Arquivo de 9 de Fevereiro de 2008

Brecht e o Brasil

A relação entre Brecht e o teatro brasileiro teve sua fase mais marcante entre 1958 e 1978

Fernando Marques

Se é verdade que escrever em português pode, ainda hoje, confinar um autor a circuitos relativamente restritos, produzir em alemão tampouco garante divulgação internacional imediata. Embora muito prestigiosa, a literatura de língua alemã precisou, freqüentemente, do passaporte das traduções francesas ou inglesas para alçar os seus escritores à notoriedade global.

O alcance do idioma será, quando menos, um dos fatores capazes de explicar o fato de que o dramaturgo, poeta e pensador alemão Bertolt Brecht, nascido em 1898 e morto há 50 anos, a 14 de agosto de 1956, só viria a ser mundialmente festejado depois que peças como Mãe Coragem chegaram às salas de Paris e Londres. Outro fator liga-se ao exílio: Brecht, a exemplo do que fizeram tantos intelectuais, fugiu da Alemanha encampada pelos nazistas em 1933, trocando de país “como quem troca de sapatos” (até o retorno em 1948), o que dificultou a difusão menos tardia de suas peças e idéias.

Costuma-se marcar a data de chegada de Bertolt Brecht ao Brasil pela primeira montagem profissional de um de seus maiores textos, A alma boa de Setsuan, encenado em São Paulo com Maria Della Costa, sob a direção do italiano Flaminio Bollini, em 1958. A fase de “deglutição” local do autor vai de 1958 a 1978, ano em que estréia a Ópera do malandro, de Chico Buarque, resposta à Ópera dos três vinténs, de Brecht e Kurt Weill.

No entanto, diga-se, o contato brasileiro com o teatro brechtiano não se fez esperar demais. Ao mesmo tempo em que se começava a falar amplamente de Brecht na Europa, devido a “uma versão bastante comovente de Mãe Coragem”, em Paris, segundo informa o biógrafo Frederic Ewen, ocorria por aqui a montagem - com alunos da Escola de Arte Dramática, em São Paulo - de A exceção e a regra. Esta é uma das peças denominadas pelo autor de “didáticas”: breves textos destinados à elaboração de questões éticas e políticas. O ano era o de 1951.

A exceção e a regra, escrita em 1930, e a bem-humorada (e pungente) Alma boa de Setsuan, de 1940, abordam o tema da bondade impossível, num mundo monitorado pelo egoísmo; ambas ficaram como marcos inaugurais da recepção de Brecht no Brasil certamente porque obtiveram registros na imprensa. Mas (sem querer exasperar o leitor com problemas de genealogia) anoto que, de acordo com Wolfgang Bader, organizador da coletânea Brecht no Brasil (1), o marco inicial cabe mesmo a Terror e miséria do Terceiro Reich, encenada em 1945, em São Paulo, “por alemães exilados, que nos anos de 1940 começam diversas atividades teatrais aqui”.

O sentido inicial das montagens brechtianas no país, sentido que se vai desdobrar em caminhos correlatos nos anos seguintes, relacionou-se à luta contra o fascismo, verberado já no título da peça. Bader e Fernando Peixoto (que, na mesma coletânea, também alude a Terror e miséria do Terceiro Reich) limitam-se a mencionar a montagem de 1945, sem fornecer outros dados a seu respeito, sinalizando que a memória do espetáculo em boa parte se perdeu. Mas o texto seria revisitado, nos anos de 1960, pelos encenadores Antonio Abujamra, Paulo Afonso Grisolli e Amir Haddad.

Significativa, também, foi a inclusão de um dos episódios que compõem a peça, chamado “O delator”, no espetáculo-colagem Liberdade, liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, sucesso no Rio de Janeiro de 1965, já, portanto, em tempos pós-Golpe. Paulo Autran e Tereza Rachel representavam os pais que temem ser denunciados como opositores do regime pelo próprio filho, não mais que um menino. Evidenciava-se um dos traços da presença brechtiana: o dramaturgo ajudou a politizar o teatro nacional ou, por outra, emprestou instrumentos de análise e crítica, ideológicos e estéticos, a dramaturgos, atores e diretores brasileiros, na fase em que os palcos se tornaram praça de resistência ao regime militar instalado em 1964.

A tradução para o inglês de A alma boa de Setsuan e de O círculo de giz caucausiano, pelo norte-americano Eric Bentley, peças publicadas em 1948 (Bentley divulgou a obra de Brecht nos Estados Unidos, onde o dramaturgo passou a fase final do exílio), permitiu ao crítico Décio de Almeida Prado ler o autor, para depois comentá-lo a propósito de A exceção e a regra, poucos anos mais tarde. Já Sábato Magaldi viu pela primeira vez uma peça de Brecht em Paris, em 1953. Era Mãe Coragem, a história da tragicômica mulher que se sustenta como vendedora ambulante em plena guerra, metáfora dos que pretendem se valer das situações de conflito e caos, delas aferindo vantagens (a obtusa Coragem perde seus três filhos, um a um, ao longo da história).

Sábato não gostou, contudo, da encenação de Jean Vilar: “Não vou esconder que fiquei muito decepcionado: achei o espetáculo por demais cansativo, e o público se enfadava todo o tempo” (2). Efeito, quem sabe, de tratamento excessivamente literal do teatro épico proposto pelo escritor, teatro em que a ação dramática está constantemente emoldurada por expedientes narrativos (cartazes e canções, entre outros), destinados a evitar a simples identificação emocional entre público e espetáculo, privilegiando-se a atitude racional. Para Brecht, o mundo (resumido em cena) deve aparecer como passível de ser modificado pela vontade consciente, jamais como inacessível a mudanças objetivas.

Houve acertos e desacertos na recepção dada à obra na França ou aqui. O crítico Yan Michalski inicia depoimento de 1986 dizendo precisamente isto: “Brecht forneceu a matéria-prima literária e teórica para alguns dos mais equivocados momentos da cena brasileira dos últimos 30 anos, e para alguns dos seus momentos mais iluminados e enriquecedores”. Compreensão limitada do famoso “efeito de distanciamento”(3), preconizado pelo também diretor Brecht (o ator deve afastar-se de seus personagens, buscando pensar e fazer pensar sobre eles), possivelmente responde por alguns daqueles equívocos.

Já os acertos se devem a uma utilização criadora, pouco subserviente, das idéias do autor. O que se verificou também nos espetáculos que não se basearam em textos de Brecht, mas foram de algum modo inspirados por suas concepções, caso da comédia Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, integrantes do Grupo Opinião. O espetáculo estreou no Rio, em 1966, sob a direção de Gianni Ratto.

No prefácio ao Bicho, os autores aludem a procedimentos não-realistas que ajudariam a representar melhor a própria realidade. Depois de situar as fontes da comédia na literatura popular (no caso, o cordel e a farsa nordestina), dizem: “A literatura popular e a grande literatura sempre tiveram um ponto fundamental em comum: a intuição da arte dramática como uma manifestação de encantamento, de invenção”(4). Encantamento, segundo eles, é justamente “o que Brecht repõe na literatura dramática”.

Vianna e Gullar esclarecem, referindo-se implicitamente ao humor e ao caráter lúdico também presentes nas peças do escritor alemão: “Mas quando falamos em encantamento, não estamos querendo dizer envolvimento passional. Com encantamento queremos dizer uma ação mais funda da sensibilidade do espectador que tem diante de si uma criação, uma invenção que entra em choque com os dados sensíveis que ele tem da realidade, mas que, ao mesmo tempo, lhe exprime intensamente essa realidade”. O efeito, no Bicho, seria o de uma incisiva caricatura das relações políticas no Nordeste dos coronéis e, por analogia, em todo o país. Já nos anos de 1970, o Grupo Opinião recorre, em O último carro (1976), de João das Neves, peça ambientada num trem de subúrbio, à técnica de composição por cenas isoladas, eminentemente épica.

O Teatro de Arena de São Paulo esteve fortemente relacionado à estética de Brecht, reelaborando-a criativamente. Dois espetáculos devem ser destacados nesse sentido: Arena conta Zumbi, de 1965, e Arena conta Tiradentes, de 1967, ambos escritos por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

As lições relativas às técnicas épicas reaparecem no Arena sob a forma da narração coletiva e da dissociação de atores e personagens (um mesmo papel pode ser interpretado por diversos atores, o que dilui a empatia e reforça o exame crítico das situações), como se deu em Zumbi. Ou, ainda, sob a figura do Coringa, espécie de mestre de cerimônias que conta a história e encarna o ponto de vista autoral, como em Tiradentes. Boal articula, na ocasião, o Sistema do Coringa e, depois, as técnicas do Teatro do Oprimido, em certa medida derivadas de matrizes brechtianas.

De volta aos textos do próprio Brecht, lembre-se Galileu Galilei, encenado pelo Grupo Oficina em 1968, com estréia no mesmo dia em que se editou o AI-5, pelo qual os militares cassavam as liberdades públicas. Tendências racionalistas, de índole marxista, e irracionalistas, estas ligadas à contracultura que então se afirmava, batiam-se dentro do grupo, o que resultou em espetáculo híbrido (e bem-sucedido): o texto de Brecht narra a história do astrônomo renascentista para ressaltar os poderes críticos e a responsabilidade política da ciência, enquanto a montagem dirigida por José Celso Martinez Corrêa sublinhava uma das cenas, a do carnaval, até a embriaguez, como se correntes contrárias se chocassem no interior do mesmo espetáculo.

A Ópera do malandro vem atualizar a Ópera do mendigo (1728), do inglês John Gay, e sua descendente alemã, 200 anos posterior, a Ópera dos três vinténs, de Brecht e Weill. Esta já havia sido encenada (por exemplo) sob a direção de José Renato, em 1964; a adaptação de Chico Buarque, apoiada em convivência já extensa dos brasileiros com a obra de Brecht, traz a ação para o Rio de meados dos anos de 1940, quando a ditadura de Vargas chegava ao fim e o país entrava numa fase de ambígua modernização capitalista.

Em lugar de replicar o niilismo existente na Ópera dos três vinténs, Chico e o diretor Luís Antônio Martinez Corrêa acentuaram seus aspectos de crítica política, satirizando o clima de engodo que se armava no segundo pós-guerra, quando os Estados Unidos se confirmavam no papel de líderes do mundo “cristão e ocidental”. Propunha-se analogia do passado, os anos de 1940, com a atualidade, a década de 1970, momento em que se continuava a promover, por aqui, o banquete das elites.

O que permanece válido em Brecht, agora? Conforme notou Roberto Schwarz no artigo “Altos e baixos da atualidade de Brecht”, de 1999 (5), a obra do dramaturgo carece hoje de revisão e de crítica, dado que premissas importantes de seu trabalho perderam força. O primeiro pressuposto vencido é o de que o mundo caminharia para uma ordem solidária ou socialista: não foi o que ocorreu. Já a segunda premissa refere-se ao arsenal das técnicas épicas, que parecem gastas. Os recursos de quebra da ilusão cênica e, por extensão, política, tomados tal e qual Brecht os compreendeu, apropriados inclusive pela publicidade, deixaram de ser eficazes.

