Arquivo de 13 de Fevereiro de 2008

Febre de Cérebro

Descobertas das neurociências, ainda incipientes, são vistas por muitos como o novo caminho para pensar a educação infantil. Mas é preciso cautela para não transportar para a sala de aula visões deterministas ou carentes de comprovação científica

Valéria Hartt

Há paradoxos importantes que cercam a educação infantil. Alguns remontam a sua origem, como a visão fragmentada entre educação e cuidados com a primeira infância. Outros ganham contorno à luz dos tempos atuais, quando a linguagem do brincar, tão própria da criança, perde espaço e protagoniza uma espécie de cabo-de-guerra com a visão “escolarizada” de creches e pré-escolas. A realidade brasileira não foge à regra. Ao contrário, soma ao repertório geral suas próprias mazelas, reservando à criança pequena o educador com a pior qualificação entre todos os profissionais de ensino. Nem mesmo o discurso dos organismos financiadores internacionais, que tratam de difundir as vantagens econômicas de um olhar mais focado sobre a primeira infância, parece capaz de corrigir a rota.

Ao ignorar as peculiaridades da infância e as bases necessárias ao seu adequado desenvolvimento, a educação infantil brasileira caminha entre acertos e experimentações. É alvo fácil de propostas novidadeiras, por vezes apoiadas em uma visão pseudocientífica, carente de sustentação mais sólida. A bola da vez são as neurociências, mais precisamente as ciências cognitivas, que se propõem a promover uma compreensão maior dos processos de ensino-aprendizagem.

A revista Newsweek (edição de 22/10/2007), um dos mais respeitados periódicos americanos, descreve a novidade: a chamada neurociência educacional “avança a passos largos” com o respaldo do recém-criado pro­grama MBE - Mind, Brain and Education (Mente, Cérebro e Educação), da Universidade de Harvard, e o lançamento da publicação homônima, que reúne as últimas pesquisas das ciências cognitivas.

Não faltam críticas e argumentos à nova visão - do chamado efeito Mozart à onda dos “brain toys”, os brinquedos para o cérebro, que, para muitos especialistas, não passam de mitos ainda carentes de comprovação (veja texto na página 31). A eficácia dos consultores em neurociências da educação, que começam a chegar às escolas americanas, também está em xeque. E não é só. Há especialistas preocupados diante da constatação de que professores chegam a pagar US$ 500 em conferências que têm lugar em instituições de renome, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a Universidade de Stanford, sob a crença de que os novos conhecimentos têm uma base sólida para uso em sala de aula.

Armadilhas

Enquanto pesquisadores de todo o mundo reforçam a tese de que os primeiros anos são fundamentais para a constituição cerebral, há quem aponte para os perigos desse determinismo científico e de uma visão que induza à hiperestimulação infantil.

“O perigo está nas distorções”, sustenta o médico João Augusto Figueiró, criador do Instituto Zero a Seis. “Quando reafirmamos a importância de determinados estímulos para a construção da inteligência e do conhecimento, não estamos defendendo a idéia de que a educação infantil deva privilegiar precocemente conteúdos informativos, nem sugerindo aos pais que proporcionem à criança uma agenda de cursos extracurriculares. Menos ainda temos receitas para fabricar gênios”, arremata.

A advertência é per­tinente e, além dos limites éticos da própria divulgação científica, está no centro de um debate que aponta para os limites da estimulação infantil. As descobertas indicam que os primeiros anos de vida são fundamentais para a constituição cerebral. Em pleno desenvolvimento, é na primeira infância que o cérebro forma grande parte de suas conexões, as chamadas sinapses, e inicia um processo que perdura ao longo de toda a vida, oscilando entre o “brotamento” de novas conexões e o mecanismo analogamente conhecido como “poda neuronal”.

“O organismo ajusta esse crescimento, eliminando o que não está sendo utilizado. Significa que determinadas funções, se não exercitadas nesse período, podem mais tarde trazer problemas de aprendizagem”, diz Figueiró.

A fala do especialista carrega uma verdade há muito conhecida no campo da pedagogia: desenvolver na criança habilidades específicas é pré-condição para a aprendizagem futura. O perigo é dar a esse discurso um tom alarmista ou utilizá-lo como argumento para oferecer à criança um ambiente de hiper­estimulação. O progresso do conhecimento empírico sobre o funcionamento cerebral e a acelerada inovação no campo das neurotecnologias também abrem espaço para visões reducionistas, terreno fértil para promessas e visões pedagógicas questionáveis.

Em seu livro, O Mito dos Três Primeiros Anos (The Myth of the First Three Years: a New Understanding of Early Brain Development and Lifelong Learning, Free Press, 1999), ainda sem tradução no Brasil, John Bruer demonstra ceticismo em relação ao que chama de “contundente profecia” e desafia a uma reflexão: não há nada a ser feito se o cérebro do bebê não receber os estímulos adequados nos três primeiros anos de vida? Se a criança não aprende no momento esperado, então está tudo perdido? Para Bruer, presidente da Fundação James S. McDonell, trata-se de uma visão restrita, que, por si só, pode representar uma ameaça muito maior para o desenvolvimento mental e emocional das crianças.

Uma das pioneiras nas pesquisas em ciências cognitivas, Laura-Ann Petitto, da Universidade de Toronto, reforça o ataque: “O perigo aqui é jogar o bebê fora, junto com a água do banho”, disse ela à Newsweek.

Aprendizado e memória

Renovadas pela proclamada década do cérebro e pelas tecnologias de neuroimagem, as neurociências ganharam os holofotes em 2000, quando o austríaco Eric Kandel e mais dois pesquisadores da Universidade de Colúmbia levaram o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por suas pesquisas na área de aprendizado e memória.

Kandel estudou os neurônios da lesma marinha para investigar o que acontece com as células cerebrais quando as instâncias da memória são formadas. Concluiu que a memória altera o formato e a formação das sinapses e descobriu a proteína Creb-1, responsável por converter lembranças de curto prazo em memórias de longo prazo.

O modelo de experiência proposto por Kandel tem suas fontes no russo Ivan Pavlov, que induziu cães a salivar ao toque de um sinal sonoro associado ao horário da refeição. Em vez de cães, Kandel usou uma espécie de lesma do mar (Aplysia Californicus), organismo com circuitos simples, de aproximadamente 20 mil neurônios. O molusco tem um reflexo espontâneo que protege sua estrutura respiratória, o “reflexo de retração das guelras”, utilizado por Kandel para medir o aprendizado nas lesmas. Um neurônio sensorial, o “equivalente” ao ouvido do cão na versão pavloviana, era estimulado para, em seguida, acionar um neurônio motor, responsável pela retração das guelras das lesmas, em um processo comparável à salivação dos cachorros na experimentação russa. Diante de determinados estímulos, o reflexo se tornava mais forte e permanecia assim por alguns dias. Para Kandel, uma representação simples de uma forma de aprendizado. O cientista expandiu as pesquisas, observou exatamente as mesmas mudanças em camundongos e sugeriu que um processo análogo acontece em seres humanos.

O estudo ganhou o Nobel, mas não a unanimidade. O psicanalista francês Éric Laurent, um dos expoentes da corrente lacaniana e hoje delegado-geral da Associação Mundial de Psicanálise, não poupa críticas à descrição biológica da memória e à proposta de Kandel de, a partir dela, estabelecer novos paradigmas para a psicanálise (Biology and the Future of Psychoanalysis: a New Intellectual Framework for Psychiatry, Kandel Eric, Am J Psychiatry. 1999;156:505-24; Tradução brasileira: Rev. Psiquiatria, 2003; 25(1):139-65).

“O inconsciente freudiano tem agora uma tradução na língua das neurociências (…) Kandel quer conduzir a psicanálise de seu contexto de descoberta pré-científico a uma etapa superior, científica, absorvendo-a na nova disciplina das neurociências cognitivas” (Our Politics for Psychoanalysis and the IPA’s: Three Examples, julho de 2005), afirma Laurent.

O filósofo Peter Hacker e o neurocientista Max Bennett, da Universidade de Sydney, Austrália, apontam problemas conceituais e contestam as conclusões do estudo, no livro Fundamentos Filosóficos da Neurociência (Bennett M.R, Hacker P.M.S ; Philosophical Foundations of Neuroscience; Blackwell Publishing, 2003, p.170, edição brasileira pela Editora Piaget, 2005).

“É tentador pensar que as diversas formas nas quais se manifesta a recordação são todas devidas ao fato de que aquilo que é lembrado está registrado e armazenado no cérebro. Mas isto não tem sentido (…). a expressão de uma recordação deve ser distinguida das configurações neuronais, quaisquer que sejam. Essas configurações não são a memória: tampouco são representações, descrições ou expressões do que é lembrado”, apontam.

À margem da polêmica, o fato é que o trabalho de Kandel é referência nas ciências da cognição, e, por associar aprendizado e memória, recebe também o olhar da educação. Olhar que ele próprio sugere que seja cauteloso.

“O futuro da neurociência é brilhante. O perigo é que estamos no pé da montanha e muitas pessoas pensam que já completamos a escalada. É uma grande montanha e vai levar um século [para que a escalemos].”

O diálogo possível

Não se trata, contudo, de negar a contribuição das neurociências para a esfera pedagógica. A própria história da pedagogia como disciplina acadêmica construiu seus alicerces a partir do diá­logo com diferentes saberes. Traz em sua natureza contribuições que vão da filosofia rousseauniana à Escola Nova da psicologia experimental; da psicogênese descrita por Piaget aos estudos antropológicos e, no caso da pedagogia infantil, também a visão recente da sociologia da infância, difundida nos anos 90, com quase um século de atraso.

