Arquivo de 8 de Fevereiro de 2008

Domínio militar é tragédia paquistanesa

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. A análise é de Tariq Ali.

Tariq Ali

Mesmo aqueles dentre nós que criticavam severamente o comportamento de Benazir Bhutto e as políticas que ela adotou quando estava no poder e depois de perdê-lo se sentem atônitos e enraivecidos diante de sua morte. Indignação e medo tomam o país uma vez mais. Foi essa estranha coexistência entre despotismo militar e anarquia que gerou as condições que resultaram no assassinato de Benazir.

No passado, o governo militar tinha por objetivo preservar a ordem. Mas isso deixou de ser verdade. Hoje, o domínio militar cria desordem e destrói o domínio da lei. Que outra explicação poderíamos encontrar para a demissão do presidente e de oito outros juízes da Suprema Corte paquistanesa por terem tentado sujeitar a polícia e os serviços de informações aos ditames da lei? Os substitutos não têm firmeza moral para tomar providência alguma, quanto mais conduzir a investigação sobre os delitos das agências, a fim de encorajar a revelação da verdade por trás do assassinato cuidadosamente organizado de uma importante líder política.

De que maneira o Paquistão seria outra coisa que não uma conflagração de desespero hoje? Presume-se que os assassinos sejam jihadistas fanáticos. Pode ser verdade, mas agiram por conta própria?

EUA e coragem
Benazir, segundo fontes próximas a ela, sentiu-se tentada a boicotar as falsas eleições, mas não teve coragem política de desafiar Washington. Tinha muita coragem física, e recusava-se a ceder às ameaças de seus oponentes locais. Bhutto estava discursando em um ato em Liaquat Bagh. É um espaço batizado em homenagem ao premiê que formou o primeiro governo paquistanês, Liaquat Ali Khan, assassinado por um atirador em 1953. O matador foi imediatamente abatido a tiros por ordem de um policial envolvido no complô.

Não muito longe dali, existia uma estrutura da era colonial que servia de prisão aos militantes nacionalistas. Era a prisão de Rawalpindi, o local em que Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir, foi executado em 1979.

O tirano militar responsável por seu assassinato fez desaparecer o lugar da execução. A morte de Zukfikar Bhutto envenenou o relacionamento entre o seu Partido do Povo do Paquistão e o Exército; ativistas do partido foram torturados, humilhados e, ocasionalmente, mortos.

A turbulenta história do Paquistão, como resultado de contínuo domínio militar e de alianças internacionais impopulares, agora apresenta sérias escolhas à elite governante, que parece não ter qualquer objetivo positivo. A maioria esmagadora do país desaprova a política externa. O povo também se sente irritado pela falta de uma política doméstica séria, se excetuarmos os esforços para enriquecer ainda mais uma elite insensível, cujas fileiras incluem as Forças Armadas, superdimensionadas e parasitárias -as mesmas que assistem, impotentes, ao assassinato de líderes políticos.

Benazir foi atingida por tiros e logo houve uma explosão. Os assassinos garantiram duplamente a operação, dessa vez. Queriam-na morta. Agora, é impossível a realização de uma eleição, ainda que fraudulenta. O pleito terá de ser adiado e as Forças Armadas estão contemplando a imposição de um novo período de domínio militar direto caso a situação se agrave, o que pode facilmente ocorrer.

O assassinato representa uma tragédia multidimensional em um país que está na estrada para novas tragédias. Há despenhadeiros e cataratas à frente. E há a tragédia pessoal. A família Bhutto perdeu mais um membro. Pai, dois filhos e agora a filha.

Morte do pai
Fui apresentado a Benazir na casa de seu pai, em Karachi, quando ela era uma adolescente que só queria se divertir, e voltei a encontrá-la mais tarde, em Oxford. A política não era sua inclinação natural, e ela desejava ser diplomata, mas a história e suas tragédias pessoais a conduziram em outra direção. A morte de seu pai a transformou. Ela tornou-se uma pessoa nova, determinada a enfrentar o ditador militar daquela era.

Estava instalada em um pequeno apartamento em Londres, no qual discutíamos o futuro do país. Ela concordava quanto à necessidade de uma reforma agrária, grandes programas educativos e uma política externa independente, como passos cruciais para salvar o país dos abutres que estavam à espreita, com ou sem uniforme. Sua base eleitoral eram os pobres, e ela se orgulhava disso. Mas Benazir mudou de novo, ao se tornar primeira-ministra.

No início de seu governo costumávamos discutir, e ela dizia que o mundo havia mudado. Ela não podia se colocar ‘’do lado errado'’ da história. E, como outros, fez as pazes com Washington. Foi isso que a levou, por fim, a fechar um acordo com Musharraf e voltar ao país. Em diversas ocasiões ela me disse que não temia a morte. Era um dos perigos inerentes da vida política paquistanesa.

É difícil imaginar que algo de bom possa surgir dessa tragédia, mas existe uma possibilidade. O Paquistão precisa desesperadamente de um partido político que fale em nome das necessidades sociais da maioria de seu povo. O Partido do Povo, fundado por Zulfikar Ali Bhutto, foi criado pelos ativistas do único movimento popular de massa que o país já viu: estudantes, camponeses e trabalhadores que lutaram durante três meses, em1968/9, pela derrubada do primeiro ditador militar do país. Os militantes consideravam a organização como o seu partido, e o sentimento persiste ainda hoje em determinadas áreas do país.

A morte horrível de Benazir deveria fazer com que seus colegas parem e reflitam. Depender de uma pessoa ou família talvez seja ocasionalmente necessário, mas isso representa uma fraqueza estrutural, e não uma vantagem para uma organização política.

O Partido do Povo precisa ser recriado como organização moderna e democrática, aberta ao debate e discussão honestos, defendendo os direitos sociais e humanos, por meio da união dos muitos grupos e indivíduos paquistaneses dispersos que estão desesperados por qualquer opção de governo minimamente decente e que apresente propostas concretas para estabilizar o Afeganistão, ocupado e dilacerado pela guerra. Isso pode e deve ser feito. Não deveríamos solicitar novos sacrifícios à família Bhutto.

Carta Maior
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Brega para além das linhas tupiniquins

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Entrevista com Jair Krische sobre operação condor

‘Quem inaugurou a Operação Condor, quando sequer havia esse nome, foi o Brasil’. Entrevista especial com Jair Krischke

Depois de a Justiça da Itália determinar a prisão preventiva de 146 pessoas da América Latina, incluindo 13 brasileiros, em função do desaparecimento de dois italianos em 1980, durante a ditadura militar, a discussão sobre a existência da Operação Condor voltou à tona. Por mais que o governo não oficialize, as provas estão aí: o Brasil não apenas participou, mas foi quem coordenou a atividade. Além disso, uma das grandes lutas é para que o Brasil abra os arquivos da ditadura, pois todos os países que passaram por esse período político já o fizeram. Para Jair Krischke, ativista dos direitos humanos, “quem inaugurou a Operação Condor, quando sequer havia esse nome, foi o Brasil”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone, Krischke falou sobre o desenrolar desse processo movido pela Itália, sobre os arquivos que continuam fechados, a influência dos Estados Unidos em relação à Operação Condor e sobre os direitos humanos no Brasil.

“Isto é uma exigência da democracia. Não se pode imaginar uma democracia sólida no Brasil, sem que este período seja examinado, sem que a sociedade brasileira saiba quem fez e o que fez, quem foi o responsável e por qual ato. Isto é fundamental para a democracia. Do que serve essa democracia se ela é incapaz de revolver o seu passado e colocar as vísceras das suas misérias e das suas barbáries à mostra, para que a sociedade conheça? Sem resolver esse problema, nossa democracia será sempre precária”, afirmou.

Jair Krischke é graduado em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como ativista dos direitos humanos no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai. Em 1979, ele fundou o Movimento de Justiça e Direitos Humanos (a principal Organização Não-Governamental ligada aos Direitos Humanos da Região Sul) e o Comitê de Solidariedade com o Povo Chileno.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando todos os países que passaram por uma ditadura militar já abriram seus arquivos relacionados a este período, o Brasil é o único que se recusa a mexer em tais documentos e, por isso, é acusado de obstruir essa apuração. Como é esse trabalho de resgate histórico de uma época tão sofrida e da qual é tão difícil de se recolher informações?

Jair Krischke – Eu chamo a atenção para o seguinte: o presidente Lula, em quem depositávamos muita esperança, até agora não recebeu os familiares dos mortos e desaparecidos. Quase no final do ano passado, houve uma cerimônia de lançamento de um livro que relata os trabalhos da Comissão de Mortes e Desaparecidos. Para esta cerimônia, familiares foram convidados. Mas não para serem recebidos formalmente pelo presidente, para ele dar uma atenção a estes reclames. Pelo contrário, os arquivos continuam intactos e o governo em silêncio. E isso é tão interessante e desolador que há uma decisão judicial, com bastante tempo, que manda o Exército abrir os arquivos referentes ao Araguaia. E, para surpresa nossa, o presidente Lula determinou à Advocacia-Geral da União que recorresse.