Schwarz diz também, no entanto, que o reexame das peças pode nos reconduzir a bons achados. Um exemplo: o ácido retrato de um capitalismo amoral, como que absoluto, isento de culpas ou recalques, exposto em Santa Joana dos Matadouros. Ao parodiar a literatura clássica alemã, fazendo-a falar o jargão das negociatas, a peça ilustra o quanto há de vivo na ampla obra do dramaturgo.

A receita vale para outros grandes textos do autor, que se mantêm atuais, até porque a realização das esperanças de mundo melhor teve mesmo de ser adiada por tempo indeterminado. Nosso mundo, meio século mais velho que o de Brecht, guarda pontos de contato fundamentais com o dele. O que, aliás, não é de se comemorar.

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NOTAS

1. BADER, Wolfgang. Brecht no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
2. in Brecht no Brasil, pág.223
3. in Brecht no Brasil, pág 226
4. VIANNA FILHO, Oduvaldo e GULLAR, Ferreira. Se corre o bicho pega, se ficar o bicho come. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966
5. SCHWARZ, Roberto. “Altos e baixos da atualidade de Brecht”, in Seqüências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp

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"Cuba vai mudar, mas do seu jeito"

Ricardo Mendonça

Ignacio Ramonet

Profissional
É o atual diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, publicação mensal impressa que em 2007 também começou a circular no Brasil

Acadêmico
Especialista em geopolítica e estratégia internacional, é doutor em Semiologia e História da Cultura e professor de teoria da comunicação na universidade Denis Diderot de Paris.

O que publicou
Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes (Boitempo) e Geopolítica do Caos (Vozes), entre outros.

 

O espanhol Ignacio Ramonet, diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, talvez seja o não-cubano que melhor conheça Fidel Castro e as entranhas de Cuba. Autor do livro Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes (a maior entrevista já concedida pelo cubano), ele descarta transformações abruptas na ilha após a passagem de poder à nova geração. As mudanças, diz, serão diferentes daquelas vistas na China ou no leste europeu. Com a saúde debilitada, Fidel deu sinais que poderá abrir mão da presidência neste ano. O jornalista espanhol amigo de Fidel diz quem são e o que farão os líderes cubanos da nova geração.

ÉPOCA - Fidel está com 81 anos, afastado poder há mais de um ano e, ao contrário do que muitos previam, principalmente nos EUA, isso não resultou em nenhuma mudança substancial do regime. O senhor tem alguma explicação?
Ignacio Ramonet -
Sim. Acredito que essas análises que os EUA faziam eram baseadas sobre seu próprio desejo, não sobre a realidade. Todos os observadores sérios sabiam que o regime era mais sólido do que dizia a administração dos EUA. A prova disso é o que tem ocorrido agora. Já estamos no pós-Fidel, em certa medida. Ele não está mais governando e, como você disse, não há nada excepcional. A situação é estável, não há protestos, as instituições são sólidas, tivemos eleições municipais, haverá eleições legislativas agora em 2008 e, depois disso, será escolhido o novo presidente.

ÉPOCA - Não são eleições viciadas?
Ramonet -
Há um partido único e podemos pensar que isso não corresponda a uma sociedade sofisticada. Eu comentei isso com Fidel. Cuba é hoje um país com alto nível cultural, um nível educacional muito alto, muitos cientistas, técnicos, engenheiros, médicos. Então o partido único não é suficiente para refletir a sofisticação, a variedade, a pluralidade da sociedade cubana. Mas há um sistema de funcionamento democrático que merece ser bem observado. Os candidatos não podem ser apresentados pelo partido. Eles surgem da sociedade e são votados nas assembléias populares. Essas pessoas podem ser oponentes ao sistema, podem ser membros do partido. Mas muitos nãosão nem uma coisa, nem outra. São pessoas normais. Há pastores protestantes que são deputados, há sacerdotes, militantes cristãos que não concordam com a pena de morte, com algumas decisões.

ÉPOCA - Mesmo assim, continua sendo partido único.
Ramonet -
O partido único se justifica no contexto de hostilidade que vive Cuba. Sempre que pensamos na evolução que poderia ocorrer em Cuba, temos que perguntar como irão evoluir os EUA com relação a Cuba. Irão suprimir o embargo econômico? Irão suprimir a pressão diplomática? Irão suprimir a ameaça militar, com invasões, terrorismo e apoio aos grupos que cometem atentados e sabotagens? Se pensarmos nisso, veremos que, apesar de tudo, em Cuba há um processo eleitoral muito interessante.

ÉPOCA - Raúl Castro, o irmão de Fidel que interinamente preside a ilha, tem idade avançada e dificilmente será sucedido por alguém que tenha participado da revolução de 1959. É razoável esperar algo diferente de um dirigente que não tenha participado da revolução?
Ramonet -
Certamente. O mais provável é que o próximo presidente seja Raúl. Mas Fidel mesmo disse que Raúl não é a verdadeira sucessão, é a continuidade. O mais importante para a revolução é quando a nova geração assumir o poder. Mudanças evidentemente irão ocorrer, pois o contexto político não é mais o mesmo, Cuba não está mais isolada. Tem excelentes relações com Brasil, Argentina, Venezuela, Equador, Bolívia e Chile, entre outros.

ÉPOCA - Quem são esse possíveis substitutos da nova geração?
Ramonet -
Carlos Lage (atual vice-presidente) tem uma trajetória interessante, pois vem da direção da juventude estudantil. Felipe Perez Roque (atual ministro das Relações Exteriores), foi presidente da federação de estudantes universitários e secretário pessoal de Fidel por muito tempo. Os dois têm excelentes relações com Raúl e Fidel. Há outros: Abel Prieto, ministro da Cultura, Ricardo Alarcón (presidente da Assembléia Popular), um homem muito culto. Todos são conscientes da necessidade de proteger a identidade e a independência de Cuba. Não estou falando de modelo econômico, mas filosófico.

ÉPOCA - E do ponto de vista econômico?
Ramonet -
Há muita gente especulando se Cuba irá adotar o modelo chinês ou vietnamita. Desde 1959 Cuba tem tido aliados indispensáveis para resistir a pressão dos EUA. Mas separe que Cuba nunca adotou um modelo de maneira mimética: nunca foi semelhante à União Soviética. A organização da economia foi diferente, o setor agrícola foi preservado em cooperativas voluntárias, nunca de maneira violenta. Em muitos setores foram conservados os proprietários privados, como o de tabaco. Cuba sempre foi por uma via particular. Estou convencido que nessa nova etapa Cuba tratará de definir também uma via singular.

ÉPOCA - O senhor acha que o regime pós-Fidel, mesmo conduzido por pessoas de sua confiança, responderá às reivindicações reprimidas por mais participação democrática e oportunidades econômicas?
Ramonet -
Isso é verdadeiro, Cuba tem muitos problemas na vida cotidiana. Problemas com alimentação, habitações e também com o transporte público. Mas neste momento, esses três problemas são os temas sobre os quais está trabalhando o governo. Num contexto geopolítico diferente, a sociedade irá evoluir. As novas gerações são conscientes que estamos em outra época.

ÉPOCA - Em Cuba há pena de morte, dissidentes presos, restrições para deslocamentos, inexistência de organizações independentes. Por tudo isso, o senhor não classifica Fidel como ditador?
Ramonet -
Há pena de morte, é verdade, mas não é aplicada mais há cinco anos. Há uma moratória. O próprio Fidel me disse que, filosoficamente, é contra. Com relação aos dissidentes, é preciso ser prudente. De fato, há pessoas detidas, mas não pelo que pensam, mas pelo que fazem: organizar grupos financiados pela embaixada dos EUA. Fora isso, todas as personalidades importantes da dissidência estão em liberdade e têm suas atividades, como Martha Beatriz Roque, Vladimiro Roca e Oswaldo Payá. Quando você fala em penas altas, é preciso levar em consideração que Cuba é um dos países que mais sofre com o terrorismo. Grupos anti-cubanos de Miami já fizeram 3.500 mortos nos últimos 40 anos. E com relação a Fidel, ele se manteve muito tempo no poder, mas porque Cuba está sob muita hostilidade. Fidel é produto da história, fundador do Estado cubano, teórico da revolução, além de líder carismático. Ele é a estratégia da resistência cubana. Mas o sistema não está pensado para que outro dirigente fique 40 anos no poder.

ÉPOCA - Logo no começo da biografia-entrevista de Fidel, o senhor descreve o gabinete dele e cita um busto de Abraham Lincoln. Não lhe pareceu estranho a presença da estatueta de um presidente americano naquele local?
Ramonet -
Fidel Castro, curiosamente, tem grande admiração por Lincoln. Não sei se você se lembra, mas a primeira viagem de Fidel após a revolução de 1959 foi para os EUA. Ele foi visitar o Congresso e se inclinou na frente da imensa estátua branca de Lincoln. É porque Lincoln foi o libertador dos escravos. Para Fidel, foi uma figura muito importante. Mas Fidel nunca escondeu sua admiração por John Kennedy, Jimmy Carter ou Bill Clinton. As relações sempre foram difíceis com Ronald Reagan e Bush filho.

Revista Época

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Ditadura de Mugabe conduz o Zimbábue ao caos

A vida média não chega aos 40 anos e a inflação é de 8.000%
Rafael Ramos
Enviado especial a Victoria Falls
São 9 da manhã e as dezenas de pessoas que lotam a plataforma número 1 da minúscula estação de Victoria Falls olham para o relógio desesperadas. Há duas horas deveria ter chegado o trem de Bulawayo trazendo pão, gasolina e alguns sacos de alimentos para fazer um pouco de volume nas desoladas prateleiras do armazém da cidade. Depois de um momento, começa a correr o rumor de que o trem descarrilou, e as pessoas já prevêem passar mais alguns dias sem farinha, café ou açúcar.
"Tudo deixou de funcionar neste maldito país", exclama Julius, um guia turístico que costumava ganhar a vida levando americanos ricos para caçar. "É o colapso absoluto do Estado e de todas as suas instituições. Não há moeda, não há alimentos, não há gasolina, não há eletricidade, não há peças de reposição… Mugabe? Até um macaco faria melhor que Mugabe. O mínimo que se pode pedir a um ditador é que saiba administrar a economia."

