Arquivo de 7 de Fevereiro de 2008

Boris Groys: uma introdução

Alcir Pécora

Boris Groys (1947) é um dos mais fecundos pensadores contemporâneos de arte, um dos menos afetados pelo ar do tempo, o qual, como um resfriado que se propaga inadvertidamente entre as pessoas, impregna de banalidade qualquer assunto. Não por acaso foi escolhido para contribuir com suas reflexões para o catálogo da exposição The Air is on Fire, composta de desenhos, fotografias, pinturas e animações de David Lynch, um dos artistas mais incomuns do presente, exibida na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, de março a maio de 2007.

Na União Soviética, onde viveu boa parte de sua vida, Groys estudou filosofia e matemática na Universidade de Leningrado e deu aulas no Instituto de Lingüística Estrutural e Aplicada da Universidade Estadual de Moscou. Desde 1994, lecionou filosofia e teoria da mídia, na Academia de Design (Hochschule für Gestaltung), dirigida por Peter Sloterdijk, em Karlsruhe, na Alemanha.

De sua já volumosa bibliografia, destacaria Gesamtkunstwerk Stalin [Stálin, obra de arte total], Munique, 1988; Über das Neue. Versuch einer Kulturökonomie [Do novo - Ensaio de economia cultural], idem, 1992; Unter Verdacht. Eine Phänomenologie der Medien [Sob suspeita - Uma fenomenologia da mídia], idem, 2000; e, enfim, Politik der Unsterblichkeit [Política da imortalidade], idem, 2002 - livro que reúne quatro grandes entrevistas conduzidas pelo filósofo e editor Thomas Knöfel, a respeito do conjunto das idéias de Groys. Esta obra, que li na versão francesa da editora Maren Sell, de 2005, ajudou-me a compor o quadro resumido das matérias que passo a expor, traindo evidente gosto em reproduzi-las
com fidedignidade.

Na perspectiva desenvolvida pelos trabalhos de Boris Groys, arte e filosofia raramente têm tratamentos distintos. Uma e outra, para ele, tratam fundamentalmente de questões que não admitem solução e que, por isso mesmo, são imortais. De fato, em vez de solicitar resposta, como as questões das disciplinas científicas, que são efêmeras e cujas contribuições, passado o seu tempo de vigência, apenas permanecem como objeto de história das ciências, as questões artísticas e filosóficas existem sobretudo como delimitação fundacional de um espaço duradouro da linguagem onde vão se inscrevendo discursos individuais.

Com base em tal delineamento geral do campo das artes e da filosofia, um dos aspectos mais provocadores e bem-humorados da reflexão de Groys diz respeito à caracterização desse campo como uma espécie de competição radical. O primeiro ponto a considerar, nessa competição peculiar, é que não se pode obter na vida as vitórias que se deseja conquistar na arte. Ou seja, em contraste com os tantos nietzschianismos ou deleuzianismos vitalistas, que gostam de brandir a categoria desbundada da vida como justificativa para a arte, Groys pensa que a vida jamais se constitui como um atalho para a grandeza literária. É este atalho que julga ter tentado Joseph Goebbels ( quando ouço a palavra cultura, saco meu revólver) ou Adolf Hitler, entre tantos outros, inutilmente. Tornaram-se criminosos excepcionais, mas não artistas de nível.

Segundo Groys, portanto, simplesmente não se pode escapar da competição artística, literária ou filosófica travada no interior de seu próprio campo. As exigências da cultura não podem ser satisfeitas na vida, assim como não são refutáveis por ela. Ou, de outra forma ainda, não há como fazer economia das exigências culturais a partir desses desvios para a vida. Um traço comum às ideologias autoritárias seria justamente o de, partindo corretamente do princípio de que os problemas, atitudes e exigências têm sempre um vetor material, concluir equivocadamente que, se esse vetor for eliminado, os problemas também o seriam. O equívoco é tão primário quanto supor - o exemplo é de Groys - que, se alguém matasse todos os árbitros e suprimisse todas as regras do futebol, tornar-se-ia o melhor jogador de futebol de sua época.

Quer dizer, as exigências culturais são incontornáveis, e a mais fundamental delas é a de o artista adquirir forma própria, considerando-se o campo da herança cultural em que se inscreve. Este é o ponto chave: a cultura exige posicionamento individual - uma exigência que Groys considera especialmente escandalosa para a crítica sociológica, que a supõe própria de certas instituições, classes ou raças. Isso significa também que toda instância cultural se encontra submetida à exigência de se justificar do ponto de vista cultural: nada fora daí justifica a sua existência.

Groys admite que tal exigência escandalosa da cultura seja ficcional, imaginária, mas, para ele, justamente aí reside a sua força. Se não se tem interesse pessoal ou compromisso com esse tipo de ficção, não há nada a fazer: a exigência simplesmente perde sua força. Levar a exigência cultural a sério significa entrar pessoalmente na competição da cultura, ou, de outra maneira, como diz Groys, tomar a si próprio como vetor material de cultura.

Um fenômeno curioso observado por ele é que, quando o encontro de alguém com a arte e a cultura, ocorre mais tardiamente, por conta, por exemplo, de um meio familiar inculto, a tendência é confundir-se a exigência da cultura com uma força institucional real, isto é, como se tratasse de uma imposição produzida por uma classe, uma raça estrangeira, ou alguma forma de ditadura burocrática, que exige saberes para recusar postos. Essa experiência traumática de encontro com a cultura pode gerar atitudes tanto de veneração quanto de horror pela cultura, tanto uma subjugação extrema a ela quanto uma revolta violenta contra ela. Isso porque, nos dois casos, o encontro com a cultura não é percebido como um jogo com regras próprias, do qual ninguém está obrigado a participar.

A adesão ao jogo decorre, como ficou dito, de uma convicção ficcional apenas. É a perfeita compreensão dessa exigência apenas imaginária que faz com que, na outra ponta do exemplo, os filhos de meios cultivados sejam, por sua vez, menos produtivos culturalmente: eles sabem que podem se dispensar sem punição desse tipo de jogo.

As exigências culturais não apenas são fictícias, como especialmente dizem respeito a um jogo espectral. O objetivo dos artistas e pensadores é superar os melhores, já mortos, em seu campo; posicionar-se no campo da cultura tão bem quanto eles o souberam fazer, a ponto de se tornarem mortos imortais. Quer dizer, as exigências imaginárias dizem respeito a uma imortalidade artificial,
que é efeito de uma política consciente.

O que Groys propõe, portanto, é que o espaço simbólico da arte inclua necessariamente os mortos, representados por suas obras, imagens, teorias, atitudes, linguagens. Assim, a verdadeira pressão cultural não vem das instâncias de poder, mas dos mortos. São um caso muito mais sério que os vivos, pois continuam a perturbar o presente como criadores. É, pois, com os mortos que os artistas estão em competição; como eles, querem, por exemplo, chegar a ter edições integrais suas nas estantes das bibliotecas. Desse ponto de vista, também os verdadeiros leitores dos artistas realmente comprometidos com o campo da arte são os mortos, com os quais competem. O que lhes interessa é o que Dante, Camões ou Shakespeare pensam deles - dessa vez, os exemplos são meus - e em que medida os imortais podem ser atingidos ou deslocados pela sua própria corrida rumo ao pódio. Nesse ponto também reside uma dicotomia insuperável do artista: o desejo de matar os mortos ainda uma vez, vencendo-os na grandeza do nome, e o desejo de que esses mesmos mortos o reconheçam, sendo os seus primeiros leitores.

Na competição cultural, existe a obrigação incontornável de o artista ou pensador representar a si mesmo, o imperativo de inscrever seus signos, de criar uma imagem própria. No vocabulário final um pouco bizarro de Groys - que não deixa dúvida sobre as razões de seu interesse por Lynch - essa obrigação pode ser traduzida pela de desenhar a própria tumba, de fabricar o próprio cadáver.

Daí, para ele, a gritante insuficiência das teorias sociológicas que só argumentam em nome da sociedade dos vivos. Enquanto personagens da herança cultural, os mortos simplesmente não estão mortos. Para Groys, esse fenômeno é intuído até pela indústria cultural cujas únicas personagens sistematicamente cultivadas - observa agudamente - são os vampiros: os mortos que não estão mortos, e escravizam os vivos.

Ou seja, escrever livros, ao contrário do que se tem pensado, se é uma atividade irredutível à economia dos bens perecíveis, tampouco se inscreve numa economia do desejo, entendida habitualmente nos termos da sublimação erótica. Longe disso, trata-se, aqui, de construir um túmulo (mise au tombeau) para si mesmo. Dito de outra forma: do ponto de vista cultural, só se começa a ser realmente criativo quando se começa a fabricar uma imagem duradoura de si - o que, no vocabulário fúnebre ajustado ao caso, só se obtém quando o artista ou pensador começa a embalsamar a si próprio, a se transformar em múmia, a construir para si um perfil de cadáver, ou enfim, trata de representar o próprio enterro em seus livros, imagens etc.

Assim, quando Groys alerta que arte e filosofia não podem ser deduzidas da vida, ele pretende dizer que essa impossibilidade é completa: não pode ser extraída nem do que a vida de alguém tenha de excessiva, nem do que tenha de fracassada. Desgraçados de todo o mundo, portanto, desenganem-se: miséria e sofrimento não são condição relevante da arte. Isso também significa que arte ou filosofia não nascem - como também equivocadamente é costume pensar - de uma preocupação ditada pela vaidade. Nascem, sim, de uma preocupação com o cadáver, e não com o corpo vivo. E mais, o cadáver que interessa ao artista construir não se situa ao termo da vida, ou como fuga dela, mas em seu início. A mitologia vulgar sobre o artista sensível ou frágil diante da vida simplesmente não cabe aqui. O modo de vida artístico tem como condição primeira a adesão à corrida com os mortos. Ou, como diz Groys, à sua maneira: no princípio, era a múmia.

Isso posto, o conceito de uma política da imortalidade deve ser entendido como a maneira pela qual um artista ou pensador encontra de se tornar uma múmia indestrutível, um cadáver vivo. Ou, para dizê-lo de outro modo, como a maneira que o artista busca de transcender a sociedade efêmera dos seus contemporâneos por meio de uma metaposição, isto é, da construção de uma imagem de si que vai além do mundo dos que vivem e vão morrer. Isso implica, então, fundamentalmente, na construção de uma forma de se comunicar com os mortos célebres e adquirir a imortalidade que já é deles. Entretanto, é preciso ter bem claro que essa comunicação fúnebre, para Groys, é questão intrinsecamente política, prática, embora muito longe de ser matéria de teorias científicas, sociológicas ou midialógicas.

Adotar uma metaposição - ter uma visão de si mesmo no campo artístico - assemelha-se, pois, a entrar em contato com os mortos e esperar daí alguma espécie de imortalidade. Isso significa que o grande problema do artista é entrar na tradição, encontrar a porta de entrada para a sala da herança cultural, e não a de saída, como se costuma pensar, quando se fala de ruptura, inovação ou vanguarda. Os artistas que realmente importam tratam de, submetendo-se ao campo da herança cultural, buscar lá um bom enterro, ou, como diz belamente Groys, um lugar sob o céu do além.

Mas, atenção novamente aqui, pois busca de imortalidade, no conjunto das idéias do pensador russo-alemão, nada tem a ver com busca de entidades eternas, como Deus, o espírito, o inconsciente, ou qualquer outra maneira de fuga do mundo real. O artista busca imortalidade para obras de arte ou de pensamento. Quer dizer, artistas e pensadores não se preocupam com a sua alma, como os santos, mas apenas com seu cadáver: preocupam-se com que o legado de seu corpo artístico continue a viver depois da morte. Os livros, as obras são os verdadeiros túmulos do artista ou do filósofo, ou, ainda nesse campo semântico macabro, as suas múmias.

