Arquivo de 5 de Fevereiro de 2008

Os amores de Sarkozy

O romance entre o presidente francês e a cantora Carla Bruni rompe estruturas. Bruni, “monógama só de vez em quando”, apoiou publicamente a candidata rival Ségolène Royal

J. M. Martí Font

A França de Nicolas Sarkozy “é uma comédia de Lubitsch”, diz o diretor de cinema Claude Chabrol, para quem o presidente francês tem um “falso ar no estilo Louis de Funes”, embora não controle tão bem seus tiques quanto o extraordinário comediante, que se servia deles para atuar. “É um homem inteligente que reflete pouco”, acrescenta, “um sujeito que tenta ser querido por todo mundo” e que “tem seu lado sedutor, um aspecto sorridente, agitado, e que deve ser muito amável com as mulheres”.

Não é preciso ser psicanalista para descobrir o papel central que as mulheres têm na vida de Sarkozy. Nem para perceber que o divórcio de sua segunda esposa, Cécilia, foi um duro golpe que só sua atividade transbordante impediu que lhe causasse danos. E apesar de não fazer nem dois meses que o Palácio do Eliseu admitiu o que toda a França já sabia, o presidente já encontrou uma substituta: ninguém menos que a bela ex-modelo e cantora de origem italiana Carla Bruni, cuja semelhança com sua antecessora é mais que surpreendente.

Dizem que os homens buscam sempre a mesma mulher, que não é outra senão sua mãe. Foi exatamente a mãe dele, Andrée, quem preencheu nas últimas semanas o vazio deixado por Cécilia, aparecendo subitamente em primeiro plano. Depois de passar praticamente despercebida durante a campanha eleitoral, agora dá entrevistas, opina sobre tudo e inclusive acompanha seu filho em viagens oficiais, como na que fez recentemente à China.

Andrée é uma mulher forte que terminou o curso de direito e começou a exercer a advocacia quando precisou cuidar sozinha dos três filhos que teve com seu marido, Pal Sarkozy, um elegante aristocrata húngaro que a abandonou por uma bela compatriota. O problema das mulheres fortes, como Cécilia, Andrée ou Carla Bruni, é que não são manipuláveis.

Sua nova namorada tem uma merecida fama de devoradora de homens. A lista de suas conquistas é realmente impressionante: desde os músicos Mick Jagger e Eric Clapton aos atores Kevin Costner, Charles Berling e Vincent Perez ou o multimilionário Donald Trump, assim como um punhado de políticos e intelectuais como o advogado Arno Klarsfeld ou o ex-primeiro-ministro francês Laurent Fabius, e também Raphaël Enthoven, pai de seu filho Aurelien, de 6 anos, o intérprete de uma canção em que a define como “um diabo do amor”.

“Sou monógama de vez em quando, mas prefiro a poligamia e a poliandria”, confessou Bruni ao semanário “Figaro Magazine” em uma entrevista em fevereiro passado. “O amor dura muito, mas o desejo ardente não mais que duas a três semanas”, acrescentou.

Bruni também faz parte da abertura à esquerda do presidente Sarkozy, que não se cansa de roubar seus ministros das fileiras socialistas. A ex-modelo deixou bem claro que sua candidata nas últimas eleições foi Ségolène Royal, e há apenas um mês assinou um manifesto contra a política de imigração de Sarkozy, devido à introdução dos testes de DNA para o reagrupamento familiar [imigrantes que são admitidos no país para reunir-se a familiares já imigrados].

Já se atribuíram histórias sentimentais ao inquilino do Eliseu mesmo antes do anúncio de seu divórcio. O romance atual começou em 3 de novembro, duas semanas depois de sua separação, quando recebeu uma comissão formada por artistas e gente do mundo dos espetáculos que havia feito um relatório sobre pirataria na internet, entre os quais se encontrava Bruni. No início de dezembro, o publicitário Jacques Séguéla -alcoviteira improvável- ofereceu em sua casa um jantar para editores, escritores, jornalistas, Nicolas e Carla.

O que aconteceu naquela noite? Alguns dos presentes saíram convencidos de que houve algo entre o presidente e a cantora. E alguns dias depois a dupla foi fotografada passeando pelos jardins do Palácio de Versalhes, acompanhada de ninguém menos que Andrée Sarkozy. Dizem que as imagens eram de má qualidade e não permitiam arriscar palpites, e por isso não foram publicadas.

Mas os grandes caçadores de exclusivas, encabeçados pelo imprescindível Pascal Rostain, já se postaram em frente à casa de Bruni. E finalmente no último dia 15, um sábado, apareceu a comitiva do chefe de Estado, e a modelo-cantora e seu filho subiram no carro oficial. Quarenta quilômetros depois eles desembarcaram na Eurodisney, onde se deixaram fotografar com toda a naturalidade. No domingo à noite a notícia saía na edição eletrônica do “L’Express”. Na segunda-feira era capa em toda a imprensa.

Ela admitiu o namoro através de um amigo jornalista. O Eliseu não comentou, mas também não negou. E na terça-feira o presidente se fortaleceu, saboreando sua imagem recuperada de macho satisfeito. Em uma visita ao Museu do Parque Natural de La Camargue, a cavalo, como manda a tradição nessa região de pecuaristas, com uma manada de cavalos brancos ao fundo, seguido por um grupo de jornalistas, ele brincou com a imprensa. Na pequena prefeitura de Saintes Maries de la Mer, enquanto observava um grande mapa da região, um jornalista lhe perguntou:

“O que é que o inspira, senhor presidente, a beleza… da paisagem?”

“Ora, já sei aonde você quer chegar com esse sorriso…”

“Presidente, o incomoda a divulgação na mídia de seu namoro com Carla Bruni?”

“Por que me pergunta isso? Para divulgar na mídia?”

“Para saber…”

“Me faz uma pergunta sobre divulgação na mídia para divulgá-la. Bem, a resposta é não. Você faz seu trabalho, mas eu não tenho muita certeza…”

“É porque isso o incomoda?”

“Não, não me incomoda.”

Ele é acusado, com razão, de manipular a mídia e encobrir com ruído midiático seus problemas políticos. O anúncio do divórcio de Cécilia ocorreu durante uma grande greve, que a ruptura do casal relegou ao segundo plano. O episódio de Carla Bruni serviria apenas para fazer esquecer as humilhações que lhe infligiu o presidente líbio, Muammar Gaddafi, durante sua absurda estada parisiense.

Segundo Marine Le Pen, a vice-presidente da Frente Nacional, de extrema-direita, não passa de “um conto de Natal barato, uma cortina de fumaça para fazer esquecer os verdadeiros problemas do país”.

El País
http://www.elpais.com/

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A tecnologia a serviço da pedagogia

Novas tecnologias permitem que o professor use, na sala, os recursos da internet para fazer pesquisas e tornar a aula interativa

Tânia Nogueira

CINEMINHA
Imagens tridimensionais fazem da aula de Ciências um sucesso de público: os alunos não perdem nada

"Dá um Google Earth!", grita a garotada. No ambiente escuro, alunos da 5a série do ensino fundamental do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo, dão os últimos retoques em trabalhos multidisciplinares. Numa grande tela, diante da turma, o professor de Português Marco Urrea pergunta: "Onde fica Ouro Preto?". Os alunos pedem o Google Earth, recurso do site de buscas que mostra fotos de satélite de todo o planeta. "Não adianta digitar", diz um menino. "Tem de ir com o cursor", afirma uma garota. Um dos autores do trabalho vai até a tela, onde já se vê uma foto aérea do Brasil. Com a ajuda da caneta do professor, amplia a área escura a sudeste de Belo Horizonte, até que se enxergue cada uma das igrejas da cidade histórica.

Professor e alunos trabalham em uma lousa digital, equipamento que vem sendo adotado em algumas escolas particulares de elite do país. Em busca de interatividade, e para aumentar a autonomia do aluno no processo de aprendizado, muitos colégios têm o equipamento em seus laboratórios de informática, para aulas especiais. Mas os gestores do Miguel de Cervantes decidiram dar um passo além: estão instalando lousas digitais em todas as salas.

Ligado a um computador, o equipamento funciona como um palm top gigante - mas com muito mais recursos (veja o quadro nesta matéria). A tela é igual a um quadro de fórmica branca, desses usados para escrever com pincel mágico. Mas serve também para receber projeções. Nela, professor e alunos trabalham com programas como Word, PowerPoint e Excel e navegam pela internet. Usam softwares como o P3D, programa desenvolvido em parceria entre a empresa que dá nome à ferramenta e a Cidade do Conhecimento, centro de pesquisa de novas tecnologias da Universidade de São Paulo. O software usa figuras e cenários tridimensionais, animados e interativos, para transmitir conteúdos tradicionais, como a anatomia dos ossos humanos ou a estrutura do Sistema Solar.

Ter o equipamento à disposição a qualquer momento garante que a inovação se integre ao projeto pedagógico da escola e mude o ritmo do aprendizado. "A tecnologia deixa de ser usada para ensinar informática e passa a transmitir o conteúdo de várias matérias", diz Antonio Abello, professor de Cultura Espanhola. As lousas digitais e os computadores não são usados o tempo todo, mas são um recurso precioso. "A aula pode ir para um lado inesperado", diz Catherine Zajakoff, professora de Ciências. "Se um aluno faz uma pergunta que foge do programado, posso abrir a internet e buscar uma imagem para ilustrar melhor o que estou explicando."

EXPLICAÇÃO
Os estudantes acompanham todos os comandos do professor

A reforma das salas começou no início do ano. Inclui instalação de estrutura de home theater, com isolamento acústico, luminosidade e temperatura controladas. Dezesseis das 70 salas do colégio já funcionam no novo modelo. A reforma começou pelo ensino infantil e pelas 5as e 6as séries do ensino fundamental. Elas ficam no prédio mais antigo, de 1978. Foi nesse ano que a escola bilíngüe, ligada ao governo da Espanha, foi fundada. Até 2009, a mudança deverá atingir todas as salas. Segundo a diretora-pedagógica, Amélia Farré Salazar, já é possível perceber alguns resultados da inovação. "O interesse pelas aulas cresceu", diz. A resposta não pode ser medida cientificamente, mas a proposta não é essa. Desde 2004, o Miguel de Cervantes trabalha com lousas digitais nos laboratórios de informática. A boa aceitação tanto de alunos como de professores foi o principal motivo da opção pelas salas tecnológicas. A adaptação já custou R$ 2,6 milhões aos cofres da escola, entre reformas e compra de equipamentos (cada lousa custa R$ 6 mil). Mas nada disso significou aumento no valor das s mensalidades, que variam de R$ 1.200 a R$ 1.800, dependendo da série e da carga horária. Segundo o diretor-administrativo, Roberto Veloso, a escola não seguiu nenhum modelo de sucesso internacional. "É uma experiência", diz ele. "Mas não é uma experiência inconseqüente. Nossos alunos têm internet, banda larga e TV a cabo em casa. Apenas colocamos o professor no mundo dos estudantes."