O recurso foi feito, mas perdido. Foi conduzido até o Supremo que determinou a manutenção de uma primeira decisão de abertura, e, até agora, o Governo Federal não cumpriu uma decisão judicial, que é simples e singela, a de abrir os arquivos do caso específico da Guerrilha do Araguaia. O Brasil, que foi o exportador da doutrina da Segurança Nacional para todos os seus vizinhos, que treinou e capacitou os repressores na arte da tortura e do interrrogatório, resiste olimpicamente a examinar este período. No Uruguai, neste exato momento em que nós estamos conversando, temos na prisão um ex-presidente da democracia, um ex-presidente da ditadura, um ex-ministro de Relações Exteriores, junto com vários oficiais do exército. Na Argentina, outros generais e coronéis estão presos. No Chile, é a mesma coisa. No Brasil, até agora, nem o Cabo da Guarda foi molestado pela Justiça brasileira. Com essa decisão da Justiça italiana, houve aqui um “frisson”. Sim, eles terão que prestar contas à Justiça italiana, porque é assim que a humanidade deve proceder. Não andamos todos estes séculos de civilização para chegar a este ponto de tapar, de esconder crimes bárbaros. Não se trata de vinganças, mas, sim da responsabilidade que o Estado tem. E por isso nós cobramos do Estado.

IHU On-Line – O que implica o fato de o Governo ainda não ter aberto esses arquivos?

Jair Krischke – Faço minhas as palavras do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, César Brito, que diz solenemente: há muito já vi o Brasil mostrar as feridas não cicatrizadas de nossa memória. E essa recusa sistemática do Estado brasileiro em pôr a limpo o que se passou no período da repressão, agora, com essa decisão da Justiça italiana, nos traz o constrangimento de uma censura externa para a qual nós não temos defesa moral. O Brasil tem se negado a fazer e, por isso, agora “paga um mico” internacional, de ver o que deveria ter sido feito aqui ser exigido fora do país.

IHU On-Line – A Operação Condor foi uma idéia brasileira?

Jair Krischke – Quem inaugurou a Operação Condor, quando sequer havia esse nome, foi o Brasil. O país a praticou na Argentina nos anos 1970, 1972, 1974, quando este país ainda vivia a democracia. O golpe na Argentina foi em março de 1976. E a reunião que criou a Operação Condor foi celebrada no final de novembro, em Santiago, no Chile. Então, quem tinha a experiência e a prática? O Brasil tinha praticado isso e, quando passou a ser chamada de Operação Condor, teve uma presença muito discreta. Eu costumo dizer que os militares brasileiros sempre tiveram a cautela de não deixar impressões digitais. Eles praticavam, faziam, sim, mas tinham cautela para não deixar vestígios. Mas volto a frisar: o Brasil treinou os agentes chilenos, uruguaios, argentinos e paraguaios, isto é, teve influência nos golpes militares.

O embaixador brasileiro de Santiago do Chile, naquele momento, Câmara Canto, era considerado o quinto homem da junta militar, dada a importância dele. No estádio nacional, onde centenas de milhares de presos eram submetidos às torturas e aos vexames, se encontravam brasileiros orientando a tortura e os interrogatórios. E existem testemunhas disso. Por tudo isso, o Brasil teve, sim, um papel protagônico, especialmente em razão dessa cautela de não deixarem as impressões digitais. Eu gosto muito de lembrar aquele filme Estado de sítio, de Costa-Gravas, em que há uma cena muito interessante. Nela, aparece um avião Varig baixando no aeroporto de Carrasco. O avião estaciona e dele são retiradas caixas que sugerem conter aparelhos de tortura. Na cena seguinte, aparece aquele estadunidense que veio ensinar tortura no Brasil, que andou por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, treinando as nossas polícias e depois foi para o Uruguai. Ele aparece dando uma aula de tortura, e, na parede ao fundo, uma bandeira do Brasil e uma do Uruguai. É claro que isso não é casualidade. O cineasta sabia o que estava fazendo.

IHU On-Line – Qual é a influência que os Estados Unidos tiveram nessa idéia da Operação?

Jair Krischke – Essa intervenção estadunidense é muito forte. Nós não podemos esquecer que todos os ditadores, estes que lideraram a repressão, em toda a nossa América Latina, foram oficiais treinados na Escola das Américas, que ficava no canal do Panamá. Mais recentemente, quando o canal do Panamá foi devolvido ao governo panamenho, esta Escola das Américas foi transferida para território estadunidense, onde ainda hoje é freqüentada por militares aqui da América Latina, inclusive, por brasileiros.

A história dos facínoras deste período negro, um período recente, passa pela Escola das Américas. E, mais ainda, podemos criticar os Estados Unidos por “n” razões que, certamente, serão verdadeiras. Mas eles lá cumprem a Lei. Estou me referindo à Lei de classificação e desclassificação de documentos. E aqui no Brasil se fez uma cópia, afinal a Lei brasileira que rege a matéria é uma cópia da Lei estadunidense. Essa Lei diz que quem pode classificar um documento como ultra-secreto é o presidente da República. Quem pode classificar um documento como secreto é o Ministro de Estado. Desse modo, se tem a hierarquia e quem pode classificar. E a Lei diz também que um documento ultra-secreto é mantido em sigilo durante 50 anos, renováveis por outros 50. Aqui no Brasil, esses documentos, que deveriam estar à disposição, já passaram e ultrapassaram este período, e o Estado brasileiro não cumpre a Lei. Os Estados Unidos cumprem. E, como cumprem, nós podemos conhecer o que aconteceu com os documentos norte-americanos. Deles, há um conjunto fantástico, quando o então presidente General Médici vai a Washington visitar Richard Nixon para tratar de uma intervenção brasileira em um processo eleitoral uruguaio. Isso porque o Brasil temia, assim como os Estados Unidos, que, na Revolução Uruguaia, fosse eleito o General Liber Seregni, pela Frente Ampla. Havia uma grande reunião de partidos políticos de centro e de esquerda. Então, como isso era inaceitável para o Brasil, ter ao lado um país com uma outra concepção ideológica, o General Médici foi a Washington tratar da interferência brasileira neste processo eleitoral. Inclusive, se Seiren fosse o vencedor, o Brasil colocaria em prática a Operação 30 horas; em 30 horas, o Brasil invadiria o Uruguai e ocuparia o país todo. Trata-se de uma verdade histórica a que temos acesso nos documentos norte-americanos.

IHU On-Line – A Itália entrou com um processo contra o Brasil para julgar os seus desaparecidos como vítimas da Operação Condor. No que consistirá este processo?

Jair Krischke – O processo não é contra o Brasil, e sim contra brasileiros que praticaram crimes. Neste primeiro momento, é a Itália. Já tenho notícias de que a Espanha deverá fazer o mesmo. Por que a Itália toma esta atitude? Por que aqui no Brasil desapareceram dois cidadãos ítalo-argentinos, que tinham também a nacionalidade italiana. E a Lei italiana entende que quando um cidadão italiano é vítima de um crime político como esse, pois a motivação era política, o Estado italiano também é ofendido. Então, tomou-se esta providência de processar os autores. E o processo seguirá. O Brasil não tem cooperado. Mas estas pessoas serão julgadas, mesmo à revelia, e, fatalmente, condenadas. Já neste momento, estes que estão denunciados não podem sair do Brasil. Se colocarem o pé fora do Brasil, serão presos pela Interpol e levados para a Itália, para responder a um processo. Em março de 2007, duas figuras expoentes da repressão argentina foram condenadas. Uma foi o famoso capitão argentino conhecido como o “Anjo Loiro”, porque ele infiltrou-se numa Igreja onde as freiras se reuniam solidárias aos que eram vítimas das ditaduras. O Anjo Loiro sinalizava quais as madres que deveriam ser presas e assassinadas quando as beijava. Aquela madre que o Anjo Loiro beijava, quando terminava a reunião, ao dirigirem-se às suas casas eram presas, torturadas, assassinadas e desaparecidas. Ao lado deste, foi condenado um capitão de navio da armada argentina, Jorge Acosta. Estes dois foram, em março de 2007, condenados por esta mesma Justiça italiana à prisão perpétua. A Itália julgará, e isto é inevitável.

IHU On-Line – De que forma as pessoas que operaram dentro desta Operação Condor, ou a família dos que trabalharam na Operação, devem responder a estes processos?

Jair Krischke – Muito tem se falado: “ah, mas tem gente aí que está morta”. Mas também é réu neste processo o General Pinochet, por exemplo. Eu costumo dizer que aqui no Brasil a nossa história é composta só por bonzinhos. Nós não temos os mal-feitores na nossa história. A justiça italiana não quer saber efetivamente que cometeu o delito, o crime, e sim da cadeia de comando, quem comandava e a responsabilidade que tinha. Então, isto irá para a história. Tal sanção moral tem essa importância.

IHU On-Line – Como o Brasil pode se beneficiar abrindo esses arquivos da ditadura militar?

Jair Krischke – Isto é uma exigência da democracia. Não se pode imaginar uma democracia sólida no Brasil, sem que este período seja examinado, sem que a sociedade brasileira saiba quem fez e o que fez, quem foi o responsável e por qual ato. Isto é fundamental para a democracia. Do que serve essa democracia se ela é incapaz de revolver o seu passado e colocar as vísceras das suas misérias e das suas barbáries à mostra, para que a sociedade conheça? Sem resolver esse problema, nossa democracia será sempre precária. Isto é fundamental para um país civilizado e que quer marchar na fenda da democracia. Rever o seu passado e saber o que aconteceu é muito importante. Com esse episódio da Itália, eu tenho visto muitos militares falarem da anistia: “Ah, mas a anistia…”. Só que os dois crimes que a Itália quer investigar aconteceram depois da anistia. A Lei da Anistia é de 28 de agosto de 1979 e estes dois crimes cometidos são datados de 12 de março de 1980 e 26 de junho de 1980. Portanto, estão absolutamente à parte da anistia nem esta poderá salvá-los.

