Arquivo de 6 de Fevereiro de 2008

Arquivos da memória

Conhecido pela famosa biblioteca, Aby Warburg deixou importante contribuição para uma ciência da imagem

Claudia Valladão de Mattos

Nas últimas décadas, a obra de Aby Warburg tem sido colocada no centro de uma revisão das formas tradicionais da História da Arte. Tal centralidade do autor para este campo de estudos deve-se fundamentalmente ao caráter inovador do seu método, que rompia com todas as fronteiras de disciplinas em busca de uma “ciência da imagem” essencialmente interdisciplinar.

Nascido em 1866, como filho primogênito de um rico banqueiro judeu alemão, de Hamburgo, Warburg é agora principalmente lembrado como o idealizador e fundador da importante Biblioteca Warburg, hoje sediada em Londres, e como mentor da assim chamada “Escola de Warburg”, vinculada às atividades daquela biblioteca, que inclui importantes nomes da História da Arte, como Erwin Panofsky, Fritz Saxl, Edgard Wind, entre outros. A relevância desta “Escola” no contexto da disciplina História da Arte foi, no entanto, em parte também responsável pelo desconhecimento que se instalou, durante muitas décadas, em torno das pesquisas e dos verdadeiros objetivos de Aby Warburg, após a sua morte em 1929.

Com o passar do tempo, o seu nome foi sendo identificado àqueles de seus sucessores, e em especial aos métodos da iconologia de Panofsky, que, no entanto, eram bastante diferentes aos por ele defendidos. Vejamos então rapidamente quais eram os pilares conceituais do programa original de Aby Warburg. Desde muito cedo, já em seus estudos sobre Sandro Botticelli para o doutorado em História da Arte, na Universidade de Bonn, Warburg mostrou-se interessado pela questão da sobrevivência de formas de um tempo passado em outro. No caso do trabalho sobre Botticelli - e de muitos outros que empreendeu ao longo de sua carreira - este interesse voltou-se para a investigação da sobrevivência de formas clássicas no contexto da cultura do Renascimento italiano. Enquanto estudava os quadros de Botticelli em Florença, Warburg observou uma grande preocupação do artista em reproduzir os movimentos de vestes e cabelos de algumas figuras femininas, constatando que, para tal, ele havia tomado obras antigas como modelo, principalmente figuras de ninfas presentes em sarcófagos greco-romanos. O que intrigou Warburg, no entanto, foi a ênfase excessiva dada aos movimentos e seu caráter freqüentemente antinaturalista, que contradizia a idéia largamente aceita por acadêmicos do período de que a cultura do Renascimento poderia ser compreendida como uma marcha segura em direção a um crescente naturalismo (afirmação que também aparecia em escritos da época, como nos tratados de Alberti e Vasari). Essas observações levaram Warburg a pensar em uma motivação psicológica para a reutilização de determinadas formas antigas no contexto da cultura florentina do quattrocento. Essas formas condensariam determinados conteúdos expressivos que seriam transportados para o contexto da cultura do Renascimento ao serem reaproveitadas. Em 1905, Aby Warburg cunhou o conceito de “formula de pathos” (Pathosformel) para descrever essa sua descoberta.

Tal modelo teórico, desenvolvido por Warburg no início de sua carreira para analisar a relação entre Renascimento e legado clássico, adquiriu, à medida que ele aprofundava seus estudos, um caráter cada vez mais universal, até tornar-se uma teoria sobre os mecanismos de transmissão da memória coletiva por meio das imagens. Poderíamos dizer que, nesse processo de ampliação das fronteiras de seu objeto de estudo, algumas experiências pessoais foram fundamentais, especialmente uma viagem que realizou à América do Norte em 1895 e a crise psicótica que o atingiu em 1918, levando-o a internar-se em uma clínica psiquiátrica por cinco longos anos.

Warburg visitou os Estados Unidos por ocasião do casamento de seu irmão Paul que morava em Nova York. Em meio a essa estada, interessou-se pela cultura dos nativos americanos, realizando uma viagem para a aldeia dos índios Hopi no Novo México. Durante a viagem, Warburg observou de perto os rituais desses índios, tomando notas detalhadas que, quase 30 anos mais tarde, em 1923, ele usaria para compor um texto intitulado O ritual da serpente, com o qual provou a seu psiquiatra que estava novamente em condições de retomar sua vida fora da clínica e voltar a suas atividades acadêmicas.

Nesse texto, Warburg estuda os processos de simbolização envolvidos nas práticas rituais dos índios (especialmente no “ritual da serpente”, em que este animal, identificado com o raio, é dominado), tratando-as como mecanismos universais voltados para o controle dos medos primitivos do homem diante das forças incontroláveis da natureza, um processo que, como ele conclui, estaria na base da formação das imagens significativas de todas as culturas.

A experiência da própria loucura também contribuiu para que Warburg compreendesse a força psíquica das imagens e sua relação com os medos mais primitivos da humanidade. O ambiente do sanatório de Kreuzlingen dirigido pelo psiquiatra Ludwig Binswanger, um amigo e discípulo de Freud, promoveu o contato de Warburg com a Psicanálise. Esse contato teve grande importância na elaboração de sua nova visão antropológica das construções imagéticas.

Após deixar a clínica de Kreuzlinge, Warburg passou a dedicar-se ao grande projeto que desenvolveria até o fim de sua vida, conhecido como o Atlas de imagens mnemosine (Bilderatlas Mnemosyne). Tratava-se de uma síntese de seu pensamento sobre a função psicossocial das imagens, organizada visualmente em 63 pranchas contendo fotografias que ilustravam a história da permanência de determinados valores expressivos, que seriam transmitidos em forma de imagens, como um patrimônio sujeito a leis complexas de transformação e recepção. De acordo com a concepção de Warburg, as imagens seriam formadas por motivações psíquicas relacionadas a uma determinada época e carregadas para dentro de outras culturas, na qual seriam remobilizadas em seus conteúdos psíquicos e reorganizados em função do novo contexto.

Como observou o filósofo Didi-Hüberman em seu livro sobre o autor, Warburg desenvolveu nesse projeto uma teoria da história calcada em uma temporalidade não-linear, em que as imagens, portadoras de uma memória coletiva, romperiam com o continuum da história, traçando pontes entre o passado e o presente. Para explicar essa sobrevivência da imagem passada em outras culturas, Warburg desenvolveu o conceito de Nachleben, ou pós-vida, das imagens. Na montagem do Atlas, deixada incompleta por ocasião de sua morte, cada símbolo registrado funciona como um arquivo da memória coletiva, posto em uma relação com todos os outros, formando grandes constelações que cruzam conceitos espaciais e temporais na História.

Está claro que uma tal concepção da imagem estava em desacordo com as tendências contemporâneas da história da arte de seu tempo, que se concentravam ou em uma análise positivista das imagens, levando o historiador a um mergulho em datas e fatos, ou em análises estilísticas, nas quais a única preocupação era a forma. O novo modelo proposto por Warburg, por sua vez, permitia pensar forma e conteúdo como inseparáveis. Para explicar uma determinada forma, era necessário mobilizar o conhecimento de toda a cultura do período no qual aquela constelação específica emergira.

BIBLIOTECA E MNEMOSYNE

A contribuição intelectual de Aby Warburg para as ciências humanas não se resumiu a sua obra acadêmica. Complementar e indissociável a ela, foi a construção da Biblioteca Warburg. Fundada em Hamburgo por volta de 1905 e transferida para Londres em 1933, durante o período nazista, a biblioteca nasceu como desdobramento natural do pensamento e das pesquisas de seu mentor. Durante os anos de sua formação, Warburg dedicou-se pessoalmente a comprar e a arranjar os livros nas prateleiras da biblioteca, organizando-os através de constelações temáticas. Warburg considerava os livros não apenas como fontes de informação, mas também como arquivos da memória de toda a humanidade, daí a palavra mnemosyne, inscrita ainda hoje na entrada da biblioteca em Londres. A organização dada aos livros nas estantes corresponderia, portanto, a uma determinada interpretação do passado. Fritz Saxl, um colaborador próximo de Warburg e posteriormente diretor da biblioteca, conta que Warburg passava horas reorganizando o seu conteúdo, em um processo que só adquiria sentido à luz de seus métodos de investigação.

Ainda hoje, 77 anos após a morte de seu fundador, a Biblioteca Warburg mantém preservada a estrutura original, com os livros organizados de acordo com afinidades temáticas e não por algum sistema extrínseco ao seu conteúdo, como ocorre na maior parte das bibliotecas modernas. Estudar na Biblioteca Warburg é, sem dúvida, fazer reviver algo do pensamento desse grande humanista.

Revista Cult
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Pensamento do dia

O livro é um mestre que fala mas que não responde

Platão, filósofo grego (428 - 347aC)

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Banco Central dos EUA, o parceiro silencioso nos banhos de sangue

Mike Whitney

A economia de um país é um espelho de água que nos reflecte. A face que nos olha da água é a da cultura e das características prevalecentes. Não é diferente com a América. Os comissários do sistema económico estado-unidense — Paulson e Bernanke — estão inextricavelmente ligados a um establishment político/militar totalmente impregnado na cultura da violência e da corrupção. O “Plano Marshall” de Paulson destinado aos proprietários de habitações subprime é apenas a mão enluvada do déspota. A outra mão ainda está ocupada a arrancar olhos em Guantanamo, ou a moer de pancada cidadãos estrangeiros nos sítios negros da CIA, ou a despejar bombas incendiárias sobre escolas de crianças em Faluja. Isto é tudo igual. A cultura de guerra e demagogia tem suas raízes no sistema económico. Os seus líderes financeiros são tão culpáveis quanto qualquer GI de baixa patente em Abu Ghraib.

O plano Paulson nada tem a ver com salvar pessoas da classe trabalhadora das devastações dos arrestos. Ah, não. A administração Bush opõe-se ideologicamente a ajudar pessoas em estado de necessidade. Já sabemos isto. Basta olhar para o Katrina. A finalidade real da proposta “salvação de emergência” (”bailout”) é permitir que bastantes pessoas continuem a fazer pagamentos mínimos das suas hipotecas de modo a que o sistema bancários não se estilhace em um milhão de pedaços. É isso. Não preciso chamar um génio para ver que o desespero tomou conta do Federal Reserve. A última vez que o governo orquestrou uma salvação de emergência desta grandeza foi na década de 1930. E o que mais? George Bush não é Franklin Dellano Roosevelt.

A verdade é que o sistema está em erupção e o botão de pânico do Fed está a “piscar vermelho”. É óbvio. Eles estão a fazer tudo o que podem para manter o comboio sobre os carris, mas não estão a conseguir. Estão a cortar taxas, a aceitar colaterais dúbios (como papel comercial e tremulantes títulos apoiados por hipotecas) como reposição, e estenderam o período das reposições indefinidamente, o que equivale a “monetizar” a dívida. Paulson tentou estabelecer um Super SIV [1] para ajudar os grandes bancos de investimento a descarregarem o seu lixo apoiado por hipotecas sobre o público desconfiado, mas isto tão pouco está a funcionar. Nada está a funcionar. Enquanto isso, os ventos contrários continuam a ficar mais fortes, as ondas continuam a esmagar-se sobre a proa, e o navio do Estado continua a declinar perigosamente de lado. Ele está numa confusão.

Os bancos são o canal para o papel-moeda inescrupuloso emitido pelo Federal Reserve. É um negócio torto dirigido pelas mesmas pessoas que enviam nossos filhos para a guerra enquanto premeiam-se a si próprios com cortes fiscais. Agora o sistema está em horrendas dificuldades. Deveríamos sentir-nos mal por isso?

Bancos centrais estrangeiros e investidores estão a livrar-se dos seus dólares e dos seus activos denominados em dólar, os Estados do Golfo ameaçam desligar o petróleo do dólar, e investidores por toda a parte sabem que foram roubados por uma burla ordinária de lavagem de hipotecas que obteve o “sinal verde” dos reguladores dos Estados Unidos. O cenário em torno de nós é mau. E agora as galinhas voltam a casa para se empoleirarem.