Um deles é Gustavo Giraldes, de 11 anos. Ele curte brincar no quintal com seus cachorros, mas gostaria mesmo é de jogar no computador. Só que a regra, em sua casa, determina jogos de computador apenas aos fins de semana. Ele está entusiasmado com a novidade na escola. "Ficou mais divertido", diz. "Na aula de Espanhol, por exemplo, a professora vem com tudo pronto e não precisa ficar escrevendo a lição na lousa. A gente começa logo a resolver as questões." Apesar da familiaridade dessa nova geração com a tecnologia, pequenos truques deixam as crianças espantadas. Quando a professora pega a caneta - que funciona como um mouse - e movimenta a figura tridimensional de um olho humano projetado na tela, ouve-se um "Ohh!!". Os alunos observam, impressionados, enquanto a figura se desdobra em córnea, íris, cristalino, retina.

Segundo Viviane Gabriel Ferreira, professora de Novas Tecnologias, a lousa prende a atenção mais que outros recursos, como computadores em rede ou laptops individuais. "O aluno acompanha todos os passos", diz. "Se cada uma está num computador, mesmo em rede, a criança pode não perceber onde cliquei ou como abri determinada janela. Na lousa, ela vê minha mão clicando no botão. Posso pegar a caneta e fazer um círculo em torno de algo que quero destacar. Além disso, lembra uma tela de cinema."

Revista Época

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Um menino inovador

ESPECIALISTAS
Aos 8 anos, Rafaela (à esq.) e Ana Letícia já deram palestras para os colegas

Ana Letícia dos Santos Gomes sobe num púlpito e começa a apresentar o mito de Pandora aos colegas. "Os deuses criaram Pandora, a primeira mulher", diz. "Ela abriu a caixa onde estavam guardados todos os males do mundo: a inveja, o ódio, a dor… Quando abriu a caixa, Pandora ficou com medo de tantas maldades e a fechou. Mas quase tudo já tinha saído. A única coisa que ficou presa lá dentro foi uma maldade que poderia matar a esperança." Aos 8 anos de idade, Ana Letícia é a especialista em mitologia grega de sua turma, uma classe de 1ª série do ensino fundamental. Ela mesma escolheu o tema. Rafaela Crisóstomo, de 8 anos, sabe tudo sobre o folclore brasileiro. Adepto do método criado por Lauro de Oliveira Lima, educador cearense de 85 anos, o Colégio Art & Manha, em Fortaleza, incentiva os alunos a trazer informações para a sala de aula - e a palestra de Ana Letícia faz parte dessa filosofia.

De acordo com Oliveira Lima, o professor não deve ensinar. Ele apenas ajuda o aluno a aprender. "A idéia de ensino será substituída pelo auto-aprendizado", afirma Oliveira Lima. É possível s identificar as teorias dele no dia-a-dia dos alunos da escola em Fortaleza. Pouco antes de Ana Letícia começar sua palestra, ela e os colegas de turma debatem o quadro de regras, sistema que estabelece as normas de convivência entre os alunos. Mariana Gurgel, de 7 anos, não está de acordo com a obrigação de chegar na hora. "Às vezes a pessoa está com preguiça e se atrasa", afirma. Ninguém aceita a consideração. Chegar atrasado permanece no quadro como um comportamento proibido - assim como furar fila, deixar material espalhado pela sala e brigar. Durante a discussão, a professora atua apenas como mediadora.

ESTRÉIA
Os alunos vão gravar um CD em estúdio, com músicas de Tom Jobim

Diretora-pedagógica do colégio, Celeste Alexandre Pinto diz que o objetivo é despertar os alunos para situações e problemas coletivos. "Tudo é compartilhado, até o material escolar é coletivo", afirma ela. "Se um aluno está usando um lápis vermelho e o outro também quer, tem de pedir, substituir por outra cor ou esperar que o colega termine." A resolução de conflitos segue a mesma linha. As crianças solucionam tudo entre si. A cada semana, um aluno fica responsável por um posto de chefia. Beatriz Soares de Albuquerque, de 7 anos, era "chefe da paz" na semana em que ÉPOCA visitou a escola. Sua função: evitar desentendimentos e administrar pedidos de desculpa em caso de briga. "É feio colocar o pé no caminho para fazer alguém cair", diz ela. O método usado na Art & Manha prevê também que os professores não apontem os erros dos alunos. A correção das redações não traz círculos de caneta vermelha em torno dos deslizes de grafia ou pontuação. Símbolos no cabeçalho indicam um problema de gramática ou de acentuação, e o próprio aluno tem de descobrir o erro que cometeu. Claro que vale pedir socorro à professora.

Há outras inovações curiosas. A sala dos professores tem camas para os horários de descanso. As crianças recebem aulas de música desde o berçário. Neste ano, um concurso interno elegeu a classe da 2ª série para gravar em estúdio um CD com músicas de Tom Jobim. Uma nutricionista conduz visitas periódicas à cozinha, onde é preparado o lanche coletivo de cada dia. As mensalidades têm um preço inferior à média - começam em R$ 260. Os pais dos 230 alunos matriculados podem oferecer serviços em troca de abatimento nos pagamentos, caso o orçamento familiar esteja apertado. Um dos pais, engenheiro, renovou a instalação elétrica do colégio. Outra mãe, arquiteta, trocou o piso. A diretora diz que planeja ir além da 4ª série e já pensa em criar turmas até a 8ª série do ensino fundamental. A notícia faz a alegria de Ana Letícia, Rafaela, Mariana e Beatriz. Elas dizem não pensar em mudar de escola tão cedo.

 

Leitor de ÉPOCA, Dalton Ferreira quer adotar em sua escola uma idéia que conheceu em reportagem da revista

VISITA
Dalton foi visitar o Colégio Opet, em Curitba

A reportagem sobre a cidade mirim do Colégio Opet, em Curitiba ("A cidade gerida por crianças", edição 445), foi devorada pelo leitor Dalton Augusto Alves Ferreira, de 9 anos. O menino diz que ficou encantado com a simulação de ruas, banco, supermercado e - mais importante - prefeitura e câmara municipal. Aluno da 3ª série de uma escola em Paranaguá, Paraná, Dalton escreveu para a redação de ÉPOCA pedindo para conhecer o Colégio Opet. Dez dias depois, foi recebido pelo prefeito da cidade mirim. "Vou conversar com o diretor da minha escola e ver se ele faz uma cidade parecida", diz Dalton. De espírito empreendedor, ele já tentou por duas vezes fazer uma eleição em sua escola. Diz não ter conseguido por falta de candidatos. Em casa, montou um clube no qual discute com os amigos uma lei para impedir que sua turma brigue com os meninos da outra rua. "Eu queria ser vereador para inventar leis, diminuir a violência e multar quem joga lixo no rio", afirma. Dalton parece ter abraçado a proposta da série Escolas Inovadoras: espalhar boas idéias pelos colégios do país.

Revista Época

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,5855,00.html

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O Carnaval em Berlim

Pela primeira vez houve um grande desfile carnavalesco na cidade, pois era carnaval pelo mundo afora. Essa inovação berlinense revela o afã de marcar a nova era da cidade depois da reunificação, voltando ela a ser a capital do país.

Flávio Aguiar - Carta Maior

Berlim passou por dias agitados recentemente. Na sexta e no sábado houve greve nos transportes municipais. Param o metrô e os ônibus. Ficaram funcionando os trens suburbanos, que fazem uma espécie de perimetral dentro do centro ampliado da cidade e se comunicam com os lindes da conurbação berlinense.
Foi uma grande confusão. O motivo da greve é salarial, mas haverá certamente conseqüências sobre os preços das passagens, que já são caras, ainda que em termos de capitais européias não sejam das piores. Uma passagem comum custa 2,10 Euros, ou seja, com o câmbio a 1 EU$ = 2,70 R$, que é o preço real que os bancos cobram do freguês no Brasil, ela sai a quase R$ 5,70. Dá direito a percorrer duas horas nos ônibus e linhas de metrô da cidade, desde que não seja na linha de volta daquela em que foi originalmente comprada. Há a “Kurzstrecke”, “Trajeto curto”, que dá direito a um pequeno número de paradas numa única linha e direção a EU$ 1,20, ou seja, quase R$ 3,15. Há passes semanais, familiares, de fim de semana, etc. O mais importante é o “Monatskarte”, passe mensal, que custa EU$ 70,00 ou R$ 189,00. No fim de semana um passageiro com uma passagem tem o direito de levar um convidado que não paga.
Deve-se ressaltar: o sistema, se é caro, é bom, eficiente, confiável e seguro. Em Berlim, não se precisa de carro,a menos que haja crianças pequenas no pedaço, por exemplo, ou se seja médico, ou algo assim. E táxi é coisa de rico, ou para emergências ou transporte de malas muito pesadas. Ainda nos dias muito frios, quando as temperaturas vão pra dezena abaixo de zero ou nas vizinhanças, as estações de metrô ficam abertas a noite inteira, para dar abrigo aos desabrigados, que não são relativamente muitos, mas não são poucos.
De todo modo, sexta e sábado foram dias atípicos: os táxis todos ocupados, além de multidões e multidões em marcha pelas ruas de Berlim.
E o domingo também foi um dia atípico. Pela primeira vez houve um grande desfile carnavalesco na cidade, pois era carnaval pelo mundo afora. Na Alemanha a cidade que tem tradição carnavalesca é Colônia, onde há desfiles durante o feriado de Momo. O desfile de Berlim seguiu uma mistura da tradição de Colônia, em que desfilam carros alegóricos com aquelas fantasias das cortes aristocráticas de antanho, com a tradição berlinense (essa sim) do Carnaval das Culturas, que se realiza na primavera, no dia de Pentecostes.
Pra quem não lembra ou nunca soube, o dia de Pentecostes é aquele em que os apóstolos e a Virgem Maria (na tradição apócrifa Maria Madalena também) receberam o dom das línguas, isto é a de falar todas elas, do Espírito Santo. Naquelas épocas o “todas elas” era, sobretudo, o grego, que era a língua franca no Mediterrâneo, além do latim, que era a língua dos Estados Unidos de então, Roma. No santinho esse dia aparece como a reunião de Maria e dos apóstolos com aquele foguinho na cabeça, que é uma representação do Espírito Santo, que baixou ali naquele terreiro com os métodos de ensino oral intensivo, já que nem todos ali iriam escrever, que era coisa, sobretudo, para Paulo (que veio depois) e os evangelistas ou seus secretários que, de acordo com a tradição profética, eram aqueles que de fato escreviam o que os outros ditavam.
O resultado dessa inovação berlinense, que revela o afã de marcar a nova era da cidade depois da reunificação, voltando ela agora a ser a capital do país, foi uma mistura de desfile de carros alegóricos, alguns com rock, funk, outros com música caribenha, brasileira ou africana, com desfile de bandas e fanfarras, com os trajes típicos desse “fake” do século XVIII que descende também do cinema de capa e espada e outros de glamourização desse passado. Todos os participantes, e não eram poucos (o desfile parou a avenida Kurfurstendam, uma das principais da cidade e a mais importante da antiga Berlim ocidental), jogavam balas e caramelos para os espectadores (que também não eram poucos). Uma das balas me acertou na cabeça, e devo dizer que não foi mole, acho que porque o atirador, sem experiência nesse tipo de esporte, se comportou como tal de fato e jogou-a com vontade de acertar o escolhido, isto é, a involuntária vítima de seu involuntário gesto.
O desfile provocou reações contraditórias. As crianças, é claro, estavam entusiasmadas. Muitos adultos (vários fantasiados de tudo o que se possa imaginar) também. Mas havia quem considerasse aquilo uma imitação de Colônia, e pior ainda, uma imitação desenxabida do Rio ou de outros carnavais.
Não concordei. É claro que pelo mundo há muito pouco que se compare ao trepidante carnaval do Rio que, apesar de sua transformação em evento municipal, estadual, federal e, sobretudo, Global, guarda ainda aquele embalo de povão, cuja tradução para outras línguas é penosa, como já comentei aqui na Carta Maior. Mas argumentei que festa é festa, e que mesmo no frio de zero grau que fazia, era melhor ver a mistura de bandas e fanfarras com carros alegóricos e música popular do que outros desfiles que já desfilaram por estas terras, inclusive os dos ocupantes do pós-guerra, e que dessa alegria, algo de bom sobrará, nem que seja para aquelas crianças e seu futuro. E assim ficamos os amigos na conversa embalada pelos goles da excelente cerveja servida nos pequenos e finos copos típicos de Colônia.
Na segunda-feira, 4 de fevereiro, tudo normal. Sem greve, sem carnaval, Berlim caíra na azáfama (ô palavrinha) habitual. Todo mundo trabalhando. Explique-se: na prussiana e protestante Berlim do norte da Alemanha, não há essa lassidão católica de feriados às pencas. Aqui impera o espírito descrito por Max Weber, capitalismo e religião deram-se as mãos banindo os feriados. Há pouquíssimos ao longo do ano: o tal dia de Pentecostes, a Sexta-Feira Santa, o Natal, o Ano Novo, o dia da reunificação alemã e meio que fica por aí. Talvez esteja me escapando algum, mas de tão desimportantes que são os feriados por aqui. E nada de feriadão: o feriado cai na quinta? Na sexta e no sábado está todo mundo trabalhando! Haja coração!
E todo mundo está à espera da próxima greve nos transportes. Porque os trabalhadores desse setor, seguindo o exemplo recente de seus colegas ferroviários, optaram por esse modelo de greve intermitente, ao invés de uma paralisação geral e contínua que fosse para o confronto, o que poderia jogar de uma só vez o conjunto dos usuários (eu ia dizer “povão”, mas aqui não há isso…) contra eles.
Aderindo aos novos costumes aqui estou eu, numa segunda-feira de Carnaval, enviando minha missiva para a Carta Maior. Mas levo a boa lembrança desses dias atípicos, inclusive o do domingo. Ele prova, pelo menos no meu argumento, que com precariedades ou não, toda a terra é boa para a alegria, e como já se apregoou de outras saudosas latitudes e longitudes, nela, em se plantando coisas boas, ela dá de volta.

