Arquivo de 4 de Fevereiro de 2008

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Uma geografia da diferença

Roberto Machado

Na base do pensamento de Gilles Deleuze está a idéia de que a Filosofia é produção ou, mais propriamente, criação de pensamento, tal como são as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas se o pensamento não é privilégio da Filosofia, isto é, se filósofos, cientistas e artistas são, antes de tudo, pensadores, isso não quer dizer que Deleuze assimile os diferentes domínios de pensamento. A distinção das formas de criação que caracterizam os vários saberes foi formulada de modo sistemático em O que é a filosofia?, quando ele assinalou o fundamental da diferença constitutiva do saber filosófico: enquanto a ciência cria funções e a arte cria agregados sensíveis, a Filosofia cria conceitos.

Partindo da posição de que, para Deleuze, fazer filosofia é criar conceitos, podemos perguntar: como são criados os conceitos de sua filosofia? Procurando responder a essa questão cheguei à seguinte conclusão: sua filosofia é um sistema de relações entre conceitos oriundos da própria Filosofia, isto é, de filósofos por ele privilegiados em suas leituras, e conceitos suscitados pela relação entre conceitos filosóficos e elementos não-conceituais - funções e sensações - provenientes de domínios exteriores à Filosofia.

A característica mais elementar da relação entre a filosofia de Deleuze e os pensamentos filosóficos, científicos e artísticos é o fato de ela se propor mais como uma geografia do que como uma história, isto é, o fato de ela considerar o pensamento não por intermédio de uma dimensão histórica linear e progressiva, mas privilegiando a constituição de espaços, de tipos não apenas heterogêneos, mas sobretudo antagônicos.

Assim, a relação entre criação de conceitos e tradição filosófica, como a realiza Deleuze, consiste em erigir o modelo, ou mais propriamente, o processo de pensamento de determinados filósofos como condição de seu modo singular de filosofar. Isto significa construir um “espaço ideal” em que seja possível criar, a partir de filósofos passíveis de entrar em relação, em comunicação, em ressonância em um mesmo espaço, conceitos que expressem ou tornem possível um novo pensamento. Assim, ao privilegiar determinados filósofos para constituir sua própria filosofia, o objetivo de Deleuze é sempre contrapor um espaço do pensamento sem imagem, “intempestivo”, que é pluralista, heterodoxo, ontológico, ético, trágico, ao espaço da imagem do pensamento que é dogmático, ortodoxo, metafísico, moral, racional… O espaço do pensamento sem imagem é o espaço da diferença; o da imagem do pensamento é o da representação.

Neste sentido, Deleuze é um curioso historiador da Filosofia que ousou pensar filosoficamente em seu próprio nome ou que encontrou no próprio discurso filosófico conceitos como síntese disjuntiva, diferenciador da diferença, gênese, intensidade… A partir dos quais foi possível estruturar sua filosofia como um pensamento diferencial.

A importância dessa temática explica porque, por um lado, alguns filósofos estão em geral excluídos do espaço em que ele situa seu pensamento. Este é o caso, sobretudo, de Platão, Aristóteles, Descartes, Hegel, os grandes representantes da imagem da Filosofia como filosofia da representação, isto é, como aquela que reduz a diferença à identidade. Isso se nota, por exemplo, quando Deleuze analisa a origem da representação em Platão, defendendo que a dualidade entre mundo sensível e mundo inteligível existe em função da distinção entre a boa cópia, a cópia bem- fundada, o “ícone”, que é uma imagem dotada de semelhança, e a má cópia, a cópia que implica uma perversão, o “simulacro-fantasma”, que é uma imagem sem semelhança. Se Platão é um filósofo da representação é porque sua postura metafísica privilegia a cópia-ícone como imagem fundada pela semelhança interna com a identidade superior da idéia.

Por outro lado, a temática expressa por conceitos como síntese disjuntiva, diferenciador da diferença, gênese, intensidade… Explica a aliança de Deleuze com filósofos que, em maior ou menor grau, estabelecem a relação entre termos, ou entre séries, como a de uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Daí, para dar o exemplo de um de seus primeiros livros, o privilégio que ele concede a Bergson e ao método que decompõe um misto impuro, empírico, espaciotemporal, em dois tipos de multiplicidade qualitativamente diferentes - a duração e o espaço considerados como o virtual e o atual -, mas também os relaciona geneticamente, mostrando que esse dualismo é proveniente da diferenciação ou da atualização dessa virtualidade, segundo linhas divergentes que diferem por natureza. Daí também, para dar o exemplo de um de seus últimos livros, porque, partindo da definição do barroco como dobra infinita, incomensurável, Deleuze valoriza dois princípios básicos da filosofia de Leibniz: a distinção de níveis ou séries, as mônadas consideradas como dobras da alma e os corpos considerados como dobras materiais extrínsecas; mas também a existência de uma relação interna complexa (as dobras do mundo), elemento genético diferenciador da diferença, que articula os dois níveis da alma e do corpo.

Poderia dar ainda os exemplos de Hume, Nietzsche, Espinosa, Foucault etc. Prefiro, no entanto, salientar que, para compreender o pensamento de Deleuze em toda sua amplitude e relevância não se pode ignorar seus importantes estudos sobre domínios exteriores à Filosofia: sobretudo as artes e a literatura. Na verdade, a relação entre saberes sempre foi muito intensa no procedimento filosófico de Deleuze e não é, de modo algum, lateral ou circunstancial, pois o objetivo principal de sua filosofia é definir o que seja pensar, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia.

Assim, vendo na Filosofia o domínio do conceito, Deleuze irá elaborar sua filosofia não só incorporando conceitos provenientes de outras filosofias, que situa no espaço da diferença, mas também criando conceitos a partir daquilo que foi pensado, com seus próprios elementos - funções científicas, sensações artísticas - em outros domínios. Deste modo, ao pensar a literatura e as artes, Deleuze está realizando seu projeto filosófico de constituição de uma filosofia da diferença, sem que haja uma diferença essencial entre esses estudos e os estudos dos textos tecnicamente filosóficos.

É assim, por exemplo, que ele interpreta Em busca do tempo perdido, de Proust, como uma busca inconsciente e involuntária da verdade, mostrando que ela não só constitui um sistema de pensamento, mas também se contrapõe ao pensamento da identidade e da representação. O que faz do livro de Proust, e, sobretudo, da correlação que ele estabelece entre o signo e o sentido, um instrumento para a formulação da filosofia da diferença. Pois a importância que Deleuze dá aos signos - e depois dará à intensidade - deve-se a que são eles que forçam o pensamento a pensar em seu exercício involuntário e inconsciente, isto é, transcendental, fazendo-o buscar o sentido, ou a essência considerada como diferença última e absoluta.

É assim também que ele distingue três elementos básicos na pintura de Bacon, três elementos pictóricos simultâneos, sempre presentes em seus quadros: o plano monocromático, o contorno e a imagem. E o que se nota de mais importante nesse livro sobre a lógica da sensação, do ponto de vista do exercício do pensamento de um pintor como Bacon, é o seguinte: se o grande plano monocromático é a estrutura material espacializante e a imagem é a figura, a forma, por sua vez o contorno redondo é o limite entre os dois outros elementos em tensão, limite que assegura a comunicação entre eles de tal modo que a figura, com suas deformações, como corpo intenso, intensivo, torna visíveis forças invisíveis que povoam o mundo e das quais o plano dá testemunho.

Mas é assim também que ele retoma esse esquema interpretativo, generalizando-o, ao explicar, em O que é a filosofia?, o pensamento artístico pela relação entre “compostos de sensação”, ou compostos de perceptos e afetos, em coexistência e complementariedade com um “plano de consistência”, relação que se deve a “figuras estéticas” que são a condição sob a qual as artes produzem sensações - perceptos e afetos - sobre o plano de composição.

Acredito assim que é possível detectar nas leituras realizadas por Deleuze um procedimento filosófico que privilegia pensadores e os considera aliados a partir da relação diferencial que eles estabelecem entre termos ou séries. Mas isso não significa que essas leituras reduzam filósofos, cientistas e artistas ao mesmo, no sentido de encontrar uma identidade que os assimile. Pois não só a diferença entre esses pensadores persiste, cada um conservando sua singularidade, sua individualidade própria, como também Deleuze não se identifica com nenhum deles totalmente, nem mesmo com Nietzsche, sua inspiração fundamental, aquele que atingiu o ápice de uma filosofia da diferença. Sua leitura de Nietzsche é a criação de mais uma máscara e, neste sentido, não só a leitura de outros filósofos ou não-filósofos incide sobre o seu Nietzsche, como também a dos comentadores, que, de um modo geral, têm uma importância muito grande nas interpretações deleuzianas. Como é o caso de Klossowski e Blanchot no que diz respeito a Nietzsche.

Por outro lado, o seu projeto de explicitar relações diferenciais em todos os pensadores que privilegiou pode ser considerado o invariante nas variações dos autores e dos temas por ele estudados, isto é, o diferencial de sua própria filosofia. Neste sentido, a filosofia de Deleuze me parece uma suma de pensamentos que se relacionam por expressarem, em maior ou menor grau, a diferença. Ela incorpora seus conceitos, veste sua linguagem, mas, ao proceder à repetição como uma modificação e uma inflexão no sentido de sua própria maneira de pôr a questão do exercício diferencial do pensamento, também está criando a diferença.

Revista Cult
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A economia pós-petrolífera: Depois da tecno-reparação

Peter Goodchild

Mesmo quando lutam com a ideia da desintegração económica, os americanos tentam ultrapassá-la em termos de progresso tecnológico ou económico: eco-aldeias, desenvolvimento sustentável, eficiência energética e assim por diante. Sob as presentes circunstâncias, tal tecno-optimismo compulsivo parece inadequado”.
— Dmitry Orlov, “Our Village”

O caminho para além do petróleo começa pela consideração de cinco princípios: de que as fontes alternativas de energia são insuficientes; de que os hidrocarbonetos, metais e electricidade são inseparáveis; de que a tecnologia avançadas é parte do problema e não parte da solução; de que agricultura pós-petrolífera significa uma população mais pequena; e de que a base do problema é psicológica e não tecnológica.

Tudo na moderna sociedade industrial está dependente do petróleo e de outros hidrocarbonetos. Deles obtemos gasolina, combustível para aquecimento, fertilizantes, pesticidas, lubrificantes, plásticos, tintas, tecidos sintéticos, asfalto, produtos farmacêuticos e muitas outras coisas. Falando em termos mais gerais, podemos dizer que estamos dependentes de hidrocarbonetos para a manufactura, o transporte, a agricultura, a mineração e a electricidade. O pico da produção mundial de petróleo é (ou foi) de cerca de 30 mil milhões de barris por ano, sustentando uma população humana de aproximadamente 7 mil milhões. Em todo o mundo, talvez haja 10 12 barris de petróleo por extrair — o que pode soar como uma grande quantidade, mas não é. Por volta de 2030, a produção anual de petróleo será menos da metade do que era no seu momento de pico.