A educação é uma arte e está em construção. Tem seu primeiro degrau no olhar sobre a criança de 0 a 6 anos, em creches e pré-escolas, que cresce em importância à medida que a formação desses sujeitos, antes majoritariamente a cargo das famílias, é cada vez mais institucionalizada em creches e pré-escolas.

A questão não é condenar as neurociências. É saber se iremos encontrar ali contribuições para o que parece central: qual o papel da educação infantil? Seu agir educativo deve moldar-se a partir das referências do ensino fundamental ou buscar caminhos para construir sua própria identidade? Enfatizar o que a criança já é ou valorizar o que lhe falta?

Há conflitos de sobra que precisam ser resolvidos e proposições que parecem transcender a esfera pedagógica e caminhar para um debate que é também ideológico.

“Uns valorizam aquilo que a criança já é e que a faz ser, de fato, uma criança. Outros, pelo contrário, enfatizam o que lhe falta e o que ela poderá (ou deverá) vir a ser. Uns insistem na importância da iniciação ao mundo adulto; outros defendem a necessidade da proteção face a esse mesmo mundo. Uns encaram a criança como um agente de competências e capacidades; outros realçam aquilo de que ela carece”, descrevem Manuel Pinto e Manuel Jacinto Sarmento, do Centro de Estudos da Criança da Universidade do Minho, em Portugal (em As Crianças: Contextos e Identidades, Braga, Portugal, 1997).

Pontos de convergência

Afinal, quais são os mitos e as verdades extraídos das recentes descobertas das neurociências e o que de tudo isso interessa à educação, em particular à educação infantil?

“Por enquanto, os conhecimentos oferecem mais perguntas do que respostas, mas cremos que a pedagogia neurocientífica está sendo gerada para responder e sugerir caminhos para a educação do futuro”, defende Katia Chedid, orientadora educacional do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, e integrante do grupo de pesquisa em neurociências e pedagogia Educação: Produção do Conhecimento, da PUC/SP.

Como ela, outros especialistas e instituições se empenham na defesa de que conceitos básicos das neurociências podem ajudar na compreensão dos processos de ensino-aprendizagem, com contribuições importantes para a prática docente e o desenvolvimento das crianças.

“Harvard anuncia a missão imediata de treinar estudantes neste novo campo, tanto para retornar às escolas e outros espaços educativos, como para formar pesquisadores com profundo conhecimento das ciências biológicas, cognitivas e da educação, e, a partir disso, criar a base de pesquisa apoiada nessa nova união do conhecimento”, escreve Kurt Fischer, diretor do programa MBE da universidade.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também figura entre os entusiastas da novidade. Em 99, lançou o projeto “Ciências da Aprendizagem e Pesquisa do Cérebro”, disposta a aproximar os dois mundos e disseminar o conhecimento científico.

Na mesma trilha, o Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos acaba de lançar a edição ampliada de Como as Pessoas Aprendem - Cérebro, Mente, Experiência e Escola (2007), que chega ao Brasil pela Editora Senac. O livro apresenta as mais recentes descobertas da ciência da aprendizagem e mostra a melhor maneira de aplicá-las na sala de aula.

No capítulo reservado à primeira infância (Como as Crianças Aprendem), sustenta que os bebês vêm equipados com os meios necessários para entender seu mundo e que mesmo as crianças mais novas têm uma boa compreensão dos princípios básicos da biologia e da causalidade física, dos números, das narrativas e dos objetos pessoais. E vai além: “essas aptidões tornam possível a criação de currículos inovadores, que introduzem conceitos importantes para o raciocínio avançado em idades precoces”. Como referência, sugere o programa Rightstart, agora incorporado a um modelo mais amplo, rebatizado de Number Worlds. O jogo, que está prestes a ser lançado nos EUA, é uma metáfora do ábaco asiático e ensina tarefas matemáticas básicas, como contar, correspondência entre número e quantidades e o conceito de number line (reta numérica).

“Vejo com reservas qualquer coisa que se intitule um “programa”. O perigo é encarar as neurociências como um reparo técnico ou um método universal, como se fosse a panacéia capaz de curar todos os males da educação”, adverte Peter Moss, da Universidade de Londres.

A OCDE também apresenta sua visão dos avanços neurocientíficos na obra Compreendendo o Cérebro - Rumo a uma Nova Ciência do Aprendizado (Understanding the Brain: Towards a New Learning Science, 2003). Mais cautelosa, propõe um julgamento crítico das alegações sobre aprendizagem e ensino a partir das pesquisas do cérebro.

Mas, como alertou o pensador Edgar Morin em palestra realizada em São Paulo em dezembro, a neurociência, como outros aspectos da evolução humana, carrega em si uma promessa e uma ameaça. A promessa é de um melhor entendimento dos processos cerebrais. A ameaça é bastante cinzenta: a de que esse conhecimento possa levar à pior manifestação totalitária, a de controlar seres humanos com informações advindas do conhecimento científico.

Os “neuromitos” e a educação

1. A popularidade de uma alegação neurocientífica não significa, necessariamente, que ela seja válida;
2. A metodologia e a tecnologia da neurociência cognitiva estão ainda em formação;
3. A aprendizagem não está totalmente sujeita ao controle da consciência ou da vontade;
4. O cérebro passa por mudanças naturais de desenvolvimento durante a vida;
5. Muitas pesquisas da neurociência cognitiva têm buscado compreender ou resolver patologias ou doenças relacionadas com o cérebro;
6. Uma ciência satisfatória da aprendizagem deve considerar fatores emocionais e sociais, além dos cognitivos.

Uol Educação
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Queen - Don’t Stop Me Now

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FIM DA MODERAÇÃO?

Os novos conflitos salariais numa conjuntura mundial instável

Robert Kurz

Há muito tempo que isto está um caso sério. Na Alemanha, o nível salarial geral está a cair há mais de 15 anos, acrescendo a isso a liquidação das prestações sociais e dos serviços sociais públicos. Este lastimável desenvolvimento foi justificado com as exigências objectivas dum capitalismo mundial sem alternativa. Efectivamente isso mais não é que a prova evidente de que esta forma de riqueza abstracta produz cada vez mais pobreza concreta. Mas os sindicatos não têm sensibilidade nenhuma para as questões sociais de princípio; estão reduzidos à mera co-gestão da crise social. Na Alemanha acresce a isso a tradicional falta de uma cultura de resistência. O orgulho no menor número de dias de greve no mundo ocidental tornou-se um boomerang, pois o campeão mundial das exportações caiu para o fundo da escala de rendimentos na Europa. A consequência foi a votação com os pés: dramática redução de associados dos sindicatos unitários, um número crescente de trabalhadores alemães nos países vizinhos na União Europeia e o surgimento de pequenas organizações profissionais dispostas para a luta.

Sob o signo da muito invocada retoma, em 2008 deve começar a mudança de tendência. A pressão dos associados é de tal ordem que os sindicatos anunciaram reivindicações de aumentos salariais de 7 a 9%, os valores mais altos dos últimos anos. Até o SPD no governo, que supostamente redescobriu o seu coração social, perante a campanha eleitoral que se avizinha, insiste em “aumentos salariais razoáveis”. Simultaneamente, porém, a tão festejada nova prosperidade, que finalmente deve chegar aos “de baixo”, já volta a desmoronar-se, pois a conjuntura do déficit do Pacífico, pela qual foi puxada a indústria de exportação europeia nos últimos dois anos, assenta em pés de barro. A situação instável das instituições financeiras em todo o mundo, a partir da crise do crédito hipotecário nos Estados Unidos, ameaça deixar pendurada a primavera conjuntural, enquanto, como reverso da economia das bolhas financeiras, cresce o potencial de inflação e reduz-se a capacidade de intervenção dos bancos centrais.

Em vez da esperada retoma auto-sustentada, segundo o padrão do milagre económico, poderia regressar a estagflação dos anos setenta, com força acrescida, e com ela o debate já quase esquecido sobre uma suposta espiral salários-preços. Ainda antes de ter começado a ronda das negociações salariais já o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, acompanhado dos “peritos económicos”, vem prevenir contra acordos salariais elevados, com os quais seriam promovidos novos aumentos de preços. Os sindicatos terão de se preparar para duros combates, se realmente quiserem pôr fim à tendência para a redução dos salários. No âmbito da velha política de compromisso, o Instituto Alemão de Pesquisa Económica esperava, para 2008, uma miserável subida dos salários reais de 0,7 %. Preparam-se acordos “comedidos”, mas de imediato devorados pela inflação. Para isso não vale a pena encenar greves de aviso simbólicas, nem vir para a rua com apitos.

O dilema dos sindicatos não está apenas na incerteza da conjuntura mundial. Como é sabido, a nova pobreza de massas é também resultado da precarização estrutural das relações de trabalho. Com a queda do nível geral de rendimentos ocorreu simultaneamente um violento alargamento do leque salarial, pelo qual os sindicatos são co-responsáveis, ao aceitarem os salários de miséria nas áreas externalizadas; em total acordo com o mote dominante de que qualquer “trabalho” seria melhor do que nenhum trabalho. Também o recuo parcial da taxa de desemprego assenta sobretudo no alargamento do trabalho a tempo parcial mal pago, que é imposto pela administração do trabalho. Quase todo o sector de prestação de serviços está já precarizado; as greves-alfinetada do sindicato Verdi nos últimos meses no comércio de retalho nem sequer se notaram.