IHU On-Line – Em sua opinião, por que nomes importantes do atual governo, como os ministros Tarso Genro e Nelson Jobim, preferem manter fechados os arquivos da ditadura militar e descartam a possibilidade de extradição dos brasileiros acusados de tortura?

Jair Krischke – Em razão da Constituição Brasileira, é claro. Ela diz que o brasileiro nato não pode ser extraditado. E eu aplaudo essa postura, mas o Brasil é obrigado a julgá-los. O ministro Nelson Jobim não foi um homem que enfrentou a ditadura. Ele não tem absolutamente nenhum um papel, mesmo que menor, na resistência à ditadura. Tarso Genro, sim, tem uma história de resistência. Mas o ministro Nelson Jobim já foi presidente do Supremo, portanto ele tem a obrigação de saber que a anistia não alcança essas pessoas e tem dito solenemente que esses crimes estão prescritos, o que é inverídico. Quando um ministro diz isso, ele está tomando uma posição de um inculto, coisa que não confere com a realidade. Ele sabe perfeitamente que os crimes são de desaparição, que é um crime continuado, portanto é um crime passível, sim, do exame pela justiça brasileira e seus autores, e a responsabilização dos mesmos. Agora, a atitude do ministro Tarso Genro me causa um espanto, mesmo que agora, recentemente, ele já tenha mudado um pouco o discurso. Essa mudança de discurso certamente é porque lá na Europa, onde ele esteve recentemente, existe em vigência um entendimento jurídico mais ou menos uniforme sobre este tema do qual ele já tomou consciência e, por isso, está mudando seu discurso. Espero que mude completamente.

IHU On-Line – Recentemente, um ex-militar pela primeira vez declarou que o Brasil fez parte da Operação Condor. Que frestas essa informação abre no país, que afirma não ter participado desta atividade?

Jair Krischke – Eu diria que existe uma farta documentação que evidencia que sim, mas agora certamente você se refere a uma sentença da justiça argentina do dia 18 de dezembro de 2007. Eu estava em Buenos Aires porque fui testemunha nesse processo. Foram condenados seis oficiais do exército argentino, inclusive um ex-comandante e chefe, mais um policial federal argentino. Eles foram condenados a 25 anos de prisão. Testemunharam várias pessoas e um deles disse solenemente: “Nós tínhamos, no Brasil, duas bases de operação. Uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. E tínhamos uma terceira base em Paso de los Libres, que é território argentino, mas era só cruzar a ponte, portanto copa franca”. Há um outro depoente, que se chama Antonio Erminio Simon, coronel do exército argentino, um dos condenados a 25 anos de prisão, que diz solenemente que comandou o serviço de inteligência sediado em Paso de los Libres e que esse serviço era vinculado ao estado maior do exército argentino. Por outro lado, as operações e as ordens de batalha estavam vinculadas ao Comando do Terceiro Exército Brasileiro, que hoje chama-se Comando Militar do Sul e que tem sede em Porto Alegre, com abrangência no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Isto está no processo. É depoimento de um oficial do exército argentino que chefiou o serviço de inteligência naquela região.

IHU On-Line – Que avaliação você faz em relação à promoção dos direitos humanos no país?

Jair Krischke – Já há avanços. Existe uma consciência bastante maior, mas mesmo assim precária. Ainda aqui no Brasil não se entendeu claramente que violar os direitos humanos não é apenas cometer tortura ou agressão. Quando eu digo Estado, estou falando da União Federal, que inclui os estados federativos e os municípios, que sonega educação aos seus filhos, quando desprotege a infância, quando não cuida da velhice e quando deixa a saúde pública em estado de miséria. Esse Estado viola os direitos humanos brasileiros, não oferecendo proteção às pessoas em relação à violência que está disseminada no Brasil até nos pequenos municípios. O crime é algo que está socializado, ou seja, todas as classes sociais estão expostas a essa violência e os Estado não as protege. Isto causa uma situação muito complicada, frente, por exemplo, ao desespero das pessoas. Por elas se sentirem inseguras, se faz um filme chamado Tropa de Elite, que exibe cenas de policiais torturando uma vítima. Quando isso acontece, a platéia aplaude. Eu vejo que também nós temos, em termos de direitos humanos no Brasil, uma sociedade enferma, que está doente. Ela não pode aplaudir, mas aplaude pelo seu desespero. Então, nós avançamos bastante, mas ainda estamos muito longe daquilo que seria minimamente o aceitável. Isto é um compromisso de todos. A questão dos direitos humanos passa por uma consciência coletiva. Todos devemos entender que os direitos humanos são importantes e fundamentais, porque eles envolvem regras de convívio social.

IHU On-Line

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Livrarias em alta; bancas em baixa

No mercado brasileiro, caem dramaticamente as vendas dos gibis nos jornaleiros. A questão: como se formará o futuro público adulto dos álbuns?

Gonçalo Jr.

Quando o Brasil vivia sob a ditadura militar na década de 1970, dizia-se que as histórias em quadrinhos tinham um papel importante no processo de alienação das massas. Assim como os filmes de pornochanchadas, o gibi distraía, tirava a atenção dos problemas do país nas horas de lazer de leitores. Nunca se vendeu tanto. Tio Patinhas, da Editora Abril, tirava mais de 500 mil exemplares por mês. O Pato Donald, perto de 350 mil. Hoje, esses mesmos títulos não passam de 30 mil por edição. Há cinco anos, Maurício de Souza somava três milhões de revistas por mês. Em 2007, caiu a um terço. Os super-heróis, que circulavam com até 150 mil exemplares por mês na década de 1980, sobrevivem com 20 mil.

Por que, então, os jornais e as revistas falam tanto de quadrinhos, destacam lançamentos em suas páginas de livros? Por que tantos sites de informação ou de culto aos artistas? As histórias em quadrinhos vivem no país atualmente duas realidades bem distintas. Uma, a das livrarias. Outra, a das bancas de jornal. Dois mundos distantes em que poucas pessoas freqüentam ambos. O primeiro nunca esteve tão bem, em franca expansão. O segundo passa por sua maior crise desde o início da indústria dos gibis no país, em 1934, quando o editor Adolfo Aizen lançou o Suplemento Infantil.

Se no passado existiram grandes editoras como Brasil-América (Aizen), O Cruzeiro (Assis Chateaubriand), RGE/Globo (Roberto Marinho) e Abril (Victor Civita), somente as duas últimas continuam em atividade, porém distantes da expressividade que tiveram até os anos de 1980. As três maiores em atividade nas bancas têm menos de dez anos: Conrad, especializada em mangás (quadrinhos japoneses); Mythos, que se dedica principalmente a faroeste, e a multinacional italiana Panini, que detém os direitos dos super-heróis Marvel e DC e acabou de adquirir o passe de Maurício de Souza com a Turma da Mônica, que ficou quase 20 anos na Globo.

Assim como em outros países, os pontos especializados em quadrinhos e livrarias fazem a festa de quem tem poder aquisitivo para comprar álbuns de luxo, com capa dura e impresso em papel especial. Algumas editoras vivem exclusivamente desse segmento, como a Ópera Graphica e a Devir - a Conrad também é forte no setor. A Ópera é especializada em livros teóricos - impressos em formato “gigante” e capa especial - e no resgate de quadrinhos clássicos, além de ter recuperado nos últimos anos autores brasileiros que estavam esquecidos. Com atuação nos mercados de Portugal, Espanha e Itália, a brasileira Devir publica o que se poderia chamar de o melhor da produção independente norte-americana, além de uma linha de autores nacionais de destaque - Angeli, Laerte, Fernando Gonsales, Lourenço Mutarelli e Júlio Shimamoto, dentre outros. Linha parecida é a da Pixel e da HQManiacs.

Os chamados quadrinhos para livraria também têm atraído as grandes editoras de livros em geral. Companhia das Letras, Jorge Zahar, Ediouro e Rocco são algumas das que já dispõem de um catálogo razoável de lançamentos. A Companhia das Letras publica, no momento, a série de 24 volumes de As aventuras de Tintin, do belga Hergé, e acaba de mandar para as livrarias o quarto volume de Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi. Outros autores de seu elenco são os cultuados Will Eisner e Art Spiegelman. O otimismo do mercado trouxe de volta a gaúcha L&PM, que ficou conhecida na década de 1980 pela coleção com mais de cem volumes em formato álbum com clássicos dos quadrinhos norte-americanos, europeus e brasileiros. A série Pocket já soma mais de 30 títulos.

A crise nos quadrinhos de banca tem mais que ver com o problema de criatividade, que afeta tanto o universo dos super-heróis quanto o das revistas infantis nos últimos 15 anos. E está menos relacionada a novas mídias como internet, games, desenhos animados, DVD, RPG etc., ao contrário do que afirmam alguns estudiosos. Nesse sentido, existe um descompasso entre o mercado de quadrinhos e as versões dos super-heróis no cinema - que não conseguem estimular a entrada de novos leitores.
No centro do debate, um ponto parece fundamental: não se cria leitor de quadrinhos quando adulto. O consumidor de gibis adquire o hábito na infância e o preserva quando cresce. Pelo menos assim acontece com a maioria. Se o segmento de banca não pára de encolher, quem consumirá, em longo prazo, os quadrinhos das livrarias? Essa é a discussão que parece imediata.

