Arquivo de 15 de Fevereiro de 2008

Hegel e a ascensão do Mundo Germânico

Escritor notoriamente obscuro, o filósofo George W.F. Hegel, nascido no ano de 1770 em Stuttgard, na Alemanha, se fazia melhor entender quando proferia lições. Graças a isso, seus alunos da Universidade de Berlim que as freqüentaram permitiram que as anotações de classe deles, logo em seguida a morte do mestre, ocorrida em 1831, fossem publicadas em livros: um deles com o título de Vorlesungen über die philosophie der Geschichte (”Lições sobre a Filosofia da História Universal”), assegurando que as Nações Germânicas, sucessoras do Império Romano, tinham como missão levar a liberdade ao mundo.

Em Berlim

Numa ocasião anterior, o filósofo, então com mais de 40 anos de idade, rejeitara o convite que lhe fizeram para vir assumir a cátedra de filosofia da Universidade de Berlim Na segunda oportunidade, renovada a proposta em 1818, ele aceitou-a, mudando-se então de Heidelberg, onde lecionava, para a capital da Prússia. A posição que ele assumiu era politicamente estratégica, somente alguém de confiança do rei Frederico Guilherme III (1797-1840) poderia ter assento fixo naquela instituição, que recém fora fundada por Wilhelm von Humboldt, em 1810, particularmente a filosofia, disciplina formadora das elites funcionais e burocráticas do estado prussiano. Ele atingira a celebridade no meio acadêmico com a publicação do livro Phenomenologie des Geist (”A Fenomenologia do Espírito”), em 1807, obra dificílima mas arrebatadora, um dos marcos do idealismo alemão daquela época. Nas suas lições, suas idéias foram expostas com mais clareza e melhor entendimento o que tornou possível entrever a sua filosofia da história. Nelas, Hegel separou a história ocidental em três macro-momentos por assim dizer: o primeiro deles fora dominado pelo Mundo Grego, o segundo pelo Mundo Romano e o terceiro e último pelo Mundo Germânico, ao qual ele dedicou especial atenção.

Mais de dez anos haviam passado entre a edição da “Fenomenologia” e as primeiras lições ministradas, e muito a Europa mudara desde então. O filósofo chegou a ver Napoleão do alto de uma sacada em Iena quando o imperador marchava para a batalha em que prostrou a Prússia, em 1806; todavia quando das aulas em Berlim, o corso, derrotado em Waterloo, em 1815, estava confinado na Ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico Sul, preso como se fora Prometeu acorrentado. O que poderia extrair-se disso?

Como tantos outros filósofos antes dele, Hegel adotou nas “Lições” uma cronologia da história que apontava para a existência de uma marcha do espírito que, periodicamente, se materializava num povo ou numa cultura. Num primeiro momento ele aparecera como grego, em seguida como romano, agora chegara a vez dos germanos. Havia algum tempo que pensadores, particularmente alemães, tinham a firme crença de que a civilização mediterrânea (isto é, a greco-romana-bizantina) entrara em declínio para não mais despertar e que, doravante, eram os “povos nórdicos” quem conduziriam a tocha do Ocidente.

O filósofo Leibniz chegou a usar esse argumento frente ao czar Pedro I, o Grande, em 1698, para convence-lo a abrir uma academia de ciências em São Petersburgo. Os ares da civilização, deixando as praias quentes do Mediterrâneo, sopravam agora para a outra parte do hemisfério, para os lados da Germânia.

É bem possível que Hegel entendesse a derrota definitiva de Napoleão em Waterloo, imposta por uma coligação de exércitos anglo-prussianos, como uma confirmação do fim da era latina e sinal da ascensão de um novo império: o do mundo germânico. Seja como for, ele foi categórico em associar a modernidade à hegemonia dos seus conterrâneos sobre o Ocidente.