1. As fontes alternativas de energia são insuficientes

As fontes alternativas de energia nunca serão muito utilizadas, principalmente devido ao problema da “energia líquida”: a quantidade do output de energia das fontes alternativas não é suficientemente maior do que a quantidade de input de energia (a qual são hidrocarbonetos). As fontes alternativas não são suficientes para abastecer as necessidades anuais da “sociedade industrial” tal como é geralmente entendida tal expressão.

A utilização de petróleo não convencional (areias betuminosas, depósitos de xisto, petróleo pesado) coloca vários problemas. O primeiro é aquele da insuficiente energia líquida. O segundo é o da poluição extrema. O terceiro é que mesmo se assumirmos com optimismo que cerca de 700 mil milhões de barris não convencionais pudessem ser produzidos, tal quantidade equivaleria apenas a cerca de 15 anos da procura global de petróleo.

As pilhas de combustível (fuel cells) não podem ser tornadas práticas porque tais dispositivos exigem hidrogénio derivado dos hidrocarbonetos. Os biocombustíveis (exemplo: do milho) exigem enormes quantidades de terra e resultam em quantidades insuficientes de energia líquida. As barragens hidroeléctricas estão a atingir os seus limites práticos. A energia nuclear dentro em breve estará a padecer da falta de combustível e já cria sérios perigos ambientais.

A energia solar, eólica e geotérmica apenas são efectivas em certas áreas e para certas finalidades. Tais tipos de energia, seja como for, são de valor significativo apenas quando convertidos em energia eléctrica, o que exige a utilização de baterias descartáveis e mesmo de alguns metais raros. Em termos de ecologia (i.e. o relacionamento entre população e recursos), estes tipos de fontes portanto não são melhores do que a energia baseada nos hidrocarbonetos que eles pretendem substituir.

O gasto mundial de energia primária foi de 11 x 10 9 toneladas equivalentes de petróleo (tep) em 2006. É difícil imaginar um número de tal grandeza – é muitíssimo. Por volta de 2030 o abastecimento mundial de petróleo estará tão esgotado que a Era Industrial estará ultrapassada, para todos os propósitos práticos. Mas os proponentes da “energia alternativa” esperam transformar todo o planeta num espaço de tempo que seria implausível mesmo num trabalho de ficção científica.

A busca de fontes alternativas de energia não é simplesmente ilusória, é realmente danosa. Ao sonharmos acordados com uma utopia de centrais eólicas e painéis solares sem ruído e sem odor nós estamos a reduzir a efectividade de qualquer informação séria que esteja agora a ser publicada. Quando artigos de imprensa afirmam que há soluções simples e indolores para a crise do petróleo, a resposta do leitor não é a consciência e sim o entorpecimento. Estamos a caminhar rapidamente rumo ao que foi descrito como o maior desastre da história, mas entregamo-nos a fantasias escapistas.

2. Os hidrocarbonetos, os metais e a electricidade são inseparáveis

O minério de ferro daquela espécie que pode ser processada com equipamento primitivo está a tornar-se escasso, e apenas as formas menos tratáveis estarão disponíveis quando a maquinaria movida a petróleo já não estiver disponível — um problema do tipo do ovo e da galinha. O cobre, o alumínio e outros metais também estão a desaparecer rapidamente. Os metais foram úteis à espécie humana apenas porque outrora podiam ser descobertos em bolsões concentrados na crosta da Terra, agora eles estão irremediavelmente dispersos entre as montanhas de lixo do mundo.

A electricidade não é uma fonte de energia, é apenas um vector (carrier) da energia. Ela provém principalmente do carvão, gás natural, centrais nucleares ou barragens hidroeléctricas. O carvão é terrivelmente ineficiente: apenas um terço da sua energia é transferida quando convertida em electricidade. Ao mesmo tempo, as redes eléctricas operam perpetuamente à carga máxima, cronicamente na necessidade de melhor manutenção e melhorias caras. O primeiro sinal claramente marcado do “fim” pode ser a falha da electricidade.

Os hidrocarbonetos, os metais e a electricidade estão todos intrincadamente conectados. Cada um deles é acessível — à escala moderna — só quando os outros dois estão presentes. Qualquer dos dois desaparecerá sem o terceiro. Se imaginarmos um mundo sem hidrocarbonetos, devemos imaginar um mundo sem metais ou electricidade. Não há meio de romper este “triângulo”.

3. A tecnologia avançada é parte do problema e não parte da solução

Sejam quais forem as opções disponíveis no futuro, elas não serão encontradas na tecnologia avançada, em soluções “high-tech”. Há três razões porque isto é assim. Em primeiro lugar, quaisquer dispositivos de “energia alternativa” teriam de ser criados de plásticos e metais. Em segundo lugar, eles teriam de ser controlados pela electricidade. Finalmente, teriam de ser criados por máquinas grandes e refinadas e transportados a longas distâncias. Mas toda a questão ao especular acerca da “energia alternativa” é em primeiro lugar encontrar uma resposta para aquela crise particular — o facto de que nenhum destes três factores existirá em anos futuros.

Além disso, tudo o que pensamos como “moderna sociedade industrial” tem os seus componentes “sociológicos”: intrincada divisão do trabalho, governo em grande escala e educação de alto nível. Sem hidrocarbonetos, metais e electricidade descobrir-nos-emos num mundo pré-industrial no qual não há infraestrutura material que permitam a existência destes componentes sociológicos.

A tecnologia avançada é parte do problema a ser resolvido, não a própria solução. Pode haver alguma forma de tecnologia que possa salvar-nos do esgotamento de hidrocarbonetos, mas não certamente não é “high”. Falar em “métodos high-tech” como se eles fossem em grande medida sinónimos de “métodos empregando fontes alternativas de energia” é em última análise contraditório e auto-derrotante.

Não podemos entrar num mundo “pós-carbono”. A vida sobre a Terra tem sido “carbono” durante pelo menos 500 milhões de anos. Isto não mudará na próxima década ou pouco mais ou menos.

4. Agricultura pós-petróleo significa uma população mais reduzida

A agricultura moderna está dependente dos hidrocarbonetos para os fertilizantes (o processo Haber-Bosch combina gás natural com nitrogénio atmosférico para produzir fertilizante azotado), pesticidas e a operação de máquinas para colheita, processamento e transporte. A Revolução Verde foi a invenção de um meio de converter petróleo e gás natural em alimento. Sem hidrocarbonetos, os métodos modernos de produção alimentar desaparecerão. A produção alimentar será grandemente reduzida, e não haverá meios práticos de transportar comida a longas distâncias.

O ponto de partida é pensar em termos de um raio de actividade mais pequeno. A economia globalizada tem de ser substituída pela economia localizada. No mundo pós petróleo, a maior parte da comida será produzida a um nível local. O problema, contudo, é que a maior parte da superfície do mundo é permanentemente inadequada para a plantação de alimentos: o clima é demasiado severo, ou a terra é demasiado estéril.

No entanto, uma pequena população humana pode sobrevier com a agricultura, pelo menos se ela reverter a alguns métodos primitivos. Algumas culturas asiáticas trazem material de plantas silvestres das montanhas e usam-no como fertilizante, assim utilizando o N-P-K (etc) das mesmas. Muitas outras culturas utilizam cinzas de madeira. A “fonte” nutriente das plantas silvestres alimenta o “sumidouro” (”sink”) de nutrientes da terra cultivada. (Isto é um dos princípios básico por trás de toda a “jardinagem orgânica”, embora poucos praticantes o admitam ou mesmo saibam disto).

Ao utilizar tecnologia primitiva não será possível alimentar uma população mundial que tenha algo a ver com a dimensão actual. Mesmo as frases clichê com a palavra “alternativo” abrigam um certo número de concepções erradas. “Jardinagem intensiva”, por exemplo, é possível apenas com uma mangueira de jardim e um abastecimento ilimitado de água. A “agricultura orgânica” confia em fontes de potássio, fósforo e outros elementos que não estarão disponíveis sem técnicas modernas de mineração e transporte. A população máxima que pode ser sustentada, portanto, é cerca de quatro pessoas por hectare de terra arável.

5. A base do problema é psicológica, não tecnológica

Quando a crise petrolífera piorar haverá várias formas de comportamento aberrante: negação, raiva, paralisia mental. Haverá um aumento do crime, haverá estranhos cultos religiosos ou movimentos políticos extremistas. A razão para tal comportamento é que no fundamental o problema do pico petrolífero não é acerca tecnologia, não é acerca da ciência económica, e não é acerca da política. Ele é em parte acerca da tentativa da humanidade de desafiar a geologia. Mas é principalmente acerca da psicologia: a maior parte das pessoas não pode apreender aquilo que William Catton denomina “ultrapassar os limites” (”overshoot”).

Nós não podemos encarar o facto de que como espécie ultrapassámos a capacidade do planeta para nos acomodar. Nós nos multiplicámos para além dos limites. Consumimos, poluímos e expandimo-nos para além dos nossos meios, e após vários milhares de anos de soluções tecnológicas superficiais estamos agora a esgotar as respostas. Biólogos explicam tal expansão em termos de “capacidade biótica máxima” (”carrying capacity”): roedores e lebres da neve — e um grande número de outros espécies — têm o mesmo problema; a super-população e o super-consumo conduzem à extinção (die-off). Mas os humanos não podem encarar tal conceito. Ele vai contra o cerne de todas as nossas crenças religiosa e filosóficas.

Resitir
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Pensamento do dia

"A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade."

