Xenofobia no coração da política alemã
Um governador estadual alemão obteve aplauso de seus colegas conservadores ao exigir uma repressão aos “jovens criminosos estrangeiros”. Grupos de imigrantes e rivais políticos disseram que ele está brincando com fogo em um debate que revela a xenofobia
David Crossland
Um ataque a um aposentado alemão cometido por dois jovens estrangeiros provocou pedidos dos conservadores de uma repressão aos “jovens criminosos estrangeiros” e expôs a xenofobia profundamente entrincheirada, que coloca em dúvida a capacidade do país de integrar plenamente seus 15 milhões de habitantes de origem imigrante.
O aposentado de 76 anos sofreu uma fratura no crânio quando foi espancado por um alemão de 20 anos descendente de turcos e um imigrante grego de 17 anos em 20 de dezembro, depois de pedir a eles que parassem de fumar em um trem do metrô em Munique, onde é proibido fumar.
O aposentado se recuperou após um período no hospital e lembra de como cuspiram nele e o chamaram de “alemão de merda” antes de o chutarem na cabeça. A polícia prendeu os agressores logo depois e o caso foi encerrado como um ataque covarde por parte de dois criminosos violentos com longa ficha policial.
Mas um alto membro do Partido Democrata Cristão da chanceler Angela Merkel, o premier do Estado de Hesse, Roland Koch, aproveitou o fato dos agressores não serem alemães para lançar um debate sobre os criminosos estrangeiros.
“Quanto estamos preparados para suportar de uma pequena parcela de jovens violentos, freqüentemente de origem estrangeira?” disse Koch, que está tendo dificuldade em sua campanha para conquistar um terceiro mandato na eleição estadual em 27 de janeiro, para o jornal ‘Bild Zeitung’ de circulação em massa, em uma entrevista publicada na última sexta-feira (26).
“Nós gastamos muito tempo demonstrando uma estranha tolerância sociológica por grupos que cometem violência conscientemente na condição de minorias étnicas”, ele prosseguiu.
Como se comportar em um país civilizado
“As pessoas que vivem na Alemanha devem se comportar de forma apropriada e evitar de usarem seus punhos. É assim que uma pessoa se comporta em um país civilizado”, disse Koch, aparentemente deixando implícito que o imigrante médio não é de um país tão civilizado quanto a Alemanha, que já assistiu a uma série de ataques brutais cometidos por neo-nazistas contra minorias étnicas nos últimos anos.
Koch acrescentou que a Alemanha não é um país clássico de imigrantes como o Canadá ou a Austrália. “Em nosso país nós não temos muitas culturas se unindo para formar uma nova. A Alemanha tem uma cultura cristã-ocidental há séculos. Estrangeiros que não seguirem nossas regras não pertencem a este país.”
Sua frase “nós temos jovens criminosos estrangeiros demais” virou manchete de primeira página no ‘Bild’ na sexta-feira. O jornal o elogiou em um editorial na quarta-feira, escrevendo, “pelo menos nossos políticos estão brigando por questões realmente importantes - a segurança de nossos cidadãos! O medo do crime e violência por parte de criminosos estrangeiros nos acompanha nas viagens de metrô e ônibus há muito tempo”.
Os comentários de Koch alimentaram os pedidos dos conservadores para que os criminosos “estrangeiros” sejam expulsos da Alemanha e foram repetidos por Volker Kauder, chefe do da bancada conservadora no Parlamento federal e um forte aliado de Merkel.
Kauder disse ao ‘Bild am Sonntag’ que o crime por estrangeiros é “tabu na Alemanha” há tempo demais. “Nós precisamos de campos de educação para os casos mais sérios, instituições fechadas com um conceito geral de terapia. Os estrangeiros não são nossos inimigos, mas os criminosos são - e não podemos mais aceitar seus risos zombeteiros.”
Nascido na Alemanha, mas para sempre estrangeiros
Representantes das minorias étnicas disseram que os comentários de Koch revelam um obstáculo chave para a integração na Alemanha. As pessoas que vivem aqui são amplamente rotuladas como “estrangeiras” apesar de terem nascido na Alemanha, possuírem passaporte alemão e especialmente se tiverem pele escura.
Os políticos conservadores citam as estatísticas da polícia mostrando que uma alta proporção de jovens infratores é de origem imigrante. Em vez de discutir as causas da criminalidade, eles pedem para que tais infratores sejam expulsos do país.
Kenan Kolat, presidente da Comunidade Turca na Alemanha, um grupo que faz campanha pelos direitos dos imigrantes, disse que Koch estava cometendo um “incêndio político intencional”.
“Ele está ameaçando a paz social e agindo contra o interesse nacional da Alemanha, ao obstruir o futuro deste país”, disse Kolat à ‘Spiegel Online’. “É um problema fundamental o fato das pessoas nascidas neste país ainda serem consideradas estrangeiras e os políticos estão abusando dessa situação.”