Os germanos em meio aos romanos

Povo bárbaro, vivendo na periferia das fronteiras do Império dos Césares, separados dele pelos rios Reno e Danúbio, os germanos num primeiro momento importaram tudo dos romanos: especialmente cultura e religião. Quando durante as grandes invasões se apropriaram de boa parte do território ocidental, se converteram em massa ao cristianismo, fundindo então o mundo temporal ao espiritual, sem fazerem distinções. Ainda que rudes e ignorantes, eles injetaram sangue novo no corpo carcomido e corrompido das instituições que outrora faziam parte do domínio romano. Em meio às ruínas de um estado decadente, quando não em farrapos, e uma igreja cristã ainda claudicante, os germanos trouxeram consigo algo palpitante: um “Espírito Livre”. Talvez resquício das folganças da vida em meio às florestas da Teutônia, onde as decisões eram tomadas em assembléias nas clareiras dos bosques, à sombra das árvores. (*)

Esta situação encaminhou-se então para a formação do Império Carolíngio, quando Carlos Magno estruturou a Monarquia Feudal e deu respaldo ao Papado, selando uma aliança entre a coroa e a mitra, na qual uma dava apoio à outra. Ocorre que tal aproximação do Estado com a Igreja engendrou uma dura servidão aos povos europeus, submetidos a um duplo jugo estabelecido pelo trono de César e pelo altar de São Pedro. Foi preciso esperar-se a Reforma liderada por Martim Lutero (”O Sócrates do Mundo germânico”), para que o espírito livre dos antigos germanos voltasse a predominar. Serviram as 95 Teses de Lutero, afixadas nas portas da catedral de Wittenberg, como um soar do clarim para a revolta dos príncipes germânicos contra o despotismo do imperador e dos crentes comuns contra as injurias e imoralidades da igreja romana. A Alemanha sacudira a canga a que estivera submetida. É perante um novo estado racional, despido do passado despótico, orientado no sentido da ética e da justiça, que as consciências deviriam então se submeter.

(*) O Barão de Montesquieu era um dos que acreditavam que a liberdade chegara às áreas ocidentais do antigo império romano trazida pelos ares mais soltos das florestas da Germânia. Isso é que explicava os franceses tornarem a palavra affranchi (derivada das tribos franco-sálicas originadas da Francônia alemã), sinônimo de liberdade, de independência.

A chegada do Progresso

A antiga Monarquia Romana que ainda sobrevivia na Monarquia Universal de Carlos V, secara. A dissolução dela, acelerada pela insurgência de Lutero, abriu caminho para a constituição dos estados livres germânicos, cada um deles tendendo à independência, ainda que mantendo mútuas inclinações (que iam da amizade às declarações de guerra).

O espírito germânico, liberto da servidão, recuperado frente a si mesmo, torna-se então “o espírito do mundo moderno”, cujo fim era alcançar a “verdade absoluta”, como “autodeterminação absoluta da liberdade”. Todavia, isso lhe trouxe encargos. A simbiose do Germanismo com o Cristianismo obrigou as nações alemãs a alimentar “os portadores do principio cristão”, cabendo a elas “promover a liberdade espiritual”.

A nova era que se abria em frente, depois de desmontar o antigo edifício da tradição e dos costumes, tratou de cultivar o pensamento, procedendo na reconstituição dos estados segundo as novas normas. A vida pública passou a organizar-se com a consciência de acordo com a razão, sendo que os direitos precisavam ser legitimados em bases de princípios racionais, para melhor realizar a liberdade do espírito.

Observe-se que no orgulho étnico exaltado por Hegel, particularmente no seu discurso inaugural na cátedra de filosofia, pronunciado em outubro de 1818, não havia nenhuma nota de ardor imperialista, pois no entendimento dele a Alemanha devia se expor aos olhos do universo como exemplo da autonomia conquistada, como a nação onde o povo e o seu rei uniram-se para por um fim na tirania exercida pelo invasor francês. Era esse espírito livre dos germanos que se manifestaria agora através da filosofia tornada ciência; uma força intelectual que desafiando a religião era capaz de abarcar o todo. Apoiada pelo estado, ela poderá então dar vazão “ao livre império do pensamento”, ao lado do governo do mundo real. Era pois pelas mãos dos germanos, pela aliança da Filosofia com o Estado, que a humanidade finalmente se emanciparia.