Consequência fatal: tanto quanto se permite tomar “um trago da garrafa”, segundo o Semanário Económico [Handelsblatt] ele deve ficar limitado aos “verdadeiros sectores do boom”, como é o caso da construção de máquinas. Só será possível traçar uma linha de resistência se os sindicatos saltarem sobre a sua própria sombra e, pela primeira vez na história do pós-guerra, deixarem de fundamentar as reivindicações na falsa objectividade das condições do enquadramento conjuntural. Quem ligar toda a sua legitimação a esta retoma tremida já perdeu. Naturalmente que o desacoplamento das necessidades sociais vitais da lógica das exigências objectivas da economia seria um passo em terreno desconhecido. Na prática isso poderia significar retirar das mãos da retórica de campanha eleitoral a exigência de um salário mínimo legal suficientemente elevado; ou seja, transpor o limiar da greve de massas política. Só isso seria um efectivo fim da moderação.

Resitir
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Qual é a melhor diferença de idade para marido e mulher?

Casando-se com mulheres 15 anos mais novas, finlandeses da era pré-industrial maximizavam a expectativa de vida de seus filhos

David Biello

Geralmente, os homens se casam com mulheres mais novas e as mulheres preferem trocar alianças com homens mais velhos. Mas essa escolha seria guiada pela cultura, pela genética ou pelo ambiente? E existe uma diferença ideal de idade entre marido e mulher? Uma nova pesquisa mostra que, pelo menos para os Sami (os habitantes da Lapônia) na Finlândia pré-industrial, os noivos deveriam ter cerca de 15 anos a mais que as noivas para maximizar as chances de sobrevivência dos filhos.

“Estudamos como a diferença de idade entre os pais afetou o sucesso reprodutivo das famílias entre os Sami que se casaram apenas uma vez na vida”, explica o ecólogo Samuli Helle, da Universidade de Turku, na Finlândia. “Descobrimos que casar com mulheres 14,6 anos mais novas maximizava o sucesso reprodutivo durante o tempo de vida do homem – em outras palavras, o número de filhos que chegavam aos 18 anos de idade.”

Os pesquisadores realizaram o estudo examinando registros das igrejas de 700 casamentos das populações de Utsjoki, Inari e Enontekiö, dos séculos 17 ao 19 (para eliminar os efeitos da medicina moderna sobre a sobrevivência dos filhos).

No entanto, apenas 10% desses casamentos aconteceram entre homens e mulheres com a diferença de idade ideal. Na verdade, havia casos de homens que se casavam com mulheres 20 anos mais velhas, assim como de moças que subiam ao altar com pretendentes 25 anos mais velhos. A média de diferença de idade entre os casais era de três anos. Os costumes relacionados ao casamento ou a disponibilidade de renas para sustentar a família (os Sami são pastores de renas) poderiam explicar por que os casamentos entre eles não aconteciam com essa diferença ideal de idade, diz Helle.

Na verdade, a idade em que a mulher começa a ter filhos é o principal fator para a sobrevivência, conforme indica o estudo publicado na “Biology Letters”: em geral, as mulheres mais novas davam à luz a crianças mais saudáveis. Casar-se com uma mulher ou um homem muito mais velhos era mais prejudicial para o sucesso reprodutivo.

Outra pesquisa realizada com dados atuais coletados na Suécia demonstrou que o ideal seria que o homem se casasse com uma mulher seis anos mais nova. No entanto, as restrições culturais do casamento mudaram muito: “A riqueza era o fator mais importante no casamento para os Sami. O amor praticamente não tinha papel algum”, ressalta Helle.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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“Companhias de petróleo internacionais são verdadeiros dinossauros”

Em entrevista exclusiva, o secretário-geral da Opep, Abdalla Salem El-Badri, discute os perigos de um aumento mais dramático no preço do petróleo, as falhas das empresas multinacionais e as considerações dentro do cartel de nações exportadoras para negociar em euros em vez de dólares

Erich Follath e Marion Kraske

Spiegel - Senhor secretário-geral, o preço do barril de petróleo cru atingiu a marca de US$ 100 pela primeira vez no início de janeiro. Enquanto os consumidores sentem o peso, os produtores estão ocupados enchendo seus bolsos. Houve celebração na Opep naquele dia?
El-Badri - Não, por que haveria? Estamos interessados em preços razoáveis. Queremos estabilidade. Além disso, o preço médio por barril foi de US$ 69 no ano passado. Apenas uma pequena quantia de petróleo foi negociada acima de US$ 100 e somente por um curto prazo. É um jogo. Foi um único comerciante que calculou mal e perdeu dinheiro como resultado.

Spiegel - Agora o senhor esta minimizando um desdobramento dramático que deixou o mundo todo profundamente preocupado. O preço de petróleo quadruplicou em quatro anos e no ano passado subiu alarmantes 57%. Os especialistas do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica acreditam que é provável um aumento de preço para US$ 200 em 10 anos. O senhor discorda?
El-Badri - O preço de petróleo deve se basear inicialmente em oferta e demanda. Se for esse o caso, o aumento para US$ 200 é altamente improvável. Mas quando outros fatores têm um papel, como especuladores ou fatores geopolíticos…

Spiegel -… em outras palavras, guerras em países produtores ou o tipo de inquietação que atualmente acontece na Nigéria…
El-Badri - … essa é sua interpretação. Nós também temos a queda do valor do dólar contra o euro, assim como os gargalos finais no refinamento de petróleo nos EUA. Dessa forma, pode-se ver qualquer preço.

Spiegel - Muitos especialistas já acreditam que o atual nível é perigoso e temem uma recessão mundial. Durante uma visita a Riad, o presidente americano George W. Bush fez uma reprimenda à Opep e pediu à organização que fizesse algo sobre os atuais preços recordes. A gasolina cara, disse ele, está atingindo as “famílias americanas onde dói”.
El-Badri - Se houver uma recessão, não será por causa do preço do petróleo. Será causada pela crise das hipotecas nos EUA e outros problemas do mercado financeiro.

Spiegel - Certamente é um fator importante, junto do petróleo. Ainda assim, a Opep foi acusada de promover os preços. O senhor não acha que US$ 100 por barril prejudica a reputação da Opep?
El-Badri - Por que deveria? Tenho uma proposta: nós da Opep damos a vocês a renda de nossas exportações de petróleo e vocês nos dão em troca o dinheiro dos impostos que vocês tiram de produtos do petróleo. Seria um acordo justo, certo?

Spiegel - Não podemos fazer isso. Mas também não estamos inteiramente certos que os ministros de finanças das maiores nações consumidoras estariam interessados nesse tipo de acordo.
El-Badri - Você vê? Para muitos de nossos países membros, o petróleo é a única fonte de renda, e é por isso que precisamos de um preço justo.

Spiegel - O que isso significa? Há dois anos e meio, conversamos com Adnan Shihab-Eldin, seu predecessor como presidente da Opep. Ele mencionou uma faixa de preço entre US$ 50 e US$ 60. O senhor mesmo disse em novembro que não havia evidências sugerindo que o limite psicológico importante de US$ 100 seria alcançado.
El-Badri - Não tenho um sentido concreto de meta de preço, nem de uma faixa específica. Nós da Opep não queremos extremos, preços altos ou baixos demais. O que queremos é um preço estável. Isso beneficiaria os produtores e consumidores. Mas, como eu disse, o mercado determina isso.

Spiegel - Um mercado sobre o qual vocês não têm influência decisiva? A Opep perdeu tanto poder assim? Uma organização temida, que ditava os preços nos anos 70 e 80 e até usou o petróleo como arma política -durante a guerra do Yom Kippur, por exemplo?
El-Badri - Apenas ditamos as coisas por um curto período de tempo em nossa história. Esses dias se foram há muito. Os países que pertencem à Opep atualmente fornecem cerca de 40% do petróleo consumido no mundo. Não se pode exatamente dizer que realmente controlamos o mercado.

Spiegel - Mas a Opep pode exercer influência importante cortando ou expandindo o volume de produção.
El-Badri - Isso é verdade, e fazemos isso da forma que julgamos correta. No início de 2004, aumentamos a produção por quase 5 milhões de barris por dia até o final de 2006. Depois, reduzimos a produção em 1,7 milhões de barris, quando sentimos que o preço estava baixo demais. Foi uma decisão muito boa, no que concerne a Opep.

Spiegel - Alguns especialistas duvidam que a Opep ainda possa expandir o volume de produção para um grau significativo. Esses especialistas dizem que a Arábia Saudita, por exemplo -o único superpoder do mundo- já está colocando pressão demais em seus campos de petróleo hoje e que as reservas em geral são menores do que se imaginava.
El-Badri - Não se preocupe, ainda temos capacidade. Atualmente, somos capazes de aumentar a produção em 35 milhões de barris. E também investimos em novos projetos a um custo total de US$ 150 bilhões até 2012, que nos darão capacidade adicional de 6 milhões de barris em quatro anos. Entretanto, temos que saber qual vai ser a demanda de petróleo no futuro, para que possamos planejar nossos investimentos de acordo.

Spiegel - O senhor não pode negar que as reservas são finitas. Já atingimos o “pico do petróleo” -o nível máximo de produção que pode ser alcançado antes das reservas inevitavelmente começarem a encolher?
El-Badri - Não, acredito que não. Também não acredito que chegaremos nesse ponto em um futuro próximo.

Spiegel - Especialistas de fora da Opep têm uma opinião menos otimista de nosso futuro energético.
El-Badri - Talvez. Mas acredito que seus netos ainda terão combustível fóssil suficiente. Haverá um fim ao petróleo, com certeza, porém estou convencido que não será nos próximos 100 anos.

Spiegel - Até mesmo um estudo publicado em nome da Opep conclui que, tão cedo quanto 2024, seu cartel talvez não possa mais cumprir as demandas dos clientes e fornecer tanto petróleo quanto precisam.
El-Badri - Esse estudo não é nosso, não reflete a visão oficial da Opep. Estou convencido que suas conclusões são erradas. Há petróleo suficiente. E há reservas descobertas suficientes. Nosso verdadeiro problema está na avaliação correta da demanda. Gostaríamos de saber com que velocidade está crescendo.

