Queen - Bohemian Rhapsody
Olivier Guez
O passado em emboscada
Entretanto, a integração dos judeus da ex-URSS na comunidade berlinense não se faz sem atritos. Jan Ofmanis constitui uma exceção. Os mais idosos, e, em particular aqueles que dominam mal o alemão, acabaram ficando muito isolados e se refugiaram no aconchego comunitário para encontrarem um pouco de calor humano. As gerações intermediárias, frustradas e às voltas com um desemprego terrível por não conseguirem obter o reconhecimento dos seus diplomas soviéticos, não conseguiram se conformar com a exclusão social. Em muitos casos, esses antigos engenheiros, técnicos e economistas da gloriosa indústria pesada soviética tiveram que se resignar a abrir pequenos comércios no bairro de Charlottenburg, ou ainda a se tornar motoristas de táxi. Em contrapartida, os mais jovens, que chegaram quando ainda crianças a Berlim, estavam mais bem integrados, tanto na comunidade quanto na sociedade alemã, a exemplo de Rimon que, distante das querelas entre judeus “alemães” e “russos” que envenenam o cotidiano da coletividade, construiu plenamente a sua vida na capital.
O pequeno mundo dos judeus berlinenses não é integrado apenas por pessoas que vieram da ex-União Soviética. A cidade vem atraindo artistas e escritores judeus do mundo inteiro, alguns dos quais são muitos célebres, como, por exemplo, Imre Kertész. Este Prêmio Nobel de literatura que é um sobrevivente de Auschwitz decidiu instalar-se em Berlim para nela buscar a inspiração que ele não conseguia mais encontrar na sua Hungria natal. E mesmo se ele continua escrevendo na sua língua materna, o alemão, com as suas expressões e suas tonalidades, revela ser mais propício para o seu trabalho. Nesta cidade que não dissimula o seu passado e onde a recordação da Shoah está onipresente, Kertész, cuja obra está inteiramente marcada pela dimensão da experiência concentracionária, encontra os elementos de que precisa para traduzir as suas feridas.
Ao longo dos últimos anos, no outono da sua vida, outros veteranos judeus alemães que, décadas antes haviam deixado o país para partir em exílio, também retornaram a Berlim, como se, apesar das feridas, um fragmento da Alemanha sempre estivesse presente em seu coração. Como se a esperança de retornar um dia à sua cidade natal e de fechar o doloroso parêntese tivesse perdurado. Entre eles inclui-se Werner Max Finkelstein, um octogenário brincalhão, fumante inveterado, que está de volta a Berlim desde 1999, sessenta anos depois de ter deixado está capital de maneira catastrófica e para nela concluir uma existência palpitante e aventureira. Por que será que ele deixou Buenos Aires e os seus filhos? “Eu nunca parei de pensar na Alemanha. Durante décadas, os meus pés estiveram na Argentina, o meu coração em Jerusalém e a minha mente em Berlim. Depois da guerra, eu estava tomado apenas pela cólera e a decepção. Quando eu retornei para cá pela primeira vez, durante os anos 1980, as minhas impressões se revelaram menos intensas: o país havia mudado, mas eu sempre me sentia pouco à vontade quando eu cruzava pessoas da minha geração ou mais idosas”. Contudo, no decorrer das suas viagens, ele foi se sentido cada vez melhor na capital alemã, até que a sua futura companheira, uma jovem alemã que ele conheceu na Argentina, acabou convencendo-o a tomar a grande decisão. “A minha trajetória está completada. Estou de volta para casa. Eu fui muito bem recebido. Tornei-me um partidário do SPD (Partido Social-Democrata) e estou bastante ativo na comunidade”, comemora Werner Finkelstein.
Na capital, uma nova geração de judeus alemães, a primeira desde a república de Weimar, foi conquistando espaço. Ou, mais exatamente, uma geração de judeus berlinenses, de tanto que esses jovens se mostram apegados à sua cidade de adoção, uma metrópole mais aberta e cosmopolita do que as outras cidades alemãs. Este é o caso de Oskar Melzer, um “príncipe” da noite berlinense, que dirige um dos seus clubes emblemáticos, o Week End, situado nas alturas que dominam a Alexanderplatz. Após ter se instalado em Berlim há dez anos, vindo de Munique, ele se sente muito à vontade na capital. E não vê nenhuma contradição em ser judeu e berlinense.
“Em Berlim, eu encontrei a minha Heimat, a minha pátria, a minha casa. Eu não tenho nenhum problema, não sinto nenhum constrangimento em dizer-lhe que eu sou alemão, que amo a língua e a cultura deste país. Eu nasci aqui. Eu cresci aqui. Os meus amigos vivem aqui. A minha relação com a Alemanha está cada vez mais normal. Esta é a grande diferença em relação à geração dos meus pais, que nasceram depois da guerra. A sua relação com a Alemanha é muito mais complicada”, assegura.
Shelly Kupferberg, uma jovem jornalista trintona que nasceu em Tel Aviv, desenvolve plenamente a sua vida no ritmo das suas atividades na televisão. No seu trabalho, ela consegue afirmar com toda liberdade a sua dupla cultura judeu-alemã. Contudo, esta nova geração de judeus berlinenses não consegue viver sem segundos pensamentos. No decorrer de uma conversa, de uma expressão ou de um olhar, o passado pode ressurgir muito rapidamente. “Em 2006, a Copa do Mundo realizou-se em meio a um ambiente ameno e simpático. Mas o fato de ver os alemães reunidos em massa, exibindo orgulhosamente a sua bandeira, me deixou constrangida. Eu não demorei a operar certas associações. Creio que em cada um de nós, enterrada mais ou menos profundamente, perdura a idéia de que Hitler continua presente, escondido na sombra? Nós somos hipersensíveis. Esta é a nossa doença, a dos judeus alemães”, admite Shelly Kupferberg.
Jornal Le Monde
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Olivier Guez
Os “Shtetl Superstars”
Nem todos tentaram reabilitar ou reproduzir uma herança judaica que o poder comunista havia sistematicamente procurado enterrar: ao menos um terço, e até mesmo mais, dos novos migrantes se aproveitaram de uma passagem de ida simples que lhes foi oferecida pela rica Alemanha reunificada para começarem uma vida nova. Este foi o caso de Wladimir Kaminer, um dos ícones da cena berlinense, um escritor pós-soviético dublê de DJ superstar, que nunca teve qualquer contato com a comunidade judaica berlinense. Yuri Gurzhy, o seu parceiro de discotecagem nas noitadas “Russendisco”, um jovem ruivo trintão com a cabeça raspada, originário de Kharkov na Ucrânia, tampouco se misturou com os membros da nova comunidade. Mas ele reivindica a sua judeidade, que ele conseguiu desenvolver em Berlim e que ele afirma de bom grado por meio da sua música. No álbum intitulado “Funky Jewish Sounds”, Yuri e seus asseclas do Shtetl Superstars fazem de tudo para se aproximar do espírito festivo original da música klezmer.
“O meu avô possuía uma fabulosa coleção de discos de música iídiche que eu fiquei ouvindo ao longo da minha juventude inteira. Eu pertenço a esta cultura, e, em Berlim, tive a sorte de lidar com um público sensível a essas melopéias, mesmo se ele não entende muito bem o seu sentido”, explica Gurzhy. “Os alemães ouvem esta música religiosamente, como se ela fosse a trilha sonora da Shoah e em função da representação trágica que eles têm geralmente do povo judeu. Ora, na Europa Oriental do início do século, os músicos de klezmer eram rebeldes, eles não tinham domicílio fixo e não raro viviam bêbados, ou seja, o equivalente dos primeiros roqueiros dos anos 1950″.
Da mesma forma que os Shtetl Superstars, Rimon, mais conhecido como o DJ Sugar Ray, garante a diversão e faz vibrarem os assoalhos das pistas de dança berlinenses. Mas o seu público é totalmente diferente: ele é o grande organizador e o principal mestre de cerimônias das noitadas da comunidade judaica berlinense, após ter sido o presidente dos estudantes judeus da Alemanha. Um homem excêntrico, zombador, que consegue se virar hoje na prática de sete línguas, Rimon chegou da Lituânia aos 13 anos, em 1990. Por ser incapaz, então, de pronunciar uma palavra sequer de alemão, e por ter sido convencido a se instalar na “Nazilândia”, ele passou por dificuldades nos primeiros tempos. Sem amigos na escola, ele encontrou a sua salvação na comunidade judaica. “As atividades para os jovens foram decisivas para a minha integração. Fui me tornando mais confiante, comecei a falar o alemão e, aos poucos, fui me entrosando e fiz amizades”.
No decorrer do tempo, Rimon acabou considerando a sociedade alemã com menos preconceitos e começou a se apaixonar por Berlim, que ele diz agora não querer deixar por nada no mundo, mesmo para viver em Israel, um país ao qual ele está muito apegado. “Eu já passei pela imigração, e sei o quanto é difícil adaptar-se a um novo país. Além disso, foi aqui que eu construí a minha vida. Eu sou noivo de uma judia alemã e posso praticar o judaísmo da maneira que eu bem entendo”. Ele acrescenta: “Eu desenvolvi vínculos fortes com a música e a cultura, e com a língua também. Quando eu encontro um russo, prefiro conversar com ele em alemão. Eu mal consigo acreditar em mim mesmo quando me surpreendo torcendo até mesmo pelo representante alemão no concurso de música popular da Eurovision e também torci pela Mannschaft (a seleção alemã) durante a Copa do Mundo de futebol, sem nenhuma segunda intenção”.
Jan Ofmanis não tem mais a idade para remexer-se nos inúmeros clubes da cidade. Este antigo professor de economia da universidade de Riga desfruta atualmente de uma aposentadoria tranqüila nas margens do rio Spree, onde a sua pensão é dez vezes superior àquela que ele teria recebido na Letônia. Antes da sua partida para Berlim, há cerca de dez anos, este veterano do Exército Vermelho não se sentia mais à vontade em seu país natal. “Depois do desmoronamento da URSS, a Letônia recuperou a sua independência, mas a situação econômica e social estava difícil. Eu estava preocupado, de tanto que o ambiente político estava perigoso e xenófobo. Os judeus e os estrangeiros estavam na berlinda dos neonazistas e dos grupos ultranacionalistas”.