Terra Educação
http://noticias.terra.com.br/educacao

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Cuba vota sem saber se muda

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Neste domingo os cubanos elegerão os 614 membros da Assembléia Nacional, todos referendados pelo Partido Comunista. Fidel Castro é um deles, o que significa que continuará tendo um papel institucional.
"Morrerá com botas calçadas", assegurou um jovem membro dos Comitês de Defesa da Revolução, citado pelo "El País". Com isso ele manifestou convicção de que nada muda. Os novos parlamentares designarão o novo presidente dos conselhos de Estado e de ministros. Sobre essa escolha recaem atenções, já que ela define a forma de continuidade de Fidel no poder -se ocorrer.
Uma primeira etapa já se cumpriu -a seleção dos 15.236 membros das 169 Assembléias Municipais do Poder Popular. Não necessariamente militantes do Partido Comunista, os candidatos se apresentam, com suas biografias, são propostos em reuniões de bairros e são designados por meio de mãos levantadas. Nunca obteve assento alguém que pudesse ser considerado de oposição.
Agora é a vez de chegar ao topo, de onde saem ordens e decisões que configuram o regime cubano. Fidel é a cabeça dessa engrenagem desde 1976, quando terminou sua montagem. Comandante é desde a derrota da ditadura de Batista.
Haverá afinal alguma alteração? Fidel é também primeiro-secretário do Partido Comunista, e só um Congresso, algo que não acontece há dez anos, pode substitui-lo. Não há dúvida de que Fidel continuará tendo, no mínimo, a sua cadeira de deputado. Mas o "Monde" colocou algumas perguntas aparentemente em circulação. Será mantido o chamado "voto único", em favor dos 614, inclusive Fidel, agrupados num só bloco? Quantos se decidirão pela dissidência, sob a forma de abstenção ? Isso acontecerá?
O "voto único" é apresentado como "demonstração de unidade patriótica e de forte apoio ao socialismo", em face de ataques dos EUA. Só a existência de especulações a respeito já é fato contundente que se encaixa num contexto mais amplo.
O próprio Raúl Castro, substituto interino de Fidel, fala de "excesso de proibições e de medidas legais que fazem mais mal do que bem". Diz-se que 5 milhões de cubanos participaram de 215 mil reuniões e fizeram mais de 1 milhão de propostas relacionadas com o discurso no qual Raúl falou da "necessidade de mudanças estruturais" que não se materializaram. Expectativas caíram num vazio, definido por um acadêmico cubano, membro do PC, como a "ilusão das mudanças". Não se sabe que alcance teriam (ou terão) essas mudanças, "mas é o que todos querem".


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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Djavan - Lambada de Serpente

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Queen - Another one bites the dust

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Defesas Celulares e a vitamina do Sol

Cientistas reconhecem que a vitamina D faz mais que contribuir para o fortalecimento dos ossos. Mas a maioria das pessoas não a obtém em quantidades satisfatórias. Essa deficiência estaria contribuindo para o avanço de doenças mais graves?

Luz E. Tavera-Mendoza e John H. White

A cura pelo Sol, como era chamada no começo do século 20, era o único tratamento eficaz conhecido contra a tuberculose antes do advento dos antibióticos. Embora não se soubesse ao certo o porquê, geralmente os pacientes tuberculosos enviados para tratamentos em localidades ensolaradas conseguiam recuperar a saúde. A helioterapia foi descoberta em 1822, por causa de outra epidemia histórica, a do raquitismo – doença infantil deformadora, caracterizada pela falta de resistência óssea. O auge do raquitismo ocorreu nos séculos 18 e 19, na Europa, coincidindo com a industrialização e o aumento da migração do campo para cidades com ar poluído. Nessa época, um médico da Varsóvia observou que eram raros os casos dessa doença no interior da Polônia. Ele começou a conduzir experiências com crianças urbanas e constatou ser possível curar o raquitismo com simples banhos de sol.