Revista Cult
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PAC: DESACELERAÇÃO DO CRESCIMENTO E VULNERABILIDADE EXTERNA

Reinaldo Gonçalves

Professor titular de Economia UFRJ

A desaceleração do crescimento econômico brasileiro é a evidência relevante no momento em que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) completa um ano. Frente ao crescimento do PIB previsto de 5,2% em 2007, as projeções divulgadas pelo Banco Central apontam para a mediana de 4,5% em 2008 e 4,0% em 2009 ( Ver Tabela 1, cuja fonte é Focus, Banco Central, http://www.focus 18 jan 2008). Estas taxas são inferiores à taxa de 5,0% que consta no PAC. Desta forma, após um ano de PAC, no lugar da aceleração do crescimento, o que se observa é exatamente o oposto. Há, assim, a interrupção do miniciclo de otimismo que surgiu no segundo trimestre de 2007, quando houve aceleração do crescimento econômico. E, o Brasil continua “andando para trás” quando se considera o resto do mundo. A projeção do FMI de crescimento da economia mundial é de 4,8% em 2008, enquanto os países em desenvolvimento devem crescer 7,4% (Ver Tabela 2). Estas previsões supõem o macrocenário global de “aterrissagem suave” controlado pelas políticas fiscal e monetária dos Estados Unidos.

O primeiro aniversário do PAC envolve não somente a desaceleração do crescimento econômico e o atraso relativo do país, como também a piora nos principais indicadores macroeconômicos. Ainda segundo as previsões do Relatório Focus do Banco Central de 18 de janeiro de 2008 mostradas na Tabela 1, o superávit da balança comercial deve cair de US$ 40 bilhões em 2007 para US$ 30 bilhões em 2008 e US$ 26 bilhões em 2009, enquanto o superávit da conta corrente de US$ 5 bilhões em 2007 se transformará em déficit de US$ 5 bilhões em 2008 e déficit de US$ 11 bilhões em 2009. A pressão inflacionária de 2007 (IGP-M de 7,8% e IPCA de 4,5%) deve continuar em 2008, com taxas de inflação maiores do que as taxas de 2006.

A desaceleração do crescimento econômico e a continuação do atraso relativo tornam-se fatores ainda mais relevantes quando fica cada vez mais clara a reversão da fase ascendente do ciclo econômico internacional iniciado em 2003. A questão central é que as maiores incertezas críticas em relação ao futuro da economia brasileira resultam tanto da reversão do ciclo internacional como dos erros e equívocos das estratégias e políticas econômicas do Governo Lula. O desempenho medíocre do PAC no seu primeiro ano ilustra claramente alguns destes equívocos e erros.

Orientado para a expansão dos investimentos em infra-estrutura no período 2007-10, o PAC contém medidas de expansão dos gastos de investimento do governo federal, compromissos de investimento de empresas estatais, medidas de estímulo à expansão do crédito e de desoneração fiscal, medidas focadas na melhora do ambiente de negócios, e diretrizes e parâmetros macroeconômicos. O documento lançado pelo CORECON-RJ em 28 de maio de 2007 (Corecon-rj/ced/01-07) apresenta análise crítica e abrangente do PAC, com suas limitações e inconsistências.

No primeiro ano do PAC os fatos a destacar são os seguintes:

ERROS DE CONCEPÇÃO

  1. O PAC não é um plano de desenvolvimento e sim uma lista ad hoc de projetos. Esta lista carece de seriedade quando se considera, por exemplo, que o megapoço de petróleo e gás (Júpiter) anunciado pela Petrobrás no dia 21 de janeiro de 2008, foi incluído no PAC apresentado no dia seguinte. O mesmo aconteceu com o megapoço de Tupi anunciado em novembro de 2007 quando aparecem os sinais evidentes de crise de abastecimento de gás natural. O terminal de regaseificação da baía de Guanabara, que será inaugurado em setembro de 2008, também foi incluído como ação do PAC.
  2. Com a criação dos PACS-setoriais (por exemplo, segurança e desenvolvimento urbano) o PAC aparece, de forma ainda mais clara, como uma coleção de projetos sem qualquer organicidade.
  3. A percepção é que o PAC, além de peça de propaganda governamental, tem sido usado como balcão de liberação de recursos federais para projetos específicos, alguns com interesses mais políticos do que econômicos ou sociais. Ou seja, o PAC transformou-se em instrumento de barganha e cooptação que tem, de um lado, o governo central (Lula), e de outro, governadores e prefeitos com influência política.
  4. Os investimentos da União são relativamente pequenos em termos das necessidades de investimento. Os gastos de investimento da União em infra-estrutura corresponderão, em média, a 0,6% do PIB no período 2007-10 enquanto os gastos com pagamento de juros responderão por 4,7% do PIB no período de vigência do PAC.
  5. A maior parte dos investimentos programados (aproximadamente 90%) é de responsabilidade da empresas estatais.
  6. Dois-terços dos investimentos das empresas estão concentrados no setor energético (petróleo, gás e eletricidade) e, principalmente, sob a responsabilidade da Petrobrás.
  7. Parte expressiva dos projetos de infra-estrutura está associada às atividades de exportação de produtos primários, o que agrava o padrão de especialização do comércio exterior, aumenta a vulnerabilidade externa estrutural e reduz o potencial de crescimento no longo prazo do país.
  8. Os recursos definidos no PAC estão aquém das necessidades efetivas do país. Por exemplo, as necessidades de investimento do Plano Nacional de Logística e Transportes divulgado em meados de 2007 são 50% maiores do que os recursos previstos no PAC.
  9. A expansão do financiamento governamental ao setor industrial, principalmente via BNDES, está concentrada nos setores extrativistas e de insumos básicos (por exemplo, siderurgia, papel e celulose), que são orientados, em grande medida, para o mercado externo. O resultado é a maior vulnerabilidade externa do país nas esferas comercial e produtiva.

INOPERÂNCIA NA IMPLEMENTAÇÃO

  1. A inoperância do governo federal evidencia-se quando se constata que somente 27% dos recursos previstos foram efetivamente pagos no primeiro ano de vigência do PAC.
  2. A ineficácia na implementação do PAC aparece, por exemplo, quando se considera que o conjunto dos principais projetos para o Rio de Janeiro. Com a exceção dos projetos em andamento sob a responsabilidade direta da Petrobrás, somente dois dos 10 principais projetos saíram do papel.
  3. O argumento do governo de que 86% das 2126 ações em andamento estão tendo desempenho adequado carecem de credibilidade. Não há avaliação externa do PAC, não se conhecem os critérios de adequação e o julgamento do próprio gestor deve ser visto com desconfiança. Por que o governo Lula não cria um grupo independente de acompanhamento e avaliação do PAC com representações indicadas pela sociedade civil?
  4. No primeiro ano do PAC houve o “apagão aéreo” com suas trágicas conseqüências e o aumento do risco de grave crise no setor energético.
  5. Os aeroportos brasileiros aparecem na lista dos piores aeroportos do mundo segundo a revista Forbes (http://www.forbes.com).
  6. Muitos especialistas afirmam que o país já está experimentando crise energética em decorrência da explosão dos preços negociados no mercado paralelo (mercado livre) de energia elétrica, do redirecionamento do gás natural para as termelétricas e as restrições de oferta das hidroelétricas.
  7. As mudanças do marco regulatório pouco avançaram e o que há de mais evidente parece ser o afrouxamento do controle dos processos de licenciamento ambiental.
  8. A questão da defesa da concorrência tornou-se secundária em um país marcado por forte centralização do capital. Este fato é relevante, por exemplo, quando se considera que o setor de cimento é, por um lado, estratégico para os investimentos em infra-estrutura e, por outro, tem um histórico de fortes práticas comerciais restritivas. O abuso do poder econômico continua sem a efetiva regulação governamental.
  9. A Vale do Rio Doce, uma das três empresas multinacionais responsáveis pelo cartel do minério de ferro, tem sido acusada de práticas comerciais restritivas que afetam o setor de siderurgia e construção civil. O governo tem se mostrado inoperante em área que afeta diretamente a infra-estrutura do país.
  10. Devido à sua própria inoperância, o governo conta com a maior liberalização externa na esfera produtiva via participação efetiva de empresas estrangeiras nas concessões para administrar as rodovias federais. No setor aéreo as autoridades federais defendem a ampliação do limite de participação do capital estrangeiro nas empresas aéreas nacionais de 20% para 49%.
  11. A inoperância governamental também é evidente no caso da crise do setor energético. Especialistas têm recorrentemente denunciado a ineficácia e, até mesmo, a irresponsabilidade do governo neste setor. Segundo o Instituto Ilumina (www.ilumina.org.br) há “passividade do governo federal” e “ausência de providências mais efetivas que possam evitar uma crise nos próximos dois ou três anos”. As mudanças no marco regulatório ficaram somente no papel ou, então, foram parcialmente executadas de tal forma que “o sistema hidroenergético tornou-se muito vulnerável”. Neste sistema não houve expansão adequada da oferta e “no que se refere à operação, praticamente nada de relevante foi acrescentado.”
  12. Sete anos depois da crise de energia e cinco anos de governo o país defronta-se com séria restrição ao crescimento econômico em decorrência dos problemas energéticos, no que se refere tanto à hidroeletricidade quanto às outras fontes de energia, como o gás natural. Mais recentemente, o governo obrigou a Petrobrás a desviar gás natural para as termelétricas, o que provoca o aumento dos custos da produção de derivados do petróleo. A empresa reduzirá seus lucros e, portanto sua capacidade de investimento, ou, então, haverá aumento de preços.
  13. As autoridades governamentais que se mostraram inoperantes no que se refere à questão energética são, precisamente, aquelas que estão atualmente na coordenação do PAC, com destaque para a Ministra Dilma Roussef. Com os sinais evidentes de crise energética, após cinco anos de governo, a pergunta é: Por que Dilma Roussef não foi demitida?