Jan Ofmanis, um homem que teve 28 membros da sua família exterminados pelos nazistas durante a guerra, poderia ter emigrado em Israel onde vivem o seu irmão e a sua irmã. Mas ele não tinha nenhum conhecimento do hebraico e se sentia totalmente alheio à mentalidade israelense. “O alemão e a cultura germânica impregnaram a minha infância. Eu aprendi a língua quando ainda muito novo, na escola judaica, e eu a falava com os meus avôs, cujas famílias eram originárias da Alemanha. Na Letônia independente, durante o período entre as duas guerras, os judeus falavam o iídiche e o alemão, o idioma da cultura elevada”. Convencido de que o seu domínio da língua facilitaria a sua integração e lhe permitiria prosseguir as suas atividades intelectuais, ele fez de Berlim a sua terra escolhida. “Aquela não foi uma decisão fácil, mas eu pensei em primeiro lugar nos meus filhos e nos meus netos, que vieram viver comigo dois anos depois da minha chegada. A Alemanha me parecia ser a melhor opção para o seu futuro”, explica.
Jornal Le Monde
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Olivier Guez
No telefone, que não pára de tocar, e com os seus numerosos visitantes, Yitzhak Ehrenberg mostra desenvoltura tanto com o alemão, do hebraico quanto do inglês. Por mais que a secretária se desdobre nas suas tarefas, o grande rabino ortodoxo de Berlim não consegue dar conta de todos os compromissos. Mas ele não se queixa, pelo contrário: “A minha missão é cativante e eu a considero como um presente da providência. É importante compreender que Berlim voltou a ocupar um lugar importante no mapa dos principais centros do judaísmo contemporâneo”. A tarefa de Yitzhak Ehrenberg é de cuidar do bom andamento das atividades de uma comunidade de 12.000 pessoas, um número que deve dobrar se acrescentarmos todos os judeus que não se inscreveram oficialmente na associação. Desde então, eles dispõem de dez sinagogas, de escolas, de restaurantes e de quitandas casher, de bibliotecas, de uma livraria, entre outros.
As inaugurações de locais de culto e as cerimônias festivas sucederam-se nas margens do rio Spree, ao longo dos últimos anos: um centro cultural para o movimento ortodoxo Chabad Loubavitch; uma sinagoga para os judeus do Oriente (da Ásia Central e do Cáucaso); a ordenação de três rabinos em Dresden, em setembro de 2006 - é a primeira vez que isso acontece na Alemanha desde o período nazista -, os quais, contudo, haviam se formado no seminário de Potsdam, perto de Berlim.
“No país dos assassinos”
A capital alemã está sendo o palco de um espantoso renascimento judaico. Este não se limita à valorização do riquíssimo passado hebraico da cidade, o qual é contado pelo museu judeu do bairro de Kreuzberg, uma excepcional realização do arquiteto americano Daniel Libeskind; ele tampouco se limita ao reconhecimento dos crimes passados, simbolizados pelos impressionantes espaços entre as vigas de concreto cinzento do vasto labirinto de sepulturas anônimas do memorial da Shoah, visitado por multidões de turistas e curiosos, a alguns metros apenas do Portão de Brandenburgo.
Da mesma forma que em Praga, Varsóvia ou Cracóvia, essas outras antigas capitais da cultura judaica da Europa Central onde aldeias iídiches voltaram a florescer recentemente, os vereadores de Berlim, junto com comerciante e donos de restaurantes, farejaram os bons negócios. No antigo “bairro das Granjas”, onde no passado se refugiaram dezenas de milhares de judeus do Leste que haviam fugido dos pogroms da Rússia czarista, em volta da majestosa sinagoga de redoma dourada da Oranienburger Strasse e do túmulo de Moses Mendelssohn, o Platão alemão, eles se dedicaram igualmente a desenvolver uma “Disney-iídichelândia” de cartolina, kitsch e artificial.
Para se convencer deste renascimento, é melhor, portanto, deixar o verdadeiro-falso bairro das Granjas e caminhar por algumas ruas em direção ao nordeste. Em Prenzlauer Berg, o bairro “hype” deste início de século, nesta manhã de sábado, em meio à multidão colorida que nele circula, após ter cruzado com famílias que vieram degustar um brunch ou com notívagos cansados que retornam de um “after” (noitada “esticada”), é freqüente encontrar judeus ortodoxos. Uma yeshiva - centro de estudos - financiada pela fundação americana Lauder implantou-se no bairro, onde a maior sinagoga da Alemanha, situada na Rykestrasse, reabriu as suas portas em agosto de 2007. “Ao longo de décadas, os judeus da Alemanha foram homens e almas feridos, dominados por terríveis tormentos. O seu coração estava em outro lugar; eles sentiam-se complexados por estarem vivendo no país dos assassinos. Hoje, os judeus da diáspora e de Israel não mais contestam a legitimidade da sua comunidade. Além disso, as instituições não podem abandoná-los: muitos deles abriram um escritório em Berlim e vêm financiando projetos culturais ou religiosos. Foi a chegada dos russos que mudou tudo”, comenta o rabino Ehrenberg.
Na primavera de 1990, a RDA (ex-Alemanha Oriental) agonizante reconheceu pela primeira vez na história a responsabilidade de toda a Alemanha na implantação e nos crimes da Shoah. O seu derradeiro governo eleito depois das eleições livres de março, dirigido pelo cristão conservador Lothar de Maizière, declarou querer pagar reparações para os judeus e o Estado de Israel, da mesma forma que havia feito a ex-Alemanha Ocidental (RFA) logo nos anos 1950. Mas, por falta de cacife - a RDA, fortemente endividada, estava à beira da asfixia econômica -, a Alemanha Oriental decidiu abrir sem restrição as fronteiras para todos os judeus da União Soviética que desejassem se instalar no país. Após algumas hesitações, o então chanceler Helmut Kohl (1930-2001) decidiu dar prosseguimento à política que havia sido iniciada pela antiga RDA. Segue-se então um dos fenômenos mais surpreendentes, ainda que bastante desconhecidos da Alemanha contemporânea: a acolhida e a inclusão, no espaço de cerca de apenas quinze anos, de mais de 220.000 judeus, dos quais muitos optaram por se instalar em Berlim, uma cidade mítica no imaginário judaico soviético, e que é dotada de uma importante minoria de língua russa.
Jornal Le Monde
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Marcos Guterman
O livro de Lewis: violência como contraponto à riqueza cultural
David Levering Lewis, 71, prestigiado historiador da New York University e duas vezes ganhador do Pulitzer, é especialista em Estados Unidos. Em seu novo livro, “God’s Crucible: Islam and the Making of Europe, 570-1215” (algo como “O Cadinho de Deus: Islã e a Fabricação da Europa”), no entanto, Lewis se aventura no campo da influência islâmica na Europa medieval e moderna. Preocupado com a ignorância ocidental em relação ao universo muçulmano, ele enfatizou basicamente os aspectos positivos da dominação islâmica no continente, ao ponto de dizer que a interrupção do avanço árabe foi um dos maiores desastres culturais da história. Lewis falou ao blog:
Blog do Guterman - Seu livro afirma que a derrota do islamismo na Europa foi uma das mais significativas perdas da história mundial e certamente a que causou mais conseqüências desde a queda do Império Romano. Por quê?
David Levering Lewis - O fato de o islamismo não conseguir avançar para além dos Pirineus evitou a incorporação da Idade das Trevas européia no “dar al-Islam”, ou império muçulmano. Como conseqüência, a Europa desenvolveu uma sociedade economicamente retrógrada, balcanizada e fratricida, que se definiu em oposição ao islamismo e encontrou sua virtude na aristocracia hereditária, na intolerância religiosa, no particularismo cultural e na guerra perpétua.
Blog do Guterman - O sr. acha que o Ocidente é preconceituoso em relação ao islamismo apenas porque os ocidentais são ignorantes a respeito dessa religião? O sr. acredita que se trate de uma questão política, mais do que histórica?
Lewis - A ignorância histórica tem muito a ver com a antipatia ocidental em relação ao islamismo. Mas o desentendimento, a ignorância e o ânimo têm sido exacerbados pela geopolítica do petróleo, pelo nó israelo-palestino e pelas cada vez mais ácidas reações anti-ocidentais de um pequeno mas influente segmento do mundo muçulmano.
Blog do Guterman - Seu livro descreve Córdoba sob domínio árabe como uma espécie de “paraíso”, onde diferentes povos viviam juntos em harmonia. Como isso foi possível?
Lewis - O que se tornou conhecido como “convivência” dificilmente pode ser descrito como “paraíso”. Na verdade, contudo, al-Andalus atingiu um memorável grau de colaboração cultural entre judeus, cristãos e muçulmanos. Os muçulmanos praticaram um notável nível de tolerância dentro dos parâmetros do domínio hegemônico, graças a imperativos teológicos e cálculos pragmáticos. Em primeiro lugar, o Corão ordena que não haja conversão forçada. Em segundo, populações dominadas e pagadoras de impostos são mais bem administradas se tiverem alguma margem de autonomia.
Blog do Guterman - O sr. acha que a conquista árabe da Península Ibérica foi melhor, em termos de civilização, do que as demais na Europa?
Lewis - Se você está pedindo uma comparação entre as conquistas muçulmanas na Europa – Ibéria, Sicília e Bálcãs –, eu prefiro não entrar em uma questão tão complexa. Basta dizer que a presença muçulmana na Península Ibérica e na Sicília foram ambas marcadas pela tolerância e pelas impressionantes conquistas culturais que, em última análise, tiveram importância decisiva para que a Europa emergisse das trevas subseqüentes à queda de Roma.
Estado de S. Paulo
O pequeno país que faz fronteira com a extremidade sul dos Alpes, assumiu a presidência rotativa da União Européia em 1° de janeiro. Mas a inflação alta e as preocupações dos jornalistas quanto à censura governamental estão causando problemas para nação que é considerada o novo modelo da Europa
Marion Kraske
É uma noite extremamente fria na capital eslovena, Ljubljana, mas o clima está começando a esquentar no “Zvezda”, onde mulheres com botas de salto alto e homens usando óculos escuros de marca abrem garrafas de champanhe. Ursa Sefman Sojer, uma mulher vivaz de olhos brilhantes, com os cachos de cabelo louro avermelhado amarrados para trás em um rabo-de-cavalo, está em meio à multidão, comemorando a abertura do seu mais novo café. A decoração do Zvezda, que quer dizer “A Estrela”, é sem dúvida moderna, com bancos de couro marrom-claros, cadeiras de tonalidade escura e iluminação estilizada.