Spiegel - Isso depende de muitos fatores, incluindo a conservação de energia nas nações industrializadas e a fome de energia de economias emergentes importantes como China e Índia. O senhor tem uma idéia clara do que está acontecendo por aí?
El-Badri - Visitei a China e conversei com os políticos. Estamos em negociações com a UE e vou visitar o Japão. A coisa mais importante para nós é o diálogo. Os países individuais não nos dão números exatos para o futuro, mas ao menos nos dão alguma indicação de quanto petróleo será necessário.

Spiegel - O senhor pinta um retrato bem otimista. Mas a Opep também não é afetada pelos interesses divergentes de seus membros? Não houve uma disputa substancial em seu último encontro -que deixou o Irã e a Venezuela, com suas idéias sobre preços altos e sua agenda anti-Ocidente, contra os “moderados”?
El-Badri - Deixamos a política para os países membros individuais. A Opep é uma organização econômica. Além disso, não foi uma briga de verdade. Falamos com uma voz única. Entretanto, tivemos uma discussão animada em novembro sobre se deveríamos mudar a moeda reserva do dólar para o euro. Alguns de nossos Estados membros têm enormes reservas em dólar, enquanto outros vendem em dólares e compram euros.

Spiegel - O senhor é a favor de abandonar a prática de negociar em dólar como a Venezuela e o Irã exigiram?
El-Badri - Atualmente, o euro é a moeda mais forte do mundo. Uma mudança pode ser feita, mas vai levar um tempo. Foram necessários muitos anos para o dólar se tornar a moeda dominante no ramo. Mas no futuro, não será tão difícil mudar.

Spiegel - Angola e Equador foram aceitos como membros da Opep no ano passado. A Rússia deveria entrar?
El-Badri - Não batemos na porta de ninguém.

Spiegel - Mas os senhores não gostariam de ver Moscou batendo na sua porta? Com os russos a bordo, com sua enorme capacidade de produção e reservas ainda maiores, a Opep poderia com certeza estabelecer os preços.
El-Badri - Novamente, não queremos ditar nada.

Spiegel - O presidente (russo) Vladimir Putin certamente pensa de outra forma. No ano passado, ele chamou a idéia de um cartel de gás natural -o segundo mais importante recurso natural, que está ligado ao preço do petróleo- de “muito interessante”. Ele já começou a promover o conceito no Irã, Qatar e Argélia. O senhor se preocupa com essa espécie de “contra-Opep” e acha que tem potencial?
El-Badri - Esse tipo de organização pode ser uma opção no longo prazo, mas os produtores de gás estão presos a acordos de fornecimento por 30 anos -não é como o cru. Nós na Opep não vemos isso como ameaça.

Spiegel - Nos últimos anos, houve uma tendência mundial de re-nacionalização das reservas de energia. Enquanto empresas multinacionais como Exxon, Shell e BP controlavam o mercado há duas décadas, hoje 77% de todas as reservas de petróleo estão nas mãos de empresas nacionais e em muitos casos relativamente ineficientes nos países produtores. Não seria melhor se mais empresas privadas e portanto mais transparentes dominassem o mercado, em vez desses dinossauros estatais?
El-Badri - As empresas internacionais de petróleo são os verdadeiros dinossauros, não nós da Opep. As multinacionais mudaram sua filosofia nos últimos anos, mas ainda têm um longo caminho pela frente. Elas precisam contratar e treinar mais pessoas locais. E deveriam investir mais na exploração de campos e novas tecnologias. Elas também têm que ser muito gentis como perfil de produção de cada país.

Spiegel - Recentemente o senhor falou contra os biocombustíveis. Por quê?
El-Badri - Não tenho nada contra os biocombustíveis, ou contra qualquer outra forma de energia alternativa. Tudo o que queria dizer é que não se deve investir em algo que no final não dará resultados, ao menos não em grande escala. Os biocombustíveis não são a salvação. A produção de biocombustível vem à custa de reservas de alimentos e água. Requer terra produtiva preciosa que poderia ser plantada com outros cultivos. No final das contas, o consumidor pagará o preço.

Spiegel - Como o senhor se sente com o ressurgimento internacional de energia nuclear? A energia nuclear deve compor o pacote energético dos países industrializados?
El-Badri - Desde que se possa garantir a segurança, por que não?

Spiegel - O senhor não está convencido que as usinas atômicas modernas são seguras?
El-Badri - É uma tecnologia extremamente perigosa. Como vimos em Chernobyl, mesmo um único acidente pode ter conseqüências devastadoras.

Spiegel - Ainda assim, países ricos em recursos naturais, como o Irã e a sua terra natal, Líbia, estão investindo pesado em tecnologia nuclear. Trípoli acaba de encomendar uma usina nuclear aos franceses.

El-Badri - Antes de essa tecnologia poder beneficiar a Líbia, o país terá que treinar muitos especialistas e requerer bastante transferência de tecnologia.

Spiegel - O senhor disse recentemente que a Opep está profundamente preocupada com a mudança climática e faz muito para proteger o ambiente. Verdade? Será que não percebemos?
El-Badri - Estamos reduzindo significativamente a queima do gás resultante da extração do petróleo, tremendamente. Além disso, os líderes dos países da Opep acreditam que também devem investir em tecnologias ambientalmente saudáveis. A Arábia Saudita, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos concordaram em destinar US$ 750 milhões para um fundo de pesquisa de problemas ambientais. Estou convencido que outros membros seguirão seu exemplo.

Spiegel - Em outras palavras, a iniciativa ambiental não é obrigatória para todos os membros.
El-Badri - Não, não é. A Arábia Saudita convidou outros membros a contribuírem, mas cabe aos próprios países.

Spiegel - O senhor conhece a Opep há muito tempo e observou a organização de várias perspectivas, inclusive como gerente de empresas privadas e estatais e como ministro de energia. Como o cartel mudou?
El-Badri - A Opep é a organização mais antiga em operação que consiste exclusivamente de países do Terceiro Mundo. Hoje tem quase 48 anos e membros da África, Ásia e América do Sul. É uma história de sucesso. Está cada vez mais forte, a cada ano. Somos capazes de controlar nossas reservas. A Opep promove segurança energética para todo o mundo e não se limita aos interesses individuais de seus membros.

Spiegel - Como seria o mundo sem a Opep?
El-Badri - Acho que o mundo é um lugar melhor por causa da Opep. O mundo não seria um lugar tão seguro sem essa organização, porque garantimos um mercado de petróleo estável. Assim, também contribuímos para a estabilidade mundial do lado da energia.

Spiegel - Na última quarta-feira, o presidente Bush praticamente emitiu um ultimato para a Opep aumentar o volume de produção, o que faria os preços caírem. Vocês vão cumprir esse pedido na próxima reunião da Opep?
El-Badri - Os problemas que estamos vendo atualmente nos EUA não têm nada a ver com a Opep. Já mencionei a crise financeira doméstica. Os americanos também foram descuidados no que concerne ao refinamento de petróleo. Eles investiram pouco em sua capacidade de refinamento nos últimos 30 anos. Eles consomem 21 milhões de barris por dia, mas só podem refinar 17 milhões. Mesmo que mais petróleo entrasse no mercado americano, eles não teriam a capacidade para refiná-lo -e não resolveria o problema do gargalo.

Spiegel - O senhor está dizendo que nenhuma decisão será tomada em Viena na próxima semana?
El-Badri - Não disse isso. Estamos analisando cuidadosamente o mercado, todos os dias. Se concluirmos que os fundamentos requerem isso, nossos ministros não hesitarão em aumentar a produção. Mas no momento não vemos necessidade disso.

Spiegel - Senhor secretário-geral, agradecemos por esta entrevista.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Aborto: por uma legislação em defesa da vida

Frei Betto

O terapeuta se depara com o drama de mulheres que abortaram. Como religioso, solicitam-me aquelas que, diante de gravidez indesejada, sofrem a angústia da dúvida. Raramente vêm acompanhadas por seus parceiros - o que é preocupante sintoma.
Em pleno século XXI questões sérias como o aborto são, ainda, consideradas tabus. Lamento as dificuldades que a Igreja Católica impõe à discussão. Se a teologia é o esforço de apreensão racional das verdades de fé, o teólogo tem o dever de manter-se aberto a todos os temas que dizem respeito à condição humana, mormente se encerram implicações morais.

Embora contrário ao aborto, admito a sua descriminalização em certos casos e sou favorável ao mais amplo debate, pois se trata de um problema real e grave que afeta a vida de milhares de pessoas e deixa seqüelas físicas, psíquicas e morais.

Ao longo da história, a Igreja nunca chegou a uma posição unânime e definitiva. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situa-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado ser humano. Até hoje, nem a ciência nem a teologia tem a resposta exata. A questão permanece em aberto.

Santo Agostinho (sec. IV) admite que só a partir de 40 dias após a fecundação se pode falar em pessoa. Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) reafirma não reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”.

Esta posição virou doutrina oficial da Igreja Católica a partir do Concílio de Trento (séc. XVI). Mas foi contestada por teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. III) e de santo Alberto Magno (séc. XIII), defendem a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo. Contudo, a discussão encerra-se oficialmente com a encíclica Apostolica Sedis (1869), na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.

No século XX, introduz-se a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto em caso de gravidez tubária ou câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro.

Bernhard Haering, um dos mais renomados moralistas católicos, admite o aborto quando se trata de preservar o útero para futuras gestações ou se o dano moral e psicológico causado pelo estupro impossibilita aceitar a gravidez. É o que a teologia moral denomina ignorância invencível. Nem a Igreja tem o direito de exigir sempre de seus fiéis atitudes heróicas.

