Retrato da (in)justiça social
Caco Barcellos amplia seus horizontes na televisão, nos livros e agora também nos palcos
Marcos Fonseca
Caco Barcellos é um dos poucos jornalistas brasileiros que fazem carreira como repórter, quando a regra na profissão é subir nos cargos internos das redações e se afastar da rua. Ele valoriza o papel das chefias, mas acha que falta reportagem no jornalismo atual. Como se tentasse compensar essa carência, trabalha até 18 horas por dia, dividindo-se entre os compromissos na TV Globo, os livros de não-ficção - prepara outro provável best-seller, na esteira dos sucessos de Rota 66 e Abusado - e, agora, o teatro. Ainda este ano, deve estrear sua peça Osama, o homem-bomba do Rio, escrita para o projeto Conexões, do National Theatre de Londres, que atua em doze países.
Cláudio Barcelos de Barcelos nasceu na periferia de Porto Alegre e, entre outras profissões, foi taxista, antes de ser empregado no jornal Folha da Manhã de sua cidade. Em seguida, ajudou a fundar a Cooperativa dos Jornalistas local, integrou a equipe que criou a revista Versus e se destacou na imprensa combativa dos anos 1970, época em que colaborou em diversas publicações alternativas. Mudou-se para São Paulo e passou pelas revistas semanais IstoÉ e Veja, antes de se tornar nacionalmente conhecido como repórter da TV Globo. Depois de 20 anos produzindo matérias de grande repercussão para o Jornal nacional e para o Globo repórter - período que inclui os tempos de correspondente da emissora em Nova York, Londres e Paris e a apresentação de programa semanal na Globo News -, criou em 2006 o quadro Profissão Repórter, exibido aos domingos no Fantástico.
Trata-se de um projeto pessoal, no qual acompanha, durante a semana, uma equipe de jovens jornalistas que têm a missão de abordar um mesmo assunto de diferentes maneiras. Para isso, eles se envolvem com todas as funções do jornalismo da televisão, desde o levantamento da pauta, a apuração das informações, a produção da reportagem, o trabalho de campo, a captação de imagens, a realização das entrevistas, a elaboração dos textos e a edição final. Caco vai junto. É o orientador e o chefe, mas sem grandes preocupações hierárquicas, ou seja, do único jeito que se poderia imaginá-lo ocupando um cargo desses.
Um dos mais respeitados profissionais de imprensa do País nem tem sala própria na sede paulistana da Globo. Sua mesa se confunde com a dos outros integrantes do Profissão Repórter, num espaço de cerca de três metros de largura por oito de comprimento. Ali, cercado de estudantes de jornalismo, cumpre expediente o profissional de TV, cuja rotina inclui os exaustivos pescoções de fechamento do quadro dominical, muitas vezes varando a madrugada. O resultado, como mede o Ibope do Fantástico, é um sucesso de público, além do crescente prestígio do jornalista entre universitários de comunicação.
O escritor trabalha nos horários livres, nas folgas e nas férias. Começou com Nicarágua: a revolução das crianças, sobre o movimento sandinista, nos anos 1980, e continuou com Rota 66, a história da polícia que mata, resultado de oito anos de pesquisa que levaram à identificação de 4.200 vítimas jovens e pobres abatidas pela Polícia Militar de São Paulo. O livro foi oito vezes premiado por instituições de defesa dos direitos humanos e recebeu o Prêmio Jabuti de melhor obra de não-ficção. Sua obra mais recente - Abusado, o dono do morro Dona Marta, outra exaustiva reportagem sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro - ganhou o Jabuti em 2004.