Sefman, 34, usa um vestido justo de lã negra, sandálias feitas de imitação de pele de leopardo e um broche com uma foto de Marilyn Monroe. Ela abriu o seu primeiro café oito anos atrás, mergulhando no mundo empresarial porque, segundo explica, adora fazer quitutes no forno. A sua especialidade são os bolos de frutas e chocolate. Ela abandonou um emprego na indústria de relações públicas para abrir o seu primeiro café, trabalhando a princípio até 20 horas por dia. Sua mãe a ajudou lavando as toalhas de mesa todas as noites depois que os clientes iam embora. Ao final de cada noite Sefman ia para a cama exausta.
“Fizemos tudo por conta própria, mas valeu a pena. O negócio vai em frente a todo vapor”, diz ela hoje. Desde então o primeiro Zvezda tornou-se um local popular na capital eslovena, proporcionando a Sefman, mãe de dois filhos, um rendimento anual de cerca de 800 mil euros, e estimulando-a a abrir um segundo estabelecimento.
A trajetória de Sefman é apenas uma dentre várias histórias de sucesso na Eslovênia. A história de Igor Akrapovic é outra desse tipo. A sua companhia, a cerca de 35 quilômetros de Ljubljana, produz sistemas de escapamento para motocicletas e atualmente é protagonista global de ponta na indústria de motocicletas de corrida. E há também a Elan, uma companhia que produz esquis e snowboards perto da fronteira da Eslovênia com a Áustria, e que alguns anos atrás inventou um modelo de esqui que deixou os esquiadores loucos de Aspen a Saint Moritz.
A Eslovênia, uma nação de dois milhões de habitantes na borda sudeste dos Alpes, é sem dúvida o mais dinâmico e ambicioso dos países ex-comunistas que ingressaram na União Européia em maio de 2004. Os negócios estão disparando neste pequeno país, cujo tamanho é aproximadamente equivalente ao de Israel. Segundo a Comissão de Estatísticas da União Européia, a economia eslovena cresceu 6% em 2007. As suas cerca de 500 pequenas e médias empresas, conhecidas como Gazellas, são um contribuidor importante para o sucesso econômico, exportando produtos como vinho, autopeças e artefatos de couro. Os próprios eslovenos passaram a investir dinheiro no exterior, especialmente nos Bálcãs. Eles já se encontram entre os principais investidores estrangeiros na Bósnia.
Na época do ditador Josip Tito a Eslovênia já era o motor econômico da Iugoslávia, uma confederação de vários grupos étnicos. Os fundos que a Eslovênia injetou nos cofres da Iugoslávia foram usados para impulsionar as repúblicas mais pobres no sul do país. Ela sofreu muito pouco com as guerras balcânicas, e o exército esloveno passou apenas dez dias envolvido em pequenos combates contra unidades iugoslavas antes que o país proclamasse a sua independência em 1991.
Os industriais eslovenos, apelidados de “os alemães dos Bálcãs”, já gozam de um padrão de vida superior ao de Portugal, e ligeiramente inferior ao da Grécia. E, em 1° de janeiro de 2008, a Eslovênia, que já adotou o euro, tornou-se o primeiro dos novos Estados membros da União Européia a ocupar a presidência rotativa do bloco.
A maioria dos turistas que cruza a fronteira de carro a partir da Áustria se surpreende com o que vê: casas recém-pintadas, sacadas cheias de flores e, mais ao sul, uma próspera indústria turística em balneários no Mar Adriático, como Piran e Portoroz. Aquela face desmazelada e sombria, típica de outros países que viviam sob o socialismo, é completamente ausente na Eslovênia.
Ljubljana, conhecida durante séculos por Laibach, quando a Eslovênia fazia parte do Império dos Habsburgos, continua sendo uma amostra da magnífica arquitetura austro-húngara. Abrigando mais de 50 mil estudantes, que parecem passar grande parte do tempo socializando-se perto do castelo que outrora foi uma prisão, Ljubljana faz jus ao seu nome, cuja tradução é “A Amante”. Existe um clima mediterrâneo na cidade, onde se vê moradores sentados em frente às suas casas tomando café no meio do inverno.
Mas a imagem alegre de Ljubljana é enganosa. Na verdade, a cidade passou por dias melhores, e desde a introdução do euro no início de 2007, os preços vêm subindo sem parar. O preço médio dos gêneros alimentícios aumentou 20% no decorrer de um ano.
“É realmente difícil conseguir se sustentar”, diz Ingrid Dorner, uma jovem de 21 anos que usa óculos de níquel e tem o cabelo pintado de um vermelho berrante. Ela veio de Maribor, a segunda maior cidade da Eslovênia, e é estudante de psicologia em Ljubljana. Dorner diz que ganha cerca de 800 euros trabalhando em um restaurante, e gasta 300 euros apenas com o aluguel. “O dinheiro praticamente escorre pelos nossos dedos”, reclama ela.
A elevada inflação macula a imagem de país modelo
Os eslovenos começaram a expressar as suas frustrações em novembro, quando cerca de 70 mil pessoas saíram às ruas de Ljubljana - uma manifestação enorme para um país tão pequeno. Naquela que foi a maior passeata desde a independência, sindicalistas, estudantes e pensionistas protestaram contra o aumento do custo de vida e exigiram maior justiça social.
A taxa de inflação da Eslovênia, de 5,7% - a mais elevada na zona do euro -, dá margem a preocupações. No início de novembro, o comissário para Política Econômica e Monetária da União Européia, Joaquín Almunia, chegou a fazer uma advertência pública à Eslovênia, até então uma economia modelo. Segundo Almunia, uma taxa de inflação superior a 3% envia um “mau sinal” aos países que aguardam na fila para ingressar na zona do euro.
A situação do governo de centro-direita do primeiro-ministro Janez Jansa não é exatamente rosa, neste momento em que o país assume a presidência do Conselho da União Européia. Danilo Türk, um político de esquerda e diplomata experiente, que foi o braço direito do ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas Kofi Annan durante seis anos, recentemente venceu a eleição presidencial, enquanto Lojze Peterle, o favorito do governo, ficou em um desapontador segundo lugar. “O resultado da eleição é um alerta ao gabinete de Jansa”, afirma Vedran Dzihic, um especialista nos Bálcãs que mora em Viena. “O país está perdendo a sua imagem de novo modelo europeu”.
A decisão de Jansa de propor um voto de confiança ao final de novembro foi mais um espetáculo do que qualquer coisa, e a Assembléia Nacional votou a seu favor, como era de se esperar. No entanto, o primeiro-ministro conta com a sua parcela de problemas na frente política doméstica. Recentemente, 571 jornalistas lançaram uma petição criticando aquilo que vêem como restrições maciças à liberdade de imprensa e a pressão política excessiva por parte do governo. Uma carta expondo as queixas dos jornalistas foi enviada a diversos jornais e agências de notícias de toda a Europa no outono.
Embora Jansa procure apresentar a petição como uma campanha orquestrada pela oposição, e até acuse os jornalistas rebeldes de traição, muitos consideram os protestos justificados. Braz Zgaga é um dos que pensam assim.
O jornalista de 34 anos, um dos dois que deram início à petição, é visto atualmente como o Robin Hood da comunidade jornalística eslovena. Zgaga senta-se em frente ao seu bar favorito no centro de Ljubljana, usando um pesado chapéu de lã e uma jaqueta acolchoada. Ele diz que passou anos escrevendo a respeito das atividades e escândalos das agências de inteligência eslovenas no jornal “Vecer”, mas que no ano passado o jornal começou a remover os trechos que criticavam o governo. Ele acabou sendo transferido para uma área na qual escreve sobre assuntos menos sensíveis. Zgaga diz que atualmente é impossível para ele praticar o jornalismo investigativo. “Eles me colocaram na geladeira”.
Mais democracia com a presidência da União Européia?
O caso de Zgaga não é isolado, afirma Brankica Petkovic, que monitora a comunidade jornalística do Instituto Esloveno Pela Paz. Ela diz que recentemente os jornalistas críticos foram repetidamente rebaixados de posto, artigos que incomodavam foram suprimidos e editores antigos nas redações e rádios foram substituídos por jornalistas pró-governo. “A pressão está sendo exercida sobre a imprensa de uma maneira muito sutil”, diz Petkovic.
Grega Repovz, o editor-chefe da revista de notícias “Mladina”, diz que nos últimos dois anos companhias estatais como a Telekom e a Mobitel passaram a cancelar as suas publicidades sem explicação. A sua publicação amargou prejuízos de centenas de milhares de euros somente no ano passado, o que, segundo Repovz, se constitui em uma nítida punição por suas reportagens críticas. Repovz, que é também diretor da Associação Eslovena de Jornalistas, está convencido de que “a intervenção nunca foi tão ruim como agora”.
Os críticos acreditam que Janez Jansa, 49, é o problema real. Ex-jornalista que esteve envolvido com a organização da juventude comunista na década de 1980, e que se tornou um conservador autoritário após a queda do comunismo, ele só tem um objetivo, segundo Spomenka Hribar, um respeitado filósofo esloveno: “O Estado deve controlar tudo”. É por causa de sentimentos como esses que muitos eslovenos vêem a presidência do Conselho da União Européia como uma oportunidade para a obtenção de mais democracia.
Der Spiegel
http://www.spiegel.de/
Frei Betto
11-Fev-2008
“Não existe cana na Amazônia. Não temos conhecimento de nenhum projeto na região, nem recente nem antigo”, afirmou Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, dando eco ao boato oficial de que a cana se mantém distante da floresta (O Globo, 29-07-2007).
Dados oficiais revelam que o plantio de cana-de-açúcar avança sobre a Amazônia, apesar das negativas do governo federal. Projetos sucroalcooleiros instalados no Acre, Maranhão, Pará e Tocantins vivem momento de expansão acelerada. A região não só é fértil como também competitiva. Lula se equivocou ao afirmar que a cana “fica muito distante da Amazônia”.
Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento - Conab -, vinculada ao Ministério da Agricultura, a safra de cana na Amazônia Legal - que compreende estados como Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins -, aumentou de 17,6 milhões de toneladas para 19,3 milhões de toneladas no período 2007/2008.
Esse cultivo na Amazônia atrai inclusive investidores estrangeiros. O fundo de investimento Cooper Fund, de aposentadas estadunidenses, agora é sócio do grupo TG Agro Industrial/Costa Pinto, que produz álcool em Aldeias Altas, no Maranhão. No município de Campestre do Maranhão, o empresário Celso Izar, da Maity Bioenergia, negocia com investidores estrangeiros quatro projetos, cada um orçado em US$ 130 milhões, para produzir 1,2 milhão de toneladas de cana. A empresa produz atualmente um milhão de toneladas.
Greenpeace acredita que o governo não tem condições de fazer valer a proibição do plantio de cana na Amazônia. Ainda que haja leis proibitivas, como o governo pretende fiscalizar? Não basta proibir, é preciso inibir o plantio. Seria bem mais eficiente se o governo levasse a efeito o que cogitou o presidente Lula: fechar a torneira dos bancos públicos aos investidores e parar de liberar financiamentos. Só assim seria possível coibir novos projetos.
Outro problema grave na região amazônica é a extração ilegal de madeira nobre: ipê, cedro, freijó, angelim, jatobá. A cada dia, 3.500 caminhões circulam no interior da floresta, carregando madeira ilegal. Com a escassez no mundo, o preço do metro cúbico da madeira retirada da Amazônia é pago, pelos madeireiros aos proprietários da área, em média R$ 25 por metro cúbico. Depois, eles serram e exportam em pranchas ou blocos quadrados.
Na Europa, a mesma madeira é vendida pelos comerciantes locais aos fabricantes de móveis ou consumidores comuns a um preço equivalente a R$ 3.200 o metro cúbico. Uma diferença de 1.280%!! O Brasil é o segundo maior exportador de madeira do mundo, atrás da Indonésia.
Nos últimos 37 anos, desde que a ditadura acionou a corrida para a Amazônia, foram desmatados 70 milhões de hectares, dos quais 78% são ocupados por 80 milhões de cabeças de gado. No entanto, pela madeira exportada o Brasil amealhou apenas US$ 2,8 bilhões. Menos do que um ano de exportações da Embraer, fabricante de aviões.
Pecuaristas desmatam para abrir pasto. Basta conferir. Os maiores produtores de carne estão exatamente nos municípios paraenses onde há mais desmatamento: São Félix do Xingu, Conceição do Araguaia, Marabá, Redenção, Cumaru do Norte, Ourilândia e Palestina do Pará. Detalhe: 62% dos casos de trabalho escravo ocorrem em fazendas de pecuária.
Grandes empresas, que possuem vastas extensões de terra na Amazônia legal, desmatam para plantar eucalipto e transformá-lo em carvão vegetal destinado às suas siderúrgicas na região. Põem abaixo a floresta tropical mais rica em biodiversidade do mundo e implantam o monocultivo de eucalipto, sem nenhuma diversidade vegetal, e o transformam em carvão, que aumenta o aquecimento global. Enquanto as empresas se agigantam, a nação fica com o ônus da degradação ambiental.
A Amazônia é vítima de um ecocídio em função da ganância do capital. Se a sociedade não pressionar e o governo não agir, no futuro haverá ali um novo Saara, com graves conseqüências para a sobrevivência da humanidade e da Terra.
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
Correio da Cidadania
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Hesíodo e Homero estão nos umbrais da história grega e foi como aedos que compuseram suas canções transmitidas de geração a geração
Jaa Torrano
Muitos séculos antes de se adaptar a escrita fenícia à língua grega e de se criar assim esse prodigioso instrumento de comunicação, que é o alfabeto, os aedos gregos já compunham e sabiam de cor muitas e longas canções. Aedo em grego antigo significa “cantor”; os aedos eram os poetas que, antes da invenção do alfabeto, praticavam o culto da deusa Memória e das musas e recebiam dessas divindades o dom de compor canções ao som da lira.
Posteriormente, com a popularização do alfabeto, essas canções foram escritas e os aedos desapareceram, e aos poucos deixou-se de cultuar a deusa Memória. Mas é daquela época remota que nos chegaram, entre outras canções, a Ilíada e a Odisséia, cujo autor os gregos acreditavam ter sido Homero, um aedo da rica região da Jônia, Ásia Menor, no século 8 a. C.
Contemporâneo de Homero, um outro aedo chamado Hesíodo, que viveu na Beócia, região norte da Grécia continental, transmitiu-nos também importantes canções. Hesíodo e Homero estão nos umbrais da história grega, pois é a partir da época em que viveram que se divulgou mais intensamente o uso da escrita na Grécia. Mas foi como aedos (e não como escritores) que eles compuseram suas canções: inspirados pelas deusas musas, guiados pela deusa Memória, e servindo-se de técnicas de composição oral que durante séculos foram transmitidas de geração a geração.
Uma das canções de Hesíodo conta-nos como o mundo surgiu a partir dos primeiros Deuses, dos amores e das lutas entre os deuses. Os mestres-escolas da Grécia clássica chamaram essa canção de Hesíodo Teogonia, que significa em grego “nascimento de deus” ou “dos deuses”. Esse nome teve tanto sucesso que até hoje essa canção é chamada assim.
Os mestres-escolas gregos utilizavam-na para ensinar a ler e escrever: eles faziam leves marcas de letras em uma tabuinha de cera mole e mandavam a criança reforçar as marcas, tornando as letras bem visíveis, e depois explicavam o sentido dos versos assim escritos. A Teogonia constituía, com os poemas de Homero, a cartilha por onde os gregos aprendiam a ler, a pensar, a entender o mundo e a reverenciar o poder dos deuses.
A deusa Memória e suas filhas
O aedo Hesíodo preludia o seu canto sobre o nascimento do mundo com um hino às musas, em que conta como a sua vocação de poeta foi despertada por uma aparição dessas deusas. Ele pastoreava ovelhas no sopé do monte Hélicon, quando as deusas se apresentam a ele com as palavras: “Sabemos dizer muitas mentiras semelhantes aos fatos, mas sabemos, se queremos, fazer ouvir a verdade” ( Teogonia, vv. 27-8).
As musas então fizeram dele um vidente capaz de conhecer as coisas presentes, passadas e futuras, e ensinaram-no a cantar, para que ele cantando celebrasse os deuses imortais, as façanhas dos homens antigos e também a elas próprias no começo e no fim das canções. Deram-lhe um ramo de loureiro, cortado de modo a servir de cetro (”cetro” é um bastão que entre os gregos antigos era sinal de legitimidade, eficácia ou veracidade da palavra dos que o empunhavam: os reis, os arautos e os aedos).
Depois de relatar essa visão que o assinala como um servo eleito das musas, Hesíodo descreve essas deusas a cantar no palácio de Zeus a mesma história que é o tema de sua canção: o nascimento dos deuses, do mundo e da ordem imposta por Zeus ao universo.
As musas, portanto, são as cantoras divinas, cujo poder onisciente de cantar os acontecimentos presentes, passados e futuros é por elas outorgado aos cantores humanos, seus servidores. Os diversos aspectos e funções do canto do aedo são indicados pelos nomes das musas: Glória, Alegria, Festa, Dançarina, Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste e Bela-voz.
Por serem filhas do deus supremo, elas estão ligadas ao exercício do poder, protegem os reis justos quando estes devem falar e impor ao povo suas decisões e sentenças, e dão aos cantores palavras verdadeiras. Por serem filhas de Memória, elas detêm o conhecimento do que foi, do que é e do que será. E, por serem moças, têm a beleza, a sensualidade e o poder de sedução próprio do gênero feminino.
Os deuses e o mundo
Na Teogonia de Hesíodo, o mundo surge com o nascimento dos numerosos deuses que o constituem. Esse conjunto de inumeráveis deuses, com os seus privilégios às vezes por demais exclusivos, é governado pelo poder e sabedoria suprema de Zeus. O que o poema conta, fundamentalmente, são os antecedentes, a preparação e constituição dessa ordem imposta por Zeus à disparidade e antagonismo das forças divinas que compõem o mundo.
Na origem do universo, estão três deuses primordiais: Caos, Terra e Eros. A deusa Terra é o assento sempre firme de todas as coisas, o fundamento inabalável. Primeiro ela gera sozinha (por cissiparidade) um outro ser, igual a ela, o deus Céu, para que também ele seja o assento sempre firme e todos os deuses e para que a cubra toda ao redor. E depois, sozinha, gera as altas Montanhas e o Mar impetuoso.
Há três grandes linhagens divinas: a descendência do Caos, a do Mar e a do Céu. Do Caos provêm todos os males que atormentam a vida humana; os mais importantes deles são os terríveis filhos da deusa Noite. Na família do deus Mar há monstros de estranhas formas compósitas, que habitam as águas marinhas e as regiões subterrâneas. Na família do Céu há a sucessão dos reis divinos Cronos e Zeus.
História do Céu e de Cronos
A primeira fase do mundo é o reinado do Céu.
O Céu fecundo e ávido de amor, com suas contínuas e incessantes uniões com a Terra, impede que sua prole venha à luz. Atulhada com tantos filhos dentro de si, a Terra prodigiosa gemia enquanto o Céu se alegrava em sua perversidade.
A Terra tramou um ardil: criou o gênero do grisalho aço, forjou um grande podão e perguntou a seus filhos qual deles queria fazer o Céu pagar pelo ultraje. Só o mais novo deles, o deus Cronos, aceitou o desafio proposto pela mãe. Com alegria, ela o colocou oculto em uma tocaia. Quando o grande Céu se aproximou desejando amor, o filho agarrou as partes genitais com a mão esquerda, com a direita cortou-as com a enorme foice e lançou-as a esmo para trás.
Dos salpicos de sangue caídos sobre a Terra nasceram as divindades da vingança: as cruéis Erínias, os Gigantes guerreiros e as Ninfas chamadas Freixos (arbustos de cuja haste duríssima se faziam as lanças).
