Arquivo de 11 de Fevereiro de 2008

Baruch Espinosa

Marilena Chaui

I. MALEDICTUS

A 27 de julho de 1656, a assembléia dos anciãos que dirige a comunidade judaica de Amsterdã promulga um herem (excomunhão, em hebraico), excluindo e banindo Espinosa, que, nessa época, tem 24 anos.
Em 1670, aos 37 anos, Espinosa publica o Tratado Teológico-Político, impresso sem o nome do autor. A obra se destina à defesa da liberdade de pensamento e de expressão. A 19 de julho de 1674, trazendo o brasão e as armas de Guilherme de Orange III, os Estados Gerais da Holanda, sob orientação e exigência do Sínodo calvinista, promulgam um édito em que declaram o livro pernicioso, venenoso e abominável para a verdadeira religião e para a paz da república, proibindo sua impressão e divulgação.

Em 1678, um ano após a morte de Espinosa, um novo édito do governo da Holanda proíbe a divulgação do conjunto de sua obra, publicada postumamente por seus amigos.

Afinal, o que dissera o jovem Espinosa - em 1656 -, o que escrevera o filósofo - em 1670 - e o que deixara escrito - em 1678 -, para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Por que alguns leitores, seus contemporâneos, afirmam estar diante de “nova encarnação de Satã” e que seu nome, Benedictus em latim, deveria ser mudado para Maledictus?

A filosofia espinosana é a demolição do edifício filosófico-político erguido sobre o fundamento da transcendência de Deus, da Natureza e da Razão, voltando-se também contra o voluntarismo finalista que sustenta o imaginário da contingência nas ações divinas, naturais e humanas. A filosofia de Espinosa demonstra que a imagem de Deus, como intelecto e vontade livre, e a do homem, como animal racional e dotado de livre-arbítrio, agindo segundo fins, são imagens nascidas do desconhecimento das verdadeiras causas e ações de todas as coisas. Essas noções formam um sistema de crenças e de preconceitos gerado pelo medo e pela esperança, sentimentos que dão origem à superstição, alimentando-a com a religião e conservando-a com a teologia, de um lado, e o moralismo normativo dos filósofos, de outro.

II. DEUS, OU SEJA, A NATUREZA:
A FILOSOFIA DA IMANÊNCIA

A tradição teológica e metafísica ergueu-se sobre uma imagem de Deus, forjando a divindade como pessoa transcendente (isso é, separada do mundo), dotada de vontade onipotente e entendimento onisciente. Criadora de todas as coisas a partir do nada (confundindo Deus e a ação dos artífices e artesãos), legisladora e monarca do universo, que pode - à maneira de um príncipe que governa segundo seu arbítrio e capricho - suspender as leis naturais por atos extraordinários de sua vontade (os milagres). Essa imagem faz de Deus um super-homem, que cria e governa todos os seres de acordo com os desígnios ocultos de Sua vontade, a qual opera segundo fins inalcançáveis por nosso entendimento.

Incompreensível, Deus se apresenta com qualidades humanas: bom, justo, misericordioso, colérico, amoroso, vingador, que pune ou recompensa o homem, conforme este transgrida ou obedeça aos decretos divinos, pois é dotado de livre-arbítrio ou de livre vontade para escolher entre o bem e o mal.

Identificando liberdade e escolha voluntária e imaginando os objetos da escolha como contingentes (isto é, como podendo ser ou não ser, serem estes ou outros, serem como são ou serem de outra maneira), a tradição teológico-metafísica afirma que o mundo existe simplesmente porque Deus assim o quis ou porque Sua vontade assim decidiu e escolheu, e poderia não existir ou ser diferente do que é, se Deus assim houvesse escolhido.

Se o mundo é contingente, porque fruto de uma escolha contingente de Deus, então as leis da Natureza e as verdades (como as da matemática) são, em si mesmas, contingentes, só se tornando necessárias por um decreto de Deus que as conserva imutáveis. Assim, a necessidade (isso é, o que só pode ser exatamente tal como é, sendo impossível que seja diferente do que é) identifica-se com o ato divino de decretar leis, ou seja, a necessidade nada mais é senão a autoridade de Deus. Compreende-se, então, porque tradicionalmente liberdade e necessidade foram consideradas opostas e contrárias, pois a primeira é imaginada como escolha contingente de alternativas também contingentes e a segunda, como decreto de uma autoridade absoluta. Donde o mito do pecado original, quando o primeiro homem teria usado a liberdade (entendida como o poder de escolha) para desobedecer aos mandamentos ou leis de Deus. Com esse mito, ergue-se a imagem da liberdade humana como um poder para escolher o mal, porta aberta para nossa perdição. A um Deus autoritário corresponde um homem decaído e desobediente, por culpa da liberdade. Como, indaga Espinosa, foi possível tanta ignorância e superstição para transformar o que temos de mais precioso - a liberdade - em culpa, perversidade e perigo?

Essa imagem de Deus, demonstra Espinosa em sua obra magna, a Ética, não é senão a projeção antropomórfica de uma imagem do homem, confundindo propriedades humanas imaginárias com a essência divina. Porque os homens se imaginam dotados de vontade livre ou livre-arbítrio (imaginando que ser livre é poder escolher entre coisas ou situações opostas e agir segundo fins escolhidos pela vontade). Porque imaginam que o verdadeiro poder é aquele que se separa dos que a ele estão submetidos, dominando-os do alto e de fora. Porque imaginam a Natureza agindo segundo fins e para servi-los, os homens imaginam Deus como arquiteto que constrói o mundo e como príncipe que o governa. Se, portanto, quisermos alcançar o conhecimento verdadeiro da essência e da potência divinas, precisamos ultrapassar esse imaginário e, ultrapassando a imagem, chegar à idéia de Deus.

Espinosa parte de um conceito muito preciso, o de substância, isso é, de um ser que existe em si e por si mesmo, que pode ser concebido em si e por si mesmo e sem o qual nada existe nem pode ser concebido. Toda substância é substância por ser causa de si mesma (causa de sua essência, de sua existência e da inteligibilidade de ambas) e, ao causar-se a si mesma, causa a existência e a essência de todos os seres do universo. A substância é, pois, o absoluto ou uma realidade absolutamente complexa, constituída de infinitas qualidades infinitas, cada uma das quais é uma potência produtora ou agente que engendra por si mesma e de si mesma as múltiplas ordens de realidade que formam o universo. A substância é a potência causal ou produtiva absolutamente infinita de auto-produção e de produção de todas as coisas. É o que chamamos de Deus.

Ao causar-se a si mesmo, fazendo existir sua própria essência, Deus faz existir todas coisas singulares que O exprimem, porque são efeitos de Sua potência infinita. Em outras palavras, a potência produtora infinita é imanente aos seres produzidos, a causa é imanente ao efeito, porque se exprime nele e ele a exprime. Deus não é uma causa transcendente, separada dos seres singulares, mas é imanente a eles, pois eles são modos ou expressões do ser absoluto. À substância e suas infinitas qualidades infinitas, enquanto atividade infinita que produz a totalidade do real, Espinosa dá o nome de Natureza Naturante. O conjunto de todos os modos produzidos pela substância Espinosa designa com o nome de Natureza Naturada. A totalidade constituída pela Natureza Naturante e pela Natureza Naturada é Deus. Donde a célebre expressão espinosana: Deus sive Natura. Deus, ou seja, a Natureza.

Das infinitas qualidades ou potências produtivas da substância, conhecemos duas: o Pensamento e a Extensão. A atividade da potência do Pensamento produz idéias; a da Extensão, corpos. Idéias e corpos são modos finitos imanentes à substância infinitamente infinita, exprimindo-a de maneira determinada, segundo a ordem necessária que rege as relações entre todos os seres do universo. Os seres humanos, constituídos pela união de um corpo e uma mente (ou uma idéia), são modos finitos de Deus ou partes da natureza infinita de Deus.

Revista Cult
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Segundo pesquisador, Graham Bell trapaceou ao inventar o telefone

David Mehegan

“Senhor Watson, venha até aqui, quero vê-lo!”. Este foi o mais famoso telefonema da história, feito em Boston, em 10 de março de 1876, por Alexander Graham Bell, inventor do telefone. Pelo menos, é isso o que diz a história. Mas e se as coisas não tiverem se passado dessa maneira? E se Bell foi, pelo menos em parte, uma fraude?

Essa questão perseguiu Seth Shulman, um jornalista científico de Northampton. Enquanto pesquisava a relação entre Bell e Thomas A. Edison, Shulman deparou-se com um desenho no caderno de anotações de Bell. O desenho o conduziu à surpreendente hipótese que se constituiu no cerne do seu novo livro, “The Telephone Gambit: Chasing Alexander Graham Bell’s Secret” (”O Jogo do Telefone: Perseguindo o Segredo de Alexandre Graham Bell”). Se Shulman estiver certo, Bell roubou um croqui de um concorrente e encobriu os rastros da fraude pelo resto da sua vida.

“Foi algo que destoava tanta da história aceita que eu não soube o que fazer com aquilo. Pensei que talvez estivesse equivocado”, disse Shulman em uma entrevista.

Segundo a famosa história, Bell e o seu confiável assistente, Thomas Watson, estavam trabalhando no projeto do telefone no endereço 5 Exeter Place (o local, perto da Chauncy Street, é assinalado por uma placa de bronze). Watson estava em um outro aposento, na extremidade da linha experimental, quando Bell acidentalmente deixou cair ácido sulfúrico na sua calça e disse, “Senhor Watson, venha até aqui, quero vê-lo”. Watson correu eufórico para dizer a Bell que tinha ouvido a voz dele claramente por meio do receptor na outra extremidade.

Ao ler o caderno de Bell durante uma pesquisa realizada em 2004 no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Shulman notou que o inventor estava trabalhando em outros desenhos, baseados em ímãs e baterias, até fevereiro de 1876. Ele foi a Washington em 26 de fevereiro e regressou em 7 de março, e no dia seguinte deu início a uma outra abordagem envolvendo uma agulha de platina e uma solução diluída de ácido sulfúrico em um copo. Dois dias depois, o aparelho funcionou.

Shulman perguntou-se: por que Bell abandonou subitamente as suas abordagens anteriores após a viagem a Washington? Ele foi a Washington para fazer frente a uma contestação à sua patente do telefone. Patente que tinha obtido, apesar de não ter apresentado detalhes finais do projeto, em 19 de fevereiro. A contestação estava contida em um documento confidencial do escritório de patentes, e foi feita pelo engenheiro Elisha Gray. O documento trazia o esboço da idéia do próprio Gray para o telefone. A inscrição para a patente de Bell e o documento de Gray (essencialmente uma advertência para outros inventores, notificando que uma pessoa está seguindo determinada linha de pesquisa) foram protocolados no mesmo dia, em 14 de fevereiro.