Philimon Bulawayo/Reuters - 12.dez.2007

O presidente Robert Mugabe gesticula para seus militantes em Harare, Zimbábue

Para um país que prende e tortura rotineiramente os membros da oposição, e no qual é contemplada com a prisão a entrada e o trabalho sem permissão (que nunca é concedida) de jornalistas estrangeiros, surpreende o entusiasmo unânime com que todo mundo -atendentes de comércio, motoristas, porteiros de hotel, vendedores ambulantes, homens de negócios- critica e insulta Mugabe. Inclusive os soldados. "É que eles também têm de comer", explica Julius.
"A arma mais importante do presidente é a ignorância", comenta Taka, integrante da etnia ndebele que emigrou de Harare há alguns meses para tentar ganhar a vida em Victoria Falls, onde os turistas sul-africanos deixam gorjetas em rands, que, transformados em dólares do Zimbábue, valem uma fortuna. "As autoridades municipais são ex-soldados que lavaram o cérebro da população, convencida de que se não apoiarem o regime os britânicos tomarão outra vez o país, como se isso fosse possível. A única solução é se fazer passar por um deles, prometer o voto e, nas urnas, dá-lo à oposição."
Os números falam por si: a expectativa de vida não chega aos 40 anos, a inflação oficial é de 8.000% (a real é estimada em 150.000%, a maior da história em qualquer lugar do mundo), e nem mesmo essa cifra significa nada diante da falta de dinheiro em circulação. A Reserva Federal de Zimbábue acaba de emitir novas cédulas de 1, 5 e 10 milhões de dólares locais. Os preços mudam a cada hora. Para comprar qualquer coisa -no caso improvável de que esteja à venda- é preciso levar uma sacola cheia de notas.
Os hospitais exigem dinheiro antecipado -através de transferências que demoram até três ou quatro dias- para realizar uma operação. Os cortes de luz interrompem as cirurgias. Há três anos não há gasolina no posto de serviço de Victoria Falls. A livraria está fechada. As filas para subir no ônibus são tão grandes que os motoristas multiplicam as tarifas por cinco, só admitem os que pagam e embolsam a diferença. Com o orçamento de sete anos atrás para as obras inacabadas do aeroporto hoje só é possível comprar 16 pães de forma.
Em Zimbábue todo mundo é milionário. Um jornal custa 2 milhões de dólares, um pedaço de carne 100 milhões. Considera-se normal que um turista deixe uma gorjeta de 10 milhões (que não chega a 4 euros e mal dá para comprar uma penca de bananas).
"O problema é que um salário médio não passa de 20 milhões", conta Dakarai na porta de sua modesta casa de azulejos em uma periferia de Victoria Falls distante dos turistas, entre o latido de cães famintos e os esqueletos de carros depenados, mas cheia de antenas parabólicas que custam US$ 100 em Gabarone, e a assinatura mensal tanto quanto o aluguel de uma casa.
Dakarai é um milionário de Mugabe que pode ganhar a vida em moeda estrangeira (o sonho de qualquer pessoa) porque fala inglês perfeitamente e tem um carro próprio. Mesmo assim sua renda só basta para alugar um quarto para ele, sua mulher e seus dois filhos e dividir a cota da parabólica, que permite ver os jogos dos campeonatos inglês, italiano e espanhol.
"O Barça está zero a zero com o Mallorca aos 20 minutos do primeiro tempo, não está jogando muito bem", ele explica depois de entrar um pouco em casa para deixar uma garrafa de Coca-Cola, batatas fritas e alguns pães que comprou em Botsuana (vai congelar a maior parte), aproveitando que levou um grupo de turistas ao parque nacional de Chobe.
"Shhh", diz Dephne, corretora da Bolsa de Harare, quando avista o posto de fronteira que separa Victoria Falls de Zâmbia. "Este é o único lugar onde não se pode falar, todos os guardas são do serviço de inteligência."
Uma vez no país vizinho, deixando para trás uma fila de caminhões que espera quatro dias para passar pelos trâmites, a especuladora financeira resume seu brutal relato, e isso que pertence à classe média acomodada, cada vez mais escassa: "O Estado é o principal cliente do mercado negro, porque não existe outra economia. Não há dinheiro porque os preços sobem mais depressa do que a Reserva Federal consegue imprimir notas. A única maneira de sobreviver como empresário é ter uma contabilidade fictícia para que nunca haja efetivo, porque se evapora. Comprar e vender eletronicamente. Todas as lojas e empresas sofrem prejuízos há meses, mas se você fechar pode ser expropriado, é um círculo vicioso".
O salário de Salomon, seu marido e vice-presidente de uma empresa de exportação e importação de Harare, da etnia shona, é de 1,8 bilhão de dólares de Zimbábue por mês (quase 2 mil euros no câmbio real), mas o de seus empregados não chega a US$ 20. "Os ajudamos a conseguir açúcar, farinha e café a preços de custo, já que podemos comprar no atacado", explica, "e lhes damos o transporte, caso contrário não viriam trabalhar, não compensa."
O rumor é verdadeiro, o trem de Bulawayo -com seus vagões azuis construídos na Inglaterra nos anos 1950, painéis de madeira e o velho logotipo colonial das Ferrovias da Rodésia ainda inscrito nas janelas- realmente descarrilou. Mais um dia sem pão nem café. A multidão se dissolve resignada e volta a suas tarefas cotidianas em um país destroçado onde sobreviver já é uma vitória.
"Que o Senhor leve Mugabe logo", pede Julius depois de um longo silêncio só perturbado pelo rugido das cataratas Victoria, enquanto indica com o polegar o infinito céu africano.
Benefícios por apoiar o ditador
Robert Mugabe continua agarrado ao poder aos 84 anos, não cumpriu a prometida reforma constitucional e convocou para 29 de março eleições à sua medida e nas quais se desconhece se participará o partido de oposição MDC, dividido em duas facções (a de Morgan Tsvangirai e a de Arthur Mutambara).
"Este é um país eminentemente rural", explica George, um motorista que leva turistas a Zâmbia, "onde dois terços da população vivem no campo com uma economia de subsistência. Para essa gente dá na mesma que não haja dinheiro em circulação: não o utilizam. Cultivam milho, têm algumas galinhas, e com isso comem."
É dai que Mugabe e seus sequazes do ZANU-PF (o partido oficial) tiram os votos para ganhar as eleições, ou pelo menos as manipulam com registros de mortos de Aids -o que é fácil, já que dois quintos da população têm o vírus e mais de 600 pessoas são contaminadas por dia. O ditador mantém essa maioria silenciosa seduzida à base de pequenos presentes -ferramentas agrícolas, alimentos, gasolina, peças para tratores, subvenções à moradia…- que só são concedidas aos que o apóiam.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Estúdios americanos são atraídos por Bollywood

Joe Leahy

Os investidores internacionais se preparam para fazer um ataque sem precedentes a Bollywood este ano, com vários estúdios de Hollywood e um grupo de fundos listados em Londres tentando conseguir uma parte do mercado de cinema mais prolífico do mundo.

Grupos de estúdios como a Sony Pictures Entertainment, a Viacom, que controla a Paramount Pictures, e a Disney estão trabalhando em novos lançamentos e parcerias que lhes darão acesso à indústria de cinema da Índia, antes fechada e peculiar.

“O fato é que a indústria na Índia está ficando cada vez mais igual à do resto do mundo”, disse Michael Lynton, presidente e executivo-chefe da Sony Pictures Entertainment. “Se parece mais com um negócio que entendemos do que parecia talvez dez ou 15 anos atrás, e a tendência é tornar-se ainda mais parecida.”

As receitas de bilheterias da indústria de filmes de Bollywood em língua hindi, baseada principalmente em Mumbai [antiga Bombaim], e os equivalentes nas línguas regionais do país, concentrados principalmente nos Estados do sul, cresceram a um índice anual de 16%, segundo a PwC. A indústria gerou receitas de US$ 2,1 bilhões em 2006 e deverá valer o dobro disso nos próximos três anos, segundo a empresa de serviços profissionais.

Dominada no passado por dinastias de diretores e atores, muitas vezes com fontes de verbas nebulosas, incluindo possivelmente o submundo indiano, a indústria está avançando para um modelo corporativo. Os filmes estrangeiros até agora respondiam por apenas uma fração das bilheterias indianas, levando muitos estúdios de Hollywood a pensar em fazer filmes em língua local para aumentar sua participação no mercado.

A Sony foi o primeiro, com o lançamento em novembro de um filme musical em hindi, “Saarwariya”, a primeira produção de Hollywood de um filme de Bollywood. Ele teve uma dura recepção da crítica, mas faturou US$ 20 milhões nas primeiras semanas de lançamento, comparado com um custo de produção de US$ 8 milhões, segundo a Sony.

Ela assinou um contrato com uma das principais companhias cinematográficas da Índia, a Eros International, que também está listada no Mercado de Investimento Alternativo (AIM, na sigla em inglês) de Londres, pelo qual as duas empresas pretendem fazer de quatro a seis filmes indianos por ano.

Enquanto isso, a Indian Film Company, um fundo de investimentos também listado na AIM e administrado por uma companhia controlada pela Viacom e pelo empresário de TV indiano Raghav Bahl, pretende capturar de 20% a 25% do mercado de Bollywood, com quatro grandes filmes em produção.

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

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As fábricas da ideologia

Michel Husson

Dentre as instituições que influenciam e moldam as “reformas” efectuadas através do mundo todo, o Banco Mundial contribuiu para forjar um dogma aplicado universalmente. Ele acaba de ser posto seriamente contestado num relatório de avaliação elaborado por um grupo de economistas reconhecidos [1] . Após umas pinceladas, os avaliadores passam aos assuntos sérios: “uma grande parte da investigação é medíocre” ou “tecnicamente deficiente” e o Banco errou ao fundamentar suas tomadas de posições sobre tais “não-demonstrações”. Muitos investigadores do Banco “parecem pensar que ferramentas técnicas são suficientes para estabelecer um nexo de causalidade”. Muito poucos estudos são conduzidos com investigadores dos países em desenvolvimento não pertencentes ao Banco. O resto impressiona.

Primeiro exemplo destas derivas: as reformas. Toda a argumentação liberal em favor dos fundos de pensão repousa num teorema desta espécie: “uma vez que em geral se espera uma taxa de rendimento financeiro superior à taxa de crescimento, as reformas pela Segurança Social têm necessidade de contribuições mais elevadas para assegurar o mesmo nível de reformas dos fundos de pensões”. Conclusão: o sistema pela Segurança Social é menos eficaz. Mas este tipo de raciocínio repousa, segundo o avaliador que o cita, sobre um “erro grosseiro” que nem “um estudante do primeiro ano” cometeria: as reformas mais elevadas que os fundos de pensão poderiam almejar à partida seriam em seguida pagas pela “baixa das reformas daqueles que virão mais tarde”.

Segundo exemplo: os trabalhos de David Dollar. Este economista do Banco Mundial é o co-autor de um artigo famoso estabelecendo que o crescimento é bom para os pobres (Growth is good for the poor). O comentário é severo: “Uma boa parte desta linha de investigação sofre de deficiências são graves que os seus resultados estão muito longe de poderem ser considerados como fiáveis”. Se esta tese foi avançada é porque ela ia no sentido das posições do Banco ao passo que outros trabalhos, como por exemplo aqueles de Branko Milanovic, outro investigador do Banco Mundial, eram “ignorados”. Com certeza: eles mostravam que “é o crescimento que, em geral, conduz à abertura comercial, e não o inverso” e que esta abertura tem efeitos “particularmente desfavoráveis sobre os baixos e médios rendimentos nos países pobres”.