Carlos Drummond de Andrade

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A feira dos mortais e dos imortais

Leonardo Boff

Com freqüência comparece nas colunas sociais dos periódicos a feira das vaidades. Há disputa para entrar no cercadinho onde estão as celebridades, geralmente, modelos da moda ou artistas conhecidos. Travam-se verdadeiras batalhas para conquistar um lugar na primeira fila e ganhar visibilidade. Na época do carnaval, então, isso chega ao seu paroxismo. Nos palácios de governo, os políticos se acotovelam para estar fisicamente mais perto do chefe. As fotos nas colunas sociais mostram pessoas glamourosas, aparentemente felizes, comendo, bebendo e festejando.
Mas basta vasculhar outras páginas do mesmo jornal para se ver o outro lado da realidade: violência generalizada, enfrentamento entre policiais e gangues da droga, assaltos, assassinatos, escândalos politicos que nunca páram, crescente favelização das cidades e, por fim, as ameaças de devastação que pesam sobre o inteiro Planeta. Como combinar esses dois cenários?
Espontaneamente me vêm à mente o relato do dulúvio. Indiferentes à maldade que grassava no mundo, as pessoas, dizem os textos, “comiam e bebiam, sem se dar conta de nada, até que veio o dilúvio que arrebatou a todos”.
Não precisamos do dilúvio. Baste-nos a certeza de que todos, também os glamourosos, são mortais. Com o tempo, a beleza se esfuma, os achaques aparecem, o envelhecimento é irrefreável e por fim todos morrem. Carregamos apenas o bem que tivermos feitos e nada do glamour e da fama. É a condição humana que importa nunca esquecer para não parecermos frívolos ou ridículos.
Outra cena. Em função do trabalho de assessoria a grupos populares, encontro outra paisagem social: pessoas das periferias, habitantes de comunidades carentes que chamam de “favelas”, grande parte trabalhadora e honesta, enfrentando, dia a dia, a dura luta pela sobrevivência. Os rostos vincados, as mãos calosas, o olhar determinado mostram os sinais da luta renhida pela vida. Os glamourosos os vêem com certo desdém, com receio, no máximo, com pena. Mal lembram que são seus semelhantes e imortais.
Olhando-os atentamente, me vem à mente uma cena do Apocalipse. Um dos anciãos pergunta: “Estes, milhares, quem são e de onde vieram? E o Senhor respondeu: estes são os que vêm da grande tribulação…O Cordeiro os apascentará e guiará às fontes de água viva e Deus lhes enxugará toda lágrima dos olhos”. Estes, da grande tribulação, mesmo sendo mortais, os vejo em sua dimensão de imortais. Pois, em cada pessoa, mas particularmente nestes, Deus está nascendo dentro deles, fazendo-os seus filhos e filhas e urdindo-lhes um destino de imortalidade.
Se os olhássemos nesta ótica, outra seria a nossa atitude. Daríamos uma pequena chance à verdade de triunfar sobre os preconceitos. Descobriríamos que somos todos imortais, também os mortais glamourosos, pois assim fomos feitos e este é o desígnio do Criador. Jesus não quis outra coisa senão que nos tratássemos como irmãos e irmãs e que revelássemos uns aos outros a Deus como Pai e Mãe.
Cada manhã ao levantarmos, temos que decidir: queremos nos comportar como mortais ou imortais? Viver da aparência enganadora ou da realidade pura e simples?
Quão monótona e semelhante é a vida das celebridades mortais! Quão diversificada e épica é a vida dos simples imortais!

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Crítica a Simone de Beauvoir marca o centenário da intelectual feminista

Octavi Martí

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros”. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68″ citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -”A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -”Castor de Guerre”- pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.

El País
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Imagem da Eslovênia como novo modelo europeu sofre abalos

O pequeno país que faz fronteira com a extremidade sul dos Alpes, assumiu a presidência rotativa da União Européia em 1° de janeiro. Mas a inflação alta e as preocupações dos jornalistas quanto à censura governamental estão causando problemas para nação que é considerada o novo modelo da Europa

Marion Kraske

É uma noite extremamente fria na capital eslovena, Ljubljana, mas o clima está começando a esquentar no “Zvezda”, onde mulheres com botas de salto alto e homens usando óculos escuros de marca abrem garrafas de champanhe. Ursa Sefman Sojer, uma mulher vivaz de olhos brilhantes, com os cachos de cabelo louro avermelhado amarrados para trás em um rabo-de-cavalo, está em meio à multidão, comemorando a abertura do seu mais novo café. A decoração do Zvezda, que quer dizer “A Estrela”, é sem dúvida moderna, com bancos de couro marrom-claros, cadeiras de tonalidade escura e iluminação estilizada.

Sefman, 34, usa um vestido justo de lã negra, sandálias feitas de imitação de pele de leopardo e um broche com uma foto de Marilyn Monroe. Ela abriu o seu primeiro café oito anos atrás, mergulhando no mundo empresarial porque, segundo explica, adora fazer quitutes no forno. A sua especialidade são os bolos de frutas e chocolate. Ela abandonou um emprego na indústria de relações públicas para abrir o seu primeiro café, trabalhando a princípio até 20 horas por dia. Sua mãe a ajudou lavando as toalhas de mesa todas as noites depois que os clientes iam embora. Ao final de cada noite Sefman ia para a cama exausta.

“Fizemos tudo por conta própria, mas valeu a pena. O negócio vai em frente a todo vapor”, diz ela hoje. Desde então o primeiro Zvezda tornou-se um local popular na capital eslovena, proporcionando a Sefman, mãe de dois filhos, um rendimento anual de cerca de 800 mil euros, e estimulando-a a abrir um segundo estabelecimento.

A trajetória de Sefman é apenas uma dentre várias histórias de sucesso na Eslovênia. A história de Igor Akrapovic é outra desse tipo. A sua companhia, a cerca de 35 quilômetros de Ljubljana, produz sistemas de escapamento para motocicletas e atualmente é protagonista global de ponta na indústria de motocicletas de corrida. E há também a Elan, uma companhia que produz esquis e snowboards perto da fronteira da Eslovênia com a Áustria, e que alguns anos atrás inventou um modelo de esqui que deixou os esquiadores loucos de Aspen a Saint Moritz.

A Eslovênia, uma nação de dois milhões de habitantes na borda sudeste dos Alpes, é sem dúvida o mais dinâmico e ambicioso dos países ex-comunistas que ingressaram na União Européia em maio de 2004. Os negócios estão disparando neste pequeno país, cujo tamanho é aproximadamente equivalente ao de Israel. Segundo a Comissão de Estatísticas da União Européia, a economia eslovena cresceu 6% em 2007. As suas cerca de 500 pequenas e médias empresas, conhecidas como Gazellas, são um contribuidor importante para o sucesso econômico, exportando produtos como vinho, autopeças e artefatos de couro. Os próprios eslovenos passaram a investir dinheiro no exterior, especialmente nos Bálcãs. Eles já se encontram entre os principais investidores estrangeiros na Bósnia.

Na época do ditador Josip Tito a Eslovênia já era o motor econômico da Iugoslávia, uma confederação de vários grupos étnicos. Os fundos que a Eslovênia injetou nos cofres da Iugoslávia foram usados para impulsionar as repúblicas mais pobres no sul do país. Ela sofreu muito pouco com as guerras balcânicas, e o exército esloveno passou apenas dez dias envolvido em pequenos combates contra unidades iugoslavas antes que o país proclamasse a sua independência em 1991.

Os industriais eslovenos, apelidados de “os alemães dos Bálcãs”, já gozam de um padrão de vida superior ao de Portugal, e ligeiramente inferior ao da Grécia. E, em 1° de janeiro de 2008, a Eslovênia, que já adotou o euro, tornou-se o primeiro dos novos Estados membros da União Européia a ocupar a presidência rotativa do bloco.

A maioria dos turistas que cruza a fronteira de carro a partir da Áustria se surpreende com o que vê: casas recém-pintadas, sacadas cheias de flores e, mais ao sul, uma próspera indústria turística em balneários no Mar Adriático, como Piran e Portoroz. Aquela face desmazelada e sombria, típica de outros países que viviam sob o socialismo, é completamente ausente na Eslovênia.

Ljubljana, conhecida durante séculos por Laibach, quando a Eslovênia fazia parte do Império dos Habsburgos, continua sendo uma amostra da magnífica arquitetura austro-húngara. Abrigando mais de 50 mil estudantes, que parecem passar grande parte do tempo socializando-se perto do castelo que outrora foi uma prisão, Ljubljana faz jus ao seu nome, cuja tradução é “A Amante”. Existe um clima mediterrâneo na cidade, onde se vê moradores sentados em frente às suas casas tomando café no meio do inverno.

Mas a imagem alegre de Ljubljana é enganosa. Na verdade, a cidade passou por dias melhores, e desde a introdução do euro no início de 2007, os preços vêm subindo sem parar. O preço médio dos gêneros alimentícios aumentou 20% no decorrer de um ano.

“É realmente difícil conseguir se sustentar”, diz Ingrid Dorner, uma jovem de 21 anos que usa óculos de níquel e tem o cabelo pintado de um vermelho berrante. Ela veio de Maribor, a segunda maior cidade da Eslovênia, e é estudante de psicologia em Ljubljana. Dorner diz que ganha cerca de 800 euros trabalhando em um restaurante, e gasta 300 euros apenas com o aluguel. “O dinheiro praticamente escorre pelos nossos dedos”, reclama ela.

A elevada inflação macula a imagem de país modelo

Os eslovenos começaram a expressar as suas frustrações em novembro, quando cerca de 70 mil pessoas saíram às ruas de Ljubljana - uma manifestação enorme para um país tão pequeno. Naquela que foi a maior passeata desde a independência, sindicalistas, estudantes e pensionistas protestaram contra o aumento do custo de vida e exigiram maior justiça social.

A taxa de inflação da Eslovênia, de 5,7% - a mais elevada na zona do euro -, dá margem a preocupações. No início de novembro, o comissário para Política Econômica e Monetária da União Européia, Joaquín Almunia, chegou a fazer uma advertência pública à Eslovênia, até então uma economia modelo. Segundo Almunia, uma taxa de inflação superior a 3% envia um “mau sinal” aos países que aguardam na fila para ingressar na zona do euro.

A situação do governo de centro-direita do primeiro-ministro Janez Jansa não é exatamente rosa, neste momento em que o país assume a presidência do Conselho da União Européia. Danilo Türk, um político de esquerda e diplomata experiente, que foi o braço direito do ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas Kofi Annan durante seis anos, recentemente venceu a eleição presidencial, enquanto Lojze Peterle, o favorito do governo, ficou em um desapontador segundo lugar. “O resultado da eleição é um alerta ao gabinete de Jansa”, afirma Vedran Dzihic, um especialista nos Bálcãs que mora em Viena. “O país está perdendo a sua imagem de novo modelo europeu”.

A decisão de Jansa de propor um voto de confiança ao final de novembro foi mais um espetáculo do que qualquer coisa, e a Assembléia Nacional votou a seu favor, como era de se esperar. No entanto, o primeiro-ministro conta com a sua parcela de problemas na frente política doméstica. Recentemente, 571 jornalistas lançaram uma petição criticando aquilo que vêem como restrições maciças à liberdade de imprensa e a pressão política excessiva por parte do governo. Uma carta expondo as queixas dos jornalistas foi enviada a diversos jornais e agências de notícias de toda a Europa no outono.

Embora Jansa procure apresentar a petição como uma campanha orquestrada pela oposição, e até acuse os jornalistas rebeldes de traição, muitos consideram os protestos justificados. Braz Zgaga é um dos que pensam assim.

O jornalista de 34 anos, um dos dois que deram início à petição, é visto atualmente como o Robin Hood da comunidade jornalística eslovena. Zgaga senta-se em frente ao seu bar favorito no centro de Ljubljana, usando um pesado chapéu de lã e uma jaqueta acolchoada. Ele diz que passou anos escrevendo a respeito das atividades e escândalos das agências de inteligência eslovenas no jornal “Vecer”, mas que no ano passado o jornal começou a remover os trechos que criticavam o governo. Ele acabou sendo transferido para uma área na qual escreve sobre assuntos menos sensíveis. Zgaga diz que atualmente é impossível para ele praticar o jornalismo investigativo. “Eles me colocaram na geladeira”.

Mais democracia com a presidência da União Européia?

