Relatório sobre Irã mina estratégia americana de exagerar ameaças
Informação de que Teerã suspendeu programa de armas nucleares em 2003 abalou credibilidade da Casa Branca
Patrícia Campos Mello
Foram anos exagerando o perigo nuclear e a proliferação das armas de destruição em massa em várias nações. Agora, a estratégia de ‘turbinar ameaças’ do presidente americano, George W. Bush, voltou-se contra o feiticeiro.
A divulgação do relatório da Estimativa Nacional de Inteligência na semana passada, no qual as agências governamentais do setor revelam que o Irã suspendeu seu programa de armas nucleares em 2003, foi um duro golpe na credibilidade da Casa Branca e na sua capacidade de angariar apoio internacional para impor sanções contra os iranianos. Até pouco tempo atrás, Bush continuava alertando para o ‘perigo de uma 3ª Guerra Mundial’ com a possibilidade iminente de o Irã construir uma bomba nuclear.
O relatório de inteligência derrubou a tese do perigo iminente. ‘Não foi como em 2002, quando a comunidade de inteligência simplesmente endossou todos os exageros da Casa Branca (sobre as armas de destruição em massa do Iraque) - não se trata mais de George Tenet (ex-diretor da CIA)’, diz Ray Takeyh, pesquisador do Council of Foreign Relations .
‘A falha do governo Bush foi ter errado a medida de sua política externa, ao exagerar a capacidade nuclear e a ameaça iraniana’, diz o iraniano Vali Nasr, professor da Universidade Tufts e pesquisador do Council of Foreign Relations. Nasr e Takeyh são autores do artigo principal da revista Foreign Affairs de janeiro-fevereiro, ‘Os Custos da Contenção do Irã - a Equivocada Nova Política de Washington para o Oriente Médio’.
O problema é que o governo americano perdeu um pouco mais de sua credibilidade. E praticamente deu passe livre para o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, seguir com sua estratégia nuclear. ‘Agora o Irã tem um programa nuclear com crescente capacidade de enriquecer urânio que é essencialmente imune a um ataque militar dos EUA’, diz Takeyh.
Sem o argumento de perigo iminente de armas nucleares, os EUA não podem justificar para a comunidade internacional um ataque preventivo contra o Irã. E dificilmente fariam um ataque unilateral ao país agora, após se envolverem em guerras em duas nações islâmicas - o Iraque e o Afeganistão.
FÁBULA DE ESOPO
É mais ou menos como aquela fábula do Esopo, do menino que gritava ‘lobo’. Era um pastor que saía com suas ovelhas e sempre pedia socorro, mentindo que o lobo estava atacando. Os camponeses do vilarejo ficavam alarmados e corriam para ajudá-lo, chegavam lá e descobriam que era mentira. Certa ocasião, o lobo veio de verdade. O menino gritou, gritou, mas ninguém acreditou. Como dizem os americanos, ‘never cry wolf’ (dar um alarme desnecessário, segundo o Dicionário Merriam Webster).
Com a divulgação do relatório, Ahmadinejad foi encorajado a seguir em frente com seu programa nuclear e, quem sabe, chegar à bomba. E quando os EUA soarem o alarme, vai ser difícil convencer a comunidade internacional.
Segundo Gary Sick, professor da Universidade Columbia que serviu no Conselho de Segurança Nacional nos governos de Gerald Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan, não importa o fato de o Irã ter ou não suspendido seu programa nuclear em 2003 (muitos céticos contestam a informação do relatório).
‘De qualquer maneira, os iranianos têm infra-estrutura e capacidade nuclear suficientes para decidir se querem ter a bomba e, em 18 meses, efetivamente fabricar a bomba atômica’, diz Sick, para quem o Irã já poderia ter a bomba, se quisesse. ‘Na realidade, os programas nucleares secretos como os de Israel, Paquistão e Índia mostram que, do momento em que o país decide que quer ter a bomba até realmente produzi-la, passam-se cinco ou seis anos’, explica.
Segundo ele, o Irã tomou essa decisão em 1985. ‘Estúpidos eles não são, então existe algum motivo para, 20 anos depois, ainda não terem a bomba atômica. Eles estão deliberadamente conduzindo o programa de forma lenta’, diz Sick.
Se forem realmente espertos, nem irão até as últimas conseqüências, diz o acadêmico. Para Sick, ‘ter o potencial de fabricar a bomba é tão útil quando efetivamente ter a bomba, em termos de poder de barganha internacional. Aliás, não ter a bomba é até melhor, porque não deixa o Irã como alvo claro de ataque’.
Sick espera que o Irã opte pela estratégia mais ‘esperta’. Já que, dessa vez, não vai adiantar muito os EUA gritarem ‘lobo’.
Jornal Estado de S. Paulo
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