Trata-se de mecanismos de filtragem que são descascados por Robin Broad, uma economista que não fazia parte do painel [1] . Ela distingue seis mecanismos principais: recrutamento, desenvolvimento de carreira, selecção dos papéis, desencorajamento dos discursos discordantes, manipulação dos dados e escolha de comunicação para o exterior. Os investigadores que ela interrogou confessavam que não raro que lhes fosse pedido que fizessem uma avaliação “para provar que o programa X funciona”. Esta abordagem lança as bases de uma verdadeira sociologia dos centros de investigação em economia que os estudaria enquanto aparelhos de produção, avaliando a força de ataque que representam os batalhões de investigadores pagos para ilustrar as benfeitorias do neoliberalismo.

Estas críticas bem certeiras não impedem as instituições visadas de continuar imperturbavelmente o seu “trabalho”. O primeiro relatório da OCDE consagrado à Índia deplora o rigor da legislação do trabalho e sugere “ajustar o nível de protecção do emprego para aumentar o emprego”. Nos países da zona euro, a OCDE recomenda “suavizar a legislação relativa à protecção do emprego” e “aumentar a flexibilidade dos salários”. E é sem surpresa que o FMI felicita a União Europeia pelas “reformas” dos mercados do trabalho: Dominique Strauss-Kahn terá muito a fazer para dar uma aparência “de esquerda” às suas próximas intervenções.

A longa litania de relatórios estimulados pelo governo francês não escapa ao pouco mais ou menos e ao não importa o que; assim, a ideia da Comissão Attali, segundo a qual a liberalização da grande distribuição permitiria criar “várias centenas de milhares de empregos” tem a ver mais com o guichet do caixa do que com a análise económica. Não há dúvida que é a ideologia dominante que se fabrica nestas verdadeiras centrais de produção e não é inútil revelar o seu modo de produção.

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Na Europa, a universidade viaja para o futuro

O plano europeu envolve mais participação e menos anotações

Elena Sevillano

Cada aluno irá à aula com seu notebook, as classes serão menores, semicirculares, e terão wi-fi, o anfiteatro desaparecerá do dia-a-dia, sendo reservado para as palestras ocasionais de grandes especialistas, e os alunos de todo o campus poderão interagir pela Internet. Depois de anos de atraso, a Espanha pisou fundo no acelerador no último ano.

Desde 1999, quando toda a União Européia assinou a Declaração de Bolonha, na qual se comprometia a estabelecer em 2010 um espaço comum europeu que fomentasse a mobilidade de alunos e professores entre países de forma a adaptar aos novos tempos o modo de ensinar e aprender nos campus, com tudo o que isso envolve, a Espanha não tinha feito quase nada até o ano passado. Em 2007 foram aprovados os mecanismos básicos para que as universidades começassem a implantar essas mudanças, e já o fizeram.

Podem-se cursar carreiras ou disciplinas online em quase todas as universidades, as classes estão sendo reformadas em alguns centros para promover o ensino mais individualizado, estão se reforçando as tutorias (que no futuro serão assessorias pessoais no escritório ou pela Internet) e começa a aparecer a semipresencialidade. Isto é, os cursos combinarão cada vez mais horas presenciais com outras de trabalho em grupo pela Internet (cada um em sua casa ou no parque) e aulas virtuais. Sempre haverá uma parte presencial, mas será muito mais participativa.

Lara María Pérez Llopis freqüenta cada vez menos os escritórios para tutorias; nove de suas 14 disciplinas de segundo ano do curso de magistério estão ativas na classe virtual de sua universidade, Jaume I de Castellón. Quando tem dúvidas, ela se conecta e envia uma consulta a seu professor: recebe a resposta em 48 horas no máximo. Três quartos de sua classe utilizam habitualmente essa ferramenta para baixar documentos, olhar as notas de uma prova ou bater papo na cafeteria virtual. Seu grupo utiliza o Google Doc quando não pode se reunir para um projeto conjunto: trabalham em rede e ao mesmo tempo, num documento compartilhado.

Mercedes Sanz, professora do departamento de Filologia e Culturas Européias na mesma universidade, manda e recebe tarefas no campus online, organiza fóruns de discussão com seus alunos e, no ano passado, orientou uma bolsista Erasmus na Alemanha à base de Internet, correio eletrônico e webcam. A jovem terminou o curso com uma nota excelente.

O presente de Mercedes e de Lara -que leva o notebook a toda parte, se conecta de casa e busca cobertura wi-fi como se fosse uma vidente- dá amostras do peso das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na universidade do futuro, segundo explica Jordi Adell, responsável por Educação e Novas Tecnologias na Jaume I: “Haverá cada vez mais acesso às classes virtuais, aos aprendizados informais e às comunidades profissionais e científicas”. Os emissores de informação se multiplicam. As distâncias e as fronteiras se pulverizam: “Um estudante poderá cursar disciplinas em outros campus”, sem que, na opinião dos especialistas, o virtual consiga acabar com o presencial.

Exceto em tipologias muito concretas de alunato, como na Universitat Oberta de Catalunya (UOC), que é referência em aprendizado à distância na Espanha: a média de idade de seus alunos é de 30 anos, nove em cada dez trabalham e quatro em cada dez têm filhos; procuram ampliar conhecimentos em seu posto atual, promover-se em sua empresa, mudar de emprego. No curso 1995-1996 eram 200 alunos; este ano aproximam-se de 45 mil, e um quarto deles vive fora da Catalunha.

“O e-learning avançará em alguns mestrados, mas sua verdadeira explosão, embora não em curto prazo, será na formação contínua”, estima Antonio Artés, vice-reitor de pós-graduação da Universidade Carlos 3 em Madri. Nas graduações ganhará terreno um “modelo misto de formação semipresencial com aulas presenciais concentradas” e o resto online, prevê Adell.

“A Universidade Politécnica de Madri (UPM) organiza um concurso de robótica, o Cibertc. Os grupos inscritos recebem aulas sobre conceitos gerais e depois cada um cria seu projeto, sob a orientação de um professor. Concorre com outros robôs que rastreiam, jogam, evitam obstáculos. Ganha o que melhor resolver as questões que lhes forem colocadas.” Javier Uceda, reitor da Politécnica de Madri, cita esse concurso como exemplo de como se aprende fazendo, “learning by doing”, ele diz. Na opinião de Uceda, esse será o modo de fazer no futuro. E a própria estrutura física da escola mudará, para permitir uma maior interação. “As classes terão um entorno semicircular, com uma tela para se projetar imagens.” Não é que ele esteja deixando a imaginação voar, é que a UPM já iniciou essa linha de remodelações. E anuncia mais: “Será preciso organizar salas para reuniões e trabalho em grupo e individuais”. Suas bibliotecas já dispõem de um serviço de empréstimo de notebooks.

Mau sinal, a esta altura, que um campus ainda não esteja conectado à Internet. “Cem por cento das universidades públicas espanholas têm cobertura wi-fi”, afirma Sebastián Muriel, diretor-geral da Red.es, uma entidade dependente da Secretaria de Estado de Telecomunicações e da Sociedade da Informação, que promove o “Campus en Red” para favorecer o desenvolvimento de “serviços como e-learning, localização ou transmissão de voz através das redes IP (VoIP)”, segundo os objetivos do programa.

Cerca de 72% das 50 universidades participantes do estudo “As TIC no sistema universitário espanhol de 2006″, realizado pela Conferência de Reitores das Universidades Espanholas (Crue), contam com uma unidade de ensino virtual e 80% desenvolveram tecnologias educacionais de apoio aos docentes.

“Nós, economistas, não fazemos futurologia”, diz Carlos Berzosa, reitor da Universidade Complutense de Madri (UCM), quando indagado sobre a universidade do futuro. Mas o futuro já é uma realidade refletida no espelho anglo-saxão e nas diretrizes do Espaço Europeu de Educação Superior (EEES), que deverá estar totalmente implantado em 2010.

“Se dará ênfase ao aprendizado ativo, e não às anotações ditadas; haverá mais seminários e tutorias, e os grupos serão reduzidos”, cita Berzosa. Entre outras coisas, porque diminuem os matriculados. “Quando eu era decano de econômicas tínhamos 14 mil alunos; hoje são 6 mil”, compara. As classes diminuirão de tamanho e se multiplicarão em número: “Faremos como os cinemas que se transformaram em multiplex”. Mas sem que desapareça o anfiteatro ou a aula magistral “do Professor com maiúscula”, em forma de videoconferência. Berzosa e Uceda concordam que a presença dos alunos no campus se estenderá além do horário letivo.

E que carreiras estudarão? Não desaparecerá nenhuma, se forem cumpridas as previsões de Mariano Fernández Enguita, catedrático de sociologia da Universidade de Salamanca e promotor do portal Innova de educadores na rede, mas crescerão mais “aquelas que correspondem a tecnologias produtivas e sociais com uma demanda crescente, o que representa uma mudança econômica geracional: biomedicina, informática, audiovisuais, educação, políticas públicas”. Uma parte cada vez maior de sua atividade, tanto em pesquisa como em ensino, “se desenvolverá em colaboração com outras entidades públicas e privadas”.

Segundo esse catedrático, a universidade do século 21 deverá ter flexibilidade para se adaptar: em uma sociedade do conhecimento, “deixará de quase se limitar ao aprendizado inicial para se transformar em palco natural da formação permanente e em sócio habitual da formação contínua (para as empresas)”. Em uma economia do conhecimento, “haverá uma estratificação vertical, horizontal e funcional das titulações: vertical porque veremos uma relativa perda de valor do título de graduação e um papel mais determinante e diferencial das pós-graduações; horizontal porque se dará mais importância a em que universidade se obteve um título; funcional porque títulos do mesmo nível e centro terão valor de mercado muito diferente, segundo sua especialidade”. Em uma sociedade global, “se destacarão alguns títulos de reconhecimento transnacional: doutorados europeus, escolas de economia de projeção internacional, títulos coroados com bolsas no exterior, títulos de algumas universidades globais”, prevê Fernández Enguita.

“Não podemos ser bons em tudo”, afirma Josep Eladi Baños, vice-reitor de docência e ordenação acadêmica da Pompeu Fabra, que potencializou suas matérias “mais brilhantes” até se especializar em biomedicina, humanidades e ciências sociais e da comunicação. O campus de Barcelona iniciou seu processo de adaptação ao crédito europeu em 2004; desde então as atividades presenciais se reduziram em 20%, “e vão continuar diminuindo”, prevê; entre 70% e 80% de seus novos matriculados já estudam segundo os planos europeus. “Se for bem feito, representa mais trabalho para professores e alunos, mas em troca se consegue um melhor rendimento acadêmico”, explica o vice-reitor. Mas a transição “é dura”, adverte Baños.

