Na Europa, a universidade viaja para o futuro
O plano europeu envolve mais participação e menos anotações
Elena Sevillano
Cada aluno irá à aula com seu notebook, as classes serão menores, semicirculares, e terão wi-fi, o anfiteatro desaparecerá do dia-a-dia, sendo reservado para as palestras ocasionais de grandes especialistas, e os alunos de todo o campus poderão interagir pela Internet. Depois de anos de atraso, a Espanha pisou fundo no acelerador no último ano.
Desde 1999, quando toda a União Européia assinou a Declaração de Bolonha, na qual se comprometia a estabelecer em 2010 um espaço comum europeu que fomentasse a mobilidade de alunos e professores entre países de forma a adaptar aos novos tempos o modo de ensinar e aprender nos campus, com tudo o que isso envolve, a Espanha não tinha feito quase nada até o ano passado. Em 2007 foram aprovados os mecanismos básicos para que as universidades começassem a implantar essas mudanças, e já o fizeram.
Podem-se cursar carreiras ou disciplinas online em quase todas as universidades, as classes estão sendo reformadas em alguns centros para promover o ensino mais individualizado, estão se reforçando as tutorias (que no futuro serão assessorias pessoais no escritório ou pela Internet) e começa a aparecer a semipresencialidade. Isto é, os cursos combinarão cada vez mais horas presenciais com outras de trabalho em grupo pela Internet (cada um em sua casa ou no parque) e aulas virtuais. Sempre haverá uma parte presencial, mas será muito mais participativa.
Lara María Pérez Llopis freqüenta cada vez menos os escritórios para tutorias; nove de suas 14 disciplinas de segundo ano do curso de magistério estão ativas na classe virtual de sua universidade, Jaume I de Castellón. Quando tem dúvidas, ela se conecta e envia uma consulta a seu professor: recebe a resposta em 48 horas no máximo. Três quartos de sua classe utilizam habitualmente essa ferramenta para baixar documentos, olhar as notas de uma prova ou bater papo na cafeteria virtual. Seu grupo utiliza o Google Doc quando não pode se reunir para um projeto conjunto: trabalham em rede e ao mesmo tempo, num documento compartilhado.
Mercedes Sanz, professora do departamento de Filologia e Culturas Européias na mesma universidade, manda e recebe tarefas no campus online, organiza fóruns de discussão com seus alunos e, no ano passado, orientou uma bolsista Erasmus na Alemanha à base de Internet, correio eletrônico e webcam. A jovem terminou o curso com uma nota excelente.
O presente de Mercedes e de Lara -que leva o notebook a toda parte, se conecta de casa e busca cobertura wi-fi como se fosse uma vidente- dá amostras do peso das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na universidade do futuro, segundo explica Jordi Adell, responsável por Educação e Novas Tecnologias na Jaume I: “Haverá cada vez mais acesso às classes virtuais, aos aprendizados informais e às comunidades profissionais e científicas”. Os emissores de informação se multiplicam. As distâncias e as fronteiras se pulverizam: “Um estudante poderá cursar disciplinas em outros campus”, sem que, na opinião dos especialistas, o virtual consiga acabar com o presencial.
Exceto em tipologias muito concretas de alunato, como na Universitat Oberta de Catalunya (UOC), que é referência em aprendizado à distância na Espanha: a média de idade de seus alunos é de 30 anos, nove em cada dez trabalham e quatro em cada dez têm filhos; procuram ampliar conhecimentos em seu posto atual, promover-se em sua empresa, mudar de emprego. No curso 1995-1996 eram 200 alunos; este ano aproximam-se de 45 mil, e um quarto deles vive fora da Catalunha.
“O e-learning avançará em alguns mestrados, mas sua verdadeira explosão, embora não em curto prazo, será na formação contínua”, estima Antonio Artés, vice-reitor de pós-graduação da Universidade Carlos 3 em Madri. Nas graduações ganhará terreno um “modelo misto de formação semipresencial com aulas presenciais concentradas” e o resto online, prevê Adell.
“A Universidade Politécnica de Madri (UPM) organiza um concurso de robótica, o Cibertc. Os grupos inscritos recebem aulas sobre conceitos gerais e depois cada um cria seu projeto, sob a orientação de um professor. Concorre com outros robôs que rastreiam, jogam, evitam obstáculos. Ganha o que melhor resolver as questões que lhes forem colocadas.” Javier Uceda, reitor da Politécnica de Madri, cita esse concurso como exemplo de como se aprende fazendo, “learning by doing”, ele diz. Na opinião de Uceda, esse será o modo de fazer no futuro. E a própria estrutura física da escola mudará, para permitir uma maior interação. “As classes terão um entorno semicircular, com uma tela para se projetar imagens.” Não é que ele esteja deixando a imaginação voar, é que a UPM já iniciou essa linha de remodelações. E anuncia mais: “Será preciso organizar salas para reuniões e trabalho em grupo e individuais”. Suas bibliotecas já dispõem de um serviço de empréstimo de notebooks.
Mau sinal, a esta altura, que um campus ainda não esteja conectado à Internet. “Cem por cento das universidades públicas espanholas têm cobertura wi-fi”, afirma Sebastián Muriel, diretor-geral da Red.es, uma entidade dependente da Secretaria de Estado de Telecomunicações e da Sociedade da Informação, que promove o “Campus en Red” para favorecer o desenvolvimento de “serviços como e-learning, localização ou transmissão de voz através das redes IP (VoIP)”, segundo os objetivos do programa.
Cerca de 72% das 50 universidades participantes do estudo “As TIC no sistema universitário espanhol de 2006″, realizado pela Conferência de Reitores das Universidades Espanholas (Crue), contam com uma unidade de ensino virtual e 80% desenvolveram tecnologias educacionais de apoio aos docentes.