O membro decepado caiu no mar e aí flutuou por muito tempo. Da espuma que ele ejaculou, formou-se uma virgem. Quando ela saiu das ondas, na ilha de Chipre, a relva florescia sob seus pés: era Afrodite, a deusa do Amor e do Desejo.
O nascimento de Zeus
A segunda fase do mundo é o reinado de Cronos.
Ele desposa a sua irmã Réia e dela teve três filhas (Héstia, Deméter e Hera) e três filhos (Hades, Posídon e Zeus). Mas tão logo cada um deles nascia, Cronos os engolia, para evitar que houvesse outro rei em seu lugar. Uma profecia da Terra e do Céu o avisara de que era seu destino ser destronado por um filho e ele engolindo-os prevenia-se.
Quando Réia devia dar à luz Zeus, ela suplicou a seus pais, Terra e Céu, que lhe aconselhassem um ardil para que ela pudesse salvar esse filho. Eles atenderam a sua súplica e, encoberta pela noite, Réia escondeu seu filho em uma gruta em Creta, confiando-o à deusa Terra, para que ela o nutrisse e criasse. Seguindo as instruções de seus pais, Réia envolveu uma grande pedra em um cueiro e entregou-a ao soberano Cronos. Tomando-a nas mãos, o deus implacável meteu-a ventre abaixo, sem desconfiar de nada.
Zeus cresceu rapidamente, libertou das prisões subterrâneas os seus tios paternos Ciclopes e Centímanos, e aliando-se a eles travou contra seu pai Cronos a luta pelo poder. Vencido, o velho deus Cronos vomitou primeiro a pedra por último engolida. Zeus a cravou em Delfos, para que os homens mortais aí a admirassem.
O reinado de Zeus
Após a vitória sobre seus inimigos, Zeus é aclamado por seus aliados rei dos deuses e dos homens. Assim fez a partilha dos bens e fixou os privilégios de cada deus. É a terceira fase do mundo, a atual e a mais perfeita de todas. Com uma série de casamentos, que eram verdadeiras alianças políticas, Zeus organizou o seu reinado e tornou o seu poder inabalável.
Os filhos que Zeus teve com suas diversas esposas representam a harmonia, a ordem, a justiça, o esplendor e a glória do reinado cósmico de Zeus. Entre eles, estão as nove musas, que dão aos aedos o divino poder das canções.
Revista Cult
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Especialistas alertam para riscos físicos e psicológicos no uso excessivo
Francesco Manetto
Lucas tem 13 anos e durante cerca de oito horas por dia não escuta nem fala com ninguém. Esse tempo não é o que dedica a dormir. São as horas que passa com os fones de seu tocador de MP3 colocados nos ouvidos. Enquanto escuta as canções de seus grupos favoritos, faz tudo o que faria se desligasse o iPod.
Navega pela Internet, fica no quarto devaneando, tenta fazer seus deveres, acompanha os pais ao supermercado ou sai para passear pelo bairro com seus amigos. Só há um detalhe atípico: em sua vida faltam as palavras e a comunicação direta.
Assim como 85% dos adolescentes de menos de 15 anos, Lucas é usuário habitual de um reprodutor de MP3. O que o diferencia da maioria dos jovens de sua idade é que seu hobby se transformou em obsessão. Por esse motivo seu caso está sendo tratado.
Em menos de uma década, os tocadores de MP3 e iPod se transformaram em um dos produtos da indústria do lazer mais vendidos na história. Em 2007 a Apple atingiu os 100 milhões de iPod vendidos; a iTunes é a maior loja do mundo de música, discos e programas pré-gravados (podcasts) feitos especialmente para esses dispositivos portáteis.
Segundo um estudo da prefeitura de Madri, eles estão presentes em quase 20% dos lares espanhóis. Tanto que nos últimos meses os especialistas começaram a se perguntar se seu abuso, além dos possíveis prejuízos à audição, acarreta riscos psicológicos e pode se transformar em problema social.
Javier Abril, psicólogo que estudou casos parecidos com o de Lucas e é professor na Universidade San Vicente Mártir de Valência (UCV), tem claras idéias a respeito. “O abuso desses aparelhos provoca o isolamento dos mais jovens, tanto no entorno familiar como entre os amigos. Além disso, pode induzir o aparecimento de ansiedade, afetar a auto-estima e exacerbar alguns medos da adolescência. De todas as formas, o problema fundamental é a falta de autocontrole em uma idade em que os pais devem exercer sua função de orientadores.”
Um amplo estudo sobre a relação entre novas tecnologias e comunicação, realizado por uma equipe de psicólogos da clínica universitária da UCV, deixa claro que o uso das tecnologias não costuma constituir a única causa desses problemas. Mas, acrescenta Abril, “a utilização excessiva desses aparelhos pode despertar nos menores de 15 anos não só problemas de caráter psicológico, como também implica em sedentarismo físico. Os jovens podem passar o dia todo entre o sofá e o computador, sem fazer qualquer tipo de exercício físico.”
O contrário do que acontece com os que utilizam os tocadores de MP3 enquanto fazem exercícios na academia ou correm. Porque geralmente se trata de outras gerações de usuários. De toda forma, se as organizações de consumidores e algumas associações de pais recomendam antes de tudo ‘bom senso’, há especialistas que lembram que “qualquer atividade, incluindo a leitura, pode ser ruim se for utilizada para fugir da realidade e isolar-se”. Mas quem decide? E, principalmente, é possível definir limites?
Na opinião de Abril, entre os indicadores que podem alertar para uma espécie de vício em MP3 está o uso durante mais de duas horas diárias. “Mas é importante salientar que, mais que uma questão de tempo, é uma questão de formação e de educação”, diz. “Os pais têm de aprender a dizer não, e, se não conseguirem, pedir a ajuda de profissionais.” Porque é muito importante que os adolescentes, que estão em uma fase crucial para o crescimento, “aprendam a se comunicar e compartilhar suas opiniões com os outros, a partir dos pais e do entorno familiar, e a defendê-las diante das pessoas.”
No entanto, o MP3 não é só o símbolo de milhões de adolescentes. Desde os sinais dos anos 1990 passou a fazer parte de nossa vida cotidiana quando nos deslocamos no metrô ou praticamos algum esporte, na rua, no trabalho, mesmo num automóvel. E estudos prevêem que, agora que as empresas de telefones celulares começaram a implantar esse dispositivo nos aparelhos, sua difusão cresça cada vez mais. Tanto é assim que em fevereiro um senador democrata de Nova York, Carl Kruger, propôs por razões de segurança multar em US$ 100 as pessoas atravessarem uma rua usando um telefone celular, um tocador de música ou console de videogames.
A iniciativa não vingou, enquanto, por exemplo, outra, imposta pela Federação Americana de Basquete (NBA), teve êxito. O resultado? Alguns astros do esporte estão proibidos de ligar seu iPod quando faltam 20 minutos para as partidas, “para não se isolar, perder a concentração e lembrar que não vão jogar sozinhos.”
Para observar como pode se comportar uma parte da faixa de usuários que já viveu a adolescência, passamos a outro cenário. Estamos em uma discoteca em Málaga ou um clube em Alicante, em um fim de semana qualquer. Alguns disc-jóqueis especializados em vários estilos musicais já subiram à mesa para se apresentar.
Na pista, o público começa a dançar. Mas, em vez de mover-se todos no mesmo ritmo, o fazem ao compasso de rock clássico, hip-hop, salsa, música eletrônica, jazz, house… todos ao mesmo tempo. Porque cada um leva fones de ouvido sem fio ligados a seu canal de música preferido.
Vista de fora, a cena pode parecer uma apresentação artística. Mas não. Trata-se de uma forma de entretenimento como outra qualquer. O mercado do lazer conhece seus gostos e essa ‘Festa Silenciosa’, lançada em 2005 por uma produtora da Andaluzia, já é uma marca registrada. Um de seus promotores, Manuel Rincón, insiste em suas vantagens. “Escutar na solidão pode se transformar na possível solução para toda sala que não está devidamente sonorizada ou que não tem licença de música até altas horas da madrugada; assim se garantiria o descanso dos vizinhos e a diversão e a comunicação dos clientes”, conta.
Comunicação? Para Tomeu García, 24 anos, que no ano passado participou dessa festa durante suas férias em Mallorca, é possível falar quando se abaixa o volume dos fones. “De todo modo, me parece um tipo de diversão que dá a idéia dos gostos da minha geração, em que cada um está na sua”, admite.
Além das boas intenções dos promotores, esse formato de festas, que inclusive ganhou um prêmio de melhor idéia empresarial, combina com as atitudes de uma geração que lida muito bem com as novas tecnologias, cresceu conectada à Internet e se move à vontade entre comunidades online. Uma faixa de jovens que têm entre 18 e 36 anos chamada pela psicóloga americana Jean Twenge de “Generation Me” (Geração Eu) em seu livro homônimo.
Essa professora da Universidade de San Diego, na Califórnia, destaca em uma pesquisa que os estudantes universitários nascidos depois de 1982 costumam ser, em regra geral, mais narcisistas e individualistas que seus antecessores.
Antes de tudo, para Twenge, “é impossível fazer qualquer tipo de retrato dessa geração sem levar em conta as inovações tecnológicas”. E acrescenta, “proponho um nome para a geração de jovens nascidos entre 1981 e 1999: iGeneration, ou iGen. Essa geração foi profundamente influenciada pelas novas tecnologias, incluindo a Internet e, é claro, o iPod. Esse ‘i’ também engloba a essência de minha descrição da ‘Geração Eu’, pode substituir a primeira pessoa do singular ou sugerir a primeira letra da palavra-chave: individualismo.”
Em outra frente, os defensores desses aparelhos oferecem argumentos contrários e consideram que inclusive no mundo individualista em que vivemos se transformaram em uma espécie de símbolo do compartilhar, referindo-se à possibilidade de trocar arquivos de música através da rede mundial. Se escutar música pode ser um ato individual, buscar um disco ou uma canção em um site, comprá-la e compartilhar o arquivo para que outros usuários o incluam na lista de seu tocador de MP3 pode ser considerado uma espécie de ato social.