Esse tipo de preocupação, estranha aos ocidentais não artistas, era, entretanto, segundo Groys, bastante familiar aos egípcios. Para eles, a alma deve partir para que o corpo fique. Nessa mesma chave de leitura, Groys entende heterodoxamente que, quando Ludwig Wittgenstein diz que o filósofo é como a mosca que não consegue sair do vidro, é como se dissesse que a alma do pensador ou artista continua para sempre no corpo, prisioneira da linguagem. Essa, para o crítico russo-alemão, seria a melhor imagem da imortalidade no campo da cultura.

Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp

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Desmatamento na Amazônia Releva Insustentabilidade do Modelo Agroexportador

REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos

O recorde de aumento do desmatamento da floresta amazônica nos últimos quatro meses nos desafia a buscar respostas e responsabilidades. Depois de quatro anos da festejada queda no desmatamento, amargamos esta notícia dramática.

No momento em que isto acontece, o ministro Celso Amorim viaja a Davos, Suíça, ao Foro Econômico Mundial, para encaminhar a proposta de retomada da Rodada de Doha na OMC – Organização Mundial do Comercio - buscando novamente a ampliação do acesso aos mercados para os produtos agrícolas e pecuários que exportamos.  Esta prioridade da política externa brasileira tem sido ainda mais reforçada com a tentativa de consolidar o Brasil como um dos principais fornecedores de agroenergia para o mundo, com promessas contundentes e altamente questionáveis de que isto não traria impactos para a Amazônia.

Os meios de comunicação destacaram amplamente as divergências dentro do governo sobre onde deveriam recair as responsabilidades: na agricultura de larga escala, na pecuária, nas madeireiras ou na falta de fiscalização.  Sabemos que todos estes motivos estão encadeados. De fato, é sabido que são os madeireiros os primeiros a chegarem, desmatando para deixar o terreno livre aos pecuaristas e os produtores de soja e outros monocultivos, como a cana de açúcar para produção de etanol. Ao mesmo tempo, se insinuou na imprensa a inutilidade das políticas públicas diante das imposições do mercado, o que pode ser entendido como a intenção de se deixar na “produtividade a todo custo” e nas mãos do agronegócio as definições sobre o sentido que tomará o desenvolvimento do país. 

A perda de sete mil quilômetros quadrados de floresta no segundo semestre de 2007 não é mais que a mostra visível das conseqüências de um modelo de crescimento ancorado nos monocultivos que busca alcançar recordes exportadores de soja, carne e outros produtos com preços conjunturalmente altos no mercado internacional. 

Se olharmos os dados dos estados onde se desmatou, veremos que Mato Grosso, campeão da produção de soja, foi o que mais desmatou (53,7% do total) seguido de Pará (17,8%) e de Rondônia (16%). Evidentemente isto se relaciona com o crescimento preponderante do agronegócio brasileiro, que tem sido realizado com base nos monocultivos em larga escala concentrados em poucas empresas, muitas delas transnacionais, contribuindo para aumentar a já elevada concentração fundiária, voltada para exportação e o ingresso de dólares que permitam evitar as alardeadas crises financeiras. Aliás, crises criadas pelo capital financeiro especulativo, como a que agora se vive nos EUA e que contaminará em maior ou menor grau toda a economia mundial.  Apesar das altas recentes, muito se conhece sobre a tendência de queda dos preços das commodities no longo prazo, e a necessidade de se produzir cada vez mais. O agronegócio segue este caminho ainda que para isto tenha que expandir a área agriculturável, inclusive entrando Amazônia adentro. Será que este é o modelo produtivo que pode levar o país ao desenvolvimento entendido como atendimento das necessidades das maiorias do país, e de estímulo à ampliação do mercado interno? Será que esse caminho é compatível com as metas de mudança de rumos frente ao aquecimento global? Ou será que reconheceremos este equívoco apenas quando a floresta já esteja consumida pelas queimadas?

A Rodada de Doha da OMC justamente está paralisada devido às demandas de acesso ao mercado norte-americano e europeu para as exportações agrícolas dos países do Sul.  Tanto os negociadores dos EUA como da União Européia alegam que já avançaram bastante na derrubada de barreiras agrícolas e que agora aguardam em troca um sinal de boa vontade dos países do Sul, especialmente dos chamados emergentes como o Brasil, com uma maior abertura no comércio de serviços e de produtos industriais. 

A REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos - questiona esta lógica que tem orientado as negociações de comércio internacional.  Denunciamos o modelo agro-exportador de riquezas naturais e de produtos agro-pecuários produzidos em larga escala como fonte perversa do crescimento brasileiro.  Defendemos uma postura de proteção para os produtos industrializados nas negociações de NAMA, junto a propostas que impulsionem a ciência e a tecnologia, podem ampliar a produção de bens com valor agregado buscando superar a exportação de produtos primários.

Ao mesmo tempo, programas de defesa e promoção da agricultura familiar e camponesa que permitam garantir a soberania e segurança alimentar da população, somados a escolha de uma matriz energética diversificada voltada às necessidades da população do país e da região - e não orientada a atender o consumo insustentável dos países industrializados do norte – podem se tornar um caminho sólido para a redução dos índices de desmatamento.

Num momento onde o país tem mostrado que o crescimento nacional pode ser alavancado pelo desenvolvimento do mercado interno com distribuição de renda, se faz premente fortalecer políticas públicas que permitam um caminho ambiental e economicamente justo, capaz de promover a inclusão social e melhorar a qualidade de vida da população.

Do mesmo modo, o Brasil tem um papel muito importante a cumprir na América do Sul, onde é chamado a fortalecer uma integração regional que vai tomando o rumo da consolidação das democracias, ao mesmo tempo em que busca superar as históricas desigualdades entre os países da região e no interior dos mesmos.

As notícias sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, além de muito preocupantes, podem ser uma oportunidade para a sociedade brasileira debater a fundo os rumos e o sentido do desenvolvimento do nosso país.  

REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos

Rua das Palmeiras 90, Botafogo

Rio de Janeiro, RJ, CEP 22270-070

Tel: 55-21-25367350

www.rebrip.org.br

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Vidas de pobreza aflitiva, intocadas pelo ‘boom’ econômico da China

Recente estudo do Banco Mundial sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China, três vezes mais do que o banco estimava anteriormente.

Howard W. French
em Yangmiao, China

Quando adoece, Li Enlan, 78 anos, colhe ervas que crescem na mata perto dali em vez de comprar medicamentos modernos. Mas não se trata de uma opção filosófica. Ele nunca viu um médico e, como muitos moradores desta área, vive em uma magra economia de troca, raramente entrando em contato com dinheiro. "De alguma forma comemos, mas nunca é suficiente", disse Li. "Mas pelo menos nunca passamos fome."
Nesta região ao sul da província de Henan, em uma aldeia atrás da outra, as pessoas são pobres demais para aquecerem suas casas no inverno e muitas carecem de confortos básicos como água corrente. Celulares, um símbolo quase ubíquo da mobilidade para o alto em grande parte do país, são vistos como um luxo impossível. As pessoas aqui freqüentemente começam conversas com uma frase que ainda não é incomum na China atual: "Nós somos pobres".
A China retirou mais pessoas da pobreza do que qualquer outro país nas últimas décadas, mas a persistência da destituição em lugares como o sul da província de Henan se encaixa nos resultados de um recente estudo do Banco Mundial, que sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China -três vezes mais do que o banco estimava anteriormente.
A pobreza é mais severa nas margens geográficas e sociais da China, sejam as áreas montanhosas ou desérticas que envolvem o país ou as áreas dominadas por minorias étnicas, que por motivos culturais e históricos se beneficiaram bem menos do que as demais com a longa ascensão econômica do país.
Mas também persiste em locais como Henan, onde as densidades populacionais estão entre as maiores da China, e para onde a nova riqueza da costa acena, quase zombeteiramente, a uma mera província de distância.
"Henan possui a maior população de qualquer província, próximo de 100 milhões de pessoas, e a terra ali não consegue sustentar estes números", disse Albert Keidel, um associado sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional e um especialista em pobreza chinesa. "Deveria ser uma rica fornecedora de alimentos, mas sempre houve grande discriminação contra áreas baseadas em grãos na China. O lucro obtido por um hectare de terra com hortifrutis, ou com criação de peixes ou produção de óleos, é muito maior."
Outros especialistas dizem que Henan e outras partes densamente povoadas do interior chinês freqüentemente são excluídas do apoio financeiro dado às áreas costeiras, e que as poucas medidas antipobreza existentes surtem pouco efeito. Geralmente, a população destas áreas diz que as autoridades locais corruptas se apropriam do dinheiro destinado a ela, que as autoridades embolsam as quantias ou as desviam para investimentos em negócios.
Paradoxalmente, dizem os moradores, eles são ignorados precisamente devido à sua proximidade dos grandes centros econômicos do leste, forçados a se virarem sozinhos com base na teoria de que podem sobreviver com a renda enviada para casa pelos trabalhadores migrantes e outras formas de escoamento de riqueza.
"A política anterior de alívio da pobreza se concentrou mais no oeste da China, em locais como Gansu, Qinghai ou Guizhou, que eram mais pobres", disse Wang Xiaolu, vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, uma organização não-governamental em Pequim. "Além disso, a situação nas regiões de fronteira é mais complicada, porque quando as coisas vão mal ali, se torna mais do que um problema de pobreza. Este é o motivo das políticas se voltarem para elas."
Aqui no condado rural de Gushi, em Henan, apenas 73 mil dos 1,4 milhão de agricultores se encontram abaixo da linha oficial de pobreza de US$ 94 por ano, que supostamente são suficientes para cobrir as necessidades básicas, incluindo a manutenção de uma dieta diária de 2 mil calorias.
"Nós devemos ter em mente que este é um padrão de pobreza muito baixo", disse Wang, repetindo o ponto de vista de muitos economistas chineses.
Muito mais pessoas nesta parte de Henan subsistem entre a linha oficial de pobreza e o padrão de US$ 1 por dia há muito usado pelo Banco Mundial. No mês passado, a estimativa do Banco Mundial do número de pessoas pobres na China triplicou, de 100 milhões para 300 milhões, após uma nova pesquisa de preços ter alterado o quadro do que um dólar pode comprar.
O novo padrão foi estabelecido segundo o que os economistas chamam de paridade de poder aquisitivo. Segundo os novos cálculos, as estimativas do tamanho geral da economia chinesa também encolheram em 40%.
Dado o tamanho imenso da população da China, mesmo uma pequena mudança na definição de pobreza pode produzir estimativas enormemente diferentes.
"A diferença entre uma renda de US$ 1 e US$ 2 por dia é um número imenso de pessoas, digamos 450 milhões", disse Khalid Malik, um representante local do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, em Pequim.
"Somos terrivelmente pobres"
Os camponeses aqui são os primeiros a dizer a um visitante que independente de quais sejam as estatísticas, eles permanecem atolados em pobreza profunda. Os aldeões por todo este condado dizem que várias medidas recentes e altamente divulgadas do governo central para reduzir o fardo dos camponeses resultaram apenas em um efeito modesto sobre suas vidas. Elas incluem a abolição dos impostos agrícolas para os camponeses, o cancelamento da taxa de ensino para seus filhos e novos planos de aposentadoria e saúde que parecem no papel mais generosos para os pobres rurais.
Como a maioria dos camponeses aqui mantém apenas contato de vislumbre com a economia de dinheiro, a isenção de impostos é altamente irrelevante.
Mesmo com a abolição das despesas com a taxa de ensino, eles ainda são apertados por uma proliferação de outras taxas escolares. De forma semelhante, outros disseram, as taxas de participação e deduções concedidas aos planos de aposentadoria e saúde rurais estão fora de seu alcance financeiro.
"Nós somos terrivelmente pobres", disse Zhou Zhiwen, uma mulher de 55 anos em Yangmiao, cuja casa de tijolos a coloca em melhor condição do que a maioria das pessoas, que ainda vivem de estruturas feitas de terra. "Nós cultivamos o suficiente apenas para nos alimentarmos, sem nenhum ganho adicional. Nós não temos mais que pagar a taxa de grãos, mas nossas vidas não melhoraram muito."
Ao ser perguntada como se virava, Zhou disse que ocasionalmente recebe ajuda de parentes que migraram para outros locais em busca de trabalho. "Se as pessoas vivessem bem em casa, quem ia querer migrar", ela disse. "Todos os nossos jovens estão trabalhando em outros lugares."
Para muitos aldeões, o governo central está fora de contato com as realidades rurais em lugares como este, e o governo local está cheio de autoridades mercenárias que empregam o dinheiro destinado aos pobres rurais em obras nas cidades provinciais ou simplesmente embolsam o dinheiro.
"As pessoas comuns não recebem quaisquer benefícios reais dos programas de alívio da pobreza", disse Li Guangyi, 35 anos, um agricultor que vive na aldeia de Zhangyoufang. "Como o dinheiro de ajuda poderia chegar às nossas mãos? Ele primeiro ajuda as autoridades locais, que enriquecem com as tragédias da nação."
David Dollar, um representante do Banco Mundial em Pequim, atenuou a importância do governo central no alívio da pobreza, dizendo que os resultados provinciais tinham muito mais a ver com o sucesso das autoridades locais na criação de um clima de investimento atrativo.
Grande parte da pobreza restante, ele disse, envolvia lares que careciam de trabalhadores migrantes ou de trabalhadores fisicamente aptos. "Muito freqüentemente a pobreza está relacionada a um problema de saúde ou ferimento, ou com a falta de uma pessoa fisicamente apta", disse Dollar. "Tradicionalmente, a abordagem do governo chinês tem sido ajudar a aldeia a crescer, mas se há poucas pessoas fisicamente aptas, é preciso trabalhar em questões de uma rede de segurança social."
Mas no condado de Gushi, mesmo famílias com membros que migraram para o leste em busca de trabalho continuam atoladas na pobreza, e a situação dos próprios migrantes permanece precária.
Shen Kexia, 33 anos, que partiu de sua aldeia com seu marido para trabalhar em Hangzhou, uma próspera cidade costeira do sul, recentemente voltou para casa para o nascimento de sua segunda filha. Ela e seu marido planejam deixar suas duas filhas com os pais idosos de Shen assim que o bebê for grande o bastante.
"Se meus sogros adoecerem, nós não poderemos partir", ela disse. "Nós viemos para casa para ter este bebê porque não podemos arcar com a despesa de tê-lo em Hangzhou, mas se tivéssemos dinheiro, nós não voltaríamos."
Tradução: George El Khouri Andolfato