Em 1827, um cientista francês descobriu que também o óleo de fígado de bacalhau possuía excelentes propriedades para combater o raquitismo, mas o tratamento não se popularizou; em parte, porque a noção de micronutrientes invisíveis e vitais para a saúde, contidos nos alimentos, ainda não era bem compreendida. E quase um século se passaria antes que os cientistas estabelecessem a ligação entre a cura do raquitismo pela alimentação e os efeitos benéficos do sol. No início do século 20, depois de incluir pele irradiada na alimentação de ratos com raquitismo induzido artificialmente, pesquisadores constataram que ela apresentava as mesmas propriedades curativas que o óleo de fígado de bacalhau. O elemento crítico comum à pele e ao óleo de bacalhau foi finalmente identificado em 1922. Na verdade, ele imitava a vitamina D. Àquela altura, o conceito das “aminas vitais” (ou “vitalamines”, em inglês) já tinha se tornado popular e as pesquisas posteriores sobre as funções da vitamina D no organismo foram responsáveis por definir sua imagem como um dos micronutrientes indispensáveis que as pessoas podem obter a partir dos alimentos.

A associação com o raquitismo também guiou boa parte das pesquisas em vitamina D, nos 50 anos seguintes, na busca para entender o papel das moléculas na formação óssea e sua atividade nos rins, no intestino e na estrutura óssea, ajudando a controlar o fluxo de entrada e saída de cálcio dos ossos na corrente sangüínea. Nos últimos 25 anos, no entanto, os estudos sobre as funções da vitamina D se expandiram, revelando que a chamada vitamina solar faz muito mais que construir ossos. Farta evidência agora comprova que a vitamina D tem potente ação anticancerígena e também atua como importante regulador das respostas do sistema imunológico. No entanto, muitos de seus benefícios recém-descobertos são maximizados apenas quando ela está presente na corrente sangüínea em níveis consideravelmente superiores aos encontrados nas populações modernas. Essas descobertas, somadas aos dados epidemiológicos que associam a carência de vitamina D a essas enfermidades, reforçam a possibilidade de essa deficiência realmente contribuir para um grande número de doenças.

Um Interruptor Versátil
Para entender as recentes descobertas sobre a vitamina D vale primeiro relembrar o que ela é de fato e como é aproveitada pelo corpo humano. A molécula conhecida como vitamina D pode ser obtida de uma fonte limitada de alimentos, como peixes gordurosos e óleo de peixe, e, mais recentemente, de suplementos alimentares. Mas somos também capazes de sintetizá-la a partir de uma reação química, que ocorre na pele quando exposta à radiação ultravioleta B (UVB). Portanto, a rigor, a vitamina D não deve ser considerada uma vitamina, pois a exposição moderada à UVB dispensa a necessidade de a incluirmos em nossa dieta. Entretanto, como nas regiões de clima temperado os raios UVB são insuficientes para induzir sua síntese pela pele, ao menos durante seis meses por ano, a ingestão diária é indispensável (ver quadro na pág. oposta).

Em geral, o termo “vitamina D” se refere coletivamente a duas moléculas muito parecidas, provenientes de cada uma dessas fontes. A vitamina D3, também conhecida como colecalciferol, é produzida por células da pele chamadas queratinócitos, a partir de um produto residual do colesterol, o 7-dehidrocolesterol, em resposta aos raios UVB. A vitamina D2 ou ergocalciferol é derivada de um esteróide vegetal similar e a molécula resultante apresenta pequenas diferenças estruturais em relação à D3. No entanto, nenhuma dessas duas versões tem qualquer atividade biológica no organismo. Primeiramente, cada molécula deve ser modificada por uma série de enzimas relacionadas em um processo chamado hidroxilação, que acrescenta dois terços de água à molécula a fim de gerar 25-hidroxivitamina D (ou 25D).

Essa conversão ocorre basicamente no fígado, mas vários tipos de células epiteliais também estão aptos a produzir a transformação localmente. A 25D produzida pelo fígado é, sem dúvida, a principal forma de vitamina D em circulação na corrente sangüínea. Sempre que o organismo necessita, a conversão final para a forma biologicamente ativa é requisitada – a 25D é novamente hidroxilada e se transforma em 1,25-disihidroxivitamina D (ou 1,25D). A enzima encarregada dessa função, a 1-hidroxilase, foi identificada primeiramente nos rins, e a síntese renal é responsável por gerar boa parte do estoque de 1,25D circulante do organismo.

