre Combat, o jornal da Resistência, que chegara a façanha de vender 300 mil exemplares ainda 1943, numa França ocupada, rapidamente o autor da "A Peste" atinou, já em 1944, que a Resistência não iria desembocar na Revolução Socialista ambicionada por muitos militantes, particularmente pelos maquisards de esquerda. Acreditava sim numa Revolução Democrática que impusesse novos relacionamentos sociais e humanos mas nada que dirigido ou controlado pelos comunistas.

Em busca de uma Terceira Via

Porque então, ensimesmou, ao invés da pregação a favor da revolução violenta, não encontrar uma solução de compromisso entre "a liberdade e a justiça"? Uma sociedade onde houvesse liberdade para que todos tivessem as mesmas oportunidades e onde qualquer um fosse respeitado nos seus direitos mais comezinhos (de certo modo, ao pensar assim, ele antecipou-se de longe à teoria da Terceira Via de Anthony Giddens e de Tony Blair, já devidamente sepultada).

Afinal, que se encontrasse um denominador comum entre a economia coletivista e a política liberal, e que, fundamentalmente, os socialistas, este "proletariado de bacharéis", parassem de se imaginar como seres ungidos divinos da reforma social. Que calçassem as sandálias da humildade. Daí entender-se o titulo do seu provocativo artigo “A Democracia: exercício de modéstia", 1948.

Que aqueles aventureiros da dialética – muitos dos personagens dos "Mandarins" de Simone de Beauvoir -, cessassem de clamar pela revolução em abstrato, atingida pelo cálculo, feita por gente ressentida que só conduzia ao domínio "do rancor e tirania", e voltassem a ser de carne e osso como todo mundo.

E, acima de tudo, resistissem a tentação de praticar massacres e de querer hastear a bandeira da liberdade no centro dos campos corretivos e de trabalhos forçados, visto que o Estado que ambicionavam, fosse por influencia de Marx, Hegel ou Nietzsche, desandava num "Estado terrorista". Entre outros motivos porque "Os nossos criminosos…são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes." (O Homem Revoltado- Introdução).

Atrás da revolução relativa

Buscassem, pois, a revolução relativa, sem matanças, sem rios de sangue escorrendo pelas ruas, e sem as abomináveis justificações pelas mortes em massa. Sartre acreditava que era possível, purgando a água suja do stalinismo, salvar-se a criança dentro da bacia do socialismo. Camus, desencantado, enxergava sentando bem no meio dela um pequeno monstro, parido pelo terror revolucionário.

"O poder é triste no século XX" concluiu ele. Quanto Camus morreu num estúpido acidente de automóvel, em janeiro de 1960, Sartre, no necrológico, o considerou um dos grandes moralistas da tradição literária francesa, mas nunca mais tinham se aproximado.

Voltaire Schilling (Terra)

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Camus contra Sartre: o fim da revolução

Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado "O Homem Revoltado", uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.

Nos calores da Guerra Fria

Albert Camus ( 1913-1960)

"A democracia não é o melhor dos regimes. É o menos mau. Experimentamos um pouco de todos os regimes e agora podemos compreender isso. Mas esse regime só pode ser concebido, realizado e sustentado por homens que saibam que não sabem tudo, que se recusem a aceitar a condição proletária e nunca se conformem com a miséria dos outros, mas que recuse, justamente, a agravá-la em nome de uma teoria ou de um messianismo cego."
Albert Camus, novembro de 1948

Entornando um copo de vinho com Albert Camus num daqueles bons cafés de Paris, Sartre comunicou ao amigo que em breve sairia uma crítica bem pesada na sua revista Les Temps Modernes, contra o seu último livro L’Homme révolté, o Homem Revoltado. Haviam se encontrado na rua vindo para um destino comum, uma manifestação contra a ditadura franquista na Espanha. Nunca mais o fizeram.

O ensaio de Camus, aparecido em 1951, provocara um desconcerto geral em meio à esquerda francesa ao tempo em que vendeu quase 70 mil exemplares, editados pela Gallimard, ao longo de 1952. E não era para menos. Naqueles tempos quentes da Guerra Fria, com Mao Tse tung recém chegando ao poder em Pequim e os norte-americanos ameaçando explodir a Coréia, e quiçá a China Popular, com bombas atômicas, como era o desejo do general MacArthur, o famoso escritor deu-se ao desplante de repudiar a revolução, denunciado-a como a parteira dos absurdos e da arbitrariedade do Estado Policial moderno. Foi um pandemônio.