Conquistou leitores, mas arrumou também muita encrenca e vários inimigos, principalmente entre policiais que não gostaram de como foram mostrados. Desde a noite de autógrafos de Rota 66 em São Paulo, à qual compareceram ruidosamente alguns de seus principais personagens, Caco se acostumou às ameaças de morte. Deve ter medo, mas provavelmente descobriu a melhor forma de enfrentá-las: o jeito calmo e sereno com que conversa com as pessoas, sejam elas os seus jovens colegas do Profissão Repórter, sejam as fontes de suas importantes reportagens, sejam os entrevistadores da Cult.
CULT - Fale de sua futura peça de teatro.
Caco Barcellos - Foi um convite do National Theatre, de Londres, que tem um projeto que se chama Conexões. Ele atua em doze países e é bastante presente nos lugares em conflito, como os países muçulmanos. Eles escolhem dois escritores por país e encomendam peças de teatro com a mesma temática básica: a realidade da juventude em cada país. No Brasil, o tema é juventude e violência. Penso que me escolheram, junto com o Marcelo Rubens Paiva, por conta dessa temática. A partir daí, eles traduzem o texto e fazem o intercâmbio entre as peças.
CULT - Em que pé está o texto?
C. B. - Eu escrevi a minha primeira versão, passou pelo processo de leitura dos atores e agora está nas mãos dos diretores. Como não tenho experiência nessa área, eles sugeriram que eu cortasse um pouco. Tem mais de duas horas e eles querem algo em torno de uma hora e meia. Mas gostaram. Fiquei muito feliz.
CULT - Qual é a previsão de estréia?
C. B. - Eu acho que este ano, ainda. Já fizeram a leitura, teve um workshop com os atores e diretores londrinos e agora escolheram duas escolas de São Paulo para fazer a montagem. A idéia é o elenco de cada país montar a peça na versão nacional. Mas, de repente, o meu texto pode ser montado pelos afegãos, por exemplo. Não sei exatamente quais são os doze países: acho que Canadá é um, Reino Unido, Índia…
CULT - E o Brasil…
C. B. - Sim, eu e o Marcelo somos os primeiros do Brasil.
CULT - Ao todo, são quantos personagens?
C. B. - Seis principais e três secundários, mas muita gente no palco. O ambiente é um barraco de favela. Jovens de favela e de classe média, uma gangue “pitbull” de classe média. O outro cenário se passa na academia onde os dois segmentos sociais se cruzam. Tem um conflito aí que a gente está vivendo, só que na peça é mais acentuado.
CULT - Qual é o enredo do espetáculo?
C. B. - A peça se chama Osama, o homem-bomba do Rio e trata de uma história centrada em dois jovens adolescentes cariocas, um da favela e outro de classe média, que se unem através das drogas e do desejo de libertarem suas mães. O garoto da favela é o Osama, filho da empregada doméstica do garoto de classe média, Diboa. Ele começa um movimento de questionamento do fato de os jovens da classe média terem duas mães, a verdadeira e a empregada doméstica, e os da favela não terem nenhuma. Por sua vez, Diboa se revolta com seu pai, um alto executivo de transnacional que defende o desemprego como um modo de aumentar os lucros de sua empresa e é muito conservador no que se refere à violência. Neto de político, ele acha que a polícia deveria matar muito mais que as por volta de mil pessoas que executa anualmente. Ele também é alcoólatra, fica mais doido com uísque que seu filho com maconha, e, completamente alterado, bate bastante na mãe de Diboa, que se revolta com isso. Ou seja, o background do espetáculo é a guerra entre classes no Rio de Janeiro.
CULT - Qual foi a maior dificuldade que você sentiu ao fazer um trabalho que foge do jornalismo?
C. B. - Na verdade, para mim, virou uma camisa de força. Eu não me libertei da minha experiência de não-ficção. Então, ficava estranhando quando inventava histórias. Acabei usando muitas histórias do cotidiano do trabalho na periferia e nas favelas. É ficção porque as histórias não obedecem ao rigor da não-ficção, mas as tensões são verdadeiras.
CULT - É o contrário do jornalismo em que se usa a ficção para fazer a reportagem?