No entanto, os cientistas hoje também constataram que vários outros tecidos, incluindo as células do sistema imunológico e a pele, são capazes de produzir a enzima e realizar a conversão da 25D, por si só. Portanto, a pele é o único órgão capaz de produzir biologicamente a 1,25D ativa em presença dos raios UVB, do princípio ao fim. Embora a produção local de 1,25D a partir da 25D circulante em outros tecidos seja uma fonte substancial da atividade biológica da vitamina D no organismo e desvalorizada até pouco tempo. Ainda assim, uma vez considerada a atividade da vitamina D, fica fácil compreender porque a capacidade de metabolizar a sua forma ativa para uso local pode ser importante para certos tipos de células.

A molécula 1,25D funciona como um interruptor, capaz de acionar ou desligar os genes em quase todos os tecidos do corpo humano. Essa forma da vitamina D atua ligando-se a uma proteína conhecida como receptor de vitamina D (VDR, em inglês), que serve como fator de transcrição dentro do núcleo de uma célula. Uma vez capturada pela 1,25D, a proteína VDR busca uma proteína companheira, o receptor do retinóide-x (RXR), e o complexo que formam se conecta a uma região específica do DNA adjacente da célula em um gene alvo. Sua ligação com o DNA induz o mecanismo celular a iniciar a transcrição do gene mais próximo em uma forma que a célula traduzirá em proteína.

Ao fazer com que a célula produza uma determinada proteína, a 1,25D altera a função celular, e essa capacidade de acionar a atividade dos genes em diferentes células é a base dos efeitos fisiológicos disseminados da vitamina D. Como ela é uma substância produzida em um tecido, mas que circula através do organismo influenciando muitos outros tecidos, tecnicamente também é um hormônio. Na verdade, a VDR pertence a uma família de proteínas conhecida como receptores nucleares, que respondem a hormônios esteróides potentes, como o estrogênio e a testosterona.

Acredita-se que pelo menos mil genes diferentes sejam regulados pelo 1,25D, incluindo diversos envolvidos no processamento de cálcio pelo organismo, responsável pela fama do papel da vitamina D na formação óssea. Nas últimas duas décadas, no entanto, cientistas identificaram muitos outros genes influenciados pela atividade da vitamina D no organismo, incluindo genes com papéis decisivos em diversas defesas celulares.

Vitamina D Dá uma Força
Desde a década de 80, várias linhas de pesquisa apontam para o efeito protetor da vitamina D contra o câncer. Muitos estudos epidemiológicos sugerem uma íntima relação inversa entre a exposição à luz solar e a incidência de certos tipos de câncer. Estudos em animais e culturas celulares reafirmam essa associação, e ajudam a desvendar os mecanismos que podem estar envolvidos.

Em camundongos modificados que desenvolveram câncer de cabeça e de pescoço, por exemplo, um composto chamado EB1089, sintético análogo à 1,25D, reduziu o crescimento tumoral em 80%. Resultados semelhantes foram encontrados em animais modificados com câncer de mama e de próstata. A identificação de genes ativados por essas versões sintéticas da vitamina D tem ajudado a explicar essas reações. O crescimento desordenado, ou proliferação, é marca registrada das células tumorais e o EB1089 tem tido êxito ao suprimir a capacidade de multiplicação das células alterando a atividade de um número de genes diferentes. Um gene fortalecido pelo composto – o GADD45 – é um conhecido inibidor do crescimento em células normais com DNA danificado, reduzindo assim o risco de se tornarem cancerosas.

Uma outra dezena de genes envolvidos no gerenciamento de energia da célula e na autodesintoxicação celular também foram associados à ação anti-tumorigênica do EB1089. Esse composto experimental, quimicamente projetado para ter atividades idênticas à da 1,25D sem provocar o acúmulo de níveis tóxicos de cálcio na corrente sangüínea e tecidos do organismo, é uma das muitas terapias em potencial para tratar o câncer, desenvolvidas pelas companhias farmacêuticas para tirar proveito das potentes propriedades antitumorigênicas da vitamina D.