Visite o site do The New York Times

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Às margens do rio Madeira

Sanitarista fala dos avanços das pesquisas com quimioterápicos que podem bloquear ação de parasitas

Claudia Izique e Ricardo Zorzetto

Luiz Hildebrando Pereira da Silva deixou o Brasil em 1964. Na época, era livre-docente de parasitologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e organizava o laboratório de genética de microorganismos. Foi preso e demitido pelo Ato Institucional nº 1 em outubro de 1964. Buscou exílio na França, integrou-se aos quadros de pesquisadores do Instituto Pasteur e tentou regressar ao Brasil, mais precisamente na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em 1968. Um ano depois foi novamente demitido, desta vez pelo Ato Institucional nº 5.

Retornou à França e reassumiu seu posto no Instituto Pasteur. Foi diretor do Departamento de Biologia Molecular e, em 1979, assumiu a direção da Unidade de Parasitologia Experimental do instituto, a convite do diretor do Pasteur, o prêmio Nobel Jacques Monod, com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre biologia molecular de parasitas da malária em Caiena, na Guiana Francesa, Madagascar e Senegal, na África. Em 1990, ainda em Paris, em colaboração com Erney Camargo, do Departamento de Parasitologia da USP, organizou uma equipe de pesquisas sobre malária em Rondônia. Aposentou-se no Instituto Pasteur, em 1997, e decidiu voltar ao Brasil. “Gosto de fazer o que sei fazer”, justifica.

Instalou-se em Porto Velho, Rondônia, um estado que, como ele explica, não rejeita a presença de forasteiros. Montou o Centro de Medicina Tropical (Cepem), na Secretaria da Saúde de Rondônia, e criou o Instituto de Pesquisa em Patologias Tropicais (Ipepatro), com um grupo de médicos e biologistas do estado. As duas instituições contam hoje com uma centena de profissionais, entre médicos, pesquisadores, técnicos e estudantes de pós-graduação dedicados à investigação de doenças importantes na Amazônia – malária, doenças virais como hepatite e arboviroses. Ele prefere ainda guardar segredo, mas insinua que sua equipe está prestes a registrar a patente de um quimioterápico baseado em drogas desenvolvidas a partir da biodiversidade. Aos 80 anos, ao mesmo tempo em que organiza um plano de ação em saúde para a região onde serão construídas as hidrelétricas do rio Madeira, começa a fazer planos de aposentar-se, desta vez de verdade, e instalar-se com a família numa casinha “lá no Midi de la France”.

Há quanto tempo o senhor está em Porto Velho?

— Estamos em Porto Velho há dez anos, desde 1997. Concentramos de início nossa atividade em malária mas, pouco a pouco, estendemos isso para certas doenças virais como as hepatites virais e as arborviroses, causadas por vírus transmitidos por insetos e aracnídeos. Mais recentemente, iniciamos pesquisas sobre problemas relacionados à quimioterapia de doenças negligenciadas, como malária, leishmaniose e tuberculose. Estamos também procurando identificar fatores imunológicos para desenvolver soroterapias de doenças virais e de certas doenças emergentes.

Qual é hoje o tamanho da equipe?

— Somos uma centena de pessoas. Começamos com um grupo de dez. Em 2001, com a Universidade Federal de Rondônia, instalamos um programa de pós-graduação que se iniciou com o mestrado e depois incorporou o doutorado. Com isso, temos uma população de estudantes em formação. Ao mesmo tempo, estreitamos o relacionamento com os serviços de saúde federal, estadual e municipal e temos integrado pessoas ligadas à saúde pública local.

Quem financia o centro?

— Temos recursos públicos e privados. O Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento e Científico e Tecnológico] e da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], tem nos proporcionado recursos importantes. A Secretaria de Vigilância em Saúde e o Departamento de Ciência e Tecnologia, do Ministério da Saúde, também. Conseguimos recurso internacional da Organização Pan-americana da Saúde, da Organização Mundial da Saúde e até do Instituto Pasteur, na França, além de contribuições de empresas como Furnas. Prestamos serviço de qualidade na área de diagnóstico, o que nos dá um retorno a partir do sistema SUS [Sistema Único de Saúde]. Temos esperança de que, com o desenvolvimento das atividades em quimioterapia, teremos em breve algumas patentes que se converterão em mais recursos.

Essas patentes estão relacionadas a novos tratamentos?

— Estamos pesquisando em quimioterapia e soroterapia com drogas desenvolvidas a partir de produtos vegetais extraídos da biodiversidade brasileira. Trabalhamos em associação com o grupo de química de produtos naturais da Universidade Federal de Rondônia, que já obteve alguns compostos químicos ativos a partir de produtos naturais. No caso da soroterapia, usamos uma tecnologia criada na Bélgica há cerca de dez anos, que utiliza anticorpos de camelídeos. No Brasil trabalhamos com anticorpos de alpacas. Melhoramos a tecnologia de purificação de produto e a definição de alvos metabólicos estratégicos dos parasitas que queremos combater. Atualmente a engenharia genética permite que se preparem e se purifiquem moléculas das vias metabólicas da bactéria da tuberculose ou dos parasitas da malária e da leishmaniose. Com o auxílio de equipamentos especiais, expomos essas moléculas a determinados extratos e frações purificadas de extratos obtidos a partir de produtos naturais a fim de identificar aqueles que aderem a elas. A partir daí pretendemos purificar esses produtos, identificar seus componentes essenciais e, posteriormente, realizar análises bioquímicas para ver se são capazes de bloquear a atividade biológica dos parasitas. Procuramos detectar alvos metabólicos precisos. Isso só é possível porque o parasita da malária está clonado e seqüenciado e já se conhece o genoma do mosquito que transmite a malária. Com a tuberculose é a mesma coisa. A literatura científica internacional permite identificar essas moléculas, prepará-las por meio de engenharia genética e procurar produtos naturais que sejam ativos contra elas.

E o que vem sendo feito com respeito à soroterapia?

— No caso da soroterapia, nosso alvo são doenças graves na região amazônica que permanecem sem tratamento eficaz, como a febre amarela, a raiva e o tétano. É possível produzir anticorpos de camelídeos, mais específicos que os de roedores, para reconhecer estruturas moleculares dos agentes causadores dessas doenças. O anticorpo monoclonal do roedor tem uma estrutura molecular complexa, enquanto o anticorpo monoclonal do camelídeo tem uma estrutura muito simples, que, se manipulada por engenharia genética, pode interagir com vírus ou alvos moleculares considerados estratégicos para a inativação viral. Injetamos o vírus inativado em alpacas. Em seguida isolamos células do sistema imunológico, chamadas linfócitos, que são produtoras de anticorpos específicos e unimoleculares. As alpacas produzem três tipos de anticorpo. Apenas um deles é formado por uma única molécula, diferentemente dos anticorpos dos outros mamíferos, que são formados por dois pares de moléculas associadas. Desses anticorpos unimoleculares, isolamos a parte variável, que reconhece o antígeno, e a reproduzimos utilizando bactérias ou outros vetores usados em engenharia genética. Assim temos a fabricação sintética do anticorpo, que pode ser produzido em massa e depois purificado.

Em que estágio se encontra essa pesquisa?

— Estamos concentrados na febre amarela. Já temos anticorpos bastante eficientes no reconhecimento do vírus. Também estamos fazendo testes de inativação contra o vírus da raiva.

Há algum produto extraído da biodiversidade amazônica promissor contra a leishmaniose?

— Começamos a pesquisa há uns dois anos. Ainda é recente e faz parte de um contrato com uma rede de dez laboratórios nacionais, localizados no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, na Bahia, no Ceará, no Amazonas e em Rondônia. Acreditamos que toda atividade científica em nossa área deve incluir a perspectiva de aplicação ou um programa que permita aumentar valor agregado aos produtos naturais. Nossa intenção é valorizar os produtos por meio da exploração da biodiversidade. Com isso esperamos um salto importante de visibilidade para o Ipepatro.

Como o senhor conseguiu colocar essas equipes para trabalhar em conjunto?