CÓ-CÓRÓ-CÓ

O colapso no mercado imobiliário continua a enviar tremores a toda Wall Street. Milhões de milhões de dólares em títulos complexos (CDOs e MBSs) estão a ser degradados quando aumentam os arrestos e os inventários de casas sobem. Bancos, companhias de seguros, fundos de pensão, títulos de companhias de seguros, hedge funds, todos eles estão entre a vida e a morte. Muitos já insolventes e muitos mais os seguirão. É apenas uma questão de tempo. Os fundamentos dos mercados financeiros estão a esfarelar-se. O esquema de transformar os passivos dos candidatos a empréstimos com mau crédito numa fonte confiável de lucros gordos fracassou. A alquimia não funciona. Nunca funcionou.

A crise subprime e o (subsequente) esmagamento do crédito teve origem no Federal Reserve. O Fed disparou um frenesim especulativo ao baixar taxas de juros abaixo da taxa de inflação durante mais de 31 meses entre 2002 e 2004. Milhões de milhões de dólares alimentaram então o sistema bancário criando a maior bolha equity da história. Agora que a bolha imobiliária está a estraçalhar-se na terra – e milhões de milhões de dólares em títulos tremelicantes estão destinados ao aterro sanitário – o Fede está a tentar distanciar-se de qualquer responsabilidade. Mas nós sabemos a verdade. O plano foi concebido e executado pelo Fed e é nele que reside a culpa. Todos os outros são apenas “pequenos actores”.

O que importa é que o sistema está a entrar em colapso. Está a ser vagarosamente esmagado pelo peso acumulado da sua própria corrupção. Quando o sistema cair, a bandeira será arriada na Baía de Guantanamo, a actual oligarquia de extorsionários (racketeers) será removida do gabinete, e as tropas no Iraque voltarão para casa. Por vezes resultados positivos decorrem da tragédia.

Poderia haver anarquia ou tirania ou lei marcial ou campos de detenção. Quem é que sabe, realmente? É compreensível que o público esteja preocupado quanto “ao que poderia acontecer” no futuro próximo. Mas, considere-se isto: podemos nós continuar a derramar o sangue de pessoas inocentes por todo o planeta enquanto afirmamos possuir o mundo e todos os seus recursos? Podemos nós ignorar desafios que ameaçam as espécies, como o aquecimento global [2] , o pico petrolífero e a proliferação nuclear?

Não.

Bem, nesse caso, haverá qualquer probabilidade de que os media, o congresso, os tribunais, ou o presidente cheguem a cair em si, a traçar uma rota diferente, a restaurar liberdades civis, a parar o abuso de direitos humanos e a retirar as tropas?

Não

Então, caro leitor, diga-me que esperança há de mudança senão através de um colapso económico de todo o sistema?

Sistemas políticos não têm de ser perfeitos para serem aceitáveis. Não sou ingénuo. Mas – para muitos de nós – há critérios morais básicos que têm de ser cumpridos para merecer o nosso apoio. A administração Bush elevou a matança, a tortura e o sequestro a um nível de política de Estado. Isto é inaceitável por qualquer padrão e, com isso, todas as alavancas do poder são controladas por pessoas que apoiam a doutrina actual.

NÃO É ASSIM?

Os Estados Unidos não são um foco de esperança ou uma luz no mundo. São, sim, uma ameaça, e cada vez maior, para a sobrevivência na Terra. A política da América e a beligerância militar constituem apenas uma extensão de um sistema económico dominador que serve unicamente aos interesses dos ricos e poderosos. O Banco Central desempenha um papel crítico neste paradigma. O país não vai à guerra sem a bênção das suas principais instituições financeiras. Os sujeitos do “big money” são os parceiros silenciosos nas pilhagens e nos banhos de sangue.

Os homens que possuem e fiscalizam o sistema financeiro dos EUA criaram o cancro que actualmente está a devorá-lo por dentro. Agora o tumor entrou em metástases e espalhou-se através de todo o organismo. A situação é irreversível. A economia está nos seus últimos passos e destinada a uma queda. Os líderes políticos estado-unidenses terão de aceitar um mundo no qual a América será apenas um entre muitos Estados de igual poder e significância. O financiamento militar reduzir-se-á a umas gotas. A matança acabará. Finalmente.

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NT1] SIV: Structured Investment Vehicles .
[NT2] Pelo menos este podemos seguramente ignorar, pois é um desafio fictício. O autor deixou-se influenciar pela enxurrada desinformativa acerca do suposto “aquecimento global”. Para uma informação rigorosa ler, por exemplo, Rui G. Moura: A fabricação do pânico climático e A paranóia do dióxido de carbono .

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Mais 5 milhões devem ficar sem emprego este ano

Onda de desemprego pode ser apenas o começo, segundo a OIT; países ricos devem perder mais vagas

Jamil Chade

A crise nos mercados mundiais e a desaceleração do crescimento econômico colocarão, no mínimo, mais 5 milhões de pessoas na fila do desemprego no mundo em 2008. A projeção é da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que divulgou ontem seu relatório sobre a situação do emprego no mundo. Ao contrário de outras crises, o maior número de desempregados adicionais deve ser visto nos países ricos. Mas, se a turbulência se transformar em recessão, a América Latina pode ser a próxima vítima em termos de criação de postos de trabalho. Para o diretor da OIT Juan Somavia, 2008 será o “ano das incertezas”.
Segundo a organização, o mundo criou em 2007 45 milhões de novos empregos. Neste ano, serão 40 milhões. No total, o número de desempregados deve chegar ao fim do ano em 195 milhões de pessoas. Em 2007, eram 189,9 milhões de desempregados, ante 189,6 milhões em 2005.
A OIT alerta que essa nova onda de desemprego pode ser apenas o começo. As estimativas da organização para 2008 foram baseadas na revisão do Produto Interno Bruto (PIB) mundial feito pela Fundo Monetário Internacional (FMI), em setembro do ano passado.
Na revisão, o FMI reduziu a perspectiva de crescimento em 2008 de 4,9% para 4,8%. O resultado dessa queda seria 5 milhões de novos desempregados. Em termos porcentuais, o crescimento é pequeno, passando de 6% para 6,1% de desemprego. “Esse aumento pode parecer marginal, mas o incremento de 0,1% na taxa do desemprego mundial é algo de substantivo. Nas piores crises a taxa foi de 6,5%”, explicou Dorothy Schmidt, autora do levantamento.
“Já estamos vendo a possibilidade de uma revisão do crescimento do PIB europeu, o que teria um impacto ainda mais sério na taxa de desemprego”, disse o diretor-executivo da organização, José Manuel Salazar.
O que a OIT teme é que o próximo impacto seja sentido nos países em desenvolvimento, afetados por uma recessão nas economias ricas. Nos últimos anos, os emergentes têm compensado o baixo crescimento na Europa e nos Estados Unidos. Em 2007, um em cada quatro postos de trabalho foi criado na Ásia, o que compensou a crise no mercado de trabalho em outras regiões. Os países ricos, só no ano passado, ficaram com mais 600 mil desempregados.
Para os técnicos, uma recessão nos países ricos não vai poupar a América Latina. “Uma mínima revisão do crescimento econômico americano já afeta a América Latina. Neste ano, vimos a estagnação na criação de empregos na região e o impacto em 2008 pode ser importante”, disse Dorothy.
Para a OIT, muitos países podem ter perdido os últimos cinco anos de forte crescimento econômico para melhorar sua situação no que se refere ao desemprego. “A partir de agora, o cenário será mais difícil. Não criamos um número de trabalhos decentes suficiente enquanto a situação econômica era favorável. Agora, a turbulência pode significar um limite para as políticas de desenvolvimento “, afirmou a autora do levantamento.
RECORDE DE EMPREGADOS
Em 2007, o número de desempregados aumentou em 3 milhões de pessoas em comparação a 2006, mesmo com um crescimento do PIB mundial de 5,2%. A OIT ainda destaca que cerca de 3 bilhões de pessoas (61,7% da população mundial) fizeram parte do mercado de trabalho em todo o mundo, uma cifra recorde.
“Crescimento econômico não gera empregos se não for sustentável. Por isso é que vemos que a eventual crise em 2008 pode ser perigosa. A esperança é que Ásia não seja atingida, continue a demonstrar crescimento e seja o motor da geração de empregos no mundo”, afirmou Salazar.
Entre as regiões que tiveram maior desemprego no ano passado estão Oriente Médio e norte da África, com taxas de 11,8% e 10,9%, respectivamente. A América Latina divide a terceira posição com Leste Europeu e ex-repúblicas soviéticas com 8,5%.

Estado de S. Paulo

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O inferno carcerário e as penas alternativas

O episódio da menina na cela de presos homens e a revelação de que não se trata de um caso isolado é apenas um episódio a mais no inferno carcerário brasileiro. Sabemos que nosso sistema penitenciário não é feito para recuperar – como deveria ser -, mas para isolar, punir e, se possível, exterminar – se não fisicamente, pelo menos a humanidade dos que ali são recluídos.

Sabemos que quem chega até ali, por uma ou outra razão, nao sai mais, salvo que fuja. As tramas cruéis da instituição fechada se encarregam de devorar seus membros. As cenas que os que estamos aqui fora conhecemos dali são apenas a confirmação de que nada queremos, nem esperamos daquele mundo. Queremos que fiquem ali para sempre, recluídos, fechados, isolados. São, para nós, bárbaros.

Reforçados por esse clima repressivo, pede-se cada vez mais penas, cada vez mais reclusões. Uma sociedade que demanda isso, tem que estar disposta a pagar mais impostos para construir prisões, delegacias, para ter mais policiais, mais juízes, mais camburões, mais repressão, mais caveirão.

Reproduz-se assim o inferno que estamos vivendo, dentro e fora das prisões. Enquanto isso, medidas tão simples como as que prevêem penas alternativas, praticamente não são utilizadas. Trata-se de processos de socialização dos condenados como réus primarios a infrações simples, que em lugar de conviver de maneira promíscua nas prisões, com os riscos de contaminação de todo tipo, tem a possibilidade de recuperar-se prestando serviços à comunidade.

As experiências existentes são muito positivas e alentadoras. Quando trabalhei na prefeitura de Luiza Erundina, em São Paulo, as penas alternativas foram utilizadas amplamente, com condenados prestando serviços de marcenaria, de pintura e de outras atividades similares em escolas públicas. Os resultados não poderiam ser melhores. Combina-se a tradução da pena em serviços que retribuam à comunidade pelos danos causados e tem uma dimensão de ressocialização.

Ao invés disso, essa ânsia de penalização que é multiplicada conscientemente pela imprensa – incluindo a rejeição da lei que limitava a compra de armamentos, as iniciativas para diminuir a idade de imputabilidade penal, para instituir a pena de morte, para aumentar as penas -, quer avançar na direção oposta, com a criminalização da pobrezsa, das lutas sociais, da infância e da juventude pobre, que perambula pelas ruas, praças e esquinas de sociedades que os discriminam, os rejeitam, os criminalizam.

Diminuir a população carcerária com a prática sistemática de penas alternativas contribui, ao contrário, para diminuir a superlotação das prisões, a contaminação de condenados primários com outros, para a ressocialização e recuperação dos que cometeram delitos primários. Não resolve todos os outros problemas, mas ajuda a retomar a função de reeducação das penas, a diminuir o caráter multiplicador da criminalidade dentro das prisões, sua promiscuidade física e social.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Retrato de uma imprensa às vésperas dos seus 200 anos

Alberto Dines

A mídia, especialmente a mídia impressa e principalmente a diária, chega atarantada às festas de fim de ano. Ao esquema de fechamento insano, desumano, precário, acrescenta-se o extraordinário volume de páginas para acompanhar a avalanche de anúncios.

Faturar alto seria muito bom se o empresário de jornal não se comportasse exatamente como o empresário que fabrica salsichas, despreocupado com contrapartidas.

