Imagem da Eslovênia como novo modelo europeu sofre abalos
O pequeno país que faz fronteira com a extremidade sul dos Alpes, assumiu a presidência rotativa da União Européia em 1° de janeiro. Mas a inflação alta e as preocupações dos jornalistas quanto à censura governamental estão causando problemas para nação que é considerada o novo modelo da Europa
Marion Kraske
É uma noite extremamente fria na capital eslovena, Ljubljana, mas o clima está começando a esquentar no “Zvezda”, onde mulheres com botas de salto alto e homens usando óculos escuros de marca abrem garrafas de champanhe. Ursa Sefman Sojer, uma mulher vivaz de olhos brilhantes, com os cachos de cabelo louro avermelhado amarrados para trás em um rabo-de-cavalo, está em meio à multidão, comemorando a abertura do seu mais novo café. A decoração do Zvezda, que quer dizer “A Estrela”, é sem dúvida moderna, com bancos de couro marrom-claros, cadeiras de tonalidade escura e iluminação estilizada.
Sefman, 34, usa um vestido justo de lã negra, sandálias feitas de imitação de pele de leopardo e um broche com uma foto de Marilyn Monroe. Ela abriu o seu primeiro café oito anos atrás, mergulhando no mundo empresarial porque, segundo explica, adora fazer quitutes no forno. A sua especialidade são os bolos de frutas e chocolate. Ela abandonou um emprego na indústria de relações públicas para abrir o seu primeiro café, trabalhando a princípio até 20 horas por dia. Sua mãe a ajudou lavando as toalhas de mesa todas as noites depois que os clientes iam embora. Ao final de cada noite Sefman ia para a cama exausta.
“Fizemos tudo por conta própria, mas valeu a pena. O negócio vai em frente a todo vapor”, diz ela hoje. Desde então o primeiro Zvezda tornou-se um local popular na capital eslovena, proporcionando a Sefman, mãe de dois filhos, um rendimento anual de cerca de 800 mil euros, e estimulando-a a abrir um segundo estabelecimento.
A trajetória de Sefman é apenas uma dentre várias histórias de sucesso na Eslovênia. A história de Igor Akrapovic é outra desse tipo. A sua companhia, a cerca de 35 quilômetros de Ljubljana, produz sistemas de escapamento para motocicletas e atualmente é protagonista global de ponta na indústria de motocicletas de corrida. E há também a Elan, uma companhia que produz esquis e snowboards perto da fronteira da Eslovênia com a Áustria, e que alguns anos atrás inventou um modelo de esqui que deixou os esquiadores loucos de Aspen a Saint Moritz.
A Eslovênia, uma nação de dois milhões de habitantes na borda sudeste dos Alpes, é sem dúvida o mais dinâmico e ambicioso dos países ex-comunistas que ingressaram na União Européia em maio de 2004. Os negócios estão disparando neste pequeno país, cujo tamanho é aproximadamente equivalente ao de Israel. Segundo a Comissão de Estatísticas da União Européia, a economia eslovena cresceu 6% em 2007. As suas cerca de 500 pequenas e médias empresas, conhecidas como Gazellas, são um contribuidor importante para o sucesso econômico, exportando produtos como vinho, autopeças e artefatos de couro. Os próprios eslovenos passaram a investir dinheiro no exterior, especialmente nos Bálcãs. Eles já se encontram entre os principais investidores estrangeiros na Bósnia.
Na época do ditador Josip Tito a Eslovênia já era o motor econômico da Iugoslávia, uma confederação de vários grupos étnicos. Os fundos que a Eslovênia injetou nos cofres da Iugoslávia foram usados para impulsionar as repúblicas mais pobres no sul do país. Ela sofreu muito pouco com as guerras balcânicas, e o exército esloveno passou apenas dez dias envolvido em pequenos combates contra unidades iugoslavas antes que o país proclamasse a sua independência em 1991.
Os industriais eslovenos, apelidados de “os alemães dos Bálcãs”, já gozam de um padrão de vida superior ao de Portugal, e ligeiramente inferior ao da Grécia. E, em 1° de janeiro de 2008, a Eslovênia, que já adotou o euro, tornou-se o primeiro dos novos Estados membros da União Européia a ocupar a presidência rotativa do bloco.
A maioria dos turistas que cruza a fronteira de carro a partir da Áustria se surpreende com o que vê: casas recém-pintadas, sacadas cheias de flores e, mais ao sul, uma próspera indústria turística em balneários no Mar Adriático, como Piran e Portoroz. Aquela face desmazelada e sombria, típica de outros países que viviam sob o socialismo, é completamente ausente na Eslovênia.
Ljubljana, conhecida durante séculos por Laibach, quando a Eslovênia fazia parte do Império dos Habsburgos, continua sendo uma amostra da magnífica arquitetura austro-húngara. Abrigando mais de 50 mil estudantes, que parecem passar grande parte do tempo socializando-se perto do castelo que outrora foi uma prisão, Ljubljana faz jus ao seu nome, cuja tradução é “A Amante”. Existe um clima mediterrâneo na cidade, onde se vê moradores sentados em frente às suas casas tomando café no meio do inverno.