Os amigos rompem

O petardo lançado então contra ele – intitulado "Albert Camus ou a alma rebelde" (Temps Modernes, maio de 1952) -foi estrondoso. Sartre, alegando razões de amizade, passara a ingrata tarefa para um dos seus próximos, um tal de Francis Jeanson, um jovem desconhecido que destratou Camus em vinte páginas.

Ele, chocado com a agressividade do artigo, respondeu em carta à Direção. Sartre então entrou na liça, em defesa de Jeanson. "Nossa amizade" escreveu ele, "não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada…. também a amizade é totalitária: é necessário o perfeito acordo ou o corte de relações."

Nove anos de boa convivência entre os dois evaporaram-se em outras trinta páginas do Les Temps, nº 82, de agosto de 1952, que teve duas tiragens esgotadas quando público intelectual soube da “guerra literária" entre os dois maiores nomes da literatura francesa de então. Na verdade, o acusatório de Camus não era tanto contra a revolução mas sim contra sua inoperância, denunciando-lhe a inutilidade da sua razão de ser.

O sem sentido da revolução

De que servira à França, indagou, ter tido três outras revoluções desde 1789, todas elas sangrentas, se os escandinavos e os ingleses, sem muitos tumultos , conduzidos pelas políticas de socialistas moderados, tinham atingido um alto padrão de vida, bem superior ao dos franceses?

A crítica de Camus aos destemperos e exageros das revoluções não pararam por ai, visto que acreditava que os seus líderes quando no poder, mais tarde ou mais cedo, se tornavam repressores ou heréticos… policiais ou loucos! Porque, quis saber ele, Prometeu, com suas esperanças de regenerar o mundo, terminava como César, tiranizando as instituições?

O danoso daquilo tudo é que os admiradores das insurreições de massa feitas em nome da liberdade logo adotavam uma política de crimes justificados. Prendiam, interrogavam, confinavam e, em nome de um profundo amor pela humanidade, fuzilavam.

Convictos de que aqueles a quem despachavam da vida eram ervas daninhas que precisavam extirpar do jardim socialista para que, mais tarde, no futuro, no amadurecer da planta, ela vicejasse com todo o vigor. Enquanto isto, os campos de concentração e o tiro no pescoço eram os herbicidas que eles, ainda que a contragosto, se viam obrigados a espargir.

Voltaire Schilling (Terra)

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Mauritânia, entre o fundamentalismo e as drogas

A ascensão do islamismo radical e do contrabando aumenta a insegurança no país

Tomás Bárbulo

Sidi Mohamed tem um Kalashnikov exatamente igual ao que, 20 dias atrás, três islâmicos radicais utilizaram para massacrar uma família de turistas franceses. O artefato, preto fosco, tem arranhões e mossas. Sidi Mohamed o manipula com familiaridade. “Foi presente de um amigo”, diz. Naturalmente, não tem autorização para usá-lo. Também não tem munição. “Muito cara”, comenta. Na Mauritânia é possível conseguir um Kalashnikov por 350 euros. A maioria das casas tem uma arma pesada. Rifles de caça, fuzis de assalto, escopetas… quase todas sem licença. Os serviços de inteligência europeus calculam que haja no país cerca de um milhão de armas sem controle.

Contar essa história quando o governo da França acaba de suspender o rali Dacar devido ao risco de ataques da Al Qaeda pode levar a conclusões erradas sobre um país conhecido pelo caráter pacífico e hospitaleiro de seus habitantes.

As armas são para os mauritanos algo tão familiar quanto os camelos. No lombo desses animais e empunhando espingardas, assaltavam ou defendiam as caravanas que cruzavam o deserto como galeões até o início do século 20. Àquelas carabinas seguiram-se os fuzis de ferrolho com os quais os nômades enfrentaram os colonizadores franceses. As armas automáticas surgiram nos anos 1970, durante a guerra contra os saharauis da Frente Polisário. Agora chegam ao país os Kalashnikov.

O ministro do Interior, Yall Zakaria, não dá maior importância ao arsenal espalhado pelas mãos dos civis: “As armas fazem parte da tradição beduína”, ele diz. E afirma que quase todas estão registradas. Zakaria faz uma expressão de tédio quando citam a denúncia da França sobre insegurança na Mauritânia. “Veja, eu sou o ministro do Interior e acabo de chegar ao gabinete dirigindo meu próprio carro. Não uso escolta. Quando sair do ministério voltarei a me colocar ao volante e irei visitar parentes. Em troca, meus colegas do resto do mundo se deslocam em carros blindados e cercados de guarda-costas. E eles dizem que é um país pouco seguro?”