Na atual alucinação natalina subverteu-se o critério de relevância que há 400 anos comanda o processo de escolher e destacar informações nos veículos periódicos. O que entra numa edição não é necessariamente o que mais importa ao leitor, o que é destacado nem sempre é o mais pertinente. No lugar do princípio da transcendência, o império da aleatoriedade.

Dogmas “da casa”

Como se não bastassem estes desacertos elementares, nossas redações estão engessadas por fórmulas burocráticas estabelecidas pelo departamento comercial ou decretadas pela direção para preservar o vício da segmentação e do cadernismo.

Antes mesmo de traçado o primeiro esboço da primeira página já estão anotadas tantas recomendações e proibições, tantos preceitos e preconceitos, que a soma das criatividades do diretor de arte e do editor reduz-se a 10% do seu potencial.

A obrigação de valorizar os cadernos para adolescentes, comes & bebes, informática, turismo, TV ou a crônica feminina deixam um espaço mínimo para a valorização decente dos fatos do dia. Além disso, há os “especiais” que antigamente designava-se como “picaretagens”, sem eufemismos porém com certo recato, e agora são vendidos despudoradamente com a promessa de destaque na primeira página.

Como se não bastasse, há os dogmas “da casa” (”uma cifra, qualquer cifra, vale mais do que um fato, qualquer fato”), os acertos do pool corporativo, as orientações da direção e a fogueira das vaidades dos colunistas. A sobra é mínima.

Ladeira abaixo

Se o panorama é desanimador nas capas dos jornais, nas páginas internas a deformação é produzida pela licenciosidade publicitária. As agências de propaganda pagam altíssimos salários aos seus criativos (aplausos calorosos!), mas isso não deve significar que esses geniais criativos tenham o direito de pisotear os cânones de leitura e da arquitetura interior de nossos jornais. Quem deve ser endeusado não é o anunciante, mas o leitor que paga para receber um jornal bem informado, bem escrito e… minimamente legível.

Um pouco de hombridade e honestidade da parte dos departamentos comerciais tornaria nossos jornais menos vulneráveis aos malabarismos circenses que infernizam a vida de quem precisa ler jornais. E, atenção: eles são em número cada vez menor.

Pouco interessa ao leitor se a agência ganhou um prêmio em Cannes ou no Canindé com a sua barafunda psicodélica concebida para liquidar as diferenças entre informação e anúncio (caso da recente campanha da agência África para a Phillips). O leitor gosta de anúncios desde que oferecidos como anúncios, sem truques ou mistificações.

As mazelas do nosso grande jornalismo não são políticas, ou melhor, podem não ser claramente políticas, mas são tantas e tão entranhadas que acabam criando padrões jornalísticos inconfiáveis no resto da mídia. Não esqueçamos que no Brasil inexistem agências de notícias autônomas, o jornal é ainda o grande pautador do rádiojornalismo, do telejornalismo e do webjornalismo. Uma pequena asneira produzida pela balbúrdia no fechamento rola ladeira abaixo com tal velocidade que em apenas 60 minutos converte-se numa asneira enorme, difícil de erradicar ou contraditar.

Reserva de qualidade

O quadro parece menos desolador nas temporadas opulentas quando a quantidade disfarça a qualidade. Fica mais visível na saison das vacas magras. Breve, em janeiro, teremos o indefectível “jornalismo de verão” com edições mirradas, mais complicadas para preencher por causa dos recessos, férias, recheadas de modismos e abobrinhas sob o pretexto de atrair o público feminino.

A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.

Temos editores da melhor qualidade, redatores talentosos, repórteres incansáveis, temos até recantos de bom nível jornalístico (caso do Valor Econômico), mas o quadro geral às vésperas das comemorações dos 200 anos da fundação da imprensa brasileira é lamentável. A festa merece convidados menos mambembes.

Observatório da Imprensa
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/index.asp

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Irã: alianças, energia e futuro

Chico Villela

A segunda Cúpula do Cáspio (Caspian Summit) reuniu em 17 de outubro em Teheran, no Irã, chefes de governo e representantes de Irã, Rússia, Azerbaijão, Casaquistão e Turcmenistão, países cujas fronteiras reúnem-se ao redor do Mar Cáspio, e gerou decisões que podem afetar a região e o mundo e alterar os lances do xadrez geopolítico e estratégico. O respeitado analista independente Mahdi Darius Nazemroaya foi além: “A Segunda Cúpula dos Estados do Cáspio em Teheran mudará o ambiente geopolítico global”, e ainda: “O que ocorrer em Teheran pode decidir o curso do resto deste século.”

ANTECEDENTES
Duas citações são freqüentes no trato de temas do Cáspio, da Ásia Central e do futuro regional e global: Great Game (Grande Jogo) e chessboard (tabuleiro de xadrez). A expressão Great Game vem da Inteligência britânica, e foi popularizada em 1901 pela obra “Kim”, do escritor Rudyard Kipling. Foi o nome dado à disputa entre os impérios inglês e russo czarista pelo controle da região da Ásia Central, Tibet e Índia, e ainda do Irã e da região do Cáucaso, que correu por algumas décadas do século XIX e chegou até o raiar do século XX. País insular, a sede do império inglês duelava pelo mando na maior porção contínua de terra do planeta, principalmente pela Ásia Central, que se interpõe entre a Europa e as partes mais setentrionais e orientais da Ásia, e onde se situam hoje Casaquistão, Turcmenistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Afeganistão, Mongólia e vizinhanças russas, chinesas, iranianas, caucasianas e outras. Digna de nota é a opinião de núcleos conservadores euamericanos sobre a não-existência de um Great Game na região, talvez pelos revezes que lhes vêm sucedendo. Outros especialistas consideram a extinta guerra fria como a sua continuação.

Chessboard faz referência à obra exaustivamente citada, de 1997, do ex-assessor de segurança nacional do governo Carter e respeitado analista e estrategista Zbigniew Brzezinski, “The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives”. Brzezinski discute as condições a serem atendidas, ou criadas, ou impostas, para que a supremacia euamericana possa tornar-se permanente e garantir a si e a seus aliados o acesso, o controle e a certeza de fornecimento das imensas riquezas da região, com destaque para petróleo e gás.

Stan Stão (Stan) posposto ao nome da etnia seria para nós ‘terra de’ (‘land’); assim, Uzbequistão é a terra dos uzbeques; Casaquistão, a dos cazaques; Baluchistão, a dos baluches. Em verdade, a Eurásia congrega centenas de povos e de línguas, de origens indo-européias, turcas, chinesas, mongóis, irânicas, caucasianas, etc. Mas mesmo essa caracterização genérica é inadequada, já que, por exemplo, ‘China’ abriga uma reunião de uma etnia dominante, a Han (92%), e 55 etnias menores. Algumas dessas etnias eurasianas associam-se a Estados; a maioria dispersa-se por países. São exemplos dessa maioria os curdos, 30 milhões de pessoas, que ocupam territórios de Turquia, Irã e Iraque e uma diminuta porção de Síria e Armênia, e os baluches, 10 milhões de pessoas, que ocupam mais de um terço do Paquistão e parte do sul do Afeganistão e do sudeste do Irã.

Esta é, aliás, uma constante da região que facilita condições para tentativas divisionistas, partição de países, recomposições territoriais, etc. O fato é relevante porque um dos pilares da política aliada EUA-Reino Unido para a região é o esfacelamento de países, o que multiplica as forças de mando e abre espaços para alianças novas contra os velhos inimigos Rússia, China e Irã. O plano da dupla Bush-Cheney para o Iraque, por exemplo, prevê um norte curdo, um sul xiita e um centro-oeste sunita. Como vários outros, esse plano está suspenso enquanto o imbroglio das guerras e a crise entre a guerrilha curda e a Turquia não se desenrolam.

Alianças e Traições
Após a dissolução da União comunista, quinze repúblicas tornaram-se independentes; algumas mantiveram-se vinculadas à Rússia, e outras aproximaram-se do Ocidente. Fundou-se a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que hoje tem papel menor nos eventos. Hoje, Georgia (terra natal de Stálin), Ucrânia e Moldávia são próximas do Ocidente; Casaquistão, Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Turcmenistão, Armênia e outras são aliadas da Rússia. Logo após o fim da URSS, a aliança EUA-Reino Unido ganhou adeptos, com apoio da Otan, e a partir de então é grande a disputa por apoios e ampla a ação de serviços diplomáticos e de segurança de ambos os lados.

A Rússia, abalada pelo fim do império soviético e em grave crise econômica, com queda de mais de 20% do produto interno bruto, perdeu aliados e terreno. Tudo indicava que iria submergir sob o cerco progressivo da aliança ocidental, que instalava bases militares nos países recém-aliados da Europa e da região, sempre com a mente nos três inimigos principais e o olho gordo na imensa riqueza em petróleo e gás da região, cujo controle estratégico permitiria, além do mais, manter em pé o combalido e decadente sistema financeiro do dólar. Chegou a constituir-se um agrupamento, conhecido como GUUAM, que reunia Geórgia, Uzbequistão, Ucrânia, Azerbaijão e Moldávia, além de outros sócios menores que cediam espaços para bases e instalações e facilitavam a ação dos serviços ocidentais de segurança e espionagem. Hoje, sem Uzbequistão e Azerbaijão, o grupo seria mais propriamente conhecido como GUM; em inglês, chiclete.

Uma exceção na região é o Turcmenistão, dos turcmenos ou turcomanos, único país neutro a ter seu status de neutralidade reconhecido pela ONU; os outros dois países tradicionalmente neutros são Áustria e Suíça. A história dos turcmenos guarda muitos exemplos de pacifismo e de políticas de ‘portas abertas’. Embora parte da etnia habite o norte do Afeganistão, os turcmenos não participam da guerra, como o fazem outras etnias vizinhas.

Putin Com Putin, oriundo do serviço soviético de segurança do Estado KGB, a situação foi revertida. Com a segunda maior produção mundial de petróleo e detentora das maiores reservas de petróleo (10%), gás (30%) e carvão (20%) do planeta, e forte fornecedora de petróleo (20%) e gás (50%) para a União Européia, a Rússia de Putin beneficiou-se com a subida acelerada dos preços da energia (em 1970, o barril de petróleo valia US$ 10; hoje, anda próximo de US$ 100). Entre 2000 e 2007 o PIB russo subiu de rasos US$ 250 bilhões para mais de US$ 1,2 trilhão. Recompôs sua posição de líder regional e voltou a ‘flexionar músculos’ de grande potência nuclear contraposta aos interesses e à política de invasões e força bruta da aliança anglo-euamericana.

O diretor da área de estudos russos de um instituto europeu situou o enigma Putin em declaração recente. Para ele, na época soviética, os planos eram de longo prazo, e as ações das lideranças geriátricas eram razoavelmente previsíveis. Hoje, a equipe de governo, que abriga também um núcleo mais jovem de egressos da KGB, é mais dinâmica em suas ações e resoluções. A força de Putin pode ser vista nas últimas eleições de 2 de dezembro: seu partido teve mais de 60% dos votos, e discute-se seu futuro papel, seja como um super primeiro ministro, seja como um árbitro tipo ‘Pai da Nação’, um grão-conselheiro.

Há, no entanto, outros campos em que existe cooperação entre Oriente e Ocidente, a exemplo do combate aos agrupamentos terroristas e movimentos separatistas e de fundo político-religioso, temas que interessam tanto à aliança anglo-euamericana quanto à oriental. O movimento fundamentalista afegão-paquistanês Talibã, por exemplo, é hostilizado hoje por russos e aliados ocidentais, e também pelo Irã, que nunca o apoiou. Os talibãs foram armados e apoiados pela aliança ocidental e pelo Paquistão nos tempos em que combatiam os invasores russos. Mas isso não impede que os dois lados continuem estimulando nos adversários revoltas e as chamadas ‘revoluções de veludo’. A Ucrânia se coloca ao lado da aliança ocidental e candidata-se a aderir à União Européia e talvez à Otan, tanto quanto a Geórgia, sacudida hoje por movimentos favoráveis ao realinhamento do país.