É preciso dar uma tal virada metodológica, que Ramón Capdevilla, adjunto do conselheiro delegado do portal Universia, teme o risco de uma mudança apenas formal, sem evolução das estruturas. Uma “maquiagem”, segundo Baños. Em todo caso, o processo será lento, “de cinco a dez anos”, calcula o porta-voz da Universia, e despertará (já está despertando) reticências nas academias: “Os conhecimentos científicos e a qualidade docente continuarão valorizadas”, o “sábio”, o “grande gênio” manterá distância da aula magistral, cercando-se de uma equipe docente que atenderá mais diretamente aos alunos. Mas o embusteiro -”o que pensa: solto meu palavreado, e se ninguém conseguir falar comigo e eu tiver ensaiado bem meu papel não terei problemas”, exemplifica Capdevilla-, que hoje ainda consegue aplicar seus truques, dificilmente sobreviverá a uma tutoria ou a uma classe menor, personalizada e interativa.

Nas carteiras senta-se um aluno geralmente passivo. “Tem pouca cultura do esforço, e isso se nota particularmente em titulações que representam uma carga de trabalho apreciável”, lamenta o vice-reitor da Carlos 3. Ele defende uma mudança de mentalidade para uma maior responsabilidade e participação. Essa jovem universidade de Madri é mais ágil na hora de abordar as mudanças e dar destaque ao aprendizado. Para isso precisa de um financiamento adequado, como reivindica.

“As universidades serão mais multiculturais, democráticas e eqüitativas, mais abertas ao ambiente internacional e mais competitivas, oferecerão uma educação mais personalizada e serão mais adaptadas às novas necessidades sociais”, prevê Miguel Ángel Quintanilla, secretário de Estado de Universidades.

O reitor da UPM acrescenta duas necessidades: pelo menos seis meses de experiência internacional -”os idiomas são vitais”- e estágios em empresas. A universidade deve se orientar mais para a empresa, concordam muitos especialistas, mas sem jamais pôr-se a seu serviço. O vice-reitor da Pompeu Fabra vê o futuro como uma oportunidade de alcançar mais prestígio internacional. A Espanha é o país europeu que mais bolsas Erasmus recebe, e não só pelo sol e a cerveja, e o potencial futuro é sem dúvida a América Latina, afirma.

El País
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Criança consciente

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O ano em que o Brasil foi inventado

O que seria de nós se a família real não tivesse vindo para cá?

Laurentino Gomes

O Brasil foi descoberto em 1500, mas inventado como país em 1808. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os 13 anos em que a corte portuguesa permaneceu no Rio de Janeiro.

Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia proibida, atrasada e ignorante para se tornar um país independente. Portanto, o que se comemora em 2008 não são apenas os 200 anos da chegada da corte ao Rio de Janeiro. O próprio Brasil está fazendo aniversário.

Uma forma de avaliar a herança de dom João VI na história brasileira é abordar a questão pelo avesso: como seria hoje o país se a corte não tivesse fugido para o Rio?

Apesar da relutância em fazer conjecturas sobre o passado, todos os historiadores concordam que, na hipótese mais provável, o Brasil simplesmente não existiria na sua forma atual. A Independência e a República teriam vindo mais cedo, mas a antiga colônia portuguesa se fragmentaria em um retalho de pequenos países, parecido com seus vizinhos da América espanhola, sem nenhuma afinidade entre si além do idioma.

É preciso levar em conta que, 200 anos atrás, o Brasil não existia. Pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de fronteiras definidas e habitantes que se identificam como brasileiros, torcem pela mesma seleção de futebol, usam os mesmos documentos, freqüentam escolas de currículo unificado e comercializamprodutos e serviços entre si.

Às vésperas da chegada da corte ao Rio de Janeiro, o Brasil era apenas uma grande fazenda extrativista de Portugal, sem noção alguma de identidade nacional. As diferentes províncias eram mais ou menos autônomas, sem comércio ou qualquer outra forma de relacionamento, que tinham como ponto de referência apenas o governo português, sediado em Lisboa, do outro lado do Atlântico.

“Cada capitania tinha seu governante, sua pequena milícia e seu pequeno tesouro; a comunicação entre elas era precária, sendo que geralmente uma ignorava a existência da outra”, assinalou o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, que percorreu o país entre 1816 e 1822.

Mantida por três séculos isolada no atraso e na ignorância, a colônia era composta por ilhas escassamente habitadas e cultivadas, distantes e estranhas entre si. Nem mesmo a expressão “brasileiro” era reconhecida como sendo a designação das pessoas que nasciam no Brasil.

Panfletos e artigos publicados no começo do século 19 discutiam se a denominação correta seria brasileiro, brasiliense ou brasiliano. O jornalista Hipólito José da Costa, dono do jornal Correio Braziliense, publicado em Londres, achava que as pessoas naturais do Brasil deveriam se chamar brasilienses. Na sua opinião, brasileiro era o português ou o estrangeiro que lá se estabelecera. Brasiliano, o indígena.

Mãos à obra
Tudo mudaria com a chegada do príncipe regente. Em 1808, passados os atropelos da viagem, era hora de colocar mãos à obra. Dom João não perdeu tempo.

Caberia a ele e seu ministério criar um país a partir do nada. Foram inúmeras as decisões administrativas que o príncipe regente tomou. As novidades começaram a aparecer num ritmo alucinante e teriam grande impacto no futuro do país.

Na escala em Salvador, a medida principal foi a abertura dos portos. Na chegada ao Rio de Janeiro, foi a concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira no Brasil.

A decisão, anunciada no dia 1º de abril de 1808, revogava um alvará de 1785, que proibia a fabricação de qualquer produto na colônia. Combinada com a abertura dos portos, representava na prática o fim o sistema colonial.

Livres das proibições, inúmeras indústrias começaram a despontar no território brasileiro. A primeira fábrica de ferro foi criada em 1811, na cidade de Congonhas do Campo, pelo então governador de Minas Gerais, dom Francisco de Assis Mascarenhas, o conde da Palma. Em outras regiões foram erguidos moinhos de trigo e fábricas de barcos, pólvora, cordas e tecidos.

A abertura de novas estradas, autorizada por dom João ainda na escala em Salvador, ajudou a romper o isolamento que até então vigorava entre as províncias. Sua construção estava oficialmente proibida por lei desde 1733, com a desculpa de combater o contrabando de ouro e pedras preciosas.

As regiões mais distantes foram exploradas e mapeadas. O Pará e o Maranhão ganharam uma nova carta hidrográfica. Goiás, a sua primeira companhia de navegação. Expedições percorreram os rios tributários do Amazonas até as nascentes e estabeleceram a comunicação fluvial entre o Mato Grosso e São Paulo. A navegação a vapor foi inaugurada em 1818 por Felisberto Caldeira Brant, futuro marquês de Barbacena e primeiro embaixador do Brasil em Londres depois da Independência.

A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal publicado em território nacional, começou a circular no dia 10 de setembro de 1808, impresso em máquinas trazidas da Inglaterra. Com uma ressalva: só imprimia notícias favoráveis ao governo.

O mapa da mina
A maior de todas as conquistas de dom João VI, no entanto, foi mesmo a preservação da integridade territorial brasileira. Dois séculos atrás, a unidade política e territorial do Brasil era muito frágil. Sem a mudança da corte portuguesa, os conflitos regionais teriam se aprofundado, a tal ponto que a separação entre as províncias seria quase inevitável. “Essas colônias estariam de fato perdidas para a metrópole se dom João não migrasse para o Brasil”, afirmou em suas memórias o almirante sir Sidney Smith, comandante da esquadra que levou a corte para o Rio.

Uma prova dessa fragilidade foi a própria delegação brasileira enviada a Portugal para participar das votações das Cortes entre 1821 e 1822. Embora o Brasil tivesse direito a 65 deputados, só 46 comparecem às sessões em Lisboa, o que os deixava em ínfima minoria diante da representação portuguesa, composta por 100 delegados. Apesar da inferioridade numérica, os brasileiros se dividiram nas votações. Os delegados das províncias do Pará, Maranhão, Piauí e Bahia se mantiveram fiéis à coroa portuguesa e votaram sistematicamente contra os interesses brasileiros das demais regiões. Em nova demonstração de falta de consenso, em 1822 essas províncias do Norte e Nordeste não aderiram à Independência. Dom Pedro I teve de recorrer à força militar para convencê-las a romper os laços com o governo português.

Com base nessas divergências regionais, o historiador americano Roderick J. Barman, autor do livro Brazil - The Forging of a Nation (”Brasil - o forjar de uma nação”, inédito em português), levanta algumas hipóteses sobre qual teria sido o destino dos territórios portugueses na América sem a mudança da corte para o Rio de Janeiro. Barman acredita que o Brasil poderia ter se desintegrado em três diferentes países.

É fácil imaginar as conseqüências dessa separação:
- Esse Brasil dividido em pedaços autônomos nem de longe teria o poder e a influência que o país exerce hoje sobre a América Latina. Na ausência de um Brasil grande e integrado, o papel provavelmente caberia à Argentina, que seria, então, o maior país do continente;

- Brasília, a capital federal plantada no cerrado por Juscelino Kubitschek em 1961 para estimular e simbolizar a integração nacional, nunca teria existido. O esforço de integração teria dado lugar à rivalidade e à disputa regional;

- Na escola, quando abrissem seus livros de Geografia, as crianças gaúchas aprenderiam que a floresta Amazônica era um santuário ecológico de um país distante, situado ao norte, na fronteira com a Colômbia, a Venezuela e o Peru;

- As diferenças regionais teriam se acentuado. É possível que, a esta altura, as regiões mais ricas desse mosaico geográfico estariam discutindo medidas de controle da emigração dos vizinhos mais pobres, como fazem hoje os americanos em relação aos mexicanos;

- Nordestinos seriam impedidos de migrar para São Paulo. Em contrapartida, ao viajar de férias para as paradisíacas praias da Bahia ou do Ceará, os paulistas teriam de providenciar passaportes e, eventualmente, pedir visto de entrada;

- O comércio e o intercâmbio entre as diversas regiões seriam muito menores e mais complicados. Ao vender seus produtos para Goiás, Mato Grosso ou Tocantins, os cariocas, paulistas e paranaenses teriam de pagar tarifas de importação - e vice-versa.

O pai da criança
À luz da realidade do Brasil atual, tudo isso parece mero devaneio. Ainda assim, não se deve subestimar a importância de dom João VI na construção da identidade dos brasileiros de hoje.

Por essa razão, o balanço que a maioria dos estudiosos brasileiros faz da transferência da corte para o Rio de Janeiro tende a ser positivo, apesar de todas as fraquezas pessoais do rei. Graças a ele, o Brasil se manteve como o país de dimensões continentais, que hoje é o maior herdeiro da língua e da cultura portuguesas. Para o historiador Oliveira Lima, dom João VI foi “o verdadeiro fundador da nacionalidade brasileira”, por duas razões principais: assegurou a integridade territorial e deu início à classe dirigente que se responsabilizaria pela construção do novo país.

Ironicamente, esse legado não seria desfrutado por dom João ou pela metrópole portuguesa. “Ele próprio regressava menos rei do que chegou”, disse Oliveira Lima, ao tratar do retorno do rei a Lisboa, em 1821. “Deixava contudo o Brasil maior do que o encontrara.” Em outras palavras, ao mudar o Brasil, dom João VI o perdeu para sempre. O resultado foi a Independência, em 1822.