O ministro está à frente de uma ofensiva de segurança sem precedentes para neutralizar a ameaça da Al Qaeda. “É a primeira vez que todo o país se mobiliza”, declara. Essa mobilização permitiu que no último sábado fossem detidos em Guiné-Bissau dois dos três autores do assassinato dos turistas franceses. Paradoxalmente, o sucesso da investigação está sendo interpretado na Europa como uma mostra de força dos terroristas no país.

Zakaria se gaba de que somente duas horas depois do atentado a polícia mauritana já tinha identificado seus autores -”delinqüentes”, segundo ele- e detido o motorista do carro em que fugiram, sua mulher e o dono do barco em que cruzaram o rio Senegal. Mas os serviços de inteligência europeus opinam que o fato de terem conseguido escapar com tanta rapidez, apesar de identificados, demonstra que contavam com uma rede de apoio que não foi descoberta.

O diplomata ocidental explica assim o ocorrido: “Até um ano e meio atrás a Mauritânia era o quartel de inverno dos islâmicos. Se refugiavam no país. Não incomodavam e não eram incomodados. Os integrantes mauritanos das células desarticuladas no Magreb eram poucos e ocupavam cargos de pouca relevância”. Mas a situação mudou. Os serviços de informação advertem que a presença e a importância dos mauritanos nessas redes aumentou.

As doutrinas fundamentalistas se arraigaram nos pequenos povoados. Em alguns deles foram se instalando estrangeiros (na maioria procedentes da Arábia Saudita e do Iêmen) que construíram mesquitas. De seus púlpitos difundem a versão wahabi do islã, muito menos tolerante que a corrente malaqui tradicional na Mauritânia. Esses imãs não se limitam a pregar: constroem casas e distribuem favores e dinheiro entre seus seguidores. Ninguém sabe de onde vêm suas fortunas. O ministro do Interior diz que iniciou uma investigação sobre “essas ONGs”. “As pessoas cujo trabalho não for transparente deverão sair do país”, acrescenta. Mas continua: “Em relação à Arábia Saudita, a procedência de seu dinheiro é muito clara e seu trabalho também”. Os sauditas são um suporte imprescindível para a economia mauritana e o governo não está disposto a se inimizar com eles de maneira alguma.

As pregações dos novos imãs não são o único fator desestabilizador que surgiu. Os números de distribuição da empresa Philip Morris permitem deduzir as possibilidades do país como base de contrabando. Há dois anos os contrabandistas de tabaco se encarregaram do negócio da emigração ilegal, e mais recentemente do tráfico de drogas. Em 2007 a polícia apreendeu 1.390 quilos de cocaína que seriam transferidos em barcos pesqueiros para as ilhas Canárias. Trata-se de uma quantidade ínfima, comparada com as apreensões feitas na Espanha.

Mas o que preocupa as polícias européias não é tanto a quantidade de droga, como sua capacidade para corromper um país tão pobre quanto a Mauritânia. De fato, entre os supostos traficantes detidos estão o filho de um ex-presidente do país, Haidala, e um sobrinho de outro ex-presidente, Taya. Este último também era policial e representante da Interpol.

Até há pouco tempo a cocaína chegava da Venezuela ou da Colômbia em barcos que atracavam no golfo da Guiné. Dali era transferida para a Mauritânia em outros barcos ou por estrada, e mais tarde levada em pesqueiros para Las Palmas (Canárias).

Mas o caso de Sidi Haidala mostra até que ponto os narcotraficantes sul-americanos decidiram abreviar essa rota. No início de maio passado o filho do ex-presidente se apresentou no aeroporto de Nuadibu, a segunda cidade do país, para esperar um pequeno avião. Conversava com policiais quando o aparelho aterrissou. Em vez de descarregar com normalidade, como estava combinado, o piloto ficou nervoso, atirou na pista várias caixas com 600 quilos de cocaína e tentou fugir. Sidi Haidala subiu em seu Porsche e saiu em disparada até a fronteira próxima do Saara ocidental.

O avião foi confiscado. Os policiais comprovaram que a cabine tinha sido modificada para conter um depósito de combustível. Mais tarde averiguaram que o aparelho tinha voado diretamente da Venezuela até a Mauritânia.