Mas a imagem alegre de Ljubljana é enganosa. Na verdade, a cidade passou por dias melhores, e desde a introdução do euro no início de 2007, os preços vêm subindo sem parar. O preço médio dos gêneros alimentícios aumentou 20% no decorrer de um ano.
“É realmente difícil conseguir se sustentar”, diz Ingrid Dorner, uma jovem de 21 anos que usa óculos de níquel e tem o cabelo pintado de um vermelho berrante. Ela veio de Maribor, a segunda maior cidade da Eslovênia, e é estudante de psicologia em Ljubljana. Dorner diz que ganha cerca de 800 euros trabalhando em um restaurante, e gasta 300 euros apenas com o aluguel. “O dinheiro praticamente escorre pelos nossos dedos”, reclama ela.
A elevada inflação macula a imagem de país modelo
Os eslovenos começaram a expressar as suas frustrações em novembro, quando cerca de 70 mil pessoas saíram às ruas de Ljubljana - uma manifestação enorme para um país tão pequeno. Naquela que foi a maior passeata desde a independência, sindicalistas, estudantes e pensionistas protestaram contra o aumento do custo de vida e exigiram maior justiça social.
A taxa de inflação da Eslovênia, de 5,7% - a mais elevada na zona do euro -, dá margem a preocupações. No início de novembro, o comissário para Política Econômica e Monetária da União Européia, Joaquín Almunia, chegou a fazer uma advertência pública à Eslovênia, até então uma economia modelo. Segundo Almunia, uma taxa de inflação superior a 3% envia um “mau sinal” aos países que aguardam na fila para ingressar na zona do euro.
A situação do governo de centro-direita do primeiro-ministro Janez Jansa não é exatamente rosa, neste momento em que o país assume a presidência do Conselho da União Européia. Danilo Türk, um político de esquerda e diplomata experiente, que foi o braço direito do ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas Kofi Annan durante seis anos, recentemente venceu a eleição presidencial, enquanto Lojze Peterle, o favorito do governo, ficou em um desapontador segundo lugar. “O resultado da eleição é um alerta ao gabinete de Jansa”, afirma Vedran Dzihic, um especialista nos Bálcãs que mora em Viena. “O país está perdendo a sua imagem de novo modelo europeu”.
A decisão de Jansa de propor um voto de confiança ao final de novembro foi mais um espetáculo do que qualquer coisa, e a Assembléia Nacional votou a seu favor, como era de se esperar. No entanto, o primeiro-ministro conta com a sua parcela de problemas na frente política doméstica. Recentemente, 571 jornalistas lançaram uma petição criticando aquilo que vêem como restrições maciças à liberdade de imprensa e a pressão política excessiva por parte do governo. Uma carta expondo as queixas dos jornalistas foi enviada a diversos jornais e agências de notícias de toda a Europa no outono.
Embora Jansa procure apresentar a petição como uma campanha orquestrada pela oposição, e até acuse os jornalistas rebeldes de traição, muitos consideram os protestos justificados. Braz Zgaga é um dos que pensam assim.
O jornalista de 34 anos, um dos dois que deram início à petição, é visto atualmente como o Robin Hood da comunidade jornalística eslovena. Zgaga senta-se em frente ao seu bar favorito no centro de Ljubljana, usando um pesado chapéu de lã e uma jaqueta acolchoada. Ele diz que passou anos escrevendo a respeito das atividades e escândalos das agências de inteligência eslovenas no jornal “Vecer”, mas que no ano passado o jornal começou a remover os trechos que criticavam o governo. Ele acabou sendo transferido para uma área na qual escreve sobre assuntos menos sensíveis. Zgaga diz que atualmente é impossível para ele praticar o jornalismo investigativo. “Eles me colocaram na geladeira”.
Mais democracia com a presidência da União Européia?
O caso de Zgaga não é isolado, afirma Brankica Petkovic, que monitora a comunidade jornalística do Instituto Esloveno Pela Paz. Ela diz que recentemente os jornalistas críticos foram repetidamente rebaixados de posto, artigos que incomodavam foram suprimidos e editores antigos nas redações e rádios foram substituídos por jornalistas pró-governo. “A pressão está sendo exercida sobre a imprensa de uma maneira muito sutil”, diz Petkovic.
Grega Repovz, o editor-chefe da revista de notícias “Mladina”, diz que nos últimos dois anos companhias estatais como a Telekom e a Mobitel passaram a cancelar as suas publicidades sem explicação. A sua publicação amargou prejuízos de centenas de milhares de euros somente no ano passado, o que, segundo Repovz, se constitui em uma nítida punição por suas reportagens críticas. Repovz, que é também diretor da Associação Eslovena de Jornalistas, está convencido de que “a intervenção nunca foi tão ruim como agora”.
Os críticos acreditam que Janez Jansa, 49, é o problema real. Ex-jornalista que esteve envolvido com a organização da juventude comunista na década de 1980, e que se tornou um conservador autoritário após a queda do comunismo, ele só tem um objetivo, segundo Spomenka Hribar, um respeitado filósofo esloveno: “O Estado deve controlar tudo”. É por causa de sentimentos como esses que muitos eslovenos vêem a presidência do Conselho da União Européia como uma oportunidade para a obtenção de mais democracia.
Der Spiegel
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