Erros e equívocos Com o Uzbequistão errou-se de modo drástico. De início pendente a aliar-se com o Ocidente, o Uzbequistão sofreu uma fermentação interna auxiliada pelos serviços secretos aliados, pois havia insatisfação com a condução do jogo pelo presidente Karimov. Uma revolta estimulada por agentes na cidade de Andijan foi brutalmente reprimida pelo governo. Após tomar conhecimento de que o governo Bush-Cheney pretendia animar uma comissão para levantar os acontecimentos de Andijan, além de ser responsabilizado por uma tentativa anterior de assassiná-lo, o Uzbequistão de Karimov repeliu a aliança, defenestrou as tropas ocidentais e aproximou-se em caráter definitivo da Rússia. Em 2005, finalmente foi fechada a base euamericana que ainda se mantinha no país. A importância do Uzbequistão também vem de possuir o maior exército da região depois do russo.

Ocorrência similar deu-se no Tadjiquistão, que também colocou para fora do país essas tropas. O Quirguistão ainda permite a presença de uma base euamericana, situada a 30 km de uma base russa, mas cobra um aluguel tão elevado que os EUA pretendem abandoná-la.

Em 1953, o líder iraniano e primeiro-ministro Mohammad Mossadegh estatizou as multinacionais do petróleo do Irã e nacionalizou as reservas. Mossadegh foi derrubado num golpe armado (e hoje fartamente documentado) pela CIA e pelo MI6 inglês. Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou da Europa um golpe que depôs o aliado do Ocidente, o xá Pahlevi, e proclamou a primeira república islâmica da história. O nacionalismo iraniano, reprimido no país, ganhara refúgio nos templos e escolas islâmicos. Alguns analistas consideram a instalação da república islâmica iraniana como o fato político mais decisivo do século, além mesmo do fim da URSS. A julgar pelos fatos atuais, em que o futuro do mundo decide-se em torno da região, a idéia parece merecer fundamento. Ganham relevo nesse contexto as palavras do veterano repórter Robert Fisk sobre a ‘esquerda’ no Oriente Médio: para Fisk, não existem mais organizações de esquerda entre árabes; existem apenas agrupamentos islâmicos.

[Em posição menor mas não desimportante, organizações não governamentais tomam partido e são peças-chave nos embates. Organizações ambientalistas ou voltadas a direitos humanos e liberdades civis, como Greenpeace, WWF (World Wildlife Fund), Human Rights Watch, Transparência Internacional, atuam como atores do jogo político a serviço dos capitais internacionais que financiam suas atividades. O WWF foi fundado pela Casa Real inglesa, e o Greenpeace, pela Casa Real belga. É parte da história da época o fato de valores que hoje se incorporam ao exercício da cidadania serem também moeda de troca no Grande Jogo.]

A Aliança Oriental
Ainda na presidência do pândego Boris Ieltsin, em dezembro de 1999, a Rússia celebrou com a China de Jiang Zemin um acordo histórico de apoio mútuo e de oposição à aspiração euamericana de poder imperial num mundo então pretendido como unipolar, após o fim da guerra fria. Em meados de 2001, os dois países assinaram um tratado de boa vizinhança e cooperação amigável, que previa um pacto de defesa mútua. Nesse período, na chinesa Xangai, Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão, já em sua sexta reunião conjunta, convidaram o Uzbequistão e formaram juntos a Organização de Cooperação de Xangai (Shangai Cooperation Organization, SCO).

SCO A segunda cúpula da SCO reuniu-se em 2002 na Rússia, em São Petersburgo; a terceira, em 2003, em Moscou; a quarta, em Tashkent, capital do Uzbequistão, em 2004, com a presença da Mongólia na posição de observador, ocasião em que se estreitaram os laços de cooperação econômica e de defesa. A quinta reunião, realizada em 2005 em Astana, capital do Cazaquistão, contou com Mongólia e os novos observadores Índia,

Paquistão e Irã.
A sexta reunião, em 2006, novamente em Xangai, contou com os quatro observadores anteriores mais o convidado Afeganistão. À exceção da Índia, que enviou seu ministro de petróleo e gás, os três outros países observadores e o convidado Afeganistão, além dos membros plenos, foram representados pelos seus presidentes. Participaram também o chefe do comitê executivo da Comunidade de Estados Independentes - CEI e o secretário geral da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Na sétima e última cúpula, realizada em agosto deste ano em Bishkek, capital do Quirguistão, participaram os mesmos quatro observadores. Destaque-se que a posição de observador é um status, e o passo seguinte seria a incorporação do país à SCO, com status de membro pleno. Na mensagem que endereçou à cúpula, o presidente chinês Hu Jintao encareceu a necessidade de aprofundar a cooperação econômica entre os membros, oferecendo crédito e suporte

financeiro para os projetos multi e bilaterais, em especial nas áreas de transportes, energia e comunicações.
O ensaísta Alexander Lukin analisa a SCO e anota algumas sugestões sobre seu futuro. De início, destaca o que se convencionou chamar de “Espírito de Xangai” e que a SCO não tem inimigos, é um grande projeto de cooperação e desenvolvimento. Destaca ainda que a SCO não se coloca contra o Ocidente, e que seus membros estão abertos à cooperação com empresas e governos de todo o mundo, como ocorre hoje na China e, em menor escala após Putin, também na Rússia.

No capítulo ‘Segurança’, a SCO vê intimidade entre o terrorismo internacional e o separatismo e extremismo religioso. Assim, coloca ênfase na garantia da integridade territorial e na manutenção dos regimes leigos, posição contrária às pretendidas por Washington com sua política de ‘dividir para reinar’.

Lukin alerta para fatos como projetos fracamente implementados, entre eles as complexas interligações de transportes e de energia entre os parceiros. Em parte, atribui o atraso à política individualista chinesa, que termina por ser pouco atraente para todos. Outro fator limitante à expansão da colaboração é a não-constituição ainda de um fundo de desenvolvimento, embora já existam um Conselho de Negócios e uma Associação Interbancária.

Os EUA chegaram tarde a esses lances. Só em 2005, quando o Uzbequistão decidiu desfazer-se da aliança e voltar-se para a Rússia, a diplomacia euamericana acordou. Ainda em 2005, Frederick Starr publicou na revista “Foreign Affairs” seu projeto, endossado pelo governo, da constituição da Greater Central Asia Partnership for Cooperation and Development, para implementar programas conduzidos pelos EUA, com centro no Afeganistão. Os papéis de Rússia e China seriam irrisórios; o Irã não seria admitido; Paquistão e Afeganistão entrariam, com Índia e Turquia para, junto com o autor, zelarem pela segurança e a estabilidade na região.

No ano seguinte, 2006, numa audiência no Congresso, o secretário assistente de Estado para Assuntos da Ásia Central e Sul, Richard Boucher, nem sequer conseguiu nomear os seis países membros nem se referiu à SCO, numa omissão que aclarou seu desconhecimento. O agravamento da situação no Afeganistão atrapalhou em definitivo os planos euamericanos. Além disso, a imagem dos EUA é negativa entre os países da região, principalmente após os eventos do Uzbequistão, e muitos temem que a aproximação com os EUA lhes traga problemas.

Lukin aponta algumas mudanças necessárias ao fortalecimento da SCO e ao esvaziamento das propostas ocidentais. São: (1) interessar Índia, Paquistão e Mongólia a se tornarem membros plenos, e dar a Turquia e Afeganistão status de observadores; (2) envolver mais o Irã em seus propósitos pacíficos e construtivos; (3) criar mais cooperação econômica via fundos estatais alocados para projetos multilaterais; (4) abrir mais canais para a cooperação da China; (5) estabelecer uma universidade e um instituto de estudos; e (6) estimular as trocas culturais, esportivas e artísticas entre os membros.

A Aliança Militar
São muitos os acordos gerais, bilaterais e multilaterais que vêm se concertando no âmbito da SCO e seus parceiros observadores. Questões como energia, meio ambiente, infra-estrutura, finanças e educação têm recebido tanta atenção e investimentos quanto segurança e combate às manifestações separatistas, terroristas e extremistas, religiosas ou não. Para Nazemroaya, o Irã é um membro de fato, e sua aparente situação de observador destina-se a ocultar a natureza da cooperação trilateral entre Rússia, China e Irã e evitar a caracterização da SCO como um grupo anti-ocidental.

Segundo Brzezinzki em seu “The Grand Chessboard…”, para a aliança anglo-euamericana a formação de um eixo desse calibre é o que poderia acontecer de mais ameaçador a seus planos de hegemonia. Brzezinski alertava sobre a “emergência de uma coalisão que poderia eventualmente opor-se à supremacia” euamericana. Profeticamente, citou uma “aliança anti-hegemônica” que poderia “ser formada por China, Rússia e Irã”.

Além de a SCO implicar compromissos de defesa e colaboração contra eventuais ataques a um país-membro, embora não seja uma organização militar, existe ainda a CSTO (Collective Security Treaty Organization), sucessora da entidade que reuniu alguns países da ex-URSS logo após a sua dissolução. Compõem hoje a CSTO Rússia, Armênia, Belarus, Quirguistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Um general russo é o secretário geral da organização. A Otan não tem ligações com a SCO ou a SCTO, tanto quanto não as tem com a China.
Em outubro de 2007, foi assinado um acordo entre a CSTO e a SCO para ampliação da colaboração em campos como segurança, combate ao crime organizado e tráfico de drogas. O Irã analisa convite da Rússia para aderir à CSTO; seria o primeiro país fora da órbita da ex-URSS a compor a organização, que tem status de observador junto à Assembléia Geral da ONU. Embora a mídia pró-ocidental ainda não se tenha dado conta, existem hoje duas grandes alianças militares, a velha Otan que emergiu da Segunda Guerra e a CSTO recente, além de pactos que ampliam seu alcance, como os que envolvem a China e suas poderosas forças armadas.

Aliados e inimigos A posição de aliado de um ou outro lado é sempre dinâmica, e nesse jogo, se datado do início da década de 1990, os aliados ocidentais começaram bem e vêm desde então deixando escorrer pelos dedos suas conquistas iniciais. A Otan hoje acha-se mergulhada na interminável guerra no Afeganistão, e as tropas anglo-euamericanas vêm patinando na guerra no Iraque. O caso da Turquia, principal aliado ocidental na região, é ilustrativo do choque entre os interesses militares e políticos da aliança ocidental e os mais elevados interesses geopolíticos do país.

Há duas guerrilhas curdas, ligadas ao partido PKK e a um ramo seu, que combatem tropas turcas e iranianas. Ambas são toleradas e, da parte dos curdos, estimuladas; a anti-iraniana tem laços com militares euamericanos. A Turquia, que sedia boa parte do apoio logístico à guerra no Iraque, chegou a movimentar tropas para invadir o Iraque ao norte e desmantelar as bases em que se escondem os guerrilheiros curdos-turcos. Ameaçada pela intenção do Congresso dos EUA de reconhecer o genocídio turco contra os armênios entre 1915 e 1923, tema tabu que leva à prisão, a Turquia ameaçou fechar a base de apoio aos aliados. A questão ainda se acha pendente de gestões diplomáticas, que, sem que se neutralizem os curdos, serão dadas como fracasso.

Sob protestos e pressões de todo tipo dos aliados, e invocações ao embargo econômico imposto ao Irã, a Turquia e o Irã acabam de celebrar vários acordos para projetos conjuntos de produção de energia. Juntos, seus ministros de Energia declararam que outros pactos viriam em seqüência. Os acordos incluem a construção de três centrais de energia térmica de 2 mil MW cada, duas no Irã e uma na Turquia; várias hidrelétricas no Irã, com total de 10 mil MW; melhoria e expansão dos sistemas de transmissão dos dois países.

A Turquia compra gás do Irã, entregue por um gasoduto que parte da iraniana Tabriz até a capital Ankara, e do Azerbaijão, por um gasoduto que passa pela Georgia. Em julho, já se havia assinado acordo internacional para captar gás do Oriente Médio e da Ásia Central, que seria dirigido à União Européia por um gasoduto em desenvolvimento, o Projeto Nabucco europeu, de 3,3 mil km, que passa pelos Bálcãs. A pretensão original do Nabucco era garantir gás da Ásia Central sem interferência da Rússia nem passagem por seu território. Mas a Cúpula do Cáspio relativizou de modo profundo essa pretensão.