“As pessoas que cometem crimes aqui são um produto desta sociedade e temos que lidar com esses problemas aqui. Enquanto continuarmos distinguindo as pessoas por sua origem, nós a exporemos a uma estigmatização”, ele prosseguiu.
“Cerca de 40% da população com menos de 25 anos será de origem étnica não-alemã em 30 anos. Se estes jovens chegarem à conclusão de que realmente não pertencem ao país e podem ser expulsos, eles não desenvolverão qualquer laço com esta nação.”
O DITIB, um grupo que representa os turcos e muçulmanos na Alemanha, disse à ‘Spiegel Online’ que “a maioria dos ‘jovens estrangeiros’ é tão pacífica ou violenta quanto os jovens alemães. A pequena diference percentual pode ser atribuída a uma falta de oportunidades iguais. Nosso conceito para integração é oportunidades iguais na educação e no local de trabalho”.
Ganhando votos com ataques à imigração
Criticar a imigração pode ser um tema eleitoral vencedor na Alemanha. Koch já explorou com sucesso o tema, vencendo uma eleição estadual em 1999 após lançar uma petição contra os planos do governo de conceder uma dupla cidadania para os cidadãos estrangeiros que vivem na Alemanha.
O atual premier conservador da Renânia do Norte-Vestfália, Jürgen Rüttgers, lançou uma campanha em 2000 contra o proposto visto permanente para engenheiros de software indianos. O slogan de sua campanha para dar preferência ao talento doméstico em vez de trabalhadores estrangeiros qualificados foi “Kinder Statt Inder” -”Crianças em vez de indianos”. Em muitos outros países ocidentais, o uso de um slogan como este por um político proeminente representaria o fim de sua carreira. Mas Rüttgers agora comanda o Estado mais populoso da Alemanha.
A própria Merkel sugeriu em um discurso em um encontro do partido, no mês passado, que os minaretes das mesquitas não devem ser mais altos que as torres das igrejas, após uma resistência local em várias cidades alemãs à construção de novas mesquitas.
Há meio século, a Alemanha convidou centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros da Turquia e Itália. Eles ajudaram a reconstruir o país após a guerra. Muitos deles permaneceram. Pessoas com origem imigrante correspondem a pouco menos de 20% da população. Mas os imigrantes estão notadamente ausentes no funcionalismo público, polícia e no comando corporativo. Com poucas exceções, eles não estão presentes na apresentação de noticiários e na mídia.
Na leste da Alemanha, o Partido Nacional Democrata anti-imigração conquistou votos suficientes para ingressar no legislativo de dois dos cinco Estados. Pessoas que fazem campanha contra a extrema direita alertaram que grandes partes do antigo leste comunista são áreas cujo acesso é na prática proibido para qualquer um que não tenha aparência alemã.
“Especialmente diante do crescente extremismo de direita, do anti-semitismo e da crescente hostilidade contra o Islã na Alemanha e em outros lugares, já é hora de um trabalho visando à igualdade para todos os cidadãos na Alemanha”, disse o DITIB. “Nós estamos preocupados com as recentes declarações políticas e acreditamos que isto não fará nada para enfraquecer os extremistas.”
Social-democratas atacam o “populismo brutal”
Os social-democratas de centro-esquerda atacaram os comentários de Koch, com o vice-chanceler Frank-Walter Steinmeier o acusando do “populismo mais brutal”. A ministra da Justiça, Brigitte Zypries, membro do Partido Social-Democrata, disse que as leis existentes para combate à criminalidade juvenil são duras o bastante.
Mas Merkel evitou criticar Koch, ciente das pesquisas de opinião que mostram que ele pode perder Hesse em 27 de janeiro. Em vez disso, seu porta-voz, Ullrich Wilhelm, declarou que ela quer um debate sobre punições mais duras para os jovens infratores.
“Nós esperávamos por uma intervenção de Merkel”, disse Kolat. “Ninguém deve ser autorizado a colocar em risco a paz social desta forma e não precisamos desse populismo. Ao dizer que a Alemanha não é um país de imigração, Koch simplesmente ignora os fatos”, disse Kolat.
Enquanto prossegue o debate sobre os “criminosos estrangeiros”, os pedidos por uma ação mais forte para impedir os ataques realizados por jovens de extrema direita contra os imigrantes perderam força após alguns ataques de neo-nazistas amplamente noticiados no ano passado.
Pouca atenção foi dada na imprensa ao ataque realizado por 15 jovens de extrema direita contra uma família afegã de cinco pessoas em Lichtenberg, um distrito de Berlim, na Véspera de Ano Novo. Os afegãos estavam acendendo fogos quando a gangue os atacou com paus, mas conseguiram fugir para seu apartamento para comemorar a chegada de um feliz Ano Novo na Alemanha.
Der Spiegel
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