Aventuras na História
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O minério é nosso?

André Siqueira

A Vale tenta a maior compra de sua história, mas a União teme que os interesses de mercado prevaleçam sobre os do País

A maior aquisição da história do mundo empresarial brasileiro depende do aval do presidente Lula para ser, ou não, concretizada nos próximos dias. A companhia Vale, segunda maior empresa de mineração do planeta, pretende pagar mais de 80 bilhões de dólares pelo controle da sexta do ranking, a anglo-suíça Xstrata. A operação, segundo a imprensa internacional, conta com o apoio dos financiadores, um pool de 12 grandes bancos que emprestaria 50 bilhões de dólares à empresa. O restante do valor seria coberto pela emissão de novas ações, a ser entregues aos donos da concorrente. O governo se vê diante de um impasse: como manter as rédeas sobre uma empresa com tal porte e importância estratégica para a indústria mundial?
Em teoria, a dúvida não deveria existir. Durante o processo de privatização, há dez anos, foi criada a golden share, cláusula que dá ao governo o poder de veto em negócios que envolvam alterações significativas na estrutura de capital da empresa. Além disso, o BNDES e a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, detêm a maioria das ações controladoras da Vale, ao lado do Bradesco e do banco japonês Mitsui.
Na prática, sabe-se que é cada vez mais difícil conter o ímpeto expansionista da Vale e represar os investimentos da empresa dentro do Brasil. Tal preocupação foi tornada pública pelo presidente Lula. E não sem fundamento. A mineradora é dona da maior malha ferroviária do País, com quase 10 mil quilômetros, e maior investidora do setor. É dona de seis usinas hidrelétricas e responsável por projetos como Estreito, de 1.422 megawatts, e uma térmica no Pará de 600 megawatts. Na área siderúrgica, é o braço capitalista brasileiro em parcerias internacionais para a construção de grandes usinas no Ceará, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.
O presidente da Vale, Roger Agnelli, tem conversado diretamente com Lula nas últimas semanas, em busca de aprovação à compra da Xstrata, mas ainda não recebeu uma resposta definitiva. Analistas de mercado consideram a bênção do governo o último grande obstáculo à compra, por se tratar de um negócio do interesse de ambas as empresas. CartaCapital apurou que, no momento, a tendência é o Planalto vetar a operação.
Ao lado do interesse nacional sobre os rumos da Vale, é preciso observar a movimentação do mercado internacional de exploração mineral, um setor altamente concentrado nas mãos de poucos grupos. A australiana BHP Billiton, maior mineradora do mundo, tenta avançar nas negociações para a compra da terceira colocada, a Rio Tinto. Se bem-sucedido, o arremate criará um gigante no setor, capaz de dar as cartas no mercado caso não tenha concorrentes à altura.
“A dúvida do governo é quase shakespeariana”, avalia o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) Evaldo Alves, especialista em economia internacional e ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “Se não deixar a Vale participar do jogo da globalização e demarcar seus territórios, corre o risco de vê-la perder mercado para as concorrentes ou até receber futuras ofertas de compra. Mas à medida que a companhia cresce, o peso do interesse nacional sobre as decisões da empresa fica diluído.”
O professor lembra ainda que o xadrez da mineração mundial é também uma disputa entre nações emergentes. “Os países desenvolvidos concentram esforços em setores de alto valor agregado, como a nanotecnologia, a química fina e as pesquisas de novos materiais. Mas, se o governo segura o crescimento da Vale hoje, corre o risco de indianos, russos ou chineses entrarem no mercado e se tornarem uma ameaça no futuro”, diz Alves.
As justificativas para a preocupação do governo não param por aí. O especialista em direito societário e professor da USP Modesto Carvalhosa, do escritório Carvalhosa e Eizirik, lembra que, embora a intenção seja utilizar ações preferenciais, sem direito a voto, na aquisição da Xstrata, a Lei das S.As. prevê situações em que esses papéis dão poder sobre a companhia. “Basta que deixem de ser distribuídos dividendos por três anos, um prazo que pode ser reduzido por um projeto de lei que tramita no Senado”, explica. O temor tem base legal, mas não factual, de acordo com o advogado, pois o mecanismo não foi utilizado no País até hoje.
Carvalhosa ressalta ainda a possibilidade, mais concreta, de a companhia transferir o centro decisório e os executivos para fora do País e jogar exclusivamente as regras do mercado, mesmo que a sede formal permaneça no Rio. “Admitida essa hipótese, poderíamos ver a empresa concentrar as exportações nas minas da Oceania, por questões logísticas, e reduzir o ritmo de produção e os investimentos no Brasil”, exemplifica.
A Vale tem minas espalhadas por todos os continentes e é hoje a maior produtora mundial de minério de ferro e um player importante em carvão, alumínio, potássio, cobre, manganês e ferro ligas. Após a compra da canadense Inco, tornou-se também uma das líderes em níquel. Essa última aquisição, fechada em outubro de 2006 por 17 bilhões de dólares, é até agora a maior transação feita pela brasileira, apontada como responsável por um salto no valor de mercado da empresa. Até a quarta-feira 30, a companhia estava avaliada em 134,6 bilhões de dólares, de acordo com a consultoria Economática. O cálculo leva em conta a cotação das ações.
Com a compra da Xstrata, a Vale se tornaria dona de mais de 25% do mercado mundial de níquel e quarta maior produtora de cobre, além de aumentar a presença na área de carvão mineral. Um relatório do Citibank aponta ganhos de até 3 bilhões de dólares a serem alcançados, caso as duas empresas operem em conjunto. O Morgan Stanley prevê em 83 bilhões de dólares o valor a ser pago pela brasileira, com um ágio de 30% sobre o valor de face das ações da concorrente.
Para os investidores do mercado de capitais, o impacto da aquisição da Xstrata também seria significativo. A Vale foi a empresa estrangeira mais negociada na Bolsa de Nova York em 2007, com uma movimentação média diária na ordem de 725 milhões de dólares por dia. Entre a segunda-feira 21, quando assumiu publicamente a negociação com a Xstrata, e a quarta-feira 30, os papéis preferenciais da Vale na Bovespa caíram 3,54%, enquanto o índice Ibovespa registrou alta de 4,84%.
“A crise internacional também teve impacto sobre a cotação, mas a aquisição pode prejudicar a rentabilidade e a distribuição de dividendos a curto prazo. Isso explica a desvalorização imediata das ações e também permite prever uma alta caso o negócio não seja fechado”, afirma o analista-chefe da corretora Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa. Ele ressalta que os acionistas minoritários interessados em manter o porcentual de participação serão obrigados a elevar em muito o investimento na empresa.
Mais do que um dilema para os acionistas, a negociação põe em xeque o modelo de desenvolvimento da Vale, constantemente comparado ao caminho tomado pela Petrobras, outra empresa estratégica para o País, mas que permaneceu sob estrito controle estatal. Alves, da FGV-SP, avalia que dificilmente o governo conseguirá segurar o crescimento da mineradora, mesmo se a negociação com a Xstrata não vingar. O segredo, defende, está na clara definição dos termos em que será concedido o aval para a expansão da companhia.
“É possível obter os compromissos de que as decisões serão mantidas aqui, ou que fornecedores nacionais terão preferência”, sugere. Ele cita a fórmula adotada pelo governo da Coréia do Sul, responsável em grande parte pelo sucesso de empresas como a Hyundai, que conquistou, com o apoio estatal, uma fatia do disputado mercado automobilístico internacional. “O sucesso, no mundo globaliza

Carta Capital

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Candidatos democratas tentam atrair os eleitores latinos

Adam Nagourney e Jennifer Steinhauer

A senadora Hillary Rodham Clinton comeu tacos em East Los Angeles e se sentou no sofá da sala de estar de uma família de classe operária, em um bairro daqui de maioria latina, por 30 minutos televisionados.

Em um comício no sindicato dos trabalhadores culinários à sombra da Strip aqui, em outra noite, o senador Barack Obama ergueu seu punho no ar e cantou com a multidão, “Si, se puede, si, se puede, si, se puede!” ou “Sim, podemos!”

Enquanto os candidatos democratas passam do cortejo de eleitores predominantemente brancos em Iowa e New Hampshire para a série de 25 disputas que enfrentarão nas próximas poucas semanas, eles se vêem diante de um eleitorado cada vez mais latino, em Nevada, Califórnia e Nova York.

Apesar dos dois candidatos cortejarem agressivamente estes eleitores, que poderão ser vitais para os democratas neste ano e no futuro, o desafio é particularmente complexo para Obama. Ele surge no momento em que a disputa continua a desconcertar Hillary e Obama.

Obama enfrenta uma história de relações freqüentemente difíceis e competitivas entre negros e latinos, particularmente enquanto disputam pela influência em cidades como Chicago, Los Angeles e Nova York.

“Muitos latinos não estão prontos para uma pessoa de cor”, disse Natasha Carrillo, 20 anos, de East Los Angeles. “Eu não acho que muitos latinos votarão em Obama.”

“Sempre houve tensão entre as comunidades negra e latina. Ainda há uma forte divisão étnica. Eu ajudei a organizar campanhas populares e as pessoas com quem falei apóiam Clinton.”

Javier Perez, um ex-marine de 30 anos, disse que os latinos mais velhos como sua avó tendem a resistir mais à idéia de apoiar um afro-americano, uma tendência que ele disse estar mudando com os latinos mais jovens.

“Ela se tornou cidadã há apenas cinco anos”, disse Perez. “Infelizmente, isto exercerá um papel no voto dela. Eu acho que a raça pesará na decisão dela.”

O círculo de conselheiros de Hillary inclui nova-iorquinos bastante experientes em tal histórico de tensões. Em sua primeira viagem após a vitória em New Hampshire, Hillary voou para cá, onde foi levada em uma turnê por proeminentes líderes latinos, incluindo Henry G. Cisneros, um ex-secretário de habitação e desenvolvimento urbano, no que foi rotulado de turnê “Juntos con Hillary, una Vida Mejor”.

Daqui ela voou para um enclave mexicano-americano, East Los Angeles, para comer no King Taco, pedido em espanhol pelo prefeito Antonio Villaraigosa, que lhe deu um importante apoio.

Em Chicago, Obama foi bem-sucedido em atrair os latinos para o seu lado e em promover a superação das diferenças entre eles e os eleitores negros. Seu sucesso em repetir isso será crítico nas próximas semanas.

Em 2004, os latinos representaram 16% dos votos nas primárias da Califórnia; 11% em Nova York; 17% no Arizona e 9% na Flórida.

Para conquistar a indicação presidencial, seu sucesso na superação do histórico de tensões entre os dois grupos será chave, à medida que os democratas se aproximam de uma eleição na qual esperam conquistar e manter o voto latino por décadas.

Enquanto fazia campanha no norte de Nevada, Obama reconheceu os desafios diante dele.

“Eu acho que é importante tornarmos meu histórico conhecido pela comunidade latina”, disse Obama aos repórteres. “Minha história é excelente com os latinos em Illinois, porque eles conhecem meu retrospecto.”

