Arquivo de 10 de Fevereiro de 2008

Meio milhão de visitas! Só posso dizer: muito obrigado

O Blog Controvérsia atingiu, nesta noite de domingo, 10/02/2008, às 23h40, a incrível marca de 500.000 visitas desde o seu lançamento. Foram meio milhão de internautas que clicaram nas páginas do Blog desde 17 de julho de 2006 em busca de notícias de qualidade, análises da conjuntura e informações em geral.

É uma marca significativa que não pode passar em branco e é por isso que escrevo esta mensagem: como registro deste momento ímpar de sua curta história de vida. Apesar de novo sua popularidade é crescente e sua presença já se faz sentir na internet. Há dois indicadores que considero importantes na medição dos acessos.

O primeiro deles é que já somos o endereço 355.105 mais visitado do mundo, de acordo com o site Alexa (que realiza estas medições). Para comprovar entre no site Alexa e preencha o endereço da caixa com: o blog.controversia.com.br.

Outro indicador é a primeira colocação do blog quando se busca no Google a palavra Controvérsia.

Deixo aqui meu mais sincero agradecimento pelo prestígio de contar com sua audiência. Espero continuar recebendo a confiança com suas visitas, críticas e indicações aos amigos e conhecidos.

Aproveito a oportunidade para informar que em breve o Blog Controvérsia vai oferecer uma grata surpresa aos seus navegantes. Em março teremos novidades bastante auspiciosas.

Veja abaixo a medição dos acesso pelo contador do Blog.

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Grande abraço e mais uma vez muito obrigado.

Ricardo Alvarez

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Toda arrogancia será castigada

2008-02-08

Nuestra cultura occidental se caracteriza por una excesiva arrogancia, exacerbada por la tecnociencia con la que domina el mundo. En todo se muestra excesiva: en la explotación ilimitada de la naturaleza, en la imposición de sus creencias políticas y religiosas y, cuando le parece oportuno, en la guerra, llevada a todos los confines del mundo. Esta cultura padece del «complejo-Dios», pues pretende saber todo y poder todo.
En relación con esto, me he acordado de una fábula de Philipp Otto Runge, pintor alemán del siglo XIX, que leí cuando era estudiante en Baviera. Recuerdo que estaba escrita con letra gótica, que yo mismo aprendí a usar en los trabajos académicos para sorpresa de los profesores. Trata de un matrimonio de pescadores. Voy a contarla de nuevo con pequeñas adaptaciones.
Cierto matrimonio vivía en una choza miserable junto a un lago. Todos los días la mujer iba a pescar para comer. Un día sacó con su anzuelo un pez muy raro que no supo identificar. El pez le dijo: «no me mates, que no soy un pez cualquiera; soy un príncipe encantado, condenado a vivir en este lago; déjame vivir». Y ella lo dejó vivir.
Al llegar a casa, le contó lo ocurrido a su marido. Éste, muy astuto, le sugirió: si realmente es un príncipe encantado puede ayudarnos y mucho. Corre, vuelve allí y prueba a pedirle que transforme nuestra choza en un castillo. La mujer, rezongando, fue. Llamó al pez a voces. El pez vino y le dijo: «¿qué quieres de mí?» Ella le respondió: «tú debes ser poderoso, ¿podrías transformar mi choza en un castillo?». «Tu deseo será cumplido», respondió el pez.
Cuando volvió a casa, se encontró con un imponente castillo, con torres y jardines, y al marido vestido de príncipe. Al cabo de unos días, señalando hacia los campos verdes y las montañas, el marido dijo a la mujer: «Todo esto puede ser nuestro. Será nuestro reino; vete al príncipe encantado y pídele que nos dé un reino». La mujer se enojó por el deseo exagerado del marido, pero acabó yendo. Llamó al pez encantado y éste vino. «¿Qué quieres de mí ahora?», le preguntó el pez. A lo que la pescadora respondió: «me gustaría tener un reino con tierras y montañas hasta donde se pierde la vista. «Tu deseo será cumplido», respondió el pez.
Y, al volver a su casa, encontró un castillo todavía mayor. Y dentro de él a su marido vestido de rey, con una corona en la cabeza, y rodeado de príncipes y princesas… Y los dos fueron felices durante un buen tiempo.
Pero un día el marido soñó con algo más alto, y dijo: «Mujer mía, podrías pedir al príncipe encantado que me haga papa con todo su esplendor». La mujer se indignó. «Eso es absolutamente imposible. Papa solamente existe uno en el mundo». Pero él le presionó tanto, que finalmente la mujer fue a pedir al príncipe: «quiero que hagas papa a mi marido». «Pues que se cumpla tu deseo», respondió el pez.
Cuando regresó vio al marido vestido de papa, rodeado de cardenales, obispos y multitudes arrodilladas delante de él. Ella se quedó deslumbrada. Pero pasados unos días, el marido dijo: «sólo me falta una cosa y quiero que el príncipe me la conceda: quiero hacer nacer el sol y la luna, quiero ser Dios». «Eso, el príncipe encantado seguramente no lo podrá hacer», dijo la mujer pescadora. Pero, aturdida después de una grandísima insistencia, fue al lago. Llamó al pez. Y éste le preguntó: «¿qué más quieres de mí?». Ella le pidió: «quiero que mi marido se vuelva Dios». El pez le dijo: «vuelve a casa y tendrás una sorpresa». Al regresar, encontró a su marido sentado delante de la choza, pobre y todo desfigurado. Creo que todavía hoy los dos deben seguir allí…
Según las tragedias griegas, así sucederá con aquellos que viven de hybris, es decir, con excesivas pretensiones. Serán inexorablemente castigados.
¿No será tal vez éste el destino de nuestra civilización?

Leonardo Boff

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China se transforma na chaminé do mundo - parte 3

Joseph Kahn e Mark Landler

A vantagem da China
A China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou a maior produtora de aço do mundo há 10 anos. De lá para cá, a produção de aço tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha permaneceu praticamente inalterada, enquanto a China os deixou comendo poeira. Suas usinas quintuplicaram sua produção ao longo da década, para cerca de 38% do total mundial.

Esta é uma realização do sonho de Mao. Mas o aço também provou ser uma maldição. A China conta com 77 siderúrgicas grandes como a Hangang, e centenas de concorrentes menores. Elas possuem tamanho excesso de capacidade que a produção de alguns produtos básicos de aço se tornaram deficitários domesticamente e no exterior. Pior, o aço polui mais do que qualquer outra indústria na China, talvez no mundo.

Apesar do esforço do governo para promover a eficiência, o aço usará 11% a mais de energia neste ano do que no anterior, um décimo da oferta total de energia do país, segundo a Associação de Ferro e Aço da China.

Juntamente com o alumínio e o cimento, o aço é o maior motivo para a China ter adicionado 90 gigawatts de capacidade de geração neste ano, o terceiro ano consecutivo em que aumenta sua produção de energia em mais do que a capacidade total do Reino Unido. Cerca de 85% destas novas usinas de força queimam carvão.

A Agência Internacional de Energia, que previu há poucos anos que as emissões de carbono da China não se igualariam às dos Estados Unidos antes de 2020, agora acredita que a China já assumiu a dianteira neste ano.

Chen Kexin, um economista do Ministério do Comércio da China, disse que as fracas leis ambientais e a energia ainda barata, mais do que os baixos custos do trabalho, permitiram aos produtores de aço chineses a redução de seus preços. “A ausência de proteção ambiental é um dos principais motivos para nossas exportações serem mais baratas”, disse Chen. “Isto dificilmente é uma ‘vantagem’ da qual devemos nos orgulhar.”

De fato, Pequim começou a desencorajar a exportação de aço. Ele não apenas eliminou as restituições do imposto de exportação para muitos produtos de aço em abril, mas também adicionou uma sobretaxa a alguns. As autoridades esperam uma desaceleração do crescimento das exportações.

Mas Chen disse que a China atualmente domina tanto o comércio internacional de aço que qualquer redução de suas exportações provocaria um aumento de preços no exterior, mantendo o aço local competitivo. “Poderá levar anos para restaurar uma balança comercial mais normal”, ele disse.

A transferência da poluição para a China também complica os esforços internacionais para reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa e para o acerto de um plano para suceder o Protocolo de Kyoto, uma questão que será discutida ao longo dos próximos dois anos.

Um benefício aparente da ascensão industrial da China é que os países desenvolvidos desaceleraram ou reduziram suas emissões de carbono, um benefício político e ambiental à medida que cresce a pressão para combater a mudança climática. Mesmo os Estados Unidos, que se recusaram a estabelecer limites às emissões de carbono, recentemente apresentaram pequenos declínios. Mas os ganhos são ilusórios.

Um estudo de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon apontou que se todos os bens que os Estados Unidos importaram entre 1997 e 2004 tivessem sido produzidos domesticamente, as emissões de carbono americanas teriam sido 30% maiores.

Outro estudo do Parlamento Europeu examinou a transferência da produção de aço da Alemanha para a China. Ele apontou que as siderúrgicas menos eficientes da China, assim com sua maior dependência do carvão, fazem com que o país emita três vezes mais dióxido de carbono por tonelada de aço do que os produtores de aço alemães emitiriam.

Do ponto de vista de Pequim, suas exportações de aço e outros produtos “carbono intensivos” fornecem mais um motivo -juntamente com suas emissões per capita ainda moderadas e seu baixo padrão de vida- para rejeitar a criação de limites obrigatórios de emissão de carbono. Os países ricos, ele diz, devem reduzir suas próprias emissões acentuadamente e transferir tecnologia para que a China não polua tanto quanto esses países durante seus booms industriais.

Alguns importantes economistas ambientais concordam. “A pegada dos países ricos é muito grande, porque empregam recursos de outros países”, disse R. Andreas Kraemer, diretor do Instituto Ecológico para a Política Ambiental Européia e Internacional, em Berlim. “A China diz: ‘Sim, nossas emissões vão aumentar, mas isto porque estamos produzindo os bens que antes eram produzidos na Europa e nos Estados Unidos’.”

Alguns ambientalistas dizem que os países ricos devem se concentrar em reduzir seu consumo em vez de sua produção de carbono. Isto os obrigaria a conter o que importam da China e outros lugares.

Tanto o Parlamento Europeu quanto o Congresso americano discutiram uma taxação de bens carbono-intensivos importados, como aço e outros produtos de indústria pesada. Em teoria, isto desencorajaria a transferência da produção para o exterior para driblar as limitações de emissão de carbono ou das taxas domésticas. Mas tais propostas continuam teóricas, enquanto a transferência da indústria pesada para a China é inexorável.

Segunda chance
A Alemanha é o espelho da China. Fábricas poluentes emigraram para o exterior. A mineração de carvão encolheu. Desde 1990, a Alemanha reduziu suas emissões anuais de carbono em 19%. A transformação da Alemanha data dos anos 70, com as primeiras tentativas para limitar o chumbo na gasolina, mas ganhou força nos anos 80, com a fundação do Partido Verde, o primeiro partido ambientalista a ganhar proeminência nacional na Europa. Em 1986, estimulada em parte pelo desastre nuclear de Chernobyl, a Alemanha Ocidental criou um ministério dedicado a proteger o meio ambiente.