 

Carta Maior

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Apagões ameaçam o forte crescimento da África do Sul

Barry Bearak e Celia W. Dugger

No início, os blecautes pareciam ser apenas um pequeno transtorno. Faltava energia elétrica duas ou três horas seguidas, duas ou três vezes por dia. Os locutores de rádio faziam piadas, aconselhando os ouvintes a fazer as suas torradas matinais esfregando vigorosamente duas fatias de pão uma contra a outra, e mencionavam jocosamente supostas vantagens amorosas decorrentes da escuridão extra.
Mas após três semanas de apagões crônicos - depois de irritações regulares devido a computadores desligados, fogões inertes e semáforos apagados - a paciência da população deu lugar à indignação. Esta nação, que há muito tempo é um reduto confiável de eletricidade barata e abundante, vê-se em situação lamentável. O governo confessou que há uma "emergência elétrica", e deu início a um programa de racionamento para os usuários industriais. Isso é uma modificação humilhante para um país que se considera a usina de força da África, e que repele as comparações com os seus vizinhos subdesenvolvidos e flagelados pela fome.
Mas os racionamentos de eletricidade, que atualmente calcula-se que farão parte do cotidiano dos sul-africanos pelos próximos cinco anos, são mais do que um uma situação embaraçosa. Eles ameaçam o vigoroso e contínuo crescimento aqui, em uma nação que responde por um terço da economia da África subsaariana, e que se encontra entre os 25 países de maior produto interno bruto.

Como a África do Sul é um motor de crescimento para a região, um desaquecimento aqui afetaria também os seus vizinhos, minando iniciativas globais para a redução da pobreza e prejudicando a própria tentativa sul-africana de reduzir o seu lamentável índice de desemprego de 25,5%.
Uma das maiores empregadoras deste país, a indústria mineradora, praticamente suspendeu a produção durante quatro dias na semana passada porque a Eskom, a empresa estatal de energia elétrica, não foi capaz de garantir eletricidade suficiente para ventilar e resfriar as minas escavadas a grandes profundidades. As companhias que mineram ouro e platina só retomaram a produção na terça-feira depois de negociações de emergência com a Eskon, segundo informou a Câmara de Mineração da África do Sul.
"A paralisação da indústria mineradora é um fato extraordinário e sem precedentes", afirma Anton Eberhard, professor da escola de administração empresarial da Universidade da Cidade do Cabo e especialista em energia. "Essa foi uma mensagem poderosa, prejudicando maciçamente a reputação da África do Sul no que diz respeito aos novos investimentos. O nosso país foi construído tendo como base as minas".
A atual crise deve-se à falta de capacidade da Eskom de gerar energia elétrica suficiente e à sua incapacidade de manter diversas das suas usinas em funcionamento. O problema já fora previsto. Em 1998, um relatório governamental advertiu que, com o índice de crescimento da economia, o país enfrentaria graves racionamentos de eletricidade até 2007, a menos que a capacidade do sistema fosse ampliada. O governo, liderado pelo presidente Thabo Mbeki, que assumiu o cargo em junho de 1999, tentou sem sucesso estimular os investidores privados a construir usinas de energia adicionais. Foi só com muito atraso que o governo permitiu que a Eskom desse início à expansão necessária.
"O presidente admitiu que este governo errou no cronograma", afirmou na sexta-feira (25/01) Alec Erwin, o ministro das Empresas Públicas, em uma entrevista muito aguardada que rompeu um misterioso silêncio público por parte das autoridades.
A declaração foi um reconhecimento raro de erro por parte de um governo pós-apartheid orgulhoso. Mbeki, atualmente no último ano do seu segundo mandato, pode se gabar legitimamente de vários sucessos, entre eles o fornecimento de energia elétrica às massas empobrecidas. Desde que o Congresso Nacional Africano conquistou o poder em 1994, a África do Sul duplicou a porcentagem da sua população ligada à rede de energia elétrica. Atualmente essa porcentagem é superior a 70%.
Embora o governo insista em dizer que não permitirá que a crise de energia elétrica ameace os futuros projetos industriais e interfira com os planos para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2010, muitos especialistas consideram os apagões um problema lamentável capaz de neutralizar algumas das realizações econômicas de Mbeki.
"Os alertas eram bem conhecidos, mas o governo estava muito distanciado e era demasiadamente arrogante para agir", acusa William Mervin Gumede, autor do livro "Thabo Mbeki and the Battle for the Soul of the ANC" ("Thabo Mbeki e a Batalha pela Alma do Congresso Nacional Africano), publicado em 2005 pela editora Zebra Press, e tendo uma edição revisada de 2007. "Isto é algo simplesmente desastroso para a economia. Podemos descartar todas as metas relativas a um crescimento econômico de 6%".
Os sul-africanos estão alarmados com as interrupções diárias que os apagões provocam nas suas vidas. Os trabalhadores sentam-se sem ter o que fazer, os televisores apagam-se e silenciam-se, os elevadores param entre os andares dos prédios, as bombas dos postos de gasolina não funcionam, os bolos ficam semi-assados. Todo cruzamento com um semáforo apagado vira uma interseção caótica de quatro direções, com motoristas furiosos devido ao atraso, enquanto as filas de carros movimentam-se vagarosamente.
A Eskom chama os apagões de "reduções de carga", e faz uma rotação do corte de energia pelos bairros, distribuindo assim a inconveniência. A empresa tem um website com um mostrador no canto; uma agulha gira entre os níveis "seguro" e "perigoso".
As reduções de carga têm três graus de gravidade, e nos piores dias uma determinada comunidade pode ficar um dia e meio sem energia. O site fornece um cronograma para cada área, mas tal cronograma está com freqüência errado. Nos próximos meses, quando o racionamento for estendido até os moradores residenciais, os apagões deverão ser mais previsíveis.
Em Sandton City, um enorme shopping center de luxo em Johannesburgo, os apagões deixam o complexo comercial com aquela aparência assustadora de uma peça de teatro bruscamente interrompida. Clientes e vendedores mostram-se atônitos com a escuridão abrupta, não sabendo se desistem ou continuam.
Na The Bread Basket, uma loja de alimentos finos no shopping center, os 33 funcionários apressam-se para finalizar as transações na penumbra. Geradores de emergência mantêm as caixas registradoras funcionando durante alguns minutos.
Então as portas das lojas fecham-se relutantemente, com as broas, os croissants e as baguetes deixados nos fornos sem que tenham terminado de assar; a salada de atum, o cuscuz e o taztizik estragando lentamente enquanto os refrigeradores vão esquentando.
"O que podemos fazer?", diz o proprietário, Panos Avraamides. "Jogamos fora todas as saladas, molhos e canapés, deixo que os funcionários tenham um intervalo de uma hora. Depois disso eles voltam e ficam por aqui sem fazer nada".
Norman Samuel, gerente da Etkinds, uma loja que vende máquinas fotográficas e binóculos, diz mal-humorado que as vendas caíram 40%. "As pessoas vão embora do shopping center quando as luzes se apagam", diz ele. "Quem vai querer ficar aqui. A praça da alimentação fica toda enfumaçada porque os exaustores não funcionam. Todos estamos otimistas quanto ao crescimento deste país, mas os apagões destruirão esse crescimento. Representantes de venda vêm até a minha loja porque querem que eu venda os seus produtos. O que posso dizer a eles? Já estou reduzindo a quantidade de mercadorias".
A maioria dos comerciantes está perdendo um dia de vendas por semana. Em Alexandra, uma cidade pobre a apenas alguns quarteirões de Sandton, John Kendia fecha a sua loja de roupas a cada blecaute. "Ficamos sem luz durante quatro a cinco horas", explica Kendia. "Quem, exceto os ladrões, vai querer ficar em uma loja na escuridão?".
Caros geradores movidos a gasolina podem trazer a luz de volta, e comerciantes e proprietários ricos de casas se apressaram em comprar essas máquinas.
Agora elas são escassas. Mark Haycock é dono de uma loja de máquinas e peças na cidade de George, na Província do Cabo Ocidental. "Tenho quatro fornecedores, mas eles me dizem que terei sorte caso consiga mais geradores até março", afirma Haycock.
O governo está suplicando aos usuários que poupem eletricidade, um pedido incomum em uma nação repleta de energia. As autoridades anunciaram subsídios para aquecedores solares de água e um programa para a substituição de lâmpadas incandescentes por outras mais eficientes.
Espera-se que semáforos que funcionam com luz solar poupem o tráfego de veículos dos caprichos da debilitada rede de energia elétrica.
E, é claro, a própria crise faz com que surja uma espécie de moderação.
"Devido a esta situação, o crescimento econômico simplesmente pára", explica Andrew Kenny, um consultor de engenharia. "Dessa maneira, o problema acaba se auto-solucionando".