“Nacionalmente, as pessoas não conhecem tal retrospecto muito bem. De forma que é muito importante para mim comunicar isso, colocar propaganda nos canais de TV de língua espanhola, para deixar claro quais são meus compromissos.”

As relações entre negros e latinos variam muito de um lugar para outro e evoluíram ao longo dos anos. Villaraigosa perdeu sua primeira tentativa de se tornar prefeito, em 2001, para um branco, Kenneth Hahn, que conquistou 80% do voto dos negros. Em uma nova disputa em 2005, Villaraigosa foi eleito com 50% do voto negro.

Villaraigosa disse não achar que a força de Hillary Clinton entre os latinos era produto das tensões entre os dois grupos.

“Do meu ponto de vista”, ele disse na segunda-feira, “a força que Hillary Clinton desfruta entre os latinos tem tudo a ver com seu retrospecto e seu antigo relacionamento com tal comunidade. Eu acho que há tensões entre todos os grupos.”

O governador do Novo México, Bill Richardson, que desistiu de sua campanha para se tornar o primeiro presidente latino, disse que a rivalidade entre os dois grupos diminuiu e que Obama pode transcender muitas das diferenças à medida que se aproximar de 5 de fevereiro, “que eu chamo de dia das primárias latinas”.

Ele disse que poderá apoiar um candidato antes de 5 de fevereiro, um apoio que claramente influenciaria alguns latinos.

Mas se as atitudes estão mudando, elas estão mudando lentamente à medida que muitas suposições raciais são contestadas.

O reverendo Al Sharpton de Nova York, que esteve na linha de frente de muitas das batalhas entre latinos e negros na política de Nova York, disse que a tensão seria um problema para Obama por todo o país e em Nova York, que também vota em 5 de fevereiro. Ele disse que Obama estaria em desvantagem por ter optado em ser um “candidato racialmente neutro”.

“Será um desafio com que terá que lidar”, disse Sharpton. “Há uma história natural e conseguimos alguns progressos. Mas ele não fez parte de tais esforços para obter o progresso.”

Na Califórnia, Obama conseguiu apoio entre legisladores latinos, dentre os quais alguns que apoiavam Richardson. Mas atrair os eleitores comuns será difícil, disse a líder da maioria no Senado, Gloria Romero, democrata de East Los Angeles.

“Nós temos um longo caminho pela frente?”, perguntou Romero. “Certamente. Eu acho que há algumas tensões em questões de imigração e empregos. Mas acredito que avançamos na forma como a comunidade abraçará um presidente afro-americano.”

Ela disse que a solução para superar as tensões é falar sobre os problemas econômicos que afligem os negros e latinos de classe média e baixa, como a crise hipotecária, uma questão que primeiro Clinton e agora Obama estão abordando com maior freqüência.

“Eu não acho que comer tacos” seja eficaz, ela disse com uma alfinetada em Hillary. “Nós precisamos tratar dos assuntos que nos unem. A chave é não levantar a questão da tensão.”

Obama, sugeriram alguns membros do Partido Democrata e estudiosos, poderá enfrentar dificuldades caso as mulheres latinas respondam ao apelo cada vez mais forte de Hillary por apoio com base em gênero. Um comício aqui no sábado estava lotado de mulheres latinas que gritavam de empolgação ao vê-la.

“A comunidade latina é muito voltada para a família e nós respeitamos nossas mães”, disse Ruben Kihuen, um influente legislador democrata de Las Vegas que apóia Hillary. “Muitas mulheres de meia-idade a vêem como uma mãe, uma chefe do lar e conseguem se identificar com isso. Especialmente quando vêem a filha dela, Chelsea, ao seu lado.”

As tensões entre latinos e afro-americanos aumentou proporcionalmente com o afluxo de novos latinos em áreas como o Sudoeste, disseram especialistas nas relações.

Mexicanos-americanos e outros grupos migraram cada vez mais para bairros tradicionalmente negros, disseram especialistas.

“Sempre houve um enorme desentendimento e conflito em torno dos recursos locais e da representação política entre os dois grupo, que ferve pouco abaixo da superfície e às vezes vêm à tona”, disse Albert M. Camarillo, diretor fundador do Centro para o Estudo Comparativo de Raça e Etnia em Stanford.

Os eleitores latinos, disse Camarillo, “podem não seguir na direção de Obama”.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Sobre macacos, ratos e homens

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

Luiz Felipe Pondé

Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua “técnica da verdade” várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo.

Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da “falsa santidade” do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de “políticas do bem”. O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os “santos da objetividade”. Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?

Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a “rainha de todos os saberes”, inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou?

Por que o “papa obscurantista” une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a “ciência real” da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.

A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Até onde irá a crise financeira

Um dos maiores estudiosos das finanças internacionais investiga, em diálogo com dois livros recém-publicados, os tremores dos últimos meses. Seu diagnóstico: vêm aí grandes solavancos, que podem atingir a Ásia e mudar a economia do planeta

François Chesnais

No início de agosto, surgiu uma crise financeira no setor dos empréstimos hipotecários, nos Estados Unidos. Imediatamente, ela se propagou para outras partes do sistema financeiro mundial, com uma rapidez e uma amplitude que surpreenderam a comunidade dos investidores e dos operadores (os “mercados”), bem como os observadores. Os bancos centrais intervieram rapidamente, principalmente com o fornecimento de crédito a taxas baixíssimas para os bancos em dificuldade (a que se dá o nome de “criação de liquidez”) [1] Desde o início de setembro, fases de tranqüilidade têm alternado com o anúncio de novas dificuldades dos bancos e outras instituições financeiras.

Para compreender todo o alcance do processo iniciado no mês de agosto, é preciso recorrer a uma obra assinada por Michel Aglietta e Laurent Berrebi (economista-chefe da empresa Groupama Asset Management), Désordres dans le capitalisme mondial [2]. O período de 2003-2007 constituiu-se de “anos milagrosos”, com efeitos euforizantes. Na França, tanto a UMP (União para um Movimento Popular, centro-direita) quanto o PS (Partido Socialista, de centro-esquerda), os políticos e a grande mídia louvaram o exemplo norte-americano. O mesmo se deu na maioria dos outros países. Em seu trabalho, extenso e bem documentado, os autores explicam a dinâmica perversa dessa alta conjuntura e anunciam seu fim inevitável.

O interesse do livro deve-se à escolha metodológica dos autores — criar um quadro analítico único, propriamente mundial —, bem como ao volume de fatos e análises reunidos. Na introdução, eles definem “a globalização como um sistema de interdependências multilaterais em que as potências emergentes (isto é, a China e, em menor grau, a Índia) exercem uma influência determinante sobre as economias desenvolvidas”, acrescentando que “foi a partir da virada do século 21 que o termo ‘globalização’ se tornou adequado aos fenômenos que ele supostamente deve designar”.

No terreno específico da macroeconomia, que é a especialidade deles, Aglietta e Berrebi percebem a economia mundial como uma totalidade diferenciada e hierarquizada, cujos pólos são os Estados Unidos e a China. Nesse quadro situam-se desenvolvimentos muito mais tímidos na União Européia e no Japão. Esse aparece com uma economia e uma sociedade marcadas por fatores de inegável debilidade, mas também com trunfos. Em contrapartida, “a Europa está deserdada” (título do capítulo 6). A União Européia estimula “as atitudes não-cooperativas dos governos, numa busca interminável de diminuição dos custos salariais”. Trata-se de “uma zona de livre-câmbio que engloba uma falsa união monetária”, já que “a zona do euro não tem nem federalismo orçamentário, nem cooperação orçamentária entre seus membros, nem sequer regras mínimas comuns”. Depreende-se do livro de Aglietta e Berrebi a quase certeza de que, em caso de crise financeira acentuada e de recessão mundial, é na União Européia que os impactos serão os mais graves [3].

Inverte-se a dinâmica da década passada: agora, crise começa nas finanças (EUA) e se espraia para produção (Ásia)
A referência à virada do século 21 também é importante. O ano de 2001 não é somente o dos atentados de 11 de setembro e da declaração da “guerra sem fim” por George W. Bush. É também o ano da entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio), que representa o ponto mais avançado das medidas para fazer do planeta um espaço único de valorização do capital. Enfim, 2001 é o ano que vê as autoridades monetárias norte-americanas adotarem a ampliação do crédito hipotecário, como resposta à crise da bolsa de ações de alta tecnologia (a Nasdaq) e a seus desdobramentos industriais (falência da Enron etc.). A análise parte das interconexões entre a crise asiática de 1997-98, que Aglietta e Berrebi apresentam corretamente como uma crise de superprodução. Trata das medidas de salvaguarda de fundos especulativos e de criação de liquidez tomadas pelo Federal Reserve e, em seguida, do estouro da bolha das bolsas de valores na primavera de 2001.

A seqüência mostra a que ponto essas interconexões se consolidaram e seus efeitos se agravaram. A análise nos prepara para a interconexão, análoga, porém bem mais grave, entre uma crise de superprodução, centrada no Sudeste Asiático — e, principalmente, na China — e uma crise financeira sistêmica mundial, cujo epicentro só pode se situar nos Estados Unidos. A primeira lição da crise iniciada em agosto é a de que a direção dos desdobramentos se inverteu em relação a 1997-98/2001. Dessa vez, a crise financeira internacional, nascida nos Estados Unidos, precede a crise de superprodução, cuja lenta gestação na Ásia aparece em muitos índices.

Comecemos pelos sobressaltos financeiros e tentemos compreender suas raízes profundas. A leitura conjunta dos livros de Paul Jorion — Vers la crise du capitalisme américain? — e de Aglietta e Berrebi é muito útil desse ponto de vista. O primeiro permite compreender por que era quase inevitável que o choque ocorresse no setor hipotecário norte-americano. O autor, decerto porque não vem das finanças, nem da economia, lança um olhar bem severo sobre práticas financeiras que ele não hesita em caracterizar como quase permanente e intrinsecamente fraudulentas, mesmo nos casos em que, como no da Enron (que ele analisa bem), não se abriu nenhum processo penal.

Aglietta e Berrebi, por seu turno, explicam de que modo a atual fase do capitalismo, posta sob o signo do valor acionário, só pode gerar, em intervalos próximos, crises financeiras cujo epicentro são os Estados Unidos. Também revelam como a globalização financeira se propaga rumo ao conjunto das praças mundiais. Colocar o interesse dos acionistas à frente dos objetivos das empresas e estabelecer normas de rendimento dos capitais investidos (o return on equity ou ROE) [4] tem como resultado, fora das fases muito curtas de difusão de novas tecnologias, onerar o investimento produtivo e permitir “a uma elite financeira, no topo da hierarquia profissional das grandes empresas e das profissões jurídicas e financeiras associadas, capturar a maior parte dos ganhos de produtividade”.