Roma é contra a descriminalização do aborto baseada no princípio de que não se pode legalizar algo que é ilegítimo e imoral: a supressão voluntária de uma vida humana. A história demonstra, porém, que nem sempre a Igreja o aplicou com igual rigor a outras esferas, pois defende a legitimidade da “guerra justa” e da revolução popular em caso de tirania prolongada e inamovível por outros meios (Populorum Progresio). É o princípio tomista do mal menor. Em muitos países, a Igreja aprova a pena de morte para criminosos.

Embora a Igreja defenda a sacralidade da vida do embrião em potência, a partir da fecundação, ela jamais comparou o aborto ao crime de infanticídio e nem prescreve rituais fúnebres ou batismo in extremis para os fetos abortados…

É preciso encarar com seriedade as razões que induzem uma gestante ao aborto. A opção de abortar é moral e política. Pode ser encarada pelo ângulo do poder do mais forte sobre o frágil. Tão frágil que podem ser encontradas justificativas científicas para negar-lhe o título de humano. Para a genética, o feto é humano a partir da segmentação. Para a ginecologia-obstetrícia, desde a nidação. Para a neurofisiologia, só quando se forma o cérebro. E para a psicosociologia, quando há relacionamento personalizado. Em suma, o feto é uma espécie de subproletário biológico. Tão reduzido à sua impotência que não tem como protestar ou rebelar-se.

Em muitos casos de aborto, o feto paga pela rejeição que a mulher tem ao homem que a fecundou ou pelos preconceitos que a atemorizam e a tornam tão escrava de conveniências sociais que, paradoxalmente, decide extraí-lo em nome de sua suposta liberdade. Liberdade que teme e da qual foge quando se trata de admitir uma relação adúltera, assumir-se como mãe solteira ou exigir de seu parceiro, ainda que casado com outra mulher, que se assuma como pai face à evidência de uma vida em processo.

Há homens que, confrontados com uma inesperada gravidez, reagem com uma covardia inominável, como se o problema fosse apenas da mulher. E há mulheres coniventes com a omissão masculina, não raro por ter de optar entre o feto e o afeto…

Partilho a opinião de que, desde a fecundação, já há vida com destino humano e, portanto, histórico. Sob a ótica cristã a dignidade de um ser não deriva daquilo que ele é e sim do que pode vir a ser. Por isso, o cristianismo defende os direitos inalienáveis dos que se situam no último degrau da escala humana e social.

O debate sobre se o ser embrionário merece ou não reconhecimento de sua dignidade não deve induzir ao moralismo intolerante, que ignora o drama de mulheres que optam pelo aborto por razões que não são de mero egoísmo ou conveniência social.

Trata-se de mulheres muito pobres que, objetiva e subjetivamente, não têm condições de assumir o filho; de prostitutas que dependem de seus corpos para sobreviver e dar de comer a seus dependentes; de casais que se deparam com uma gravidez imprevista que viria desestabilizar a vida conjugal e familiar; de mulheres mentalmente enfermas, incapacitadas para cuidar de uma criança; ou que engravidam involuntariamente após os 40 anos, quando aumenta a possibilidade de nascer um filho com deficiência.

É a defesa do sagrado dom da vida que levanta a pergunta se é lícito manter o aborto à margem da lei, pondo em risco também a vida de inúmeras mulheres que, na falta de recursos, tentam provocá-lo com chás, venenos, agulhas ou a ajuda de curiosas, em precárias condições higiênicas e terapêuticas. Uma legislação em favor da vida faria este problema humano emergir das sombras para ser adequadamente tratado à luz do Direito, da moral e da responsabilidade social do poder público.

O teólogo González Faus opina que “mais do que o moralista, a existência de situações-limites deve ser contemplada pelo legislador civil, que não está obrigado a assegurar toda a moralidade e sim a convivência pacífica, nem está obrigado a prescrever a heroicidade ou a procurar um “melhor” inimigo do bem, senão que muitas vezes há de contentar-se em evitar o mal maior. E é possível que, nas atuais circunstâncias de nossa sociedade, a descriminalização legal do aborto seja um mal menor.” (Este es el hombre, Ed. Cristandad, Madri, 1986, p. 277).

A morte clandestina no ventre elimina qualquer risco à propriedade e à imagem pública do proprietário. Para este, aliás, não há ilegalidade nesta matéria. Basta enviar a gestante a uma clínica particular e tudo se resolve. Mas como ficam as mulheres pobres que não podem ter filhos, senão sob o risco de perderem o emprego e deixarem a família na miséria? São inúmeras as que, para obter trabalho, se vêem obrigadas a esconder que são casadas e a impedir ou interromper a gravidez.

Se os moralistas fossem sinceramente contra o aborto, lutariam para que não se tornasse necessário e todos pudessem nascer em condições sociais seguras. Ora, o mais cômodo é exigir que se mantenha a penalização do aborto. Mas como fica a penalização do latifúndio improdutivo e das causas que levam à morte, por ano, cerca de 26 entre cada 1.000 crianças brasileiras que ainda não completaram doze meses de vida?

A descriminalização não reduz o número de abortos clandestinos. Muitas mulheres continuam a preferir o anonimato, para evitar danos à sua imagem social e/ou à do parceiro. Diminui é o número de óbitos em conseqüência do aborto. Em países onde o aborto não é criminalizado, inúmeras gestantes, ao procurar os serviços sociais decididas a fazê-lo, são convencidas a ter o filho - o que não ocorreria se vigorasse a criminalização.

“No plano dos princípios” - declarou o bispo Duchène, presidente da Comissão Espiscopal Francesa para a Família - “lembro que todo aborto é a supressão de um ser humano. Não podemos esquecê-lo. Não quero, porém, substituir-me aos médicos que refletiram demoradamente no assunto em sua alma e consciência e que, confrontados com uma desgraça aparentemente sem remédio, tentam aliviá-la da melhor maneira, com o risco de se enganar” (La Croix, 31/3/79).

Não se trata, pois, de legalizar o aborto, como se fez com o divórcio. Antes, de impedi-lo e defender os direitos da vida em embrião. Assim, uma legislação em favor da vida deve obrigar o poder público a promover amplas campanhas contra o aborto; esclarecer suas implicações morais, físicas e psicológicas; prever sanções aos empregadores que recusam mulheres casadas ou não dão suficiente apoio às gestantes; criar postos de atendimento às gestantes que pensam em abortar, onde médicos, psicólogos, assistentes sociais e, inclusive, ministros da confissão religiosa da interessada, procurem convencê-la a assumir o filho, demovendo preconceitos; ampliar a rede de Casas da Mãe Solteira, de modo a evitar que as gestantes solteiras sejam induzidas ao aborto por desamparo afetivo, moral ou econômico; assegurar o salário-maternidade e multiplicar o número de creches; criar o sistema telefônico de atendimento às mulheres angustiadas por gravidez imprevista, o SOS Futuras Mães; oferecer ajuda financeira às famílias que adotam crianças rejeitadas por suas mães etc.

Em suma, assegurar o direito à vida do embrião e amparo moral, psicológico e econômico à gestante, bem como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário.

Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul - reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Lévi-Strauss: paixão pelo Brasil

Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, em 28 de novembro de 1908. Estudou Filosofia e Direito em Paris, mas ganhou reconhecimento mundial com seus estudos etnológicos. É considerado o criador da Antropologia Estrutural e um dos maiores pensadores do século 20. Lévi-Strauss veio ao Brasil pela primeira vez em 1935, integrando a missão francesa que participou da criação da Universidade de São Paulo. Tinha 26 anos quando ocupou a cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP. Entre 1935 e 1939, viajou pelo país e desenvolveu pesquisas etnológicas com índios kadiwéus e nambikwara. A experiência brasileira foi descrita, anos mais tarde, em 1955, no livro Tristes trópicos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Com a ocupação da França por tropas alemãs durante a Segunda Guerra, o etnólogo instalou-se nos Estados Unidos e deu aulas na New School for Social Research, em Nova York. Ao retornar à França, Lévi-Strauss assumiu a cadeira de Antropologia no Collège de France, em Paris. Entre suas obras: As estruturas elementares do parentesco, O pensamento selvagem, Antropologia estrutural e As mitológicas, obra dedicada ao estudo dos mitos de povos indígenas americanos, publicada no Brasil pela CosacNaify. Desde 1973, Lévi-Strauss é membro da Academia Francesa de Letras.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva concedida por Lévi-Strauss ao antropólogo brasileiro Marcelo Fiorini, em novembro de 2005, um dia depois de seu aniversário, em seu escritório no Collège de France. A entrevista fará parte de um livro que o pesquisador brasileiro publicará este ano pela Survival International dentro de uma coleção reservada a temas relacionados a povos índigenas do mundo. O objetivo central é chamar a atenção do público brasileiro e do mundo para a situação dos povos indígenas do Brasil e, em particular, dos nambikwara, grupo do qual Lévi-Strauss ainda guarda as melhores lembranças de sua carreira como etnólogo.

Os nambikwara têm hoje várias de suas aldeias ameaçadas: no rio Sararé, por uma indústria de mineração que tenta impedir a demarcação de uma área pleiteada pelo grupo; no Vale do Guaporé, pela destruição contínua das florestas e pela indústria madeireira e, na aldeia Wakalitesu, onde Lévi-Strauss morou, pela penetração do plantio da soja nas áreas indígenas do Cerrado.

Marcelo Fiorini - Que recordações o senhor guarda do Brasil?
Claude Lévi-Strauss - Eu guardo as melhores lembranças de minha estada em São Paulo e entre os índios. A cidade de São Paulo, onde eu vivi, porém, e mesmo a que revi em 1985, quando retornei ao Brasil pela única vez, para acompanhar o presidente francês que fazia uma visita oficial, não tinha mais nenhuma semelhança com aquela de 1935. Era um outro mundo.