De fato, nosso grupo do laboratório da McGill University também pesquisou as ações da vitamina D relativas ao câncer, em 2004, quando inadvertidamente deparamos com uma forma totalmente distinta de defesa fisiológica controlada pela 1,25D. Muitos dos genes regulados pela vitamina D foram descobertos ao longo dos últimos anos por cientistas que faziam uma varredura de partes do genoma humano, buscando os elementos de reação da vitamina D (VDREs, em inglês) – as seqüências distintivas do código de DNA adjacente aos genes, aos quais o complexo protéico VDR-RXR se liga. Em colaboração com Sylvie Mader, da University of Montreal, usamos um algoritmo criado em computador para fazer uma varredura do genoma completo, pesquisando VDREs e mapeando suas posições em relação aos genes próximos.

Embora esses estudos de mapeamento tenham contribuído consideravelmente para a compreensão das ações anticancerígenas da vitamina D, eles também revelaram VDREs posicionados nas proximidades de dois genes que codificam peptídeos antimicrobianos, chamados catelicidina e beta-defensina 2. Essas pequenas proteínas agem como antibióticos naturais contra um amplo espectro de vírus, bactérias e fungos. Conduzimos estudos nessa direção em culturas de células humanas e descobrimos que a exposição à 1,25D provocou um aumento relativamente modesto na produção do peptídeo beta-defensina 2 das células. No entanto, em numerosos tipos de células – incluindo aquelas do sistema imunológico e queratinócitos –, o aumento na produção de catelicidina foi dramático. Em seguida, demonstramos que células imunológicas tratadas com 1,25D, quando expostas a bactérias patogênicas – presumivelmente a catelicidina – liberaram fatores que dizimaram as bactérias.

Philip Liu e Robert Modlin, da University of California, em Los Angeles, e seus colaboradores avançaram significativamente nessa linha de pesquisa no ano passado, demonstrando que as células imunológicas humanas reagem às paredes das células das bactérias produzindo tanto a proteína VDR quanto a enzima que converte o 25D circulante na 1,25D biologicamente ativa. Nos experimentos do grupo, esses eventos induziram as células imunológicas a começar a produzir a catelicidina, passando a exercer atividade antimicrobiótica contra uma variedade de bactérias, incluindo a que talvez seja a mais intrigante: a Mycobacterium tuberculosis. Assim, pela primeira vez, a equipe revelou um embasamento plausível para a eficácia misteriosa da cura da tuberculose pelo Sol: os convalescentes que tomaram banhos de sol, obtendo dose extra de vitamina D, devem ter abastecido suas células imunológicas com o material bruto necessário para gerar um antibiótico natural que combate a bactéria da tuberculose.

Conforme as dúvidas sobre a fisiologia da vitamina D foram sendo esclarecidas, os pesquisadores perceberam que um número de ações protetoras da vitamina D no organismo pode ter envolvido algumas das funções originárias da fonte da molécula na pele. A ação inibidora de crescimento da 1,25D sobre as células cancerígenas faz sentido nessa linha, pois é sabido que a exposição excessiva à UVB é maléfica ao DNA das células epiteliais, podendo levá-las a desenvolver o câncer. Alguns ainda especulam que a reação antimicrobiana regulada pela vitamina D é uma adaptação que deve ter se desenvolvido para compensar o papel dessa vitamina como supressora de outras reações do sistema imunológico – mais especificamente, aquelas que levam à inflamação excessiva. Muitos de nós sabemos também, por experiência própria, que uma exposição exagerada à UVB causa queimaduras na pele, que em nível tissular resulta em acúmulo de fluido e inflamação. Embora uma quantidade limitada de inflamação seja um mecanismo benéfico para a cicatrização, e ajude o sistema imunológico a combater infecções, o excesso pode provocar um verdadeiro tumulto.