 

Visite o site do The New York Times

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Na Espanha, um silêncio monumental

Nova lei abre feridas da época da ditadura de Franco.

Michael Kimmelman
em Madri, Espanha

No mês passado, a Espanha aprovou uma lei que não faz muito sentido, à primeira vista, mas que diz muito sobre a Europa no novo século.
O parlamento, cumprindo uma promessa de campanha de 2004 do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, ordenou que as famílias que quisessem exumar os corpos de parentes mortos durante a Guerra Civil Espanhola do final da década de 1930, ou que sofreram conseqüências políticas do regime de quatro décadas do general Francisco Franco, poderiam receber total cooperação do governo. Ao mesmo tempo, todas as províncias do país deveriam retirar os monumentos remanescentes em homenagem a Franco.
Desenterrar o passado - e apagá-lo. Tanto faz que com o decorrer dos anos tais monumentos já tenham sido removidos, tornando a lei bastante ineficaz e simbólica. Mesmo assim, nos debates a respeito dela, ninguém chegou a falar muito a respeito da contradição inerente.
Ou é uma contradição? "Uma nova geração começou a olhar para o passado", explicou-me Santos Júlia, importante historiador dos anos pós-Franco, em uma manhã, recentemente. "São os netos da guerra civil. Minha geração queria discutir o que aconteceu, sem a sensação de culpa. Os netos olham para os mesmos anos de reconciliação como uma condescendência infinita, e está na hora de estabelecer a responsabilidade."
Os sobreviventes construíram monumentos para lembrar dos mortos, e derrubaram as estátuas dos tiranos que os mataram, mas em geral, em vão. Estátuas e memoriais registram a história, que cada geração reescreve para sua conveniência. Em Budapeste, Hungria, as estátuas de ídolos comunistas foram transferidas para um parque nos arredores da cidade tornando-se lápides virtuais em uma espécie de cemitério kitsch. A Rússia, em seu ímpeto de prosperidade, continua visivelmente relutante em rediscutir o passado, mas também removeu muitos sinais do domínio soviético.
E por certo ninguém analisou mais detalhadamente os símbolos e espaços públicos do que os alemães, para os quais cada pedra e sinal de rua evocam um novo monumento. A sala de reuniões do ministro alemão das Relações Exteriores em Berlim é um exemplo do ponto até onde foram os alemães, mesmo em locais privados. Originalmente o escritório do presidente do banco estatal nazista, depois ocupada por Erich Honecker, o líder da Alemanha Oriental, que lá se reunia com seu Politburo, a sala foi mantida praticamente intacta depois da queda do Muro, quando o Ministério das Relações Exteriores se mudou para lá. Então, no local onde estavam pendurados os retratos de Marx e Engels, atrás da cadeira de Honecker, retângulos esmaecidos foram deixados lá, como lembrança de algo a ser evitado.
A Espanha é diferente, embora tenha passado por uma guerra civil. Com seu tradicional medo dos negros demônios das profundezas da alma, os espanhóis, depois da morte de Franco e durante a transição para a democracia entraram no que foi durante muito tempo denominado um pacto de silêncio, que a lei claramente pretende reverter. Como afirmou o historiador Hugh Trevor-Roper, há 40 anos, a respeito de um regime diferente: "Um único déspota em particular pode prolongar idéias obsoletas para além de sua vigência natural, mas a mudança de gerações deve no final livrar-se delas." Pode-se dizer que no caso da Espanha a mudança agora chega com o atraso de uma geração.
Eu recentemente dirigi durante 45 minutos para rever Santa Cruz del Valle de los Caídos, o mais megalomaníaco dos monumentos de Franco. A rodovia, cruzada por touros, aqueles criados para touradas, pastando em campos verdejantes, subitamente fica imersa na neve e na obscuridade. Durante a década de 1950, milhares de prisioneiros trabalhadores cavaram e moldaram centenas de metros em uma montanha de granito sólido para construir uma das maiores e mais lúgubres basílicas do mundo e um memorial à Guerra Civil, sob uma cruz com quase 50 andares de altura.
O local é a expressão do desejo de Franco de reparação nacional. Seu governo, segundo escreveu Raymond Carr, um historiador de Franco, não era exatamente uma vitória da Falange, a versão espanhola do fascismo, "mas da Espanha católica, conservadora, sobre a Espanha liberal da Segunda República." E Franco, em sua cruzada para salvar a civilização cristã, tomou como modelos monarcas como Felipe II, com a intenção de refletir a austeridade monástica do vizinho Escorial de Felipe.
A arquitetura traz à lembrança Albert Speer. Os restos mortais de republicanos assassinados foram exumados de covas coletivas e transportados em caminhões para o vale para serem misturados aos de nacionalistas mortos, de forma que houvesse um lugar para todas as vítimas da guerra civil. Mesmo hoje em dia, a maior parte dos espanhóis não sabe que os republicanos foram enterrados lá com Franco e o fundador do Partido da Falange, o uma vez rival de Franco, Jose Antonio Primo de Rivera.
No altar que fica no ponto mais alto do local, estão os túmulos desses dois homens, com um buquê de flores frescas ao lado das lápides. Conta-se que 400 mil pessoas ainda visitam o local, todos os anos, embora ele estivesse praticamente deserto naquela tarde. Uma jovem família espanhola perambulava melancolicamente em meio ao frio e ao silêncio, olhando atentamente para as ameaçadoras estátuas de soldados e santos. Na praça de fora, coberta de neve, a vista de Madri e da gigantesca cruz desapareciam por trás de negras nuvens.
"A idéia de que os espanhóis realmente foram incapazes de falar a respeito do passado é uma bobagem," disse Charles Powell, historiador, citando muitos livros, filmes e programas de televisão a respeito da guerra civil. Mas declarações públicas são uma coisa diferente, ele explica mais detalhadamente. Em muitas cidadezinhas, onde vizinhos traíram outros e mesmo maridos e esposas não conversam com facilidade sobre a guerra, uma política comum ainda é a do não pergunte, não fale.
Muito antes de a lei ser aprovada, quase todos os monumentos a Franco foram removidos, sob governos socialistas e conservadores. Mas isso foi feito discretamente, sem a divulgação dos assuntos, como se a democracia fosse frágil demais para suportar o debate, dizem alguns, embora provavelmente isso tenha acontecido porque os espanhóis que vivenciaram os últimos anos de Franco simplesmente chegaram à conclusão de que era o melhor a ser feito e seguiram em frente. Isso, porém, ainda deixa uma lacuna.
Mesmo hoje em dia é preciso procurar uma tradução para o inglês de um atraente guia sobre o Valle de los Caídos para encontrar uma rápida menção a respeitos do trabalho forçado dos prisioneiros. Em Madri uma avenida ainda tem o nome de Caudillo, em homenagem a Franco, e uma outra tem o nome da divisão de soldados que Franco mandou para ajudar os nazistas. Em Santander, embora em breve venha a ser substituída por um estacionamento sob ordem do governo local, conservador, há uma estátua eqüestre de Franco, que lembra as estátuas de Jefferson Davies e Stonewall Jackson em cidades do sul dos Estados Unidos onde prefeitos e chefes de polícia são geralmente negros.
Beatriz Rodriguez-Salmones, de 63 anos, que cuida de temas culturais para o Partido Conservador no Parlamento, está furiosa com a nova lei. Exumar túmulos é do direito de qualquer família, diz ela, embora tenha indicado que os parentes do poeta Federico Garcia Lorca não querem interferir na sepultura onde seu corpo foi jogado, junto com os corpos de toureiros e "banderilleros" (toureiros que integram a equipe de um matador) pois, isso iria aviltar a natureza de sua morte. O que acontecerá agora, ela indaga, se os descendentes de "banderilleros" quiserem criar problemas?
"Mas monumentos não têm nada a ver com sepulturas", ela prossegue. "Provavelmente 90% dos monumentos de Franco já foram retirados. Nós tivemos anistias. Nós reconhecemos os direitos dos exilados. Demos compensações a professores que perderam seus trabalhos. Mudamos nomes de ruas, a bandeira, sempre tentando não ferir os sentimentos uns dos outros."
Ela disse que Zapatero está criando problemas em relação aos monumentos para atender aos aliados no Parlamento: "separatistas, republicanos, radicais." Ele precisa dos votos deles, ela acrescenta "e dos votos das regiões Basca e da Catalunha - daqueles que buscam o confronto."
O que ela diz faz sentido. Agora atenuada em relação à época em que era chamada de lei da "memória histórica," como se tal tema jamais pudesse se alvo de legislação, a lei exclui objetos de significado religioso e artístico (embora a definição do que seja arte tenha ficado notavelmente obscura).
Nem mesmo no Valle de los Caídos é provável que aconteça qualquer coisa, a não ser as reuniões políticas, que foram proibidas, uma cláusula destinada a impedir a realização dos tributos anuais do dia 20 de novembro, o aniversário das mortes, tanto de Franco como de primo de Rivera. Mas ninguém parece saber como isso funcionará na prática.
Durante um jantar, Santiago Saavedra, um editor que atingiu a maioridade nas últimas décadas de vida de Franco, se retrai quando vem à tona o tema da nova lei. Ele a considera um ataque à sua geração. "Nós deveríamos nos sentir culpados por tocar as nossas vidas," ele diz.
Powell, o historiador, concordou com a cabeça quando lhe transmiti a observação. "A reconciliação nacional realmente ocorreu durante as décadas de 1960 e 1970, quando Franco ainda estava no poder, por meio de um processo natural, não por um decreto do governo, mas devido ao sentimento coletivo de que a guerra havia sido horrível e que a Espanha precisava seguir adiante," ele disse. A guerra civil mal foi debatida no Parlamento, ele assinalou, até a eleição de um primeiro-ministro conservador, do Partido Popular, José Maria Aznar, em 1996, que encerrou anos de domínio socialista.
"Foi um choque para a esquerda," disse Powell. "Aznar tinha ligações com o passado de Franco. Seu avô era embaixador em Cuba, sob Franco. Portanto, uma forma fácil para os socialistas contestarem a autoridade do Partido Popular era exigir que o partido repudiasse Franco."
Em toda Europa, enquanto o centro político se ampliava, tanto a esquerda como a direita enfrentavam dificuldades para se diferenciar uma da outra. Na realidade, pouco separa as políticas econômicas de Zapatero daquelas de Aznar. Mas enquanto o avô de Aznar era embaixador de Franco, o avô de Zapatero era um republicano, morto na guerra.
Os conservadores que criticam Zapatero dizem que ele está usando políticas de interesse de grupos supostamente excluídos, semelhantes aos debates sobre valores morais nos Estados Unidos, para promover um programa social que inclui a defesa dos direitos de homossexuais, transexuais, mulheres e catalães. A nova lei sobre monumentos acrescenta outro grupo a essa relação: republicanos mortos, os derrotados da guerra civil. Mas para os liberais da geração de Zapatero, isso ainda não é suficiente.
"O que os espanhóis fizeram nas décadas de 1960 e 1970 era voltado para uma outra direção," disse Paloma Aguilar, uma dessas netas da guerra, uma cientista política de 42 anos que escreveu um livro sobre memória histórica. Eu mencionei o editor, e ela se retrocedeu ligeiramente. "Ok, sim, é um tanto quanto injusto criticar a geração de nossos pais. Também é verdade que a maioria das pessoas não se queixa dos monumentos hoje em dia, porque se acostumou a conviver com eles. A geração dos nossos pais tem algum medo de confronto por acreditar que a democracia ainda é frágil. Mas eu cresci sob a democracia. Setenta anos depois da guerra civil nós não podemos permitir que tais monumentos perpetuem a discriminação contra as vítimas."
Eu tive a sensação de que muitos dos espanhóis que forjaram a transição para a democracia e a paz que se seguiu não sabiam o que era melhor para eles, lembrando-me de uma observação de Powell. Ele se referiu a uma "nova nostalgia" pelo Republicanismo. Ela deixa subentendida uma superioridade moral não apenas em relação a Franco mas também em relação ao sistema político atual. Aí, de novo, Aguilar e outros de sua geração percebem claramente que este é o último momento de lutar por monumentos e sepulturas antes que os parentes das vítimas morram (muitos deles seus próprios pais) e a ditadura e seu legado deixem de ser a memória vivida. O impaciente é oportunista.
Fiz uma última parada no apartamento de Blas Pinar. Há alguns anos, sob as ordens do primeiro-ministro, foi dado sumiço a uma estátua de Franco, em uma praça de Madri, no meio da noite. Pinar e outros protestaram. Aos 89 anos, fundador do ultra-direitista Força Nova, que até mesmo Franco achava reacionário demais, ele me deu as boas-vindas, ansioso para se lançar com ímpeto num tipo de discurso de campanha em defesa da antiga ditadura, com pausas, de tempos em tempos, para tomar fôlego por meio de um tubo de traqueostomia.
Sua queixa a respeito da transição, ao contrário daquela da nova geração de esquerdistas, era que se trata de um lobo político em pele de cordeiro. "Um engodo" ele a chamou, "chamada de reforma, mas na verdade uma ruptura, que alterou os elementos mais fundamentais da sociedade: proteção da família, da moral e dos valores religiosos, a unidade da Espanha."
Nem mesmo os monumentos estão sendo removidos, "o golpe final", como ele explica: "a lei da memória histórica é anti-histórica porque tenta apagar a memória de Franco, e todo o bem que ele fez pela Espanha." Proibir os franquistas de se reunir no Valle de los Caídos não vai mudar nada, ele advertiu. "O lugar sempre teve um significado particular. Não se pode separar Franco dele."
Detesto a idéia de concordar com qualquer coisa que ele tenha dito. Mas a legislação sobre monumentos não corrige as injustiças do passado, apenas remexe desastradamente nos símbolos da história, lembrando-nos porque nós os planejamos em primeiro lugar. Afinal, os monumentos ganham significado quando nós os imbuímos disso, do contrário eles fazem companhia às estátuas de monarcas cruéis e sangrentos generais que se tornaram o pano de fundo civilizado de nossos parques e praças.
Pode-se dizer que a situação da Espanha depois da morte de Franco não foi diferente de um casamento: cada lado mantendo o silêncio sobre as lembranças que mais poderiam ferir a outra parte. O silêncio cria um vínculo. É de ouro, como diz o ditado; estátuas e placas são apenas metal e pedra. Isso dito, a nova lei, moldada pelos filhos desse silêncio, paradoxalmente injetam em tais símbolos enferrujados um novo significado para um novo século.
Tradução: Tradução: Claudia Dall’Antonia