A Cúpula do Cáspio
A região do Mar Cáspio é rica em gás, petróleo e recursos variados, e os cinco países que reúnem fronteiras no mar dedicam-se, todos, à sua produção. A importância estratégica da Cúpula de 17 de outubro transparece nas 25 declarações finais do encontro, sob o pano de fundo das declarações de Putin, reproduzidas por todos os jornais influentes do planeta: “Não se deve pensar em usar a força nessa região”. Alguns dias antes, havia oferecido em Moscou um chá-de-cadeira de 45 minutos à secretária de Estado e ao de Defesa, Condoleezza Rice e Robert Gates, já que a meta de sua viagem era pedir concordância para mais sanções ao Irã e também tentar dissuadir Putin de ir à Cúpula do Cáspio. Também a chanceler alemã Ângela Merkel, tanto quanto o presidente francês Nicholas Sarkozy, tentaram dissuadir Putin na ocasião. Dois dias antes, fez-se circular na imprensa européia uma notícia de um pretenso atentado suicida contra Putin, que ocorreria em Teheran. Putin reagiu bem-humorado: ‘Se ouvisse esses conselhos, nunca sairia de casa’.

Na mesma semana, explodia pela última vez o velho conflito entre a Turquia e a guerrilha curda, o Congresso dos EUA ameaçava reconhecer o genocídio turco contra os armênios, e Bush recebia na Casa Branca o dalai lama tibetano, atitude que revoltou os meios diplomáticos e militares chineses. A visita do dalai lama veio pouco mais de um ano após uma inédita seqüência de humilhações armada pelo staff do governo Bush-Cheney contra o presidente chinês Hu Jintao na sua visita ao país. Ao invés do protocolar banquete, Bush ofereceu um pequeno jantar a Hu. Na recepção solene, tocou-se o hino, não da China, mas da inimiga Taiwan. E na conferência de imprensa organizada pelo governo permitiu-se a entrada de um membro do grupo Falun Gong, proibido na China, que discursou com acusações por mais de três minutos sem que fosse interrompido. A dupla Bush-Cheney trata amigos e inimigos com a mesma irresponsabilidade, como nota Brzezinski. Definitivamente, foi uma semana de Putin e Ahmadinejad.

Resoluções Entre as 25 resoluções, o Mar Cáspio foi fechado à navegação civil ou militar de outras bandeiras. Projetos de exploração de seus vastos recursos (terceira maior bacia energética do planeta) e associações setoriais para desenvolver programas específicos passarão a ser discutidos no âmbito da Cúpula. Essa resolução deve ser vista do ângulo da extensa e interminável pendência sobre a propriedade dos recursos no Cáspio. Kevin Kallaugher escrevia em abril: “Ter acesso direto ao gás da Ásia Central e do Cáspio é vital para a segurança energética européia”; “A grande batalha estratégica agora será sobre a rica-em-gás Ásia Central”. E arrematava: “Mas uma disputa longa e não resolvida sobre a propriedade no Cáspio entre, Irã, Casaquistão, Azerbaijão e Rússia torna essa questão explosiva”. Com a Cúpula, abriu-se um largo caminho para a solução harmônica da questão.

Um dos artigos da declaração final estabelece um acordo de não-agressão entre os cinco países, de solução pacífica de conflitos, e desautoriza o uso dos territórios por outrem para ataques a um membro. Isso deixa à disposição da aliança anglo-euamericana apenas o Iraque e o Afeganistão, além dos oceanos, para um ataque contra o Irã. A edição de 18 de outubro da e-revista Turkish Weekly esclarece: “O fato de as opções militares dos EUA terem sido repentinamente limitadas é apenas um dos efeitos da Cúpula de Teheran”.

A decisão foi definitiva para o Azerbaijão, que chegou a aprofundar novas relações com a aliança ocidental. Na verdade, o país sempre se caracterizou por um jogo duplo, em que cedia a apelos da aliança, mas não abandonava seus antigos laços. O Irã decidiu a questão antes da Cúpula, por meio de duas missões diplomáticas bem cimentadas por contatos anteriores. Obteve-se, na capital Baku, uma declaração em que os dois países rejeitavam interferências externas e o uso da força para a solução de problemas, um golpe nas pretensões dos EUA de aprofundar sua presença e apoiar um eventual ataque ao Irã também a partir do vizinho Azerbaijão. Na capital armênia Yerevan, o Irã intermediou o encaminhamento amigável da solução de um antigo conflito de fronteira que opõe armênios e azerbaijanos.

Antes, os aliados ocidentais haviam ajudado movimentos entre a imensa população azerbaijana do Irã. Os azerbaijanos são uns 8 milhões em seu país e mais de 10 milhões no norte do Irã (os números variam entre 10 e 19 milhões). Na existência de clima de conflito, seria imaginável “libertar” o norte do Irã e associá-lo ao Azerbaijão. Um trecho de noticiário sobre esses conflitos anteriores coloca em jogo as forças e a linguagem da guerra, ao afirmar que o clima na região azerbaijana do Irã era de fermentação, com o governo iraniano prendendo “ativistas de direitos humanos” e combatendo o que alguns vêem como a “luta por mais democracia” e outros vêem como “separatismo”.
Entre as declarações da Cúpula do Cáspio, anotam-se alguns outros pontos fortes. Reconhece-se o direito aos países de implementarem programas pacíficos de uso de energia nuclear, sob as salvaguardas do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, do qual o Irã é signatário (Israel, Índia e Paquistão não o são). A proteção ambiental e um sistema de consultas e adequação de leis foi sacramentado. Exatamente como nas proposições da SCO, a declaração 22 afirma que as partes consideram o terrorismo internacional, o separatismo agressivo, o tráfico de drogas, armas e outras ações ilegais uma ameaça a todo o mundo.

Corredor Norte-Sul Como fundamento e base da cooperação econômica, o Corredor Norte-Sul integra-se firmemente aos planos da Cúpula. Uma nova ferrovia Casaquistão-Turcmenistão-Irã está prevista. Com a interligação das vias de transporte de mercadorias e energia dos países ao gigantesco sistema russo, uma nova saída para o Golfo Pérsico via Irã se tornaria disponível. A SCO tem interesse direto no Corredor, com ênfase nas intenções do Turcmenistão, de ganhar uma saída ao mar, e da China, de reduzir o tempo de transporte das mercadorias até pontos como norte da África, Oriente Médio e Europa. O Corredor, que interligará a Rússia, ao norte, países do Cáspio e a Ásia Central ao Golfo Pérsico, ao sul, fortalece a posição da região como fonte de matérias-primas essenciais, como petróleo, gás e carvão, e solidifica ainda mais a posição da Rússia.

Sobre o Corredor Norte-Sul, a Turkish Weekly registra que, aspectos militares à parte, a integração do Corredor Norte-Sul na Cúpula do Cáspio é o fato maior que avultou. Acha que é difícil a alguém fabular sobre o enorme potencial do Corredor Norte-Sul. “Se a descoberta dos caminhos marítimos decretou a morte da Rota da Seda, o estabelecimento do Corredor Norte-Sul poderia reverter o curso da história.”, afirma com veemência a Turkish Weekly. Como irá reduzir o tempo de trânsito das mercadorias e baratear os fretes, o Corredor seria solução também para muitos países da Ásia fazerem chegar seus produtos até seus maiores mercados, e vice-versa. Iniciativas como áreas de livre comércio e de industrialização seriam abertas ao longo do Corredor. A Turkish Weekly finaliza seus comentários com a constatação de que, com metade da carga mundial de mercadorias passando pelo país, a Rússia sempre poderia habilitar-se a continuar participando do jogo global mesmo com o declínio de suas jazidas de energia.

Energia A posse das fontes de energia, questão central da época, vai-se firmando nas mãos dos próprios atores locais, como se viu na Cúpula do Cáspio. Ao lado disso, corre aos poucos a transformação das petroleiras, de antigas proprietárias e donas de jazidas, à posição atual de parceiras menores. A Rússia fornece gás, entre outros, à União Européia; para alguns países, chega a 100% da oferta, além de a poderosa estatal russa de energia Gazprom (terceira empresa em valor de mercado do mundo) deter participação em dezenas de empresas de energia européias.
Há muito os países da região vêm desenvolvendo esforços diplomáticos e comerciais para harmonizarem suas políticas de energia, e este é mais um ponto de atrito e desconforto nas relações com o Ocidente. Há uma profusão de projetos que atravessam, quando não ameaçam, alianças e conveniências políticas. A oposição dos EUA à construção de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia contraria os governos aliados, interfere em seu desenvolvimento e altera a moldagem de seu futuro, além de prejudicar também empresas e forças políticas diversas. O gasoduto, de 2,8 mil km e US$ 7,7 bilhões, seria financiado e construído pela Gazprom.

O governo euamericano apoiou há pouco uma iniciativa de independência energética da Europa: o gasoduto Nabucco, que sai da Turquia e avança pelos Bálcãs e Europa Central até a Áustria, onde estão sendo construídas as instalações de um gigantesco reservatório de distribuição. O objetivo original seria entregar à Europa o gás da Ásia Central sem depender da Rússia e circundando seu território, afinal, hoje boa parte da União Européia já vive à mercê da torneira russa. Do lado russo, outros gasodutos são bem-vindos, a exemplo do que sai da Rússia pelo Mar Báltico direto para a Alemanha, em construção por consórcio de empresas dos dois países dirigido pelo ex-chanceler Gerhard Schroeder. O gasoduto do norte reduzirá o total do gás russo que passa pela Ucrânia, país ligado ao Ocidente. E inicia-se o projeto russo de um gasoduto via Grécia e Bulgária, sem passar pela Turquia, outro aliado do Ocidente.

Mas a dupla de governo Bush-Cheney não contava com a astúcia de Putin, cuja popularidade vem de sua gestão que levantou o país e o repôs no tabuleiro do Grande Jogo novamente em pé de igualdade com algumas potências. O Nabucco poderá transportar gás do Turcmenistão, Casaquistão etc., mas, após a Cúpula do Cáspio, qualquer negociação contará com a presença da Rússia. Dessa forma, o objetivo estratégico de obter gás sem a presença russa foi sumariamente eliminado. Além disso, Putin associou-se aos austríacos no empreendimento, por intermédio da Gazprom.

A ativa diplomacia do Irã, ignorada pela mídia ocidental, registra recentes articulações com países do Cáucaso, da África do Norte e da Ásia Central e o Conselho de Cooperação do Golfo, maiores produtores mundiais de petróleo. O Irã vem fechando acordos comerciais vitais com outros vizinhos, inclusive com a Turquia, membro da Otan (que vive hoje momentos de sério atrito com os EUA, cuja popularidade no país acha-se num recorde de baixa).

Sonhos e Pesadelos
A intenção da União Européia de garantir cada vez mais seu gás e seu petróleo sem Rússia e Irã vai se tornando inatingível. Mas a União Européia tem um mau sonho mais próximo e elementar. A ex-URSS e a Rússia por muito tempo aplicaram recursos e esforços na construção de uma imensa rede de oleodutos e gasodutos, mas não destinaram suficiente atenção à produção. Com uma Rússia em crescimento econômico firme e crescente demanda interna de sua própria produção, além de prazos dilatados para que novos supercampos comecem a produzir, um receio começa a manifestar-se entre especialistas europeus: o de que a Rússia em breve não tenha gás suficiente para vender a uma sempre ávida UE.

E o grande pesadelo da dupla Bush-Cheney também vai tomando corpo. A China, desde 2003 o segundo maior consumidor de energia do mundo, vai ocupando os espaços do Ocidente junto a produtores africanos e do Oriente Médio. Em visita em 2006 à China, primeiro país a ser visitado pelo rei Abdullah, da Arábia Saudita, firmaram-se acordos que dão sustentação ao comércio anual de US$ 16 bilhões entre os países. Após a humilhação nos Estados Unidos, em 2006, Hu Jintao aportou na Arábia Saudita, depois na nova aliada Nigéria, Marrocos e Quênia. Ao contrário dos financiamentos do Banco Mundial e FMI, repletos de juros e imposições, a China celebra acordos e simplesmente dá sua contrapartida, muitas vezes gratuita.