DIRETRIZES MACROECONÔMICAS EQUIVOCADAS

  1. As diretrizes macroeconômicas do PAC têm viés restritivo como, por exemplo, as referentes às despesas com benefícios da Previdência, folha de salários da União, manutenção do mega-superávit primário, regra de ajuste do salário mínimo e vigência de taxas de juros reais relativamente altas (Luiz Filgueiras e Reinaldo Gonçalves, A Economia Política do Governo Lula, Rio de Janeiro, Editora Contraponto, 2007, p. 198-207).
  2. A pressão inflacionária e os riscos crescentes da conjuntura internacional são os fatos destacados pelas autoridades monetárias para interromper a trajetória de queda da taxa de juro a partir de setembro de 2007. As previsões para 2008 são que as taxas de juros nominais devem ficar no mesmo patamar de 2007. A Taxa Selic deve fechar o ano de 2008 em 11,25% , ou seja, a mesma taxa do final de 2007 (Banco Central, Focus, 18 janeiro de 2008, http://www.focus 18 jan 2008).
  3. O PAC também opera no contexto da enorme vulnerabilidade externa do país que se agravou com o crescimento extraordinário das importações (quase 50% em 2006-07) e crescente dependência em relação à exportação de commodities. A crença de que as reservas internacionais do país servem como fator de resistência à crise internacional comete o grave erro de desconsiderar a elevada liberalização financeira e cambial do país. Estas reservas podem desaparecer em poucas semanas via deslocamento das aplicações financeiras para a compra de dólares. E, de fato, no âmbito seja das políticas governamentais, seja do PAC, não há medidas concretas no sentido de redução da vulnerabilidade externa estrutural do país. Muito pelo contrário. O capital estrangeiro tem sido visto como solução para problemas nos setores de infra-estrutura, que resultam em boa medida da inoperância do governo Lula.
  4. O argumento acerca da blindagem da economia brasileira equivoca-se a respeito da natureza da atual crise internacional. As crises dos anos 1990 tinham foco no subsistema que abarcava os fluxos financeiros para alguns mercados emergentes. Atualmente, a crise também deriva de problemas na esfera real (que tem repercussões nas esferas comercial e tecnológica), além, naturalmente, dos problemas nas esferas monetária e financeira internacional.
  5. A falta de consistência macroeconômica do PAC deriva do fato de que o crescimento econômico sustentável de 5% exige taxas de investimento superiores a 20%. A taxa de investimento em 2007 deve ficar bem abaixo deste número (algo próximo de 17%).
  6. A falta de consistência do PAC deriva também da manutenção das diretrizes equivocadas da política macroeconômica do Governo Lula, que são travas ao crescimento: metas rígidas de inflação e juros altos, mega-superávit fiscal primário, câmbio flutuante e liberalização cambial, e elevado grau de liberalização externa (Ibid, capítulo 3).
  7. O “desenvolvimentismo às avessas” do Ministro da Fazenda Guido Mantega
    envolve a defesa de um imposto regressivo como a CPMF. Frente à correta
    decisão do Congresso de não renovar este tributo, o Ministro logrou a
    decretação do aumento do IOF que onera os mais pobres, que estão pagando
    taxas de juros que estão entre as mais altas do mundo. Cria-se mais um dreno
    fiscal que inibe o consumo e, portanto, desestimula o investimento e o
    crescimento econômico. O Ministro “desenvolvimentista às avessas” tem recorrentemente ameaçado cortar despesas desconsiderando os outros fatores determinantes de expansão da receita tributária.

SÍNTESE

Após um ano do PAC chega-se à conclusão que os resultados são medíocres.

  1. O miniciclo de otimismo que se seguiu ao lançamento do PAC não parece ter completado um ano. As expectativas são de taxas decrescentes de crescimento econômico em 2008 e 2009, ou seja, o PAC está associado à desaceleração do crescimento. Portanto, o Brasil continuará “andando para trás”. A taxa média anual de crescimento prevista para o país em 2003-08 (3,9%) é menor do que a taxa média mundial e todas as taxas médias regionais (ver Tabela 2).
  2. Em áreas-chaves, como energia e transporte, não houve melhoras evidentes ou, então, houve séria deterioração das condições de infra-estrutura. Os custos das deficiências na infra-estrutura tornaram-se ainda mais evidentes com os problemas atuais e o risco crescente na área energética. Em conseqüência, reaparece a pressão inflacionária via elevação dos custos. Além das deficiências de operacionalização, deve-se destacar que os avanços no marco regulatório (principalmente, a defesa da concorrência) foram praticamente inexistentes.
  3. O Brasil não está menos vulnerável aos fatores desestabilizadores externos. É um equívoco afastar a hipótese de crise econômica decorrente de problemas cambiais. O superávit comercial está diminuindo rapidamente, o superávit em transações correntes já se transformou em déficit e a relação entre as importações e as reservas internacionais deve aumentar significativamente no futuro próximo. O PAC tende a aumentar a vulnerabilidade externa estrutural do país na medida em que tem foco de investimentos nos setores orientados para a produção e exportação de commodities.
  4. Tendo em vista que o PAC mantém as diretrizes básicas das estratégias e políticas macroeconômicas do Governo Lula, o que se prevê para 2008 é, de fato, a pressão inflacionária via custo, o aumento da vulnerabilidade externa do país e a desaceleração do crescimento no contexto de maiores incertezas críticas. Estes argumentos supõem o macrocenário global de “aterrissagem suave” controlado pelas políticas fiscal e monetária dos Estados Unidos. Naturalmente, a situação tenderá a se agravar se o macrocenário global de “aterrissagem suave” se transformar em eclosão de crise com forte reversão do ciclo ascendente para o ciclo descendente da economia mundial.

Tabela 1

Expectativas macroeconômicas para 2008

(em 18 janeiro 2008)

Mediana - agregado


2008

2009

PIB (var. % real)

4,5

4,0

Balança comercial (US$ bi)

30

26

Conta corrente (US$ bi)

-5,0

-10,8

IPCA

4,4

4,2

IGP-M

4,8

4,4

IGP-DI

4,8

4,2

Taxa Selic, final de período %

11,25

10,0

Taxa Selic, final de período %

11,25

10,5

Fonte: BACEN – Focus.

http://www.bacen/focus/18 jan 08

Tabela 2

Taxa de crescimento real do PIB (%): 2003-08

Macrocenário de Aterrissagem suave


2003

2004

2005

2006

2007

2008

Média 2003-08

Mundo

4,0

5,3

4,8

5,4

5,2

4,8

4,9

Países em desenvolvimento

6,7

7,7

7,5

8,1

8,1

7,4

7,6

África

4,7

5,8

5,6

5,6

5,7

6,5

5,6

Ásia

8,3

8,8

9,2

9,8

9,8

8,8

9,1

Oriente Médio

6,6

5,6

5,4

5,6

5,9

5,9

5,8

Américas

2,4

6,0

4,6

5,5

5,0

4,3

4,6

Brasil

1,1

5,7

3,2

3,8

5,2

4,5

3,9

Fontes: FMI, IPEA e Banco Central do Brasil.

http://www.bacen/focus/18 jan 08

http://www.ipeadata.gov.br/PIB

http://www.imf.org/weo out08

Nota: Dados referem-se estimativas para 2007 e projeções para 2008.

Comentários

Na Espanha, um silêncio monumental

Nova lei abre feridas da época da ditadura de Franco

Michael Kimmelman

No mês passado, a Espanha aprovou uma lei que não faz muito sentido, à primeira vista, mas que diz muito sobre a Europa no novo século.

O parlamento, cumprindo uma promessa de campanha de 2004 do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, ordenou que as famílias que quisessem exumar os corpos de parentes mortos durante a Guerra Civil Espanhola do final da década de 1930, ou que sofreram conseqüências políticas do regime de quatro décadas do general Francisco Franco, poderiam receber total cooperação do governo. Ao mesmo tempo, todas as províncias do país deveriam retirar os monumentos remanescentes em homenagem a Franco.

Desenterrar o passado - e apagá-lo. Tanto faz que com o decorrer dos anos tais monumentos já tenham sido removidos, tornando a lei bastante ineficaz e simbólica. Mesmo assim, nos debates a respeito dela, ninguém chegou a falar muito a respeito da contradição inerente.

Ou é uma contradição? “Uma nova geração começou a olhar para o passado”, explicou-me Santos Júlia, importante historiador dos anos pós-Franco, em uma manhã, recentemente. “São os netos da guerra civil. Minha geração queria discutir o que aconteceu, sem a sensação de culpa. Os netos olham para os mesmos anos de reconciliação como uma condescendência infinita, e está na hora de estabelecer a responsabilidade.”

Os sobreviventes construíram monumentos para lembrar dos mortos, e derrubaram as estátuas dos tiranos que os mataram, mas em geral, em vão. Estátuas e memoriais registram a história, que cada geração reescreve para sua conveniência. Em Budapeste, Hungria, as estátuas de ídolos comunistas foram transferidas para um parque nos arredores da cidade tornando-se lápides virtuais em uma espécie de cemitério kitsch. A Rússia, em seu ímpeto de prosperidade, continua visivelmente relutante em rediscutir o passado, mas também removeu muitos sinais do domínio soviético.

