O grande retorno dos judeus em Berlim - parte 1

Olivier Guez

No telefone, que não pára de tocar, e com os seus numerosos visitantes, Yitzhak Ehrenberg mostra desenvoltura tanto com o alemão, do hebraico quanto do inglês. Por mais que a secretária se desdobre nas suas tarefas, o grande rabino ortodoxo de Berlim não consegue dar conta de todos os compromissos. Mas ele não se queixa, pelo contrário: “A minha missão é cativante e eu a considero como um presente da providência. É importante compreender que Berlim voltou a ocupar um lugar importante no mapa dos principais centros do judaísmo contemporâneo”. A tarefa de Yitzhak Ehrenberg é de cuidar do bom andamento das atividades de uma comunidade de 12.000 pessoas, um número que deve dobrar se acrescentarmos todos os judeus que não se inscreveram oficialmente na associação. Desde então, eles dispõem de dez sinagogas, de escolas, de restaurantes e de quitandas casher, de bibliotecas, de uma livraria, entre outros.

As inaugurações de locais de culto e as cerimônias festivas sucederam-se nas margens do rio Spree, ao longo dos últimos anos: um centro cultural para o movimento ortodoxo Chabad Loubavitch; uma sinagoga para os judeus do Oriente (da Ásia Central e do Cáucaso); a ordenação de três rabinos em Dresden, em setembro de 2006 - é a primeira vez que isso acontece na Alemanha desde o período nazista -, os quais, contudo, haviam se formado no seminário de Potsdam, perto de Berlim.

“No país dos assassinos”
A capital alemã está sendo o palco de um espantoso renascimento judaico. Este não se limita à valorização do riquíssimo passado hebraico da cidade, o qual é contado pelo museu judeu do bairro de Kreuzberg, uma excepcional realização do arquiteto americano Daniel Libeskind; ele tampouco se limita ao reconhecimento dos crimes passados, simbolizados pelos impressionantes espaços entre as vigas de concreto cinzento do vasto labirinto de sepulturas anônimas do memorial da Shoah, visitado por multidões de turistas e curiosos, a alguns metros apenas do Portão de Brandenburgo.

Da mesma forma que em Praga, Varsóvia ou Cracóvia, essas outras antigas capitais da cultura judaica da Europa Central onde aldeias iídiches voltaram a florescer recentemente, os vereadores de Berlim, junto com comerciante e donos de restaurantes, farejaram os bons negócios. No antigo “bairro das Granjas”, onde no passado se refugiaram dezenas de milhares de judeus do Leste que haviam fugido dos pogroms da Rússia czarista, em volta da majestosa sinagoga de redoma dourada da Oranienburger Strasse e do túmulo de Moses Mendelssohn, o Platão alemão, eles se dedicaram igualmente a desenvolver uma “Disney-iídichelândia” de cartolina, kitsch e artificial.

Para se convencer deste renascimento, é melhor, portanto, deixar o verdadeiro-falso bairro das Granjas e caminhar por algumas ruas em direção ao nordeste. Em Prenzlauer Berg, o bairro “hype” deste início de século, nesta manhã de sábado, em meio à multidão colorida que nele circula, após ter cruzado com famílias que vieram degustar um brunch ou com notívagos cansados que retornam de um “after” (noitada “esticada”), é freqüente encontrar judeus ortodoxos. Uma yeshiva - centro de estudos - financiada pela fundação americana Lauder implantou-se no bairro, onde a maior sinagoga da Alemanha, situada na Rykestrasse, reabriu as suas portas em agosto de 2007. “Ao longo de décadas, os judeus da Alemanha foram homens e almas feridos, dominados por terríveis tormentos. O seu coração estava em outro lugar; eles sentiam-se complexados por estarem vivendo no país dos assassinos. Hoje, os judeus da diáspora e de Israel não mais contestam a legitimidade da sua comunidade. Além disso, as instituições não podem abandoná-los: muitos deles abriram um escritório em Berlim e vêm financiando projetos culturais ou religiosos. Foi a chegada dos russos que mudou tudo”, comenta o rabino Ehrenberg.

Na primavera de 1990, a RDA (ex-Alemanha Oriental) agonizante reconheceu pela primeira vez na história a responsabilidade de toda a Alemanha na implantação e nos crimes da Shoah. O seu derradeiro governo eleito depois das eleições livres de março, dirigido pelo cristão conservador Lothar de Maizière, declarou querer pagar reparações para os judeus e o Estado de Israel, da mesma forma que havia feito a ex-Alemanha Ocidental (RFA) logo nos anos 1950. Mas, por falta de cacife - a RDA, fortemente endividada, estava à beira da asfixia econômica -, a Alemanha Oriental decidiu abrir sem restrição as fronteiras para todos os judeus da União Soviética que desejassem se instalar no país. Após algumas hesitações, o então chanceler Helmut Kohl (1930-2001) decidiu dar prosseguimento à política que havia sido iniciada pela antiga RDA. Segue-se então um dos fenômenos mais surpreendentes, ainda que bastante desconhecidos da Alemanha contemporânea: a acolhida e a inclusão, no espaço de cerca de apenas quinze anos, de mais de 220.000 judeus, dos quais muitos optaram por se instalar em Berlim, uma cidade mítica no imaginário judaico soviético, e que é dotada de uma importante minoria de língua russa.

Jornal Le Monde
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