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2007: o pior ano da guerra americana

O ano foi marcado pelo aprofundamento da crise de liderança dos Estados Unidos. A capacidade da grande nação em definir cursos de ação e impor seus projetos foi corroída ao máximo, chegando ao ponto mais baixo da história.

Francisco Carlos Teixeira

O ano foi marcado pelo aprofundamento da crise de liderança – de hegemonia, para muitos – dos Estados Unidos em face ao mundo. A capacidade da grande nação em definir cursos de ação e impor seus projetos foi corroída ao máximo, chegando ao ponto mais baixo da história. E isso não se deu apenas no plano político.

A crescente mudança de perfil dos Estados Unidos no conjunto da economia mundial ( seu peso era de cerca 50% do PIB mundial em 1947, passando para cerca de 24 % em 2007 ), somada a crise das hipotecas e seu impacto sobre o sistema de crédito americano, além da manutenção do elevadíssimo déficit duplo do país. Tal modelo acabou por corroer o papel do dólar no conjunto da economia mundial.

Neste contexto, a Administração Bush perdeu substância e força, acentuada pela vitória do Partido democrata em ambas as casas do parlamento americano. Além disso, a retirada de vários altos funcionários – alguns, como Alberto Gonzáles e Karl Rove por força de ações da Justiça americana - transformou Bush num homem isolado e solitário na Casa Branca.

O modelo de gestão econômica de Bush – que chegou a seduzir as elites perdulárias e anti-nacionais “urbi et orbi” também entrou em colapso. A idéia simples – e amalucada – que se poderia cortar impostos, em especial impostos sobre as grandes fortunas, e aumentar continuamente os gastos militares ( batendo todos os recordes de orçamentos militares ) mostrou-se exatamente como uma idéia simples e… errada!

Contudo, mesmo que a economia esteja apresentando sinais evidentes de cansaço e modelo liberal-fundamentalista de economia praticado por Bush tenha se desmantelado, é no Iraque que o vazio de decisões torna-se mais evidente. As expectativas em torno de uma “virada” na Guerra do Iraque, em especial depois do Relatório Baker, no primeiro semestre de 2007, e do Plano de Ação do General Petraeus, no segundo semestre de 2007, não resultaram em qualquer melhoria das condições de segurança e de reconstrução no país. Bem ao contrário. Hoje os Estados Unidos computam 3.919 baixas “oficiais” no país ( das quais 132 foram suicídios! ).

A Guerra no Iraque:
No seu conjunto o ano de 2007 foi o mais duro ano depois do início da guerra em 2003, alcançando a cifra de 897 soldados americanos mortos ( em 2003 foram 486; em 2004, 849; em 2005, 846; em 2006, 822 ). As repetidas alegações de Bush que a situação no Iraque melhora a cada dia são, assim, desmentidas pela simples apresentação das estatísticas de baixas americanas no país.

O reconhecimento, implícito, silencioso, do fracasso da política militar americana para o Iraque consolidou-se na exoneração de Donald Rumsfeld ( afastado em novembro de 2006 ) e na sua substituição por um “kissingeriano” de última fila, Robert Gates. A imensa expectativa em “revolucionar” a arte da guerra, impondo a superioridade americana global através do uso maciço de alta tecnologia e da poupança de “manpower”, mostrou-se irreal numa guerra de tipo assimétrico, baseada na baixa organização e grande mobilidade do inimigo – e travada no meio urbano, como uma guerra das cidades.

Os dados do Pentágono, põem por terra o mito de uma guerra iraquiana como sendo uma guerra “hispânica”, da mesma forma que a Guerra do Vietnã teria sido uma “guerra negra”. Na verdade, os brancos pobres e desempregados dos Estados Unidos formam a massa principal de combatentes – e daí os quase 75% de baixas ditas “brancas” –hoje no Iraque. A centralidade das tropas combatentes em pessoal de pequenas e médias cidades do interior americano, onde a desindustrialização avança sobre os setores tradicionais da economia, explica, claramente, a atual incapacidade dos estados Unidos em constituir um amplo exército de voluntários para suas necessidades.

O massacre de um povo:
O pior de tudo, contudo, são as baixas de civis iraquianos, massacrados no torno dos ataques terroristas e as retaliações das milícias xiitas, sunitas e das forças “da ordem”, sejam iraquianas, sejam americanas. Números conservadores, muito conservadores, falam em 86.060 mortos civis iraquianos no final de 2007, conforme o “Iraq Body Count”. Fontes independentes, como “The Lancet”, entretanto, aproximam este número de 500 mil.

Entre as forças de segurança iraquianas, um alvo preferencial da resistência, as baixas acumuladas chegaram a 16,997, conforme fontes americanas ou 7.756, conforme fontes iraquianas. A diferença explicar-se-ia pela inclusão de outras funções no computo geral. Os ataques contra policiais, bombeiros, paramédicos, funcionários de necrotérios, etc… na maioria das vezes atingindo locais de recrutamento e de preparação de jovens, visa aterrorizar a população e impedir que o frágil Estado iraquiano cumpra com suas funções mínimas. A ação sistemática contra os postos de alistamento e os serviços de segurança estão atrasando, e mesmo impedindo, a formação de um contingente apto a substituir as tropas americanas no país – um dos pilares de uma possível política de desengajamento americano na região.

O número acumulado de “combatentes hostis” mortos, quer dizer de membros das variadas formas de resistência, sob registro americano, atingiram 3.415 em 2007. Mesmo aqui os números não são confiáveis e a margem de sub-registro é imensa.

A morte de civis em serviço das forças armadas americanas no Iraque – os chamados “contractors” atingiu 1001 indivíduos ao final de 2007. Aqui cabe, também, desmistificar outro “senso comum” da Guerra do Iraque. Embora o número de “contractors” civis, ligados a grandes firmas de segurança atuando no país, possa chegar a algo como 40.000 homens, a maioria é formada por não-combatentes. A visão de um imenso exército civil – o segundo em “manpower”, depois dos EUA – deve ser revista. Um estudo detalhado da função, condições e forma da morte destes mil homens mostra que a grande maioria morreu em emboscadas enquanto se locomoviam no país ou prestavam serviços paralelos – pouquíssimos morreram efetivamente em combate. Da mesma forma temos que reformar nosso conhecimento sobre a atuação destes homens: a grande maioria é formada por americanos, seguidos de britânicos, sul-africanos e russos. Hispânicos e asiáticos são minoria e, quase sempre, ligados a serviços subalternos de manutenção e limpeza.

Bagdad, a capital da violência:
As províncias de Al-Anbar, na fronteira com a Síria, de Bagdad e de Salah ad-Din – de amplo povoamento sunita - continuam sendo as áreas de maior atividade da insurgência anti-americana, mesmo depois do amplo programa de securitização de Bagdad posto em prática pelo General Petraeus, atingindo respectivamente 1279, 1213 e 367 baixas. Só Al-Anbar e Bagdad, em conjunto, representaram cerca de 68% das baixas americanos, evidenciando a incapacidade americana de “securitizar” áreas restritas do país. Em termos de perdas civis, iraquianas, Bagdad é, de longe, a região mais perigosa do país, com cerca 59% de todas as baixas.

De qualquer forma, o Iraque não foi pacificado, nem se tornou um pólo de desenvolvimento regional capaz de “semear” democracia e bem-estar por toda a região, como imaginavam os sonhos “neoconservadores” em 2003. A Administração Bush chega assim ao seu último ano sem conseguir atingir seus objetivos no país e, mesmo, sem qualquer plano de ação para minorar a situação. Esta será, sem duvida, uma das mais pesadas heranças do governo Bush para seu sucessor nas eleições de 2008.

