O Carnaval em Berlim
Pela primeira vez houve um grande desfile carnavalesco na cidade, pois era carnaval pelo mundo afora. Essa inovação berlinense revela o afã de marcar a nova era da cidade depois da reunificação, voltando ela a ser a capital do país.
Flávio Aguiar - Carta Maior
Berlim passou por dias agitados recentemente. Na sexta e no sábado houve greve nos transportes municipais. Param o metrô e os ônibus. Ficaram funcionando os trens suburbanos, que fazem uma espécie de perimetral dentro do centro ampliado da cidade e se comunicam com os lindes da conurbação berlinense.
Foi uma grande confusão. O motivo da greve é salarial, mas haverá certamente conseqüências sobre os preços das passagens, que já são caras, ainda que em termos de capitais européias não sejam das piores. Uma passagem comum custa 2,10 Euros, ou seja, com o câmbio a 1 EU$ = 2,70 R$, que é o preço real que os bancos cobram do freguês no Brasil, ela sai a quase R$ 5,70. Dá direito a percorrer duas horas nos ônibus e linhas de metrô da cidade, desde que não seja na linha de volta daquela em que foi originalmente comprada. Há a “Kurzstrecke”, “Trajeto curto”, que dá direito a um pequeno número de paradas numa única linha e direção a EU$ 1,20, ou seja, quase R$ 3,15. Há passes semanais, familiares, de fim de semana, etc. O mais importante é o “Monatskarte”, passe mensal, que custa EU$ 70,00 ou R$ 189,00. No fim de semana um passageiro com uma passagem tem o direito de levar um convidado que não paga.
Deve-se ressaltar: o sistema, se é caro, é bom, eficiente, confiável e seguro. Em Berlim, não se precisa de carro,a menos que haja crianças pequenas no pedaço, por exemplo, ou se seja médico, ou algo assim. E táxi é coisa de rico, ou para emergências ou transporte de malas muito pesadas. Ainda nos dias muito frios, quando as temperaturas vão pra dezena abaixo de zero ou nas vizinhanças, as estações de metrô ficam abertas a noite inteira, para dar abrigo aos desabrigados, que não são relativamente muitos, mas não são poucos.
De todo modo, sexta e sábado foram dias atípicos: os táxis todos ocupados, além de multidões e multidões em marcha pelas ruas de Berlim.
E o domingo também foi um dia atípico. Pela primeira vez houve um grande desfile carnavalesco na cidade, pois era carnaval pelo mundo afora. Na Alemanha a cidade que tem tradição carnavalesca é Colônia, onde há desfiles durante o feriado de Momo. O desfile de Berlim seguiu uma mistura da tradição de Colônia, em que desfilam carros alegóricos com aquelas fantasias das cortes aristocráticas de antanho, com a tradição berlinense (essa sim) do Carnaval das Culturas, que se realiza na primavera, no dia de Pentecostes.
Pra quem não lembra ou nunca soube, o dia de Pentecostes é aquele em que os apóstolos e a Virgem Maria (na tradição apócrifa Maria Madalena também) receberam o dom das línguas, isto é a de falar todas elas, do Espírito Santo. Naquelas épocas o “todas elas” era, sobretudo, o grego, que era a língua franca no Mediterrâneo, além do latim, que era a língua dos Estados Unidos de então, Roma. No santinho esse dia aparece como a reunião de Maria e dos apóstolos com aquele foguinho na cabeça, que é uma representação do Espírito Santo, que baixou ali naquele terreiro com os métodos de ensino oral intensivo, já que nem todos ali iriam escrever, que era coisa, sobretudo, para Paulo (que veio depois) e os evangelistas ou seus secretários que, de acordo com a tradição profética, eram aqueles que de fato escreviam o que os outros ditavam.
O resultado dessa inovação berlinense, que revela o afã de marcar a nova era da cidade depois da reunificação, voltando ela agora a ser a capital do país, foi uma mistura de desfile de carros alegóricos, alguns com rock, funk, outros com música caribenha, brasileira ou africana, com desfile de bandas e fanfarras, com os trajes típicos desse “fake” do século XVIII que descende também do cinema de capa e espada e outros de glamourização desse passado. Todos os participantes, e não eram poucos (o desfile parou a avenida Kurfurstendam, uma das principais da cidade e a mais importante da antiga Berlim ocidental), jogavam balas e caramelos para os espectadores (que também não eram poucos). Uma das balas me acertou na cabeça, e devo dizer que não foi mole, acho que porque o atirador, sem experiência nesse tipo de esporte, se comportou como tal de fato e jogou-a com vontade de acertar o escolhido, isto é, a involuntária vítima de seu involuntário gesto.
O desfile provocou reações contraditórias. As crianças, é claro, estavam entusiasmadas. Muitos adultos (vários fantasiados de tudo o que se possa imaginar) também. Mas havia quem considerasse aquilo uma imitação de Colônia, e pior ainda, uma imitação desenxabida do Rio ou de outros carnavais.
Não concordei. É claro que pelo mundo há muito pouco que se compare ao trepidante carnaval do Rio que, apesar de sua transformação em evento municipal, estadual, federal e, sobretudo, Global, guarda ainda aquele embalo de povão, cuja tradução para outras línguas é penosa, como já comentei aqui na Carta Maior. Mas argumentei que festa é festa, e que mesmo no frio de zero grau que fazia, era melhor ver a mistura de bandas e fanfarras com carros alegóricos e música popular do que outros desfiles que já desfilaram por estas terras, inclusive os dos ocupantes do pós-guerra, e que dessa alegria, algo de bom sobrará, nem que seja para aquelas crianças e seu futuro. E assim ficamos os amigos na conversa embalada pelos goles da excelente cerveja servida nos pequenos e finos copos típicos de Colônia.
Na segunda-feira, 4 de fevereiro, tudo normal. Sem greve, sem carnaval, Berlim caíra na azáfama (ô palavrinha) habitual. Todo mundo trabalhando. Explique-se: na prussiana e protestante Berlim do norte da Alemanha, não há essa lassidão católica de feriados às pencas. Aqui impera o espírito descrito por Max Weber, capitalismo e religião deram-se as mãos banindo os feriados. Há pouquíssimos ao longo do ano: o tal dia de Pentecostes, a Sexta-Feira Santa, o Natal, o Ano Novo, o dia da reunificação alemã e meio que fica por aí. Talvez esteja me escapando algum, mas de tão desimportantes que são os feriados por aqui. E nada de feriadão: o feriado cai na quinta? Na sexta e no sábado está todo mundo trabalhando! Haja coração!
E todo mundo está à espera da próxima greve nos transportes. Porque os trabalhadores desse setor, seguindo o exemplo recente de seus colegas ferroviários, optaram por esse modelo de greve intermitente, ao invés de uma paralisação geral e contínua que fosse para o confronto, o que poderia jogar de uma só vez o conjunto dos usuários (eu ia dizer “povão”, mas aqui não há isso…) contra eles.
Aderindo aos novos costumes aqui estou eu, numa segunda-feira de Carnaval, enviando minha missiva para a Carta Maior. Mas levo a boa lembrança desses dias atípicos, inclusive o do domingo. Ele prova, pelo menos no meu argumento, que com precariedades ou não, toda a terra é boa para a alegria, e como já se apregoou de outras saudosas latitudes e longitudes, nela, em se plantando coisas boas, ela dá de volta.
Carta Maior
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