— A iniciativa básica de nosso programa em quimioterapia foi de um grupo da Universidade Católica do Rio Grande do Sul, liderado por Diógenes Santiago Santos e Luiz Augusto Basso, que desenvolve pesquisas importantes na área de tuberculose. O Diógenes é um velho conhecido e colaborador, desde os primórdios da biologia molecular. Velhos pesquisadores como eu têm a vantagem de conhecer todo mundo, ou ao menos muita gente competente. O Diógenes, quando nos convidou para participar do programa, já tinha contato com o pessoal relacionado à biologia estrutural, como o Mario Palma, da Universidade Estadual Paulista em Rio Claro, o Walter Figueiredo, atualmente na Universidade Católica do Rio Grande do Sul, o grupo de João Batista Calixto, da Universidade Federal de Santa Catarina, e o de Ícaro de Sousa Moreira, da Universidade Federal do Ceará. Depois integrou o Ricardo Ribeiro dos Santos, da Fiocruz da Bahia. A iniciativa de propor a convergência das pesquisas em malária e tuberculose foi do Diógenes. O ponto de partida foi a descoberta de que a bactéria da tuberculose tem vias metabólicas muito próximas e equivalentes às do parasita da malária. Isso acontece porque o protozoário da malária inclui no seu genoma uma estrutura de origem bacteriana ou de algas unicelulares. Com base nessa semelhança das vias metabólicas, teoricamente, certos produtos que são ativos contra a tuberculose, devidamente adaptados, devem funcionar contra a malária. Atualmente estamos analisando os efeitos sobre o parasita da malária dos produtos derivados da isoniazida, a principal droga ativa contra a tuberculose, à qual a bactéria vem desenvolvendo resistência. E estão surgindo algumas pistas.

Quais medicamentos ainda são usados hoje no tratamento da malária?

— Atualmente, no Brasil, são utilizadas a cloroquina, a primaquina, a quinina, a mefloquina, a doxiclina, a clindamicina ou a artemisina. Mas aos poucos o parasita da malária vai desenvolvendo resistência a esses compostos. Houve um progresso bastante importante nos últimos dois anos, com a introdução de associações de artemisina e seus derivados. A malária mais importante no Brasil é a causada pelo Plasmodium vivax, e não pelo Plasmodium falciparum. Aqui a malária vivax ainda não desenvolveu resistência importante à cloroquina, usada desde a década de 1940, quando foi sintetizada pelos alemães. Até hoje ela é utilizada em campanhas de saúde pública com sucesso fantástico em relação à malária vivax. A campanha de controle, dirigida pelo Serviço Nacional de malária 1950-60, associando o tratamento pela cloroquina ao combate ao mosquito transmissor da malária pelo DDT, um inseticida de ação residual, permitiu erradicar a malária em praticamente todo o território nacional, com exceção da Amazônia.

Mas se ouve falar que em várias regiões do mundo já existe resistência à cloroquina…

— A resistência da malária falcípara à cloroquina apareceu na Colômbia, na Ásia e também no Brasil na década de 1960. Espalhou-se pelo mundo inteiro, inclusive pela África. Por isso no Brasil foi iniciado há uns dez anos um tratamento novo à base de quinina associado a um antibiótico do tipo tetraciclina. Estava dando bons resultados, mas nos últimos anos apareceram casos de resistência a essa associação. Coincidentemente, isso aconteceu no momento em que a artemisinina foi sintetizada. Hoje está sendo usado um análogo de quinina, denominado lumefantrina associado à artemisinina num medicamento chamado Coartem, com bons resultados contra a malária falcípara. O Ministério da Saúde avaliou a sensibilidade em toda área endêmica e não encontrou até o momento resistência ao Coartem.

Se a resistência aos medicamentos não é o principal problema da malária no Brasil, o que de fato preocupa? O acesso aos medicamentos?

— A malária está concentrada na Amazônia, em lugares de difícil acesso aos serviços de saúde. Um dos problemas é a dispersão da população, sobretudo nas áreas rurais, onde há carência total de serviços públicos de saúde. O segundo problema é o das migrações. As populações amazônicas são de uma instabilidade total. Nos últimos 40 anos, com a abertura de estradas, é intensa a movimentação de pessoas e a concentração delas nas regiões periurbanas. O lugar de maior incidência hoje de malária no Brasil é Manaus, por conta da imigração; das invasões de terra em torno das áreas urbanizadas, que são extremamente insalubres; e das coleções de água estagnada, que dificilmente se tornarão alvo de algum processo de saneamento. Isso torna a população extremamente exposta ao mosquito vetor da malária.

Como a imigração influencia a dispersão da malária?

— As migrações externas, que vêm de áreas onde não há malária, trazem para a área endêmica pessoas que não têm experiência de malária. Essa é a nossa maior preocupação em relação às usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. O problema não é a população local que vai ser atingida com a instalação das hidrelétricas pelas barragens ou pelo reservatório de água. Essa é uma população pequena, que não chega a 10 mil pessoas, que sofrem de malária mas mantêm um certo equilíbrio com ela pelo desenvolvimento da imunidade. O que está crescendo rapidamente é a população imigrante. As empresas calculam que serão gerados 20 mil empregos diretos só na construção das barragens. Se contarmos também as famílias desses trabalhadores, esse número sobe para 60 mil. Essa população não será recrutada toda localmente, e a migração já aumentou. É claro que os empregados das usinas não formam a população de risco mais importante, já que eles poderão contar com a assistência das empresas construtoras, ficarão instalados em acampamentos e terão atendimento médico, até por determinação da legislação trabalhista. O problema será a população migrante secundária, que chegará à região atraída pela demanda por uma série de serviços que vão desde a alimentação até a prostituição. Esse é o grupo de risco, já que essas pessoas não terão o mesmo nível de assistência dos empregados das empresas. Esse grupo terá de ser assistido pelas estruturas locais de saúde pública, que são extremamente deficientes e não atendem sequer as necessidades locais de hoje.

Como o senhor enxerga a construção dessas novas hidrelétricas?

— As hidrelétricas do Madeira vão contribuir não apenas para ampliar a oferta de energia elétrica. Por meio de acordos com a Bolívia e o Paraguai elas criarão também condições, no futuro, para transporte fluvial de Belém a Manaus. Toda a atividade industrial e agroindustrial do Brasil Central e dos países limítrofes vai escoar por essa via. A perspectiva de abertura de estradas de rodagem de Porto Velho até o Pacífico, atravessando o Peru, deve facilitar o acesso da produção do interior da América Latina ao mercado asiático. Não estamos, portanto, falando só de hidrelétricas. Estamos pensando em vários aspectos importantes para o desenvolvimento da região. No início desse ano fiz uma conferência no Instituto Pasteur que teve como título: “Como ir de Belém a Buenos Aires sem passar pelo oceano Atlântico e sem pegar malária”.

E qual é o segredo para não pegar malária?

— Para que no futuro não se pegue malária tem que haver um trabalho de saneamento e a implementação de medidas de prevenção ao longo do vale do rio Madeira, particularmente nas áreas vizinhas de Porto Velho. O impacto socioeconômico das usinas e as perspectivas que elas abrem para o futuro justificam que o problema técnico-científico relacionado com a saúde também seja resolvido de modo exemplar, sobretudo agora que as condições de conhecimento científico e técnico não são as mesmas do início do século passado, quando se deu o drama da construção da ferrovia Madeira–Mamoré. Temos como criar uma obra exemplar em termos de serviços de saúde, capaz de conter a explosão da epidemia e também de promover a melhoria do nível básico de saúde das populações rurais da bacia do Madeira.

Quais devem ser as repercussões desse projeto?

— Na área técnica há muita repercussão negativa. Está promovendo indiretamente o aumento do desmatamento em Mato Grosso e Rondônia. Amplia essa mania do tudo álcool, do tudo biocombustível, e também pelo aumento internacional do preço da soja e da carne bovina para exportação, acumulam-se estímulos ao desmatamento. Esse domínio do mercado de consumo e exportação de produtos primários em áreas subdesenvolvidas do país é um problema. O capitalismo paulista, carioca e mineiro já sofre a pressão de opinião pública no que diz respeito ao equilíbrio ecológico e à proteção do meio ambiente. Mas na Amazônia muitos negócios e atividades econômicas ainda estão na mão de aventureiros. Em termos de saúde, o grande problema é a preocupação com a saúde rural. O meu velho mestre Samuel Pessoa já dizia na década de 40 ou 50 do século passado: “Por que existe malária na Amazônia?” E ele mesmo respondia: “Porque não existe um sistema estruturado de prestação de serviço em saúde rural”. Agora, com as duas usinas hidrelétricas, estão previstos investimentos de R$ 20 bilhões na região. Será possível realizar obras de saneamento e a implantação de estruturas básicas de atendimento à saúde da população rural. Isso é um dever não apenas da República, mas das empresas responsáveis pelas obras que vão aumentar sua rentabilidade. Depois de instaladas as usinas, só a capital, Porto Velho, vai receber royalties da ordem de US$ 60 milhões. Esse valor pode lastrear empréstimos de até US$ 600 milhões para o saneamento.

Apenas com o saneamento é possível controlar essas doenças?

— O saneamento é um dos fatores essenciais do controle. Também é necessário haver nelhoria da estrutura de atendimento básico à saúde. Com as obras, haverá facilidade de transporte fluvial e será possível navegar de Porto Velho até o sul do estado, no limite com a Bolívia e o Mato Grosso. Não estamos falando em ter um posto de saúde a cada 100 metros, mas em distribuir a estrutura de atendimento do SUS, com agentes comunitários, sistema de atenção à família e centros de tecnologia e ciência avançada. E isso nós sabemos fazer bem.

Já foi feita alguma avaliação dos riscos da doença na população?

— Em relação a riscos de epidemias, começamos por uma avaliação da prevalência da malária assintomática na população que será atingida pela barragem da usina Santo Antônio. Fizemos um inquérito demográfico para atualizar dados do IBGE e chegamos a uma população total de 3 mil pessoas. Analisamos uma amostragem de 1.500 residentes e fizemos uma avaliação da prevalência da malária. Isso seria impossível se estivéssemos utilizando técnicas antigas. Seriam necessárias 1.500 horas de trabalho técnico especializado de microscopistas. Hoje fazemos isso por meio de uma técnica como PCR, que trabalha em tempo real e analisa cem reações por dia. Se o técnico for bem treinado, em duas semanas você faz a metade da população.

Qual a taxa da malária assintomática?

— Em algumas áreas encontramos prevalência de 50% entre adultos. Quando a Madeira–Mamoré começou a ser construída, já existia ali o seringueiro, que era um reservatório de malária. Foi ele provalmente o responsável pela transmissão inicial que resultou em terrível epidemia com milhares de mortos. Pelo que se sabe, não existem reservatórios extra-humanos de malária falcípara. Talvez exista da vivax, mas ainda estamos investigando. A população assintomática é um reservatório: transmite o parasita ao mosquito. Os riscos aumentam com a ocupação humana desordenada, que provoca uma grande degradação ambiental fixa: cria alagadiços, derruba a mata e bloqueia os igapós. O resultado é que o vetor de malária se prolifera. É preciso sanear a água de superfície e tratar os portadores assintomáticos. Mas, para tratá-los, é preciso diagnosticar. E, para diagnosticar, não dá para usar mais microscópio, tem de usar tecnologia mais avançada.

Se os assintomáticos forem tratados, elimina-se o parasita e evita-se a transmissão da doença?

— A malária falcípara não tem reservatório hepático, já a malária vivax é mais complicada. Aliás, estamos estudando isso: quando se trata a malária vivax, ficam parasitas dormentes no fígado, que saem três meses mais tarde. Além de tratar o assintomático, precisa haver vigilância permanente. Todo mundo que teve malária vivax precisa ficar atento para o risco de recaídas do parasita. A estratégia é fazer uma intervenção maciça inicial, seguida de um sistema de vigilância permanente em nível qualificado. Estamos apresentando ao Ministério da Saúde e ao Ministério da Ciência e Tecnologia uma proposta de organizar essa estratégia em consórcio. Não pode ficar só no âmbito das secretarias de Saúde da cidade de Porto Velho ou do estado de Rondônia. Tem que ser algo coordenado pelo Ministério da Saúde, já que é uma obra de interesse nacional, da qual devem fazer parte desde as secretarias locais até as empresas construtoras. A usina de Santo Antônio deve entrar em operação em 2012. Os próximos anos deverão ser de um dinamismo permanente.