O poderoso advogado de patentes de Bell, contratado pelo rico financiador do inventor, Gardiner Greene Hubbard, de Cambridge, contestou a alegação de Gray. O escritório de patentes determinou que a inscrição de Bell chegara primeiro, e que portanto o documento de Gray não teria validade. Disso já se sabia há tempo. O que impressionou Shulman depois de ver o documento de Gray e o registro no caderno de anotações de Bell, datado de 8 de março, foi o fato de o desenho de Bell, com a agulha e o copo de ácido, ser quase que idêntico ao de Gray, incluindo o auto-falante separado do receptor. Embora Shulman jamais tenha encontrado uma prova verdadeiramente incontroversa, a impressão que ele teve, após pesquisar mais, foi de que o advogado de Bell induziu um oficial de patentes a mostrar o documento confidencial de Gray ou a descrevê-lo. A seguir o advogado teria passado a informação a Bell, que retornou a Boston e submeteu o projeto de Gray à prova.

De posse da sua evidência, pareceu a Shulman que outras coisas faziam sentido. Por exemplo, Bell jamais falou ou escreveu publicamente a respeito de como fez a sua descoberta. A história do ácido derramado foi contada pela primeira vez após a morte de Bell, por Watson, na sua autobiografia de 1926, “Exploring Life” (”Explorando a Vida”), e o caderno de anotações de Bell, com o desenho incriminador, ficou nas mãos da família do inventor até ser doado à Biblioteca do Congresso em 1976. Bell quase não participava das atividades da próspera companhia que tinha o seu nome e que o tornou fabulosamente rico, e sempre relutou em depor perante tribunais durante as contestações relativas à patente que se seguiram anos depois.

Seth Shulman, 48, nasceu em Nova York, foi criado em Cambridge e graduou-se pela Universidade Harvard em 1981, com uma tese em arquitetura. Após ter recebido uma bolsa para o estudo de jornalismo científico no MIT em 1985, ele tornou-se jornalista científico de tempo integral, contribuindo para o periódico britânico “Nature”, para a “Time” e outras revistas. Ele escreveu quatro outros livros sobre ciência, incluindo “Unlocking the Sky: Glenn Hammond Curtiss and the Race to Invent the Airplane” (”Abrindo o Céu: Glenn Hammond Curtiss e a Corrida para Inventar o Avião”).

Em 2004, ele recebeu uma bolsa do Instituto Dibner para a História da Ciência e da Tecnologia, do MIT (o instituto não existe mais). Quando descobriu o aparente ato de plágio de Bell, ele a princípio não quis publicar a notícia, e se deparou com o ceticismo de alguns dos seus colegas. Segundo Shulman, parte dessa hesitação deveu-se ao fato de saber que era o único jornalista “com conexões com tantos historiadores, sábios e professores eméritos tão importantes”. Ele acrescenta que “acima de tudo, sabia que Bell era admirado. A idéia de desancá-lo não me agradava”.

Shulman percebeu que vários dos seus colegas no Dibner eram fãs dos romances de mistério, o que o fez pensar sobre a história como sendo uma espécie de detecção. Nos mistérios de Sir Arthur Conan Doyle, era sempre o intelecto superior de Sherlock Holmes que resolvia os casos. Mas, à medida que Shulman investigava a história de Bell, ele começou a pensar mais segundo a tradição norte-americana do detetive como pessoa comum que torna-se obcecada por um problema, chega a diversos becos sem saída, sente-se constantemente confuso, questiona se está à altura da tarefa, mas que é muito inquisidor para desistir.

“Eu fui como Colombo”, disse ele. “Esbarrei com esse fato intrigante, e realmente não sabia o que fazer com ele. Tinha a minha intuição de repórter, de forma que senti que havia algo de errado. Mas eu teria que fazer muitas coisas que nunca antes havia feito: pesquisar arquivos, ser bastante escrupuloso com os documentos - foi algo bastante cansativo”. Alguns dos outros colegas do Dibner ajudaram-no e encorajaram-no.

Em uma ruptura drástica com os seus escritos anteriores, Shulman é um personagem do seu próprio livro, revelando as suas dúvidas e incertezas perturbadoras enquanto persegue os fatos. Uma das dúvidas diz respeito à questão do motivo.

“Não pude entender por que Bell fez aquilo”, disse Shulman. “Sempre se escreve sobre ele como sendo um cara honesto, um paradigma absoluto de honestidade”. À medida que estudava os registros, Shulman pôde verificar a pressão enorme à qual Bell estava submetido. Ele era um imigrante de 29 anos de idade que tentava obter fama como professor de dicção para surdos. Ele se apaixonou profundamente por Mabel Hubbard, 16, a filha surda de um rico investidor, para a qual dava aulas de dicção, e precisava desesperadamente de ter sucesso com a sua invenção (e de frustrar as iniciativas dos concorrentes) a fim de assegurar a fama, a fortuna fantástica e a mão da adorável Mabel. No final, tudo deu certo para Graham Bell.

“Ele era na verdade uma pessoa que buscava a ascensão social”, diz Shulman. “Bell não tinha muito treinamento científico e nem pendores mecânicos, e não sabia muito a respeito de eletricidade. Ele conhecia acústica, mas era um conhecimento bem básico. Ele teve a experiência de conhecer a família de Mabel, de ver como eles viviam. Depois que os conheceu, isso teve uma influência enorme sobre ele”.

Angela von der Lippe, editora de Shulman na W.W. Norton, que editou diversos livros científicos, disse ter achado a história “absolutamente fascinante”. “É uma história de tecnologia”, diz ela. “Mas é também uma história que consegue investigar os recônditos da mente humana e as motivações para a ciência, e também como as descobertas são feitas”.

Shulman anda nervoso quanto à reação ao seu livro por parte de historiadores e cientistas, mas já recebeu palavras encorajadoras dos primeiros leitores.

“Acho que o livro foi muito bem feito”, diz Leonard C. Bruno, especialista em manuscritos de ciência e tecnologia da Biblioteca do Congresso, que possui 147 mil documentos, muitos deles online. “Ele apresenta uma quantidade impressionante de evidências circunstanciais. O desejo de Shulman era deixar a verdade conduzí-lo para onde quer que fosse, e o saber acadêmico se fundamenta exatamente nisso.”

Jornal The Boston Globe
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/boston/

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Maior combatividade exige abandono de ilusões e criatividade política

Valéria Nader

Nosso entrevistado especial nesse começo de 2008 é o historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos Marco Antônio Villa.

“A modorra sintetizou bem o momento que vivemos, marcado pelo desinteresse pela política. Além da incompetência das direções de transformar a política em um tema relevante”. A partir desse diagnóstico muito claro, Villa é também muito direto e enfático em suas previsões para o futuro, no que se refere aos meios hoje ao nosso alcance para o desenvolvimento da nação.

Acredita que a esquerda perdeu o rumo, entre outros, em função de um arraigado apego a dogmas; que o governo Lula cooptou boa parte dos movimentos sociais; e que 2008 assistirá, desde muito cedo, às inócuas discussões em torno às eleições do segundo semestre, em detrimento, mais uma vez, dos eternamente esquecidos temas relevantes, a exemplo da reforma política.

A construção, no atual momento histórico, e passado um ano do segundo mandato do presidente-operário, de um autêntico e possível projeto de esquerda e/ou de transformação não é, na visão do historiador, tarefa simples. Requereria “entender o Brasil com uma ótica original, sem dogmas, sem citações de catecismo, sem fundamentalismo. Construir um pensamento e uma ação política de esquerda para o século XXI”.

Confira abaixo entrevista exclusiva.

Correio da Cidadania: Crise no Senado, descoberta de novos e promissores campos de petróleo, a arrastada tentativa do Executivo de prorrogar a CPMF, o jejum de D. Cappio, entre outros, são fatos reveladores de 2007, o primeiro ano do segundo mandato de Lula. Como você avalia esse ano?

Marco Antônio Villa: 2007 foi um ano politicamente fraco. Só ficou um pouco mais animado em dezembro com a votação da CPMF e a greve de fome de D. Cappio. A modorra sintetizou bem o momento que vivemos, marcado pelo desinteresse pela política. Além da incompetência das direções de transformar a política em um tema relevante.

CC: As análises retrospectivas dos anos que se vão não trazem grandes novidades, pelo menos, as alvissareiras. No ano de 2007, no entanto, surgiram notícias mais enfáticas, especialmente no campo econômico, de retomada de crescimento, de queda do desemprego, de menor inflação e até mesmo de elevação do rendimento da população. Trata-se de algo sólido, a seu ver, ou apenas a evidência de um quadro momentâneo de “pneumonia sem febre”, que poderá em algum momento explodir?

MAV: O país manteve seu ritmo de crescimento com uma leve aceleração. Deve ser lembrado que a baixa inflação e o aumento do emprego melhoraram a vida especialmente dos setores mais pobres da população. O que se critica é que o momento internacional é favorável - como nunca nas últimas décadas -, porém o governo não consegue acelerar o ritmo do crescimento econômico.

CC: No que se refere ao nosso cenário político, à época do pico da crise no Senado, houve discussões calorosas sobre se vivíamos ou não uma crise institucional em nosso país. Enquanto alguns estudiosos a negavam peremptoriamente - entre outros argumentos, porque vivemos uma República calcada em uma forte figura presidencial -, outros enxergavam seus sinais, por exemplo, em um certo disfuncionamento de nossa República, onde há um Executivo que legisla por meio de um emaranhado de medidas provisórias e um Legislativo que exerce inconcebível “poder liberatório” sobre o Executivo. Qual a sua opinião?

MAV: Não vivemos em 2007 uma crise institucional. Aqueles acontecimentos são típicos de uma democracia - como a brasileira - com os defeitos já conhecidos. O ideal seria aprender com tudo aquilo e realizar as reformas tão faladas, mas até hoje sequer iniciadas.

CC: E quanto à mobilização social, você acredita que esteja havendo uma retomada, com a ruptura face à inércia anterior, como vem sendo anunciado dessa vez por alguns representantes do campo da esquerda?

MAV: Não há mobilização política. Os movimentos sociais perderam o rumo. Pior: a esquerda perdeu o rumo e não consegue elaborar bandeiras que levem à mobilização.

CC: Ainda no tocante à mobilização social, pensando em uma das organizações mais importantes de nosso país, o MST, você considera que o movimento tenha iniciado em 2007 um afastamento mais efetivo do governo e de Lula – na medida em que vem fazendo uma crítica contumaz à nova onda de biocombustíveis, certamente circunscrita ao modelo econômico em voga -, ou ainda persiste, de certo modo, amarrado a esses dois entes?

MAV: Boa parte (ou a ampla maioria) dos movimentos sociais foi cooptada pelo governo Lula. O MST está paulatinamente perdendo a sua principal bandeira: a reforma agrária. Ao invés de enfrentar seriamente a discussão sobre a pertinência ou não da reforma agrária no século XXI brasileiro, optou por construir outras bandeiras de luta. Hoje, sinceramente, é mais um partido político do que um movimento social (sociologicamente falando). E um partido político de velho tipo, pré XX Congresso do PC da URSS. Suas lideranças se eternizaram no interior do ex-movimento social, controlam sua estrutura de poder e acabaram adquirindo os vícios deste tipo de organização burocrática. Um outro caminho seria se transformar em um partido agrarista, mas aí teria de mudar tudo, inclusive sua estrutura organizativa.