Ele tinha muito o que fazer. As florestas da Alemanha foram seriamente prejudicadas pela chuva ácida, fuligem e poluentes químicos das fábricas no Ruhr. O Rio Reno, que flui para além da divisa oeste do Vale do Ruhr, estava desprovido de vida aquática.

A reunificação alemã em 1990 impôs ao país as usinas a carvão marrom de baixa qualidade da Alemanha Oriental, as mais sujas da Europa. A Alemanha limpou o Oriente, fechando muitas fábricas de baixa eficiência e conseguindo reduções acentuadas nas emissões de carbono.

A reunificação também produziu uma nova geração de líderes políticos verdes. A chanceler Angela Merkel, uma física da Alemanha Oriental, entrou na política em 1994, quando o chanceler Helmut Kohl a nomeou ministra do Meio Ambiente.

Merkel, que recebeu o apelido de “chanceler do clima”, tem defendido acordos multilaterais para reduzir as emissões de carbono, apesar da forte resistência dos Estados Unidos às reduções obrigatórias.

Em 5 de dezembro, o governo dela aprovou uma legislação para reduzir as emissões da Alemanha em 40% adicionais até 2020. “A Alemanha quer dar o exemplo”, ela disse.

Dortmund e outras cidades do Ruhr nunca se recuperaram plenamente dos empregos perdidos para os novos titãs do aço da China. O índice de desemprego na cidade ainda paira em torno de 15%, 50% mais alto do que a média nacional.

Walter Schwalen, um ex-trabalhador siderúrgico de 68 anos, apontou pela janela do segundo andar de seu prédio para o buraco preto onde os altos fornos da Phoenix funcionavam.

Ele disse que assistiu de sua janela a equipe de operários chineses desmontar e embalar seu antigo local de trabalho em 1998. “Eu pensei: ‘Nossa pobre Alemanha’”, ele disse. “Uma empresa atrás da outra está fechando. A Alemanha está arruinada.”

Mas a região do Ruhr também é um laboratório para a transição para uma era pós-industrial. Antes sinônimo de sujeira, onde os motoristas acendiam os faróis de seus carros na metade da manhã para ver em meio à névoa de fumaça de carvão, ela foi nomeada uma capital européia da cultura para 2010, com suas minas e usinas transformadas em museus ou centros de arte.

Em Essen, uma mina de carvão esgotada foi convertida em museu e centro de artes, assim como foi designada um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Em Bochum, uma usina a gás de 105 anos agora se transformou em sala de concerto. A Alemanha também planeja gastar US$ 7 bilhões para resgatar outro legado de seu passado poluído: o Emscher, um rio de 84 quilômetros de extensão que sofreu a indignidade de ser transformado em canal de esgoto industrial no final do século 19. O Emscher recuperado será margeado por uma área de parque, a espinha dorsal de uma Trilha da Herança Industrial de 399 quilômetros para turistas.

Dortmund, que em 1960 tinha 40 mil pessoas trabalhando em siderúrgicas, agora tem menos de 3 mil. Mas há 12 mil novos empregos em tecnologia da informação e 2.300 em nanotecnologia, que se enraizou aqui nos últimos cinco anos. A região, que antes não tinha universidades, agora tem seis, assim como oito faculdades, com um total de 160 mil estudantes matriculados.

Mesmo o terreno da Phoenix está ressurgindo. A cidade deixou dois velhos altos fornos ali como um centro corroído do que esperam que se transformará em um complexo de artes ao ar livre. Além de um lago e um complexo residencial, o governo está construindo um escritório para novas empresas.

“Foram necessárias três gerações para fazer isto ao meio ambiente”, disse Schwarze-Rodrian, da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. “Eu acho que é razoável que leve uma geração para consertar.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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China se transforma na chaminé do mundo - parte 2

Joseph Kahn e Mark Landler

Mudança radical
Hangang foi criada por uma lei de Mao. Em 1958, o líder chinês incitou seu povo a sacrificar tudo, incluindo seus potes e panelas, na primeira tentativa da China de se tornar uma superpotência do aço. Ele chamou a campanha de Grande Salto à Frente.

Handan, uma cidade antiga mas negligenciada nas planícies áridas da província de Hebei, no sul, apresentava duas vantagens: veios ricos de carvão e minério de ferro e um fácil acesso à principal linha ferroviária norte-sul.

“A antiga cidade de Handan deve ser rejuvenescida como capital do aço”, proclamou Mao. Em termos econômicos, Hangang não foi mais bem sucedida do que o restante do Grande Salto à Frente, que provocou fome em massa. Ela sobreviveu por décadas devido aos subsídios do Estado, fornecendo benefícios aos seus 30 mil funcionários mas produzindo metais ferrosos de baixa qualidade que proporcionavam um retorno ruim.

Nos anos 90, Hangang passou a ser pressionada para dar lucro. Apoiada por empréstimos de bancos do Estado e pelo lançamento de ações na Bolsa de Xangai, ela deu início a uma reforma visando modernizar sua linha de produção. Mas suas ambições ultrapassavam em muito seu orçamento. A empresa precisava de uma solução radical e barata para transformar a siderúrgica.

A resposta veio da Europa, particularmente do Vale do Ruhr.

O Ruhr foi a sala das máquinas da indústria alemã desde meados do século 9. Ela era rica em carvão e zelo prussiano. Mas nos anos 60, a idade de ouro industrial da Alemanha começou a perder intensidade. Os mineiros precisavam cavar mais fundo para extrair carvão, o que se tornou economicamente desvantajoso. Os impostos e os custos trabalhistas aumentaram, enquanto a reunificação sujeitou as empresas da Alemanha Ocidental à concorrência subsidiada da Oriental. As siderúrgicas também enfrentaram forte pressão do governo para instalar os mais recentes controles de eficiência e ambientais.

“Nos anos 80 nós ainda sonhávamos que se tratava apenas de uma desaceleração temporária e que voltaríamos a crescer fortemente”, disse Michael Schwarze-Rodrian, diretor da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. “Mas as pressões foram demais. Nosso tempo passou.”

A Thyssen e Krupp fundiram suas operações de aço em 1997 e consolidaram sua produção em Duisburg, no Reno. A siderúrgica de Dortmund, chamada Phoenix e que era uma das maiores da Alemanha desde antes da Segunda Guerra Mundial, foi condenada ao fechamento e provavelmente se transformaria em sucata.

Isto é, até que a Hangang soube que poderia comprar um alto forno alemão relativamente sofisticada por uma fração do que custaria um novo.

“A mudança da indústria mundial do aço deu a Hangang esta oportunidade”, disse Liu Hanzhang, presidente da Hangang, para a imprensa local após comprar o alto forno da Phoenix em 1998. “Algumas pessoas acham que somos uma siderúrgica de baixa tecnologia. Mas nós nos tornaremos de primeira classe.”

A Hangang enviou funcionários para Dortmund. Eles rotularam cada parte do alto forno de sete andares, então o desmontaram e o embalaram em milhares de engradados de madeira para a longa viagem ao porto de Tianjin.

“Eles trabalharam dia e noite”, disse Erwin Schneider, um porta-voz da ThyssenKrupp. “Eles nunca teriam feito o trabalho tão rapidamente se fossem regidos pelas leis trabalhistas alemãs.”

Não foi o único caso. A Hangang gastou sozinha US$ 800 milhões na importação de equipamento novo e usado, segundo dados da empresa. Ela comprou um forno panela e equipamento de lingotamento usados da Société Métallurgique de Normandie da França. Ela comprou outro alto forno e uma máquina de sínter da Arbed, em Luxemburgo.

Outras empresas chinesas correram para a liquidação européia, destituindo Dortmund de seus ativos. A ThyssenKrupp vendeu as partes restantes da usina Phoenix para o Shagang Group, uma siderúrgica privada no Rio Yangtze, em 2000. E em 2003, 400 operários chineses desmontaram a usina de coque Kaiserstuhl em Dortmund, que tinha sido construída apenas poucos anos antes para atender aos padrões ambientais europeus.

Negócio sujo
Expelindo e martelando 24 horas por dia, a usina de coque, ferro e aço de Hangang ocupa uma área de 10 quilômetros quadrados e lembra um museu vivo da era industrial. Seu forno a carvão mais antigo, corroído, poderia ter pertencido a Andrew Carnegie. O mais novo, parte de uma grande expansão, usa o calor emitido para gerar força, uma tecnologia que economiza energia.

O equipamento usado europeu se enquadra em um ponto intermediário. Foram necessários vários anos para a Hangang integrar este equipamento na colcha de retalhos de suas linhas de produção. O equipamento da Phoenix foi batizado de alto forno Nº 7. O equipamento da Normandia e de Luxemburgo se tornaram parte da oficina de aço Nº 3.

Enfrentando uma forte concorrência do saturado setor siderúrgico da China, a Hangang ainda não gera lucro de forma consistente. Mas a farra de compras aumentou sua produção. Na década após 1996, sua produção cresceu 350%.

Com brilho amarelo e vermelho, as chaminés chamejantes da Hangang emitem gases e inflamam o céu noturno. Uma frota de locomotivas a diesel para transporte de carvão sacode as casas rurais e prédios de apartamento que cercam os muros externos da usina. Para os 8,5 milhões de moradores de Handan, e especialmente para os dezenas de milhares que vivem à sombra da siderúrgica, o complexo é um leviatã barulhento, nocivo, gerador de dinheiro e empregos.

Tian Lanxiu subiu no telhado da casa de um vizinho na aldeia de Mengwu para ver a extensão de Hangang e além. No horizonte cinzento ela apontou para o alto forno Nº 7 -”aquele que os alemães ocidentais vieram consertar”. Perto dali fica uma unidade de resfriamento que emite vapor branco, e uma usina de coque que emite uma descarga amarela.

Tian disse que ela e outros aldeões aprenderam a conviver com as emissões de Hangang. As pessoas não comem ao ar livre, ela disse, para evitar a fuligem preta no seu arroz. E quando as crianças não conseguem dormir à noite, ela tampa os ouvidos delas com algodão.

Algumas pessoas em Mengwu morreram jovens, ela disse, freqüentemente por problemas cardíacos ou câncer. Ela não tem evidência que ligue suas mortes à siderúrgica, mas diz ter pouca dúvida. “Hangang tira 10 anos da vida das pessoas”, ela disse. “Todos nós queremos viver mais. Nós estamos nos tornando mais conscientes.”

Representantes de Hangang recusaram os vários pedidos para discussão dos controles ambientais e de produção. Mas a empresa disse em entrevistas para a imprensa doméstica que, juntamente com a modernização de suas instalações de produção, ela instalou equipamento de controle de poluição e melhorou o ambiente na região.