O caso de Zgaga não é isolado, afirma Brankica Petkovic, que monitora a comunidade jornalística do Instituto Esloveno Pela Paz. Ela diz que recentemente os jornalistas críticos foram repetidamente rebaixados de posto, artigos que incomodavam foram suprimidos e editores antigos nas redações e rádios foram substituídos por jornalistas pró-governo. “A pressão está sendo exercida sobre a imprensa de uma maneira muito sutil”, diz Petkovic.

Grega Repovz, o editor-chefe da revista de notícias “Mladina”, diz que nos últimos dois anos companhias estatais como a Telekom e a Mobitel passaram a cancelar as suas publicidades sem explicação. A sua publicação amargou prejuízos de centenas de milhares de euros somente no ano passado, o que, segundo Repovz, se constitui em uma nítida punição por suas reportagens críticas. Repovz, que é também diretor da Associação Eslovena de Jornalistas, está convencido de que “a intervenção nunca foi tão ruim como agora”.

Os críticos acreditam que Janez Jansa, 49, é o problema real. Ex-jornalista que esteve envolvido com a organização da juventude comunista na década de 1980, e que se tornou um conservador autoritário após a queda do comunismo, ele só tem um objetivo, segundo Spomenka Hribar, um respeitado filósofo esloveno: “O Estado deve controlar tudo”. É por causa de sentimentos como esses que muitos eslovenos vêem a presidência do Conselho da União Européia como uma oportunidade para a obtenção de mais democracia.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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O Complexo de Violência e Devastação da Amazônia Brasileira: o caso do sudeste do Pará

Carlos Walter Porto-Gonçalves

. Contextualizando

O debate acerca da Amazônia vem sofrendo uma inflexão, sobretudo a partir dos anos setenta. Desde então a problemática ecológica entra na agenda complexificando ainda mais o debate acerca dos destinos da região. A internacionalização que, desde sempre, marca a formação geográfica da Amazônia se vê, agora, acrescido desta problemática nova. Se, por um lado, esse novo agendamento vem sido imposto a partir de uma escala supranacional, ela ganha consistência interna quando se observa a mudança radical no padrão sócio-político de organização do espaço geográfico da Amazônia a partir dos anos 1960, com o projeto geopolítico que envolveu a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. A partir de então, a geografia da Amazônia deixa de se organizar exclusivamente em torno dos rios, o que a caracterizava desde o período colonial, e, cada vez mais, passa a ser conformada a partir das estradas e toda logística associada aos grandes projetos de exploração mineral, sobretudo na sua porção meridional - de Rondônia à Amazônia Oriental (o leste paraense e o oeste do Maranhão) passando por todo o norte de Mato Grosso e Tocantins.

Todo esse processo não pode ser compreendido sem que se leve em conta o caráter ditatorial que comandou todo esse processo de ocupação, sobretudo pós 1964, que, geopoliticamente, procurava interligar a capital de cada unidade da federação a Brasília, assim como, sobretudo pós-anos setenta, com a interligação rodoviária entre o nordeste do país à Amazônia, com a Transamazônica, quando se procurava ligar uma região de homens sem terra, o nordeste brasileiro, a outra região de terra sem homens, a Amazônia, conforme a frase famosa atribuída ao ditador de então Emílio Garrastazu Médici. Todo esse processo, diga-se de passagem, foi embalado pelo “mito do desenvolvimento” em que a mídia cumpriu um papel protagônico quando revistas e cadernos especiais não cansaram de louvar a epopéia da ocupação da Amazônia. Enfim, se a Amazônia era o futuro do Brasil pelos imensos recursos que abrigava, o futuro parecia ter chegado. (O que não é qualquer coisa quando se sabe que o Brasil é o país do futuro). A censura oficial, em parte, impediu que a sociedade brasileira tivesse o necessário contraponto crítico, muito embora houvesse uma adesão voluntária dos grandes meios de comunicação em grande parte financiado pelos interessados e implicados diretamente no novo processo de ocupação. O mito do desenvolvimento e do progresso, invocado num contexto de guerra fria por um regime ditatorial civil-militar conformado por uma forte ideologia anticomunista, aparecia como salvação e redenção do país e, ainda, como resposta à miséria e ao subdesenvolvimento que, como se dizia à época, “era o solo fértil para o desenvolvimento de ideologias espúrias”. A guerrilha do Araguaia serviu de pretexto para reforçar todo o mito salvacionista do progresso e do desenvolvimento com o que os maiores beneficiários desse processo procuravam justificar a repressão e, assim, trazendo enormes dificuldades para qualquer forma de organização dos setores subalternos na região, o que não os impediu de lutar pela terra. Uma observação feita à época pelo sociólogo José de Souza Martins é sintomática da nova dinâmica do processo de ocupação quando afirmava que o primeiro contato com a modernidade de muitos camponeses da região foi o choque elétrico da tortura. Como se vê, a violência institucionalizada deixou raízes profundas grafando a região (geografando-a).

Não olvidemos, ainda, que todo esse processo contou com apoio de instituições multilaterais, como o Banco Mundial, que financiaram grandes projetos logísticos (rodovias, portos, hidrelétricas), assim como grandes investidores internacionais souberam tirar proveito de toda a violência institucionalizada com uma ditadura que, como tal, não contava com o aval democrático da sociedade brasileira. O Estado além de garantir as condições gerais para esse novo padrão de acumulação de capital para e pelos setores privados, ainda agiu por meio de suas próprias grandes empresas, com destaque para a Companhia Vale do Rio Doce no Projeto Grande Carajás. Um setor da burguesia nacional que mais se beneficiou, em particular, da “ajuda internacional” e do regime ditatorial foi o da construção civil, onde grandes empreiteiras se arrogaram o papel de “novos bandeirantes” com a construção de grandes projetos de engenharia (estradas e hidrelétricas). Até hoje são enormes as implicações sociais, políticas e ambientais engendrados pelo bloco de poder que conformou todo esse padrão de organização do espaço geográfico.

. A Dinâmica sócio-geográfica nacional-regional pós-anos 60/70

A interligação logística da Amazônia ao resto do país por meio do desenvolvimentismo de caráter mítico, pró-empresarial e anti-popular do “milagre brasileiro” substituiu a reforma agrária pela colonização e, por meio de subsídios aos grandes fazendeiros e a liberalidade do estado com seu patrimonialismo para com a apropriação das terras públicas por meio da grilagem de terras, favoreceu a chegada de grandes fazendeiros do centro-sul do país, assim como toda uma vaga de sem-terra expropriados pelo modelo concentrador de terras e de capital da modernização conservadora do campo brasileiro. Assim, a região sudeste do Pará viria se caracterizar pela tensão de territorialidades distintas, a saber: (1) camponeses expropriados de todo o país; (2) fazendeiros também de todo o país, sobretudo do centro-sul, mas também de fazendeiros da própria região que deixaram as atividades tradicionais de extrativismo e se associaram aos recém-chegados nas ações de apropriação ilegal das terras públicas para exploração de madeira, derrubada da mata e criação de gado e; (3) os povos da floresta e ribeirinhos cujas terras e demais recursos passam a ser disputados. Enfim, a partir da década de 1970 uma dinâmica sócio-geográfica nacional-regional se instaura no sudeste do Pará conformada por essa tensão de territorialidades acima esboçada onde a expropriação/grilagem, exploração madeireira, queimadas e estabelecimento de grandes fazendas de gado onde a violência foi fator estruturante de todo o processo, sobretudo contra a resistência dos povos tradicionais da região e dos camponeses nacionalmente expropriados e que buscavam se re-territorializar num contexto que era, para eles, completamente adverso.

. A Dinâmica sócio-geográfica global-regional Pós-anos 80

Um dos impactos imediatos do segundo pico da crise do petróleo dos anos 1970 foi a reconfiguração divisão internacional do trabalho, sobretudo das indústrias eletro-intensivas. O Japão, por exemplo, fechou todas as suas 145 fábricas de alumínio. O seu capital deslocou-se para Barcarena, a mais de 20 mil quilômetros do Japão nas cercanias de Belém. “Hoje a fábrica da Albrás, garantindo 15% do consumo japonês de alumínio, é a 8ª do mundo e a maior consumidora individual de energia do Brasil, respondendo por 1,5% de toda a demanda nacional”.

A partir dos anos oitenta, com a implantação do Projeto Grande Carajás, - outro enclave explorando o maior complexo mínero-metalúrgico do mundo – se instaura e, com ele, uma nova dinâmica sócio-geográfica na região que viria agravar, ainda mais, o padrão socialmente injusto e ambientalmente devastador que já estava em curso na região. Trata-se de uma dinâmica que se sobrepõe a acima descrita – nacional-regional - e que bem pode ser caracterizada como sendo uma dinâmica sócio-geográfica global-regional. Esclareça-se que essa nova dinâmica complexifica a dinâmica sócio-geográfica já em curso, posto que agrega novos processos aos já existentes tendo muito de continuidade nessa descontinuidade do novo padrão sócio-geográfico que se instaura a partir dos anos 80. Apesar do alerta de várias entidades nacionais como a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa - e a AGBAssociação dos Geógrafos Brasileiros
e de várias entidades e movimentos sociais da região que apoiadas em análises científicas sobre os danos que esse grande projeto traria para a região, sobretudo com o agravamento da derrubada da floresta para fazer carvão vegetal para purificar o ferro a ser exportado, não foi suficiente para evitar a dilapidação daquele enorme patrimônio de recursos naturais. O desmatamento na região em apreço atingiu níveis alarmantes e até mesmo uma significativa mudança climática regional se faz notar com períodos secos mais prolongados apontando para um clima cada vez mais tropical em lugar do clima sub-equatorial que a caracterizava. As mudanças no regime hídrico da região podem ser observadas nos córregos, igarapés e rios que, simplesmente, deixaram de existir. O nível de umidade relativa do ar vem caindo a níveis semelhantes a regiões desérticas facilitando a auto-propagação do fogo como, recentemente, em setembro de 2007, pudemos apreciar em Colina – MA, o triste espetáculo de famílias fugindo do fogo desesperadas lembrando as cenas de vietnamitas fugindo do bombardeio de napalm. Sem sombra de dúvida a transformação dessa fantástica biomassa em carvão, o consumo elevadíssimo de água na transformação do minério de ferro, assim como a barragem do rio Tocantins para fazer a hidrelétrica de Tucuruí, alimentaram a purificação do ferro para exportação, agora sob o tacape da “crise da dívida externa”, dívida essa que, diga-se de passagem, foi contraída, em grande parte, para construir a logística desse mesmo processo de ocupação feito à revelia da sociedade brasileira, sobretudo dos seus setores subalternos.