Crédito imobiliário: durante décadas, a rede principal que protegeu economia dos EUA das grandes crises
Para manter um nível de atividade elevado, “é necessária uma demanda dinâmica”. Ao menos por enquanto, ela não provém dos países emergentes (China, Índia, Brasil), onde a distribuição de renda e as relações entre cidade e campo freiam o crescimento do consumo interno e onde os excedentes externos asseguram o financiamento dos déficits dos Estados Unidos. A demanda “também não pode ter como origem as rendas salariais, cujo crescimento é fraco. Ela provém das rendas distribuídas aos acionistas e à elite dirigente, mas sua massa global é insuficiente para sustentar uma demanda agregada em crescimento rápido. A resposta a esse dilema encontra-se no poder de expansão do crédito. É aí que o capitalismo contemporâneo encontra a demanda que permite realizar as exigências do valor acionário. Esse mecanismo atinge seu paroxismo nos Estados Unidos. […] Empurrando para o alto os preços dos ativos patrimoniais, o crédito desconecta o consumo da renda disponível”.

Esses ativos não têm, necessariamente, a forma de títulos. Contrariamente ao que se pensa, os lucros com a bolsa são, nos Estados Unidos, a segunda fonte de enriquecimento patrimonial das famílias (20%). A primeira fonte (60%) provém dos lucros realizados na compra e na revenda das residências individuais. Portanto, não é por acaso que o Fed escolheu o imóvel residencial como base das medidas para impedir a quebra da bolsa de 2001 e relançar a economia por meio do consumo dos particulares.

Da análise minuciosa de Jorion depreende-se que o objetivo de dar ao capitalismo norte-americano uma base social ampla, favorecendo o advento de uma “sociedade de proprietários” (ownership society), vem sendo perseguido há quase um século. Desde 1913, uma lei permite deduzir do imposto os juros sobre os empréstimos para a habitação. A isenção foi estendida aos lucros com as vendas. Entre as medidas tomadas durante o New Deal, para enfrentar os efeitos da crise de 1929, aparece a criação de uma agência federal da habitação (Federal Housing Authority, FHA). Ela ainda existe e continua a ajudar na constituição do patrimônio pessoal. É o caso também das entidades semipúblicas, com nomes pitorescos, encarregadas de assegurar um mercado secundário para os empréstimos concedidos pelos bancos e instituições financeiras.

A primeira (Fannie Mae) foi estabelecida, em 1938, para compensar os impactos políticos e sociais da grande crise. Foi preciso criar uma segunda, em 1970 (Freddy Mac), para enfrentar o aumento rápido das necessidades de transformação dos empréstimos hipotecários em ativos realizáveis. O recurso à securitização [5] das hipotecas, portanto, é antigo e sua utilização vem aumentando sem parar. Ao longo dos anos, as entidades semipúblicas beneficiaram, sobretudo, as classes média e alta, permitindo-lhes realizar lucros na revenda de sua residência. O ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, avaliava-os, em 1999, em 25 mil dólares em média. Dois terços das famílias tiveram acesso, desse modo, à propriedade. Em 2003, o objetivo da “sociedade proprietária” foi novamente fortalecido, ao menos no nível da propaganda, pela criação de um fundo de auxílio à primeira residência cujo nome é um programa em si mesmo: “American Dream Downpayment Initiative” (iniciativa de aporte inicial para o sonho americano).

Empresas de crédito sem controle concedem empréstimos usurários a famílias pobres. Os bancos garantem o jogo
Jorion explica que, de fato, metade dos “proprietários” só são proprietários no nome, pois possuem apenas 10% do valor real de suas casas. Num contexto econômico em que as disparidades de riqueza são extremamente elevadas para um país industrializado (os 50% mais pobres da população possuem somente 2,8% do patrimônio, e o 1% mais rico, 32,7%), o sonho norte-americano de “todo mundo proprietário” sempre foi, diz o autor, “no melhor dos casos, um sonho, e no pior, um simples efeito de propaganda”.

A partir de 2001, num contexto de taxas de juros muito baixas e de desregulamentação financeira, tal sonho imobiliário serviu de fundamento para numerosas operações fraudulentas. Desde então, ele transformou-se em pesadelo, sobretudo para as famílias mais pobres submetidas a um regime de “empréstimos de rapina”. Entre os fatos pouco conhecidos citados por Jorion figura o voto, em 1980 (no momento da liberalização financeira orquestrada por Paul Volker, no final da presidência de Jimmy Carter), de uma lei revogando as disposições sobre a repressão das taxas de juros usurárias.

A desregulamentação acelerada das décadas de 1990 e 2000 permitiu o crescimento rápido das empresas independentes de empréstimos hipotecários, e o Fed reconhece que não pode fiscalizá-las ou controlá-las. Em 2002 (último indicador citado), tais empresas ofereciam apenas 12% dos empréstimos, mas 62% dos mutuários tinham vínculos com elas. Foram elas que apanharam na armadilha as famílias pobres, que têm pagado prestações usurárias, por se endividar a taxas elevadíssimas. Jorion analisa minuciosamente técnicas que em muitos países seriam consideradas fraudulentas. Ele anuncia a catástrofe social atualmente em curso. Os processos de arresto de moradias atingiram 180 mil só no mês de julho, ou seja, duas vez mais do que em julho de 2006. Eles ultrapassaram a linha do milhão desde o início do ano, isto é, 60% a mais do que um ano atrás. A expectativa é de que haja no total 2 milhões de arrestos em 2007.

Para que o mercado mafioso (não há termo mais conveniente) dos empréstimos “subprime” [6] se desenvolvesse, era preciso satisfazer uma última condição: que as empresas independentes de empréstimos hipotecários encontrassem empresas financeiras sólidas (ao menos na aparência), junto às quais pudessem securitizar os contratos assinados com elas. A partir de 2005, esse mercado encontrou fundos especulativos de alto risco (os hedge funds), filiais de grandes bancos de investimento ou de grandes bancos comerciais americanos e estrangeiros, prontos para comprar “lotes de ativos” contendo promissórias hipotecárias “subprime”.

O fator-China empobrece assalariados em todo o mundo. Mas cria enorme massa de recursos financeiros
É aqui que voltamos ao trabalho de Aglietta e Berrebi e à ênfase que eles dão à passagem dos mercados de ações a um regime “de inclinação deflacionista”. É o efeito não desejado e não previsto da extensão da globalização no rumo da Ásia. Ele se traduziu por uma baixa do rendimento das ações e das obrigações, enquanto volumes crescentes de fundos líquidos buscavam se valorizar. Provocou a enxurrada dos fundos especulativos e das aplicações cada vez mais arriscadas.

Com algum atraso, a plena integração da China à economia mundial — e, em grau menor, a da Índia — provoca uma tomada de consciência dos efeitos planetários que ela acarreta para os assalariados. Que efeitos? Os da competição direta entre os trabalhadores, em razão da “duplicação da oferta de trabalho global”, como o “excesso estrutural de mão-de-obra” que ela cria no seio de uma economia mundial liberalizada e desregulamentada. Isso permite que as empresas “façam incidir sobre os assalariados o essencial do ajuste às novas condições de concorrência”.

A transformação da China em “fábrica do mundo” e da Índia em país de relocação das atividades de serviços de informática e de produção de softwares teve também efeitos importantes no domínio financeiro. A transferência para os assalariados das pressões deflacionistas sofridas pelas empresas se fez acompanhar, na esfera financeira, de uma baixa das taxas de juros a longo prazo e de uma modificação do movimento de longa duração das ações.

Do lado das empresas, as aposentadorias com prestações definidas foram maciçamente convertidas em fundos de previdência privada, onde são os assalariados que suportam os riscos. Do lado dos fundos de aplicação financeira, ocorreu uma fuga na direção das operações cada vez mais arriscadas sobre ativos cada vez mais opacos. O “regime de inclinação deflacionista” empurra para as aplicações especulativas. Ele fortalece as “finanças carniceiras”, dos quais os fundos de “private equity”, freqüentemente filiais de bancos, se tornaram a expressão mais temida [7].O acúmulo de excedentes comerciais e de reservas em divisas, sobretudo em dólares, pelos países asiáticos, mas também por grandes países fornecedores de matérias-primas, que foram colocados em bônus do Tesouro, em obrigações privadas e em ações, em Nova York, tem permitido, aos Estados Unidos, exibir índices financeiros invejáveis e deixar escoar os déficits externos. Também vem permitindo que o governo Bush financie suas guerras, sem parar de baixar os impostos. Esses excedentes também vêm constituindo a base de um processo de criação de “liquidez”, isto é, de meios amplamente fictícios de financiamento de operações especulativas de alto rendimento.

Crescimento da China é dependente das vendas aos EUA. Será possível encontrar outros mercados?
Um dos meios encontrados pelos grandes bancos de investimento de Nova York, por bancos internacionais (como BNP-Paribas), mas também, para surpresa geral, pelos bancos regionais alemães, foi a criação de filiais com status de hedge funds. Os riscos incorridos foram subestimados, pois a “comunidade financeira” acreditou ter criado anteparos importantes sob a forma, principalmente, de mecanismos de parcelamento do risco. A crise de agosto mostrou a extrema vulnerabilidade e o potencial de contágio muito elevado.

Hoje, é nos Estados Unidos e, em menor grau, no Reino Unido que se situam os impactos mais fortes da crise hipotecária e seus desdobramentos bancários. Em prazos um pouco mais longos, o elo crítico se situará na Ásia, sobretudo na China. Ainda que a crise financeira tenha sido (mais ou menos) contida, a baixa dos preços imobiliários — e, portanto, dos ativos e das capacidades de endividamento dos proprietários — vai provocar uma desaceleração da demanda global. Ora, mais de 70% da economia chinesa depende de seu comércio exterior. Desde 2005, as exportações brutas representam mais de um terço de seu crescimento econômico.

Os Estados Unidos são o principal mercado da China. O grupo de distribuição Wal-Mart, que possui uma densa rede de franqueados na China, assegura quase 10% das vendas chinesas no estrangeiro — a maior parte para os Estados Unidos. Pequim buscará compensar a desaceleração da demanda norte-americana voltando-se para outros mercados, mas pode chegar um momento em que, como no caso da Coréia do Sul em 1997, os efeitos do superacúmulo transformem-se em fator imediato de crise.

É aqui que precisamos nos deter nos capítulos que Aglietta dedica à China em seu livro com Berrebi, bem como no trabalho centrado exclusivamente nesse país — (La Chine vers la superpuissance) —, escrito com Yves Landry. Aglietta considera que as chaves da estabilidade macroeconômica internacional nos próximos anos, e independentemente do futuro da economia mundial, encontram-se na China. Embora dê mostras de muita solicitude para com os dirigentes chineses [8], ele não consegue esconder sua grande preocupação. É o caso da criação de sobrecapacidades muito fortes.

Aglietta e Berrebi observam que “o governo chinês decidiu esfriar o motor do investimento e até mesmo, em alguns setores (imobiliário, siderúrgico e automobilístico), proibir quaisquer novos investimentos. No entanto, os números recentes disponíveis mostram que, apesar dessas medidas estritas, ele tem dificuldades para frear os gastos no imobiliário, nas infra-estruturas rodoviárias e nas construções de outras fábricas. Essa situação se deve, em parte, às provín