Marinha mercante emite 4,5% do CO2 mundial
Estudo triplica estimativa inicial sobre emissão de gás do efeito estufa por navios. Pesquisa a pedido da ONU coloca navegação comercial entre os grandes "vilões" da mudança climática; emissão é o dobro da do setor aéreo.
Paulo Whitaker-3.set.2004/Reuters
Navio é carregado no Porto de Santos com máquinas agrícolas
DA FRANCE PRESSE
As emissões de CO2 da marinha mercante mundial pelos sete mares afora é três vezes maior do que se imaginava. A informação consta de um relatório produzido pela ONU (Organização das Nações Unidas) e obtido pelo jornal inglês "The Guardian", que publicou os resultados do trabalho ontem.
O levantamento mostra que os navios lançam todos os anos na atmosfera 1,1 bilhão de toneladas de gás carbônico. Isso transforma o setor em um dos maiores vilões do aquecimento global. Sozinha, essa quantidade de gás corresponde a 4,5% de todas as emissões provocadas pelas atividades humanas.
Os navios se juntam agora aos carros, à construção civil, à agricultura e à indústria como os setores mais poluidores. Pelas contas anteriores do IPCC, o painel de Mudanças Climáticas da ONU, os navios lançavam para atmosfera algo próximo dos 400 milhões de toneladas de gás carbônico ao ano.
"Isso é claramente uma falha do sistema", afirmou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC. "O setor mercante vem escapando. Ele tem ficado fora do foco das discussões sobre as mudanças climáticas globais", afirmou o pesquisador.
Na comparação direta com a aviação civil, os navios que cortam os oceanos estão em franca desvantagem. Projeções feitas por grupos europeus, e pelo IPCC, indicam que a emissão anual dos aviões é algo ao redor dos 650 milhões de toneladas de gás carbônico. As companhias aéreas, pressionadas pela opinião pública, já tentam desenvolver meios de redução das suas emissões.
"Espero que a contribuição dos navios seja incluída no próximo acordo da ONU", disse Pachauri. Apesar de o IPCC ter alertado para a necessidade de corte nas emissões do setor de transporte marítimo em seu relatório sobre de mitigação do efeito estufa, esse item não consta das metas apresentadas pela UE (União Européia).
Limpando os motores
O resultado, feito com base em dados obtidos com as distribuidoras de combustível e com as empresas mercantes, poderá impactar não apenas a UE.
Alguns governos nacionais, como o inglês, um dos patrocinadores do estudo, desprezaram o transporte marítimo em seus cálculos de emissão, por acharem que a contribuição do setor era menor que 2% do total e, por isso, desprezível.
Em compensação, segundo o quarto relatório do IPCC, o setor marítimo tem uma vantagem sobre o aéreo. A implementação de tecnologias modernas, tanto em frotas antigas quanto nas novas, pode reduzir as emissões do setor em até 28% nos próximos 12 anos.
O mesmo estudo mostra que o poder de mitigação de novas tecnologias para aviões deve causar no máximo 12% de redução das emissões aéreas.
O setor de transportes, apesar de altamente poluidor, é um dos que têm menos a ganhar com novas tecnologias, diz o IPCC. Se tudo fosse feito corretamente seria possível evitar a emissão de 1,6 bilhões de toneladas de gás carbono até 2030.
Folha de S. Paulo
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 206.