Já foi avaliada toda a região que será afetada pelas usinas?

— Fizemos uma análise global do vale do Madeira. São 250 quilômetros de rio. Já realizamos uma primeira análise do impacto da primeira barragem e um acordo de assistência técnica com a Fiocruz e com a universidade local. A intenção é organizar um centro de saúde modelo na área de impacto direto e pequenas unidades de atendimento e vigilância ao longo das áreas de impacto direto. Esse centro de saúde será modelo. Terá de cuidar não só de malária. Também terá de oferecer atendimento em saúde básica, saúde materno-infantil, desenvolver prevenção de doenças de transmissão hídrica e sexualmente transmitidas, sem esquecer de gravidez na adolescência, que é um problema enorme.

É possível proteger essas pessoas?

— Esse problema pode ser equacionado. Houve dois grandes acidentes na história de Rondônia. O primeiro foi durante a construção da estrada de ferro Madeira–Mamoré no início do século XX. Calcula-se que ali tenham morrido 20 mil pessoas, uma para cada dormente assentado. Mas nessa época a única droga existente contra a malária era a quinina, mal preparada e mal purificada, com alto efeito tóxico e utilizada como profilaxia. A quinina é péssima para a profilaxia porque tem um tempo de duração na circulação sangüínea muito curto. E é extremamente tóxica para pessoas com deficiência de glóbulos vermelhos, ou seja, as populações de origem africana. E, para a construção dessa ferrovia, vieram muitos trabalhadores de Barbados e das Antilhas, de origem africana. A mortalidade então foi elevada. É bom que se ressalve que se atribuíram à malária muitas mortes que, muito provavelmente, ocorreram em decorrência de doenças infecciosas como febre amarela e viroses hemorrágicas, entre outras. O outro acidente na história de Rondônia aconteceu nos anos 1960, com o garimpo. Hoje é diferente. Realizamos uma análise apurada das áreas que sofrerão impacto das barragens e constatamos que há níveis elevadíssimos de reservatório assintomático de malária. Em algumas localidades 50% dos adultos são portadores assintomáticos: eles têm o parasita, mas não desenvolvem a doença.

Como conseguiram realizar esse levantamento?

— Tivemos recursos do Ministério da Saúde e do Ministério da Ciência e Tecnologia para aprofundar a análise da situação de saúde relacionada à malária, a reservatórios de doenças transmissíveis sexualmente e às arboviroses. Furnas participou com um financiamento pequeno, mas importante, porque nos deu, por exemplo, condições de transporte.

Tratar pessoas com malária assintomática já deu resultados?

— Temos uma experiência limitada. Numa determinada comunidade, tratamos só os reservatórios de malária falcípara. Constatamos que há redução na transmissão de malária falcípara. Mas se a infecção for mista, com Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax, quando se trata a malária falcípara, a vivax recrudesce. Estamos repetindo esse experimento, tentando tratar as duas ao mesmo tempo. Em localidades onde há muita mobilidade como nas margens do rio Madeira, a população flutuante traz parasitas diferentes e o tratamento dos assintomáticos locais praticamente não tem efeito. Não existe medida milagrosa. Também é necessário acabar com os problemas de saneamento de águas de superfície, usar controle do vetor – ou seja, um inseticida bem direcionado – e fazer a vigilância epidemiológica das formas sintomáticas, para tratá-las precocemente. No nosso projeto propomos que realmente se faça um reforço acentuado de vigilância para evitar a explosão da doença. Isso é saúde pública. Não estamos inventando nenhum meio novo, a não ser um sistema de diagnóstico parasitológico mais eficiente, com metodologia molecular. Isso pode ser feito em regiões específicas e é possível, com recursos das construtoras, difundir essa estratégia em redes de diagnóstico epidemiológico eficientes em grandes áreas, sem que seja necessário multiplicar por cem ou por mil as unidades de diagnóstico. O segredo é centralizar e formar redes. A rede de vigilância é a mais complexa e envolve pessoas que trabalham em contato com a população.

Por que o senhor trocou as margens do Sena pelas do Madeira?

— Gosto de fazer o que sei fazer. Trabalhei com malária no Instituto Pasteur durante 18 anos, com a perspectiva que se tinha na época de chegar a uma vacina eficaz. Com a estrutura do Pasteur, tínhamos competitividade para entrar nisso. Tive muito contato com o território africano, Dacar e Madagascar, e me interessei pelo controle não com vacinas, mas com os meios que estão disponíveis: fazer o controle por meio da saúde pública. Voltei ao Brasil com competência acumulada em malária e queria trabalhar na Amazônia. Rondônia foi o lugar que se mostrou favorável, porque lá havia menos resistência à chegada de forasteiros como eu. Os amazônidas, tanto os paraenses como os amazonenses, acham que eles próprios têm que resolver seus problemas. Não precisam de paulista. Em Rondônia é diferente: todo mundo é forasteiro. Eu era apenas mais um. Ninguém estranhou minha presença. E era um lugar que concentrava 40% dos casos de malária do país em uma população que representa 10% da população da Amazônia. Era realmente uma situação grave. Lá encontrei condições para trabalhar. Comecei a fazer ciência em epidemiologia e saúde pública com o Samuel Pessoa. Trabalhamos na Paraíba nos anos 1950 com esquistossomose e depois com doença de Chagas. Sempre me interessei pelo trabalho de campo, pelo contato direto com as vítimas dos processos de doenças parasitárias que não têm acesso aos progressos da ciência e aos conhecimentos novos que favorecem o controle dessas doenças. Para mim era um desafio montar um laboratório de fronteira, numa área de alta incidência de doença, para saber se era possível criar uma estrutura em que ciência e tecnologia modernas possam ter impacto sobre o ambiente de uma maneira positiva. Hoje o impacto é pequeno. Será de utilidade no futuro, mas não no curto prazo.

O senhor pensa em se aposentar?

— Não sei se ficarei muitos anos por aqui. Fico mais dois ou três anos. Depois preciso descansar. Sempre estarei por perto, ajudando. Tenho uma casinha lá no Midi de la France. Posso talvez ser mais útil na França do que aqui. Fiquei duas semanas em Paris há 15 dias e vi que era mais fácil falar com a administração federal e com os ministros brasileiros de Paris do que de Porto Velho. Basta anunciar às secretárias “aqui é o dr. Luiz Hildebrando, falando de Paris” para ser atendido. Agora com Skype ficou ainda mais fácil. Passei 15 dias na França ligando para o Brasil, resolvendo problemas.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Fúria do Opus Dei na América Latina

ALTAMIRO BORGES

O jurista Ives Gandra da Silva Martins, principal expoente da seita fascista Opus Dei no Brasil, está preocupado com o avanço das esquerdas na América Latina. Num artigo raivoso na coluna Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, ele destilou ódio e preconceito contra Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro e Lula. Ele aproveitou também para criticar a “falta de preparo” de governantes pelo mundo a fora e para oferecer seus cursinhos às novas gerações de dirigentes políticos. “Neste mundo atormentado por falsas lideranças e fantástica mediocridade, creio que valeria a pena a idéia, que propus em meu livro, de uma ‘escola de governo’… financiada pelos governos”. No meio do arrazoado direitista, um merchandising para os seus lucrativos negócios!

Na sua ótica elitista, “colhe o mundo, atualmente, uma notável safra de pseudolíderes, populistas e despreparados, que conduzem nações mais ou menos desenvolvidas exclusivamente baseados no poder de comunicação com o povo, principalmente com a parcela menos favorecida”. Nesta safra, segundo o líder da seita, estariam incluídos “o histriônico presidente venezuelano – capaz de criar desnecessárias resistências por ser incapaz de controlar seus repentes e ofensas –, que transforma o narcotráfico colombiano e sua indústria de seqüestros em ‘idealística’ guerrilha… O mesmo se pode dizer de Morales, que também pretende se perpetuar no poder e que começa, com sua enciclopédica e truculenta ignorância, a dividir a nação”.

A influência da seita fascista

Após criticar o presidente Lula por elevar impostos que atingem principalmente os bancos, Ives Gandra encerra a safra latino-americana com mais uma esquizofrenia fascistóide. “É de lembrar que os três presidentes são amigos de um ditador que fuzilou, sem julgamento – os homicídios perpetrados nos famosos ‘paredóns’ –, muito mais pessoas que Pinochet”. Além de mentir sobre a realidade dos direitos humanos em Cuba, ele não consegue esconder a sua simpatia pelo regime ditatorial do Chile, que sempre teve o ativo apoio do Opus Dei. Até quando critica a “desastrada presidência de George W. Bush”, Ives Gandra alerta para “o risco do voto num outro populista despreparado para conduzir seus destinos” – talvez numa referência doentia a Barack Obama.

As idéias direitistas e preconceituosas do Opus Dei já são conhecidas, mas é bom não subestimar a influência desta seita mundial – que goza de espaços na mídia burguesa e tem forte presença no aparato estatal. Seu interesse pela América Latina também não é novo e paira sempre ameaçador. Desde a sua chegada ao continente, nos anos 50, o Opus Dei planeja ardilosamente sua ascensão ao poder. O projeto só ganhou ímpeto com a onda de golpes militares na região a partir dos anos 60. Seus seguidores presidiram várias nações ou assessoraram inúmeros ditadores. Nos anos 90, com a avalanche neoliberal, os tecnocratas fiéis a esta seita voltaram a gozar de certo prestígio.
“Catequese” na América Latina

Nos anos 50, a seita aliciou seus primeiros fiéis entre as velhas oligarquias que procuravam se diferenciar dos povos indígenas e pregavam o fundamentalismo religioso. Mas o Opus Dei só adquiriu maior pujança com a onda de golpes a partir dos anos 60. Até então, a sua ação ainda era dispersa. Segundo excelente artigo de Marina Amaral na revista Caros Amigos, “em 1970, Josemaría Escrivá [fundador da seita na Espanha] viajou para o México dando início às ‘viagens de catequese’ pelas Américas que duraram até as vésperas de sua morte em Roma, em 1975”.

Em 1974, visitou a América do Sul, então dominada por ditaduras. “O clero progressista tentava usar o peso da Igreja para denunciar torturas e assassinatos e para lutar pelo restabelecimento da democracia. Em suas palestras, ele respondeu certa vez a um militar que perguntara como seguir o caminho da ‘santificação espiritual’ do Opus Dei: ‘Os militares já têm metade do caminho espiritual feito’”. Neste período sombrio, a seita apoiou os golpes e participou de vários governos ditatoriais, segundo Emílio Corbière, autor do livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.

No Chile, a seita fascista foi para o ditador Augusto Pinochet o que fora para Augusto Franco na Espanha. O principal ideólogo deste regime sanguinário, Jaime Guzmá, era um membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Ela ainda apoiou os golpes e participou dos regimes autoritários na Argentina, Paraguai e Uruguai. Segundo Corbière, ela financiou o regime do ditador nicaragüense Anastácio Somoza até sua derrota para os sandinistas. Na década de 90, ainda deu “ativa assistência” à ditadura terrorista e corrupta de Alberto Fujimori, no Peru.
O fundamentalismo neoliberal

Outra fase “próspera” se dá com a ofensiva neoliberal nos anos 90. Gozando da simpatia do papa e de autonomia frente às igrejas locais, ela se beneficia da invasão de multinacionais espanholas, fruto da privatização das estatais. Muitas delas são influenciadas por numerários do Opus Dei. Segundo Henrique Magalhães, em artigo na revista A Nova Democracia, “a Argentina entregou as suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e energia à Telefônica, Repsol, Ibéria e Endesa. A Ibéria já havia engolido a LAN [aviação], do Chile, onde a geração de energia já era controlada pela Endesa. Os bancos espanhóis também chegaram ao continente neste processo”.