CC: Segundo disse, a esquerda perdeu o rumo. Mas como andou a sua atuação em 2007? Não houve avanço algum que se refere ao entendimento e diagnóstico da problemática brasileira e aos caminhos apontados para mudanças rumo a outro tipo de sociedade?

MAV: A esquerda brasileira só voltará a ser esquerda quando abandonar os dogmas. Ou seja, não é possível entender a luta política atual sacando do bolso uma citação de Marx, Engels ou Lenin. É um velho hábito introduzir a forceps uma citação de “O Capital”, do programa de transição de Trotsky ou coisa que o valha, como se a citação resolvesse o dilema político. Como se o discurso alterasse magicamente a conjuntura política.

Em outras palavras: uma análise original, criativa, do Brasil tem de levar em conta que o mundo mudou. Não adianta apresentar argumentações fundamentalistas. Escrever que o capitalismo vive uma crise terminal é uma empulhação. O original é entender como o capitalismo enfrentou e venceu tantas crises no século XX. Original é ver como o capitalismo venceu o socialismo marxista. Original é analisar o que está acontecendo na China e seus reflexos na economia mundial. Original é analisar a América Latina e tentar compreender por que vive o seu maior ciclo de prosperidade econômica (com todos os problemas que sabemos que ainda há).

CC: Pensando ainda na esquerda, como avalia o desempenho do partido que tem representado contrapontos no cenário político, o PSOL? Você acredita que ele esteja hoje desempenhando papel análogo ao do PT, na época em que este fazia uma oposição mais verdadeira?

MAV: O PSOL não conseguiu romper o círculo de pequenos grupos. Heloísa Helena foi bem na eleição presidencial, mas despolitizou a sua campanha. A curto prazo, o PSOL dificilmente ampliará seu espaço político.

CC: Um dos grandes temas em recorrente discussão em nossa nação é a reforma política. Por que esse é um tema que não avança no país?

MAV: Porque não há interesse efetivo. Todo ano, falam que a reforma política vai caminhar e em dezembro tudo continua na mesma. A principal questão, creio, é que muitos serão prejudicados e a maioria tem medo de enfrentar um outro modelo eleitoral.

CC: O que seria para você uma verdadeira reforma política e o que ela deveria pressupor? Levada a cabo seriamente, daria realmente conta de sanar algumas de nossas mazelas políticas?

MAV: Acabar com o número mínimo e máximo de deputados por estado na Câmara. O Senado é que tem de ser a “Casa da Federação”, ou seja, é lá que tem de haver a representação igualitária entre os estados. Outra medida poderia ser a adoção do voto distrital (ao menos ter alguma experiência). Outra seria o financiamento público das campanhas.

CC: Você acredita em propostas como as do jurista Fábio Konder Comparato, priorizando consultas, referendos e plebiscitos, como forma de trazer o povo ao centro do cenário político?

MAV: Não, discordo. Temos eleições de dois em dois anos. A questão central é o mau funcionamento, especialmente do Poder Legislativo.

CC: Como imagina que vá prosseguir essa discussão em 2008?

MAV: 2008 vai começar com a discussão do orçamento (o que é um absurdo, pois o ano vai começar é não há orçamento aprovado), depois só se vai falar de uma coisa: eleição municipal.

CC: O que a greve de D. Cappio revela de nosso governo e, também, para o nosso país? Como acha, ademais, que vai se desenrolar essa situação?

MAV: Sou contra a transposição. Há soluções mais baratas. Falta coordenação entre as agências federais que atuam na região, muito mais do que faltam recursos. Principalmente, inexiste um projeto para o semi-árido, que dê viabilidade econômica à região. Hoje, na maior parte dos municípios, a população sobrevive graças a duas fontes: a aposentadoria rural (criada pelo regime militar) e a bolsa-família. Não há atividade econômica rentável. As cidades sertanejas estão marcadas pelo desemprego, violência, alcoolismo e drogas.

CC: Você acredita que Lula queira e vá disputar um 3º mandato, segundo insinuações de sua própria base aliada, apesar de seus desmentidos peremptórios?

MAV: No Brasil nada é impossível. Como o governo não tem hoje um candidato viável, isto pode estimular, no segundo semestre de 2008, um movimento pró-terceiro mandato.

CC: Como imagina que vá caminhar a esquerda e as mobilizações sociais em 2008?

MAV: Sinceramente, acho que politicamente será irrelevante a atuação da esquerda. O PT ocupou o espaço com suas organizações, cooptou os movimentos sociais e pode atender a algumas demandas sociais. Deve ser reconhecido que o Lula ainda tem enorme prestígio entre as camadas populares.

CC: O que configuraria, ademais, no atual momento histórico, e passado um ano do segundo mandato do presidente-operário, um autêntico e possível projeto de esquerda e/ou de transformação?

MAV: Entender o Brasil com uma ótica original, sem dogmas, sem citações de catecismo, sem fundamentalismo. Construir um pensamento e uma ação política de esquerda para o século XXI. Falar daquele socialismo do século XX é inverter o dilema “socialismo ou barbárie”. Aquele socialismo é a barbárie. O socialismo é uma criação especialmente de 1848. Temos de virar a página desta história, desta crítica ao capitalismo do século XIX. Uma esquerda efetivamente moderna, contemporânea, tem de ter a ousadia de conviver com o capitalismo, de ampliar os espaços sociais, de conquistar melhores condições de vida para as amplas maiorias. Tem de criar um pensamento que sabia viver em (e com a) democracia (pois grande parte da esquerda tem forte simpatia ainda, por incrível que pareça, pela ditadura “sobre” o proletariado).

Mas sei que isto dificilmente vai ocorrer. É mais fácil e cômodo repetir velhos slogans. E a esquerda vai envelhecendo, assim como os militantes dos anos 60, 70 e 80 vão perdendo os cabelos, aumentando de peso e, principalmente, falando uma linguagem que o jovem não entende. Como se, ao ver os carros na rua, dissesse que bons e confortáveis eram os Gordinis.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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José Serra e o caos na saúde pública

O caos na saúde pública de São Paulo reflete bem a opção neoliberal do presidenciável José Serra, que ainda engana os inocentes com a sua retórica "desenvolvimentista"

O caos na saúde pública de São Paulo reflete bem a opção neoliberal do presidenciável José Serra, que ainda engana os inocentes com a sua retórica Altamiro Borges

Nas suas recorrentes campanhas eleitorais – para presidente, prefeito da capital paulista, governador de São Paulo e, provavelmente, outra vez para a presidência da República em 2010 –, o ex-ministro da Saúde na gestão de FHC e atual governador do Estado, José Serra, sempre procura vender a imagem do político preocupado com a saúde do povo. Porém, a prática, que é o critério da verdade, desmente o seu marketing eleitoreiro. Num curto espaço de tempo, o presidenciável tucano coleciona péssimas notícias neste front. Se fosse um governador da base de apoio do presidente Lula, ele seria espinafrado pelas manchetes dos jornais e pelos âncoras da TV. Mas, como protegido da mídia, pouco se fala sobre o caos na saúde pública em São Paulo.

A redução de investimentos e o completo sucateamento do setor levaram o Sindicato dos Funcionários de Hospital das Clinicas a solicitar o fechamento imediato do prédio para uma rigorosa vistoria. Para Itamar Fernando, presidente da entidade, a medida abrupta, que penalizaria a população carente, é urgente “antes que alguma tragédia maior aconteça”. No dia 24 de janeiro, ocorreu um principio de incêndio no sexto andar do prédio, interrompendo o atendimento hospitalar por 20 minutos. Foi o terceiro incidente somente no mês de janeiro. Já na noite de Natal de 2007, outro grave incêndio atingiu o edifício e obrigou a remoção dos pacientes. A unidade ficou fechada por nove dias e milhares de consultas e exames foram suspensos.

Uma lucrativa mercadoria

A gravidade da situação já atemoriza os próprios pacientes. Maria José Antunes, de 52 anos, que passou por uma cirurgia no Hospital das Clínicas (HC) em meados de janeiro, lembra que ficou apavorada com o odor de queimado. “Os médicos me acalmaram e explicaram que o cheiro era ainda do incêndio do Natal. Isso é um absurdo”. O mesmo quadro de abandono se verifica no Hospital do Servidor Público de São Paulo. Em novembro de 2007, a direção do órgão demitiu 212 funcionários, incluindo 55 médicos. A medida visou reduzir custos e veio acompanhada de novas terceirizações. “Os pacientes sentem o reflexo das decisões arbitrárias, que prenunciam o caos”, desabafou Otelo Junior, presidente da Associação dos Servidores do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe).

O caos na saúde pública de São Paulo reflete bem a opção neoliberal do presidenciável José Serra, que ainda engana os inocentes com a sua retórica “desenvolvimentista”. Como afirma Benedito de Oliveira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sindsaúde), o setor se encontra degradado “e não é por falta de recursos financeiros. São Paulo é o Estado mais rico do país. É uma questão de prioridades. O governo não investe na saúde porque decidiu há mais de dez anos transferir os serviços públicos para o setor privado”. Primeiro, o tucanato entregou os hospitais novos para os abastados empresários. Depois, reformou antigas unidades e as repassou às chamadas Organizações Sociais de Saúde (OSS), uma forma marota de privatização. “Se o maior hospital da América Latina está vulnerável a um incêndio, como estão os subterrâneos e dutos de outros hospitais públicos de São Paulo?”, questiona o dirigente sindical.

Reação autoritária e histérica

Na prática, a saúde pública virou lucrativa mercadoria na gestão tucana! Diante das críticas dos pacientes e dos servidores – que ainda registram o brutal arrocho dos salários, as péssimas condições de trabalho e ausência de concursos para repor o quadro funcional –, o governador Serra esbanjou sua truculência. Num ataque de histeria, afirmou que “o incêndio pode ter sido criminoso” e rejeitou a proposta da entidade dos servidores de interdição do HC até a sua vistoria completa. “O sindicato lá é petista. Torce pelo pior e age com base em provocação para enfraquecer a direção do HC. Isso é provocação petista”. A insinuação de “incêndio provocado” e o ataque ao sindicato até mereciam processo na Justiça por calúnia e difamação.

A experiência mundial demonstra que neoliberalismo não combina mesmo com a democracia. A qualquer crítica ou pressão, os neoliberais escancarados ou enrustidos partem para a violência. José Serra não foge à regra. Ele já demitiu dirigentes sindicais e ativistas metroviários que lideraram uma greve em defesa do veto presidencial à Emenda-3, da precarização do trabalho, num visível atentado à Constituição. Também se recusa a negociar com lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) as pendências relativas à reforma agrária. A truculência e a intransigência são marcas deste tucano. “O que se espera de um governador é maior sensatez”, pondera o presidente do Sindicato dos Médicos, Cid Carvalhaes. Mas de José Serra isto é pouco provável.