Autoridades do governo em Handan também se recusaram a discutir a siderúrgica. Mas um estudo de 2006 de autoridade da cidade e da Universidade de Tianjin apontou níveis anormalmente altos de substâncias químicas da família do benzeno ligadas às partículas de pó de carvão ao redor de Handan.

As concentrações no ar de benzopireno, um subproduto do coque que alguns estudos associaram ao câncer de pulmão, estavam bem acima da média chinesa e pouco abaixo do nível medido em duas das áreas industriais mais poluídas do país, Lanzhou e Taiyuan, disse o estudo. Lanzhou, ele disse, apresenta concentrações de benzopireno mais de 100 vezes acima dos níveis registrados em Londres.

As autoridades de Hangang já consideraram afastar suas linhas de produção mais antigas, mais poluentes, para mais longe da cidade. Autoridades ambientais locais disseram para a imprensa estatal em 2005 que se a siderúrgica deslocasse uma parte de suas operações, os níveis de dióxido de enxofre em Handan cairiam 65%. Hangang no final decidiu não mexer em suas instalações mais antigas, disseram várias pessoas que trabalham na empresa, porque o custo era proibitivo. Em vez disso, Hangang e a Baoshan Iron and Steel de Xangai se uniram para construir outra usina em novo local. A antiga usina da Hangang continua em operação.

As pessoas que moram perto da siderúrgica realizaram alguns protestos contra a poluição ao longo dos anos. A polícia interveio e prendeu alguns manifestantes. Mas a empresa também buscou reduzir a inquietação dando empregos e outros benefícios aos moradores da área.

Há dois anos, Tian e um grupo das mulheres mais idosas realizaram um protesto sentado em alguns trilhos ferroviários, exigindo que a Hangang pagasse pela mudança delas para apartamentos distantes da siderúrgica, disse Tian.

A Hangang se recusou. Mas posteriormente concordou em pagar a elas um subsídio em vez da mudança, o que os moradores chamam de “taxa de poluição”.

Em um muro ao longo da rua da aldeia, as autoridades colaram tiras de papel de arroz azul listando os nomes de cada um dos chefes da cada lar e seu pagamento pela poluição. Tian disse que recentemente recebeu seu terceiro pagamento anual, totalizando US$ 140.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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China se transforma na chaminé do mundo - parte 1

Joseph Kahn e Mark Landler

Quando moradores desta cidade do norte da China penduram suas roupas para secar, a fuligem preta da vizinha Handan Iron and Steel freqüentemente os obriga a recolhê-las para lavar.

A meio mundo de distância, os vizinhos da antiga siderúrgica da ThyssenKrupp, no Vale do Ruhr, Alemanha, costumavam ter um problema semelhante. As camisas brancas que os homens vestiam para a igreja aos domingos costumavam estar cinzentas quando chegavam em casa.

Estas duas cidades siderúrgicas têm uma ligação incomum, que se estende por 8 mil quilômetros e uma década de crescimento econômico. Elas compartilham o mesmo alto forno, desmontado e enviado peça por peça do antigo coração industrial da Alemanha para a província de Hebei, o novo Vale do Ruhr da China.

A transferência, uma entre dezenas desde o final dos anos 90, contribuiu para uma ampliação da produção de aço pela China, que agora ultrapassa a da Alemanha, Japão e Estados Unidos somadas. Isto deixou a Alemanha com empregos perdidos e um caso ruim de angústia pós-industrial.

Mas as siderúrgicas que expelem partículas no ar e consomem eletricidade das usinas a carvão da China são responsáveis por grande parte das crescentes emissões do país de dióxido de enxofre e dióxido de carbono. A Alemanha, por outro lado, limpou seus céus e agora está liderando a luta contra o aquecimento global.

Em sua pressa de recriar a revolução industrial que enriqueceu o Ocidente, a China absorveu grande parte das grandes indústrias que sujavam o Ocidente. Estimuladas pelo forte apoio do Estado, as empresas chinesas se tornaram as principais produtoras de aço, coque, alumínio, cimento, produtos químicos, couro, papel e outros bens que enfrentavam altos custos, incluindo leis ambientais mais severas, em outras partes do mundo. A China se tornou a fábrica do mundo, mas também sua chaminé.

Esta transferência em massa de indústrias poluidoras manchou a ascensão econômica da China. Taxas de crescimento de dois dígitos fizeram menos para melhorar as vidas das pessoas quando os danos ao ar, terra, água e saúde humana são considerados, dizem alguns economistas. Equipamento ultrapassado de produção terá que ser substituído ou adaptado a um alto custo caso o país pretenda reduzir a poluição.

A piora do meio ambiente na China também afetou a geopolítica do aquecimento global. O país produz e exporta tantos bens antes produzidos no Ocidente que muitos países ricos podem se gabar da redução das emissões de carbono, apesar das emissões em geral do mundo estarem crescendo rapidamente.

A China também carece de recursos naturais, incluindo minério de ferro, petróleo e madeira, para a indústria pesada e para sua própria classe consumidora em crescimento. Logo, seu crescimento pressiona o meio ambiente em lugares distantes como Canadá, Brasil, Austrália e Indonésia, onde compra matéria-prima em grande quantidade.

Dortmund, a cidade no Vale do Ruhr onde a ThyssenKrupp antes produzia aço, ainda sofre com um desemprego elevado devido aos empregos perdidos para países com custos mais baixos como a China. Mas os alemães podem comprar iPods, máquinas de lavar e navios de carga feitos pelos chineses a preços que, devido aos controles de poluição mais brandos, não refletem o custo ao meio ambiente. E a terceirização de indústrias poluentes lhes propiciam um ar e água mais limpos.

“Me parece que a China está cometendo todos os erros que cometemos no século 19″, disse Wilhelm Grote, um regulador ambiental em Dortmund, que lembra de quando lavava o carro de seu pai na juventude, apenas para vê-lo imediatamente coberto de fuligem. “Eles descobrirão que é muito mais caro consertar depois do que fazer direito desde o início.”

Ao ignorar as conseqüências ambientais de sua farra industrial por anos, a liderança do Partido Comunista agora diz que está determinada a desenvolver um modelo econômico mais limpo. Pequim tanta fazer valer metas ambiciosas -até o momento não cumpridas- para melhorar a eficiência em energia e reduzir as emissões.

As autoridades se dizem particularmente preocupadas com o custo ao meio ambiente de produzir mais de US$ 1 trilhão por ano em bens para venda no exterior. Do total de emissões de carbono da China, que segundo algumas estimativas agora ultrapassam as dos Estados Unidos, apenas pouco mais de um terço resultam da produção de produtos para consumidores estrangeiros, segundo a Agência Internacional de Energia, um grupo de pesquisa e política de energia em Paris.

A agência central de planejamento do país barrou recentemente a compra de alguns equipamentos industriais usados do exterior, exigindo que as empresas instalem sistemas mais novos e eficientes no consumo de energia. Ela cancelou muitos incentivos concebidos para promover as exportações, especialmente para empresas que consomem energia em excesso e poluem demais. As autoridades alertaram as empresas que violar as leis ambientais lhes custarão suas licenças para exportação.

“Algumas empresas estão abusando do meio ambiente para reduzir os preços para exportação”, disse Chen Guanglong, um alto funcionário do Ministério do Comércio, ao anunciar uma repressão aos poluidores neste ano.

“Elas vendem seus produtos no exterior, mas a poluição fica em casa.”

Mas há poucos sinais de que as autoridades chinesas realmente lamentam o fato do país ter se tornado um centro mundial de indústria pesada. O investimento em novas usinas e equipamentos para aço, alumínio e cimento aumentaram acentuadamente apesar dos planejadores centrais alertarem que o setor receberá menos apoio do Estado. As exportações de aço da China para a União Européia deverão dobrar neste ano em comparação ao recorde estabelecido em 2006.

A 480 quilômetros ao sul de Pequim, a cidade de Handan é tanto uma beneficiária quanto uma vítima.

Hangang, como a siderúrgica local costuma ser chamada, é uma das favoritas do governo, tendo recebido permissão para lançar suas ações no mercado e expandir a produção. Isto apesar dela, como muitas das maiores empresas de aço da China, estar situada dentro de uma cidade populosa.

Os moradores do lado oeste de Handan vivem em meio ao miasma de pó e fumaça que as autoridades ambientais reconhecem conter numerosos carcinógenos. Após protestos públicos, a empresa concordou em pagar uma “taxa de poluição” anual para compensar alguns vizinhos.

O Ruhr recebe um tipo diferente de subsídio. A Alemanha e a União Européia se comprometeram a destinar quase US$ 22 bilhões para transformar a região em um centro de educação, tecnologia e turismo. Tratores estão transformando o terreno da antiga usina da ThyssenKrupp em uma comunidade com terraço na encosta, com lojas, restaurantes e casas em volta de um lago artificial.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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O trabalho na saída do capitalismo

Antes de morrer, o filósofo André Gorz transmitiu, via fax, um texto, com a data de 17-09-2007, para a revista ÉcoRev’ um longo artigo intitulada O trabalho na saída do capitalismo. A página eletrônica Rue89, publica um extrato do texto que traduzimos e publicamos a seguir.

Eis um extrato do texto.

A questão da saída do capitalismo nunca foi tão atual. Ela se põe em termos e com uma urgência de uma radical novidade. Por causa do próprio desenvolvimento, o capitalismo atingiu um limite tanto interno quanto externo que ele é incapaz de ultrapassar e que faz com que seja um sistema que sobrevive por meio de subterfúgios à crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor, o capital.

A crise do sistema se manifesta no nível macro-econômico como também no nível micro-econômico. Isso se explica principalmente pela mudança tecnocientífica que introduz uma ruptura no desenvolvimento do capitalismo e arruína, por seus repercussões a base do seu poder e sua capacidade de se reproduzir. Tentarei de analisar esta crise, em primeiro lugar, sob o aspecto macro-econômico e, depois, nos seus efeitos sobre o funcionamento e a gestão das empresas.

1.- A informação e a robotização permitiram introduzir quantidades crescentes de mercadorias com quantidades decrescentes de trabalho. O custo do trabalho por unidade de produto não cessa de diminuir e o preço dos produtos tende a baixar. Quanto mais a quantidade de trabalho para uma determinada produção diminui, mais o valor produzido por trabalhador – sua produtividade – deve aumentar para que a massa de lucro realizado não diminua. Tem-se, assim, este aparente paradoxo que quanto mais aumenta a produtividade, tanto mais é necessário que ela aumente para evitar que o volume do lucro não diminua. A corrida em busca da produtividade tende assim a acelerar, os efetivos empregados tendem a ser reduzidos, a pressão sobre o pessoal endurece, o nível e a massa dos salários diminui. O sistema evolui para um limite interno onde a produção e o investimento na produção param de ser muito rentáveis.