A diminuição das ações militares no país nos dois últimos meses – depois de um “pico” de abril/maio de 2007 ( 104 e 126 mortos, respectivamente ) deve-se, em grande parte, ao maior controle sobre o uso, por parte da resistência, das chamadas “roadside bomba”, aparentemente em virtude de um controle, também maior, por parte das autoridades iranianas, temerosas de acirrar o enfrentamento com os Estados Unidos, criando a oportunidade para um “casus beli” tão buscado em Washington.

No Afeganistão, a guerra se expande.
Contudo, comparativamente o ano de 2007 foi muito mais preocupante no Afeganistão, mesmo que as baixas aí registradas não tenham sido tão elevadas quanto no Iraque. Ocorre que o país evoluiu, depois da invasão em 2001, de uma situação de total desarticulação dos talibães e do isolamento da Al-Qaeda nas montanhas, para uma bem organizada e ativa resistência depois de 2006.

Na verdade, quando os Estados Unidos, em dezembro de 2001, abandonaram os combates na Batalha de Tora-Bora, deixando a ação nas mãos de tropas locais, inaugurou uma gestão ineficaz da guerra. Ali, por um breve espaço de tempo, os americanos tiveram a oportunidade de liquidar de vez a Al-Qaeda e prender ou matar o Mullah Omar e Bin Laden. Contudo, o medo das baixas e a crença que a guerra no Afeganistão seria irrelevante, mais uma “guerra no fim do mundo”, tornou ação de Rumsfeld displicente e descuidada.

A invasão do Iraque, 15 meses depois, desviou recursos materiais, humanos e vontade de cão para o novo cenário de guerra, permitindo que a resistência Talibã-Al-Qaeda tivesse o tempo necessário para respirar e se reorganizar. Vieram os ataques a Madrid, Londres, além daqueles frustrados na Itália, França e Alemanha. O terrorismo “mujahidin” triplicou sua ação mundial.

Uma nova Al-Qaeda ressurge depois de 2005. Suas “franquias” expandem-se em várias “al-qaedas”, numa nebulosa reticular, de estruturas moles, não-hierárquica e de grande capacidade de implantação. Além da “Al-Qaeda na Terra dos Dois Rios” ( Iraque ), surgem outras ramificações, tais como Al-Qaeda na Terra Santa ( Arábia Saudita), Al-Qaeda no Sahel ( Sudão/Tchad ) e a Al-Qaeda no Maghreb ( Argélia ) – a mais ativa e temível neste momento.

Na verdade hoje o Governo Karzai, em Kabul, controla bem menos que uma área de 30 quilômetros em torno da cidade. Mesmo no centro de Kabul, os atentados mostraram-se bem mais ativos, em 2007, do que nos anos precedentes. Ao mesmo tempo, e de forma preocupante, a emergência de ataques de homens-bomba – algo raro até 2006 no cenário do país – mostra o acirramento da resistência anti-americana e anti-OTAN existente no país.

A política de Pervez Musharaff, presidente do Paquistão, de pacificar o Waziristan – na fronteira entre os dois países – e que culminou na retirada da autoridade militar paquistanesa da região, parece ter fortalecido as milícias Talibã-Al Qaeda, sem nenhum sucesso para a diminuição da ação de resistência no próprio Afeganistão. Na verdade, deu-se uma intensificação das ações insurgentes, em especial junto a Kandahar no sul do país. A ida de Romano Prodi e Nicolas Sarkozy, em dezembro de 2007, ao país – com a reafirmação do compromisso da OTAN em pacificar o Afeganistão – marca bastante bem o aprofundamento da crise de segurança regional. Sem qualquer dúvida, a morte de Benazir Bhutto e a situação de caos e insegurança no Paquistão deverá incidir fortemente sobre o Waziristan – onde se supõe estão o Mullah Omar e o próprio Bin Laden – podendo fortalecer a resistência islâmica local.

Em suma, 2007 não foi um bom ano para a Guerra Americana contra o terrorismo Global, nem mesmo atingiu resultados mínimos nos conflitos do Iraque e no Afeganistão. A resolução dos conflitos em curso será parte da herança de George Bush.

The New York Times
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Insegurança alimentar à vista

Mudanças climáticas podem reduzir disponibilidade de comida em certas regiões do mundo até 2030

A produção de arroz em toda a Ásia será provavelmente afetada pelas mudanças climáticas. Na foto, campos de arroz em Bali, Indonésia (fotos: Marshall Burke).

Os sistemas agrícolas serão seriamente afetados pelo aquecimento global nas próximas décadas. Se nenhuma medida de adaptação for tomada, até 2030 o aumento das temperaturas e o declínio das chuvas em regiões do planeta que sofrem com a insegurança alimentar provavelmente reduzirão a produção de cultivos essenciais para as populações dessas áreas, o que pode diminuir ainda mais a disponibilidade de comida.
Segundo estudo norte-americano publicado esta semana na Science, o sul da Ásia e a África meridional são áreas particularmente vulneráveis à escassez de alimentos. No Brasil, as mudanças climáticas devem ter impactos negativos sobre a produção de trigo, arroz, milho e mandioca.
“É provável que a soja também seja afetada negativamente no Brasil, embora em menor medida”, diz à CH On-line um dos autores do artigo, David Lobell. “Já a cana-de-açúcar não deve ser prejudicada”, completa o pesquisador, vinculado ao Programa de Meio Ambiente e Segurança Alimentar da Universidade de Stanford e ao Laboratório Nacional Lawrence Livermore, ambos nos Estados Unidos.
O grupo analisou os impactos das mudanças climáticas sobre os cultivos mais importantes nas 12 principais regiões do mundo que abrigam grande quantidade de pessoas com fome – muitas delas localizadas em zonas tropicais e subtropicais. A análise baseou-se em estatísticas de cultivo e projeções climáticas para o ano de 2030 geradas por 20 modelos diferentes, que apontam aumento de temperatura de 0,5ºC a 2ºC nessas regiões e resultados variados quanto ao volume de chuvas.
A avaliação revelou algumas projeções negativas, por exemplo, para o milho e o trigo na África subsaariana, com estimativa de pelo menos 95% de chance de que as mudanças climáticas prejudicarão a produção agrícola na falta de medidas de adaptação. Em muitos casos, há grandes incertezas: os impactos variam desde muito negativos a muito positivos, como o amendoim no sul da Ásia e o Sorghum (gênero que inclui 20 espécies de gramíneas) na África meridional. Também existem exemplos de cultivos que sofreriam impactos menores, como o trigo no oeste da Ásia.

O trigo (na foto), o arroz, o milho e a mandioca estão entre os sistemas agrícolas que sofrerão impactos negativos no Brasil devido ao aquecimento do clima e à diminuição das chuvas.

Ameaça clara

“Apesar das muitas suposições e incertezas associadas com os cultivos e modelos climáticos usados, a análise aponta para muitos casos em que a segurança alimentar é claramente ameaçada pelas mudanças climáticas em um prazo relativamente curto”, dizem os autores no artigo.
Segundo eles, o estudo identifica áreas prioritárias de preocupação, para que se invista em medidas de adaptação para moderar a severidade dos impactos das mudanças climáticas sobre os sistemas agrícolas. O emprego de fertilizantes, o melhoramento de sementes e o uso mais adequado da terra estão entre as ações que podem ser implementadas.
“Há muitas outras opções de adaptação, e a maioria delas faz sentido mesmo sem as mudanças climáticas”, acrescenta Lobell. “Alguns exemplos seriam desenvolver variedades mais tolerantes ao aquecimento e à seca, melhorar o manejo dos cultivos agrícolas e diversificar as fontes de renda dos fazendeiros“, enumera.

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line
31/01/2008

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Por que não anda?

Phydia de Athayde e Rodrigo Martins

Entraves como a postura do Judiciário e a defasagem dos índices de produtividade agrícola dificultam a reforma agrária