Altamiro Borges é jornalista e membro do comitê central do PCdoB

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Ditador liberiano enfrenta a Justiça por sua atuação na guerra de Serra Leoa - parte 3

Thomas Darnstädt e Jan Puhl

Reescrevendo a lei criminal internacional

Em agosto de 2003, Taylor fugiu das tropas rebeldes inimigas e foi para o exílio na Nigéria. Naquele momento o tribunal em Freetown já havia concluído o processo de acusação contra o ditador liberiano. A Interpol primeiro divulgou um mandado de prisão e a seguir colocou Taylor na sua lista dos mais procurados. Mas nada disso teve qualquer efeito sobre Taylor, que declarou ao tribunal: “Não posso participar de uma pantomima que não faz justiça ao povo da Libéria e de Serra Leoa”. Ele preferiu jogar tênis na sua residência na cidade nigeriana de Calabar.

Taylor, aconselhado pela sua equipe de advogados, fez uma última tentativa que o teria protegido - bem como outros chefes de Estado criminosos da África e de todo o mundo - da jurisdição internacional: como chefe de Estado, alegou o presidente deposto, ele estaria imune a processos segundo a lei internacional. Os advogados de Taylor argumentavam que tanto o mandado de prisão quanto o processo seriam ilegais, já que ele ainda estava no poder à época.

O problema com tudo isso é que a argumentação de Taylor trazia uma certa verdade. Chefes de Estado que estão no poder tradicionalmente não ficam sujeitos à lei criminal internacional. Embora os Estados signatários do Tribunal Criminal Internacional (ICC, na sigla em inglês) em Haia, fundado em 2002, tenham concordado que poderia haver exceções a essa regra de imunidade, elas só se aplicariam aos Estados membros desse primeiro tribunal internacional permanente. Assim, o alcance do tribunal é limitado, conforme ficou demonstrado pela recusa dos Estados Unidos em assinar o estatuto do ICC, o que efetivamente protege o presidente dos Estados Unidos das acusações de ter cometido crimes de guerra no Iraque, feitas pelo promotor do ICC, Luis Moreno-Ocampo.

É claro que Taylor não era signatário do ICC, e tampouco assinou o tratado que criou o tribunal originalmente em Serra Leoa. Isso significaria que ele estava de fato imune a julgamentos criminais?

Em maio de 2004, o tribunal em Freetown divulgou uma decisão que instantaneamente transformou o caso de Taylor de uma história de terror na selva em um precedente histórico na lei criminal internacional. Segundo a decisão, a imunidade dos chefes de Estado seria fundamentalmente repelida perante os tribunais criminais internacionais.

No caso do ditador iugoslavo Milosevic, os promotores e os juízes no tribunal da Iugoslávia conseguiram contornar o problema. Ninguém ficou seriamente incomodado com o fato de Milosevic ainda exercer o poder em Belgrado quando foram protocoladas as acusações contra ele. Por outro lado, os juízes em Serra Leoa estavam reescrevendo a lei internacional. Eles argumentaram que o antigo princípio da imunidade só poderia ser aplicado a casos que envolvessem relações entre nações. Segundo os juízes em Freetown, um tribunal com jurisdição internacional não estaria sujeito a tais restrições.

A decisão de Freetown, reconhecida por especialistas em direito na Alemanha, é mais um passo rumo ao desenvolvimento de um sistema legal global que limite a soberania nacional e a arrogância de líderes nacionais, em favor de leis válidas feitas para promover a paz e proteger os direitos humanos. A decisão de Freetown injetou “um idealismo sem precedentes” na legislação internacional, diz Claus Kress, especialista em direito criminal internacional da cidade de Colônia, na Alemanha.

Seriam necessários mais dois anos e meio de esforços diplomáticos internacionais até que, em 29 de março de 2006, um helicóptero aterrissasse em Freetown com o fugitivo a bordo. Taylor foi levado algemado até a cela 7B nas instalações cercadas por arame farpado. Segundo o chefe da unidade prisional, Taylor, ou “prisioneiro número 2003-01″, era um “preso modelo” que passava os dias lendo a Bíblia.

Mas a presença de Taylor começou a gerar preocupações em Freetown, onde as autoridades temiam que o julgamento se transformasse em um espetáculo público. Na sua decisão de transferir Taylor para uma prisão próxima à costa holandesa no Mar do Norte, o Conselho de Segurança da ONU argumentou que a presença do ex-presidente “era um impedimento à estabilidade e uma ameaça à paz da Libéria e de Serra Leoa”.

O Tribunal Criminal Internacional em Haia estava disposto a fornecer ao tribunal de Serra Leoa uma das suas salas de julgamento, bem como uma cela segura em uma prisão reservada para criminosos de guerra internacionais perto do resort holandês à beira-mar de Scheveningen. Depois que o Reino Unido se comprometeu a manter Taylor atrás das grades, por toda a vida, caso necessário, “se ele fosse condenado”, não havia mais nenhum impedimento à extradição do homem mais perigoso do oeste da África.

O tribunal de Freetown foi dividido em dois. Uma equipe de cerca de 50 especialistas em direito e assessores administrativos ocupam um velho prédio de escritórios próximo ao Tribunal Criminal Internacional, em Haia.

Os outros membros do grupo permaneceram em Freetown para julgar os oito líderes rebeldes que permanecem na prisão naquela cidade. Vários réus já foram condenados a longas penas de prisão, e os processos de apelação ainda estão em andamento. Dois dos réus morreram na prisão - de causas naturais, segundo determinou um painel de investigação.

Os juízes que exercem a autoridade nas instalações de ferro galvanizado do Tribunal Especial para Serra Leoa, guardadas por 250 soldados mongóis, enviaram representantes para as vilas mais remotas a fim de explicar as intenções do tribunal aos leoneses. Essa não é uma tarefa fácil em um lugar no qual ainda existe muita hostilidade em relação a esse tipo de discussão judicial do passado. Um dos grupos que se opõem às iniciativas do tribunal se auto-denomina “Promotores da Paz e da Justiça” (PPJ, na sigla em inglês).

O PPJ é uma estranha organização que funciona em uma sala atrás de um restaurante em frente à corte, do outro lado da rua. É um grupo de ex-rebeldes que agora estão seriamente comprometidos com a paz. Os cinco homens na sala, que formam uma espécie de diretoria, são todos ex-combatentes da RUF. “Nós rejeitamos a idéia de que os rebeldes sejam agora responsabilizados por todos os crimes. O Tribunal Especial está dividindo a nossa sociedade. Precisamos de reconciliação”, diz Andrew Kaimbay, o primeiro-secretário do PPJ. “Foday Sankoh sempre carregou consigo um livro negro, no qual anotava os nomes dos criminosos de guerra. Eles teriam sido sido levados a julgamento após a guerra”, alega Kaimbay.

Mas o líder da RUF, Foday Sankoh, morreu devido a um derrame enquanto estava na prisão em 2003. Durante um ano e meio, Serra Leoa teve a sua própria “Comissão de Verdade e Reconciliação”, que lidou com os crimes do passado. Sob a liderança do bispo Joseph Humper, a comissão colocou na mesma sala perpetradores e vítimas, dando às pessoas a oportunidade de discutir o passado face a face. Os encontros terminavam rotineiramente com rituais de purificação. Em alguns casos, os perpetradores desculpavam-se na presença de uma vila inteira e beijavam as mãos e os pés dos sobreviventes. Em outras ocasiões, curandeiros passavam giz branco nos corpos dos ex-matadores e, a seguir, em um ritual místico, lavavam os pecados dos assassinos.

Esta é a maneira africana tradicional de fazer a paz. E como sempre ocorre quando advogados e juízes tentam introduzir os conceitos de lei internacional e direitos humanos nos países africanos devastados pela violência, uma antiga disputa também surgiu em Serra Leoa. Discute-se neste momento se o Ocidente não estaria sendo arrogante ao impor as suas idéias de justiça e punição ao continente africano. Até mesmo alguns juízes em Freetown estão questionando cada vez mais se essa espécie de justiça de alta tecnologia, baseada em comunicações via satélite, poderia realmente melhorar as condições de vida do povo miserável de Serra Leoa. “Mesmo se Taylor for condenado, o povo ainda irá atrás do próximo tirano que dirigir pela cidade o seu Mercedes cromado, rodeado de mulheres bonitas”, diz um dos juízes.

Será que a lei e a ordem não têm chance de prosperar nesta região ao longo da linha do equador? Caso seja assim, Berrie, o assassino que deseja virar a página do seu passado não terá nenhuma chance, e a África tampouco.

A maioria dos pedidos de Taylor - bananas, peixe defumado, gengibre e molho de amendoim, por exemplo - são atendidos na sua cela em Haia. O Tribunal Especial para Serra Leoa paga ao Tribunal Criminal Internacional cerca de 500 euros por dia para garantir que o hóspede da confortável prisão mundial seja bem tratado.

O próprio Taylor não contribui em nada para cobrir os custos do seu julgamento. Até mesmo os seus advogados, sem dúvida os melhores do mundo, são pagos pelo tribunal. Um homem que possui um patrimônio calculado em 300 milhões de euros (US$ 450 milhões) alega ser pobre e insiste em dizer que tem direito a receber auxílio jurídico. Os promotores criaram uma comissão especial de investigação para fazer uma busca mundial pelos bens do prisioneiro.

Mas até que esses bens sejam descobertos, o tribunal fica dependendo de doações para cobrir as despesas. O chefe da acusação, Stephen Rapp, dedica grande parte do seu tempo a reuniões com chefes de Estado de todo o mundo para obter as verbas necessárias para cobrir o orçamento anual do tribunal. Entre os grandes doadores estão países como a Alemanha, que, apenas em 2006, contribuiu com mais de um milhão de euros.

Atualmente Taylor cozinha as suas próprias refeições na prisão em Scheveningen. Ele tornou-se amigo do homem da cela ao lado, Thomas Lubanga, um líder rebelde do Congo que enfrenta acusações similares perante o Tribunal Criminal Internacional. Os dois freqüentemente lavam pratos juntos após as refeições.

Aparentemente o ex-ditador da Libéria passou a aceitar a possibilidade de passar um longo período em Haia.

Der Spiegel
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Vincent (Starry Starry Night) - Don McLean

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De costas para a África, de frente para a peste

A volta da febre amarela ao cenário público resgata a origem escravocrata da doença no País

Mônica Manir

Naquele verão de 1850, o povo do Rio de Janeiro fez procissão para São Sebastião, São Roque e outros mediadores celestiais. Rogava a interferência divina contra a epidemia que manchava a cidade, até então considerada imune às pestilências que assolavam a Ásia, a África e a América do Norte. Mas o vômito preto foi impiedoso. Matou oficialmente 4.160 pessoas, embora se falasse nos bastidores em até 15 mil pobres mortais.

Neste verão de 2008, o povo do Brasil sai em desabalada romaria por postos de saúde atrás de proteção. Vacinal, bem dita. Temeroso com as vítimas já confirmadas da febre amarela - sete até o fechamento desta edição, maior número de casos desde 2003 -, paga penitência na fila atrás de um vírus atenuado. Os que tomaram a vacina há menos de dez anos estão dentro do prazo de validade e dispensados do martírio, mas ainda assim engrossam a procissão, o que levanta a hipótese de complicações posteriores com a superdosagem. Só que o povo não acredita no ministro Temporão, e pelo jeito nem no doutor Drauzio Varella, que descartam perigo de epidemia e propõem a vacinação apenas para aqueles que estão na mata endêmica ou a caminho dela. O povo acha que o governo quer descolorir a febre amarela, dizendo que onde não há verde está tudo azul.