Como insiste seu presidente, a Mauritânia é um país pacífico e tolerante. Milhares de pessoas foram às ruas depois da oração da última sexta-feira para condenar o atentado à família de turistas franceses. Mas sob essa atitude da imensa maioria escondem-se perigos ocultos.

El País
http://www.elpais.com/

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Tropa de Elite: matando pelo bem do Brasil

Mário Maestri

Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso, antes mesmo do seu lançamento, obtido através da venda de cópias pirata de dvds. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.

Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte, pelo trabalho [fotografia] e pelo abandono do seu mundo, do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.

Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move permanentemente. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis, profundamente humanizados, são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta, sumário e simplista: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade […].”

“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. O “Brasil está em guerra”, grita-se de todos os lados, exigindo-se tratamento implacável para o inimigo próprio aos conflitos nacionais. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa e potencializa, no sentimento de insegurança pessoal, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações crescentes da vida quotidiana.

Nos seus limites, o filme possui soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo e muito humano Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e de sessões de tortura e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, às custas de sua permanente descida ao inferno.

O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e soluções da marginalização social, citam Foucault, mas são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. São os verdadeiros responsáveis pelos crimes do traficante, ao pagar pela droga maldita. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam dilacerados a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.

José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. Em “Pixote”, Hector Babenco humanizou o delinqüente, como ser social fraco, eternamente perdedor. Em “Carandiru”, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho deste ano, levando a platéia ao orgasmo coletivo com a tortura do prisioneiro rendido, que expia na dor de seu corpo, o pecado social praticado, como o negro cativo, que pagava na senzala, com bolos nas mãos, pés e nádegas, a vagabundagem, desrespeito, furto e trabalho malfeito, sob o olhar aprovador da casa-grande, angustiada com o desbunde da ordem constituída.

Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.

Nos anos de chumbo, Fleury e sua escuderia maldita matavam e torturavam nas sombras, para manter através do medo e do terror a disciplina social. Hoje, Nascimento e seus boys fazem igual, tintim por tintim, no cinema e na vida real, sob os aplausos da mídia e de enormes setores da população. Embarcando no bonde do consenso fácil, intelectuais de todos os sabores clamam por medidas excepcionais, repetindo como o sicário da ditadura, debruçado sobre a vítima inerme: – “Guerra é guerra, meu filho”!

Em fins dos anos 1980, o sucesso da sub-literatura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. O sucesso multitudinário de Tropa de elite é sobretudo depoimento inarredável da barbarização social do Brasil de nossos dias, onde a tortura e a execução sumária, contra setores pobres da população, tornam-se medidas de profilaxia social geralmente aceitas.

No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha. Ao povão imenso sem rosto visível, a bolsa-família, o trabalho precário, o salário miserável, o arranjar-se como for possível nas filas do INPS, do SUS, dos que procuram trabalho com carteira assinada, na luta cada vez mais dura e crua pela existência de cada dia.

O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. Tudo enquanto empresários, políticos e administradores farreiam-se seguros da impunidade total, com o recurso, a renda, o trabalho nacional. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança e fragilidade nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!” E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo.

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Relatório sobre Irã mina estratégia americana de exagerar ameaças

Informação de que Teerã suspendeu programa de armas nucleares em 2003 abalou credibilidade da Casa Branca

Patrícia Campos Mello

Foram anos exagerando o perigo nuclear e a proliferação das armas de destruição em massa em várias nações. Agora, a estratégia de ‘turbinar ameaças’ do presidente americano, George W. Bush, voltou-se contra o feiticeiro.

A divulgação do relatório da Estimativa Nacional de Inteligência na semana passada, no qual as agências governamentais do setor revelam que o Irã suspendeu seu programa de armas nucleares em 2003, foi um duro golpe na credibilidade da Casa Branca e na sua capacidade de angariar apoio internacional para impor sanções contra os iranianos. Até pouco tempo atrás, Bush continuava alertando para o ‘perigo de uma 3ª Guerra Mundial’ com a possibilidade iminente de o Irã construir uma bomba nuclear.

O relatório de inteligência derrubou a tese do perigo iminente. ‘Não foi como em 2002, quando a comunidade de inteligência simplesmente endossou todos os exageros da Casa Branca (sobre as armas de destruição em massa do Iraque) - não se trata mais de George Tenet (ex-diretor da CIA)’, diz Ray Takeyh, pesquisador do Council of Foreign Relations .