Os índices atestam que este limite foi atingido. A acumulação produtiva do capital produtivo não para de regredir. Nos EUA, as 500 empresas do índice Standard & Poor’s dispõem de 631 bilhões de reservas líquidas; a metade dos lucros das empresas americanas provém dos mercados financeiros. Na França, o investimento produtivo das empresas do CAC 40 não aumenta mesmo quando os lucros explodem.

A produção não sendo mais capaz de valorizar o conjunto dos capitais acumulados, uma parte crescente destes conserva a forma de capital financeiro. Uma indústria financeira se constitui que não pára de afinar a arte de fazer dinheiro não comprando nem vendendo nada além das diversas formas de dinheiro. O dinheiro mesmo é a única mercadoria que a indústria financeira produz por meio de operações, nos mercados financeiros, cada vez mais arriscadas e cada vez menos controláveis.

A massa de capital que a indústria financeira drena e gera ultrapassa de longe a massa de capital que valoriza a economia real (o total dos ativos financeiros representa 160 trilhões de dólares, ou seja, quatro vezes mais do que o PIB mundial). O “valor” deste capital é puramente fictício: ele repousa, em grande parte, sobre o endividamento e o “good will”, isto é, sobre as antecipações: a Bolsa capitaliza o crescimento futuro, os lucros futuros das empresas, a alta futura dos preços imobiliários, os ganhos que poderão ser gerados pelas reestruturações, pelas fusões, concentrações, etc. As Bolsas se enchem de capitais e de seus rendimentos futuros e as famílias são incitadas pelos bancos a comprar (entre outros) as ações e os certificados de investimento imobiliário, a acelerar, desta maneira, a alta da Bolsa, a emprestar dos bancos somas crescentes à medida que aumenta o capital fictício da Bolsa.

A capitalização da antecipações do lucro e do crescimento anima o endividamento crescente, alimenta a economia com liquidez devido à reciclagem bancária da mais-valia fictícia, e permite aos EUA um ‘crescimento econômico’ que, fundado sobre o endividamento interno e externo, é, de longe, o principal motor do crescimento mundial (inclusive do crescimento chinês). A economia real torna-se, assim, um apêndice das bolhas especulativas mantidas pela indústria financeira. Até o momento, inevitável, em que as bolhas estouram, levando os bancos à bancarrota em cadeia, ameaçando com o colapso o sistema mundial de crédito, a economia real de uma depressão severa e prolongada (a depressão japonesa dura já quase quinze anos).

Tem-se acusado a especulação, os paraísos fiscais, a opacidade e a falta de controle da indústria financeira (particularmente os hedge funds), a ameaça de depressão, ou seja, o derrocamento que pesa sobre a economia mundial não é devido à falta de controle; ele se deve à incapacidade do capitalismo se reproduzir. Ele não se perpetua e somente funciona sobre bases fictícias cada vez mais precárias. Pretender redistribuir por meio da imposição as mais-valias fictícias das bolhas precipitaria o que a indústria financeira quer evitar: a desvalorização da massa gigantesca dos ativos financeiros e a derrocada do sistema bancário.

A “reestruturação ecológica” irá agravar ainda mais a crise do sistema. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos. Se se prolonga a tendência atual, o PIB mundial será multiplicado por 3 ou 4 vezes, de hoje até o ano 2050. Ora, segundo o relatório do Conselho sobre o clima da ONU, as emissões de CO2 deverão diminuir em 85% até 2050 se se quer limitar o aquecimento climático em 2º C, no máximo. Além dos 2º, as conseqüências serão irreversíveis e não controláveis.

Portanto, o decrescimento é um imperativo de sobrevivência. Mas ele supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais. Na sua ausência, o derrocamento só será evitado impondo restrições, racionamentos, alocações autoritárias de recursos característicos de uma economia de guerra. A saída do capitalismo, portanto, se dará de uma ou outra maneira, de modo civilizado ou bárbaro. A questão é somente de que forma se dará esta saída e qual a cadência com que vai se dar.
A forma bárbara nos já é familiar. Ela prevalece em várias regiões da África, dominadas por chefes de guerra, pela pilhagem das ruínas da modernidade, os massacres e tráficos de seres humanos, tendo como pano de fundo a fome. Os três Mad Max eram relatos antecipatórios.

Uma forma civilizada de saída do capitalismo, ao contrário, raramente é analisada. A evocação da catástrofe climática que ameaça conduz geralmente a propor uma necessária ‘mudança de mentalidade”, mas a natureza desta mudança, suas condições de possibilidade, os obstáculos a serem superados parecem sufocar a imaginação.

Propor uma outra economia, outras relações sociais, outros modos e meios de produção e modos de vida é visto como algo ‘irrealista’, como se a sociedade da mercadoria, do assalariamento e do dinheiro fosse impossível de ser superada. Na realidade, uma multidão de índices convergentes sugerem que esta superação já iniciou e que as chances de uma saída civilizada do capitalismo dependem antes de tudo da nossa capacidade em distinguir as tendências e as práticas que anunciam a possibilidade.

2.- O capitalismo deve a sua expansão e a sua dominação ao poder que ele tomou, em um século, sobre a produção e, ao mesmo tempo, sobre o consumo. Ao expropriar, primeiramente, os operários dos seus meios de produção e dos seus produtos, ele foi assegurando, progressivamente, o monopólio dos meios de produção e a possibilidade de subsumir o trabalho. Ao especializar, dividir e mecanizar o trabalho nas grandes fábricas, ele fez dos trabalhadores os apêndices das megamáquinas do capital. A apropriação dos meios de produção pelo produtores se tornou impossível. Eliminando o poder daqueles sobre a natureza e a destinação dos produtos, ele garantiu ao capital o quase-monopólio da oferta, portanto o poder de privilegiar em todos os domínios as produção e o consumo mais rentáveis, como também o poder de fomentar o gosto e os desejos dos consumidores, a maneira pela qual ele satisfariam as suas necessidades. É este poder que a revolução informacional começa a romper.

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Nos EUA voto cristão divide-se quanto a princípios religiosos e pragmatismo

Os evangélicos norte-americanos estão tentando encontrar um candidato republicano que seja genuinamente religioso e que, ao mesmo tempo, tenha chance de ganhar a eleição presidencial

Quando os cristãos conservadores da Carolina do Sul apoiaram maciçamente George W. Bush na eleição primária de 2000, eles sabiam que estavam votando em um candidato que ao mesmo tempo era um “crente verdadeiro” e que poderia obter apoio suficiente entre o universo mais amplo do eleitorado republicano para chegar à Casa Branca.

Porém, quando os eleitores que votarão na prévia do Estado neste sábado (19/01) dirigirem-se às urnas, será mais difícil escolher um candidato.
“Estou indeciso. Votarei em alguém que conta com mais chance de se eleger, ou em um candidato que dificilmente será eleito?”, diz, Janelle, um estudante de 21 anos de idade da Universidade Bob Jones, uma instituição fundamentalista cristã.

Os eleitores evangélicos tendem a ser conservadores. Para a maior parte dos conservadores, a decisão entre votar com base nos seus princípios ou ser pragmático resume-se à escolha entre Mike Huckabee, o ex-governador do Estado de Arkansas e pregador batista, e outros candidatos republicanos, como por exemplo, Fred Thompson. Thompson, um ex-senador que está bem atrás nas pesquisas de opinião, está minando o apoio a Huckabee entre os conservadores.

Em um apelo direto à sua base conservadora na Carolina do Sul, Huckabee, que está em segundo lugar nas pesquisas, bastante próximo do atual favorito, John McCain, deu uma drástica guinada para a direita nos últimos dias. Por exemplo, ele recusou-se a condenar a ostentação da bandeira confederada - que para alguns conservadores brancos é um símbolo da herança cultural do sul dos Estados Unidos, mas que para outros norte-americanos é um emblema de segregação e racismo.

“Vocês não gostam que pessoas de fora do Estado venham até aqui e lhes digam o que fazer com a bandeira”, disse ele a apoiadores em Myrtle Beach. “Se alguém vier a Arkansas e nos disser o que devemos fazer com a nossa bandeira, nós lhe diremos o que deve fazer com o mastro”.

Ele tornou-se também o primeiro candidato a assinar um termo de compromisso no sentido de impedir que imigrantes ilegais obtenham a cidadania e de deportar aqueles que forem pegos nos Estados Unidos sem documentação.

Essas são questões pertinentes para os conservadores, e não especificamente para os eleitores evangélicos, e tais comentários do ex-governador têm como objetivo fortalecê-lo na disputa com Thompson e McCain.

Segundo John Green, membro do Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, os ativistas do movimento cristão conservador temem que esta eleição possa fazer com que eles percam influência sobre a Casa Branca.

Embora os evangélicos estejam unidos nas suas posições quanto a questões sociais como o aborto e a oposição ao casamento gay, Green afirma que os resultados da primária de hoje indicarão se os eleitores da direita religiosa acabaram dividindo-se no que diz respeito a outras questões como a economia e a política externa.

Esther Wagner, uma voluntária local da campanha de Thompson, diz que não confia em Huckabee quando se trata de questões econômicas e de segurança nacional. “Não estou escolhendo um pastor, e sim um presidente”, diz ela.

A indecisão quanto à escolha do ex-pastor revela que o movimento evangélico não é mais tão ideologicamente unificado ou organizado como costumava ser na época em que encontrava-se no ápice do seu poder político. A Coalizão Cristã, fundada por Pat Robertson, o tele-evangelista, já foi fundamental para angariar e direcionar os votos da base evangélica no sul dos Estados Unidos, mas agora a sua influência diminuiu.

As preocupações quanto à segurança nacional depois dos ataques terroristas de 2001 contra os Estados Unidos significaram mais uma redução do poder e da unidade dos cristãos conservadores. McCain e o candidato rival republicano Rudy Giuliani, ambos tidos como moderados, conquistaram apoio entre os conservadores ao capitalizarem os seus pontos fortes quando se trata da segurança nacional, e ao argumentarem que o extremismo islâmico representa uma “ameaça existencial” à civilização ocidental. Robertson endossou a candidatura de Giuliani, afirmando que a luta contra o “islamismo radical” deveria ser vista como uma causa cristã.

Michael, um aluno de ciência política da Universidade Bob Jones que apóia Huckabee, diz que o poder dos cristãos conservadores tornar-se-á evidente mais uma vez caso Giuliani, um candidato que segundo ele “defende o aborto e a homossexualidade”, seja o escolhido para disputar a presidência pelo Partido Republicano.

“Os eleitores conservadores não aparecerão para votar no dia da eleição presidencial, ou apoiarão um candidato independente”, afirma ele.

Embora a universidade não tenha apoiado oficialmente nenhum candidato, o seu presidente, Bob Bones III, afirmou que apóia Mitt Romney, o ex-governador de Massachusetts que, segundo as pesquisas, está lutando por um terceiro lugar.