Para muitos professores de educação musical, além disso, “o conhecimento e manipulação instrumental dessas tecnologias, a forma de interpretar ou de relacionar-se com a realidade através delas e as implicações sociais que tudo isso inclui já fazem parte da cultura de nosso tempo”. Esta é, pelo menos, a opinião de uma equipe de pedagogos e musicólogos, autores de um manual para um curso de formação organizado pelo Ministério de Educação e Ciência da Espanha.
Noemí López e Manuel Gertrúdix Barrio insistem nas possibilidades que oferecem os reprodutores de MP3. “Agora é preciso aproveitar as oportunidades didáticas de um mundo em que nossos alunos se movimentam entre downloads de arquivos em seu dispositivo portátil, o uso de videogames ou a troca de informação pela rede. Na hora de realizar atividades de audição poderíamos pedir que procurassem no Emule ou Limewire alguma versão do Réquiem de Mozart e que baixem o Lacrimosa…”
Segundo Javier Abril, até os pais mais familiarizados com as novas tecnologias podem aproveitar os aparelhos de MP3 para fomentar a educação musical de seus filhos, mas lembra que “o simples ato de escutar música não supõe necessariamente saber valorizá-la ou aprender algo sobre ela.”
O mais importante para os psicólogos, de todo modo, é que os pais de adolescentes estejam conscientes de que “o uso prolongado dos aparelhos de MP3 pode provocar dependência”. Não é por acaso que muitos médicos proíbem o uso desses aparelhos aos pacientes que ingressam em algum centro de reabilitação de dependência de drogas. Porque para se reabilitar, antes de tudo, é necessário voltar ao contato direto com a realidade e à comunicação direta com os outros.
Em relação aos riscos para a audição, a fundação da empresa de aparelhos de audição e correção auditiva GAES lançou há alguns meses a campanha “Não esqueça dos seus ouvidos”, que pretende conscientizar os mais jovens sobre o uso prolongado desses aparelhos. É que a maioria deles permite escutar música em um volume que pode chegar a 112 decibéis, quase o que produz a decolagem de um avião, por exemplo.
Segundo especialistas, a exposição prolongada a ruídos de mais de 85 decibéis pode causar problemas auditivos que, em alguns casos, conseguem causar lesão no ouvido interno. Um exemplo: apenas uma hora escutando música a todo volume com fones de ouvido pode causar danos permanentes que reduzem a capacidade de ouvir.
Ainda não há estatísticas precisas sobre isso, mas nos EUA, Reino Unido e México alguns usuários processaram a Apple por anos auditivos. Uma demanda em um tribunal do condado de San José, na Califórnia, por exemplo, define assim os iPod: “são defeituosos e não trazem advertências suficientes sobre a possibilidade de dano auditivo.”
Até agora nenhum queixoso conseguiu ganhar. No entanto, talvez usem com mais prudência os dispositivos da nova geração de MP4. Sobretudo porque com esses aparelhos com tela trata-se de ocupar os ouvidos e os olhos. Por enquanto dois sentidos continuam livres: o paladar e o olfato. Até quando?
El País
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Paul Krugman
México. Brasil. Argentina. México, de novo. Tailândia. Indonésia. Argentina, de novo. E agora, os Estados Unidos.
A história se repete de novo e de novo ao longo dos últimos 30 anos. Os investidores globais, decepcionados com os retornos que estão obtendo, buscam por alternativas. Eles acham que encontraram o que estão procurando em algum país ou outro, e o dinheiro ingressa aos montes.
Mas no final fica claro que a oportunidade de investimento não era tudo o que parecia, e o dinheiro foge correndo, com péssimas conseqüências para o ex-favorito financeiro. Esta é a história de múltiplas crises financeiras na América Latina e na Ásia. E também é a história das bolhas de crédito e imobiliária americanas. Atualmente, nós estamos fazendo o papel normalmente reservado às economias do Terceiro Mundo.
Por motivos que explicarei depois, é improvável que os Estados Unidos passarão por uma recessão tão severa quanto, digamos, a da Argentina. Mas as origens de nosso problema são praticamente as mesmas. E entender estas origens também ajuda a entender onde a política econômica americana errou.
As origens globais de nosso atual problema foram na verdade expostas por ninguém menos que Ben Bernanke, em um discurso influente que fez no início de 2005, antes de ser nomeado presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Bernanke fez uma boa pergunta: “Por que os Estados Unidos, sendo a maior economia do mundo, tomam empréstimos pesados nos mercados de capital internacionais, em vez de emprestar, como seria mais natural?”
Sua resposta foi de que a principal explicação não estava aqui nos Estados Unidos, mas no exterior. Em particular, as economias do Terceiro Mundo, que foram favoritas dos investidores ao longo de grande parte dos anos 90, foram abaladas por uma série de crises financeiras a partir de 1997. Como resultado, elas passaram abruptamente de destinos de capital para fontes de capital, à medida que seus governos passaram a acumular imensas reservas de ativos estrangeiros por precaução.
O resultado, disse Bernanke, foi uma “superabundância de poupança global”: muito dinheiro, todo arrumado mas sem ter para onde ir.
No final, grande parte de tal dinheiro veio para os Estados Unidos. Por quê? Por causa, disse Bernanke, da “profundidade e sofisticação dos mercados financeiros do país”.
Tudo isso estava certo, exceto por uma coisa: os mercados financeiros americanos, como se mostraram, são caracterizados menos pela sofisticação e mais pelo sofisma, que meu dicionário define como “um argumento deliberadamente inválido, com aparência de verdade, com a intenção de enganar”: isto é, “reembalar empréstimos duvidosos em obrigações de dívidas colateralizadas cria muitos ativos AAA (a melhor nota das avaliações de risco) perfeitamente seguros, que nunca darão problemas”.
Em outras palavras, os Estados Unidos não estavam, na verdade, particularmente capacitados para fazer uso dos fundos excedentes do mundo. Era, em vez disso, um lugar onde altas somas poderiam e foram investidas muito mal. Direta ou indiretamente, o fluxo de capital dos investidores globais para os Estados Unidos acabou financiando uma bolha imobiliária e de crédito que agora estourou, com conseqüências dolorosas.
Como eu disse, essas conseqüências provavelmente não serão tão ruins quanto as recessões devastadoras que atingiram as vítimas da mesma síndrome no Terceiro Mundo. A salvação da situação americana é o fato de nossas dívidas externas serem na nossa própria moeda. Isto significa que não sofreremos o mesmo tipo de mergulho mortal em parafuso financeiro experimentado pela Argentina, no qual a desvalorização do peso fez com que as dívidas do país, que eram em dólares, inchassem em valor relativo aos ativos domésticos.
Mas mesmo sem estes efeitos da moeda, o próximo ano ou dois poderá ser bastante desagradável.
E o que deveria ter sido feito de forma diferente? Alguns críticos dizem que o Fed ajudou a inflar a bolha imobiliária com as baixas taxas de juros. Mas as taxas estavam baixas por um bom motivo: apesar da última recessão ter oficialmente terminado em novembro de 2001, foram necessários mais dois anos para que a economia americana começasse a apresentar um crescimento convincente na oferta de empregos, e o Fed estava acertadamente preocupado com a possibilidade de uma estagnação econômica prolongada como a japonesa.
O verdadeiro pecado, tanto do Fed quanto do governo Bush, foi o fracasso em exercer uma supervisão adulta sobre mercados descontrolados.
Não foi apenas a não disposição de Alan Greenspan de reconhecer que havia algo mais do que um pouco de “espuma” nos mercados imobiliários, ou sua recusa em fazer algo a respeito dos abusos dos empréstimos de risco. O fato é que à medida que o sistema financeiro americano se tornava ainda mais complexo, ele também superou a estrutura de regulamentação bancária que costumava nos proteger -mas em vez de uma tentativa de modernizar a estrutura, tudo o que recebemos foram cantos de glória às maravilhas do livre mercado.
No momento, Bernanke está em modo de gestão de crise, tentando lidar com o estrago que seu antecessor deixou para trás. Eu não tenho nenhum problema com seu depoimento na quinta-feira, apesar de suspeitar que seja tarde demais para impedir uma recessão.
Mas vamos torcer para que quando a poeira assentar, Bernanke comande a discussão sobre o que precisa ser feito para consertar um sistema financeiro muito, muito errado.
The New York Times
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A sacralização da propriedade começou quando colocou-se no mesmo plano os bens de uso pessoal, dos quais os indivíduos desfrutam sozinhos ou com sua família, e os meios necessários à produção, que resultam em geral, da apropriação privada de todo ou de parte de um trabalho social
Alain Bihr, François Chesnais
A propriedade dos meios de produção (de empresas) decorre da acumulação do fruto do trabalho de dezenas ou centenas de milhares de pessoas durante décadas
Na França, de 1997 a 2002, o governo socialista de Lionel Jospin permitiu o mais amplo movimento de privatização de capitais desde que o neoliberalismo tornou-se a religião dos governos ocidentais. O fato de esse movimento ter sido colocado em prática pela “esquerda plural”, outrora paladina das nacionalizações e dos serviços públicos, demonstra como a propriedade privada tornou-se uma espécie de tabu, cuja legitimidade quase ninguém ousa contestar. E, no entanto…
Desde o século XVIII, o direito de propriedade constitui um dos pivôs do pensamento político e jurídico ocidental. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789, em seu artigo 17, instaurou-o como “um direito inviolável e sagrado (do qual) ninguém pode ser privado, exceto se a necessidade pública legalmente constatada o exigir, de forma evidente, e com a condição de uma justa e prévia indenização”. Formulação moderada, uma vez que impõe limites a esse direito “inviolável”, efetivamente imposto em alguns momentos da história da França. Em compensação, a Constituição dos Estados Unidos, da mesma maneira que outros códigos jurídicos nacionais, postula que a propriedade de bens não deve ter, salvo estritas questões de ordem pública, nenhum entrave relativo ao uso (usus), à valorização (fructus) e à alienação (abusus).