O grande pesadelo inclui ainda a futura imensa rede de petróleo e gás, que parte do norte da Rússia, passa pela Ásia Central e pelo Cáspio, cruza Irã e Síria, abarca o norte da África e os países do Golfo, e une as duas grandes regiões produtoras mundiais num só corpo. Nas mãos de Rússia, Irã, Arábia Saudita, Síria, Argélia… Anda aceso o debate acerca da criação do que vem sendo chamado “Opep do Gás”, liderada hoje por Rússia, Irã, Qatar, Argélia e Venezuela, que juntam 80% das reservas mundiais.

É relevante o imenso tabuleiro eurasiático de predominantes acordos bilaterais e também multilaterais estratégicos, entre países, organizações e empresas, que se destinam a construir entre os interessados relações pacíficas, amigáveis e prósperas, conduzidas no contexto do respeito às leis internacionais. Numa ponta do tabuleiro, a aliança EUA-Reino Unido assina até agora a recente invasão genocida de dois países, em ‘ataques preventivos’ decididos ao arrepio de normas internacionais e de resoluções da ONU, para combate ao ‘terrorismo internacional’, e assume o apoio à maior força de desestabilização do Oriente Médio, a nuclear Israel.

A Opep e o Dólar
Também fonte de maus sonhos para a aliança ocidental foi a recente reunião da Opep, em Riad, que abordou a diversificação da cesta de moedas habilitadas ao comércio de petróleo, desde 1974 praticamente restrita ao dólar, o que ainda ajuda a sustentá-lo como moeda. Apesar das promessas da Arábia Saudita de não abandonar o dólar-petróleo, torna-se a cada dia mais difícil aos países, governos e bancos centrais manter a moeda e, ao mesmo tempo, arcar com os riscos e prejuízos.

Outras notícias dão conta de que Coréia do Sul, Angola, Iraque, Nigéria, China, Irã, Venezuela, Rússia, Arábia Saudita e outros começam ou continuam a movimentar-se para trocar parte de suas reservas em dólar por moedas e papéis mais seguros. Mas não se deve tratar, conforme o analista Muriel Mirak-Weissbach, de derrubar o império junto com sua moeda, como deseja e expressou Chávez. O sistema financeiro internacional e o sistema de comércio mundial apóiam-se também no dólar, e por isso, para o analista, as transições devem ser articuladas com a participação dos EUA, ainda a maior economia do planeta; qualquer outro caminho provocaria apenas caos e anarquia, e, conseqüentemente, mais guerra.

Mirak-Weissbach expõe caminhos para a saída. Um deles seria a convocação de uma conferência internacional para reforma do sistema monetário, com a presença essencial de EUA, Rússia, China, etc. Seriam restabelecidas taxas fixas de câmbio entre as principais moedas, e a partir daí a especulação seria contida. Assim, qualquer dessas moedas poderia servir para a compra de petróleo. Seriam também retomados outros aspectos positivos, como o direcionamento dos investimentos à produção de bens e riquezas.

Outro caminho seria uma opção pela energia nuclear. Para Mirak-Weissbach, a Opep deveria organizar-se para o futuro de pouco petróleo investindo agora suas imensas reservas em centrais nucleares, a energia do futuro para todos. O analista registra as opiniões de vários chefes de Estado  inclusive do Irã, que põe à disposição sua tecnologia própria  de que um país neutro (a Suíça é citada) poderia centralizar as atividades de enriquecimento de urânio e fabricação dos combustíveis nucleares para as usinas. Isso afastaria o fantasma do desvio de produção para chegar a armas nucleares. E também permitiria redirecionar o petróleo para aplicações mais interessantes, por exemplo na petroquímica.

No discurso, os aliados ocidentais brilham. No terreno firme dos fatos econômicos e políticos, a aliança vai-se desfazendo em derrotas, dívidas de trilhões, recessão, crise financeira, isolamento e condenações. Por enquanto, as brancas jogam e perdem…

Rabo de artigo
O agudo comentário de Mirak-Weissbach não toca na existência de uma indústria e um estoque de armas nucleares nas mãos de aliados ocidentais, Rússia e China. A dupla Bush-Cheney ameaça uma guerra nuclear contra o Irã. Falta um motivo, real ou fictício. Entre 29 e 30 de agosto deste ano, um míssil nuclear com carga dez vezes maior que a da bomba de Hiroxima desapareceu nos Estados Unidos, numa história militar tão ou mais cheia de desencontros e mentiras quanto a dos ataques às torres gêmeas em 2001.
Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, em 1º de fevereiro de 2007, Zbigniew Brzezinski iniciou com as palavras: “A guerra no Iraque é uma calamidade histórica, estratégica e moral”. Sobre a possível ação militar contra o Irã, afirmou que poderia vir após “alguma provocação no Iraque ou um ato terrorista nos Estados Unidos que seria atribuído ao Irã”.

Revista NovaE
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605

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Reforma tributária e luta de classes

 ALTAMIRO BORGES

Diante do rombo de R$ 40 bilhões da CPMF e do temor da recessão nos EUA, o debate sobre a reforma tributária volta a ganhar espaço na mídia. O governo Lula promete enviar uma proposta ao parlamento e trata o tema como algo puramente técnico. Já os mesmos ricaços, sonegadores, tucanos e demos, culpados pelo fim a CPMF, aproveitam o clima de incertezas na economia para exigir menos impostos. Hipócritas, eles alegam que a tributação no país é uma das mais altas do mundo e pregam cortes na “gastança social”. Neoliberais, desatam uma nova onda conservadora em defesa do “estado mínimo”, embalada numa bandeira que desperta simpatias na sociedade.

O tema da reforma tributária é explosivo. O jogo de interesses que envolve é poderoso. Em certo sentido, a questão tributária é estratégica, já que condensa as contradições de classe na sociedade capitalista. A tributação reflete quem perde e quem ganha neste sistema. Quem banca a máquina pública, quem abocanha os recursos arrecadados, quem sonega e dribla o fisco. Devido às graves distorções deste sistema no país, que ajudam a explicar porque o Brasil ostenta um dos piores índices de desigualdade social no mundo, a reforma tributária é realmente uma forte exigência da atualidade, mas num sentido totalmente inverso ao pregado pelos neoliberais de plantão.

“Vai resmungar na… Europa”

Como revela excelente reportagem de Márcia Pinheiro na Carta Capital, intitulada “Leão atiça a desigualdade”, o sistema tributário brasileiro é dos mais injustos do planeta. “O assustador é que 70% dos impostos incidem sobre o consumo e apenas 30% sobre o patrimônio. Nos países desenvolvidos, a relação é oposta: 60% sobre o patrimônio e 40% sobre o consumo… Estudo do Unafisco [Sindicato dos Auditores Fiscais] comprova como a carga tributária é perversa. Quem ganha até dois salários mínimos gasta 45,8% da renda no pagamento de impostos indiretos, enquanto o peso para famílias com renda superior a 30 salários mínimos corresponde a 16,4%”.

Quanto à suposta fúria do Leão sobre a renda dos ricos empresários e da alta classe mérdia, seria educativo se os adeptos do “Cansei” fossem morar na Europa ou mesmo nos EUA para deixarem de reclamar. O artigo desmonta este outro mito da mídia manipuladora. “A alíquota para pessoas físicas, aqui, vai de zero a 27,5%. Na Argentina, de 9% a 35%. Nos Estados Unidos, de zero a 35%, fora os impostos estaduais. Na França, varia de 5,5% a 40%… O imposto nativo sobre a renda tem baixa participação no total das receitas tributárias de apenas 6,6% do PIB, enquanto a média dos países europeus é de 13,6%. Além disso, no Brasil há apenas duas alíquotas, de 15% e 27,5%, enquanto nos EUA existem cinco categorias, o que torna o imposto mais justo”.

A manipulação dos números

Para a especialista Leda Paulani, professora de economia da USP, o sistema tributário brasileiro é injusto porque é regressivo – quem ganha menos paga mais impostos e o setor produtivo é mais penalizado do que os que lucram com a especulação financeira. Para ela, seria necessário reduzir as contribuições que incidem sobre o consumo, que atingem toda a população, e compensar esta perda com o aumento dos tributos diretos sobre a riqueza e a renda. Mas esta briga é titânica e a correlação de forças é adversa no parlamento. “A discussão sobre o patrimônio é a primeira a ser derrubada no plenário em qualquer tentativa de levar adiante a reforma tributária”, contesta.

Quanto ao volume arrecadado, também há muita manipulação. De janeiro a outubro, a Receita arrecadou R$ 484 bilhões – 14% a mais do que no mesmo período de 2006. Parte deste aumento decorreu do próprio crescimento econômico de 5,2% nos três primeiros trimestres. Outra parte derivou da maior eficiência da fiscalização sobre os sonegadores. Além disso, como alerta Amir Khair, ex-secretário de Finanças da capital paulista, outra fatia enriquece os rentistas por meio de juros que remuneram títulos da dívida pública. “Da carga tributária de 34,2%, em 2006, foram abatidos 6,8% em juros. O que a União teve em caixa, na verdade, foi 27,4% do PIB para custeio e investimento. E não os alardeados 40% sempre sacados da cartola dos que reclamam da carga”.

As benesses para os ricaços

Na prática, o trabalhador é quem paga mais impostos no Brasil, já que o tributo é descontado na folha de pagamento. O chamado setor produtivo também sofre em decorrência do efeito cascata dos tributos. Já os tubarões contribuem bem menos proporcionalmente, quando não sonegam ou driblam o fisco através das isenções e elisões fiscais (brechas na legislação) e da informalidade. Parte destes bilhões não arrecadados é desviada para os paraísos fiscais no exterior. No caso da economia informal, Pedro Tolentino, presidente da Unafisco, afirma que é impossível mensurar o desfalque, “mas há cálculos de que, para cada um real pago à Receita, um real é sonegado”.

A revista Carta Capital ainda registra outras três benesses concedidas aos ricaços. Até hoje não foi regulamentado o Imposto sobre Grandes Fortunas, apesar de ser contemplado na Constituição de 1988. Já os latifundiários e barões do agronegócio são beneficiados pelas medíocres alíquotas do Imposto Territorial Rural (ITR), além de contarem com a precária estrutura de fiscalização no campo. “Por fim, os grandes sonegadores abrigam-se no Judiciário, diz Khair. ‘Uma execução fiscal leva anos e anos para ser resolvida’. Não raro, quando a decisão sai, o devedor já fechou as portas, mudou a razão social ou lançou mão de outra manobra para não quitar os débitos”.

De todos os setores da burguesia beneficiados pelo injusto sistema tributário o que menos pode reclamar é o capital financeiro. Principalmente a partir do reinado de FHC, em 1995, a legislação privilegiou banqueiros e rentistas. “A remuneração dos juros de capital próprio permitiu que os cinco maiores bancos do sistema financeiro nacional tivessem uma redução nas despesas com encargos tributários no montante de R$ 2,1 bilhões em 2005. Isso num ano em que lucro líquido das instituições registrou expressivo crescimento de 49,9%, para R$ 18,8 bilhões. Fora que os investidores estrangeiros são isentos de impostos quando adquirem títulos da dívida pública”.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

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Sou classe média

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A Índia está cheia de carros e de barbeiragem

Somini Sengupta

Poucas semanas atrás, a residência indiana tradicional de Vineet Sharma, um consultor do setor de fertilizantes, foi palco da realização de um sonho que há muito era adiado. Tendo usado lambretas como meio de locomoção durante vários anos, os Sharma compraram um automóvel hatchback zero, cinza-metálico, conhecido como Tata Indica.