M.F. - Como foram seus primeiros contatos com os índios?
C.L-S. - Eu fui morar com os bororo entre 1935-1936 e durante as férias de 1936. Eu voltei à França para trazer as coleções etnográficas que havia feito entre os bororo para o Musée de l’Homme e estas foram parte de uma exposição. Você sabe, em etnologia e antropologia fui um autodidata e, portanto, era necessário para mim passar em um teste, o que me permitiu suscitar o interesse dos mestres da época como Rivet, Mauss, Lévy-Bruhl e assim obter os meios de retornar entre os nambikwara, em 1938. Essa, contudo, foi uma outra viagem, uma missão completamente diferente da primeira.

M.F. - O senhor retornou aos bororo ou aos nambikwara quando regressou ao Brasil em 1985?
C.L-S. - Deixei o Brasil no início de 1939. Logo veio a Guerra e eu emigrei para os Estados Unidos. Em 1985, retornei ao Brasil apenas por alguns dias, mas quando estávamos em Brasília, o jornal O Estado de S.Paulo me propôs um retorno de avião até os bororo e partimos em uma pequena aeronave que tinha capacidade para apenas três passageiros, minha esposa, eu e minha cara colega e amiga Manuela Carneiro da Cunha. Pousamos em algumas horas em Rondonópolis e decolamos novamente em direção ao rio São Lourenço, onde eu tinha amigos na época que trabalhavam com os bororo. Nós sobrevoamos várias aldeias, mas não pudemos pousar. Segundo o piloto, era possível aterrissar, mas não decolar. Então, retornamos a Brasília sem que eu pudesse rever os índios, a não ser de muito alto.

M.F. - Quais são as melhores lembranças que o senhor guarda de seu trabalho de campo entre os nambikwara?
C.L-S. - Nos poucos anos em que eu morei no Brasil, tive contatos com diferentes populações indígenas: um pouco com os kaingang, no Estado do Paraná; com os kadiwéu, no sul de Mato Grosso, na região do Pantanal; com os bororo, por um período um pouco mais longo, no rio São Lourenço. Em 1938, encontrei outros, mas principalmente os nambikwara, com quem eu passei alguns meses. Eles tinham, na época, uma péssima reputação por causa de diversos incidentes pelos quais haviam passado, inclusive a morte de um homem que trabalhava para a Linha Telegráfica de Rondon, ou o que restava dela. Eu fui avisado e prevenido sobre eles. Disseram-me em Cuiabá que minha vida seria ameaçada, que eles eram pessoas difíceis e perigosas, mas devo dizer que, muito ao contrário, nenhum outro povo indígena que conheci me seduziu da forma como os nambikwara o fizeram.
Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, em 28 de novembro de 1908. Estudou Filosofia e Direito em Paris, mas ganhou reconhecimento mundial com seus estudos etnológicos. É considerado o criador da Antropologia Estrutural e um dos maiores pensadores do século 20. Lévi-Strauss veio ao Brasil pela primeira vez em 1935, integrando a missão francesa que participou da criação da Universidade de São Paulo. Tinha 26 anos quando ocupou a cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP. Entre 1935 e 1939, viajou pelo país e desenvolveu pesquisas etnológicas com índios kadiwéus e nambikwara. A experiência brasileira foi descrita, anos mais tarde, em 1955, no livro Tristes trópicos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Com a ocupação da França por tropas alemãs durante a Segunda Guerra, o etnólogo instalou-se nos Estados Unidos e deu aulas na New School for Social Research, em Nova York. Ao retornar à França, Lévi-Strauss assumiu a cadeira de Antropologia no Collège de France, em Paris. Entre suas obras: As estruturas elementares do parentesco, O pensamento selvagem, Antropologia estrutural e As mitológicas, obra dedicada ao estudo dos mitos de povos indígenas americanos, publicada no Brasil pela CosacNaify. Desde 1973, Lévi-Strauss é membro da Academia Francesa de Letras.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva concedida por Lévi-Strauss ao antropólogo brasileiro Marcelo Fiorini, em novembro de 2005, um dia depois de seu aniversário, em seu escritório no Collège de France. A entrevista fará parte de um livro que o pesquisador brasileiro publicará este ano pela Survival International dentro de uma coleção reservada a temas relacionados a povos índigenas do mundo. O objetivo central é chamar a atenção do público brasileiro e do mundo para a situação dos povos indígenas do Brasil e, em particular, dos nambikwara, grupo do qual Lévi-Strauss ainda guarda as melhores lembranças de sua carreira como etnólogo.

Os nambikwara têm hoje várias de suas aldeias ameaçadas: no rio Sararé, por uma indústria de mineração que tenta impedir a demarcação de uma área pleiteada pelo grupo; no Vale do Guaporé, pela destruição contínua das florestas e pela indústria madeireira e, na aldeia Wakalitesu, onde Lévi-Strauss morou, pela penetração do plantio da soja nas áreas indígenas do Cerrado.

Marcelo Fiorini - Que recordações o senhor guarda do Brasil?
Claude Lévi-Strauss - Eu guardo as melhores lembranças de minha estada em São Paulo e entre os índios. A cidade de São Paulo, onde eu vivi, porém, e mesmo a que revi em 1985, quando retornei ao Brasil pela única vez, para acompanhar o presidente francês que fazia uma visita oficial, não tinha mais nenhuma semelhança com aquela de 1935. Era um outro mundo.

M.F. - Como foram seus primeiros contatos com os índios?
C.L-S. - Eu fui morar com os bororo entre 1935-1936 e durante as férias de 1936. Eu voltei à França para trazer as coleções etnográficas que havia feito entre os bororo para o Musée de l’Homme e estas foram parte de uma exposição. Você sabe, em etnologia e antropologia fui um autodidata e, portanto, era necessário para mim passar em um teste, o que me permitiu suscitar o interesse dos mestres da época como Rivet, Mauss, Lévy-Bruhl e assim obter os meios de retornar entre os nambikwara, em 1938. Essa, contudo, foi uma outra viagem, uma missão completamente diferente da primeira.

M.F. - O senhor retornou aos bororo ou aos nambikwara quando regressou ao Brasil em 1985?
C.L-S. - Deixei o Brasil no início de 1939. Logo veio a Guerra e eu emigrei para os Estados Unidos. Em 1985, retornei ao Brasil apenas por alguns dias, mas quando estávamos em Brasília, o jornal O Estado de S.Paulo me propôs um retorno de avião até os bororo e partimos em uma pequena aeronave que tinha capacidade para apenas três passageiros, minha esposa, eu e minha cara colega e amiga Manuela Carneiro da Cunha. Pousamos em algumas horas em Rondonópolis e decolamos novamente em direção ao rio São Lourenço, onde eu tinha amigos na época que trabalhavam com os bororo. Nós sobrevoamos várias aldeias, mas não pudemos pousar. Segundo o piloto, era possível aterrissar, mas não decolar. Então, retornamos a Brasília sem que eu pudesse rever os índios, a não ser de muito alto.

M.F. - Quais são as melhores lembranças que o senhor guarda de seu trabalho de campo entre os nambikwara?
C.L-S. - Nos poucos anos em que eu morei no Brasil, tive contatos com diferentes populações indígenas: um pouco com os kaingang, no Estado do Paraná; com os kadiwéu, no sul de Mato Grosso, na região do Pantanal; com os bororo, por um período um pouco mais longo, no rio São Lourenço. Em 1938, encontrei outros, mas principalmente os nambikwara, com quem eu passei alguns meses. Eles tinham, na época, uma péssima reputação por causa de diversos incidentes pelos quais haviam passado, inclusive a morte de um homem que trabalhava para a Linha Telegráfica de Rondon, ou o que restava dela. Eu fui avisado e prevenido sobre eles. Disseram-me em Cuiabá que minha vida seria ameaçada, que eles eram pessoas difíceis e perigosas, mas devo dizer que, muito ao contrário, nenhum outro povo indígena que conheci me seduziu da forma como os nambikwara o fizeram.

Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp

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Tecnologia aumenta a lacuna entre os sexos

Os homens usam a Internet por mais tempo que as mulheres. A maior parte do conteúdo é pensada para eles e reflete mais sua formação tecnológica

Carmen Morán

O acesso e a utilização das novas tecnologias estão abrindo brechas digitais, mas não só entre o mundo ocidental e os países pobres; também entre homens e mulheres, e neste caso não há distinções por zonas geográficas. Os dados que chegam dos países mais desenvolvidos indicam que as mulheres estão ficando para trás, que não têm tanto tempo quanto gostariam para navegar sem rumo determinado na Internet, que não encontram na rede o que procuram e que sua formação acadêmica, menos tecnológica que a dos homens, não favorece uma aproximação fluida do computador.

Como se explica, então, que entre as mulheres e os homens com diploma universitário haja de 15 a 20 pontos de diferença na hora de conectar um modem ou uma impressora? “Neste caso, como ambos têm os mesmos estudos, a lacuna se deve à sua especialização acadêmica. Os homens se matriculam mais em carreiras tecnológicas e elas em outros setores mais sociais, de humanidades ou saúde, e essa é outra brecha que aumenta cada vez mais em toda a Europa”, explica a catedrática de Economia Aplicada da Universidade Complutense de Madri, Cecilia Castaño.

Algo parecido ocorre quando os estudos são inferiores: eles sempre levam vantagem nas tarefas mais complexas ao manejar programas de informática. “É uma questão educacional: aos meninos se transmite mais confiança nas máquinas”, afirma Castaño.