O sol castiga o oeste paulista. É forte, intenso, pouco atenuado pelo vento. Dos dois lados da rodovia Marechal Rondon, entre Araçatuba e Andradina, no lugar dos bois que antes davam o tom da paisagem, há extensos canaviais. Tudo parece uma massa uniforme. Num ziguezague entre estradas vicinais, ora de asfalto, ora de terra batida, vez por outra uma placa indica: “Movimento Sem Terra a 500 metros”. Uma delas em Castilho (SP), quase divisa com o Mato Grosso do Sul, onde 170 famílias vivem às margens da estrada. Reivindicam a desapropriação da fazenda Pendengo, 4.343 hectares de pastagem alta e malcuidada, com uma pequena boiada.
Há quatro anos, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) considerou a terra improdutiva. O proprietário não concordou com a avaliação e entrou com recurso na Justiça. “Ele contratou uma auditoria para contestar o Incra, e até mesmo o perito particular mostrou que a fazenda não atinge os coeficientes mínimos de produtividade”, afirma Irineu Xavier de Toledo, da direção regional do MST. Há dois anos, proprietário e sem-terra aguardam um novo laudo.
A região do oeste paulista é simbólica por potencializar alguns entraves à reforma agrária no País. No caso, o conservadorismo do Judiciário somado ao excesso de recursos ajuizados pelos proprietários. Valdez Farias, procurador-geral do Incra, diz que o estado de São Paulo é especialmente problemático nesse ponto porque, diferentemente de outras áreas, todos os recursos possíveis são aplicados. Advogados do MST acompanham desapropriações em todo o território nacional e identificaram uma concentração de casos obstruídos no local. René Parren, diretor estadual do MST, diz que há 12 processos de desapropriação de grandes propriedades praticamente parados. Essas terras somam mais de 10 mil hectares (área da capital capixaba, Vitória) e poderiam abrigar 980 famílias.
A juíza Claudia Hilst Menezes Port, da 2ª Vara Federal de Araçatuba, região visitada pela reportagem, diz não haver conivência com os proprietários. “Tudo depende do caso concreto, mas o rito sumário é a regra”, afirma. A magistrada reconhece que há excesso de recursos na lei processual, mas não atribui má-fé aos que fazem uso deles. Sobre reforma agrária, pondera: “É uma questão tormentosa, com raízes históricas, e merece atenção”.
Outro artifício comum é o proprietário ajuizar uma “ação declaratória de produtividade”, que questiona o laudo do Incra mas, em tese, não deveria impedir a conclusão do processo. “Se o autor da ação tiver mais de 60 anos, haverá prioridade legal. Caso contrário, em razão de ser, algumas vezes, prejudicial em relação à desapropriação, é dado um tratamento mais célere no processamento”, diz a juíza.
As histórias do oeste paulista exemplificam as dificuldades do governo ao tentar desapropriar terras para a reforma agrária. Em 2007, o total desapropriado foi pífio: apenas 107 mil hectares, sem contar outros 166 mil hectares referentes a processos concluídos em dezembro. Ainda assim, muito aquém dos 555 mil de 2006, ou dos 977 mil de 2005.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, diz que o baixo número de desapropriações não reflete os esforços do governo. “Reforma agrária não é só assentamento. Não adianta assentar sem fornecer a infra-estrutura básica para que possam começar a produzir.” Cassel destaca as aquisições de terras para a reforma agrária. “Nunca gastamos tanto na compra de áreas para assentamentos (1,3 bilhão de reais). A meta é assentar 100 mil famílias por ano, com qualidade. Não existe milagre”, pontua.
De acordo com o ministro, uma das razões para tão poucas desapropriações é a defasagem dos índices de produtividade (usados pelo Incra para determinar áreas improdutivas), baseados em dados de 1975. Cassel diz ser meta para 2008 reajustá-los: “É uma obrigação do governo”.
    Além de incumbência descrita na Constituição e na lei agrária (8.629/93), a atualização é promessa antiga de Lula. Compromisso reafirmado mais de uma vez (como no fim da Marcha pela Reforma Agrária, em 2005), e nunca cumprido.
Um levantamento do Incra mostra que 445 imóveis em processo de desapropriação estavam sob óbice judicial no fim de 2007. Concentram-se nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste e somam 903 mil hectares, suficiente para assentar mais de 30 mil famílias. De acordo com Farias, do Incra, salvo raras exceções, os juízes não aplicam o rito sumário da desapropriação (como exige a lei). Em vez disso, dão todas as chances para o proprietário provar que a terra é produtiva. “O Judiciário atravanca a reforma agrária”, diz, e complementa: “Há um entendimento que sobrepõe o direito de propriedade a outros direitos constitucionais, como o de acesso à terra e à dignidade humana. Quem está sob a lona tem direitos constitucionais sonegados”.
Ainda no campo jurídico, há a dificuldade na retomada de terras públicas. Estima-se que existam 170 milhões de hectares de área pública grilada no País, problema mais severo na Região Norte, mas também presente em estados como Mato Grosso. Um exemplo é a Usina Pantanal de Açúcar e Álcool, que ocupa 8,2 mil hectares da União. O empresário Mounir Naoum, dono de um grupo hoteleiro, reivindica a propriedade. Desde 2003, o Incra tenta retomar a área. Em dezembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília cassou a liminar que dava posse à União. Próximo à área, 220 famílias esperam assentamento.
Em Itapura (SP), perto da divisa com Mato Grosso do Sul, cem famílias aguardam a desapropriação da fazenda Lagoão, 1.776 hectares de pastagens declaradas improdutivas pelo Incra. O governo liberou a verba para a indenização (8,6 milhões de reais), mas o dono ajuizou seis recursos e uma ação declaratória de produtividade. O processo se arrasta. Enquanto não há desfecho, os ocupantes se viram como podem. Dermival Birolli, de 62 anos, montou uma horta. “O sonho de ter minha terrinha persiste, mas não dá para aguardar a Justiça a vida toda.”
No entender de Elmano de Freitas, advogado do MST, o Judiciário não deveria acatar as “ações declaratórias de produtividade”. “O artigo 18 da Lei Complementar nº 76, de 1993, não deixa dúvidas de que a ação de desapropriação deve ter preferência ante qualquer outra. Não é absurdo o fazendeiro tentar alegar produtividade, absurdo é o Judiciário acatar.”
Todas as batalhas judiciais que questionam produtividade de terras em processo de desapropriação utilizam os índices de produtividade vigentes como argumento. Ou seja, aqueles determinados com base em dados de 1975. Se, assim, os processos travam, é fácil imaginar o rebuliço que uma atualização causaria nos tribunais.
Paulo Caralo, diretor de Política Agrária da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), dá uma dimensão de como os problemas estão ligados. “Mais de 30% dos processos de desapropriação param por causa de recursos que levam em conta o índice de produtividade. São mais de 120 grandes fazendas improdutivas, que poderiam abrigar metade das mais de 200 mil famílias que esperam assentamento”, afirma. “Se ainda utilizamos um índice de 30 anos atrás, é porque nenhum gestor fez as atualizações que a lei obriga.”
Ninguém discorda que a produção agropecuária de hoje é superior àquela observada em 1975. Daí a se chegar num acordo para rever os números há um abismo. No histórico de tentativas fracassadas, a mais representativa aconteceu em 2005. O então ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, propôs novos números e dependia do aval do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Não houve acordo. Entra ministro, sai ministro, tudo fica como está. E a realidade do campo não pára de mudar.
“Nos últimos 20 anos, a produtividade agrícola brasileira cresceu em média 3,5% ao ano”, anuncia o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, e arremata: “O Brasil tem a melhor tecnologia do mundo para a agricultura tropical”. Ele também elogia as melhoras genéticas na pecuária, embora diga que, em 20 anos, a relação boi/hectare não mudou muito. “Exceção para o estado de São Paulo, que tinha 1 boi por hectare há dez anos e, hoje, tem 1,5 boi por hectare. Este é, inclusive, o modelo que queremos para o Brasil”, diz.
Com tanta pujança, por que o temor à atualização dos índices? “Tecnicamente, isso pode e deve ser discutido. A dificuldade está no campo político. Os produtores, por exemplo, propõem que o novo índice seja a metade daquele observado nos assentamentos. É uma discussão muito política”, tateia Stephanes, e pede que se evite polêmica. “A discussão deve ser técnica. Hoje, o pequeno, o médio e o grande produtor têm de ser eficientes. Não existe mais aquela poesia de 40 anos atrás”, diz.
CartaCapital teve acesso a alguns números da mais atual proposta de revisão dos índices de produtividade, que permanece engavetada. No que se refere à cana-de-açúcar, a mudança causaria alterações expressivas apenas em Alagoas (ao passar o índice de 50 toneladas por hectare para 60). No caso da soja, a alteração aconteceria em Mato Grosso e, no caso do milho, em Goiás (mapas abaixo). Os números propostos são um meio-termo entre os de 1975 e os observados no mercado. É uma tentativa de atender a movimentos sociais e, ao mesmo tempo, minimizar a chiadeira dos produtores.
Mesmo assim, não será nada fácil. “Não existe mais terra improdutiva próxima aos grandes centros consumidores ou à infra-estrutura de distribuição”, diz Leôncio Brito, presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ele credita o aumento da eficiência dos produtores a investimentos em fertilizantes, biotecnologia, transporte e armazenagem, e diz que a atualização dos índices não leva em conta os impactos para o agronegócio. “Os defensores dessa medida querem é relativizar o direito de propriedade. Em nenhum outro setor da economia há metas mínimas. Ninguém diz isso a um industrial”, esbraveja.
O engenheiro agrônomo André Pessoa, diretor da Agroconsult, diz que os índices propostos pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) estão “fora da realidade”. O consultor destaca que, ao estabelecer as médias de produtividade por estado, ou mesmo microrregiões, o governo corre o risco de punir injustamente os fazendeiros. “Uma grande empresa agrícola, com capital aberto, costuma ocupar as melhores faixas de terra e pode elevar a média de produtividade de toda uma região. Os vizinhos não têm a mesma capacidade de investimento, mas nem por isso são improdutivos”, diz, e sugere: “O governo poderia aprimorar o seu cadastro de informações com dados da Receita Federal, do sistema financeiro e de censos, para avaliar melhor quem realmente não está produzindo”.
Dados preliminares do Censo de 2006 (do IBGE) indicam que há 76,7 milhões de hectares de áreas de lavouras e 172 milhões de hectares de pastagens no Brasil. Especialistas dizem que a maior parte das terras improdutivas é de pastagens.
Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor de geografia agrária da USP, denuncia a existência de uma “caixa-preta” com informações sobre a verdadeira produção agropecuária do País: “O Incra sabe exatamente quais as propriedades improdutivas. Essa informação está no sistema do cadastro do órgão, que é feito a partir da declaração dos proprietários, mas isso ninguém divulga”. O estudioso atribui a omissão desses dados à suposta corrupção: “É triste falar, mas é a verdade”.
Oliveira é um dos participantes da elaboração do II Plano Nacional de Reforma Agrária, em 2003, a pedido do então candidato Lula. E tem uma explicação para o fracasso: “O governo não faz reforma agrária porque não quer. Mas parece que Lula acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo, por isso não faz nada”.
O geógrafo também contesta dados da reforma agrária apresentados pelo governo. “O Incra divulga como assentados a relação de beneficiários da reforma agrária, que inclui os reassentados, os de área indígena ou de quilombos e os que passaram por regularização fundiária. Esse total não reflete a realidade. De fato, como reforma agrária, até 2006 o governo Lula assentou apenas 150 mil famílias”, diz.
João Pedro Stedile, principal liderança do MST, também critica os números oficiais. “Quem está no governo sempre tem estatísticas e argumentos para se justificar. Mas infelizmente a realidade do campo é bem diferente”, afirma. “Temos mais de 150 mil famílias acampadas debaixo de lonas. Das assentadas, apenas 10% tiveram acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Temos mais de 40 projetos no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) esperando recursos. E a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que tinha o melhor programa de compra antecipada, teve as atividades praticamente paralisadas em 2007”, enumera Stedile.
O líder do MST tenta chamar a atenção para o que acredita ser o debate mais importante, e negligenciado, sobre o campo: “Está prevalecendo a proposta do agronegócio, que enriquece alguns e traz pobreza e desigualdade para a maioria. Nós defendemos um modelo baseado na pequena e média unidade produtiva, que use mão-de-obra intensiva, métodos agroecológicos e priorize alimentos para o mercado interno”.
Enquanto isso, os acampados em volta da fazenda São Bento, em Andradina (SP), aguardam. “Antes, os jagunços tocavam a gente daqui. Agora, os fazendeiros estão vencendo na Justiça. São quase cinco anos de espera”, desabafa Paulo Gonzaga Marcelino, de 40 anos. Ele trabalha na roça a 25 reais por dia, mas a oferta de emprego, temporário e sem carteira assinada, está escassa. “Quando sabem que sou sem-terra, o pessoal desconfia.”
Marcelino foi um dos primeiros a acampar na beira da estrada José Rodrigues Celestino, uma das vicinais esburacadas da Marechal Rondon. Bem ao lado da fazenda, considerada improdutiva em 2002. O governo levantou recursos para indenização (5,4 milhões de reais), mas o proprietário quer provar que as terras são produtivas. Em 2007, arrendou 770 hectares a uma usina de álcool, que plantou cana-de-açúcar. O processo parou.
A sem-terra Andréia Ferreira da Silva, de 25 anos, olha com descrença para o canavial. “Se estava difícil conseguir um pedacinho de terra, imagina agora que plantaram cana a perder de vista”, resmunga, com o pequeno Igor, de 2 anos, no colo. Ela vive com o marido e quatro filhos sob a lona.
Se o governo não tem feito sequer o básico em prol da reforma agrária, é difícil imaginar que um dia vá questionar o modelo agrícola adotado no País. Enquanto isso, debaixo das lonas, faz calor. Muito calor.

Carta Capital

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Boaventura analisa Justiça brasileira e defende revolução democrática

Novo livro do sociólogo português nos desafia a pensar sobre tal revolução como exigência de um tempo marcado pelo protagonismo do atual sistema judicial e pela conscientização das classes populares sobre a desigualdade e violações de direitos.