“O Opus Dei é para o modelo neoliberal o que foram os dominicanos e os franciscanos para as cruzadas e os jesuítas para a Reforma de Lutero”, compara José Steinsleger, colunista do jornal mexicano La Jornada. Nos anos 90, a seita também emplacou vários bispos e cardeais na região. O mais famoso foi Juan Cipriani, do Peru, amigo intimo do ditador Alberto Fujimori. Em 1997, quando da invasão da embaixada do Japão por militantes do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, o bispo se valeu da condição de mediador e usou um aparelho de escuta no crucifixo, o que permitiu à polícia invadir a casa e matar todos seus ocupantes.
Os tentáculos no Brasil

No Brasil, o Opus Dei fincou a sua raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, o segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral.

Ainda segundo a reportagem, “aos poucos, o Opus Dei foi encontrando os seus aliados na direita universitária. Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ (pediu para entrar) em 1965. Hoje, a organização diz ter no país pouco mais de três mil membros e cerca de quarenta centros, onde moram aproximadamente seiscentos numerários”.
Crescimento na ditadura

Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do candidato tucano a presidência em 2006. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Ele tinha quadros em posições importantes, mas sem uma atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.

Seu crescimento dependeu da benção dos generais e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus “embaixadores”, relacionando-se com os donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada – Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Diante desta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei”.
Ofensiva recente na região

Na fase recente, o Opus Dei fixou planos mais ousados para conquistar poder político na região. Em abril de 2002, participou ativamente do frustrado golpe contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela. Um dos seus fiéis, José Rodrigues Iturbe, virou ministro das Relações Exteriores do fugaz governo golpista. A embaixada da Espanha, governada na época pelo franquista Partido Popular (PP), de José Maria Aznar – cuja esposa é do Opus Dei –, deu guarita aos seus fiéis. Outro golpista ligado à seita, Gustavo Cisneiros, é o maior empresário das comunicações no país.

Em dezembro de 2006, a seita assistiu a derrota do seu candidato, Joaquim Laví, ex-assessor do ditador Augusto Pinochet, à presidência do Chile. Já em maio de 2006, colheu nova derrota com a candidatura de Lourdes Flores, numerária do partido Unidade Nacional. Em compensação, ela festejou a vitória do narcoterrorista Álvaro Uribe na Colômbia, que dispôs de milhões de dólares do governo George Bush. Já no México, outro conhecido fiel do Opus Dei, Felipe Calderon, ex-executivo da Coca-Cola, venceu uma das eleições mais fraudulentas da história deste país.

A sua jogada mais ousada, porém, foi a tentativa de eleição de um seguidor no Brasil. Segundo Henrique Magalhães, “as esperança do Opus Dei se voltaram para Geraldo Alckmin, que hoje é um de seus quadros políticos de maior destaque. A Obra tentou fazer dele presidente para formar um eixo geopolítico com os governantes da Colômbia e do México”. A mídia e os tucanos até tentaram esconder esta sombria ligação. Numa sabatina à Folha de S.Paulo, Alckmin garantiu: “Não sou da Opus Dei; respeito quem é, mas não conheço”. Mentiu ao esconder suas estreitas relações com a seita fascista – desde seus tempos de infância, no convívio com seu pai e o tio-ministro do STF da ditadura, até às ilícitas “palestras do Morumbi”. Mas o povo não se deixou enganar. Isto explica as recentes lamúrias elitistas de Ives Gandra, o chefão do Opus Dei.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

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A globalização neoliberal não é o problema

Rick Wolff

O capitalismo é. As pessoas de esquerda que têm como alvo a globalização neoliberal denunciam a privatização, os mercados livres, a mobilidade sem peias do capital e as desregulamentações governamentais da indústria. Elas propõem, como alternativa, que governos nacionais ou supra-nacionais controlem e regulem transacções de mercado e especialmente movimentos de capital, aumentem impostos sobre os lucros e a riqueza, e até mesmo possuam e operem indústrias. “Tudo nos interesses do povo”, dizem elas, democraticamente.

Mas a crítica de Marx ao capitalismo nunca teve como foco regulamentações governamentais e indústrias de propriedade estatal. Isto nunca foi a sua solução para os custos, injustiças e desperdícios do capitalismo. Ao invés disso, Marx apontava e enfatizava a “estrutura de classe” da produção no capitalismo. Com isto referia-se ao modo como as empresas produtivas eram organizadas internamente: minúsculos grupos de pessoas (conselhos de administração) que se apropriavam de uma porção – o “excedente” – daquilo que os trabalhadores produziam e a empresa vendia. Marx definiu tal apropriação do excedente como “exploração”. E, como disse Marx, a exploração capitalista pode existir quer aqueles apropriadores sejam conselhos de administração corporativos (capitalismo privado) ou responsáveis estatais (capitalismo de Estado).

Marx opôs-se à exploradora estrutura de classe da produção no capitalismo nos planos político, ético e económico. Ele preferia uma alternativa comunista onde trabalhadores produtivos funcionassem como os seus próprios conselhos de administração, apropriando e distribuindo colectivamente os excedentes que produzissem. Igualdade e democracia, argumentou ele, exigiam a abolição da exploração como condição necessária para a sua realização.

O capitalismo como sistema sempre e por toda a parte atravessou fases, guinadas repetidas entre duas formas alternativas. O capitalismo privado é a forma neoliberal, “laissez-faire”: a intervenção do governo em assuntos económicos é minimizada, e os indivíduos e negócios interagem em grande medida através de trocas voluntárias no mercado. A outra forma é a estatal-intervencionista, “social-democrata”, o capitalismo do Estado Previdência: o governo administra a economia através da regulamentação daquilo que os capitalistas privados podem fazer ou, alguma vezes, até assumindo o comando das suas empresas a fim fazer com que as decisões dos negócios fiquem em linha com as decisões governamentais.

A cada poucas décadas, todo país capitalista, seja qual for destas duas formas que tenha estado em vigor, entra em sérias dificuldades económicas. Trabalhadores perdem empregos, rendimentos declinam, empresas falem, e assim por diante. Levanta-se então o clamor do “alguma coisa tem de ser feita”. Aqueles que sentem sofrimento mínimo e ganham bom dinheiro preferem deixar a forma existente de capitalismo corrigir-se por si própria. Aqueles mais feridos e que perdem dinheiro pedem mais mudanças drásticas. Quando este segundo grupo prevalece politicamente, a forma existente de capitalismo é finalizada e instalada a outra. Umas poucas décadas mais tarde o mesmo drama é representado ao contrário.

Quando um próspero capitalismo privado nos EUA chocou-se contra um muro de pedra em 1929, o país comutou para o capitalismo do Estado Previdência (welfare-state). Quando as décadas de 1960 e 1970 produziram crise naquele capitalismo do Estado Previdência, o país comutou outra vez para o capitalismo privado (neoliberalismo). Agora, depois de trinta anos de capitalismo privado globalizado provocar a proliferação de dificuldades, demasiada gente de esquerda aderiu ao coro dos que vêem como única solução uma outra guinada para capitalismo do Estado Providência. O legado de Coolidge e Hoover foi derrubado pelo coro de FDR. O legado do New Deal foi derrubado pelo coro de Ronald Reagan. O legado de Reagan-Bush pode agora ser derrubado pelo de Clinton, Obama, et alii. Tais reversões de fase entre as duas formas de capitalismo ocorrem quase por toda a parte, variando apenas com as condições e a história particular de cada país.

Como formas, o capitalismo privado e de Estado são oscilações de fase do sistema capitalista. Quando uma fase não pode resolver os seus problemas, a solução tem sido uma comutação para a outra fase. Assim, as crises de capitalismo até então evitaram provocar a solução alternativa de uma transição para fora do capitalismo. Mas aquela transição era precisamente o objectivo de Marx. Ele pretendia persuadir os trabalhadores que as oscilações entre capitalismo de Estado e privado não eram as melhores soluções para os fracassos do capitalismo, pelo menos não para os trabalhadores.

Muita gente de esquerda de hoje cataloga os terríveis resultados de 25 anos de domínio neoliberal: crises económicas e sociais agravando cada vez mais profundamente desigualdades de riqueza, rendimento e poder por todo o lado e dentro da maior parte dos países. Eles mencionam a explosão de bolhas de investimento, explosões de dívidas insustentáveis, mercados de crédito em colapso, ameaças de recessão, desmoronamento de serviços sociais, produção de mercadorias inseguras, e assim por diante. Eles propõem “soluções”: que governos – nacionais ou talvez agora supranacionais – devem ser relembrados, por um levantamento democrático, do seu próprio papel. Os governos deveriam limitar, controlar, regular ou substituir empresas capitalistas privadas no interesse do povo.

Este modo de pensar repete os erros da esquerda na década de 1930. Então, quando o capitalismo privado havia implodido na Grande Depressão, a deterioração das condições voltou a maior parte dos americanos contra as preferências do Republicano Herbert Hoover e a favor do Democrata FDR. Uma nova era de intervenção económica governamental ganhou o nome de Teoria Económica Keynesiana. Contudo, o keynesianismo do New Deal sempre manteve no lugar os conselhos de administração das corporações capitalistas que dominavam a economia dos EUA. Aqueles conselhos permaneceram como os receptores do excedente produzido pelos seus trabalhadores – os “lucros” das corporações. Eles utilizaram aqueles lucros para fazer crescer as corporações, fazer ainda mais lucros, pagar salários mais altos aos responsáveis de topo, influenciar a política, e assim por diante.

O capitalismo do Estado Previdência nos EUA agravou impostos, regulamentos e limites – e alternativas de emprego em massa – para aquelas corporações privadas. Mas ao deixar os seus conselhos de administração no lugar como receptores e distribuidores de lucros corporativos, o Estado Previdência assinou a sua própria sentença de morte. Os conselhos de administração tinham o desejo e os meios para desfazer o Estado Previdência. Custou-lhes apenas um momento mudar a opinião pública e construir um rico e poderoso movimento liderado pelos negócios a fim de alcançar seus objectivos. Na administração Reagan e desde então, potenciado por uma crise do Estado Previdência nos anos 1960 e 1970, eles tiveram êxito em mudar os EUA e além disso retroceder a uma fase do capitalismo privado a que chamamos “globalização neoliberal”.

Compreensivelmente, muitas pessoas não podem ver além das duas fases do capitalismo ou dos debates, lutas e transições entre elas. Mas a gente de esquerda que não vê mais além – que critica a globalização neoliberal e advoga um requentado keynesianismo do Estado Providência – abandonou o projecto crítico anti-capitalista de Marx. Elas tornaram-se apenas um outro coro para mais uma oscilação de retorno para a forma de capitalismo do Estado Providência.

As classes trabalhadoras precisam e merecem algo melhor do que isso, agora mais do que nunca.