Para uma doença fora de moda, como a denomina o próprio Drauzio em O Médico Doente, no qual relata seu calvário ao pegar o vírus em 2004 quando voltava de uma viagem à floresta amazônica, a febre amarela ganhou revival no imaginário local. Seus personagens, porém, continuam os mesmos do século 19, quando ela aqui desembarcou em massa com o asqueroso rótulo de vômito preto, um de seus sintomas no estágio avançado. Vírus, mosquitos, macaco e homem sobrevivem como protagonistas dos ciclos da infecção, nascidos no bojo do comércio de escravos. “A febre amarela é uma instituição brasileira, faz parte da nossa história”, define o virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Ele completa: “É um legado de estupidez e imbecilidade, deixado pela política da escravidão”.

O INVASOR

O flavivírus, agente da febre amarela, chegou no lombo dos navios negreiros em sucessivas viagens da África para as Américas, provavelmente de carona em carrapatos, roedores, pessoas e/ou mosquitos. Essa dedução não foi das mais tranqüilas para a época. Conta o historiador Sidney Chalhoub, autor de Cidade Febril, que havia resistência por parte dos escravagistas em estabelecer uma relação entre alhos e bugalhos, apesar de os médicos constatarem de imediato que a moléstia atacava de forma mais atenuada os africanos e a população negra da Corte. Os negros estariam mais aclimatados a ela. Já os brancos, especialmente os imigrantes, padeciam feio com a tragédia epidêmica.

Chalhoub arrisca que a epidemia do verão de 1850 ajudou a convencer os parlamentares nacionais de que deviam finalmente ceder às pressões britânicas e liquidar com o tráfico negreiro. Os legisladores também eram pressionados por quem associava a doença a um anjo da morte enviado por Deus. Nada mais condenável aos olhos do Todo Poderoso, além de bailes e festanças despudorados, que os maus-tratos impostos aos escravos.

O flavivírus da yellow fever (febre amarela), segundo o virologista Paolo Zanotto, tem taxa de evolução mais lenta que o flavivírus da dengue ou da encefalite japonesa. Significa que sofre menos mutações que seus parentes. Como é transmitido por artrópodes - mosquitos, por exemplo -, faz parte do grande grupo dos arbovírus. Mas os homens da ciência não sabiam, nos idos de 1850, que pernilongos desempenhavam papel fundamental nesse meio-de-campo. Alguns acreditavam no contágio direto, pele contra pele, e olhavam ainda mais torto para os africanos. Outros, para contestar essa via de transmissão, inoculavam em si mesmos suor, vômito e saliva de doentes. Houve quem apostasse em um veneno que brotava dos dejetos (de negros) entranhados nas madeiras podres dos cascos dos navios. Mal sabiam que o Aedes aegypti, no seu vôo silencioso, queria dizer: “Sou eu”.

O TRANSMISSOR URBANO

Aedes aegypti é Aedes (Stegomya) aegypti. Foi confirmado como vetor no comecinho do século 20, quando o médico americano Walter Reed, sanitarista como o ministro Temporão, descobriu, por meio de soldados “voluntários”, que a epidemia da febre amarela em Cuba era transmitida por um mosquito, o próprio.

O inseto chegou à América como clandestino em condições muito melhores que os refugiados africanos que hoje viajam até o Brasil escondidos em cargueiros, sem direito ao sol. Nos navios negreiros, o Aedes encontrou sangue farto nos passageiros e água abundante em barris e poças, nos quais as fêmeas puderam espalhar sua prole em porções: 15 ovos aqui, 20 lá, num pinga-pinga difícil de combater.

É um bicho crepuscular. Sua luz predileta é o lusco-fusco, embora ele também pique de dia. Chega ao homem se guiando pela visão parca, mas que percebe movimento, pelo CO2 emanado da respiração da caça e pelo suor dos pés. “O Aedes é doido pelo chulé”, afirma o entomologista Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz.

O flavivírus também é fissurado no mosquito e o infecta integralmente, sem dó, embora sem óbito. Invade as células do estômago do inseto e se multiplica ali. Quando as células estouram, o vírus se replica pelo sistema respiratório, cérebro, ovário. Em cerca de dez dias, a saliva do Aedes está carregada de vírus, todos eles roxos para cair no vaso sangüíneo de um humano. O mergulho do flavivírus acontece na picada, enquanto o mosquito corre para não levar um tapão. Como o ovário da fêmea também está infectado, seus ovos certamente contêm vírus, que podem durar mais de meio ano. Dali nascem Aedes originalmente lotados de flavivírus, no que os especialistas chamam de “transmissão vertical”.

Recém-chegado ao Brasil, o Aedes encontrou uma população virgem de contato vivendo sob péssimas condições de higiene. Estabeleceu-se. O infectologista Stefan Cunha Ujvari, que escreveu a História e suas Epidemias, lembra que por muitos verões o Aedes transmitiu sem pudor a febre amarela, provocando o êxodo dos moradores mais abastados serra acima, em direção a Petrópolis. Foi erradicado apenas na década de 50, numa operação de guerra engendrada por Oswaldo Cruz, no Rio, e por Emílio Ribas, em São Paulo. Voltou à terra brasilis no final da década de 60, por causa do nosso cochilo na fronteira com a Venezuela por exemplo, um dos focos da nova infecção.

O filho pródigo voltou. Hoje é o vetor da dengue. Mas, nesta temporada de febre amarela, que se saiba ainda não trabalhou. O vírus foi transmitido apenas pelo vetor abaixo.

O TRANSMISSOR SILVESTRE

Uma vez no Brasil, o flavivírus percebeu que o Aedes não dava conta de sua ânsia de conquista. Apoderou-se então de outros mosquitos, mais afeitos à floresta - o Haemagogus e o Sabethes. O Haemagogus é do tipo agressivo; o Sabethes, tímido. Preferem picar macacos, mas na falta desses se arrumam com marsupiais e humanos. E são totalmente diurnos. Não gostam de baladas.

Interessados como são nos macacos, os vetores da febre amarela silvestre botam seus ovos no alto. Acham um oco de pau propenso a virar caixa d’água e ali depositam sua herança genética. Ambos têm coloração metálica, brilham quando bate o sol. Podem ser azuis, verdes, às vezes violáceos, um contraste com o Aedes, alvinegro e opaco. Nos três, a infecção do vírus é semelhante, assim como a inoculação.

O RECEPTOR SILVESTRE

Nas Américas, predominam os primatas do novo mundo, de menor porte e narinas afastadas, como os bugios, sagüis, micos, macacos-prego, macacos-barrigudos, macacos-aranha. São eles - e não os orangotangos e os gorilas - os mais afetados pela forma de transmissão silvestre da febre amarela no Brasil, explica a veterinária Cléa Lúcia Magalhães, do Jardim Zoológico de Brasília.

A infecção nos macacos tem evolução e desfecho semelhantes aos dos humanos. Sua morte seria sinal de vírus ao redor, desde que comprovada a presença do microorganismo no corpo do animal. “Há várias outras possíveis razões para os macacos encontrados mortos até então”, afirma Paolo Zanotto. Bactérias, outros vírus, algum veneno despejado consciente ou inconscientemente no hábitat.

A vacina usada em adultos poderia ser usada para controlar a versão silvestre da doença, como fazem os franceses vacinando as raposas para evitar a raiva. Mas Zanotto se exaspera com o caos ecológico vindo de uma iniciativa do gênero: “Não sabemos as conseqüências de eliminar o vetor na floresta, nem como proceder à captura dos primatas”. Está com o ministro: o importante é vacinar os humanos que visitam a floresta.

O RECEPTOR URBANO

- Você não tomou a vacina contra a febre amarela?

- Deve estar vencida há vinte anos - respondi.

É o trecho do livro de Drauzio Varella em que o médico confessa seu deslize com a proteção, mais tarde descrita como procedimento inadmissível para qualquer pessoa esclarecida, mesmo com a justificativa de mais de 50 viagens feitas ao Rio Negro sem ter ouvido falar de um só caso da doença por lá.

Diante do diagnóstico, Drauzio resgata lembranças de epidemias do passado, do surto letal na Hospedaria dos Imigrantes, das campanhas de Oswaldo Cruz para matar mosquitos, da Louisiana que os franceses venderam para os americanos a preço de banana por causa da febre amarela.

Mesmo prostrado, preocupou-se. Sabia que, uma vez no corpo, o flavivírus causa uma infecção aguda, cujos primeiros sintomas são febre alta, calafrios, prostração, cefaléia, dores musculares (Drauzio se contorcia com um “alicate” que lhe apertava as costas), náuseas e vômitos. Dois ou três dias depois aumentam as transaminases no corpo, um indício de lesão no fígado.

Passada essa fase, vem a remissão, respiro de 24 a 48 horas, com o doente em relativa tranqüilidade, talvez sem febre. Eis o divisor de águas: a partir daí a infecção pode regredir gradativamente ou avançar para a intoxicação com recrudescimento da febre, desconforto abdominal, icterícia progressiva (eis o porquê de febre amarela), hemorragias, insuficiência renal, delírio, coma, alterações metabólicas irreversíveis. A morte vem entre sete e dez dias depois do primeiro episódio de febre.

O tratamento não existe, a não ser repouso absoluto e hidratação com soro glicosado. Nos tempos de 1850, porém, transbordaram discussões terapêuticas à beira do leito. Purgativos, vomitórios e sangrias eram os preferidos dos alopatas. “Glóbulos de vento”, dos homeopatas. E muita água fria para os hidropatas, como o dr. Antonio Ildenfonso Gomes, que recomendava um copo d’água a cada dez minutos, um cristel (injeção por via retal) do líquido de duas em duas horas, mais fricções de água no ventre, nos quadris e nas coxas, além da cabeça embrulhada em panos devidamente intumescidos. Justificava assim sua profilaxia aqüífera: “Deus não criou tanta água no mundo debalde. Água fria e mais água fria é a grande panacéia universal. Água para tudo, em tudo, com tudo e por tudo - água por todas as partes… E salve-se a humanidade!”

Jornal Estado de S. Paulo
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Queen - We are the champions

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Ditador liberiano enfrenta a Justiça por sua atuação na guerra de Serra Leoa - parte 2

Thomas Darnstädt e Jan Puhl

A Justiça pode trazer a paz a Serra Leoa?

“Serra Leoa carece de justiça”, afirma o General Shareblood, em Freetown. O que Shareblood realmente quer dizer é que ele precisa de justiça. General Shareblood, 23, tem um grande desejo: que as crianças que brincam nas ruas do entorno de Freetown não sigam os passos dos seus pais e transformem-se em assassinos.

General Shareblood deseja voltar a ser Ibrahim Berrie. Ele abandonou o seu nome de guerra e trocou o uniforme camuflado por jeans baggy de estilo hip-hop e uma camiseta limpa. “Cresci na guerra. Sei do que estou falando. A guerra não faz nada de bom para ninguém”.