A grande contradição do capitalismo
A sacralização da propriedade individual, à custa das diferentes formas da propriedade pública e da propriedade social1, baseia-se em várias confusões grosseiras. Em primeiro lugar, sobre a natureza do bem possuído: na verdade, colocam-se, ao mesmo tempo, no mesmo plano, os bens de uso pessoal, dos quais os indivíduos desfrutam sozinhos ou com sua família, e os meios necessários à produção (terra, imóveis, infra-estruturas produtivas, fábricas e estabelecimentos comerciais etc.). A segunda confusão, muito mais grave, baseia-se no próprio conteúdo da relação de propriedade. Colocam-se, então, no mesmo nível, a posse de um bem que, de uma maneira ou de outra, provém do trabalho pessoal de seu proprietário, e a posse de um bem que resulta da apropriação privada do todo ou de parte de um trabalho social.
Um dos objetivos e principais resultados da desregulamentação e da privatização dos últimos 20 anos foi aumentar a esfera da propriedade privada
No final dessa dupla confusão, a posse de uma habitação por um indivíduo, fruto de seu trabalho pessoal, é confundida com a propriedade privada de meios de produção (de empresas), que decorre da acumulação dos frutos do trabalho de dezenas e até de centenas de milhares de assalariados, durante décadas. A forma capitalista de propriedade, sob a qual se realiza a dominação e a exploração do trabalho assalariado, pode então apresentar-se como a condição e o fruto da liberdade pessoal.
Confusões como essas, na verdade, mascaram a grande contradição que se encontra no cerne dessa apropriação privada do trabalho socializado, e que constitui a própria essência da propriedade capitalista. Contradição que não pára de se reproduzir em uma dimensão cada vez maior. O capital socializa o processo de trabalho, organizando a cooperação dos trabalhadores em ampla escala, dividindo as tarefas produtivas entre eles, aumentando constantemente a parte do trabalho morto (matérias-primas e meios de trabalho) em relação ao trabalho vivo (salários, contribuições sociais…). Dessa maneira, qualquer mercadoria – da lata de ervilhas até a refinaria monitorada por computador – é a materialização e a soma de inúmeros atos produtivos, distribuídos por todo o espaço mundial e por todo o tempo histórico. É esse trabalho socializado que o capital encerra na propriedade privada, de modo que os resultados de uma imensa acumulação de operações produtivas sejam apropriadas por poucos indivíduos ou grupos sociais limitados.
A “contra-revolução conservadora”
Um dos objetivos e dos principais resultados do processo de desregulamentação e de privatização das duas últimas décadas foi aumentar consideravelmente a esfera da propriedade privada. Nesse contexto, a questão da forma da propriedade dos meios de produção, de comunicação e de troca, que curiosamente se tornou uma questão tabu para os dirigentes sindicais e políticos, assim como para a maioria dos intelectuais de esquerda, não o é para a burguesia mundial: para esta, a propriedade tem uma importância estratégica da qual ela não faz mistério2.
Há 20 anos, portanto, na esfera do capital privado, assistimos a uma profunda transformação da própria definição da propriedade, dos “direitos” que lhe dizem respeito, os dos acionistas, que se tornaram todo-poderosos, e das esperanças que estes podem alimentar “legitimamente” em termos da rentabilidade de suas partes da propriedade. A “contra-revolução conservadora” baseia-se na revitalização contemporânea dessa instituição muito particular do capitalismo que é o mercado de capitais (a Bolsa). Essa instituição garante aos acionistas, exceto em épocas de crises financeiras graves, a “liquidez” de suas ações, ou seja, a possibilidade de se desfazer à vontade dessa fração de sua propriedade que tomou a forma de cotas de uma ou outra empresa. Os mercados de ações, em poucos anos, passaram do status de mercados em que se negociam títulos para o de mercados em que as empresas são inteiramente negociadas, trocadas, aglomeradas ou desmanteladas3.
A privatização das conquistas sociais
A área mais recente da ofensiva é a da apropriação dos conhecimentos científicos, dos mecanismos de produção e reprodução biológica e da biodiversidade
Há apenas dez anos, era de bom tom ironizar sobre os “jogos de lego” dos ministérios da Indústria. Eles foram ultrapassados – e muito – pelas megafusões dos mercados de ações, gigantescas tanto por suas dimensões e seu poder monopolista, quanto por seus desperdícios. Basta citar a Vivendi e a France Télécom. Sendo a propriedade dos títulos “líquida”, é preciso que o capital físico (os meios de produção) e, sobretudo, os assalariados, tenham a mesma “liquidez”, a mesma flexibilidade, com a possibilidade de serem descartados, de serem “liquidados” no sentido comum da palavra. Assim, invocando as “exigências dos mercados”, as direções dos grupos irão decidir sobre a reestruturação ou o fechamento de dezenas de estabelecimentos industriais e, dessa forma, sobre a demissão de centenas de milhares de trabalhadores, com o único objetivo de criar “valor para o acionista” (e, a partir do início da bancarrota, preservar esse valor).
Paralelamente, o capital financeiro multiplica as pressões para se apoderar das formas socializadas da relação salarial: os vários sistemas de proteção social edificados durante décadas. Por exemplo, a transformação dos regimes de aposentadoria por distribuição em benefício dos fundos de pensão ou os incentivos fiscais para desenvolver fórmulas individuais de economia salarial. Os seguros privados, cuja máxima é “a cada um de acordo com seus meios (de contribuição)”, buscam apropriar-se de parte da riqueza social, produto do trabalho, até o presente mais ou menos redistribuído sob a forma de fundos públicos ou sociais.
A vontade da apropriação “total”
Em escala internacional, o Acordo Geral sobre o Comércio dos Serviços (AGCS), no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), visa, sob o pretexto de liberdade, a transformar serviços públicos (principalmente de ensino e de saúde) em mercados. Estes somente serão acessíveis a quem tiver os meios monetários, como já acontece, em parte, nos Estados Unidos.
A área mais recente da ofensiva é a da apropriação privada dos conhecimentos científicos, assim como dessa forma particular de patrimônio comum da humanidade que são os mecanismos de produção e de reprodução biológica e a biodiversidade. Atualmente, o capital quer açambarcar todas as condições materiais e intelectuais do processo de produção, obra do trabalho histórico, social da humanidade.
Essa vontade de apropriação privada vem do lugar ocupado pela ciência e pela tecnologia (o conhecimento como “força produtiva direta”) na concorrência, e da busca permanente do capital de novos campos de valorização, a fim de rechaçar o momento em que suas crises eclodem. Mas ela corresponde também a uma das tendências mais profundas do capitalismo, que o distingue de todas as formas de organização social que o precederam: o movimento que o empurra para uma apropriação “total” das condições da atividade social4.
O patenteamento sistemático de seres vivos
Cada vez que um grupo farmacêutico efetiva sua patente de um medicamento, ele se apropria dos conhecimentos científicos produzidos socialmente e financiados publicamente
Em nome da “proteção da propriedade industrial”, por exemplo, os grandes grupos farmacêuticos ocidentais procuraram impor, aos países pobres, preços exorbitantes de medicamentos, principalmente aqueles destinados a lutar contra a Aids. E se, finalmente, tiveram de desistir – pelo menos, momentaneamente – devido à determinação de alguns governos (África do Sul, Brasil, Índia) de colocar no mercado os genéricos desses medicamentos, a “proteção industrial” e o regime de patentes não foram colocados em questão, assim como sua expansão constante5.
Na verdade, cada vez que um grupo farmacêutico efetiva sua patente de um medicamento, ele se apropria dos conhecimentos científicos produzidos socialmente e financiados publicamente. Pois o produto patenteado é sempre conseqüência de uma longa acumulação geral de conhecimentos, que independe do grupo que o patenteou e, ao mesmo tempo, resultado do trabalho preciso de pesquisadores que, muitas vezes, trabalham nos laboratórios públicos e universitários de um ou de vários países. A patente organiza e defende juridicamente esse processo de expropriação de pesquisadores e dos países que os financiam. Ela permite, subseqüentemente, que os grupos oligopolistas transformem o saber social, assim privatizado, em mecanismo de extração de fluxo de rendas e em instrumento de dominação social e política6.
Ainda mais ilegítimo parece o patentear sistemático dos seres vivos em que se lançaram os grupos agroquímicos e farmacêuticos. De que se trata, senão de uma apropriação privada dos mecanismos de produção e de reprodução biológica que são patrimônio da humanidade? A Unesco protege, com toda razão, cidades e lugares da devastação da privatização. Deveria o patrimônio biológico ser tratado de outra maneira? Paralelamente, o desenvolvimento dos organismos geneticamente modificados (OGM), a substituição mais ou menos forçada que estes fazem das plantas tradicionais na agricultura, traduz um processo análogo, aperfeiçoando a expropriação dos produtores7.
Princípios em discussão
A propriedade privada e os direitos que ela confere estão no cerne da crise ecológica, conseqüência do produtivismo cego ou, pelo menos, míope, do qual a busca do lucro é portadora
Enfim, a propriedade privada e os direitos que ela confere estão no cerne da crise ecológica, conseqüência do produtivismo cego ou, pelo menos, míope, do qual a busca do lucro é portadora e que a dominação dos investidores financeiros agrava ainda mais. No entanto, as únicas soluções preconizadas são expansões ou aplicações da apropriação privada. Dessa maneira, a Convenção do Rio (1992), geralmente apresentada como uma etapa importante na proteção da ecologia do planeta, reforça os direitos do capital sobre a natureza. Sem dúvida, ela reconhece que os camponeses e as comunidades utilizaram e conservaram os recursos genéticos desde tempos imemoriais, mas não lhes dá nenhum direito de gestão ou de propriedade desses recursos.
Considerando as múltiplas facetas da questão da propriedade, o movimento de oposição à contra-reforma neoliberal poderia, como primeiro passo, lançar uma discussão coletiva, a partir de alguns princípios.
O planeta e o conjunto de suas riquezas – sejam minerais, vegetais ou animais – deveriam ser considerados patrimônio comum e indivisível de toda a humanidade, presente e futura. Qualquer apropriação privada dessas riquezas passa a ser ilegítima. No máximo, pode-se reconhecer a toda ou a parte da humanidade (indivíduo ou coletividade) um direito de uso de uma parte dessas riquezas, com a condição de que este uso não seja prejudicial ao restante da humanidade, no presente ou no futuro.