Os homens e as mulheres com estudos universitários também não passam o mesmo tempo na Internet; entre ambos há uma diferença de 20 pontos. Elas alegam falta de tempo, conteúdos que não lhes agradam e o uso que fazem do computador se circunscreve ao trabalho e algumas consultas de caráter prático. “Consultam possíveis empregos, assuntos relacionados à educação ou à saúde da família…” Mas os homens parecem ter tempo, porque parte de sua navegação é por lazer e consumo: esportes, a Bolsa, pornografia…

A equipe de Cecilia Castaño passou um ano inteiro interpretando os dados da pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC) do INE (Instituto Nacional de Estatística) para escolher as diferenças entre homens e mulheres e buscar os porquês. Para isso reuniram um grupo de mulheres (estudantes universitárias, professoras de segundo grau, engenheiras e trabalhadoras da área de informática, empresárias com seus próprios negócios, teletrabalhadoras) e um grupo de homens com as mesmas características.

A partir daí puderam saber que eles passam mais tempo na Internet, a utilizam mais para questões administrativas, compras e transações bancárias; elas a usam menos e de forma mais prática, para resolver questões de saúde ou buscar informação laboral ou acadêmica. Também compram menos pela Internet e sobretudo produtos para o lar, enquanto entre os homens as aquisições mais habituais são de material de informática.

“A impressão mais clara é que transferiram os papéis habituais para o campo das novas tecnologias”, afirma Castaño. Tanto que as mulheres usam mais o celular e o correio eletrônico para falar e relacionar-se, enquanto os homens dão utilidade mais prática a esses sistemas de comunicação.

Consultados homens e mulheres sobre essas diferenças, eles se atribuem maior interesse e destreza com as novas tecnologias, mas afirmam que as mulheres jovens já apresentam essas mesmas características. E opinam que os papéis de gênero marcam essa diferença.

As mulheres, por sua vez, indicam fatores sócio-educacionais históricos e uma incorporação tardia da mulher ao trabalho como uma das causas de sua aproximação mais difícil às novas tecnologias. Também pensam que a mulher tem maior habilidade verbal que tecnológica, o que na sua opinião favorece os homens. Mas queixam-se de que os conteúdos que encontram estão muito pensados para os homens e que também influem os fatores econômicos.

“Quando em uma família há jovens estudantes, é mais provável que haja computador e que os pais queiram navegar com eles, mas isso sempre beneficia o pai e afeta negativamente a mãe. Ela não encontra tempo, exatamente por atender outras tarefas relacionadas aos filhos, enquanto para o pai acompanhá-los aumenta seu contato com o computador”, afirma Castaño.

Os estudos e a menor relação da mãe com o computador exercem uma grande influência nos filhos, mas essa questão as pesquisas não indagam.

Questão de talento?

A criatividade e o talento são fatores que as empresas dizem levar muito em conta na seleção e promoção do pessoal. Também são apreciadas no setor das novas tecnologias, pelo visto, embora os homens continuem ocupando os cargos de responsabilidade e as mulheres expondo queixas tradicionais que as impedem de quebrar o telhado de vidro tecnológico.

Nas entrevistas mantidas com diretoras e mulheres membros de conselhos administrativos do setor de novas tecnologias (sete mulheres e dois homens), percebe-se que entre os homens que chegaram aos altos cargos há uma experiência prolongada na empresa, pontilhada por promoções. Enquanto isso, as diretoras passaram por outros setores e demonstraram capacidade de adaptação e uma grande paixão por seu trabalho. “A maioria delas faz malabarismos para conciliar sua vida de trabalho e pessoal e teve de fazer sacrifícios. Eles também reconhecem obstáculos para avançar, mas pagam o preço com mais prazer”, diz o estudo de Cecilia Castaño.

“Fala-se em talento, mas quem o mede?”, diz Castaño. “Na hora da verdade, nos postos de responsabilidade das empresas entram pessoas mediante cotas políticas, nem sempre por talento. E as mulheres costumam ser invisíveis nisso”, explica. Castaño dá o exemplo da Orquestra Sinfônica de Boston: “Nunca entravam mulheres, até que fizeram uma audição às cegas; não se via o aspirante, e aí a coisa mudou”.

El País
http://www.elpais.com/

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Campanhas exploram o pensamento independente

Jeff Zeleny

A corrida para a Casa Branca, repleta de apelos à base de cada partido por quase um ano, nos próximos dias estará em grande parte nas mãos de eleitores que não se identificam com nenhum dos dois partidos.

Os candidatos republicanos e democratas estão apelando febrilmente aos independentes antes das primárias de terça-feira em New Hampshire, onde eleitores não afiliados são autorizados a votar na disputa de qualquer um dos partidos.

Apesar de haver disputa dentro dos partidos pelos votos não declarados, a disputa mais intrigante é entre dois candidatos de partidos opostos que cultivaram imagens antiestablishment: os senadores Barack Obama e John McCain.

Motivando tais eleitores, disseram estrategistas de campanha de ambos os partidos, está uma sede por mudança e um forte desejo de romper com o governo Bush. A preocupação com a guerra no Iraque, apesar dos recentes avanços na segurança lá, também permanece na mente dos eleitores independentes e contribui para uma inclinação para os democratas em New Hampshire.

Obama, de Illinois, transformou seu discurso de vitória democrata em Iowa, na noite de quinta-feira, em uma nova propaganda de TV aqui, voltada especificamente aos independentes, com um pedido de superação das divisões partidárias.

Ao mesmo tempo, McCain, do Arizona, apelou aos eleitores independentes que o ajudaram a derrotar George W. Bush na primária republicana daqui, há oito anos, dizendo: “Vocês não mudaram e nem eu”.

A disputa pelo voto independente, quase 45% do eleitorado daqui que não é registrado nem como democrata e nem como republicano, está se transformando em parte em uma batalha entre as campanhas dos dois homens. Os estrategistas acreditam que cerca de dois terços desses eleitores no momento estão inclinados para os democratas, os tornando particularmente chave para o esforço de Obama de conquistar uma segunda vitória consecutiva. Enquanto isso, McCain está tentando usar este grupo de eleitores para superar o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney.

“McCain está em uma batalha de duas frentes em New Hampshire”, disse Fergus Cullen, presidente do Partido Republicano de New Hampshire. “Ele está disputando os votos republicanos com Romney e está disputando os votos independentes com Obama.”

A disputa por esses eleitores pode envolver mais questões como serviço de saúde e a guerra do que qualidades amorfas como integridade e a capacidade de superar as divisões políticas. E a senadora Hillary Rodham Clinton explorou tal sentimento no sábado, dizendo: “Nós somos democratas, nós devemos defender um serviço de saúde universal, e mais independentes e republicanos estão finalmente entendendo que este é um imperativo moral e econômico.”

Ainda assim, em um encontro na prefeitura com McCain em Hudson, New Hampshire, Emily Rocheleau, uma independente de 22 anos, disse estar pesando suas opções entre McCain e Obama.

“Não significa necessariamente que todas as propostas deles são realmente moderadas, mas a retórica e abordagem deles à política são mais unificadoras para o país”, disse Rocheleau, que acrescentou que ainda não escolheu seu candidato.

Apesar de toda a conversa sobre a disputa entre os dois pelo voto independente, estrategistas políticos e analistas de pesquisas expressaram ceticismo de que McCain e Obama poderiam roubar eleitores um do outro. Mas a campanha de Obama prefere não se arriscar, destacando o apoio fervoroso de McCain à guerra no Iraque.

“Nós não estamos concorrendo na primária contra o senador McCain”, disse David Axelrod, estrategista chefe da campanha de Obama. “Eu não acho que seja um segredo que ele seja um forte defensor da guerra.”

“Não é possível vencer uma eleição em New Hampshire apenas com os votos democratas ou republicanos”, disse o deputado Paul Hodes, democrata do Estado, que contou com os votos destes eleitores não declarados quando tomou a cadeira de um deputado republicano aqui em 2006. “O voto independente é sempre o voto mais importante.”

Em Iowa, havia sinais de que Obama tinha sido bem-sucedido em atrair o apoio dos independentes. Ele e o restante do campo democrata conseguiram atrair um número recorde de eleitores para as convenções partidárias dali na noite de quinta-feira, incluindo muitos que nunca tinham participado de uma convenção partidária antes.

As autoridades em New Hampshire também estão prevendo um forte comparecimento dos eleitores na terça-feira, e se os independentes votarem nos democratas em grande número será uma evidência de que o forte desejo da esquerda de romper com as políticas de Bush também é compartilhado pelo eleitorado do centro.

“Nós tentaremos conquistar os democratas, independentes e republicanos”, disse Obama aos eleitores assim que chegou a New Hampshire, uma mensagem que pretende repetir continuamente enquanto se apresenta como um candidato que transcende o partidarismo.

Há oito anos, a candidatura presidencial de McCain foi ressuscitada por uma onda de eleitores independentes que o ajudaram a derrotar Bush por 18 pontos percentuais. Mas desta vez, o apoio de McCain à guerra no Iraque complicou seus esforços para conquistar os eleitores independentes na luta para derrotar Romney, Mike Huckabee, o ex-governador de Arkansas que venceu em Iowa, e outros candidatos republicanos.

Quando ele chegou em New Hampshire após ficar em segundo lugar em Iowa, Romney repentinamente mudou seu discurso, o temperando com muitos pedidos de mudança.

Os eleitores que não estão formalmente filiados a qualquer partido agora são um público particularmente crucial, porque a campanha em New Hampshire ficou comprimida em quatro dias após as convenções em Iowa. Os estrategistas de campanha disseram esperar que esses eleitores acompanharão cuidadosamente os debates republicano e democrata que serão realizados aqui no sábado, assim como comparecerão à enxurrada de eventos de campanha no fim de semana por todo o Estado.