Berrie passou dez anos como criança-soldado, atirando, saqueando e matando nas guerras sujas do oeste da África. A paz finalmente retornou ao seu país, e o ex-matador está livre para amar a sua noiva Mommy e o seu filho de dois anos, Faith. Ele aprendeu a ler e espera terminar a escola e um dia ingressar na universidade.

Muitos dos seus ex-companheiros de guerra estão lutando novamente, na Costa do Marfim, no Congo, ou onde quer que haja demanda pelos seus serviços. Mas Berrie resistiu a essa compulsão e diz que agora o seu alter ego, General Shareblood, está sob controle. “A Bíblia me ajudou, e também ajudou a minha noiva”, diz ele. “Não sei exatamente o que aconteceu naquela época. Mal consigo mais me lembrar de qualquer coisa”.

O que aconteceu à época está documentado detalhadamente na acusação contra Taylor. A partir de 1989, as suas milícias aterrorizaram o país em uma tentativa de derrubar o ditador liberiano Samuel Doe. Taylor obteve as suas armas da Líbia, e as ordens lhe foram passadas, supostamente, pelos Estados Unidos.

Mas Taylor, um pregador leigo carismático, estava menos interessado em valores norte-americanos do que em obter o controle sobre os enormes campos de produção de diamantes do oeste da África. Os campos mais importantes ficavam na vizinha Serra Leoa, o que estimulou Taylor a maquinar um plano para controlar aquele país juntamente com o seu amigo Foday Sankoh, cujas milícias operavam do outro lado da fronteira. A Frente Unida Revolucionária (RUF, na sigla em inglês), de Sankoh, saqueou os campos de diamantes e forneceu as pedras preciosas a Taylor, que por sua vez manteve a RUF abastecida de armamentos.

Para fazer frente à ameaça, unidades que apoiavam o governo foram formadas para defender o regime em Freetown, mas os seus métodos não eram menos brutais. Uma espiral de violência letal logo se formou.

O método da RUF para atacar as vilas era bem direto. Primeiro, a “Unidade de Queima de Casas” incendiava a vila inteira, abrindo caminho para o “Comando Cortador de Mãos”. Homens, mulheres e crianças eram colocados em filas em frente a crianças-soldados que brandiam facões cegos. Perguntava-se às vítimas: “corte curto ou longo?”, o que significava perder os braços do cotovelo para baixo, ou ter apenas as mãos cortadas.

General Bloodshed foi um participante entusiasmado da carnificina. Assim como a maioria das crianças-soldados, ele recebia drogas para mantê-lo dopado e em um constante e sangrento frenesi. “Eu precisava de música para lutar. Precisava ouvir reggae a toda altura para entrar no clima”. O seu grupo viajava com enormes alto-falantes no seu caminhão.

Naquela época, o Hotel Africa, em Monróvia, era o local no qual se hospedavam os representantes do crime organizado internacional. Era lá que ficavam agentes dos lapidadores indianos de diamantes, providenciando o transporte de pedras para Nova York e as suas joalherias sofisticadas na Quinta Avenida. O dono do hotel era Guus Kouwenhoven, um holandês que promotores holandeses acusam de ter usado os seus navios para transportar madeira tropical da Libéria para outros países - e para trazer, no percurso de volta, os fuzis Kalashnikov de Taylor.

Alguns dos Kalashnikov terminaram nas mãos de General Shareblood, que, como membro da RUF, atirou contra soldados do governo. Quando ele foi preso, trocou de lado e passou a atirar contra os rebeldes, os seus ex-camaradas. “Eu gostava de lutar. Era divertido. E para mim não importava o lado para o qual combatesse”.

No final, quando as tropas de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) foram trazidas para promover a paz na região, Berrie, assim como vários outros, entregaram as suas armas às forças da ONU. Ele recebeu em troca uma pequena quantia de dinheiro, que possibilitou que freqüentasse uma escola. Desde então a máquina de auxílio internacional tem funcionado a todo vapor. Mais da metade o orçamento nacional de Serra Leoa é oriundo do auxílio internacional.

Oficiais da força da ONU instalaram cercas de arame farpado ao longo da Estrada Jomo Kenyatta, em Freetown, e construíram uma série de instalações por trás delas, criando o Tribunal Especial para Serra Leoa. Esta foi a primeira vez em que um tribunal internacional foi instalado na cena do crime, literalmente no solo ensangüentado. Para o governo democrático e recém-eleito de Serra Leoa, era muito importante que os crimes horríveis cometidos no país fossem julgados no local o mais rapidamente possível.

Para atingir o seu objetivo, Serra Leoa e as autoridades da ONU criaram algo sem precedentes no campo legal: um tribunal híbrido nacional e internacional, do qual participam juízes e promotores de todo o mundo, e que conta com o seu próprio conjunto de procedimentos de justiça criminal.

Em uma tentativa de apressar o processo, apenas os líderes sobreviventes dos grupos rebeldes serão julgados no tribunal. Os homens que de fato controlavam a guerra civil estão mortos ou atrás das grades.

Mas os desafios para se obter justiça na cena do crime tornaram-se rapidamente evidentes quando os promotores esbarraram com o caso identificado pelo número de processo 03-01. O réu nesse caso, conforme se viu, era a principal figura de toda a guerra civil, Charles Ghankay Taylor.

Logo ficou claro que o ex-presidente era um peixe muito grande para se fritar em Serra Leoa. Levá-lo simplesmente a Freetown exigiria um complicado envolvimento internacional.

Der Spiegel
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Ditador liberiano enfrenta a Justiça por sua atuação na guerra de Serra Leoa - parte 1

O ex-ditador liberiano Charles Taylor será julgado em Haia na semana que vem, acusado de atrocidades de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante a guerra civil de uma década na vizinha Serra Leoa.

Thomas Darnstädt e Jan Puhl

Alhaji Yussu Yurka, 49, está vendendo o seu passado. É praticamente tudo que lhe restou para vender. Em troca de dez sacos de arroz ou US$ 50 em dinheiro vivo, ele dá o seu depoimento a respeito do pior banho de sangue na história da África - ou pelo menos a pior carnificina da qual as pessoas em Serra Leoa - um pequeno país na região ocidental da África - conseguem se lembrar. Foi o massacre no qual Yussu Yurka perdeu os dois braços.

No país mais pobre da terra, a vida é uma luta constante pela sobrevivência para um homem sem braços como Yussu Yurka. Mas o arroz ou os US$ 50 são pelo menos suficientes para ajudar ele e um grupo de vítimas mutiladas e indefesas da guerra civel de Serra Leoa, que vivem no entorno da capital, Freetown, a sobreviverem por alguns dias.

Assim, nós damos a eles os seus US$ 50. “O que podemos fazer?”, pergunta ele. “Se tivermos sorte, podemos achar um emprego como seguranças, no qual possamos apertar um botão quando alguém tentar invadir um local”. Yussu Yurka pode se considerar um dos indivíduos que tiveram mais sorte. Uma organização de auxílio humanitário forneceu-lhe próteses rudimentares, garras de aço que ele usa com uma destreza impressionante.

A guerra civil que devastou Serra Leoa durante 11 anos custou mais de 100 mil vidas. Milhares de outras pessoas - mulheres, crianças e pais de família - sobreviveram à guerra, mas apenas após perderem membros devido à ação de grupos rivais rebeldes armados de facões, que aterrorizaram a população.

Serra Leoa está em paz desde 2002. O país mais pobre do mundo é agora mais pobre do que nunca, uma nação de miséria e sofrimento. As ruas fétidas de Freetown estão repletas das vítimas da guerra, pessoas impotentes sem braços e ex-soldados infantis que até recentemente empunhavam eles próprios facões.

A guerra desastrosa ocorrida um pouco ao norte do Equador foi totalmente sem sentido. Não foi uma guerra de libertação nem um conflito desencadeado pelo fanatismo. Não havia rivalidade étnica para explicar que crianças fossem obrigadas a atirar nos pais ou que garotas fossem raptadas e obrigadas a se tornarem escravas sexuais dos rebeldes. Segundo Yussu Yurka, e todos mais, somente um homem foi responsável por essa guerra, “e o nome dele é Charles Taylor”.

Taylor chega 20 minutos mais tarde. São 9h20 de 3 de julho de 2007, e o tribunal inteiro aqui em Haia está esperando pela aparição desse homem que usa um terno cinza e uma gravata de seda vermelho vinho. “Bom dia, senhor Taylor”, diz a juíza chefe do tribunal, visivelmente irritada.

Mas a culpa pelo atraso não é do bem vestido Taylor. Musculosos seguranças holandeses escoltam Taylor até a sala do tribunal. O atraso é causado pelas medidas extraordinárias de segurança que foram necessárias para trazer Taylor da Prisão Scheveningen, perto daqui, até o tribunal em um veículo para transporte de presos.

Mas 20 minutos não é muito para o povo da África e para os especialistas em legislação internacional de todo o mundo que passaram anos esperando por este dia. Taylor foi responsável por tanto sofrimento que na verdade não importa mais o motivo pelo qual o réu que encontra-se sentado em uma confortável cadeira no tribunal seja condenado.

As acusações contra Taylor na Sala Dois da Corte Internacional de Justiça, em Haia, incluem crimes de guerra, crimes contra a humanidade, genocídio, escravização sexual, uso de crianças como soldados, saque e pilhagem. A partir de 1989, Taylor, como o líder de uma quadrilha criminosa e mais tarde como presidente da Libéria, promoveu a morte e o terror em sua região nativa do oeste da África. Durante sua presidência, a onda de violência que tomou conta da Libéria atravessou a fronteira e engoliu a vizinha Serra Leoa.

Em Serra Leoa, gangues de criminosos saquearam os campos de diamantes do país. As pedras transformaram-se no combustível de uma guerra em expansão, jogando todos contra todos, e foram usadas como pagamento por armas dos velhos arsenais do bloco soviético. Taylor, a aranha na teia, amealhou uma fortuna de bilhões e acabou fugindo de sua capital em chamas, Monróvia, com malas estufadas de cédulas de dólar.

Ninguém nega as ações terríveis de Taylor e as conseqüências destes atos: duas nações destruídas e toda uma região desestabilizada. O único problema está em responsabilizar o ex-presidente pela catástrofe desencadeada por ele no oeste da África. Atualmente os promotores enfrentam o desafio de reconstruir os elos de comando entre grupos rebeldes foras-da-lei e o homem no topo.

“Senhor Taylor, por favor, levante-se”, diz Julia Sebutinde, a juíza ugandense que é chefe do tribunal, com a voz agora decididamente menos fria. O réu levanta-se.

“Você considera-se culpado ou inocente das acusações que lhe são feitas?”

“Inocente, meritíssima”.

Quando fala, Taylor, 59, dá a impressão de ser um presidente esgotado, e não o cabeça de um bando de assassinos. Ao contrário de Slobodan Milosevic, o ex-ditador sérvio que também foi julgado aqui até morrer na sua cela em 2006, o bem vestido liberiano formado em uma universidade dos Estados Unidos sabe como se portar perante este tribunal de justiça internacional. Em vez de fazer discursos furibundos, Taylor conseguiu usar truques procedurais para paralisar repetidas vezes o julgamento.