“O que importa de fato é derrotar Hillary”, disse Jones ao jornal “Greenville News, referindo-se à candidata democrata e ex-primeira-dama.

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

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Vitória de John McCain sinaliza fragmentação do Partido Republicano

No verão passado a campanha presidencial de John McCain parecia estar nas últimas. Agora a sua vitória em New Hampshire marca uma impressionante recuperação. Porém, isso pode não ajudar muito, nem a ele nem à causa republicana, já que o campo do seu partido está irremediavelmente fragmentado

Marc Pitzke

John McCain é um homem supersticioso. Ele preferiu hospedar-se no mesmo hotel em que ficou em New Hampshire em 2000, a última ocasião em que obteve uma reviravolta política em uma eleição primária. O hotel é o Crowne Plaza, em Nashua, a cidade na qual anunciou a sua primeira disputa pela candidatura republicana oito anos atrás. Ele ficou no mesmo quarto e alugou o mesmo salão. Durante o dia ele chegou até a usar o mesmo pulover azul e verde, com gola “V”, que vestiu naquela ocasião.

Às vezes a política é mais do que estratégia ou cálculo frio. Em certas ocasiões política diz respeito simplesmente a cerrar os dentes e partir para a luta. Isso se aplica a John McCain. Na noite que passou em New Hampshire, ele provou aquele velho adágio segundo o qual em política o jogo só termina no apito final. Esta é, até o momento, a maior lição da campanha. E uma lição que alguns democratas estão tendo que digerir.

“Obrigado, obrigado, obrigado”, gritou para os seus eufóricos eleitores McCain, de 71 anos, que até recentemente era descartado como sendo uma velharia trágica. “Nós mostramos a eles o que é um retorno”.

O salão transformou-se em um mar de bandeiras de listras e estrelas, e nele ressoou o grito de batalha: “Mac retornou! Mac retornou!”, seguido dos gritos patrióticos “U-S-A! U-S-A!” para o velho herói da Guerra do Vietnã.

Déjà vu: muita coisa na vitória de McCain na eleição primária de New Hampshire faz lembrar a vitória de 2000. Naquele ano, como agora, o seu ônibus de batalha, o “Straigh Talk Express” (algo como “Expresso da Fala Honesta”) rodou pelo Estado - e os repórteres foram sempre bem-vindos. À época ele embaraçou George W. Bush, relegando este a um segundo lugar com uma vitória de 49% a 30%. Desta vez ele derrotou o rival Mitt Romney.

Mas é claro que muita coisa mudou nos últimos oito anos. Em 2000 tratava-se de um simples duelo entre McCain e Bush. McCain era oito anos mais novo, e Bush rumou para a vitória na Carolina do Sul, jogando-o para fora da disputa com tanta força que McCain demorou muito para se recuperar.

“Duas pratas e um ouro”
McCain tem boas razões para estar felicíssimo com o seu sucesso, mas isso não torna a disputa republicana pela presidência nem um pouco mais fácil. Pelo contrário, a vaga do candidato republicano à presidência ficou subitamente escancarada, mais escancarada do que nunca.

Na semana passada, Iowa deu a vitória a Mike Huckabee, o oponente da Teoria da Evolução com consciência social e retórica de pastor. Em New Hampshire foi a vez de McCain, o rebelde que não concorda com a liderança do Partido Republicano. Muitos não deram atenção à pequena eleição primária de Wyoming, onde Mitt Romney - o milionário sempre alinhado que continua a se achar o favorito, apesar das duas derrotas que sofreu - saiu vitorioso.

“Até agora só houve três disputas, e eu obtive duas medalhas de prata e uma de ouro”, disse Romney.

Michigan, Carolina do Sul e Flórida são as próximas paradas deste circo itinerante de promessas eleitorais. E os candidatos partiram antes mesmo que os confetes fossem varridos. McCain seguiu para Michigan, e Huckabee para a Carolina do Sul. Na quinta-feira eles todos se encontrarão em Myrtle Beach, na Carolina do Sul, para mais um debate na televisão onde os assuntos serão impostos e imigração e onde se discutirá o que mais confere qualificação para a liderança - o fato de ter servido as forças armadas, feito parte de uma diretoria executiva ou pregado em um púlpito.

A recuperação de McCain foi um grande feito. As suas verbas secaram, os seus estrategistas ou desistiram ou foram demitidos e vários especialistas previram que ele não se recuperaria da gafe cometida durante uma visita a Bagdá em abril, quando caminhou pelo mercado Shorja, em Bagdá (protegido por cem soldados e por um colete a prova de balas - e alegou: “Há bairros em Bagdá nos quais atualmente eu e você podemos caminhar”.

O seu apoio à política de Bush para o Iraque também pareceu prenunciar a sua queda, assim como o seu apoio à fracassada reforma da lei de imigração. No final, porém, a “fala honesta” de McCain saiu vencedora, pelo menos em New Hampshire.

Uma onda de adrenalina de curta duração?
Ele tem ímpeto. Mas agora McCain enfrenta o Michigan, o Estado no qual Romney foi criado. E depois a Carolina do Sul, onde o sulista Mike Huckabee atrai os eleitores cristãos. E a seguir a Flórida, onde Rudy Giuliani, que ignorou Iowa e New Hampshire, consolidou um forte reduto eleitoral entre os latinos e ex-novaiorquinos.

Todos os candidatos republicanos estão começando a dar sinais de desgaste. Romney, que perdeu as duas primeiras grandes eleições apesar de ter investido mais de US$ 20 milhões na campanha; Huckabee, que está perdendo ímpeto apesar da sua vitória em Iowa; Giuliani, cuja estratégia eleitoral parece cada vez mais arriscada; e o enrolado Fred Thomson.

Os assessores de McCain não sabem como disseminar a onda de adrenalina de New Hampshire pelo país - sem os milhões de Romney e o apoio do establishment do partido.

Esse é o dilema dos republicanos. Um grande número de candidatos continua na disputa, mas nenhum deles é de fato convincente, e todos parecem envelhecidos ao papagaiarem os apelos de Obama por “mudança”.

Nenhum deles está conseguindo mobilizar o partido inteiro. Nenhum parece ser capaz de forjar aquele tipo de aliança que garantiu a vaga de candidato pelo partido a Ronald Reagan. Em vez disso, todos os candidatos estão se dirigindo aos seus próprios públicos, às suas próprias facções dentro do partido. “Temos um punhado de candidatos incapazes de vencer”, reclamou o ex-senador republicano Rick Santorum.

“É uma guerra de desgaste”, diz Dan Bartlett, ex-assessor de Bush. Provavelmente o partido de Lincoln nunca antes esteve assim tão dividido.

Por ora, McCain ainda pode regozijar-se com a sua recuperação. Na sua festa eleitoral na noite de terça-feira o DJ tocou “Eye of the Tiger”, da banda Survivor, a trilha sonora do filme “Rocky III”. Um trecho da música diz: “Apenas um homem e a sua vontade de sobreviver”. Ouvindo isso, John McCain sorriu como um garotinho.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Sobre santos e demônios

O PROFESSOR DE HARVARD INVESTIGA POR QUE AS REPUTAÇÕES MORAIS DE PERSONALIDADES COMO MADRE TERESA DE CALCUTÁ E BILL GATES ESTÃO TÃO EM DESACORDO COM O BEM QUE PRATICARAM

Albert Gea - 5.ago.2003/Reuters

Meninas se abraçam em fonte de Barcelona, na Espanha

STEVEN PINKER
Qual das seguintes pessoas é a mais admirável? Madre Teresa, Bill Gates ou Norman Borlaug? E qual é a menos admirável? Para a maioria das pessoas é uma pergunta fácil. Madre Teresa, famosa por socorrer os pobres em Calcutá, foi beatificada pelo Vaticano, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e se classificou em uma pesquisa americana como a pessoa mais admirada do século 20.
Bill Gates, infame por nos dar o clipe de papel dançante da Microsoft e a tela azul da morte, foi decapitado simbolicamente em websites "Eu Odeio Gates" e atingido com uma torta no rosto. Quanto a Norman Borlaug… quem é ele?
Mas um exame mais profundo poderá levá-lo a reavaliar suas respostas. Borlaug, pai da "Revolução Verde", que usou a ciência agrícola para reduzir a fome mundial, recebeu o crédito por salvar 1 bilhão de vidas, mais que qualquer outra pessoa na história.
Gates, ao decidir o que fazer com sua fortuna, calculou bem e decidiu que podia aliviar mais sofrimento combatendo pragas comuns no mundo em desenvolvimento, como malária, diarréia e parasitas.
Madre Teresa, por sua vez, enalteceu a virtude do sofrimento e dirigiu suas bem financiadas missões apropriadamente: seus doentes recebiam muitas orações, mas condições exíguas, poucos analgésicos e tratamentos médicos perigosamente primitivos.
Lei íntima
Não é difícil entender por que as reputações morais desses três estão tão em desacordo com o bem que praticaram.
Madre Teresa foi a própria personificação da santidade: vestida de branco, olhar triste, ascética e freqüentemente fotografada com os miseráveis da Terra. Gates é o mais nerd dos nerds e o homem mais rico do mundo, com a mesma probabilidade de entrar no paraíso quanto o proverbial camelo espremido no buraco da agulha.
E Borlaug, aos 93 anos, é um agrônomo que passou a vida em laboratórios e instituições sem fins lucrativos, raramente aparecendo no palco da mídia e, logo, em nossa consciência.
Duvido que esses exemplos convençam alguém a preferir Bill Gates a Madre Teresa para santificação.
Mas eles mostram que nossas cabeças podem ser atraídas por uma aura de santidade, distraindo-nos de uma identificação mais objetiva dos atos que fazem as pessoas sofrerem ou florescerem.
Parece que talvez sejamos todos vulneráveis a ilusões morais. Hoje, um novo campo está usando as ilusões para desmascarar um sexto sentido, o senso moral. As intuições morais estão sendo extraídas das pessoas em laboratórios, em websites e em escaneadores cerebrais e estão sendo explicadas com ferramentas da teoria dos jogos, da neurociência e da biologia evolucionária.
"Duas coisas enchem a mente de admiração e respeito sempre renovados e crescentes, quanto mais freqüente e constantemente refletimos sobre elas", escreveu o filósofo alemão Immanuel Kant. "Os céus estrelados no alto e a lei moral no íntimo." Hoje em dia, a lei moral íntima está sendo vista com crescente respeito, embora nem sempre com admiração.
Se a moral é um mero truque do cérebro, como temem alguns, nossas próprias bases para sermos morais poderiam ser erodidas. Mas, como veremos adiante, a ciência do senso moral pode ser vista como uma maneira de reforçar essas bases, esclarecendo o que é a moral e como ela deve conduzir nossas ações.
A tecla da moralização
É a atitude mental que nos faz considerar certos atos imorais, e não meramente desagradáveis, fora de moda ("calças boca-de-sino já eram") ou imprudentes ("não coce picadas de mosquito").
A primeira característica da moralização é que as regras que ela invoca são consideradas universais. As proibições ao estupro e ao assassinato, por exemplo, não são consideradas questões de costume local, mas algo universal e objetivamente sancionado.
A outra característica é que as pessoas sentem que quem comete atos imorais merece ser punido.
Todos sabemos como é quando o "botão" da moralização é acionado dentro de nós -o fulgor virtuoso, a ira flamejante, o ímpeto de recrutar outros para a causa. O psicólogo Paul Rozin estudou esse botão comparando dois tipos de pessoas que têm o mesmo comportamento, mas com regulagens diferentes do botão.
Certos vegetarianos evitam comer carne por razões práticas, como reduzir o colesterol e evitar toxinas. Os vegetarianos morais evitam a carne por razões éticas, para não serem cúmplices com o sofrimento dos animais.
Mesmo quando as pessoas concordam que um resultado é desejável, podem discordar sobre se ele deve ser tratado como uma questão de preferência e prudência ou como uma questão de pecado e virtude.
Rozin nota, por exemplo, que o hábito de fumar foi moralizado ultimamente. Até pouco tempo atrás, compreendia-se que algumas pessoas não gostavam de fumar ou o evitavam porque era prejudicial à saúde. Mas, com a descoberta dos efeitos nocivos do tabagismo passivo, hoje fumar é tratado como algo imoral.
Muitas dessas moralizações, como o ataque ao tabagismo, podem ser entendidas como táticas práticas para reduzir um mal recém-identificado. Mas, se uma atividade liga nossos botões mentais no modo "moral", não é só uma questão do mal que ela provoca. Comer um Big Mac é falta de escrúpulos, mas não queijo importado ou crème brûlée.
O motivo desses critérios duplos é óbvio: as pessoas tendem a alinhar sua moralização com seus próprios estilos de vida.
Razão e racionalização
Não é apenas o conteúdo de nossos julgamentos morais que muitas vezes é questionável, mas o modo como chegamos a eles. Gostamos de pensar que há boas razões que nos levam a adotar nossas convicções.
É por isso que uma abordagem mais antiga da psicologia moral, conduzida por Jean Piaget e Lawrence Kohlberg, tentou documentar as linhas de raciocínio que levavam as pessoas a conclusões morais. Mas considere estas situações abaixo, originalmente imaginadas pelo psicólogo Jonathan Haidt.
Julie está viajando pela França, durante as férias de verão da faculdade, com seu irmão Mark. Certa noite eles decidem que seria interessante e divertido se experimentassem fazer amor. Julie já tomava pílulas anticoncepcionais, mas, para ter mais segurança, Mark também usa uma camisinha. Ambos apreciam o sexo, mas decidem não repetir.