Nenhum problema quanto ao fato de nenhum dos seis adultos da residência saber dirigir. Assim que o carro chegou, Sharma, 34, saiu para dar uma volta e atropelou um amigo. O seu irmão chocou-se com uma motocicleta. Ninguém se feriu, mas o pára-choques ficou amassado. O irmão ficou com tanto medo que parou de dirigir, exceto aos domingos, quando as estradas estão vazias.

“Primeiro nós compramos o carro, e só depois pensamos em como iríamos dirigí-lo”, diz Sharma.

Na quinta-feira, quando a Tata Motors lançou o carro mais barato do mundo, o Nano, de US$ 2.500, e representantes de montadoras de todo o mundo foram até Nova Déli para fazer propaganda dos seus produtos em um mercado automobilístico indiano promissor, Sharma começou a pensar em dirigir de fato.

Ele matriculou-se em um curso de direção de uma semana, e mergulhou de cabeça na loucura do tráfego matinal em um velho Maruti 800. O odômetro do carro há muito tinha deixado de funcionar, e sobre o teto havia um sinal indicando que ele era um aluno. Curiosamente o sinal era acompanhado da face do personagem de filme de animação Shrek.

Sharma não dirigia muito rápido e disse que estava bastante nervoso.

E ele tinha bons motivos para estar intranqüilo, já que a sua primeira incursão no mundo das quatro rodas revelou quantos obstáculos ainda prejudicam o romance indiano com as estradas. Em meio a uma cacofonia de buzinas na estrada Ring Road, um veículo utilitário esportivo de cor vermelho sangue passou por entre dois carros, e por um triz não bateu à direita do carro de Sharma. Um ônibus escolar o imprensou à direita. Ninguém parecia se importar com as faixas de trânsito. Os carros sacolejavam ao caírem em buracos enormes.

Os indianos estão adotando rapidamente o automóvel, à medida que os salários sobem, os planos de financiamento de veículos proliferam-se e a indústria automobilística lança carros de baixo custo cujos preços competem com os das motocicletas. Eles compraram 1,5 milhão de carros no ano passado. Segundo algumas estimativas a Índia deverá ultrapassar a China neste ano como o mercado automobilístico de maior crescimento.

Nesta semana a capital indiana esteve agitada com a mania de automóveis, já que a exposição bienal Auto Expo teve início na quinta-feira e as indústrias automobilísticas, tanto indiana quanto estrangeiras, começaram a apresentar os primeiros dos 25 novos modelos.

A grande novidade veio da Tata Motors, que introduziu o Nano em uma cerimônia que teve como música de fundo o tema do filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”, tocado a toda altura. Havia também sedãs de luxo e veículos utilitários esportivos, assim como uma grande variedade de carros pequenos, acessórios e peças. De fato, o centro de exibição estava tão movimentado que formou-se um congestionamento barulhento e caótico em frente ao local antes mesmo da abertura oficial.

Como era de se esperar, os ambientalistas indianos atacaram a febre automobilística, especialmente devido às regulamentações relativamente frouxas quanto a emissões e à proliferação dos carros movidos a óleo diesel. A Auto Expo tem um pavilhão dedicado aos veículos a diesel.

Até mesmo o geralmente pacato diretor do Painel Intergovernamental de Mudança Climática, Rajendra K. Pachauri, criticou duramente este crescimento explosivo da quantidade de veículos pequenos, questionando particularmente a Tata Motors por dedicar-se à construção de carros baratos e não ao transporte público eficiente. Nesta semana o Greenpeace pediu que sejam adotados padrões de eficiência para o uso de combustível, incluindo informações sobre emissões de dióxido de carbono.

Na sua primeira aula de direção, Sharma tinha em mente preocupações mais imediatas. Dividindo as ruas com ele havia um ciclista com três botijões da gás amarrados à bicicleta, um vendedor que empurrava uma carroça cheia de goiabas, um triciclo movido a pedal cheio de fotocopiadoras (estes veículos muitas vezes são os preferidos para o transporte de equipamentos modernos).

Havia também muitos pedestres, saltando aleatoriamente sobre a pista, já que não há faixas de pedestres, ou andando em filas densas nas laterais das estradas, que não têm calçadas. Em determinado momento, um carro entrou na contramão. A seguir uma motoneta de três rodas veio em direção a Sharma, desviando-se rapidamente e entrando em uma rua lateral. Pelo menos nesta manhã não havia nenhum elefante mascando pedaços de bambu na pista de alta velocidade, algo que de vez em quando ocorre.

As conversas de jantar aqui geralmente são repletas de teorias sobre o gerenciamento de estradas. Costuma-se dizer que os indianos ainda dirigem como se estivessem sobre duas rodas, ou que ziguezaguear pelas pistas é a única maneira que alguns motoristas encontram para evitar que os seus carros sejam destruídos nas estradas estreitas e mal cuidadas.

A teoria de Sharma é mais simples: “Temos uma tendência a infringir as leis”, murmura ele.

A principal autoridade policial responsável pelo tráfego de veículos tem a mesma opinião. Ele está irritado com esta onda de novos carros baratos.

“A minha preocupação não é com carros, mas com os motoristas”, diz Suvashish Choudhary, o vice-comissário de polícia. “Cada carro novo significa um motorista a mais que não estará treinado para dirigir bem na cidade”.

Com uma população de quase 16,5 milhões de habitantes, Nova Déli recebe diariamente 650 novos veículos nas suas estradas e ruas. Segundo a última estimativa, há um total de 5,4 milhões de veículos, o que é cinco vezes a quantidade registrada 20 anos atrás. Mas ainda há duas lambretas ou motocicletas para cada carro.

Quando lembramos a Choudhary o fato notável de que o aumento drástico do número de carros em Nova Déli não foi acompanhado por uma elevação correspondente do número de acidentes, ele zombou disso e continuou apresentando a sua lista de reclamações: ninguém dá a vez a outros motoristas, todos se acotovelam para serem os primeiros a arrancar quando a luz do semáforo fica verde e a falta de faixas de travessia fazem com que os pedestres saltem abruptamente para dentro das pistas de veículos. Ele chama isso de “falta de uma cultura de direção de automóveis”.

Os que mais sofrem são os pedestres da cidade. Segundo a política, metade das vítimas fatais dos acidentes é composta de pedestres. De vez em quando uma pessoa sem teto que dorme nas ruas é atropelada. Na semana passada um carro em alta velocidade atropelou um policial que estava de pé em frente a um posto de controle de tráfego, e não se deu ao trabalho de parar. O policial sofreu ferimentos graves.

“Todo mundo sabe um pouco sobre direção”, observa Sharma. “O problema é obedecer as regras. Todos estão apressados”.

Nova Déli emitiu mais de 300 mil carteiras de motorista no ano passado, algo que tanto pode ser visto como um grande exemplo de eficiência burocrática quanto como uma ingenuidade indiana. Nesta semana, em um local de testes de direção da prefeitura, a prova, de um minuto de duração, consistia em dar a partida no motor e dirigir em um amplo círculo.

Um motorista profissional chamado Ramfali disse ter obtido a carteira mesmo sem saber ler. Sharma pagou US$ 40, ou o quádruplo do preço oficial, para que um despachante independente obtivesse a carteira para ele em uma hora e meia.

Buzinas extremamente altas são o novo ingrediente dentre os acessórios para carros, bem como uma buzina que soa automaticamente, de forma intermitente quando o carro dá ré. Os faróis altos também são uma opção popular, embora não sejam usados apenas nas estradas escuras do interior.

A mania dos carros também gerou uma nova indústria de auto-escolas. Durante as manhãs, pode-se ver os alunos rodando devagar pelas estradas, e os motoristas veteranos buzinando alucinadamente atrás dos aprendizes.

A próxima na fila após a aula de Sharma, que durou duas horas, foi Anita Vashisht, 40, uma secretária de uma chefatura de polícia que tomou a sua primeira aula na esperança de que um dia tenha condições de comprar um carro.

Aisha Arif, 20, estava aprendendo a dirigir de forma a contar com mais argumentos para convencer o pai a comprar um carro para ela. Rajender Kumar, um motorista profissional, ensinava um amigo, Yogesh, a dirigir, de forma que ele também pudesse procurar um emprego como motorista.

Quanto a Sharma, ao final da sua primeira aula, ele decidiu que os veículos de quatro rodas, embora desejáveis, nem sempre são práticos. Ele observa que a sua lambreta é mais barata e rápida.

O seu instrutor, Amit Yadav, que treina uma média de 11 novos motoristas por dia, concorda. Ele diz que vai trabalhar de motocicleta. “O trânsito é tão ruim que não vale a pena dirigir em Nova Déli”, argumenta Yadav.

Mas ele frisa que se for necessário dirigir, é necessário ter confiança. “Deixe o medo de lado”, disse ele a Sharma. Ele atribuiu o seu próprio destemor àquilo que foi a paixão da sua juventude. Quando jovem ele foi campeão de ciclismo.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Liberdade para o topo do mundo

Encravado nas encostas do Himalaia, o Tibete sofre com a dominação de potências estrangeiras desde o século XIII. Há quase 100 anos, luta contra a supremacia chinesa sobre seu território

Charles Meyer

O país das neves eternas, abençoado pelos deuses. É assim que os tibetanos vêem sua terra natal. Situado no Himalaia, entre a China e a Índia, o Tibete entrou na história oficial apenas no início do século VII, quando se tornou um reino poderoso, que estendeu seu domínio desde a Alta Birmânia até o Turquistão. Um século depois, o budismo invadiu suas fronteiras e mudou para sempre a região. A conversão em massa acalmou os ardorosos guerreiros e grandes monastérios espalharam-se por seu território.

A partir daí, a trajetória desse pequeno reino encravado nas montanhas oscilou entre a dominação e a liberdade. No século XIII, foi conquistado pelos mongóis sob o comando de Gêngis Khan. Duzentos anos depois, livre da supremacia estrangeira, o poder passou aos dalai-lamas. Mas, no século XVIII, os imperadores chineses da dinastia Manchu anexaram o território tibetano e transformaram-no em província, mantendo dois ministros permanentemente encarregados de vigiar e controlar o governo local. Além disso, a China instalou lá uma força armada de 3 mil homens – mil em Lhasa, mil em Xigatse e mil nas fronteiras. O Tibete tornou-se assim um protetorado chinês, sob a autoridade de fachada do dalai-lama.

No século XIX, o país recuperou boa parte de sua independência quando a China enfrentou as intervenções armadas de potências européias e do Japão, que começaram a despedaçar o império dos Qing. No início do século XX, o problema do Tibete passou a ser a Grã-Bretanha: senhores das Índias, os ingleses desejavam o planalto tibetano, cobiçado também pelos russos engajados no Turquistão. Em 1904, a capital Lhasa foi ocupada por tropas britânicas que forçaram o governo a aceitar um tratado comercial com a Índia, já aceito pela China. O coronel Younghusband estava no comando e assim permaneceu até 1908, com uma centena de soldados britânicos e milhares de mercenários nativos, além de 10 mil carregadores e 30 mil animais de carga sob suas ordens.

Dois anos depois, um acordo anglo-chinês reconheceu a soberania da China sobre o Tibete, que imediatamente vivenciou um levante popular. Os chineses determinaram o restabelecimento da ordem a qualquer custo e designaram o comissário imperial Shao Erfeng para a missão. Com pulso de ferro, ele recebeu o apelido de “matador de lamas” depois de ter cumprido sua tarefa com precisão.

Para escapar dos ingleses e dos chineses, o 13o dalai-lama refugiou-se na Índia. Em 1911, com a proclamação da República da China, o líder voltou a Lhasa e declarou que se sentia libertado dos laços de submissão que ligavam seu país ao império deposto. Mas, em resposta, o governo de Pequim rapidamente disse que o Tibete ainda integrava seu território.

MINORIA ÉTNICA
Até 1932 a paz foi relativa. Mesmo com as querelas internas da China, entre os tibetanos não havia a impressão de que o compromisso dos dois países duraria muito. Porém, em 1927, o Tibete central foi proibido aos estrangeiros e conservou suas estruturas medievais e teocráticas durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e até o fim da guerra civil entre nacionalistas e comunistas (1927 a 1949).