E não foi diferente em 3 de julho. O julgamento foi imediatamente adiado depois que Taylor se declarou inocente. Mas quando o julgamento continuar, em 7 de janeiro, os juízes em Haia estarão mais propensos a agir decisivamente.

Haverá uma grande demanda pelas gravações de vídeo do julgamento de Taylor nos cinemas improvisados de Freetown, que são pouco mais do que tendas montadas ao longo das ruas da capital de Serra Leoa. Em uma cidade que sofre constantes blecautes, os aparelhos de vídeo cassete utilizados para a exibição dos vídeos de Haia funcionam com a eletricidade proveniente de geradores movidos a gasolina.

Os vídeos - distribuídos pelo governo - do julgamento do açougueiro de Monróvia na distante Europa são exibidos em todas as partes do país. “Esse julgamento envia uma mensagem a todos os africanos”, afirma o especialista em direito criminalista norte-americano David Crane, que redigiu a acusação contra Taylor para o tribunal de Haia. “Ficará provado que o império da lei é mais persuasivo do que o poder das armas”.

Será que o império da lei é de fato capaz de trazer paz a um país? Os advogados e juízes na Sala Dois do Tribunal de Haia esperam provar que sim, e também que a condenação de um tirano, mesmo para aqueles que apenas a vejam através de um vídeo, pode trazer o espírito da lei e a cultura da justiça a um continente flagelado pela violência. Será que a justiça é capaz de prevalecer neste mais recente julgamento de um notório ditador - o alinhado Taylor - no mesmo local em que ela fracassou contra o tirano sérvio Milosevic?

O simples fato de ter sido possível mover um processo contra Taylor em 2003, que à época ainda estava no poder, e emitir um mandado internacional de prisão que culminou com a sua detenção na Holanda é por si só um marco histórico. Ao levar Taylor a julgamento, a Corte Internacional de Justiça já criou um precedente quase tão significante quanto os Julgamentos Aliados de Nuremberg contra os nazistas ao final da Segunda Guerra Mundial. O julgamento de Taylor estabelece um exemplo que só poderá gerar medo nos corações de chefes de Estado criminosos em todo o mundo, que subitamente descobrem que os seus cargos não os protegem do processo e da punição pelos seus crimes.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Governo paulista retoma política de privatizações

Mesmo criticado por agir sem transparência, governo Serra vai leiloar a Cesp. Trabalhadores permanecem em estado de greve

BRASIL DE FATO - Eduardo Sales de Lima

O Estado de São Paulo vai retomar, no início deste ano, seu Programa Estadual de Desestatização (PED), iniciado em 1996, na gestão do ex-governador Mário Covas. Entre as 18 estatais paulistas incluídas em avaliações voltadas à privatização, a primeira a ser "desestatizada" , de acordo com o vocabulário tucano, será a Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Analistas estimam que o preço ficará entre R$ 14 bilhões e R$ 20 bilhões.
A Cesp é a maior empresa de produção de energia elétrica de São Paulo e a terceira maior do país. Sua potência instalada total é de 7.455,30 MW. Possui seis usinas hidrelétricas nos rios Paraná, Tietê, Paraíba do Sul, Paraibuna, Jaguari.
Ainda existem outras 17 empresas estatais em São Paulo, já avaliadas pelo banco Fator, e que estão encaminhadas no sentido da privatização, entre elas a Sabesp (saneamento básico e abastecimento de água), Nossa Caixa, Metrô, Imprensa Oficial, CDHU (habitação), CPTM (transporte) , Dersa (construção, fiscalização e administração de estradas), Emae (energia), Cosesp (seguros), Cetesb (saneamento ambiental), Prodesp (processamento de dados) e EMTU (transporte).
"Em 2007, o governo investiu R$ 7 bilhões, dinheiro do povo, e ampliou o parque de produção de energia em 1.500 MW", aponta Gentil Teixeira de Freitas, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Energéticos do Estado de São Paulo (Sinergia-CUT) . O que ocorreu foi um trabalho de repontecializaçã o em várias turbinas de diversas usinas, como nas de Ilha Solteira. "Nunca vi ninguém, antes de vender seu carro, quase remontá-lo por completo; no máximo o vendedor passa um ‘pretinho’ nos pneus", ironiza Gentil.
Sem transparência
A cargo da construção do modelo de privatização está o Banco Citibank, em parceria com Banco Fator, vencedores da licitação anunciada em setembro e finalizada em novembro para escolher os responsáveis pela avaliação do valor e pela criação de novos modelos de negócios de 18 empresas estatais. O Citibank também se tornou o encarregado de coordenar a venda de todas as ações da Cesp que o Estado possui.
A audiência pública organizada pelo Conselho Diretor do PED, realizada no dia 15 de janeiro, na Bovespa, foi montada, de acordo com os sindicalistas presentes, de forma a não permitir a contestação nas respostas às perguntas formuladas pela platéia composta principalmente por trabalhadores. Para eles, faltaram informações imprescindíveis sobre a privatização da Cesp, como o cronograma e o valor mínimo da empresa. "As perguntas eram por escrito e não havia espaço para réplica", relata Gentil.
Segundo o governo paulista, entre 20 de fevereiro e 31 março deverá ocorrer o leilão da Cesp, em forma de lote único – ou seja, a empresa será vendida de uma só vez. O edital seria publicado em 8 de fevereiro, mas uma liminar judicial, concedida no dia 25, o suspendeu e determinou que uma audiência pública fosse realizada em Pereira Barreto, onde se localiza a Usina de Três Irmãos, no prazo máximo de 30 dias. Mas a liminar ainda pode ser cassada.
A intenção do governo era a de não realizar mais nenhuma audiência pública, e dificultar, desse modo, os esclarecimentos sobre a venda da estatal à sociedade. Já os trabalhadores da estatal acreditam ser fundamental haver um debate mais aprofundado entre a população das cidades do interior paulista, onde se localizam as usinas da Cesp.
Histórico privatista
Nos anos 1990, a empresa paulista sofreu uma reestruturação, sofrendo a divisão em diversas companhias. A saber, Elektro, Cesp Tietê, Cesp Paranapanema, a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep) e Cesp. Todas as dívidas ficaram com a Cesp, e as demais empresas foram leiloadas. O resultado foi que a Elektro foi vendida para a Enron, em julho de 1998, a Cesp Parapanema à Duke Energy, em julho de 1999, e a Cesp Tietê para a AES em outubro de 1999 – as três estadunidenses. Em junho de 2006, foi a vez da Cteep, entregue à colombiana Interconexión Eléctrica (ISA).
Para viabilizar a privatização de todos os segmentos leiloados, a dívida das subsidiárias privatizadas da Cesp foi repassada à estatal, que passou a acumular R$ 14 bilhões em passivos. Após a privatização "em massa", sobrou para a estatal a geração de energia nas usinas de Ilha Solteira, Porto Primavera, Jupiá, Paraibuna, Jaguari e Três Irmãos, que permaneceram sob controle do Estado. No entanto, mesmo após ser dividida, a empresa continua responsável por cerca de 60% de toda a energia gerada em São Paulo.
Improbidade e negligência
Na ocasião das privatizações das empresas hoje conhecidas como AES Tietê e Duke Energy, ficou estabelecido que as mesmas deveriam expandir a capacidade instalada do seu sistema de geração em, no mínimo, 15% no período de oito anos. "O acordo da privatização previa a expansão da produção de energia em 750 MW. Até hoje o governo não cobrou elas", denuncia o secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Energéticos.
Não haverá, no entanto, exigência para os novos controladores de ampliação do parque gerador, como ocorreu no passado. E das seis usinas pertencentes à Cesp, quatro já estão com suas dívidas totalmente pagas.
Em relação aos trabalhadores, uma de suas principais preocupações é a perda de direitos e até mesmo de seus empregos. "A AES Tietê, antes da privatização tinha 800 funcionários, passou a ter 250. Já hoje em dia, apenas pouco mais de 100 não são terceirizados" , lembra Gentil.
Na segunda-feira (28), os trabalhadores das principais usinas e localidades da estatal decidiram manter o estado de greve até que sejam realizadas as reuniões e negociações com o governo de SP e representantes do banco estadunidesne Citibank.

Fonte: Agência Brasil de Fato

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Aumento do desemprego é presságio de recessão nos Estados Unidos

Floyd Norris

Quando o número de norte-americanos sem trabalho começa a aumentar drasticamente, ocorre uma recessão.

Segundo esta lógica, os últimos dados referentes ao número de trabalhadores desempregados são, no mínimo, um sinal de perigo.

O Departamento de Trabalho anunciou em dezembro que 7.665.000 pessoas estavam desempregadas, o que significa que elas ao mesmo tempo não tinham emprego e que não estavam procurando um trabalho. O número foi 13,2% mais elevado do que os 6.700.000 registrados em dezembro do ano anterior. No passado, um aumento anual de 13% consistiu, em todas as ocasiões, em um sinal de uma recessão.

Antes de dezembro, houve nove ciclos nos Estados Unidos desde 1950 durante os quais a variação positiva do número de desempregados foi de 13% ou maior.

Em oito daqueles casos, quando o aumento atingiu os 13%, a recessão já havia começado, segundo conclusões às quais posteriormente chegou o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos. No outro caso, a recessão teve início três meses depois.

Aliás, o departamento não define uma recessão como dois trimestres de queda do produto interno bruto real, embora esta definição seja amplamente utilizada. Em vez disso, a instituição diz que “uma recessão é um declínio significativo da atividade econômica disseminado por toda a economia, durando mais do que alguns meses, normalmente visível no produto interno bruto real, na renda real, no desemprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e no varejo”.

O fato de o desemprego ser um dos indicadores ajuda a explicar historicamente essa correlação estreita, mas isso não aconteceria se tivesse havido ondas de desemprego que não coincidissem com desaquecimentos econômicos mais amplos.

A idéia de que uma recessão já esteja ocorrendo quando o índice de desemprego é de apenas 5% pode parecer estranha para quem tenha acompanhado a economia nas últimas décadas. Esse número é menos da metade do índice atingido em 1982, e menor do que o índice médio de desemprego das décadas de 1970, 1980 e 1990. Mas às vezes o que conta é a tendência, mais do que o nível absoluto de desemprego.

Em décadas passadas, não havia nada de incomum quanto ao fato de uma recessão ter início com um índice de desemprego de 5% ou menos. Das nove recessões registradas pelo departamento de pesquisa econômica desde 1950, cinco tiverem início com um índice de desemprego menor que 5%. Estas foram as recessões de 1953, 1957, 1969, 1973 e 2001.

O padrão normal é que o aumento anual de 13% do número de desempregados ocorra alguns meses após o início da recessão - embora geralmente bem antes disso fique claro para os economistas que a economia entrou em queda -, e que depois disso esse número fique bem maior. Geralmente os índices de aumento anual de desemprego permanecem acima dos 13% durante vários meses após o término da recessão.

A única ocasião na qual o aumento do número de desempregados ocorreu antes do início real da recessão foi em 1969, quando a elevação atingiu a marca dos 13% em setembro, mas o mês do início oficial da recessão foi mais tarde determinado como sendo dezembro. Aquela foi uma rara ocasião na qual o índice de aumento anual, após aumentar para 13%, caiu para abaixo deste nível durante dois meses. E ele não voltou a superar os 13% antes de janeiro de 1970, um mês após o início da recessão.