“Nós, economistas, não fazemos futurologia”, diz Carlos Berzosa, reitor da Universidade Complutense de Madri (UCM), quando indagado sobre a universidade do futuro. Mas o futuro já é uma realidade refletida no espelho anglo-saxão e nas diretrizes do Espaço Europeu de Educação Superior (EEES), que deverá estar totalmente implantado em 2010.
“Se dará ênfase ao aprendizado ativo, e não às anotações ditadas; haverá mais seminários e tutorias, e os grupos serão reduzidos”, cita Berzosa. Entre outras coisas, porque diminuem os matriculados. “Quando eu era decano de econômicas tínhamos 14 mil alunos; hoje são 6 mil”, compara. As classes diminuirão de tamanho e se multiplicarão em número: “Faremos como os cinemas que se transformaram em multiplex”. Mas sem que desapareça o anfiteatro ou a aula magistral “do Professor com maiúscula”, em forma de videoconferência. Berzosa e Uceda concordam que a presença dos alunos no campus se estenderá além do horário letivo.
E que carreiras estudarão? Não desaparecerá nenhuma, se forem cumpridas as previsões de Mariano Fernández Enguita, catedrático de sociologia da Universidade de Salamanca e promotor do portal Innova de educadores na rede, mas crescerão mais “aquelas que correspondem a tecnologias produtivas e sociais com uma demanda crescente, o que representa uma mudança econômica geracional: biomedicina, informática, audiovisuais, educação, políticas públicas”. Uma parte cada vez maior de sua atividade, tanto em pesquisa como em ensino, “se desenvolverá em colaboração com outras entidades públicas e privadas”.
Segundo esse catedrático, a universidade do século 21 deverá ter flexibilidade para se adaptar: em uma sociedade do conhecimento, “deixará de quase se limitar ao aprendizado inicial para se transformar em palco natural da formação permanente e em sócio habitual da formação contínua (para as empresas)”. Em uma economia do conhecimento, “haverá uma estratificação vertical, horizontal e funcional das titulações: vertical porque veremos uma relativa perda de valor do título de graduação e um papel mais determinante e diferencial das pós-graduações; horizontal porque se dará mais importância a em que universidade se obteve um título; funcional porque títulos do mesmo nível e centro terão valor de mercado muito diferente, segundo sua especialidade”. Em uma sociedade global, “se destacarão alguns títulos de reconhecimento transnacional: doutorados europeus, escolas de economia de projeção internacional, títulos coroados com bolsas no exterior, títulos de algumas universidades globais”, prevê Fernández Enguita.
“Não podemos ser bons em tudo”, afirma Josep Eladi Baños, vice-reitor de docência e ordenação acadêmica da Pompeu Fabra, que potencializou suas matérias “mais brilhantes” até se especializar em biomedicina, humanidades e ciências sociais e da comunicação. O campus de Barcelona iniciou seu processo de adaptação ao crédito europeu em 2004; desde então as atividades presenciais se reduziram em 20%, “e vão continuar diminuindo”, prevê; entre 70% e 80% de seus novos matriculados já estudam segundo os planos europeus. “Se for bem feito, representa mais trabalho para professores e alunos, mas em troca se consegue um melhor rendimento acadêmico”, explica o vice-reitor. Mas a transição “é dura”, adverte Baños.
É preciso dar uma tal virada metodológica, que Ramón Capdevilla, adjunto do conselheiro delegado do portal Universia, teme o risco de uma mudança apenas formal, sem evolução das estruturas. Uma “maquiagem”, segundo Baños. Em todo caso, o processo será lento, “de cinco a dez anos”, calcula o porta-voz da Universia, e despertará (já está despertando) reticências nas academias: “Os conhecimentos científicos e a qualidade docente continuarão valorizadas”, o “sábio”, o “grande gênio” manterá distância da aula magistral, cercando-se de uma equipe docente que atenderá mais diretamente aos alunos. Mas o embusteiro -”o que pensa: solto meu palavreado, e se ninguém conseguir falar comigo e eu tiver ensaiado bem meu papel não terei problemas”, exemplifica Capdevilla-, que hoje ainda consegue aplicar seus truques, dificilmente sobreviverá a uma tutoria ou a uma classe menor, personalizada e interativa.
Nas carteiras senta-se um aluno geralmente passivo. “Tem pouca cultura do esforço, e isso se nota particularmente em titulações que representam uma carga de trabalho apreciável”, lamenta o vice-reitor da Carlos 3. Ele defende uma mudança de mentalidade para uma maior responsabilidade e participação. Essa jovem universidade de Madri é mais ágil na hora de abordar as mudanças e dar destaque ao aprendizado. Para isso precisa de um financiamento adequado, como reivindica.
“As universidades serão mais multiculturais, democráticas e eqüitativas, mais abertas ao ambiente internacional e mais competitivas, oferecerão uma educação mais personalizada e serão mais adaptadas às novas necessidades sociais”, prevê Miguel Ángel Quintanilla, secretário de Estado de Universidades.
O reitor da UPM acrescenta duas necessidades: pelo menos seis meses de experiência internacional -”os idiomas são vitais”- e estágios em empresas. A universidade deve se orientar mais para a empresa, concordam muitos especialistas, mas sem jamais pôr-se a seu serviço. O vice-reitor da Pompeu Fabra vê o futuro como uma oportunidade de alcançar mais prestígio internacional. A Espanha é o país europeu que mais bolsas Erasmus recebe, e não só pelo sol e a cerveja, e o potencial futuro é sem dúvida a América Latina, afirma.
El País
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