As pessoas, em geral, não se dedicam a um raciocínio moral, mas à raciona-lização moral: começam pela conclusão, gerada por uma emoção inconsciente, e, então, recuam até uma justificativa plausível

Fazem daquela noite um segredo especial, o que os torna ainda mais próximos. O que você acha disso -foi certo eles fazerem amor?
Uma mulher está limpando o armário e encontra sua velha bandeira dos EUA. Ela não quer mais a bandeira, então a corta em pedaços e usa os trapos para limpar o banheiro.
O cachorro de uma família é morto por um carro na frente da casa. Eles ouviram dizer que carne de cachorro é deliciosa, então cortam o animal em pedaços, o cozinham e o comem no jantar.
A maioria das pessoas imediatamente declara esses atos errados e depois tenta justificar por que são errados. Não é tão fácil. No caso de Julie e Mark, as pessoas levantam a possibilidade de filhos com defeitos de nascença, mas elas se lembram de que o casal foi cauteloso sobre a contracepção.
Elas sugerem que os irmãos ficarão emocionalmente magoados, mas a história deixa claro que não ficaram. Elas alegam que o ato ofenderia a comunidade, mas então lembram-se de que foi mantido em segredo. Afinal as pessoas admitem: "Não sei, não consigo explicar, só sei que é errado".
As pessoas, em geral, não se dedicam a um raciocínio moral, afirma Haidt, mas à racionalização moral: começam pela conclusão, gerada por uma emoção inconsciente, e, então, recuam até uma justificativa plausível.
A lacuna entre as convicções das pessoas e suas justificativas também é visível no novo playground favorito dos psicólogos morais, uma experiência com o pensamento criada pelas filósofas Philippa Foot e Judith Jarvis Thomson, chamada o Problema do Bonde.
Em sua caminhada matinal, você vê um bonde correndo nos trilhos, com o condutor caído sobre os controles. No caminho do bonde, há cinco homens trabalhando nos trilhos, alheios ao perigo. Você está parado numa bifurcação dos trilhos e pode puxar uma alavanca que desviará o bonde para um ramal, salvando os cinco homens.
Nesse caso, infelizmente, o bonde atropelaria um único homem que está trabalhando no ramal. É permissível acionar a alavanca, matando um homem para salvar cinco?
Quase todo mundo diz "sim".
Agora imagine uma cena diferente. Você está numa ponte olhando para os trilhos e avistou o bonde desgovernado aproximando-se dos cinco trabalhadores. Agora, o único modo de deter o bonde é atirar um objeto pesado em seu caminho. E o único objeto pesado próximo é um homem gordo parado ao seu lado. Você deve atirar o homem da ponte?
Cinco vidas por uma
Ambos os dilemas apresentam a opção de sacrificar uma vida para salvar cinco e, portanto, pelo padrão utilitário de qual seria o melhor resultado para o maior número de pessoas, os dois dilemas se equivalem moralmente.
Mas a maioria das pessoas não vê a coisa assim: mesmo que puxassem a alavanca no primeiro dilema, não atirariam o homem gordo no segundo. Quando pressionadas a dar um motivo, elas não encontram nenhum coerente, mas filósofos morais também não encontraram com facilidade uma diferença relevante.
Joshua Greene, um filósofo e neurocientista da cognição, sugere que a evolução dotou as pessoas de uma repulsa a manipular uma pessoa inocente.
Por si só, essa seria apenas uma história plausível, mas Greene uniu-se ao neurocientista da cognição Jonathan Cohen e vários colegas de Princeton para examinar os cérebros de pessoas usando ressonância magnética funcional.
Eles buscaram sinais de conflito entre áreas do cérebro associadas à emoção (as que se recusam a ferir alguém) e áreas dedicadas à análise racional (as que calculam vidas perdidas e salvas).
Quando as pessoas avaliavam dilemas que exigiam matar alguém com suas próprias mãos, várias redes em seus cérebros se acendiam.
Uma delas está envolvida nas emoções sobre outras pessoas. Uma segunda foi relacionada à atividade de computação mental (incluindo raciocínio não-moral, como decidir viajar de avião ou de trem). E uma terceira região registra um conflito entre o impulso que vem de uma parte do cérebro e a avaliação que vem de outra parte.
Mas, quando as pessoas analisavam um dilema sem intervir, como desviar o bonde para o ramal com um único trabalhador, o cérebro reagia de modo diferente: apenas a área envolvida no cálculo racional se destacava.
Outros estudos mostraram que pacientes neurológicos que têm as emoções embotadas devido a danos aos lobos frontais se tornam utilitaristas: acham totalmente sensato atirar o homem gordo da ponte. Juntas, as descobertas corroboram a teoria de Greene, segundo a qual nossas intuições não-utilitárias vêm da vitória de um impulso emocional sobre uma análise de custo-benefício.
As conclusões da "bondeologia" -intuições morais complexas, instintivas e mundiais- levaram Hauser e John Mikhail (um acadêmico de direito) a reavivar uma analogia do filósofo John Rawls entre o senso moral e a linguagem.
Segundo Noam Chomsky, nascemos com uma "gramática universal" que nos força a analisar o discurso em termos de sua estrutura gramatical, sem termos uma consciência real das regras do jogo. Por analogia, nascemos com uma gramática moral universal que nos força a analisar a ação humana em termos de sua estrutura moral, igualmente sem uma real consciência disso.
O senso moral, portanto, pode estar enraizado no projeto do cérebro humano normal.
Mas, apesar de toda a admiração que pode invadir nossas mentes quando refletimos sobre uma lei moral inata, a idéia é no mínimo incompleta.
Considere este dilema moral: um bonde desgovernado está prestes a matar uma professora. Você pode desviar o bonde para um ramal secundário, mas o bonde acionaria um botão que mandaria um sinal para uma classe de crianças de seis anos autorizando-as a dar o nome de Maomé a um ursinho de pelúcia.
Isso não é uma piada.
Em novembro, uma mulher britânica que era professora em uma escola particular no Sudão permitiu que sua classe batizasse um ursinho de brinquedo com o nome do menino mais popular da classe, que era homônimo do fundador do islamismo. Ela foi presa por blasfêmia e ameaçada de açoitamento em público, enquanto uma multidão diante da prisão exigia sua morte.
Para os manifestantes, a vida da mulher claramente tinha menos valor do que enfatizar a dignidade de sua religião, e o julgamento deles sobre o acerto de desviar o bonde seria diferente do nosso.
Qualquer que seja a gramática que conduz os julgamentos morais das pessoas, não pode ser tão universal.
Senso universal
Quando antropólogos como Richard Shweder e Alan Fiske estudam preocupações morais ao redor do mundo, descobrem que alguns temas freqüentemente se destacam em meio à diversidade. Pessoas de todos os lugares, pelo menos em certas circunstâncias e tendo em mente certas pessoas, acham que é errado ferir os outros e certo ajudá-los.
Elas têm um senso de justiça; valorizam a lealdade a um grupo, o intercâmbio e a solidariedade entre seus membros e a conformidade a suas normas. Acreditam que é certo obedecer às autoridades legítimas e respeitar as pessoas em posição elevada. E exaltam a pureza, a limpeza e a santidade, enquanto desprezam a degradação, a contaminação e a carnalidade.
O número exato de temas depende de você ser um agregador ou um divisor, mas Haidt conta cinco -agressão, justiça, comunidade (ou lealdade ao grupo), autoridade e pureza- e sugere que essas são as cores primárias de nosso senso moral. Não apenas reaparecem em pesquisas entre diversas culturas, como cada uma se liga às intuições morais das pessoas de nossa própria cultura.
Pureza e violação
Assim, a violação da comunidade fez pessoas rejeitarem a idéia de usar uma velha bandeira para limpar um banheiro. A violação da pureza repeliu as pessoas que julgaram a moralidade do incesto consensual e impediu que os vegetarianos e os não-fumantes tolerassem o menor vestígio de um elemento contaminador.
No outro extremo da escala, demonstrações de extrema pureza levam as pessoas a venerar líderes religiosos que se vestem de branco e adotam uma aura de castidade e ascetismo.
As cinco esferas são boas candidatas a uma tabela periódica do senso moral, não só por serem ubíquas, mas também porque parecem ter profundas raízes evolucionárias.
O impulso de não fazer mal, que faz os avaliadores do bonde recuarem quando pensam em atirar o homem da ponte, também pode ser encontrado em macacos resos, que preferem passar fome a puxar uma corrente que lhes proporciona comida, mas também causa um choque em outro macaco.
O respeito à autoridade está claramente relacionado à hierarquia de dominação e aceitação generalizada no reino animal. O contraste pureza-devassidão está ligado à emoção de repulsa provocada por potenciais vetores de doenças, como eflúvios corporais, carne em decomposição e formas não convencionais de carne e por práticas sexuais arriscadas, como o incesto.
As duas outras esferas moralizadas se equiparam aos exemplos clássicos de como o altruísmo pode evoluir, trabalhados pelos sociólogos nos anos 1960 e 70 e que se tornaram famosos com o livro de Richard Dawkins "O Gene Egoísta" (Cia. das Letras).
A justiça é muito próxima do que os cientistas chamam de altruísmo recíproco, em que a disposição a ser bom para os outros pode evoluir desde que o favor ajude o receptor mais do que custa ao doador e o receptor retribua o favor quando as fortunas se inverterem.
A análise faz parecer que o altruísmo recíproco sai de um cálculo robótico, mas na verdade o biólogo Robert Trivers, que criou a teoria, afirmou que ele é implementado no cérebro como um conjunto de emoções morais. A simpatia leva uma pessoa a oferecer o primeiro favor, especialmente para alguém necessitado para o qual seria mais útil.