Ainda hoje, “todos os dias o trem, o maior trem de minérios do planeta, recebe 700 mil toneladas, que são transportadas, por quase 900 quilômetros até o porto da Ponta da Madeira, na ilha de São Luís, no litoral do Maranhão. Daí, o mais puro minério de ferro do mercado segue para o mundo; 60% dele rumo à China e ao Japão, os maiores compradores, a 20 mil quilômetros de distância”. Segundo o mesmo autor, a mina N4, “projetada para operar com até 25 milhões de toneladas anuais de minério de ferro (…), vai atingir 100 milhões de toneladas neste ano (2007) e chegará a 130 milhões em 2008, quase metade da produção recorde que a CVRD está planejando para todo país, de 300 milhões de toneladas”, conforme Lucio Flavio Pinto.

É interessante observar como a dinâmica nacional-regional, mais antiga, e a global-regional, mais recente, se imbricam pela complementaridade dos novos interesses com os antigos. A grilagem de terras é o fenômeno-chave para entender a violência estrutural que se configura na região conformando um padrão de organização do espaço geográfico que se reproduz por meio de atividades como a exploração ilegal de madeira, a produção de carvão com a queima da floresta para purificar o ferro e a formação de pastos para pecuária. Um estudo realizado em 2004 pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM - e pelo Museu Emílio Goeldi, assinala que só no Estado do Pará ainda há 30 milhões de hectares de terras grilados e 67% das terras não têm registro ou têm registro fraudulento. Trata-se de um modo de produção/reprodução de uma estrutura de classes sociais profundamente desigual, a começar pela estrutura fundiária extremamente concentrada, conformando um Complexo de Violência e Devastação cuja dinâmica regional de reprodução é funcional à sua integração à divisão internacional do trabalho enquanto “uma geografia desigual dos rejeitos e dos proveitos”. A violência, vê-se, é estruturante das relações sociais e de poder.

Nesse contexto, até mesmo as heróicas conquistas de terra sob a forma de assentamentos têm pouca opção no contexto desse Complexo de Violência e Devastação, haja vista (1) o desconhecimento da dinâmica daquele ecossistema pela maior parte desses camponeses que ali procuram se re-territorializar e (2) o pífio desempenho dos órgãos de pesquisa agropecuária que, apesar da enorme contribuição que vêm dando na tropicalização de espécies de regiões temperadas para exportação, como a contribuição da Embrapa na aclimatação da soja, não consegue dialogar com as demandas de uma população que só em assentamentos soma mais de 80.000 famílias assentadas na região. Muitas dessas famílias, por absoluta falta de opção, acabam por derrubar a floresta para fazer carvão e passam a criar gado e, assim, alimentam todo o complexo de devastação e violência que vimos analisando. Enfim, o projeto de exploração mineral do Grande Carajás se ajustou como uma luva aos interesses dos grandes grileiros-madeireiros-guseiros-pecuaristas do complexo de violência e devastação ao se configurar como um novo atrator. Hoje, em São Paulo e Rio de Janeiro, se consome carne bovina proveniente de mais de 4.000 quilômetros de distância, vindos do Pará com caminhões frigoríficos com custos energéticos e ambientais que só fazem aumentar a própria demanda de energia.

***

. A reprodução ampliada do Complexo de Violência e Devastação pela nova dinâmica nacional-globalizada na região sudeste do Pará

Uma nova articulação de interesses está em curso nesse momento cujos efeitos tendem a alimentar, e agravar ainda mais, esse perverso Complexo de Devastação e Violência na região conformando uma nova dinâmica nacional/globalizada protagonizada pelos mesmos poderosos interesses que vêm operando na região. Tal como nos anos 1970, é a questão energética que vai reconfigurar a divisão internacional do trabalho, seja pela redistribuição espacial das atividades de mineração, seja pelas implicações geográficas da expansão do plantio da cana e da soja e o remanejamento espacial do rebanho bovino, conforme veremos adiante.

. algumas implicações geográficas do setor mineral na nova dinâmica nacional/globalizada da região

Tudo indica que a recente derrota eleitoral dos republicanos nos EUA, partido onde se aninhou a direita religiosa ligada ao complexo corporativo dos combustíveis fósseis (os próprios Bushs, Dick Cheney entre outros), a derrota política da intervenção militar no Iraque e Afeganistão, a perda de influência política sobre o petróleo venezuelano e o gás boliviano, a humilhação da imagem dos EUA diante da pobreza e abandono trazidos pelo furacão Katrina em Nova Orleãs e Luisiânia, além de uma escassez do petróleo que pode estar sendo exagerada venham influenciando mudanças na estratégia geopolítica global norte-americana. Agregue-se a tudo isso o “fenômeno China” com todo o alento que vem dando á reprodução ampliada do capitalismo com seu teimoso crescimento de dois dígitos. “Se nos anos 70 os japoneses fecharam fábricas que em conjunto produziam 1.2 milhão de toneladas de alumínio (quase três vezes a capacidade da Albrás), os americanos deverão fechar usinas com produção de 50 milhões de toneladas de chapas de aço. Essa demanda se deslocará para outros lugares do planeta. Outras produções eletro-intensivas também estão migrando, em escala chinesa”. Já em 2004, “os chineses ultrapassaram os japoneses como maiores clientes do minério (de ferro) da Companhia Vale do Rio Doce, responsável por um quarto das vendas desse produto no mundo. A empresa já anuncia a meta de 300 milhões de toneladas de minério de ferro para daqui a menos de dois anos. Parauapebas se consolidará como o maior município minerador de ferro do mundo. Quando a ferrovia de Carajás começou a operar, 20 anos atrás, seu horizonte não passava de 20 milhões de toneladas. Hoje, está na perspectiva de cinco vezes mais, ou 100 milhões de toneladas, substancialmente para exportação (ao contrário do destino da produção do Sistema Sul da CVRD, que atende principalmente o mercado interno)” (Pinto, 2007).

Minério de ferro, já o vimos, implica não só uso de energia. Na Amazônia, no sudeste do Pará em especial significa, sobretudo consumo da biomassa da floresta para fazer carvão que, como vimos, começa com a grilagem de terras e a exploração da madeira para as serrarias e, na ponta final, tem o pasto se formando para a satisfação dos grandes pecuaristas, fechando o Complexo de Violência e Devastação.

. Os agrocombustíveis e o remanejamento do rebanho bovino.

Trata-se da reordenação do espaço geográfico brasileiro que vem sendo engendrada a partir da aliança das oligarquias de agronegociantes (cana e soja, sobretudo) com os grandes complexos de poder ligados ao setor energético mundial por meio do que vem sendo chamado como “transição energética” com os agrocombustíveis. Todo um complexo de forças parece estar convergindo para, mais uma vez, nos oferecer mais do mesmo. Tudo indica que o Complexo de Violência e Devastação pode estar ganhando um novo impulso que permitirá que se reproduza por mais tempo, agora com o aprofundamento da nova dinâmica nacional/globalizada na região. Se a dinâmica anterior havia sobreposto uma dinâmica de enclave global-regional à dinâmica nacional-regional, agora estamos diante de uma dinâmica nacional/globalizada onde, mais uma vez, a região se inscreve de modo subordinado, com graves conseqüências, sobretudo para os setores subalternos da região. Afinal, os setores dominantes regionais estão fortemente articulados à dinâmica seja nacional, seja nacional-globalizada. A burguesia e as oligarquias latifundiárias locais não sobrevivem sem esses aliados nacionais cada vez mais nacional-globalizados. A recíproca é verdadeira: o Complexo de Devastação e Violência traz dentro de si essa imbricação dessas diferentes escalas de poder do sistema mundo moderno-colonial (Lander; Casanova; Lafont). As lutas dos setores subalternos haverão de considerar essa complexidade que envolve as alianças políticas que conformam essas escalas de poder ao mesmo tempo locais-regionais-nacionais-globais.

O discurso de um novo ciclo de desenvolvimento que, mais uma vez, vem de fora, volta a ser brandido pelas lideranças políticas locais/regionais e pela mídia. Destaque-se que os grileiros-madeireiros-guseiros-pecuaristas, assim como as grandes empresas, como a Vale do Rio Doce, a Albrás, a Alunorte, conformam esse poderoso bloco de poder (Gramsci) do Complexo de Violência e Devastação. Acrescente-se ainda que esses setores detém a concessão da maior parte das emissoras de rádio e televisão locais/regionais que, sabemos, depende de negociação política para ser obtida, conformando corações e mentes, criminalizando os críticos e por meio da violência simbólica contra os que se insurgem, antecipam e justificam a violência física, conforme os dados da Comissão Pastoral da Terra assinalam.

È interessante observar como a nova dinâmica nacional-globalizada se encaixa como uma luva na dinâmica do Complexo de Violência e Devastação reproduzindo, assim, ampliadamente a dinâmica dos dois períodos anteriores. Independentemente do fato de a cana de açúcar vir ou não a ser plantada na Amazônia, como o governo vem se antecipando e procurando garantir que não vai, a nova dinâmica que está em curso a partir do avanço do cultivo de cana e da soja no território nacional, assim como da nova redistribuição das pastagens para criação de gado bovino, não poupará a região e, pior, agravará a violência e a devastação ao mesmo tempo em que reafirmará as relações sociais e de poder já profundamente desiguais na região, na medida em que vem ao encontro dos interesses dos mesmos protagonistas que encimam esse bloco de poder.

Segundo a ÚNICA, entidade que representa os grandes agronegociantes do setor sucroalcooleiro, já estão sendo implantadas no país, 77 novas usinas de produção de álcool combustível que entrarão em produção ao longo dos próximos anos até 2012, sendo que todas essas 77 novas unidades estão situadas na região de melhor infra-estrutura do país, a saber, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Está sendo previsto um aumento anual de 1 milhão de hectares de cultivo de cana nos próximos 20 anos, o que já vem modificando completamente o mercado de terras não só nas regiões indicadas mas em todo o Brasil. Como indicam os documentos da ABAG – Associação Brasileira de Agribusiness, da ÚNICA e do ICONE – Instituto de Estudos e Comércio Internacional - são as áreas de pastagens as que estão sendo visadas para serem substituídas pelo cultivo de cana de açúcar. Considerando que o Brasil dispõe do maior rebanho bovino do mundo, com aproximadamente 200 milhões de cabeças de gado, o destino desse rebanho tende a avançar sobre a região amazônica, como pudemos observar em julho de 2007 em pesquisa de campo no vale do Médio Araguaia, onde o arrendamento de terras por parte dos retireiros para o pastejamento do gado teve um aumento entre 25% e 30%, de 2006 para 2007. Como assinalamos anteriormente, grande parte da carne bovina consumida nas principais cidades do centro-sul do país está vindo dessa região do sudeste do Pará sendo que o estado do Pará conta, hoje, “com 14 frigoríficos registrados no Serviço de Inspeção Federal –SIF - que abatem diariamente mais de nove mil animais”, segundo o jornalista paraense Lucio Flavio Pinto. Recentemente abriu-se uma disputa entre pecuaristas e donos de frigoríficos cujas conseqüências tendem a impulsionar a reprodução ampliada desse Complexo de Violência e Devastação. O imbróglio Pecuaristas X Frigoríficos é emblemático do modo perverso como se reproduz regionalmente essa nova dinâmica nacional/globalizada. Trata-se de um novo mercado que vem se abrindo para exportação de boi em pé. “Inicialmente, o comércio era realizado apenas com o Líbano, em pequena quantidade. Mas neste ano abriu-se o mercado venezuelano, numa escala muito ampliada. No ano passado a exportação foi de 160 mil animais, rendendo 45 milhões de dólares, 200% acima dos US$ 14 milhões do ano anterior Neste ano, mais do que dobrará. Só no primeiro semestre a receita foi de US$ 48 milhões. A venda de boi em pé, que estava em 17º lugar na pauta de exportações do Pará, pulou para o 10º lugar. Em 2008 as transações poderão chegar a 600 mil cabeças, o que representará quase um quarto da capacidade de abate anual da indústria”. Tudo isso, diga-se de passagem, graças à nacional/globalizada Lei Kandir, de 1997, que isenta de pagamento do Imposto de Circulação de Mercadorias, os produtos primários voltados para exportação. Com isso, os frigoríficos estão na iminência de ficarem sem gado para o abate, haja vista que os pecuaristas estão obtendo melhores preços com as exportações. Diante da mentalidade colonizada dos protagonistas desse modelo, a que chamam de moderno, tudo indica que a floresta será, mais uma vez, oferecida em holocausto para o lucro de alguns poucos para comportar a demanda por terras de pecuaristas e frigoríficos. Não olvidemos que a demanda por terra de milhares de sem-terra venha a ser instrumentalizada para criar assentamentos que, sem que se ofereça a menor infra-estrutura como vem sistematicamente sendo feito, acabem por reproduzir ampliadamente no espaço geográfico regional o mesmo Complexo de Violência e Devastação.