E por certo ninguém analisou mais detalhadamente os símbolos e espaços públicos do que os alemães, para os quais cada pedra e sinal de rua evocam um novo monumento. A sala de reuniões do ministro alemão das Relações Exteriores em Berlim é um exemplo do ponto até onde foram os alemães, mesmo em locais privados. Originalmente o escritório do presidente do banco estatal nazista, depois ocupada por Erich Honecker, o líder da Alemanha Oriental, que lá se reunia com seu Politburo, a sala foi mantida praticamente intacta depois da queda do Muro, quando o Ministério das Relações Exteriores se mudou para lá. Então, no local onde estavam pendurados os retratos de Marx e Engels, atrás da cadeira de Honecker, retângulos esmaecidos foram deixados lá, como lembrança de algo a ser evitado.

A Espanha é diferente, embora tenha passado por uma guerra civil. Com seu tradicional medo dos negros demônios das profundezas da alma, os espanhóis, depois da morte de Franco e durante a transição para a democracia entraram no que foi durante muito tempo denominado um pacto de silêncio, que a lei claramente pretende reverter. Como afirmou o historiador Hugh Trevor-Roper, há 40 anos, a respeito de um regime diferente: “Um único déspota em particular pode prolongar idéias obsoletas para além de sua vigência natural, mas a mudança de gerações deve no final livrar-se delas.” Pode-se dizer que no caso da Espanha a mudança agora chega com o atraso de uma geração.

Eu recentemente dirigi durante 45 minutos para rever Santa Cruz del Valle de los Caídos, o mais megalomaníaco dos monumentos de Franco. A rodovia, cruzada por touros, aqueles criados para touradas, pastando em campos verdejantes, subitamente fica imersa na neve e na obscuridade. Durante a década de 1950, milhares de prisioneiros trabalhadores cavaram e moldaram centenas de metros em uma montanha de granito sólido para construir uma das maiores e mais lúgubres basílicas do mundo e um memorial à Guerra Civil, sob uma cruz com quase 50 andares de altura.

O local é a expressão do desejo de Franco de reparação nacional. Seu governo, segundo escreveu Raymond Carr, um historiador de Franco, não era exatamente uma vitória da Falange, a versão espanhola do fascismo, “mas da Espanha católica, conservadora, sobre a Espanha liberal da Segunda República.” E Franco, em sua cruzada para salvar a civilização cristã, tomou como modelos monarcas como Felipe II, com a intenção de refletir a austeridade monástica do vizinho Escorial de Felipe.

A arquitetura traz à lembrança Albert Speer. Os restos mortais de republicanos assassinados foram exumados de covas coletivas e transportados em caminhões para o vale para serem misturados aos de nacionalistas mortos, de forma que houvesse um lugar para todas as vítimas da guerra civil. Mesmo hoje em dia, a maior parte dos espanhóis não sabe que os republicanos foram enterrados lá com Franco e o fundador do Partido da Falange, o uma vez rival de Franco, Jose Antonio Primo de Rivera.

No altar que fica no ponto mais alto do local, estão os túmulos desses dois homens, com um buquê de flores frescas ao lado das lápides. Conta-se que 400 mil pessoas ainda visitam o local, todos os anos, embora ele estivesse praticamente deserto naquela tarde. Uma jovem família espanhola perambulava melancolicamente em meio ao frio e ao silêncio, olhando atentamente para as ameaçadoras estátuas de soldados e santos. Na praça de fora, coberta de neve, a vista de Madri e da gigantesca cruz desapareciam por trás de negras nuvens.

“A idéia de que os espanhóis realmente foram incapazes de falar a respeito do passado é uma bobagem,” disse Charles Powell, historiador, citando muitos livros, filmes e programas de televisão a respeito da guerra civil. Mas declarações públicas são uma coisa diferente, ele explica mais detalhadamente. Em muitas cidadezinhas, onde vizinhos traíram outros e mesmo maridos e esposas não conversam com facilidade sobre a guerra, uma política comum ainda é a do não pergunte, não fale.

Muito antes de a lei ser aprovada, quase todos os monumentos a Franco foram removidos, sob governos socialistas e conservadores. Mas isso foi feito discretamente, sem a divulgação dos assuntos, como se a democracia fosse frágil demais para suportar o debate, dizem alguns, embora provavelmente isso tenha acontecido porque os espanhóis que vivenciaram os últimos anos de Franco simplesmente chegaram à conclusão de que era o melhor a ser feito e seguiram em frente. Isso, porém, ainda deixa uma lacuna.

Mesmo hoje em dia é preciso procurar uma tradução para o inglês de um atraente guia sobre o Valle de los Caídos para encontrar uma rápida menção a respeitos do trabalho forçado dos prisioneiros. Em Madri uma avenida ainda tem o nome de Caudillo, em homenagem a Franco, e uma outra tem o nome da divisão de soldados que Franco mandou para ajudar os nazistas. Em Santander, embora em breve venha a ser substituída por um estacionamento sob ordem do governo local, conservador, há uma estátua eqüestre de Franco, que lembra as estátuas de Jefferson Davies e Stonewall Jackson em cidades do sul dos Estados Unidos onde prefeitos e chefes de polícia são geralmente negros.

Beatriz Rodriguez-Salmones, de 63 anos, que cuida de temas culturais para o Partido Conservador no Parlamento, está furiosa com a nova lei. Exumar túmulos é do direito de qualquer família, diz ela, embora tenha indicado que os parentes do poeta Federico Garcia Lorca não querem interferir na sepultura onde seu corpo foi jogado, junto com os corpos de toureiros e “banderilleros” (toureiros que integram a equipe de um matador) pois, isso iria aviltar a natureza de sua morte. O que acontecerá agora, ela indaga, se os descendentes de “banderilleros” quiserem criar problemas?

“Mas monumentos não têm nada a ver com sepulturas”, ela prossegue. “Provavelmente 90% dos monumentos de Franco já foram retirados. Nós tivemos anistias. Nós reconhecemos os direitos dos exilados. Demos compensações a professores que perderam seus trabalhos. Mudamos nomes de ruas, a bandeira, sempre tentando não ferir os sentimentos uns dos outros.”

Ela disse que Zapatero está criando problemas em relação aos monumentos para atender aos aliados no Parlamento: “separatistas, republicanos, radicais.” Ele precisa dos votos deles, ela acrescenta “e dos votos das regiões Basca e da Catalunha - daqueles que buscam o confronto.”

O que ela diz faz sentido. Agora atenuada em relação à época em que era chamada de lei da “memória histórica,” como se tal tema jamais pudesse se alvo de legislação, a lei exclui objetos de significado religioso e artístico (embora a definição do que seja arte tenha ficado notavelmente obscura).

Nem mesmo no Valle de los Caídos é provável que aconteça qualquer coisa, a não ser as reuniões políticas, que foram proibidas, uma cláusula destinada a impedir a realização dos tributos anuais do dia 20 de novembro, o aniversário das mortes, tanto de Franco como de primo de Rivera. Mas ninguém parece saber como isso funcionará na prática.

Durante um jantar, Santiago Saavedra, um editor que atingiu a maioridade nas últimas décadas de vida de Franco, se retrai quando vem à tona o tema da nova lei. Ele a considera um ataque à sua geração. “Nós deveríamos nos sentir culpados por tocar as nossas vidas,” ele diz.

Powell, o historiador, concordou com a cabeça quando lhe transmiti a observação. “A reconciliação nacional realmente ocorreu durante as décadas de 1960 e 1970, quando Franco ainda estava no poder, por meio de um processo natural, não por um decreto do governo, mas devido ao sentimento coletivo de que a guerra havia sido horrível e que a Espanha precisava seguir adiante,” ele disse. A guerra civil mal foi debatida no Parlamento, ele assinalou, até a eleição de um primeiro-ministro conservador, do Partido Popular, José Maria Aznar, em 1996, que encerrou anos de domínio socialista.

“Foi um choque para a esquerda,” disse Powell. “Aznar tinha ligações com o passado de Franco. Seu avô era embaixador em Cuba, sob Franco. Portanto, uma forma fácil para os socialistas contestarem a autoridade do Partido Popular era exigir que o partido repudiasse Franco.”

Em toda Europa, enquanto o centro político se ampliava, tanto a esquerda como a direita enfrentavam dificuldades para se diferenciar uma da outra. Na realidade, pouco separa as políticas econômicas de Zapatero daquelas de Aznar. Mas enquanto o avô de Aznar era embaixador de Franco, o avô de Zapatero era um republicano, morto na guerra.

Os conservadores que criticam Zapatero dizem que ele está usando políticas de interesse de grupos supostamente excluídos, semelhantes aos debates sobre valores morais nos Estados Unidos, para promover um programa social que inclui a defesa dos direitos de homossexuais, transexuais, mulheres e catalães. A nova lei sobre monumentos acrescenta outro grupo a essa relação: republicanos mortos, os derrotados da guerra civil. Mas para os liberais da geração de Zapatero, isso ainda não é suficiente.

“O que os espanhóis fizeram nas décadas de 1960 e 1970 era voltado para uma outra direção,” disse Paloma Aguilar, uma dessas netas da guerra, uma cientista política de 42 anos que escreveu um livro sobre memória histórica. Eu mencionei o editor, e ela se retrocedeu ligeiramente. “Ok, sim, é um tanto quanto injusto criticar a geração de nossos pais. Também é verdade que a maioria das pessoas não se queixa dos monumentos hoje em dia, porque se acostumou a conviver com eles. A geração dos nossos pais tem algum medo de confronto por acreditar que a democracia ainda é frágil. Mas eu cresci sob a democracia. Setenta anos depois da guerra civil nós não podemos permitir que tais monumentos perpetuem a discriminação contra as vítimas.”