A raiva protege uma pessoa de trapaceiros que aceitam favores sem retribuir, levando-a a punir o ingrato ou a interromper o relacionamento. A gratidão impele o beneficiário a recompensar os que o ajudaram no passado. A culpa leva o trapaceiro sob risco de ser descoberto a reparar o relacionamento compensando sua má ação e avisando que se comportará melhor no futuro.
Manipulando as esferas
Tudo isso nos leva a uma teoria de como o senso moral pode ser universal e variável ao mesmo tempo. As cinco esferas morais são universais, um legado da evolução. Mas como elas se classificam em importância, e qual é acionada para moralizar cada área da vida social -sexo, governo, comércio, religião, dieta e assim por diante-, depende da cultura.
Não é fácil reatribuir uma atividade a uma esfera diferente ou retirá-la totalmente das esferas morais. As pessoas acham que um comportamento pertence a sua esfera do mesmo modo que uma necessidade sagrada e que o próprio fato de questionar uma atribuição é um ultraje moral.
Corrosão
O psicólogo Philip Tetlock mostrou que a mentalidade do tabu -a convicção de que alguns pensamentos são pecaminosos- não é apenas uma superstição dos polinésios, mas uma mentalidade que pode ser facilmente despertada em americanos de nível educacional superior.
Basta lhes pedir para pensar em aplicar a esfera da reciprocidade a relacionamentos habitualmente regidos pela comunidade ou a autoridade.
Quando Tetlock pediu aos entrevistados sua opinião sobre se as agências de adoção deveriam dar as crianças para os casais que se dispusessem a pagar mais, se as pessoas deveriam ter o direito de vender seus órgãos e se elas deveriam poder pagar para não servir como juradas, os pesquisados não apenas discordaram como se sentiram pessoalmente insultados e indignados por alguém fazer essas perguntas.
As instituições da modernidade muitas vezes questionam e experimentam o modo como as atividades são atribuídas às esferas morais.
As economias de mercado tendem a colocar tudo à venda. A ciência amoraliza o mundo ao buscar entender os fenômenos, em vez de julgá-los. A filosofia secular está perscrutando todas as idéias adquiridas, incluindo as entrincheiradas na autoridade e na tradição.
Não é de surpreender que essas instituições muitas vezes sejam consideradas moralmente corrosivas.
E "moralmente corrosiva" é exatamente o termo que alguns críticos aplicariam à nova ciência do senso moral. A tentativa de dissecar nossas intuições morais pode parecer uma tentativa de desacreditá-las.
A explicação de como as diferentes culturas apelam para as diferentes esferas poderia levar a um relativismo sem espinha dorsal, em que nunca teríamos bases para criticar a prática de outra cultura, por mais bárbara que fosse, porque "nós temos nosso tipo de moral e eles têm o deles".
E toda a empreitada parece estar nos arrastando para um niilismo amoral, em que a própria moralidade seria reduzida de um princípio transcendental a uma invenção de nosso circuito neural.
Na realidade, nenhum desses temores se justifica, e é importante entender por quê. A primeira incompreensão envolve a lógica das explicações evolucionistas. Os biólogos evolucionistas às vezes antropomorfizam o DNA pelo mesmo motivo que os professores de ciência acham útil fazer seus alunos imaginarem o mundo do ponto de vista de uma molécula ou de um raio de luz.
Um atalho para compreender a teoria da seleção sem usar a matemática é imaginar que os genes são pequenos agentes que tentam fazer cópias de si mesmos.
Infelizmente, o "meme" do gene egoísta escapou dos livros de biologia popular e se transformou na idéia de que os organismos (incluindo as pessoas) agem impiedosamente por interesse próprio. E isso não tem sentido. Os genes não são um reservatório de nossos desejos obscuros e inconscientes.
Tampouco o altruísmo recíproco -a razão evolucionária por trás da justiça- implica que as pessoas fazem boas ações na expectativa cínica de uma recompensa futura.
Todos sabemos de boas ações sem retribuição, como dar gorjeta para uma garçonete em uma cidade à qual você nunca voltará ou se jogar sobre uma granada para salvar os companheiros de pelotão. Essas irrupções de bondade não são tão anômalas para um biólogo quanto poderiam parecer.
Uma compreensão biológica do senso moral não significa que as pessoas sejam calculistas, tentando maximizar seus genes ou seu interesse próprio. Mas onde ela deixa o próprio conceito de moralidade?
Deus como solução rápida
A visão científica nos ensinou que algumas partes de nossa experiência subjetiva são produto de nossa constituição biológica e não têm contrapartida objetiva no mundo. Mas, se a distinção entre certo e errado também é um produto da programação do cérebro, por que deveríamos acreditar que é mais real que a distinção entre vermelho e verde?
E, se é apenas uma alucinação coletiva, como podemos afirmar que males como o genocídio e a escravidão são errados para todos nós, e não apenas repulsivos para nós?
Colocar Deus a cargo da moral é uma maneira de solucionar o problema, é claro, mas Platão resolveu isso rapidamente há 2.400 anos. Deus teria um bom motivo para designar certos atos como morais e outros como imorais? Se não -se seus mandamentos são caprichos divinos-, por que devemos levá-los a sério?
Talvez nasçamos com um senso moral rudimentar, e, assim que o elaboramos com o raciocínio moral, a natureza da realidade moral nos force a algumas conclusões, mas não a outras. O realismo moral, como essa idéia é chamada, é rico demais para muitos filósofos. Mas uma versão diluída da idéia -se não uma lista de mandamentos cosmicamente inscritos, pelo menos algumas inferências- não é loucura.
Duas características da realidade levam qualquer agente social racional e autopreservante a uma direção moral. E elas poderiam fornecer um parâmetro para determinar quando os julgamentos de nosso senso moral estão de acordo com a própria moralidade.
Uma é a prevalência dos jogos que não são de perder ou ganhar. Em muitas áreas da vida, duas partes se saem objetivamente melhor se ambas agirem de maneira não-egoísta do que se cada uma agir egoisticamente. Você e eu ficaremos melhor se dividirmos nossos excedentes, salvarmos os filhos do outro em perigo e não atirarmos um no outro.
Essas projeções contábeis não são minúcias da programação cerebral nem são ditadas por um poder sobrenatural -estão na natureza das coisas.
O outro suporte externo da moral é uma característica da própria racionalidade: ela não pode depender do ponto de vantagem egocêntrico do raciocinador. Não posso agir como se meus interesses fossem especiais só porque eu sou eu e você não é, assim como não posso convencê-lo de que o lugar em que estou é um lugar especial no universo só porque eu estou nele.
Não por coincidência, o centro dessa idéia -a intercambialidade de perspectivas- aparece constantemente nas filosofias morais mais bem pensadas da história, incluindo a "regra de ouro" (ela mesma várias vezes descoberta); o "ponto de vista da eternidade" de Espinosa; o "contrato social" de Hobbes, Rousseau e Locke; o "imperativo categórico" de Kant; e o "véu da ignorância" de Rawls.
Também é subjacente à teoria de Peter Singer do círculo em expansão -a proposta otimista de que nosso senso moral, embora moldado pela evolução para supervalorizar a si mesmo, aos parentes e ao clã, pode nos levar a um caminho de progresso moral, pois nosso raciocínio nos obriga a generalizá-lo para círculos cada vez maiores de seres sencientes.
Autoconhecimento
A moral, portanto, ainda é algo maior do que nosso senso moral herdado, e a nova ciência do senso moral não torna obsoletos o raciocínio e a convicção morais. Ao mesmo tempo, suas implicações para nosso universo moral são profundas.
No mínimo, a ciência nos diz que, mesmo quando a agenda de nossos adversários é mais surpreendente, eles podem não ser psicopatas amorais, mas estar sujeitos a uma mentalidade moral que lhes parece tão obrigatória e universal quanto a nossa é para nós.
É claro que alguns adversários são de fato psicopatas; outros estão tão intoxicados por uma moralização punitiva que estão além do limite da razão. E em lugar nenhum a moralização é mais perigosa do que em nosso maior desafio global.
A ameaça da mudança climática provocada pelos seres humanos se tornou motivo para uma reunião da revivescência moralista. Em muitas discussões, a causa da mudança climática são o excesso de indulgência (caminhonetes demais) e a degradação (sujar a atmosfera), e as soluções são a temperança (conservação) e a expiação (comprar cupons de crédito de carbono).
Mas os especialistas concordam que esses números não se somam: mesmo que todos os americanos se tornassem conscienciosos sobre os efeitos de suas emissões de carbono sobre a mudança climática, seriam irrisórios, no mínimo, porque 2 bilhões de indianos e chineses provavelmente não imitariam nossa abstemia renascida.
Embora a conservação voluntária possa ser uma fatia de uma torta de redução de carbono efetiva, as outras fatias terão de ser moralmente entediantes, como um imposto de carbono e novas tecnologias energéticas, ou mesmo tabus, como a energia nuclear e a manipulação deliberada do oceano e da atmosfera.
Nosso hábito de moralizar os problemas, misturando-os com intuições de pureza e contaminação, e descansar satisfeitos quando temos os sentimentos certos, pode nos impedir de agir acertadamente.
Longe de desmistificar a moral, portanto, a ciência do senso moral pode fazê-la avançar, permitindo-nos enxergar através das ilusões que a evolução e a cultura nos impuseram e nos concentrar em objetivos que podemos compartilhar e defender. Como escreveu Anton Tchékhov: "O homem se tornará melhor quando você lhe mostrar como ele é".