Com isso, todo o Complexo de Violência e Devastação tende a avançar sobre a floresta por meio da grilagem de terras, da exploração madeireira para serrarias, da queima da floresta para carvão para as guseiras depois limparem o ferro para exportação, e a consolidação da pecuária, para o gozo dos mesmos setores que sempre se beneficiaram desse complexo para se afirmar. Assim, a nova dinâmica nacional/globalizada se reproduz reforçando a dinâmica perversa do Complexo de Devastação e Violência da região sudeste do Pará.

Sudeste do Pará


Fonte LASAT/UFPA. In: MICHELOTTI et al. O Agrário em questão: Uma leitura sobre a criação dos assentamentos rurais no Sudeste do Pará. Inédito. 2007


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Após 40 anos de sua morte, Martin Luther King ainda atrai políticos

Jim Auchmutey e Ernie Suggs

Quarenta anos após sua morte, o reverendo Martin Luther King Jr. atrai políticos como um desfile de dia da independência - especialmente políticos que almejam ser rei.

Três pré-candidatos presidenciais e um representante visitarão Atlanta neste fim de semana do Dia de Martin Luther King, o maior número nos 22 anos de história do feriado.

O senador Barack Obama falará na missa das 10h de domingo na Igreja Batista Ebenezer, onde King foi co-pastor. A campanha da senadora Hillary Clinton enviará seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, à cerimônia oficial na igreja na segunda-feira. O ex-governador de Arkansas, Mike Huckabee, o único republicano com visita agendada a Atlanta, comparecerá à cerimônia de segunda-feira a convite de um membro da família King.

O ex-senador John Edwards planejava passar à frente de todos, fazendo uma parada no sábado no salão da Irmandade Internacional dos Trabalhadores do Setor Elétrico, perto do centro de Atlanta.

Do reverendo Jesse Jackson nos anos 80 ao presidente George W. Bush há quatro anos, os candidatos freqüentemente fazem peregrinação à Atlanta para prestar homenagem durante a semana de aniversário de Martin Luther King.

“Bill Clinton, Ted Kennedy, os Bushes - vi todos passarem pela Auburn Avenue”, disse o deputado estadual Tyrone Brooks, um democrata de Atlanta que trabalhou no movimento dos direitos civis. “Talvez nem todos tenham apreciado o que o dr. King fez enquanto estava vivo: as marchas, os boicotes e tudo mais. Mas eles vêem o valor de se associarem a ele agora. É boa política.”

E é uma política particularmente boa neste ano, com disputas abertas em ambos os partidos e o feriado caindo apenas duas semanas antes da Super Terça, quando mais de 20 Estados realizarão suas eleições primárias.

E há o fator Obama.

“Muita gente considerou o voto afro-americano certo ao longo dos anos”, disse o senador estadual Emanuel Jones, um democrata de Ellenwood que apóia Obama. “Agora que temos um candidato como o senador Obama, há uma disputa acirrada por tal voto. Eu acho que é o motivo para vermos a presença de tantos candidatos.”

A disputa pelos eleitores negros aqueceu recentemente, quando Hillary Clinton disse à “Fox News” que o sonho de King só começou a se concretizar quando um presidente, Lyndon B. Johnson, aprovou a lei de direitos civis. Obama criticou os comentários como um menosprezo a King, provocando um debate rancoroso.

O convite para Obama falar em Ebenezer foi feito pelo menos um ano antes da campanha presidencial. O pastor da igreja, o reverendo Raphael Warnock, começou a falar com Obama sobre vir a Atlanta no final de 2005.

“Ele representa a promessa do movimento dos direitos civis e da lei de direito ao voto. Ele é a resposta às orações de Ebenezer”, disse Warnock, que rapidamente acrescentou que Hillary Clinton também foi convidada para a cerimônia na igreja.

A campanha de Obama disse que ele aproveitará a oportunidade para discutir unidade, reconciliação e o legado de King.

O campo de Hillary Clinton terá sua vez no dia seguinte, quando o ex-presidente voltar a Ebenezer para a cerimônia do feriado.

“A presença dos Clintons não é incomum”, disse Verna Cleveland, a diretora do comitê eleitoral na Geórgia. “Isso demonstra o apreço deles pelos direitos civis, pelo que King fez para promover o avanço de nosso país e o compromisso deles com a continuidade de seu legado.”

O Centro King, que organiza os eventos de segunda-feira, tenta tratar os candidatos com igualdade.

“Nós reconheceremos a presença deles, mas eles não falarão”, disse o presidente do Centro King, Isaac Farris, sobrinho do líder dos direitos civis. “Se permitir que todos falem, se transformará em um evento político.”

Mas Bill Clinton não é candidato e poderá falar na condição de ex-presidente.

Huckabee, um pastor batista, será apresentado na segunda-feira. Ele planejava visitar Atlanta na terça-feira para participar de um comício antiaborto no aniversário da decisão “Roe contra Wade”. Ele mudou sua agenda a convite da reverenda Alveda King, uma sobrinha de King que não apóia Huckabee, mas é oponente do aborto e do casamento gay. Ela planeja acompanhá-lo ao café da manhã de oração da Conferência da Liderança Cristã do Sul, na segunda-feira, e depois à cerimônia em Ebenezer.

Participar do Dia de Martin Luther King só ajudará o governador, disse Farris. “Associar-se ao legado o ajudará a transmitir a mensagem de que não está demais à direita.”

Associar-se a King não era considerado prudente quando esta saga dos direitos civis e da política presidencial teve início nos anos 60.

Durante a campanha naquele ano, King foi preso na Geórgia por uma antiga infração de trânsito. O candidato democrata John F. Kennedy relutou em se envolver por achar que aquilo lhe custaria votos dos eleitores brancos, mas finalmente telefonou para Coretta Scott King para expressar sua solidariedade e oferecer apoio. Quando a notícia se espalhou, milhares de republicanos negros deixaram o partido de Lincoln para apoiar Kennedy.

Um deles foi o reverendo Martin Luther King Sr. - papai King - que disse durante uma missa em Ebenezer que planejava votar em Richard Nixon e contra o católico Kennedy, “por causa de sua religião”, mas que tinha mudado de idéia.

King Jr. não apoiou candidatos, mas duas vezes chegou perto.

Em 1964, ele fez campanha contra o candidato republicano Barry Goldwater, que era contrário à legislação de direitos civis, mas nunca apoiou formalmente o eleito Lyndon B. Johnson.

Em 1967, King viajou duas vezes para Cleveland para registrar eleitores que supostamente votariam em Carl Stokes em sua campanha para se tornar o primeiro prefeito negro de uma grande cidade americana.

Naquele ano, ativistas anti-Guerra do Vietnã pediram para King concorrer à presidência em uma chapa de protesto com o pediatra Benjamin Spock.

“Ele nunca considerou tal pedido”, lembrou Andrew Young, assistente de King. “Ele não considerava aquele o seu papel.”

Após sua morte, King se transformou em um ícone - um símbolo de irmandade e igualdade - reivindicado por políticos de todas as classes, pelo menos em parte.

“Os candidatos gostam de se identificar com ele porque ele lhes dá uma estatura moral”, disse Young. “Nenhum líder moral americano nos últimos 50 anos foi mais citado do que Martin Luther King Jr.”

A pergunta é se vir a Atlanta para o Dia de Martin Luther King de fato ajuda nas eleições.

“Eu não sei se influencia o voto de alguém. Pode ser”, disse Merle Black, cientista político da Universidade Emory. “Mas se você não comparecer, pode prejudicar porque terá que explicar o que estava fazendo que era mais importante.”

Cox Newspaper
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Dossiê: Povos do mar - A onda vermelha do norte

Vindos da Escandinávia meridional, da costa da Alemanha e dos Países Baixos, os povos bárbaros se uniram para expulsar os romanos da Bretanha

Jean-Yves Marin

Jordanes, historiador godo, nos diz que “é da Ilha de Scanzia, que podemos chamar de fábrica de nações ou reservatório de povos, que os godos parecem ter saído (…)”. Essa Scanzia, a atual Escandinávia, era povoada por um grande número de nações. A maioria dos grupos, que participaram das migrações, era proveniente da Escandinávia meridional, outros da costa da Alemanha e dos Países Baixos. Suas tradições marítimas faziam com que estivessem em permanente contato e que começassem a investir juntos sobre a Bretanha, no final do século III, destruindo a autoridade de Roma na ilha.

Nesse “oceano germânico” que é o Báltico, emigrantes originários de povos inexoravelmente confundidos, começaram a expandir-se, tanto na direção leste quanto oeste. É muito difícil distingui-los uns dos outros, pois só os mais importantes, ou os que foram mais felizes na guerra, deixaram o nome na posteridade. O velho fantasma da coesão étnica foi espantado pelos fatos. Nada serve para procurar a origem de um grupo determinado, pois todos provêm de agrupamentos posteriores às migrações.

Um clã escolheu seguir um chefe de prestígio, tido como invencível, sem se preocupar com o lugar de onde viera. Esse fenômeno foi reforçado no noroeste da Europa por uma semelhança de línguas, tanto que os lingüistas chamaram de velho saxão e velho inglês uma espécie de matriz comum a toda uma era geográfica que englobava aquela área. Desde finais do século III, tornou-se claro o perigo que os francos e os saxões representavam para a parte setentrional do Império Romano. O mar do Norte estava a ponto de se tornar “germânico”, ou seja, ali, a potência romana estava mais ou menos ausente.