Eu tive a sensação de que muitos dos espanhóis que forjaram a transição para a democracia e a paz que se seguiu não sabiam o que era melhor para eles, lembrando-me de uma observação de Powell. Ele se referiu a uma “nova nostalgia” pelo Republicanismo. Ela deixa subentendida uma superioridade moral não apenas em relação a Franco mas também em relação ao sistema político atual. Aí, de novo, Aguilar e outros de sua geração percebem claramente que este é o último momento de lutar por monumentos e sepulturas antes que os parentes das vítimas morram (muitos deles seus próprios pais) e a ditadura e seu legado deixem de ser a memória vivida. O impaciente é oportunista.

Fiz uma última parada no apartamento de Blas Pinar. Há alguns anos, sob as ordens do primeiro-ministro, foi dado sumiço a uma estátua de Franco, em uma praça de Madri, no meio da noite. Pinar e outros protestaram. Aos 89 anos, fundador do ultra-direitista Força Nova, que até mesmo Franco achava reacionário demais, ele me deu as boas-vindas, ansioso para se lançar com ímpeto num tipo de discurso de campanha em defesa da antiga ditadura, com pausas, de tempos em tempos, para tomar fôlego por meio de um tubo de traqueostomia.

Sua queixa a respeito da transição, ao contrário daquela da nova geração de esquerdistas, era que se trata de um lobo político em pele de cordeiro. “Um engodo” ele a chamou, “chamada de reforma, mas na verdade uma ruptura, que alterou os elementos mais fundamentais da sociedade: proteção da família, da moral e dos valores religiosos, a unidade da Espanha.”

Nem mesmo os monumentos estão sendo removidos, “o golpe final”, como ele explica: “a lei da memória histórica é anti-histórica porque tenta apagar a memória de Franco, e todo o bem que ele fez pela Espanha.” Proibir os franquistas de se reunir no Valle de los Caídos não vai mudar nada, ele advertiu. “O lugar sempre teve um significado particular. Não se pode separar Franco dele.”

Detesto a idéia de concordar com qualquer coisa que ele tenha dito. Mas a legislação sobre monumentos não corrige as injustiças do passado, apenas remexe desastradamente nos símbolos da história, lembrando-nos porque nós os planejamos em primeiro lugar. Afinal, os monumentos ganham significado quando nós os imbuímos disso, do contrário eles fazem companhia às estátuas de monarcas cruéis e sangrentos generais que se tornaram o pano de fundo civilizado de nossos parques e praças.

Pode-se dizer que a situação da Espanha depois da morte de Franco não foi diferente de um casamento: cada lado mantendo o silêncio sobre as lembranças que mais poderiam ferir a outra parte. O silêncio cria um vínculo. É de ouro, como diz o ditado; estátuas e placas são apenas metal e pedra. Isso dito, a nova lei, moldada pelos filhos desse silêncio, paradoxalmente injetam em tais símbolos enferrujados um novo significado para um novo século.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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A complicada história de um roteiro para Buñuel

“A Dor de Viver” seria um texto escrito por Fuentes e Monsiváis

Antonio O. Ávila

Uma história com toques de surrealismo é tecida desde ontem no México em torno do cineasta Luis Buñuel. O aparecimento do roteiro “A Dor de Viver”, escondido entre os papéis empoeirados do diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa, provocou a febre para se conhecer uma obra inédita, supostamente escrita pelos escritores Carlos Fuentes e Carlos Monsiváis para ser filmada pelo cineasta espanhol estabelecido no México Luis Buñuel. Os papéis existem, inclusive aparecem os atores que seriam protagonistas do filme; o que não está tão claro é a autoria da história, ou se foi tudo fruto de uma brincadeira entre amigos.

A notícia da descoberta do roteiro, publicada no suplemento cultural “Confabulario”, provocou uma expectativa inusitada nos mundos literário e cinematográfico do país, por se tratar de figuras chaves na cultura mexicana.

Carlos Monsiváis, em declarações à rádio W, afirmou que o maior surpreso com essa história foi ele e disse não saber claramente se ele e Carlos Fuentes tinham escrito conjuntamente o citado roteiro na década de 1960. “Nem Carlos nem eu, até onde me lembro, escrevemos esse roteiro.” Carlos Fuentes não se pronunciou a respeito.

Segundo o relato de “Confabulario”, foi em 12 de janeiro passado que, escondida entre os documentos e fotografias que constituem o arquivo privado de Gabriel Figueroa, se encontrou essa jóia. O roteiro é uma paródia do melodrama da Era de Ouro do cinema mexicano, na qual trabalhariam os conhecidos atores Sara García, Fernando Soler, Marga López e Libertad Lamarque. Todo o material encontrado com documentos e fotografias participará da exposição que a Fundação Televisa montará no Palácio de Belas Artes do México em fevereiro próximo, por ocasião da homenagem a Gabriel Figueroa (1907-1997), um dos mais laureados fotógrafos do cinema mexicano.

Carlos Monsiváis reconheceu na entrevista que deu à rádio W que ele e Carlos Fuentes se reuniram em várias ocasiões com Buñuel e que em alguma delas comentaram a possibilidade de transferir para o cinema algumas cenas da vida cotidiana. Inclusive lembrou que certa tarde falaram sobre a realização de uma paródia em torno de uma gelatina que, segundo os rumores populares, era viciante. Essa história provocou mais de uma gargalhada entre os amigos, que cogitaram na possibilidade de transportá-la para o cinema. A verdadeira história do roteiro “A Dor de Viver” ainda não foi escrita, mas o suplemento “Confabulario” publicou 20 cenas da trama.

Estas são as três primeiras:

1. Um asilo de crianças órfãs. A avó Sara García o fundou e o sustenta com grande esforço. Ao amparo do asilo e sua avó vive Libertad Lamarque, abandonada há anos por seu rico marido, Fernando Soler.

O asilo se sustenta precariamente com a venda de gelatinas e da caridade pública. Sara possui uma receita para fazer gelatinas que é transmitida de geração em geração, e guarda zelosamente o segredo de sua fabricação.

No início do filme dona Sara e dona Libertad preparam uma grande festa para remediar a situação do asilo. Dona Libertad ensaia canções com um coro de meninos. Outro grupo de meninos vende gelatinas pela rua e nos leva a:

2. A faustosa mansão onde Fernando Soler vive com uma mulher má (Marga López) pela qual abandonou sua legítima esposa, dona Libertad. O casal é atendido por um garçom de libré: o Loco Valdés. Dom Fernando percebeu há algum tempo que Marga não o ama, mas sim a seu dinheiro.

3. Dom Fernando e dona Libertad têm um filho: Mauricio Garcés, cínico, inescrupuloso, aventureiro. Maurício foi expulso do lar por dom Fernando depois de um ruidoso escândalo em um cabaré que saiu em todos os jornais. Secretamente, Maurício é o amante de Marga, a mulher de seu pai. Os dois só esperam a morte do velho dom Fernando para desfrutar sua herança.

El País
http://www.elpais.com/

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Caça aos gorilas

Foto mostra a retirada de gorilas mortos do Parque Nacional de Virunga, no Congo, tirado pelo sul-africano Brent Stirton. A imagem conquistou o primeiro lugar na categoria de assuntos contemporâneos. Foto: Reuters

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Além das lágrimas

As eleitoras americanas parecem buscar em Hillary o arquétipo feminino do pragmatismo

Susan Faludi

Na tarde da primária de New Hampshire, eu tive uma espécie de epifania política numa fila do Kaiser Permanente Medical Center em San Francisco esperando o preenchimento de uma receita médica. Diante de mim, uma mulher de meia idade, usando um conjunto elegante, consolava sua mãe idosa e confusa. “Tudo bem, mãe, eles nos puseram no fim da fila porque eu não quis esperar até seu nome aparecer no quadro, mas você não precisa ficar em pé. Sente-se e relaxe que eu cuido disso.”

Na fila de cadeiras à minha esquerda, outra mulher em trajes de trabalho - ela claramente havia chegado às pressas do escritório - estava aplicando o mesmo calmante verbal a sua mãe adoentada. “Não tem problema. Vou ligar para o médico e fazer com que ele entenda isso, depois vou mudar essa outra consulta para amanhã de manhã. Não se preocupe.” Seguiu-se uma batalha acirrada pelo celular com uma secretária recalcitrante do médico. Evidentemente, a filha venceu. “Está resolvido”, disse ela à mãe. “Eu já cuidei de tudo.”

Ouvindo essas mulheres cuidando com eficácia e muita paciência de suas mães do jeito que podiam, admitindo erros, permanecendo em filas intermináveis, ligando para médicos, eu quis perguntar, “Vocês não poderiam dirigir meu país?”

Nas atuais circunstâncias, não estou sozinha na esperança de uma nação conduzida por alguém cujo desejo por nosso bem-estar seja apaixonado, mas cujas ações a nosso favor também transborem em uma sólida competência, alguém que não tenha nenhum tipo de lampejo exceto o que mantém a pessoa fazendo zelosamente a coisa mais difícil da vida. Em New Hampshire e em todo o país, muitas eleitoras parecem estar pensando do mesmo jeito.