Flávia Carlet

Já não é novidade o fato de que a política econômica neoliberal tem atuado de modo globalizado em nome de uma agenda que, dentre outras pautas, tem objetivado a prevalência do mercado em detrimento do Estado, do setor privado sobre o público, do individual sobre o coletivo. São conhecidas no mundo inteiro, em especial nos países latino-americanos, as escandalosas seqüelas sociais fruto desta política, em especial a falta de casa e comida, os altos índices de desemprego e a degradação ambiental.
Neste projeto de globalização, o direito hegemonicamente vigente tem se colocado a serviço desta agenda a quem tem garantido preferência e proteção efetiva, sobretudo através do sistema jurídico estatal.
O resultado disso, sobretudo no Brasil, tem se refletido na ausência de uma cultura jurídica democrática, traduzida não apenas no crescente afastamento entre o sistema judiciário e as demandas de prestação jurisdicional - notadamente das camadas populares -, como também na formação legalista dos magistrados, num sistema judicial voltado à segurança jurídica dos negócios e da economia, na incompreensão das atuais exigências sociais e na baixa aplicabilidade dos direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição Federal.
Os sistemas jurídico e judicial sob a idéia de revolução
Superar esta realidade a partir de uma ampla revolução democrática do direito e da justiça é o que vem propondo o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Lançada no final do ano passado, durante o Encontro do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável, sua mais recente produção bibliográfica intitulada "Para uma revolução democrática da justiça" (Editora Cortez, 2007) representa uma das mais lúcidas e pertinentes contribuições sobre o tema
Centrado nos sistemas jurídico e judicial brasileiro, Boaventura nos desafia a pensar sobre tal revolução como exigência de um tempo marcado não apenas pelo crescente protagonismo social e político do atual sistema judicial, como também por uma coletividade de cidadãos, em especial as classes populares, cada vez mais consciente das desigualdades e violações de direitos fundamentais de que são vítimas.
A revolução democrática da justiça é uma tarefa exigente, que só fará sentido se for tomada como ponto de partida uma concepção emancipatória do acesso ao direito e à justiça. Para tanto, enfatiza, são necessárias profundas transformações na cultura jurídica e judiciária que só serão possíveis se forem capazes de compreender uma nova formação dos operadores do direito; profundas reformas processuais; novas concepções de independência judicial; uma nova relação de poder judicial, mais próxima dos movimentos e organizações sociais; novos mecanismos de protagonismo no acesso ao direito e à justiça e ainda uma cultura jurídica democrática.
Idéias e contribuições relativas ao tema da democratização do acesso à justiça não são novas. O mérito das discussões provocadas por Boaventura de Sousa Santos, em especial aquelas aventadas neste livro recente, está justamente em evidenciar que o atual momento social e jurídico é "tão estimulante quanto exigente". Experiências como as promotoras legais populares, as assessorias jurídicas universitárias, o programa justiça comunitária e a advocacia popular, são exemplos de iniciativas existentes no Brasil, valorizadas pelo autor, que muito tem contribuído para a reinvenção de práticas alternativas ao direito hegemonicamente vigente. Uma revolução democrática seria assim, por que não, um caminho contra-hegemônico, capaz de originar um paradigma emancipatório de promoção e garantia de uma justiça social e cidadã.

Carta Maior

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Como a elite anglo-americana partilha os seus ‘valores’

John Pilger

Quando o primeiro-ministro Gordon Brown referiu-se recentemente à devoção do seu governo para com os Estados Unidos, “fundamentada nos valores que partilhamos”, estava a reflectir o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Kim Howells, o qual preparava-se para dar as boas vindas ao ditador saudita na Grã-Bretanha com efusões de “valores partilhados”. O significado foi o mesmo, em ambos os casos. Os valores partilhados são os do poder e da riqueza predatória, ignorando democracia e direitos humanos, como confirmam o banho de sangue no Iraque e o sofrimento dos palestinos, para mencionar apenas dois exemplos.

Os “valores que partilhamos” são celebrados por uma sombria organização que acaba de efectuar a sua conferência anual. É o British-American Project for the Successor Generation (BAP), estabelecido em 1985 com dinheiro de um trust de Filadelfia com um longo historial de apoio a causas da extrema-direita. Embora o BAP não reconheça publicamente a sua origem, a fonte da sua inspiração foi um apelo do presidente Reagan em 1983 para que as “próximas gerações” em ambos os lados do Atlântico “trabalhassem juntas no futuro em assuntos de defesa e segurança”. Ele fazia numerosas referências a “valores partilhados”. Compareceram a esta cerimónia na Sala de Situação da Casa Branca estavam os ideólogos Rupert Murdoch e o finado James Goldsmith.

Como esclareceu Reagan, a necessidade do BAP surgiu da ansiedade de Washington acerca da crescente oposição britânica às armas nucleares, especialmente quanto ao estacionamento de mísseis de cruzeiro na Europa. “Uma preocupação especial”, disse ele, “serão as próximas gerações, quando estas pessoas mais jovens tiverem de trabalhar juntas no futuro sobre questões de defesa e segurança”. Uma nova, preferivelmente jovem, elite – jornalistas, académicos, economistas, “sociedade civil” e líderes liberais da comunidade de um tipo ou de outro – compensariam o crescente “anti-americanismo”.

Os objectivos desta rede moderna, segundo David Willetts, o antigo director de estudos do Centre for Policy Studies, de extrema-direita, agora membro do gabinete sombra Tory, são simplesmente “ajudar a reforçar ligações anglo-americanas, especialmente se alguns membros já ocuparam ou ocuparão posições de influência”. O antigo embaixador britânico em Washington, sir John Kerr, foi mais directo. Num discurso a membros do BAP, ele afirmou que “a poderosa combinação de pessoas eminentes e de estreitas ligações atlânticas” desta organização “ameaçavam deixar a embaixada sem tarefas”. Um organizador americano do BAP descreve a rede como comprometida com a “preparação de líderes” ao mesmo tempo que promove a “o papel de liderança global que [os EUA e a Grã-Bretanha] continuam a desempenhar”.

Os alunos britânicos do BAP são retirados em grande parte do novo Labour e da sua corte. Não menos de quatro “companheiros” do BAP e um conselheiro tornaram-se ministro no primeiro governo Blair. Os nome do novo Labour incluem Peter Mandelson, George Robertson, Baronesa Symons, Jonathan Powell (chefe de gabinete de Blair), Baronesa Scotland, Douglas Alexander, Geoff Mulgan, Matthew Taylor e David Miliband. Alguns são membros da Sociedade Fabiana e descrevem-se a si próprios como sendo “de esquerda”. Trevor Philips, presidente da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos, é outro membro. Eles objectam quanto aos boatos de “uma conspiração”. A origem (mutuality) de classe ou de aspirações é simplesmente assegurada, sem ser mencionada, e o abraço cálido do poder faz o resto.

A conferências BAP são realizadas alternadamente nos EUA e na Grã-Bretanha. A deste ano foi em Newcastle, com o tema “Fé e Justiça”. Na direcção estado-unidense está Diana Negroponte, a esposa de John Negroponte, o antigo chefe da segurança nacional de Bush notório pela sua associação com a política dos esquadrões da morte na América Central. Ele seguiu outro destacado neocon, Paul Wolfowitz, o arquitecto da invasão do Iraque e desacreditado responsável do Banco Mundial. Desde 1985, “alunos” e “veteranos” do BAP tem sido reunidos por cortesia da Coca-Cola, Monsanto, Saatchi & Saatchi, Philip Morris e British Airways, dentre outras multinacionais. Nick Butler, ex-líder da BP, tem sido a luz condudora.

Para muitos, as conferências contem prazeres revivalistas afinados por técnicas americanas de RP, com jogos de administração, apresentações pessoais e uma linda revista de encerramento para aliviar dos negócios sérios. O relatório da conferência de 2002 observou: “Muitos graduados do BAP estão envolvidos directamente com instituições militares e de defesa dos EUA e do Reino Unido”.

O BAP raramente recebe publicidade, o que pode ter algo a ver com a alta proporção de jornalistas que são graduados. Destacados jornalistas do BAP são David Lipsey, Yasmin Alibhai-Brown e um conjunto sortido de murdochistas. A BBC está bem representada. No popular programa Today, James Naughtie, cujas emissões reflectem os seus próprios interesses transatlânticos, foi aluno desde 1989. A nova voz do Today, Evan Davis, anteriormente o cuidadoso editor de economia da BBC, é membro. E no topo do sítio web do BAP está uma fotografia do famoso locutor da BBC Jeremy Paxman, com o seu endosso. “Um meio maravilhoso de reunir uma amostragem variada de amigos transatlânticos”, diz ele.

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Apesar do contraste de estilos, Clinton e Obama têm poucas diferenças ideológicas

Marc Bassets

Experiência e mudança, poesia e prosa, razão e sonho. Hillary Clinton e Barack Obama. As diferenças entre os favoritos nas primárias democratas para a Casa Branca são mais de estilo que de conteúdo. Há diferenças ideológicas entre Clinton e Obama? Em quê se distinguem seus programas?

À primeira vista, e com olhos europeus, Obama poderia parecer mais de esquerda. É o candidato novo, mais distante do establishment que sua adversária, primeira-dama dos EUA entre 1992 e 2000. E mobilizou jovens e universitários. Um perfil de eleitor que, ressalvadas as distâncias, coincide com o que em 2004 votou em Howard Dean, o candidato esquerdista que murchou apesar das expectativas que tinha criado.

Os Clinton, Hillary e Bill, promoveram a terceira via que depois faria fortuna no Reino Unido de Tony Blair: uma social-democracia -se é que o rótulo pode ser usado nos EUA- centralista e liberal, mais dedicada a afinar o Estado do bem-estar do que a redistribuir a riqueza.

A proximidade -relativa- de Hillary Clinton com a política externa de George W. Bush também a afasta da esquerda. Em 2002 a senadora Clinton votou os poderes que autorizavam Bush a invadir o Iraque. Em setembro passado votou a favor de declarar a Guarda Revolucionária do Irã um grupo terrorista, um passo que nem sequer o governo Bush se atreveu a dar.

O próprio Barack Obama, apesar de na campanha levantar a bandeira de sua oposição à guerra do Iraque em 2002, reconheceu que na época teve a sorte de ainda não ser senador. Assim evitou encontrar-se na posição de apoiar Bush em um momento de inflamação patriótica. Em setembro passado ausentou-se do Senado na votação sobre a Guarda Revolucionária.

Apesar de que em política interna o que separa os dois candidatos são matizes -ambos poderiam ser definidos como democratas da terceira via clintoniana-, Hillary teve melhor sintonia com os sindicatos. E referências para os liberais, como o economista Paul Krugman, criticam duramente os planos de Obama de reformar a saúde.

O senador afro-americano é o primeiro a desmentir que seja um democrata tradicional. Apresenta-se como um centrista disposto a superar o confronto esquerda-direita herdado dos anos 60 e a estender a mão aos republicanos.

Não é estranho que nos últimos dias articulistas neoconservadores tenham celebrado sua ascensão, que também pode representar uma espécie de vitória póstuma contra os Clinton, objeto desde os anos 90 de um ódio visceral por setores da direita americana.

No livro “A Audácia da Esperança”, Obama declara-se admirador do republicano Ronald Reagan: “Conectava com nossa necessidade de crer que não estamos sujeitos apenas a forças impessoais e cegas, mas que podemos moldar nosso destino individual e coletivo, sempre que voltarmos a descobrir as virtudes tradicionais do trabalho duro, do patriotismo, da responsabilidade individual…”.

La Vanguardia
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lavanguardia/