Foi nesse contexto que em março de 286 a Gália e a Bretanha insular (atual Grã-Bretanha) reuniram-se num único setor militar, cujo comando foi confiado a um homem de armas de origem bárbara, Caráusio. No início, sua autoridade limitava-se ao litoral da Gália e à ilha da Bretanha, mas em razão de vitórias obtidas rapidamente a partir daquele ano, Caráusio se impôs de tal maneira que governou durante uma década esse que chamamos o primeiro Estado britânico-gaulês. De imediato, ele tentou aumentar suas possessões continentais, sem deixar a Gália do Norte. Comportava-se como um verdadeiro césar romano. Em 289, o imperador Diocleciano enviou um exército comandado por Maximiano para enfrentá-lo, mas foi vencido durante uma batalha naval.

Poder restabelecido

Caráusio não foi reconhecido por Diocleciano; para marcar sua autoridade ele multiplicou as operações militares, até ser assassinado. Certos de sua inferioridade nesse campo, a fim de evitar uma nova batalha naval, os romanos, sob o comando de Constâncio, desembarcaram perto da ilha de Wight e restabeleceram o poder de Roma na região.

Durante a primeira metade do século IV, a Bretanha insular, que havia se tornado novamente romana, conheceu segurança e prosperidade relativas. Prontamente voltaram a eclodir guerras intestinas, o que enfraqueceu bastante o exército romano. A partir de 354, o perigo delineava-se mais uma vez: os francos e os saxões de um lado, os pictos e os escotos de outro, assediavam as zonas de domínio romano. No continente, as incursões bárbaras ameaçavam a Gália do norte, interrompendo as rotas de abastecimento. Apesar dos decididos e corajosos esforços do imperador Juliano, que em pessoa liderou o combate em todas as frentes do norte do Império, a situação se degradou. Quando de sua morte, em 365, ocorreu uma nova invasão dos alamanos na Gália, e os ataques bárbaros recomeçaram na Bretanha.

Em 367, os saxões, que até então só tinham empreendido algumas ações isoladas, atacaram em conjunto e acrescentaram suas investidas às dos pictos e dos escotos, provocando um desastre total: o exército romano foi derrotado às portas de Londres. A conjunção de forças bárbaras, de interesses contraditórios entre si mas determinadas a expulsar os romanos da ilha, tinha se revelado eficaz. No entanto, pela última vez os romanos conseguiram restabelecer o controle da situação. Valentiniano I reuniu às pressas suas melhores tropas, que desembarcaram em Richborough e marcharam sobre Londres.

A Bretanha romana foi reconquistada, e as fronteiras restauradas e reforçadas. Parece que a ação de piratas saxões que ameaçavam cortar relações com o continente foi considerada mais perigosa do que as investidas dos pictos ao norte e as dos escotos na Irlanda. O dispositivo de defesa da costa foi repensado em razão da terrível derrota de 367. Mas como a ilha da Bretanha ficava na periferia do Império, assim que o perigo se delineou no continente, sua defesa foi novamente negligenciada; as melhores tropas retomaram o caminho da Itália. Na Gália, as usurpações sucederam-se, até que Estilicão, novo senhor do Ocidente, reforçou mais uma vez os dispositivos defensivos ao fazer uma inspeção, em 396. Foi nesse contexto de relativa paz recuperada que houve a grande invasão de 406, na Gália: os germânicos passaram pelo Reno na direção de Mogúncia e, como resume de modo lapidar o historiador Lucien Musset, “tudo desmoronou”. Isolada do continente, a ilha da Bretanha conheceu sucessivamente três invasores, em alguns meses. Bem informados, os saxões precipitaram-se rumo à Bretanha insular para ali permanecer e criar um novo reino. O historiador grego Zózimo escreveu a esse respeito: “Os bretões, em recusa à dominação romana, viviam a seu próprio modo, sem obedecer às leis romanas”. Eles devastaram o país. Nas raras fortalezas onde ainda havia resistência, os pedidos de ajuda multiplicaram-se, mas era muito tarde. O Império já não tinha meios de intervir.

Em 410, Honório, impotente, respondeu aos bretões que eles mesmos deviam enfrentar o perigo saxão. O Império Romano não renunciou formalmente à Bretanha, mas dali em diante sua influência sobre a ilha terminaria. Somente o sudeste resistiu durante algum tempo, mas como a rota marítima da região do Pas-de-Calais (no extremo norte da atual França) estava praticamente interrompida, o último bastião mergulhou no isolamento.

Alguns vestígios da organização política romana permaneceram entre os bretões em luta contra os saxões, como menciona a obra que descreve a vida de São Germano de Auxerre, que foi à ilha em 419. Por meio dela, ficamos sabendo que os saxões faziam incursões até as portas de Londres. Por ocasião de uma segunda visita dele, entre 440 e 444, a situação parecia ainda mais precária. Vários sintomas indicam que em meados do século V teria acontecido a derrocada da administração. Definitivamente, eram os últimos contatos dos bretãos com o continente.

História Viva
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Pesadelo africano

Gilles Lapouge*

Essa insurreição no Chade é algo muito grave para a África e também para a França e a União Européia. O árido Chade é muito pobre, vizinho do Sudão e da província sudanesa de Darfur, onde persiste uma guerra civil que já deixou 200 mil mortos. O governo do Sudão nada faz para impedir os ataques das milícias assassinas contra as população rural de Darfur.
A França tenta, desde que François Sarkozy assumiu o governo, socorrer a população golpeada pelos milicianos, tolerados, talvez armados, por Cartum. A ONU também tentou intervir para proteger esses infelizes de Darfur, mas Cartum impediu. Foi então que a França (o chanceler Bernard Kouchner e Sarkozy) tomou a iniciativa de formar uma força internacional estritamente européia, a Eufor, para tentar estabilizar a situação em Darfur.
O objetivo dessa força era, também, dar uma nova dimensão à União Européia, que tem sido acusada de não ter a mínima política externa comum. A Eufor iria reparar esse erro. Sarkozy instituía os primeiros rudimentos de uma futura diplomacia européia de peso.
Infelizmente, o Sudão rejeitou a entrada em seu território de qualquer força internacional, seja da ONU, da União Africana ou da União Européia - essa Eufor imaginada por Sarkozy. Considerando a agressividade do Sudão, a mobilização da Eufor não era fácil. Os outros países europeus fizeram-se de rogados para participar dela. Temiam cair numa armadilha, um vespeiro.
Sarkozy persistiu: ele queria a sua Eufor. O contingente teria 2.100 soldados franceses, ou seja, três quartos do total, o que aliás desagradou todo o mundo - não só o Sudão, mas também os outros europeus, e a França mais uma vez foi acusada de querer comandar tudo.
O governo sudanês detesta a Eufor: quando percebeu que a idéia de Sarkozy avançava, montou um pequeno exército de rebeldes chadianos, refugiados no Sudão e hostis ao governo legítimo de Ndjamena. E enviou essa coluna de insurgentes para a capital do Chade. Com sucesso.
Conseqüência: a Eufor que deveria ser mobilizada por esses dias, se abateu. Os contingentes austríacos e irlandeses já anunciaram sua renúncia. Assim, uma das grandes iniciativas humanitárias de Sarkozy parece, no momento, bastante comprometida. E os moribundos continuarão a morrer.
A boa vontade francesa é evidente e perfeitamente generosa. Seu fracasso demonstra mais uma vez que iniciativas tão complexas e sensíveis como essa exigem que sejam aplicadas com lentidão, circunspecção e profissionalismo, se possível não por um único homem, mas por equipes destemidas e que conheçam o terreno. O ex-presidente François Mitterrand tinha uma fórmula que ele apreciava muito e empregava com freqüência: “A política é uma arte. Uma arte, eu lhes digo.”
* Correspondente em Paris

Estado de S. Paulo

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Em busca de um acordo possível para Kosovo

Timothy Garton Ash

Em algum momento da próxima década, dois países europeus se integrarão à União Européia (UE). Eles se chamarão Sérvia e Kosovo (ou, possivelmente, Kosova, a grafia preferida pelos albaneses kosovares).

Os cronistas históricos observarão que um desses países fez parte do outro no passado. A Sérvia que se torna um membro da União Européia será um resto de Sérvia, uma sombra de que já foi, como a Áustria após a 1ª Guerra. Esse desfecho será alcançado por um longo vale de sangue, suor e lágrimas. Nas próximas semanas, quando a questão da independência de Kosovo se tornar candente, certamente teremos mais suor e lágrimas, mas podemos, com sorte e juízo de ambos os lados, evitar novo derramamento de sangue.

Esse resultado final não será inteiramente justo, como seria em um tribunal de justiça ideal. A história não funciona assim; na melhor hipótese, ela lida com a justiça bruta. Sérvios inocentes sofreram e morreram, e o mesmo aconteceu com albaneses kosovares inocentes. Eu me lembro de como esses albaneses kosovares penaram sob a chibata de Slobodan Milosevic. Enquanto escrevo, tenho na frente minhas próprias fotografias de famílias desalojadas, casas arruinadas, sangue sobre a neve. Conversei com mães desoladas tremendo entre escombros.

Mas também sinto as perdas sérvias. Aqueles exóticos mosteiros ortodoxos sérvios, as jóias arquitetônicas de Decani, Gracanica e Pec estão entre os primeiros lugares que visitei nos Bálcãs há mais de 30 anos, e eles continuam sendo as vistas mais belas do que, numa era mais religiosa, costumávamos chamar de terra de Deus. Agora, apesar de todos os entendimentos sobre proteção dos acordos internacionais propostos para Kosovo, eles serão ilhas em outro país, que só poderão ser alcançadas cruzando-se território habitado e controlado pelo que é, ao menos por enquanto, um povo hostil.

Eu não saberia traçar um balanço histórico que determine se esse resultado é justo. E quem, em que circunstâncias, tem o direito de autodeterminação, é um enigma que pensadores progressistas passaram 160 anos sem conseguir resolver. Mas, duas coisas eu posso afirmar com plena confiança. A primeira é que o ser humano especialmente responsável por essa perda sérvia é Slobodan Milosevic - que ele apodreça no inferno! - ajudado e encorajado por dois criminosos de guerra ainda em liberdade, Radovan Karadzic e Ratko Mladic. Jamais esquecerei as palavras que um monge melancólico me disse no Mosteiro de Decani, poucos dias depois que a invasão das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) expulsaram as forças sérvias, no verão de 1999. Foi Slobodan Milosevic, disse esse sacerdote ortodoxo sérvio, que “não só perdeu Kosovo, mas, destruiu completamente seu próprio povo, física e espiritualmente”.