O desemprego é geralmente visto como um indicador econômico atrasado, já que as companhias podem relutar em demitir trabalhadores quando a demanda começa a diminuir, aguardando até que as más notícias de fato se confirmem. Quando a recessão acaba, há uma relutância semelhante em se contratar até que fique claro que o aquecimento dos negócios não é um fenômeno temporário.

É claro que não existe garantia de que uma recessão esteja chegando. Em 1956, e novamente em 1967, houve aumentos de 12% no número de pessoas desempregadas, mas esse índice recuou rapidamente sem que ocorresse rapidamente uma recessão. Mas o fato é que nunca antes este índice subiu para 13% sem que uma recessão fosse iminente ou que já estivesse ocorrendo…

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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A tentação da raça

Stéphane Foucart

Nós a achávamos enterrada de uma vez por todas. Norta pela ciência. Reduzida a migalhas pela genética, cujos primeiros resultados apontavam que a humanidade inteira constitui uma única, mesma e grande família. Mas não era bem assim! Eis que a noção de raça volta a ter vida própria. E quem a faz renascer não é qualquer um: o americano James Watson em pessoa, o co-descobridor, junto com Francis Crick e Rosalind Franklin, da estrutura do DNA (ácido desoxirribonucléico).

Numa entrevista que ele concedeu em meados de outubro ao “Sunday Times”, para a promoção do seu mais recente livro - “Avoid Boring People” (”Evite pessoas chatas”, editora Oxford University Press), o Prêmio Nobel de medicina de 1962, que hoje tem 79 anos, explicou sem rodeios que ele estava “profundamente pessimista em relação ao futuro da África”. Por quê? Porque, disse ele, “todas as nossas políticas de desenvolvimento se baseiam no fato que a sua inteligência (a dos africanos) é a mesma que a nossa (ocidentais brancos), ao passo que todos os testes dizem que este não é verdadeiramente o caso”. “Aqueles que tiveram de lidar com empregados negros”, acrescentou, “sabem do que eu estou falando”.

Será que nós estamos assistindo ao retorno de um “racismo científico” que todos achavam extinto? Ou será que aquilo não passava de meras elucubrações de um homem idoso que, alguns dias mais tarde, se disse “mortificado” pelas suas próprias palavras, enquanto todas as suas conferências no Reino Unido eram canceladas e que a sua instituição, o Cold Spring Harbor Laboratory, o dispensava sem demora.

O fato de James Watson desvendar hoje o seu pensamento, de maneira tão crua e sem complexo algum, a respeito de um assunto tão sensível, nada deve ao acaso. O co-inventor da dupla hélice do DNA, conforme explica o geneticista Axel Kahn, diretor do Instituto Cochin, “situa-se na escola, ou na tendência, da direita determinista anglo-saxônica, uma antiga vertente de pensamento não-igualitarista e cientificista, que não raro apresenta afinidades com o racismo”. Ora, segundo Kahn, este movimento ideológico está passando por um renascimento: “Depois da Segunda Guerra Mundial, tudo aquilo em que havia resultado o paroxismo desta visão, além do horror que ela havia provocado em todo o mundo, desqualificaram este movimento de maneira duradoura, e, para assim dizer, puseram-no entre parênteses. Mas este parêntese, atualmente, está se dissipando”.

Os tabus estão sendo derrubados. Em setembro de 2005, a revista “Science” - uma das mais prestigiosas instituições científicas no mundo - publicou os estudos de uma equipe de pesquisadores americanos relativos a dois genes envolvidos na microcefalia: ASPM e MCPH-1. Estas duas seqüências genéticas sofreram duas mutações, que ocorreram respectivamente há 5.800 anos e 37.000 anos, mutações estas que eles pensam estarem envolvidas no aumento do volume cerebral. A rápida difusão destas mutações na população mostraria, segundo os autores, que estas duas características são submetidas a uma forte “pressão seletiva”. Ou seja, em outras palavras, que a seleção natural foi exercendo o seu papel no decorrer dos séculos, favorecendo os humanos portadores destes dois genes mutantes, por estes proporcionarem melhores capacidades intelectuais.

Evidentemente, isso não é tudo. “Os autores acrescentavam sem pestanejar que estas duas mutações estavam amplamente presentes nas populações européias e asiáticas e, ao contrário, que elas se revelavam raras na África”, explica Axel Kahn. “Desde então, foi comprovado que tudo aquilo era falso, mas o que está dizendo hoje James Watson nada mais é que a tradução daquilo que estes pesquisadores pretenderam, equivocadamente, ter demonstrado”.

Na época, a comoção, discreta, provocada por este artigo na revista “Science”, transpareceu muito pouco na imprensa voltada para o grande público. Em sua maior parte, ela permanece limitada a debates técnicos sobre a fragilidade das estatísticas que são utilizadas nas demonstrações. “Muitas foram as equipes que analisaram novamente os seus dados. Não há prova alguma da tese que elas defendiam”, confirma François Balloux, um pesquisador no departamento de genética humana da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Resta a noção de raça. Será que ela foi mesmo eliminada pela genética? Ou, ao contrário, será que os mais recentes métodos de análise tendem a operar uma distinção entre os povos, classificando alguns deles aqui, e os outros ali? Um número considerável de estudos científicos dedica-se, há alguns anos, a fazer levantamentos das particularidades genéticas de uma ou outra população, em função da geografia ou das origens étnicas.

Em dezembro de 2002, uma equipe americano-russa já havia publicado na revista “Science” um dos artigos mais citados sobre o assunto: ao analisarem mais de 300 marcadores genéticos em cerca de mil indivíduos que pertencem a 52 populações diferentes, os pesquisadores conseguiram isolar 5 a 6 grandes grupos humanos, coerentes com os grandes conjuntos geográficos. Será possível falar de raças, então? Não exatamente. Trata-se, conforme explica o geneticista Vincent Plagnol (da Universidade de Cambridge), “de uma simplificação da realidade”, uma vez que neste tipo de modelo “ninguém pertence numa proporção de 100% a um grupo, e que os indivíduos são descritos como pertencendo a uma combinação desses conjuntos”. Com isso, a noção “científica” de raça deveria continuar sendo no campo virtual.

E até mesmo uma inépcia. “A noção de raça não é cientificamente pertinente”, avalia assim Lluis Quintana-Murci, um geneticista das populações (do CNRS-Institut Pasteur). “É impossível isolar uma raça: as variações das populações humanas são graduais e contínuas, da Europa do Norte à China meridional. Nunca existe qualquer discrepância genética entre duas etnias”.

“Mesmo quando se tem acesso ao genoma de um indivíduo, é impossível especificar o seu vínculo com alguma raça ‘no sentido popular’ da palavra”, prossegue o pesquisador. “Vamos imaginar que eu, Lluis Quintana-Murci, cometa um crime e que os investigadores encontrem no local uma amostragem do meu DNA. Eles poderiam dizer, sem precisarem exagerar as coisas, que o criminoso é originário do Oriente Médio, por causa do meu cromossomo Y que pertence à linhagem J, uma combinação que é particularmente freqüente no meu tipo de DNA. E isso, apesar do fato de a minha família ser, até onde fui informado, espanhola desde sempre”. A recente profusão de estudos que visam a segmentar e categorizar geneticamente as populações humanas não se deve a uma repentina neurose classificadora. Nem a algum racismo latente.

Ela se deve, sobretudo, e de maneira recente, a um objetivo importante das pesquisas biomédicas. A circulação de patologias genéticas em certas comunidades ou no âmbito de determinadas etnias é bem documentada. Assim como é a predisposição genética a certas doenças causadas por múltiplos fatores. É o caso da talassemia ou da hemofilia em certos países árabes muçulmanos, onde a união entre primos não é proibida. É também o caso da doença neurodegenerativa progressiva conhecida como síndrome de Tay-Sachs entre os judeus da Europa do Leste. Ou ainda dos distúrbios cardiovasculares que são duas a três vezes mais freqüentes entre os afro-americanos do que nas outras comunidades da América do Norte, etc.

Uma predisposição à doença não caracteriza uma raça. Contudo, a genética, daqui para frente, busca se aprofundar no que diz respeito à diferenciação. Alguns pesquisadores procuram detectar mecanismos genéticos de tolerância ou de resposta a uma ou outra molécula, que estão mais provavelmente presentes em certas comunidades do que em outras. As motivações destes estudos poderiam ser econômicas. “Infelizmente, existem muito poucas novas moléculas terapêuticas que aparecem no mercado, uma vez que um bom número dentre elas, cuja pesquisa exigiu pesados investimentos, apresenta uma quantidade excessiva de efeitos indesejáveis, mesmo se variáveis, dependendo dos indivíduos”, argumenta François Balloux. “Com isso, existe uma forte tentação a reabilitar algumas dessas moléculas, destinando-as a determinadas categorias da população”.

Enquanto seguimos aguardando o desenvolvimento anunciado de uma medicina individualizada, na qual cada tratamento seria administrado em concordância com as particularidades genéticas do paciente, alguns laboratórios farmacêuticos poderiam apostar numa medicina étnico-racial. Uma medicina na qual o paciente declara, por iniciativa própria, o grupo ao qual ele pertence, na mesma situação em que ele descreve os seus sintomas.

Um dos primeiros sinais desta tendência foi a autorização dada para o BiDil, em 2005, nos Estados Unidos, um medicamento contra a hipertensão arterial especificamente destinado aos afro-americanos. Em 1997, a sua comercialização havia sido inicialmente recusada pela Food and Drug Administration (FDA). Além disso, esta medicina “racializada” ainda não convenceu a totalidade da comunidade médica nos Estados Unidos. Longe disso. Num artigo de opinião que foi publicado no final de setembro na revista “PLoS Medicine”, um grupo de médicos americanos contesta a sua pertinência e critica a classificação necessariamente redutora dos pacientes que, segundo eles, “pode conduzir a erros de diagnóstico e a tratamentos inapropriados”.

Nos Estados Unidos, a tentação étnico-racial nas pesquisas biomédicas vai se tornando oficial. Desde 2001, os pesquisadores financiados pelos Institutos Nacionais Americanos da Saúde (NIH) devem categorizar os indivíduos que participam de testes num dos cinco conjuntos étnico-raciais predefinidos pela administração: os ameríndios ou nativos do Alasca; os asiáticos; os negros ou afro-americanos; os nativos do Havaí ou de qualquer outra ilha do Pacífico; os brancos.

Não há dúvida de que as variações genéticas, tênues e invisíveis, que desta forma são reafirmadas pela biologia, serão recuperadas para fins ideológicos de hierarquização. Mas, lembra Axel Kahn, tanto a predisposição a uma doença quanto a resposta a um tratamento medicamentoso, se devem a variações relativamente simples “que envolvem um número reduzido de genes”. “Ao passo que as capacidades cognitivas se baseiam, por sua vez, num equilíbrio extraordinariamente sutil entre o inato e o adquirido”, conclui o geneticista. “Um equilíbrio a respeito do qual hoje nós não sabemos praticamente nada”.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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