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Da bolsa

Por dentro, mulher não é muito diferente de homem. Fora nas partes óbvias, em que somos convexos e elas são côncavas, e em um ou outro detalhe, somos iguais. Anatomicamente, portanto, a mulher não tem mistério para o homem. Ali fica o coração, ali o fígado, ali (onde mesmo?) o pâncreas… Igualzinho a nós. Não é verdade que elas têm glândulas secretas que a medicina ainda não se animou a examinar a fundo, como as que determinam o seu comportamento na direção de veículos automotores e em shoppings. Temos (mais ou menos) as mesmas glândulas.
Só duas partes da mulher continuam a desafiar a compreensão dos homens: sua mente e sua bolsa. Sabemos muito pouco do conteúdo de ambas e estamos constantemente nos surpreendendo com o que sai lá de dentro. E quando pedimos explicações, elas despistam.
O cérebro feminino não é biologicamente diferente, que eu saiba, do cérebro masculino e uma bolsa de mulher não deveria ser diferente de qualquer outro meio de guardar e transportar coisas, mas as surpresas se repetem. Tanto a mente quanto a bolsa femininas parecem ter acessos a mundos, mananciais, veios, supridores inacessíveis ao pensamento ou à mão do homem. De onde é que elas tiram aquilo tudo?!
É uma pergunta que nos atormenta desde aquele momento em que a Eva não só teve a idéia de comer a fruta proibida como produziu - de onde, meu Deus? - o canivete para descascá-lo e uma toalha para estender na grama, e nunca mais fomos os mesmos.
Li que um japonês inventou um aparelho que, adaptado à coleira, traduz o latido do cachorro. O cachorro late ou rosna e aparece numa telinha o que ele está tentando dizer para o seu dono. “Quero comida”, “Preciso fazer pipi”, “Troca de canal”, “Gostei do seu cabelo assim”, etc. O mercado para a invenção é enorme, só a julgar pelos donos de cachorro que conheço. Finalmente eles vão poder não apenas falar mas dialogar com seus cachorros, trocar idéias, saber o que eles pensam da vida e dos homens. Há o risco, claro, da contestação inesperada. Do dono dizer “Senta” e o cachorro responder “Contextualiza”. Mas o interpretador de cachorros chega para preencher uma profunda necessidade humana. Gênio.
De acordo com a lógica que diz que com a invenção do fogo, inventaram o piromaníaco, cada nova técnica inaugura uma nova forma de loucura.
Como a da jovem executiva, dinâmica, sem tempo a perder, chamada Jussara, que no outro dia teve o seguinte diálogo pelo seu telefone celular:
- Alô.
- Alô?
- Quem é?
- Eu.
- “Eu” quem?
- Eu quero falar com a Jussara.
- É a Jussara que está falando!
Ela jura que estava falando com ela mesma!
E novas técnicas criam novas superstições. Muita gente acredita que as câmeras fotográficas digitais não apenas capturam a alma do fotografado como a transformam em microimpulsos que sobem e formam um cinturão eletrônico em volta da Terra, misturado com o ozônio. Velhas crenças, como o perigo mortal de comer melancia com leite antes de pular na piscina, ganham vida nova. Por exemplo, misturar tequila “Subcomandante Marcos”, pimenta e Prozac antes de pular na piscina. Mulheres com silicone devem passar pelos detectores de metais dos aeroportos de costas, senão os seios podem explodir. E o botox derrete. Guardar o Viagra numa cesta com ovos frescos por uma noite e fazer o sinal da cruz antes de ingeri-lo aumentam sua eficácia. Etcetera, etcetera.

Luis F. Veríssimo - Estado de S. Paulo

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O meio ambiente em perspectiva

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, Rodolfo Salm e Danilo Pretti Di Giorgi

Ao tentarmos imaginar o que o ano de 2008 nos reserva na área ambiental, chegamos à conclusão de que os mesmos grandes temas que dominaram as pautas em 2007 permanecerão em destaque.

No campo nacional, acreditamos que as futuras obras do PAC continuarão sendo o pesadelo dos ambientalistas. Nossas demandas continuarão sendo atropeladas, e com uma violência cada vez maior, até mesmo física, à medida que o governo começar a colocar duas grandes obras em andamento: a transposição do São Francisco e as hidrelétricas do rio Madeira.

Por outro lado, com o aumento das tensões em torno da questão ambiental, o projeto de construção da usina de Belo Monte seguirá mais ou menos esquecido. As discussões sobre a obra devem manter-se frias neste ano, uma vez que todas as atenções estarão voltadas para os canteiros de obras no Madeira. Mas, amantes do rio Xingu, não se iludam. Os corruptos e tecnocratas, com o apoio da grande imprensa, continuarão mexendo os seus pauzinhos em favor desta obra famigerada. As notícias são de que a Funai dará, no início de 2008, autorização para que sigam adiante os estudos de viabilidade da construção da hidrelétrica no Xingu, e o Ibama já deu sua aprovação. Segundo o Ministério das Minas e Energia, a intenção do governo é licitar a obra em 2009. Isso pode atrasar (esperamos que assim seja), dependendo da temperatura da resistência às obras no Madeira.

Perceba o leitor que não somos contra o crescimento econômico do país (principal argumento usado para justificar as hidrelétricas). Somos contra, sim, o conceito da necessidade de crescimento contínuo, pois ele é claramente insustentável. Discordamos ainda da forma como o crescimento se dá por aqui, com pouca distribuição da riqueza gerada. Acreditamos ainda que existem diversas maneiras de fornecer a energia elétrica necessária sem ter que destruir irresponsavelmente o último grande rio amazônico em bom estado de conservação.

No caso do Velho Chico, as obras devem mesmo iniciar-se em breve, com ou sem desfecho trágico no episódio do bispo D. Cappio. No caso do Madeira também. A nossa única esperança, meio tétrica, é que os problemas ambientais com as obras da primeira usina apareçam logo. Com a sociedade tomando consciência destes problemas, ganharíamos mais munição contra a segunda usina, evitando de quebra a agonia do Xingu. Já no caso do maltratado São Francisco, difícil imaginar as conseqüências pela greve de fome do bispo. A forte religiosidade nordestina, a tradição de culto a líderes espirituais e a intensa comoção causada por eventos extremados podem trazer resultados surpreendentes.

Imaginamos que 2008 não será um bom ano para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Paralisada diante da crise ambiental que se acirra e de sua impossibilidade de contorná-la, a ministra continuará apostando no infeliz projeto de concessão de florestas públicas à gestão privada. Ao contrário do que promete, o projeto não as protege e irá submetê-las a um regime de exploração predatório, apenas mais lento que o tradicional nas frentes de ocupação da Amazônia. A Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, deve começar a ser explorada este ano. Mas, depois de alguns dias de notícias de louvor na mídia com o início das explorações, Jamari será esquecida e deixará definitivamente de ser assunto. Destaque será dado a novas áreas florestais concedidas à iniciativa privada pelo sorridente diretor do Programa Nacional de Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Tasso Azevedo.

Outra previsão sombria que fazemos é que as plantações de cana-de-açúcar continuarão a alastrar-se como uma imensa mancha verde-clara. E, a despeito de todo o falatório do governo, não ocuparão apenas terras degradadas e, tememos, começarão a invadir a Amazônia. Apesar de mais um período de redução do desmatamento - entre agosto de 2006 a julho de 2007 -, dados recentes indicam um aumento considerável na retirada de florestas desde agosto. O principal responsável parece ser o aumento nos preços das commodities agrícolas. Portanto, achamos bem provável que a tendência de queda nos índices de desmatamento por três anos seguidos reverta-se, talvez de forma expressiva, na próxima medição.

Globalmente, o efeito estufa continuará sendo o assunto de maior importância. O presidente dos Estados Unidos não deve recuar significativamente de sua posição de não aceitar a imposição de limites externos para as emissões. Por outro lado, deve crescer ainda mais o número de prefeitos, e até governadores estadunidenses, dos dois partidos, assumindo metas próprias de redução.

Para não ficarmos somente com um tom pessimista, acreditamos que o interesse pelo meio ambiente continuará crescendo na mídia e que a sociedade discutirá mais e mais estes assuntos. Tudo indica que os relatórios e informes do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC) continuarão a repercutir bastante na mídia e na sociedade. Al Gore deve continuar mantendo-se na crista da onda. Concordemos ou não com seu estilo e técnica, é inegável que ele desempenha um importante papel de divulgador de informações essenciais. À primeira vista, este aumento nas discussões parece pouco, mas foi assim que tiveram inicio os processos que culminaram em diversas conquistas sociais, como os direitos das mulheres e das minorias, os direitos trabalhistas, entre outros. Neste caso, o problema é mais embaixo, pois exigirá não só mudanças de atitude, mas de valores e de formas de pensar. Mas sentimos que as discussões cada vez mais aprofundadas são um primeiro passo.

No bloco dos países em desenvolvimento, o Brasil, como já ressaltamos, continuará recusando-se a contribuir de forma mais significativa, jogando a responsabilidade sobre os maiores emissores, que já se desenvolveram e deram melhores condições de vida a suas populações. Ao invés de usar esta oportunidade para liderar discussões sobre planos sérios de desmatamento zero e acabar com a vergonha dos nossos índices na Amazônia, seguiremos reclamando das barreiras ao etanol tupiniquim e aos subsídios dados ao etanol de milho. Como dissemos na edição retrospectiva, sua suspensão poderá nos trazer muitos problemas, que não compensarão os caraminguás que virão com as exportações de litros e mais litros de álcool. A posição brasileira contrária a aceitar metas externas de redução dos desmatamentos deve soar cada vez pior para o país, que será visto pelo mundo mais por sua insanidade no trato da Amazônia nas atuais condições e cada vez menos pela simpatia do carnaval e do futebol.

Quanto a fatos específicos, desastres naturais são, por princípio, imprevisíveis, mas é certo que haverá incêndios terríveis na seca de 2008 no Brasil. Acredita-se que, em algum ano, haverá um grande incêndio que destruirá de uma só vez grande parte da Floresta Amazônica, mas isso não deve ainda acontecer em 2008. Mas é sempre bom ficar atento à temperatura da água no Pacífico. Aquele canal navegável pelo Oceano Ártico deixará de ser notícia. A tendência é que surjam outros canais, canais melhores, de mão e contramão, e a navegação no Ártico deve melhorar cada vez mais. É possível que se torne ainda um mar tropical como Búzios, ou Angra, talvez mais para Cabo Frio, muito agradável, mas o único tolerável do planeta. Mas não exageremos no uso dos nossos dons proféticos. Isso, definitivamente, ainda não é para 2008.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Prof. Milton Santos: Pensamento de Combate

Cláudio Cordovil

Um momento de vida inteligente na televisão brasileira. A entrevista do geógrafo Milton Almeida dos Santos, exibida anos atrás no programa Roda Viva (uma produção da TV Cultura, retransmitida pela TVE), revelou a milhares de telespectadores o vigor do pensamento de um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. Professor titular da USP e considerado por seus pares um dos mais conceituados geógrafos vivos do mundo, Milton Santos quase se compara ao intelectual americano Noam Chomsky, em termos de radicalidade de sua original reflexão de resistência em tempos de “pensamento único”. Com 12 títulos de doutor honoris causa de respeitadas universidades estrangeiras, esse baiano afável é um escritor prolífico, com mais de 40 livros publicados. Homem que sempre cultivou mais discípulos do que parceiros, pelo grosso calibre de suas denúncias da cooptação de intelectuais que emudecem diante das tentações do mercado e dos riscos da globalização. Milton Santos foi o único estudioso fora do mundo anglo-saxão a receber o que pode ser considerado o Nobel da Geografia pelo conjunto de sua obra o prêmio Vantrin Lud. Durante a exibição de sua entrevista no Roda Viva, os telefones do programa não pararam de tocar. “Muitas pessoas ligaram emocionadas e entusiasmadas, vibrando e agradecendo a emissora pela transmissão. O teor das declarações do público se assemelhou ao verificado com a entrevista de Noam Chomsky”, comenta Marco Nascimento, diretor de jornalismo da TV Cultura.

# - Em entrevista no programa Roda Viva, o senhor afirmou que observamos atualmente uma capitulação dos intelectuais brasileiros diante da situação do país. Como define essa capitulação?

* A capitulação dos intelectuais é um fenômeno internacional já antigo e que se agravou com a globalização. Isso de alguma maneira perdura com a democracia de mercado de hoje. A intelectualidade brasileira se organiza através de grupos fechados que necessitam mais de fazer pressão, para sobreviver, do que de se reunir para pesquisar. Por isso tendem a se aproximar do establishment, o que reduz a sua força de pensamento, imaginação e crítica. Isso equivale a capitular. No Brasil, há exceções, mas essa síndrome precisa de uma cura urgente.