Axelrod, apontando para a composição ideológica e demográfica dos eleitores independentes e candidatos pelos quais historicamente se sentiram atraídos, disse contar com eles para compensar a força de Hillary Clinton entre os democratas registrados.

E os analistas políticos locais concordam.

“Os eleitores não declarados poderiam estragar a festa de Hillary Clinton em prol de Barack Obama”, disse Dante J. Scala, um professor de ciência política da Universidade de New Hampshire. “Ele se sai muito melhor que Clinton entre os eleitores independentes.”

Apesar dos assessores de Hillary dizerem há meses que estão se concentrando nos eleitores independentes - particularmente as mulheres - ela está ajustando seus esforços nos dias que antecedem as primárias de New Hampshire. No sábado ele realizaria eventos voltados especificamente aos eleitores indecisos, assim como trabalharia para melhorar sua posição juntos aos eleitores jovens.

Mesmo assim, conselheiros de Hillary há muito consideravam a onda de eleitores independentes como um fator complicador para sua vitória em New Hampshire. Eles temem que os resultados das convenções em Iowa, alimentados pelo comparecimento incomumente alto de eleitores independentes, poderiam aumentar suas dificuldades em New Hampshire.

Apesar dos resultados da primeira disputa em Iowa terem dominado o noticiário local, conversas com os eleitores que participaram dos eventos políticos do fim de semana sugerem que muitos ainda estão indecisos.

“Eu estou checando eles todos”, disse Rose Thorn, 50 anos, de Nashua, que compareceu ao comício de McCain na noite de sexta-feira e pretendia comparecer ao de Obama no sábado.

Entre os candidatos republicanos, McCain espera conquistar pessoas como Thorn e seu marido, Ed, que contribuíram para sua vitória esmagadora aqui em 2000. Apesar de Ed Thorn ter declarado que votou em McCain “sempre que teve chance”, ele disse que ainda não se decidiu neste ano.

Nas últimas semanas, McCain tem buscado acentuar seu apelo bipartidário ao viajar por New Hampshire acompanhado do senador Joseph Lieberman, um independente de Connecticut com inclinação democrata. Ele também está abordando temas que os eleitores independentes dizem ser importantes para eles, incluindo a mudança climática, que McCain aborda mais do que seus rivais republicanos. Suas propostas para coibir as emissões de carbono se tornaram parte de seu discurso típico aos eleitores.

Restaurar a imagem dos Estados Unidos no mundo também é importante para esses eleitores, um tema que McCain explora quando argumenta que nada prejudica mais a reputação dos Estados Unidos quanto a manutenção das operações na prisão em Guantánamo, Cuba, e o fracasso em condenar explicitamente a tortura.

“Nós conquistaremos nossa parcela dos independentes”, disse Mike Dennehy, um antigo conselheiro de McCain em New Hampshire.

Michael Falcone, em Derry, New Hampshire, e Sarah Wheaton, em Hudson, New Hampshire, contribuíram com reportagem.

The New York Times
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Escassez de alimentos e HIV combinados em Uganda

David Tuller

Na clínica de Aids daqui, as histórias são brutais. Um jovem pastor de gado, infectado pelo HIV juntamente com sua esposa, me conta que todos seus quatro filhos morreram antes de completar 3 anos.

Uma mãe de cinco, também infectada, relata que após seu casamento ela foi forçada a ter relações sexuais com os três irmãos de seu marido, de acordo com a tradição tribal.

E a maioria dos pacientes que encontrei diz que eles e suas famílias lutam para conseguir se alimentar, nunca longe do limiar da fome. Muitos dizem que as drogas anti-HIV aumentaram drasticamente seu apetite e os fazem ansiar por mais comida.

“Às vezes sinto tanta fome”, diz um viúva de 44 anos. “É tão intensa. Meu corpo todo treme de fome. Mesmo quando acabo de comer, sinto fome novamente minutos depois. É um grande problema, porque nem sempre tenho comida.”

Como jornalista e estudante de pós-graduação em saúde pública, eu estou em Uganda para cinco semanas como membro de uma equipe de pesquisa que investiga se a “insegurança alimentar” -a dificuldade persistente de encontrar o suficiente para comer- mina a eficácia do tratamento contra HIV.

Eu estou entrevistando dezenas de pacientes -anonimamente, como é a norma em tais pesquisas qualitativas- sobre o que eles comem, quanto alimento dispõem, se o cultivam ou o compram e se os efeitos colaterais dos medicamentos são piores se tomam as pílulas de estômago vazio. Nossa equipe também quer saber se os custos relacionados ao tratamento limitam sua capacidade de comprar alimentos básicos e se a fome força as mulheres a aceitarem fazer sexo sem preservativo em troca de alimento ou dinheiro.

O estudo faz parte de uma colaboração entre a Universidade da Califórnia, em San Francisco, e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Mbarara, uma instituição de prestígio nesta pequena e movimentada cidade a sudoeste de Kampala, a capital de Uganda. Outros pacientes serão acompanhados por dois anos para monitoramento de como a insegurança alimentar afeta seus regimes de medicamentos, doenças e taxa de mortalidade.

Doadores ocidentais aumentaram a distribuição de drogas anti-retrovirais na África sub-Saara. Mas fizeram pouco para assegurar que aqueles que as recebem não morram de fome ou tenham que optar entre pagar por transporte até a clínica ou alimentar seus filhos. Estudos como este buscam demonstrar que embalar ajuda alimentar juntamente com as drogas anti-HIV ou reembolsar os pacientes pela viagem podem melhorar a saúde e salvar vidas.

Uganda foi saudada por seu sucesso em reduzir o número de infectados pelo HIV, com a prevalência entre adultos caindo para menos de 7% em 2005, em comparação a 15% em 1991. Tal sucesso não é aparente do meu posto de observação, um pequeno escritório de canto em uma clínica daqui.

Toda manhã dos dias úteis, mais de 100 pessoas lotam a clínica. Cerca de dois terços são mulheres, muitas envoltas em cores brilhantes. Os homens freqüentemente se recusam a serem examinados ou a procurar tratamento. Os pacientes se amontoam em bancos nos corredores, carregando crianças e aguardando para passar por médicos ou orientadores e pegar sua cota mensal de medicamentos.

As mulheres, em particular, enfrentam o que antropólogos médicos chamam de “violência estrutural”, as restrições sociais, culturais e legais que freqüentemente tomam delas o controle sobre seus próprios destinos e o de seus filhos.

Seus relatos de surras, negligência e estupro, e maridos e namorados infiéis e ausentes, não mostram exatamente as qualidades mais atraentes do ser humano do sexo masculino. Mais de uma mulher me diz que foi infectada porque seu companheiro HIV positivo a ameaçou de abuso ou abandono caso se recusasse a fazer sexo sem preservativos.

“Eu costumava dizer ao meu marido que devíamos usar camisinha, mas ele se recusava”, diz uma mãe de quatro com tom mais resignado do que amargo. “Se não fizesse sexo sem preservativo, ele se recusaria a trazer comida para casa ou a cuidar das crianças.”

A maioria das pessoas entrevistadas cultiva parte ou toda sua comida, ou cultivam terrenos de outras pessoas em troca de itens básicos. Os pratos básicos são o matoke, um mingau rico em carboidratos feito de banana-da-terra, e posho, um mingau rico em carboidratos feito de farinha de milho. Eles são servidos com “molho”, se disponível -feijão, uma pasta feita de amendoim ou outra fonte de proteína. Carne, frango e peixe são luxos. Muitas famílias só podem comprá-los uma vez por ano, quando conseguem.

Para conseguir se sustentar, os pais realizam triagens desesperadas, navegando entre decisões ruins e ainda piores.

Se permitirem que seus filhos famintos comam tudo o que a família cultiva, eles não terão nada para vender no mercado. Se não venderem parte da colheita, eles não terão dinheiro para a visita mensal à clínica para pegar os medicamentos que os mantêm vivos.

Mas toda vez que vão até a clínica, eles perdem um dia inteiro de trabalho e gastam um dinheiro que poderia ser usado para alimentar as crianças.

“Eu me sinto mal por ter gasto o dinheiro em transporte quando poderia tê-lo gasto em outra coisa”, diz uma mãe. “E nos dias que passo na clínica, é claro, eu sei que não realizarei o trabalho necessário.”

Ouvindo os relatos de pobreza e privação, eu me sinto impotente e miserável. Eu prometo a mim mesma que nunca mais considerarei uma refeição decente como sendo certa.

Eu tenho vontade de esvaziar meus bolsos e distribuir dólares para cada paciente que entrevisto. Em vez disso, eu lhes compro uma xícara de chai, um chá africano leitoso, na cantina da clínica. O chai custa 300 xelins ugandenses, ou 18 centavos de dólar. Para a maioria, é um luxo fora de seu alcance.

Às vezes me pergunto qual é o sentido de pesquisar isto? Por que simplesmente não dar comida para pessoas tão obviamente necessitadas? Mas os doadores internacionais exigem dados e documentação. Eles querem prova de que a intervenção reduzirá o índice total de miséria antes de desembolsarem milhões de euros em novos programas, mesmo quando a necessidade parece evidente.

Eu voltarei para casa quando meu trabalho aqui for concluído. Eu analisarei os dados, escreverei minhas conclusões e esperarei que aquilo que faço possa contribuir de algum forma para a mudança.

Os homens e mulheres que conheci viajam até a clínica uma vez por mês, se conseguirem juntar US$ 5 ou US$ 8 pela passagem de ônibus. Eles passam por uma consulta, pegam seus medicamentos na farmácia e se perguntam onde encontrarão feijão e matoke suficiente para alimentar seus filhos amanhã.

The New York Times
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