C. B. - Quando eu escrevo um livro, uso a técnica da ficção para fazer a não-ficção. Na peça, eu tentei criar, mas me sentia preso. Fui recorrendo a histórias antigas.
CULT - Você também escreve letras de música e roteiros para cinema?
C. B. - Não. Eu gosto de rap, pois eles são os verdadeiros repórteres da periferia. Eles contam as histórias e isso me fascina. Aliás, o Rota 66 inspirou vários CDs de grupos de rap. Tem um inclusive que se chama Rota 66. Tem outros que, no meio das letras das músicas, citam: “Isso vai virar história do livro do Caco Barcellos”. Na peça, eu escrevi um funk sinistro, mas é uma coisinha curta.
CULT - E livro, você está escrevendo algum? Qual é a sua editora?
C. B. - Estou na fase de apuração das informações para um novo livro, mas, como se trata de investigação, não falo a respeito antes de estar pronto, pois pode prejudicar seu andamento. Também não aceito assinar com a editora antes de estar com a versão final. Eles querem fazer contrato assinado, mas eu não aceito. Sou muito rigoroso comigo mesmo. Se falar o que estou fazendo, já fico (pensando) “tem que acabar rápido”. Não posso realmente ter esse compromisso, porque é uma loucura. Eu trabalho demais na televisão. O Abusado foi um livro cansativo. Talvez um título mais coerente que Abusado seria Cansado. Eu o escrevi na exaustão. Escrevi três vezes. Sentia-me cansado, caía de sono quando estava escrevendo. A apuração também foi um sacrifício. Morria alguém no morro, ligavam-me. Eu ia para lá e ficava no velório - que é muito importante, já que tem muita história - até três, quatro horas da madrugada e dormia um pouquinho. Nove horas da manhã, já corria para o Jornal nacional. Fim de semana e o período de férias; duas licenças não-remuneradas. Escrevia nas madrugadas e ficava um capítulo para o dia seguinte.
CULT - Teve uma equipe que te ajudou na confecção do livro?
C. B. - Eu contratava uns freelas. Mas eu mesmo fiz a apuração quando estava em Londres. De lá, eu fui à falência com a conta do telefone celular, ligando para outros lugares. Fiz muita apuração. Achava, quando fui para Londres, que já tinha terminado a apuração no Brasil, mas as coisas mudam a cada 15 minutos. Eu perseguia o universo das drogas. Até ofereci para a televisão, mas eles não quiseram. Eles não querem dar espaço para criminoso falar e eu não podia abrir mão do meu trabalho na TV, porque o mercado editorial não é ainda profissional, as editoras não remuneram bem. Complicado isso. Acho que tem dois ou três autores que vivem de livros no Brasil. Talvez o Fernando Morais, mas ele já tem vários livros. Luis Fernando Veríssimo, Ruy Castro…
CULT - Se pudesse, largaria a imprensa e viveria como escritor?
C. B. - Se o mercado editorial fosse profissional, viveria.
Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp
O filme “O Caçador de Pipas”, dirigido por Marc Foster, tem o mérito de apresentar um painel sobre a cultura, as tradições e a vida no Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. É uma obra de ficção mesclada com uma tentativa de painel histórico sobre um período da história do país que compreende a queda da monarquia nos anos 70, a invasão dos soviéticos e a ascensão dos talibãs ao poder. É aí, em seu pano de fundo histórico, que os méritos definham e os problemas florescem. O filme é uma adaptação do best-seller do médico Khaled Hosseini, nascido em 1965 em Cabul e que vive nos Estados Unidos desde 1980. O livro foi escrito inteiramente na Califórnia. Hosseini só voltou ao Afeganistão depois do livro ter sido lançado, 27 anos após ter deixado o país. Essa distância espacial e temporal ajuda a entender as omissões históricas e a visão generosa do autor com o papel dos EUA na destruição de sua terra natal. 