A segunda coisa que afirmo com plena confiança é que esse será o resultado menos pior, não só para Kosovo, mas também para a Sérvia. A Sérvia não exerce nenhuma soberania efetiva sobre Kosovo desde o verão de 1999, com exceção das partes controladas por sérvios ao norte do Rio Ibar. Em seus corações, a maioria dos sérvios sabe que Kosovo está perdido; mas, quase ninguém na política sérvia admitirá isso publicamente. Assim, Kosovo é uma ferida ulcerada no organismo político sérvio, impedindo políticos, autoridades e jornalistas do país de se concentrarem nas coisas que realmente importam para o bem-estar de seu povo. Sim, trata-se de uma amputação - mas, às vezes, mesmo com a tecnologia médica do século 21, é melhor para o paciente que um membro gangrenado e mutilado seja amputado.

A questão concreta agora não é se esse é o desfecho correto, mas como ele será alcançado. A melhor maneira de avançar tem sido bloqueada pela intransigência da Rússia de Putin. Essa maneira - para a qual o enviado especial da ONU para Kosovo, o ex-presidente finlandês Martti Ahtisaari, e outros negociadores trabalharam duro - seria o Conselho de Segurança da ONU tirar uma resolução referendando o chamado Plano Ahtisaari. Esse propõe um curso de independência supervisionada para Kosovo, com proteção e autonomia abrangente para locais sagrados, comunidades e municípios sérvios. A Rússia não está prestando nenhum serviço a seus parceiros eslavos ortodoxos na Sérvia, ou a si mesma, em sendo sanguinária; mas, sanguinária ela tem sido, e sanguinária ela parece que continuará sendo depois das recentes eleições russas.

A pior maneira de avançar seria o novo governo kosovar, sob a chefia do ex-comandante do Exército de Libertação de Kosovo, Hashim Thaci, tomar a decisão apressada de uma “declaração unilateral de independência”. Isso poderia provocar uma reação furiosa das autoridades em Belgrado (especialmente agora, na corrida para uma eleição presidencial), incluindo, talvez, um bloqueio comercial e energético; para não mencionar uma possível retórica de olho por olho da chamada República Sérvia na Bósnia.

A melhor maneira de avançar atualmente, na falta de um consentimento russo, é o que negociadores estão chamando de “declaração coordenada de independência”. O novo governo kosovar avançaria para seu acalentado objetivo nos próximos três meses, mas em estreita coordenação com a União Européia e outros parceiros internacionais. Tanto o cronograma como a forma seriam acertados. Os kosovares albaneses associariam explicitamente sua proclamação histórica à aceitação do Plano Ahtisaari, incluindo uma nova agência internacional para supervisionar a gestão do proto-Estado, uma presença de segurança contínua da Otan, e compromissos de adotar uma Constituição liberal e proteger direitos de minorias. Se tiver suficiente coragem e sabedoria, Thaci tornará seu compromisso multiétnico dramaticamente visível dizendo algumas palavras generosas e bem escolhidas em sérvio para marcar a ocasião.

Embora apoiada pelos EUA, a Otan e, até onde a Rússia permite, a ONU, a União Européia assumiria um papel destacado nos novos arranjos - afinal, Kosovo faz parte da Europa, e não de Wisconsin - e os colocaria na perspectiva maior de se tornar um Estado integrante da UE. Essa perspectiva não deveria se limitar a Kosovo, porém. Ela deve ser estendida à região toda.

INGRESSO NA UE

A UE acaba de assinar o que no “jargão europeu ” é conhecido como um “acordo de estabilização e associação” com a Bósnia - um passo importante para um eventual ingresso do país na UE. A UE deve deixar cristalinamente claro, na diplomacia pública voltada para o povo sérvio, que ela deseja muito fazer o mesmo pela Sérvia - no dia seguinte ao que os dois criminosos de guerra Karadzic e Mladic forem entregues.

Mais ainda, os kosovares deveriam ser persuadidos, dentro do possível, a esperarem até 3 de fevereiro, a data atualmente programada para o segundo turno da eleição presidencial na Sérvia, num esforço para garantir que um último espasmo emocional entre os sérvios não catapulte um extremista para o cargo presidencial em Belgrado. (Não se deve permitir, porém, que a Sérvia postergue ainda mais a independência de Kosovo simplesmente adiando a sua eleição.) A declaração de independência coordenada de Kosovo, em fevereiro de 2008 no mínimo, será acompanhada assim por essa forte oferta européia para os sérvios: trocar a concha residual de soberania formal sobre Kosovo pela chance prática de um futuro melhor na UE. Com suas bocas, a maioria dos sérvios ainda dirá “não”; em seus corações, ela poderá começar a dizer “sim”.

Jornal Estado de S. Paulo
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O mundo refém das finanças

Por que o estouro da bolha imobiliária dos EUA é uma ameaça à economia internacional. Quais as novas formas de especulação nos mercados financeiros, e de que modo elas podem propagar a crise. Como os grandes bancos e fundos de investimento transferem a conta de sua irresponsabilidade para os Estados e sociedades

Frédéric Lordon

Há dois séculos, Hegel deplorava a incapacidade crônica dos Estados de aprender com as experiências da história. Os governos não são os únicos poderes incapazes de aprender. O capital – notadamente o financeiro – também parece condenado à perseverança no erro, à aberração recorrente e ao eterno retorno da crise financeira. Apesar de envolver novos “produtos”, a atual crise dos mercados de crédito permite entrever, uma vez mais, os ingredientes quimicamente puros do desastre. Também oferece, a quem quiser enxergar, uma oportunidade a mais para refletir sobre as “vantagens” da liberalização dos mercados de capitais.

É que a crença financeira não se dissipa com facilidade. Logo ela, que se vangloria de ser a encarnação do princípio de realidade, que submete as empresas à “validação dos fatos”, segundo os critérios do “reporting” (prestação de contas trimestral) e do “track record” (histórico de desempenho), mantém-se ignorante do que a história recente — sua própria história — lhe entrega de bandeja. É que o “track record” da liberalização financeira não tem boa reputação. Desde que ela se impôs, tem sido difícil passar mais de três anos seguidos sem um incidente de envergadura. Quase todos poderiam figurar nos livros de história econômica: 1987, quebra dos mercados de ações; 1990, quebra dos “junk bonds” (“títulos podres”) e crise das “savings and loans” (instituições financeiras de poupança e empréstimos) norte-americanas; 1994, crise de debêntures norte-americanos; 1997, primeira fase da crise financeira internacional (Tailândia, Coréia, Hong Kong); 1998, segunda fase (Rússia, Brasil); 2001-2003, estouro da bolha da Internet.

E aqui estamos nós, em 2007. Leitura dos devotos: “A globalização é auspiciosa, mas dolorosa” [1]. No Le Monde, Pierre-Antoine Delhommais deleita-se com a resistência da besta diante de tantos choques de vulto — que parecem prestes a matá-la, apenas para vê-la reerguer-se caminhar com ânimo renovado. Omite-se quanto custou, aos assalariados, pagar a conta da embriaguez financeira em cada ocasião. Invariavelmente, o solavando dos mercados atinge os bancos, e portanto o crédito; em seguida, os investimentos, o crescimento e o emprego.

Seria necessário quem sabe, que o jornal fosse adquirido por um fundo de investimentos um pouco impiedoso para que, ao viver a experiência concreta do “downsizing” (“enxugamento”), o jornalista se visse mais impelido a calcular o número de empregos destruídos em função das práticas do mundo financeiro e de suas crises.

A crise dos mercados de crédito que castiga a economia norte-americana oferece uma visão quase ideal das relações fatais da especulação desenfreada. Como em uma parada, desfilam novamente as toxinas gerais do mundo financeiro, sempre as mesmas e numa ordem absolutamente idêntica: 1. as tendências “Ponzi” da especulação; 2. a lassidão das avaliações de riscos na fase de alta do ciclo financeiro; 3. a vulnerabilidade estrutural a uma pequena mudança de ambiente e o efeito catalizador de um enfraquecimento pontual do sistema, que precipita a reviravolta; 4. a revisão instantânea das estimativas; 5. o contágio de outros setores do mercado; 6. o choque dos bancos excessivamente expostos; 7. a ameaça de um acidente sistêmico, ou seja, de um colapso global, seguido de uma recessão generalizada por estrangulamento do crédito e um pedido de socorro aos bancos centrais feito por todos os fanáticos da livre iniciativa privada.

1. AS TENDÊNCIAS “PONZI” DOS MERCADOS
Como “pirâmides da felicidade”, as bolhas especulativas apóiam-se numa hipótese impossível: a de que novos investidores sempre entrarão na ciranda, para sustentar os ganhos dos que chegaram antes

Provavelmente, ninguém melhor do que Hyman Minsky evidenciou os encadeamentos da economia de mercado, resumidos por ele na eloqüente expressão “cegueira ao desastre” [2]. Minsky dedicou particular atenção aos distúrbios provocados por Charles Ponzi, especulador dos anos 20, que iludiou pessoas ingênuas, seduzidas por promessas de rendimentos extraordinários. Na falta de qualquer ativo real capaz de cobrir os rendimentos anunciados, Ponzi oferecia a seus primeiros clientes o capital aportado pelos que vinham depois. A sustentabilidade do conjunto supunha, portanto, a manutenção infinita do fluxo de novos clientes.

Próximas à fraude, todas as bolhas especulativas baseiam-se num mecanismo bastante semelhante. Elas requerem uma entrada constante de investimentos, para manter o mercado em alta e a ilusão de que, assim, todo mundo ganha. O segredo da bolha é a adesão especulativa. Investimentos de alta rentabilidade atraem aplicadores cada vez mais comuns — portanto, cada vez menos esclarecidos, porém mais numerosos.

Para que o crescimento do mercado imobiliário norte-americano se prolongasse, se possível ad aeternum, era necessário que grupos cada vez mais significativos de famílias fossem levados a procurar o mercado de empréstimos hipotecários. Com a ajuda do sonho norte-americano de ser proprietário, não foi difícil convencê-los no início. Escaldados pela queda das ações no estouro da bolha da internet, eles estavam à procura de outras formas de investimento. Mas o contingente de tomadores de empréstimo “saudáveis” esgotou-se rapidamente. Como o mercado precisava imperativamente ser sustentado, as instituições financeiras foram à procura de novos clientes. Os rios de dinheiro emprestados levaram os preços dos imóveis às alturas.

Mesmo que não seja possível manter o pagamento da dívida, famílias e emprestadores julgam que o imóvel poderá ser vendido com valorização para uns e comissão para outros. A crença no crescimento incessante do mercado leva a aprovar qualquer empréstimo. As torneiras do crédito são abertas por completo, e a alta especulativa parece dar razão a todos. Surge a categoria das hipotecas de segunda linha (subprime mortgages) — cujos beneficiários têm capacidade de pagamento mais que duvidosa. Como a euforia está no auge, todos os limites podem ser ultrapassados. Criam-se figuras como os empréstimos “Ninja”: “No Income, No Job or Asset”, ou seja concedidos a clientes, “sem renda, sem emprego ou sem ativo (a ser dado como garantia)” — e o champanhe de brinde, talvez.

2. LASSIDÃO NAS AVALIAÇÕES DE RISCOS
Fantást