‘A falha do governo Bush foi ter errado a medida de sua política externa, ao exagerar a capacidade nuclear e a ameaça iraniana’, diz o iraniano Vali Nasr, professor da Universidade Tufts e pesquisador do Council of Foreign Relations. Nasr e Takeyh são autores do artigo principal da revista Foreign Affairs de janeiro-fevereiro, ‘Os Custos da Contenção do Irã - a Equivocada Nova Política de Washington para o Oriente Médio’.

O problema é que o governo americano perdeu um pouco mais de sua credibilidade. E praticamente deu passe livre para o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, seguir com sua estratégia nuclear. ‘Agora o Irã tem um programa nuclear com crescente capacidade de enriquecer urânio que é essencialmente imune a um ataque militar dos EUA’, diz Takeyh.

Sem o argumento de perigo iminente de armas nucleares, os EUA não podem justificar para a comunidade internacional um ataque preventivo contra o Irã. E dificilmente fariam um ataque unilateral ao país agora, após se envolverem em guerras em duas nações islâmicas - o Iraque e o Afeganistão.

FÁBULA DE ESOPO

É mais ou menos como aquela fábula do Esopo, do menino que gritava ‘lobo’. Era um pastor que saía com suas ovelhas e sempre pedia socorro, mentindo que o lobo estava atacando. Os camponeses do vilarejo ficavam alarmados e corriam para ajudá-lo, chegavam lá e descobriam que era mentira. Certa ocasião, o lobo veio de verdade. O menino gritou, gritou, mas ninguém acreditou. Como dizem os americanos, ‘never cry wolf’ (dar um alarme desnecessário, segundo o Dicionário Merriam Webster).

Com a divulgação do relatório, Ahmadinejad foi encorajado a seguir em frente com seu programa nuclear e, quem sabe, chegar à bomba. E quando os EUA soarem o alarme, vai ser difícil convencer a comunidade internacional.

Segundo Gary Sick, professor da Universidade Columbia que serviu no Conselho de Segurança Nacional nos governos de Gerald Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan, não importa o fato de o Irã ter ou não suspendido seu programa nuclear em 2003 (muitos céticos contestam a informação do relatório).

‘De qualquer maneira, os iranianos têm infra-estrutura e capacidade nuclear suficientes para decidir se querem ter a bomba e, em 18 meses, efetivamente fabricar a bomba atômica’, diz Sick, para quem o Irã já poderia ter a bomba, se quisesse. ‘Na realidade, os programas nucleares secretos como os de Israel, Paquistão e Índia mostram que, do momento em que o país decide que quer ter a bomba até realmente produzi-la, passam-se cinco ou seis anos’, explica.

Segundo ele, o Irã tomou essa decisão em 1985. ‘Estúpidos eles não são, então existe algum motivo para, 20 anos depois, ainda não terem a bomba atômica. Eles estão deliberadamente conduzindo o programa de forma lenta’, diz Sick.

Se forem realmente espertos, nem irão até as últimas conseqüências, diz o acadêmico. Para Sick, ‘ter o potencial de fabricar a bomba é tão útil quando efetivamente ter a bomba, em termos de poder de barganha internacional. Aliás, não ter a bomba é até melhor, porque não deixa o Irã como alvo claro de ataque’.

Sick espera que o Irã opte pela estratégia mais ‘esperta’. Já que, dessa vez, não vai adiantar muito os EUA gritarem ‘lobo’.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Projeto de sufocação

É exatamente isso que também faz do grande escritor um grande leitor. Acredito ser o espírito da profissão: a busca pelo conhecimento infindável da língua, para que a pessoa possa se expressar de todas as formas possíveis e atingir as improváveis.

Renata Miloni

Todo escritor tem, obviamente, a leitura como origem de seu amor pela literatura. É nela que as descobertas estão guardadas e é escrevendo que um autor tenta explicá-las e entendê-las, fundidas ao pensamento em seu formato mais incipiente. Analisando o início da formação de alguns autores na leitura, entendi que o que lhes foi apresentado quando crianças definiu os escritores-leitores que seriam. Faço a união porque um escritor é leitor principalmente quando escreve.