A apropriação ilegítima do social
Em segundo lugar, a propriedade privada de meios sociais de produção (meios produzidos por um trabalho socializado e que podem ser colocados em ação somente por um trabalho socializado) deveria dar lugar a uma concepção completamente diferente. A propriedade desses meios deveria caber à sociedade (potencialmente, à humanidade como um todo). Um primeiro passo consistiria em confirmar a superioridade do direito dos trabalhadores sobre o dos proprietários – acionistas e administradores – principalmente no que diz respeito às decisões que afetam diretamente suas condições de trabalho e de existência. Mas é preciso também defender o princípio de que as questões relativas à produção e ao uso desses meios – os locais de sua implantação, as opções tecnológicas para seu desenvolvimento – deverão resultar da decisão de toda a sociedade.
É claro que a apropriação privada dos equipamentos coletivos, dos serviços públicos, dos fundos socializados de proteção social deveria ser considerada fundamentalmente ilegítima. Da mesma maneira, qualquer indivíduo tem direito a uma parte da riqueza produzida, resultado de um trabalho vivo amplamente socializado, e de um trabalho anterior acumulado sob a forma de conhecimentos científicos e de meios de produção, que são produto de toda a humanidade anterior.
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1 - Ler, com abordagens diferentes no que diz respeito ao conteúdo exato dos termos, de Yves Salesse, Réformes et révolution: propositions pour une gauche de gauche, ed. Contre-feux, Agone, Marselha, 2001; de Robert Castel, em seu diálogo com Claudine Haroche, Propriété privée, propriété sociale, propriété de soi, ed. Fayard, Paris, 2001; e de Tony Andréani et alii, L’appropriation sociale, Les Notes de la Fondation Copernic, Editions Syllepse, Paris, 2002.
2 - Ler, de François Chesnais, “Travail socialisé et appropriation sociale: un enjeu international”, A l’Encontre, n°10, dezembro de 2002, Lausanne.
3 - Ler, de André Orléan, Le pouvoir de la finance, ed. Odile Jacob, Paris, 1999, capítulo IV.
4 - Ler, de Alain Bihr, La reproduction du capital: prolégomènes à une théorie générale du capitalisme, Cahiers libres, Editions Page deux, Lausanne, 2001.
5 - Ler, de Philippe Demenet,“Ces profiteurs du sida” e de Philippe Rivière, “Offensive sur le prix des médicaments”, Le Monde diplomatique, fevereiro de 2002.
6 - Ler “Les droits de propriété industrielle: nouveaux domaines, nouveaux enjeux”, número especial da Revue d’Economie Industrielle, coordenada por Benjamin Coriat, n° 99, 2° trimestre de 2002.
7 - Ler, de Jean-Pierre Berlan (coord.) La guerre au vivant: OGM et mystifications scientifiques, ed. Contre-feux, Agone, Marselha, 2000.
Jornal Le Monde
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Anne Chemin Enviada especial a Mézidon-Canon, Calvados
Ela colocou sobre a mesa da cozinha uma grande folha de papel quadriculada repleta de números. “Eu peguei todos os nossos extratos bancários e calculei as despesas que cabem a cada um dos nossos salários. Não foi complicado fazer isso: todas as nossas despesas estão programadas para serem efetuadas mensalmente. A gente não gosta de surpresas desagradáveis”. Bénédicte Badin e seu marido Pascal não podem agir de outra forma: eles recebem todo mês o equivalente àquilo que ganha, em média, a maioria dos casais franceses que têm dois filhos, ou seja, uma renda bruta de um pouco menos de 3.200 euros (cerca de R$ 8.200). A família Badin situa-se na parte mediana da escala social francesa, num lugar em que o poder aquisitivo deixa de ser um drama, mas continua sendo uma preocupação.
Bénédicte Badin, que tem 33 anos, é assistente-contadora, uma função que ela exerce na proporção de 80% do tempo integral, numa associação familiar de Caen. “Isso garante um salário regular, um trabalho livre de preocupações e poder retornar para casa todos os finais de tarde, às 18h”, resume. Ela enumera uma por uma as vantagens que lhe propicia o seu emprego: 16 tíquetes-restaurantes a 7,30 euros (R$ 18,72) cada; um plano de saúde a 20 euros (cerca de R$ 51,30) para toda a família; uma cooperativa de empresa que distribui bons presentes no Natal, além de ajuda para as férias no centro de lazer, no verão. “Eu não trabalho às quartas-feiras, tenho um empregador sério e ganho 980 euros (cerca de R$ 2.515) por mês. Para um segundo emprego, é perfeito”.
Isso porque Bénédicte Badin considera que o primeiro emprego do casal, o do “bread-winner” (arrimo de família), como dizem os sociólogos, é aquele do seu marido. Pascal, 34 anos, já tem no seu currículo uma extensa trajetória de encanador e especialista em calefação: aos 15 anos, ele deu início a estudos de pré-aprendizagem e, desde então, ele sempre trabalhou em canteiros de obra. “Eu cheguei a ter vários patrões, mas nunca tive de trabalhar por mais de 35 a 37 horas, em média, por semana. Eu ganho 1.550 euros (cerca de R$ 3.975) por mês, para 41 horas e 15 minutos de trabalho por semana. O trabalho é algo que não me assusta”.
Com os seus dois salários, mais a bonificação de Natal de Pascal, além das alocações familiares e da ajuda de custos relativa à guarda das crianças, o casal, que não precisa pagar nenhum imposto de renda, tem uma renda líquida de cerca de 3.050 euros (R$ 7.822) por mês. Para acrescentar um “pequeno adendo” a esses vencimentos, Bénédicte Badin dedica-se ao serviço de entrega, aos domingos, do jornal “Ouest-France” na sua aldeia de Mézidon-Canon (Calvados, Baixa Normandia). “Os jornais costumam ser entregues na porta das casas a partir das 5h30; eu os distribuo dentro das caixas de correios até as 8h30 e passo pela padaria para comprar pão para o café da manhã. Evidentemente, sempre levanto cedo aos domingos, mas isso me rende 150 euros (cerca de R$ 385) por mês”.
Pascal e Bénédicte Badin não se queixam nem um pouco - “Esta vida nos convém perfeitamente”, insistem -, mas eles reconhecem que o dia-a-dia exige deles cuidados redobrados, a cada instante. “Aqui, a gente não vive no aperto, mas temos que tomar muito cuidado”, resumem. As mil e uma despesas de uma família com dois filhos muito novos - Alexandre tem 4 anos, Elise, 3 anos - são orçadas com precisão: a partir de fevereiro, Pascal e Bénédicte Badin separam todos os meses 60 euros (cerca de R$ 155) que eles destinam ao pagamento do centro de férias para julho; além disso, eles concentram as compras de supermercado, fazendo uma única viagem mensal a Caen para não gastarem gasolina.
Da mesma forma que muitos franceses, a parte mais importante do seu orçamento é dedicada à moradia: em 2000, os Badin compraram, recorrendo a um empréstimo de uma duração de 25 anos, uma casa que estava abandonada havia cinco anos, que Pascal vem reformando com as suas próprias mãos, às noites e aos fins de semana. “Eu vivo o tempo todo no meio de um canteiro de obras”, constata. O reembolso de empréstimo representa 930 euros (cerca de R$ 2.385) por mês e as despesas com a obra 300 euros (R$ 770) em média, ou seja, 40% do seu orçamento total, embora esta casa não seja uma prioridade. “Nós gostaríamos de deixá-la para um dos nossos filhos e oferecer uma compensação para o outro”, explica Bénédicte Badin. “Mas, neste caso, é claro que isso se aproxima muito de uma utopia…”.
Para o restante das despesas, eles admitem que a sua vida passa por apertos (”ric-rac”). No começo de cada mês, Bénédicte e Pascal Badin, que sempre levam uma marmita para almoçar no seu local de trabalho, deixam separados os 38 tíquetes-restaurante fornecidos, para as compras no hipermercado Leclerc em Caen. “Isso dá um carrinho repleto, ou seja, uma grande compra de 300 euros (R$ 770)”. Para ir de manhã cedo aos seus canteiros, Pascal Badin utiliza o seu carro, mas a sua mulher vai sempre de trem para Caen. “O trem custa 46 euros (cerca de R$ 118) por mês, ou seja, o valor de um meio tanque de gasolina. Eu preciso caminhar um pouco para chegar à estação, mas, financeiramente, vale a pena”.
A parte do orçamento reservada ao vestuário é calculada levando em conta todo e qualquer centavo. “A gente compra roupas nas liquidações e somente para as crianças”, precisa Pascal. “No que me diz respeito, de qualquer forma, passo a maior parte do meu tempo trajando meu uniforme de trabalho”. Finalmente, a babá de Alexandre e de Elise - os dois estudam na escola maternal - constitui o único luxo dos Badin: enquanto eles poderiam deixá-los na cantina para o almoço e para o lanche da tarde, Pascal e Bénédicte preferem deixá-los no centro de guarda, aos cuidados desta babá, ao meio-dia e na parte da tarde, o que lhes custa 140 euros (cerca de R$ 360) por mês, uma vez deduzidas as alocações. “É caro, mas os nossos filhos gostam deste centro”, explica Bénédicte Badin. “Esta babá vem cuidando deles desde o seu nascimento; nós estamos muito apegados a ela”.
Uma vez feitas essas despesas, não sobra praticamente nada para o lazer. “A parte do orçamento reservada para este item é praticamente nula”, comenta Bénédicte com um sorriso. Não há como jantar num restaurante - “quando nos conhecemos, nós íamos de vez em quando num pequeno albergue à beira da estrada, mas não dá mais para fazer isso” -, e nada de espetáculos ou de saídas. Eles se permitem duas semanas de férias, todos os anos, no apartamento de uma avó, na Espanha. “Para pagar esta viagem, nós poupamos 100 euros (cerca de R$ 257) por mês durante o ano todo”, conta Pascal. “Nós vamos para lá de carro, não pagamos aluguel e tomamos cuidado com as despesas”. Os Badin dizem não terem nenhuma preocupação, exceto uma: a sua aposentadoria. “Nós estamos acumulando um capital ‘de pedra’, mas com uma pensão que equivalerá a 80% do nosso salário, não será nada faraônico”, lamenta Bénédicte.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
Le Monde