STEVEN PINKER é professor de psicologia na Universidade Harvard (EUA) e autor de "O Instinto da Linguagem" (ed. Martins Fontes) e "Tábula Rasa" (Cia. das Letras). A íntegra deste texto foi publicada no "New York Times".
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Folha de S. Paulo

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FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ERA (E É) ESPIÃO DA CIA ?

Sebastião Nery (Tribuna da Imprensa)

Quem pagou

Acaba de chegar às livrarias brasileiras um livro interessantíssimo, indispensável, que tira a máscara da Fundação Ford e, com ela, a de Fernando Henrique e muita gente mais: "Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura", da pesquisadora inglesa Frances Stonor Saunders (editado no Brasil pela Record, tradução de Vera Ribeiro). Quem "pagava a conta" era a CIA, quem pagou os 145 mil dólares (e os outros) entregues pela Fundação Ford a Fernando Henrique foi a CIA. Não dá para resumir em uma coluna de jornal um livro que é um terremoto. São 550 páginas documentadas, minuciosa e magistralmente escritas: "Consistente e fascinante" ("The Washington Post"). "Um livro que é uma martelada, e que estabelece em definitivo a verdade sobre as atividades da CIA" ("Spectator"). "Uma história crucial sobre as energias comprometedoras e sobre a manipulação de toda uma era muito recente" ("The Times").

Dinheiro da CIA para FHC

"Numa noite de inverno do ano de 1969, nos escritórios da Fundação Ford, no Rio, Fernando Henrique teve uma conversa com Peter Bell, o representante da Fundação Ford no Brasil. Peter Bell se entusiasma e lhe oferece uma ajuda financeira de 145 mil dólares. Nasce o Cebrap". Esta história, assim aparentemente inocente, era a ponta de um iceberg. Está contada na página 154 do livro "Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível", da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni (Editora Nova Fronteira, Rio, 1997, tradução de Dora Rocha). O "inverno do ano de 1969" era fevereiro de 69.

Fundação Ford

Há menos de 60 dias, em 13 de dezembro, a ditadura havia lançado o AI-5 e jogado o País no máximo do terror do golpe de 64, desde o início financiado, comandado e sustentado pelos Estados Unidos. Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões, lotadas. Até Juscelino e Lacerda tinham sido presos. E Fernando Henrique recebia da poderosa e notória Fundação Ford uma primeira parcela de 145 mil dólares para fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). O total do financiamento nunca foi revelado. Na Universidade de São Paulo, sabia-se e se dizia que o compromisso final dos americanos era de 800 mil a um milhão de dólares.

Agente da CIA

Os americanos não estavam jogando dinheiro pela janela. Fernando Henrique já tinha serviços prestados. Eles sabiam em quem estavam aplicando sua grana. Com o economista chileno Faletto, Fernando Henrique havia acabado de lançar o livro "Dependência e desenvolvimento na América Latina", em que os dois defendiam a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos. Montado na cobertura e no dinheiro dos gringos, Fernando Henrique logo se tornou uma "personalidade internacional" e passou a dar "aulas" e fazer "conferências" em universidades norte-americanas e européias. Era "um homem da Fundação Ford". E o que era a Fundação Ford? Uma agente da CIA, um dos braços da CIA, o serviço secreto dos EUA.

Milhões de dólares

1 - "A Fundação Farfield era uma fundação da CIA… As fundações autênticas, como a Ford, a Rockfeller, a Carnegie, eram consideradas o tipo melhor e mais plausível de disfarce para os financiamentos… permitiu que a CIA financiasse um leque aparentemente ilimitado de programas secretos de ação que afetavam grupos de jovens, sindicatos de trabalhadores, universidades, editoras e outras instituições privadas" (pág. 153). 2 - "O uso de fundações filantrópicas era a maneira mais conveniente de transferir grandes somas para projetos da CIA, sem alertar para sua origem. Em meados da década de 50, a intromissão no campo das fundações foi maciça…" (pág. 152). "A CIA e a Fundação Ford, entre outras agências, haviam montado e financiado um aparelho de intelectuais escolhidos por sua postura correta na guerra fria" (pág. 443).

3 - "A liberdade cultural não foi barata. A CIA bombeou dezenas de milhões de dólares… Ela funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos Estados Unidos… com a organização sistemática de uma rede de grupos ou amigos, que trabalhavam de mãos dadas com a CIA, para proporcionar o financiamento de seus programas secretos" (pág. 147).

FHC facinho

4 - "Não conseguíamos gastar tudo. Lembro-me de ter encontrado o tesoureiro. Santo Deus, disse eu, como podemos gastar isso? Não havia limites, ninguém tinha que prestar contas. Era impressionante" (pág. 123).

5 - "Surgiu uma profusão de sucursais, não apenas na Europa (havia escritorios na Alemanha Ocidental, na Grã-Bretanha, na Suécia, na Dinamarca e na Islândia), mas também noutras regiões: no Japão, na Índia, na Argentina, no Chile, na Austrália, no Líbano, no México, no Peru, no Uruguai, na Colômbia, no Paquistão e no Brasil" (pág. 119).

6 - "A ajuda financeira teria de ser complementada por um programa concentrado de guerra cultural, numa das mais ambiciosas operações secretas da guerra fria: conquistar a intelectualidade ocidental para a proposta norte-americana" (pág. 45). Fernando Henrique foi facinho.

E pensar que esse pústula nos governou (e quebrou o Brasil) por oito anos!

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No berço dos talebans no Paquistão

A lei islâmica impera na cidade paquistanesa de Peshawar, feudo dos islâmicos afegãos que fugiram após a intervenção dos EUA

Jordi Joan Baños

Nas missas de Peshawar o sangue de Cristo se transubstancia em refresco de uva enlatado. A ausência de vinho é um verdadeiro símbolo da onipresença do rigor islâmico na capital do oeste selvagem paquistanês. É o que explica o padre Joseph John, pároco da igreja de São João, construída pelos britânicos por volta de 1850.

A um passo da fronteira que divide os pashtun, Peshawar foi em sua época a meca do jihadismo internacional. Bin Laden recrutou ali, por conta da CIA, os mujahedin impacientes para expulsar os soviéticos do Afeganistão. Entretanto, nos arredores de Peshawar foram criadas as madraças, onde se doutrinou a fornada seguinte de guerrilheiros, os taleban, que conseguiram impor a chariá, a lei islâmica, a 90% do Afeganistão. Até que o 11 de Setembro provocou a intervenção americana e tiveram de bater em retirada, em muitos casos de volta ao Paquistão. Voltaram ao ataque e os que acreditavam que o Afeganistão poderia pegar uma pneumonia sem que o Paquistão se resfriasse perceberam seu erro.

“Os de pele escura somos os verdadeiros filhos desta terra, e não os brancos (referindo-se aos fundamentalistas islâmicos que se vangloriam de ascendência persa, árabe ou turca)”, protesta o padre. A igreja de São João se enche aos domingos com 500 fiéis, sobretudo na missa em urdu. Também inclui uma escola, protegida com fuzis, onde a maioria dos alunos pertence à elite muçulmana. Alunas e professoras têm os rostos e cabelos descobertos. Ao sair devem cobrir-se. Não é uma questão religiosa, mas social. Exatamente, o primeiro sinal de que se chegou ao país dos pashtun são as mulheres sem corpo e sem rosto, anuladas da cabeça aos pés pela infame burqa: azul, preta, branca ou bege.

Na saída damos com uma loja de roupas femininas, cujos manequins têm o rosto mascarado. Um pouco adiante circula uma camionete com um anúncio. Uma mão islâmica transformou em borrão os rostos das mulheres. Peshawar ao entardecer é uma cidade voltada para a rua, com uma multidão muitas vezes exclusivamente masculina. As mulheres foram varridas para o espaço doméstico.

É a parte antiga de Peshawar, cujos mercados de vendedores de berinjelas agachados parecem tirados das Mil e Uma Noites. Sob a torre Cunningham ficam as barracas de peixe e ali perto o antigo e endinheirado bairro indiano. Quase todos fugiram da Índia antes da divisão, em 1947, como os sikhs. “Restam cerca de 50 famílias hindus”, nos diz Narayan, um jovem que não se atreve a confessar se torce para a Índia ou o Paquistão nas partidas de críquete. Mas, como o pastor protestante, admite que Musharraf foi bom para as minorias religiosas.

Esta semana, em um subúrbio de Peshawar, uma bomba dos taleban locais destruiu duas lojas de discos e uma barbearia e matou um vigilante. Apesar disso, os vendedores de vídeos e cassetes dizem que não têm problemas com o extremismo religioso. Mentem.

Mas são algumas comarcas tribais paquistanesas, nunca subjugadas, que põem em xeque o exército. O vale de Suat, por exemplo, onde o chamado Mulá Rádio, Fazlulah, conclama a derrubar o governo para instaurar a chariá. Mahsud, outro emir local, foi acusado por Musharraf pelo assassinato de Benazir Bhutto. O que não deixa dúvida é a presença de mais de 500 homens da Al Qaeda, que se instalaram no Waziristão e se casaram com mulheres locais depois de retirar-se do Afeganistão. Derrotar esses caudilhos, encobertos por lealdades tribais e muito armados, causaria uma grande carnificina.

O museu de Peshawar lembra aos que destruíram o Buda gigante de Bamiyan que o sorriso de Sidarta é infinito. Para que não se esqueçam das raízes do lugar, esculturas do século 3º mostram um Buda de traços helênicos. Desde a invasão de Alexandre Magno, a região foi o quebra-mar entre o mundo indiano e o europeu. A ascensão fulgurante do islã rompeu essa ponte. E os taleban continuam empenhados no mesmo trabalho de minar o resto do mundo. Sua viagem começa e termina no Alcorão.

La Vanguardia
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lavanguardia/

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America sem norte

Especialista em geopolítica, Parag Khanna diz que a hegemonia dos EUA expirou. Agora é disputar o mundo, corpo a corpo, com novas potências

O indiano Parag Khanna, de 30 anos, é pesquisador sênior do American Strategy Program (Programa de Estratégia Americano) da New American Foundation. Durante dois anos, viajou por 45 países localizados em regiões estratégicas do planeta, como Europa Oriental, Ásia Central, América do Sul, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Parag queria saber como esses lugares, que chama de países do Segundo Mundo, reagem ao crescimento da China e da União Européia e ao declínio dos Estados Unidos. Suas conclusões estão no livro The Second World: Empires and Influence in the New Global Order (em tradução livre, “O Segundo Mundo: Impérios e Influência na Nova Ordem Global”), que será lançado no Brasil pela Editora Intrínseca no segundo semestre deste ano. O artigo abaixo, publicado em The New York Times, foi adaptado do livro.
Se você ligar a TV hoje e pensar que está em 1999, será perdoado. Democratas e republicanos discutem onde e como intervir, se devem agir sozinhos ou com aliados e que tipo de mundo os Estados Unidos deveriam liderar. Os democ