A mídia, os especialistas e analistas de pesquisas têm visto a histórica candidatura feminina, e a própria candidata, pelo prisma Madonna-Medéia que aplicam, desde pelo menos a era vitoriana, a mulheres que se aventuram na vida pública americana. Com isso, eles ignoraram um modelo totalmente distinto de feminilidade que é central para a experiência feminina. Se estão determinados a pensar em Hillary Clinton em termos de estereótipos femininos, ao menos deveriam usar o estereótipo correto.

Essa ignorância ficou exposta depois de New Hampshire, quando analistas tentaram cegamente explicar os resultados da primária e saíram com explicações que foram tão ofensivas quanto fantasmagóricas. Uma teoria, reconhecidamente forçada, mas promulgada avidamente, sustentava que o inesperado aumento de apoio a Clinton veio de eleitores de classe baixa que eram secretamente (isto é, não detectável por pesquisas) racistas. Alguns especialistas reconheceram que poderia haver uma dinâmica de gênero em ação, mas admitiram apenas uma possibilidade: as eleitoras eram mulheres crédulas, facilmente influenciáveis, que haviam deixado algumas lágrimas de garota confundir seu juízo político. Os especialistas debateram se as lágrimas de Clinton eram “reais” ou “fabricadas” - isto é, se ela era alguma irmã fraca e chorona incapaz de enfrentar a dureza de um mundo masculino, ou apenas uma bruxa sedenta de poder, que faria qualquer coisa para se agarrar a sua vassoura.

Alguns, como a repórter Carla Marinucci do San Francisco Chronicle, ofereceram avaliações mais convincentes. Ela assinalou que as eleitoras não pareciam estar reagindo tanto às lágrimas de Clinton quanto a seu ultraje com as reações masculinas àquelas lágrimas (em particular, a homens na mídia).

Clinton não baseou sua campanha, ou boa parte de seu apelo, na sua feminilidade ou na sua condição feminina. Entretanto, o público (e, em especial, a mídia) persiste em vê-la por essa ótica. O problema é que é uma ótica distorcida. Ela só vê metade da experiência feminina. Clinton, e virtualmente todas as políticas mulheres que surgiram antes dela, acabam sendo avaliadas segundo uma velha divisão, e depois condenadas de um jeito ou de outro: compassiva ou molenga demais (a crítica implícita ao “Hillarycare” ou ao “Estado ama-seca”, e também à reação inicial a suas lágrimas em New Hampshire), ou controladora e indiferente demais (implícita em “Hillary não é suficientemente pessoal”). Em ambos os casos, a candidata está sendo julgada não apenas como mulher, mas como mãe.

A sociedade americana caracteriza as mulheres como provedoras com base em seus jovens anos como mães. E quando a mídia americana cobra emoção e calor de Clinton, ela está expressando a cobrança de uma criança a sua mãe (uma cobrança que não é feita igualmente do pai).

Mas existe uma esfera totalmente separada do caráter provedor feminino que é, de fato, mais relevante para a liderança nacional e para a candidatura de Clinton. Filhas assumem o pesado fardo de cuidar de seus pais idosos. Essa também é uma esfera da experiência feminina, bem mais familiar para as mulheres na faixa da meia idade em diante que apoiaram Clinton mais fervorosamente, mas seus preceitos são muito diferentes.

A mulher que cuida de seus pais idosos não está sendo solicitada a inflar um ego juvenil com os respingos necessários de afagos e incentivos inspiradores. A disponibilidade que uma criança pede de uma jovem mãe não é a qualidade mais requerida numa mulher de meia idade cuidando de um de seus pais - ou uma nação madura. A competência é. Se essa competência for respaldada pela força humanizadora de lágrimas, isso é adorável e apreciado. Mas, como aquelas mulheres do centro médico sabiam, o momento pedia mais soluções práticas e uma pessoa capaz de resolver problemas.

O maior espetáculo de obsequiosidade que aquelas mulheres poderiam demonstrar era deixar seus afazeres para ficar naquela fila vezes sem conta e fazer aquele telefonema zangado para um outro médico, mesmo que fossem percebidas como “vadias” pelas recepcionistas na outra ponta.

Em suas avaliações de Hillary Clinton, os entendidos em pesquisa e especialistas que não foram além daquela narrativa da mamãezinha atenciosa da condição feminina americana também não começaram a diagnosticar a dinâmica de gênero além da perspectiva do filhinho e sua mamãe. Muitas eleitoras, porém, podem estar considerando um tipo complementar diferente de arquétipo feminino, cujos olhos marejados não sinalizem fraqueza e cujos lampejos de raiva não sinalizem frieza, mas sim uma perseverança pragmática.

Se os especialistas tentassem compreender o que algumas eleitoras sabem da complexidade das vidas das mulheres, eles poderiam começar a compreender o apelo de uma candidata mulher cuja ética de cuidar e cuja postura de feminilidade derivam de responsabilidades além das maternais. E ainda poderiam começar a compreender o afeto das mulheres em New Hampshire que a colocaram na frente.

Jornal Estado de S. Paulo
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Bósnia, uma maior preocupação que Kosovo

R. Bruce Hitchner

2008 será um ano chave tanto para Kosovo quanto para a Bósnia. Kosovo provavelmente declarará independência da Sérvia nos próximos meses. Se o fizer, os Estados Unidos e a maioria dos membros da União Européia reconhecerão Kosovo, mas insistirão no estabelecimento de uma missão internacional semelhante à Missão das Nações Unidas na Bósnia para assegurar a estabilidade do novo Estado.

A Sérvia e sua benfeitora, a Rússia, se oporão fortemente a qualquer ação visando a independência de Kosovo, mas que forma tal oposição assumirá é incerta.

Diferente de alguns novos relatos, a Sérvia não exigirá controle da entidade sérvia na Bósnia -ou Republika Srpksa (RS)- em troca da perda de Kosovo. Fazê-lo quase certamente levaria a um confronto direto com os Estados Unidos e a União Européia. Nem a Sérvia e nem a Rússia desejam isso.

Apesar das tensões em torno da independência de Kosovo, um conflito em grande escala é improvável. E apesar do desejo de alguns de que Kosovo permaneça uma província autônoma da Sérvia, as perspectivas de que isso ocorrerá são próximas de zero.

Um Kosovo independente será um Estado fraco por muitos anos, mas não será (nem será permitido que seja) uma ameaça à região. Enquanto isso, o futuro político da Bósnia é nebuloso. Por quase dois anos, os políticos bósnios brigaram, freqüentemente de forma amarga, sobre o futuro constitucional do país. Os sérvios bósnios e em grau menor os croatas bósnios, ambos minorias em relação aos muçulmanos bósnios (ou bosniaks), buscaram consolidar seu status político segundo o Anexo 4 (a Constituição) do Acordo de Dayton.

Para os sérvios, agora liderados pelo poderoso primeiro-ministro da RS, Milorad Dodik, a meta é a preservação de sua entidade e de um governo central fraco. Os bosniaks, por outro lado, sob a liderança de Haris Silajdzic, têm lutado por um governo central forte.

A comunidade internacional tentou sem muito sucesso navegar em meio a estas posições opostas. Uma série de emendas à Constituição que fortaleceriam as instituições do Estado mas preservariam as entidades fracassaram em obter a maioria necessária de dois terços no Parlamento. Os esforços liderados pela UE para reformas políticas foram igualmente rejeitados em outubro.

No início de novembro, o atual alto representante, Miroslav Lajcak, em um esforço para romper o impasse político, anunciou duas reformas constitucionais que facilitariam a aprovação de uma legislação nacional. Essas reformas basicamente impediriam a prática de representantes eleitos e ministros de governo de se ausentarem de votações-chave.

Os políticos da RS, que freqüentemente empregavam esta tática para evitar serem derrotados no voto, interpretaram estas reformas como uma ameaça à entidade e às suas proteções étnicas na esfera do Estado. Eles provocaram uma crise ao exigir que o alto representante anulasse suas medidas. Com o apoio da Sérvia e Rússia, o primeiro-ministro Dodik ameaçou secessão da entidade sérvia.

No início de dezembro, foi acertada uma solução de meio termo, mas a questão sobre a futura ordem constitucional da Bósnia permanece não resolvida.

A situação política agora está repleta de incertezas por vários motivos. Primeiro, a comunidade internacional está ansiosa para encerrar a missão de Dayton da ONU e transferir o esforço de reforma para a União Européia. Mas os eventos dos últimos seis meses claramente demonstraram que a Bósnia ainda não está plenamente preparada para caminhar sozinha.

Segundo, durante o primeiro ano a economia da RS cresceu rapidamente enquanto à da outra entidade, a Federação Croata-Bosniak, estagnou. A RS poderá não hesitar em usar sua nova força econômica para pressionar por uma maior devolução de poder político. A Bósnia está em um precipício.

Se a comunidade internacional se comprometer em concluir o trabalho e promover agressivamente as reformas que levarão a um governo constitucional capaz de servir todas as pessoas na Bósnia -e cumprir suas obrigações internacionais- o futuro do país melhorará consideravelmente.

Mas se a comunidade internacional der as costas à Bósnia, o país provavelmente afundará ainda mais na disfunção e instabilidade política. Tal resultado parece bem mais preocupante do que qualquer coisa que possa ocorrer em Kosovo ao longo do próximo ano. Diante do enorme investimento feito pela comunidade internacional na Bósnia desde a assinatura do Acordo de Dayton, em 1995, e da importância da estabilidade no coração da Europa, o fracasso não pode ser uma opção.

Cox Newspaper
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/cox/

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