As amenidades da infância podem facilmente levar alguém a gostar de ler. Com o carioca Marco Lucchesi não foi diferente. Ele começou a se interessar por literatura provavelmente por influência das leituras de sua família. Quando criança, seus parentes recitavam trechos de A Divina Comédia diariamente. A primeira língua com a qual ele teve contato foi o italiano, dentro de casa. Aprendeu o português brincando com as outras crianças, o que é incrível: uma criança já saber que o mundo é bem maior do que a invisível limitação de sua cultura, adquirida tão minimamente com a pouca idade. Essa precoce lucidez sobre o mundo dava indícios das poucas fronteiras que Lucchesi aceitaria: alguém capaz de traduzir livros em italiano, alemão, russo, francês, espanhol, inglês, grego e latim desconhece tais limites desde muito jovem. E esse domínio que ele possui me remete a uma necessidade quase desesperadora de ler tudo, da qual só posso concluir que o leitor maior é aquele que estuda uma nova língua para ler livros estrangeiros em seus textos originais. Aquele que nunca está satisfeito com traduções e vê que a literatura é maior do que isso. E é em alguém assim que está também, acima de tudo, o escritor honesto.

A máquina de escrever
Adriana Lunardi não é uma leitora distante das outras escritoras, mas certamente é uma escritora bastante íntima da preocupação em escrever apenas, sem considerar o fato de ser mulher e, por isso, agir de certas maneiras impostas até pela sociedade literária — se assim posso dizer —, não se limitando ao feminino na literatura (se é que realmente existe). Os livros decisivos para ela em sua inicial carreira de leitora, aos 15 anos, foram: A espiã, de Louise Fitzhugh; Robinson Crusoé, de Daniel Defoe; e O alienista, de Machado de Assis. Mas, se tivesse de definir hoje o que de melhor há para ela na literatura, escolheria a obra completa de Virginia Woolf — o que pode reforçar a idéia da “literatura feminina”. Ao contar uma história que define a imagem que tinha de escritor quando pequena, Lunardi conclui, com humor, que seu amor pela literatura talvez seja um amor equivocado. Quando criança, via seu pai sentado numa poltrona em frente à sua estante de livros de, segundo a autora, “literatura adulta”. Ele colocava uma tábua nas pernas e sobre ela uma máquina de escrever. Assim, enquanto ele escrevia, a pequena menina construiu a imagem do escritor, pois tinha certeza de que seu pai fosse um. O equívoco se resume ao fato de ela não saber, durante anos, que ele era contador.

Qual é a imagem que as pessoas têm do escritor? A de Lunardi era a de que um escritor inevitavelmente escreve à máquina e muitas crianças ainda acham que todos os escritores estão mortos. Mas toda idéia tem uma origem. Assim como me interesso em saber o que levou certos escritores à leitura, também me agrada muito pensar nos motivos de considerarem uma pessoa que anda sem destino pelas ruas um escritor. Ou então alguém que fica em casa durante dias, atravessando madrugadas inteiras em função do pensamento, do cigarro e do café.

Literatura e destino
E o que se pode dizer dos cineastas que têm o cinema movido pela literatura? A escrita é fundamental para que o cinema aconteça, mas falo daqueles que se inspiram em livros, que adaptam romances ou contos e fazem deles obras completamente diferentes, nos mostrando suas visões de mundo. Dois excelentes exemplos brasileiros são Beto Brant e Fernando Meirelles. A literatura, especialmente para Brant, é o ponto de partida. Como diz Marçal Aquino sobre o amigo: “ele é um cineasta literário por excelência”. Há também os escritores cinematográficos. E não me refiro àqueles que escrevem imaginando que seus livros serão adaptados ao cinema. Falo dos escritores que conseguem alcançar num livro a mesma magia da sétima arte. Não que a da literatura seja menor ou igual, é a diferença entre ambas que engrandece. E tal união me fascina.

Marco Lucchesi disse o seguinte sobre certa tortura que tinha ao ler quando pequeno: “cada palavra que eu não soubesse, que não entendesse, era um projeto de sufocação”. O cinema, para os diretores mencionados, é uma outra forma de ler. A literatura, para eles, não deixa de ser um incrível projeto de sufocação para que seus filmes sejam realizados.

É exatamente isso que também faz do grande escritor um grande leitor. Acredito ser o espírito da profissão: a busca pelo conhecimento infindável da língua, para que a pessoa possa se expressar de todas as formas possíveis e atingir as improváveis. E o que pode ter “feito a diferença” no caso dos dois escritores citados é o fato de nenhum deles ter sido forçado por algo ou alguém a começar uma vida na leitura — aconteceu naturalmente. Como diz Lucchesi: “literatura é realmente um destino”. Com tudo isso, quem sabe eu consiga reforçar minha singela teoria de que ler, para qualquer um que realmente ame a literatura, também pode ser um inevitável projeto de sufocação.

Jornal Le Monde
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