Nesse interím, em 1935, o 14o e atual dalai-lama foi escolhido e levado ao trono aos 6 anos, conforme a tradição. A ascensão de Mao Tse-tung em 1949 iria transformar esse quadro: em outubro de 1950, o exército chinês ocupou o país. Um acordo de “libertação pacífica” com 17 pontos, assinado em Pequim em 23 de maio de 1951, incorporou o Tibete à República Popular da China como uma “minoria étnica gozando de autonomia interna”. O texto assegurava que as autoridades centrais não modificariam o sistema político existente no Tibete, “tampouco as funções e os plenos poderes existentes do dalai-lama”. Além disso, “os funcionários das diversas categorias” permaneceriam “em seus postos”. E reafirmava a liberdade de crenças e a proteção dos monastérios, “no respeito às tradições existentes”. A Índia aprovou, o dalai-lama ratificou.

O novo regime de força instalado em Pequim, no entanto, pretendia impor sobre o Tibete o peso da autoridade, como todos os seus predecessores. Para a maioria dos tibetanos, monges ou laicos, a retomada do controle chinês ainda parecia uma espécie de fatalidade histórica e periódica, que não afetava muito sua vida cotidiana. Cinco anos depois, ficou evidente que a tutela política implicaria a integração dos tibetanos à nova sociedade comunista, para a qual ninguém os havia preparado, e a implementação de uma “modernização” que não fazia sentido para eles. A intromissão chinesa na vida econômica, social e cultural, as pressões sobre o dalai-lama e seu governo e a formação ideológica forçada da juventude também colaboraram para suscitar revoltas locais.

Em 1956, o exército cercou e bombardeou o monastério de Litang. Em 1958, os khampas, população de formação guerreira que habita a região do Khan, no leste, foram finalmente submetidos ao domínio estrangeiro, enquanto a tensão aumentava no sul. Nesse quadro de ebulição, o governo tibetano denunciou o acordo forçado de 1951 e foi imediatamente substituído por um “comitê preparatório para a região autônoma do Tibete”, que engajaria o país “na edificação do socialismo”, impondo de forma autoritária medidas incompreensíveis e insuportáveis para a maioria dos tibetanos. Mao Tse-tung reconheceu que eles “eram teimosos e não tinham nenhuma tendência a mudar suas idéias”. O alto clero budista, seguido por dezenas de milhares de monges, formou uma resistência passiva às transformações da sociedade tradicional e até à abolição da servidão.

Em 17 de março de 1959, o dalai-lama se refugiou entre os indianos, e dois dias depois, Lhasa foi tomada por uma insurreição. O levante seria derrotado em 72 horas pelo exército chinês, que bombardeou os palácios de Potala e Norbulinka. Os combates fizeram milhares de vítimas. Mais de 20 mil monges e laicos refugiaram-se na Índia e no Nepal. Chamada a responder pela “questão tibeteana”, a ONU (Organização das Nações Unidas) contornou o fato com uma resolução embaraçosa. No final de 1960, o exército chinês investiu sobre o grande monastério de Tashi Lhunpo, fundado em 1429, expulsando de lá seus 4 mil monges.

Quatro anos depois, o Tibete iniciaria uma longa agonia de 10 anos pela revolução cultural que agitava a China. Seus cultos foram proibidos e 2 mil monastérios e templos lamaístas, repletos de tesouros artísticos e grandiosas bibliotecas, foram saqueados. Os monges e os fiéis, perseguidos, tiveram de enfrentar o trabalho forçado no campo e muitos faleceram.

Em 1965, o governo central conferiu ao Tibete o estatuto de “região autônoma do Xizang” e declarou, mais uma vez, que ele seria para sempre “uma parte inalienável da China”. O termo se endereçava ao mundo chinês com o objetivo de reafirmar a unidade, e aos tibetanos, para adverti-los contra qualquer tentativa de independência.

A morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, colocou um ponto final na revolução cultural. Entretanto, seria necessário esperar ainda cinco anos para que os dirigentes chineses tecessem um relatório dos méritos e dos erros do “Grande Timoneiro”, que “estava fora da realidade, confundindo o que era e o que não era justo…”, cujo “comportamento subjetivo e autoritário tinha se acentuado com a idade”. O governo central restabeleceria a liberdade dos cultos e da educação tradicional, restituindo aos camponeses os bens e os direitos que lhes foram confiscados. O panchen-lama, que havia passado nove anos e oito meses nos cárceres chineses, voltou às suas funções. Houve também tentativas de reaproximação com o dalai-lama e os exilados, convidados a voltar ao Tibete. Entre 1979 e 1987, cerca de 40 emissários enviados de Dharamsala – o vilarejo indiano onde o governo refugiado do Tibete está instalado –foram a Pequim, mas as negociações não resultaram num acordo.

As pequenas possibilidades de entendimento terminaram nos dias 27 de setembro e 1o de outubro de 1987, quando manifestações de jovens lamas que reclamavam a independência se transformaran em motim, reprimido com um banho de sangue. Um pouco antes, o dalai-lama havia elaborado o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete, um projeto para a pacificação da região que foi apresentado oficialmente no Congresso dos Estados Unidos. Da proposta constava a transformação de todo o Tibete em uma zona de paz; a cessação da política chinesa de transferência de população, considerada uma ameaça a existência dos tibetanos como povo; o respeito pelos direitos humanos fundamentais dos tibetanos, bem como de suas liberdades democráticas; a restauração e proteção do ambiente natural tibetano e abandono do uso de seu território para produção de armas nucleares para a China; e o início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibete e das relações entre os povos chinês e tibetano. Porém, o governo chinês nunca deu uma resposta sobre o documento.

LEI MARCIAL
A efervescência voltaria no ano seguinte. Antes de sua morte, em janeiro de 1989, o panchen-lama enviou uma advertência ao governo central em que alertava para a dificuldade de encontrar uma solução caso a força continuasse sendo utilizada. Mas, em 5 de março, foi proclamada a lei marcial, que vigorou até 1o de maio de 1990.

Quase duas décadas se passaram e agora a situação é muito mais perversa: em vez da anexação pela força, o Tibete sofre com a pressão econômica. Há 30 anos, os chineses introduziram no país um modelo de desenvolvimento irreversível em comunicações – 21 mil km de estradas, rotas aéreas, televisão –, educação e saúde pública, o que modificou profundamente essa sociedade. Resta aos próprios tibetanos a sabedoria para conciliar a modernidade emergente e a conservação de seus valores culturais, que fazem parte do patrimônio da humanidade – sem intervenções exteriores “bem-intencionadas”.

CRONOLOGIA
127 a.C.
Ascensão da dinastia militar que reinará no Tibete por oito séculos

617 d.C.
O imperador Songtsen Gampo, 33o rei do Tibete, cria o alfabeto, estabelece o sistema legal e colabora com a expansão do budismo, construindo vários templos

755
Durante o reinado de Trisong Detsen (755 a 797), o budismo é estabelecido como religião oficial. Desenvolvem-se estudos em matemática, medicina, política, arquitetura e poesia

Século XIII
O Tibete é incorporado ao Império Mongol

1355
Nasce Tsongkhapa, um dos grandes reformadores do budismo tibetano e fundador da escola Gelug, de onde surgirão os dalai-lamas

1419
A morte de Tsongkhapa marca uma grande rivalidade entre as escolas budistas do Tibete. Segue-se então um período de lutas pelo poder entre as famílias nobres de Ü e Tsang, e a dinastia Ming (1368-1644), que reinava na China, toma territórios tibetanos nas fronteiras

1790
Guerra contra o Nepal

1904
Ingleses ocupam Lhasa e forçam o governo tibetano a aceitar o tratado comercial com a Índia. Tubten Gyatso, 13o dalai-lama parte para o refúgio e volta apenas cinco anos depois

1910
Tropas chinesas ocupam Lhasa

1937
O 14o dalai-lama é descoberto

1949
É fundada a República Popular da China

1951
O governo chinês impõe o Acordo pela Libertação Pacífica do Tibete

1959
Milhares de pessoas protestam contra a invasão chinesa. O dalai-lama foge para a Índia, onde pede asilo político

1987
O dalai-lama propõe o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete

1989
Declarada lei marcial no Tibete

1995
O menino tibetano Gedün Chökyi Nyima é reconhecido como o 11o panchen-lama. O governo chinês seqüestra Gedün por “motivos de segurança”, tornando-o o prisioneiro político mais jovem do mundo, segundo a Anistia Internacional

MIAMAR: UM ENCONTRO COMPLEXO

Bem próximo ao Tibete, outro país vivencia a resistência pacífica dos monges budistas contra um regime autoritário: Mianmar. O território, antes conhecido como Birmânia, ganhou as páginas dos jornais no segundo semestre de 2007, quando religiosos saíram às ruas para reivindicar o fim da repressão militar que já dura duas décadas. Na ocasião, o dalai-lama divulgou uma nota em apoio aos manifestantes em que, “na qualidade de monge budista”, pedia “aos membros do regime militar que acreditam no budismo que atuassem com espírito de compaixão e não-violência”.

Os protestos começaram em repúdio ao aumento do preço dos combustíveis, imposto pelo governo. O transporte coletivo e os gêneros de primeira necesidade ficaram mais caros, o que provocou um impacto muito forte na vida cotidiana. Depois dos primeiros dias de levante, a pauta foi expandida e os manifestantes passaram a exigir a redemocratização do país. Antes disso, a última manifestação pró-democracia havia sido realizada em agosto de 1988 e foi duramente reprimida, deixando mais de 3 mil mortos. Desta vez, centenas de pessoas foram presas e feridas. Há também registros de assassinatos cometidos pelas tropas governamentais.

Os monges foram essenciais para que o levante crescesse. Em Mianmar, cerca de 90% da população é budista, e os religiosos exercem, muitas vezes, o papel de líderes comunitários. A sua influência política já é antiga, remonta à ocupação britânica no final do século XIX, quando os monges adotaram uma postura de conflito com os estrangeiros, inicialmente pela recusa deles em retirar os sapatos ao entrar nos templos budistas, sinônimo de desrespeito à religião. Além dos britânicos, os mongóis e os japoneses ocuparam o país, em uma história que esbarra na do Tibete.

GLOSSÁRIO
DALAI -LAMA: líder político e religioso do Tibete, é um monge formado pela escola Gelug e reconhecido por todas as escolas do budismo tibetano. “Dalai” significa oceano, em mongol, e “lama” é a palavra tibetana para mestre, guru. “Oceano de Sabedoria” é o título dado pelo regime mongoliano à Altan Khan, o terceiro dalai-lama, e agora aplicado a cada encarnação na sua linhagem. Qualificados de “preciosos soberanos”, são reconhecidos como reencarnações de Avalokistesvara, o Sábio da Compaixão. O atual e 14o dalai-lama é Tenzin Gyatso.

PANCHEN-LAMA: reencarnações de Amintabha, o Buda da Luz Infinita. No século XVII tornam-se conselheiros espirituais dos dalai-lamas.

História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Literatura de pai para filho

Mais do que uma história de filho doente, O filho eterno é uma bela reflexão sobre a paternidade, sobre ser escritor e sobre o momento político conturbado dos anos 1980

Leandro Oliveira

O trabalho de escritor pode conduzir a alguns caminhos difíceis. No oceano de assuntos possíveis para a composição de um romance, o mergulho pode produzir um grande número de sensações e descobertas. Em alguns casos, a descoberta pode ser terrível – por exemplo, um escritor que mergulha na personalidade de um genocida. Ao sair do oceano, o escritor pode se sentir pior, vendo em sua criação um retrato artístico que talvez seja difícil de encarar, afinal, previamente, ele reconhece que o terror de seu personagem não produzirá os melhores sentimentos nos leitores.

Mas não são somente personagens desumanos que podem causar perturbação. No caso de uma aproximação entre personagem e autor, expor fatos pessoais em uma prosa de ficção pode se tornar um modo cruel de espelhar-se. Despojar-se e procurar narrar acontecimentos pessoais por meio de um narrador pode produzir livros irregulares, pois a tentação de abandonar a ficção para t