# - Em uma de suas declarações mais contundentes no programa Roda Viva, o senhor afirmou que o pobre é neste momento o único ator social no Brasil com o qual podemos aprender algo de verdadeiro. Poderia explicar?

* Em A natureza do espaço falo um pouco sobre essa idéia. As classes médias são confortáveis de um modo geral. O conforto cria dificuldades na visão do futuro. O conforto quer estender o presente que está simpático. O conforto, como a memória, é inimigo da descoberta. No caso do Brasil isso é mais grave, porque esse conforto veio com a difusão do consumo. O consumo é ele próprio um emoliente, Ele amolece. Os pobres, sobretudo os pobres urbanos, não têm o emprego, mas têm o trabalho, que é o resultado de uma descoberta cotidiana. Esse trabalho raramente é bem pago, enquanto o mundo dos objetos se amplia.

# - O senhor fala da sabedoria da escassez…

* Exatamente. Fui buscar esse conceito em Sartre, quando ele fala da escassez que joga uma pessoa contra a outra na disputa pelo que é limitado. Essa experiência da escassez é que faz a ponte entre a necessidade e o entendimento. Como a escassez sempre vai mudando, devido a aceleração contemporânea, o pobre acaba descobrindo que não vai nunca morar na Ipanema da novela, que jamais vai alcançar aquelas coisas bonitas que vê. Ele continua vendo, mas está seguro hoje de que não as alcançará. Gostaria de dizer que a classe média já começa a conhecer a experiência da escassez. E isso pode ser bom. Como a classe média, na sua formação, tem uma capacidade de codificação maior, isso vai nos levar a uma precipitação do movimento social, da produção da consciência, ainda que seja de uma maneira incompleta.

# - Pesquisa divulgada mês passado na França revelou que 72% dos franceses oscilam entre o medo e a revolta com relação ao atual modelo econômico. Acredita que a situação francesa seja muito distinta da brasileira? Como explica a aprovação popular da política econômica brasileira?

* Essa questão pode ser desdobrada em duas. No Brasil, a expansão do consumo veio com o regime autoritário e continua com a democracia de mercado. Por conseguinte, essa expansão do consumo junto a essas duas estruturas de controle faz com que a opinião pública seja amortecida. Há muito mais espaço para o consumidor, esse espaço legitimado agora com o código do consumidor, e nada para o cidadão. Dessa forma, torna-se mais fácil aceitar um mundo onde são as coisas que comandam, e não os valores.

# - O que acontece no caso do Brasil?

* Esse apego enorme às coisas faz com que a coisa mais representativa, que atualmente é o Real, a coisa que faz adquirir coisas, interfira no resultado das pesquisas favoráveis à moeda. Mas, a mesma pessoa que gosta do Real não gosta do desemprego, não gosta da insegurança. De modo que vivemos esse paradoxo que está rebaixado na consciência das pessoas. O que aparece lá em cima é o Real, a satisfação com a moeda, mas há uma infinidade de situações, que não são latentes, mas reais, embora não apareçam como sistema na consciência. Por isso temos a impressão de que o Brasil não está reagindo, mas penso que há um vulcão adormecido.

# - Viviane Forrester, em seu best seller francês intitulado O horror econômico, afirma que vivemos no meio de uma “magnífica ilusão”. “Nossos conceitos de trabalho e de desemprego, manipulados por políticos, não tem mais qualquer substância”. Ela anuncia que uma nova civilização já se iniciou e nela só uma pequena parcela da população mundial encontrará trabalho. O que pensa dessa afirmação?

* Há anos eu já afirmava que a globalização, tal como era considerada, começa por ser uma fábula. Essa fábula se tornou possível exatamente pela violência da informação. Produzem-se idéias que são impostas. Nesse sentido, o que Forrester afirma a propósito da “magnífica ilusão” me parece correto. Mas é a partir dessa ilusão e dessa fábula que são impostas fórmulas que conduzem os países em sua economia, política e relações sociais. São fábulas perversas, como essa que fazem com que não discutamos a solidariedade. Toda a discussão sobre a previdência se faz em bases contábeis e não levando em conta que a nação tem que ser solidária e todos temos de estar juntos. Todos os debates são feitos naturalizando a perversidade, através da naturalização da desigualdade social. É uma tristeza que a discussão sobrfe o desemprego se limite a uma relação mensal de números falsos.

# - Como assim?

* Vivemos uma fase de politização das estatísticas. Isso se dá de forma descarada no Brasil em todos os campos da vida social e econômica. Há uma distribuição de estatísticas de forma maciça, mas que não permite análise porque não há desagregação que conduz a uma interpretação. a apresentação da estatística já é enviesada. Não se pode atribuir às pesquisas de opinião tão disseminadas hoje em dia a qualidade de fornecer o entendimento das estruturas e processos sociais. A estatística é retrato encomendado de apenas uma parcela do social, mas não é o social. Essas pesquisas têm um papel de deformação da vida política e degradação da vida partidária. Na última campanha foi curioso ver como os candidatos decidiam ir mudando em função das pesquisas.

#- Parece que vivemos um paradoxo na era da informação: a sociedade parece cada vez mais opaca, menos decifrável. Temos mais estatísticas, mas entendemos menos a sociedade. A que atribui esse fenômeno?

* A violência da informação também se deve ao fato de que a grande indústria da comunicação é extremamente concentrada. Éconcentrada nas mesmas mãos que concentram a competitividade. Esta não tem qualquer finalidade. Até hoje não se descobriu por que as grandes empresas globais competem. Todos os dias nos defrontamos com uma interpretação já feita, mas que é simplista, ilusória e produz uma fábula. Isso gera esse efeito de opacidade. Ela é menor nos países onde a figura do cidadão pôde se cristalizar ao longo dos séculos e maior nos países onde a cidadania não se concretizou, como na África e na América Latina.

#- A globalização parece haver reduzido a influência dos mercados nacionais que constituíam um dos fundamentos do poder do Estado-nação. O que é feito de noções tão caras à geografia, como Estado, nação e território?

* Prefiro dizer que o mercado nacional é o nome fantasia do mercado global. Esse mercado global trabalha com alguns pontos do território e exige que os estados nacionais aparelhem esses pontos. As empresas globais ali se instalam. É nesses pontos privilegiados que elas produzem nacionalmente uma produção global. Mas há também o território: todo o resto utilizado pelas outras empresas e pela maioria esmagadora dos homens que não vivem sem esses território. Podemos encarar de outra maneira a questão do território, do mercado e do Estado nacional. Esse mercado global travestido de mercado nacional não tem um reflexo, nem obrigatório nem imediato, sobre a maior parte da população. Ele se amplia com o desemprego, com a fome, sem que a maior parte da população seja beneficiária, enquanto o mercado territorial é o que tem a ver com a maioria da população e acaba sendo o sustentáculo do Estado.

#- No programa Roda Viva o senhor sugeriu que o prefeito Celso Pitta está sofrendo um linchamento, que o senhor parece atribuir ao racismo. E se as denúncias se provarem verdadeiras? Acredita que sua crítica foi feita em momento oportuno?

* Na sociedade da informação em que vivemos há linchados e linchados. O caso dos precatórios mostra que há linchamentos de graus variáveis. Minha colocação tem um caráter político no sentido maior. Desejo a aceitação mais tranqüila do negro na sociedade brasileira.

# - Que dificuldades lhe trazem sua condição de intelectual negro e o tom destoante de seu pensamento no establishment acadêmico?

* Pude me manter como outsider. Em que medida ser outsider no meu caso não se deve ao fato de eu ser negro? Os prêmios são um dia e vivem no círculo que sabe deles. A minha vida de todos os dias é a de negro. como tal, mantenho com a sociedade uma relação de negro. No Brasil, ela não é das mais confortáveis.

http://www.nossosaopaulo.com.br/Reg_SP/Educacao/MiltonSantos.htm

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Xenofobia no coração da política alemã

Um governador estadual alemão obteve aplauso de seus colegas conservadores ao exigir uma repressão aos “jovens criminosos estrangeiros”. Grupos de imigrantes e rivais políticos disseram que ele está brincando com fogo em um debate que revela a xenofobia

David Crossland

Um ataque a um aposentado alemão cometido por dois jovens estrangeiros provocou pedidos dos conservadores de uma repressão aos “jovens criminosos estrangeiros” e expôs a xenofobia profundamente entrincheirada, que coloca em dúvida a capacidade do país de integrar plenamente seus 15 milhões de habitantes de origem imigrante.

O aposentado de 76 anos sofreu uma fratura no crânio quando foi espancado por um alemão de 20 anos descendente de turcos e um imigrante grego de 17 anos em 20 de dezembro, depois de pedir a eles que parassem de fumar em um trem do metrô em Munique, onde é proibido fumar.

O aposentado se recuperou após um período no hospital e lembra de como cuspiram nele e o chamaram de “alemão de merda” antes de o chutarem na cabeça. A polícia prendeu os agressores logo depois e o caso foi encerrado como um ataque covarde por parte de dois criminosos violentos com longa ficha policial.

Mas um alto membro do Partido Democrata Cristão da chanceler Angela Merkel, o premier do Estado de Hesse, Roland Koch, aproveitou o fato dos agressores não serem alemães para lançar um debate sobre os criminosos estrangeiros.

“Quanto estamos preparados para suportar de uma pequena parcela de jovens violentos, freqüentemente de origem estrangeira?” disse Koch, que está tendo dificuldade em sua campanha para conquistar um terceiro mandato na eleição estadual em 27 de janeiro, para o jornal ‘Bild Zeitung’ de circulação em massa, em uma entrevista publicada na última sexta-feira (26).

“Nós gastamos muito tempo demonstrando uma estranha tolerância sociológica por grupos que cometem violência conscientemente na condição de minorias étnicas”, ele prosseguiu.

Como se comportar em um país civilizado

“As pessoas que vivem na Alemanha devem se comportar de forma apropriada e evitar de usarem seus punhos. É assim que uma pessoa se comporta em um país civilizado”, disse Koch, aparentemente deixando implícito que o imigrante médio não é de um país tão civilizado quanto a Alemanha, que já assistiu a uma série de ataques brutais cometidos por neo-nazistas contra minorias étnicas nos últimos anos.

Koch acrescentou que a Alemanha não é um país clássico de imigrantes como o Canadá ou a Austrália. “Em nosso país nós não temos muitas culturas se unindo para formar uma nova. A Alemanha tem uma cultura cristã-ocidental há séculos. Estrangeiros que não seguirem nossas regras não pertencem a este país.”

Sua frase “nós temos jovens criminosos estrangeiros demais” virou manchete de primeira página no ‘Bild’ na sexta-feira. O jornal o elogiou em um editorial na quarta-feira, escrevendo, “pelo menos nossos políticos estão brigando por questões realmente importantes - a segurança de nossos cidadãos! O medo do crime e violência por parte de criminosos estrangeiros nos acompanha nas viagens de metrô e ônibus há muito tempo”.

Os comentários de Koch alimentaram os pedidos dos conservadores para que os criminosos “estrangeiros” sejam expulsos da Alemanha e foram repetidos por Volker Kauder, chefe do da bancada conservadora no Parlamento federal e um forte aliado de Merkel.

Kauder disse ao ‘Bild am Sonntag’ que o crime por estrangeiros é “tabu na Alemanha” há tempo demais. “Nós precisamos de campos de educação para os casos mais sérios, instituições fechadas com um conceito geral de terapia. Os estrangeiros não são nossos inimigos, mas os criminosos são - e não podemos mais aceitar seus risos zombeteiros.”

Nascido na Ale