Então, talvez não seja surpreendente que vários estudos apontem que a 1,25D também age como agente antiinflamatório ao influenciar as interações das células imunológicas. Por exemplo, diferentes subtipos de células imunológicas se comunicam por fatores de secreção chamados citocinas para dar início a um tipo específico de resposta imunológica. Já ficou comprovado que a vitamina D suprimiu exageradamente as respostas inflamatórias, inibindo interferências da citocina.

Evidências diretas do papel natural da vitamina D na prevenção da inflamação foram encontradas pela primeira vez em experiências com animais, no início da década de 90, e mostraram que os camundongos tratados com a 1,25D ficavam protegidos contra a inflamação geralmente associada a feridas e ao irritante químico dinitrobenzeno. Por outro lado, camundongos com deficiência em vitamina D apresentaram hipersensibilidade aos mesmos agressores. Essa função imunossupressora da vitamina D imediatamente sugeriu uma série de novas possibilidades terapêuticas por meio de sua utilização, ou dos seus análogos, para controlar doenças imunodeficientes supostamente causadas por respostas superativas das citocinas, como a diabetes auto-imune, esclerose múltipla e síndrome do cólon irritável.

Deficiência Epidêmica?
O reconhecimento de que a 1,25D possui ampla gama de atividades biológicas muito além do seu papel na homeostase do cálcio trouxe um profundo alívio a uma grande quantidade de evidências epidemiológicas de que a carência em vitamina D esteja relacionada a certos tipos de doenças, entre elas o câncer, doenças auto-imunes e até mesmo infecciosas, como a gripe. Essa falta de vitamina D também deve estar relacionada às variações sazonais nas taxas de enfermidades. Além disso, muitas das reações fisiológicas à vitamina D reconhecidas, confirmadas tanto em laboratório quanto em testes clínicos, foram otimizadas apenas quando concentrações de 25D circulante são mais elevadas que a média em muitas populações. Membros da comunidade de pesquisadores em vitamina D chegaram, portanto, a inegável consenso de que um número expressivo de pessoas, em regiões de clima temperado, apresentam níveis de vitamina D bem inferiores às concentrações recomendadas como saudáveis, principalmente durante os meses de inverno.

Os raios UVB têm penetração atmosférica mais direta nos trópicos que nas regiões temperadas do planeta, que só podem contar com uma quantidade substancial deles nos meses de verão. E como para a maioria das pessoas a principal fonte de vitamina D é a exposição aos UVB, os níveis de 25D circulante nas populações de regiões temperadas diminui à medida que a latitude aumenta, embora variações numa dada latitude possam ser acentuadas por causa das diferenças de etnias e da alimentação, bem como variações no clima local e na altitude. Considerando as atividades reguladoras de genes observadas na vitamina D, há clara associação entre o aumento de latitude e a elevação do risco de diversas doenças, mais freqüentemente enfermidades auto-imunes, como a esclerose múltipla.

A esclerose múltipla é uma doença crônica progressiva, provocada pelo ataque das células imunológicas à bainha de mielina protetora que envolve as fibras nervosas do sistema nervoso central. Sua incidência é significantemente mais elevada em áreas mais afastadas do equador, na América do Norte, Europa e Austrália; e muitas evidências convincentes sugerem que esse padrão resulta da menor exposição aos raios UVB. A progressão da doença e o agravamento dos sintomas também apresentam clara variação sazonal, com o período de maior atividade da doença na primavera (quando os níveis de 25D circulante pós-inverno decaem) e a menor atividade da doença no outono, após a dose extra de D3 do verão. Cientistas da University of Southern California descobriram, por exemplo, uma relação inversa em 79 pares de gêmeos idênticos entre o aumento da exposição solar na infância e o risco futuro de desenvolvimento da esclerose múltipla. Os gêmeos que passaram mais tempo ao ar livre na infância apresentaram uma propensão 57% menor à doença.

Padrões semelhantes de risco de desenvolvimento de enfermidades foram registrados para a diabetes auto-imune e para a doença de Crohn, uma afecção intestinal inflamatória auto-imune, bem como para certos tipos de malignidade. As taxas de câncer de bexiga, mama, cólon, ovário e reto entre as populações dobram do sul para o norte dos Estados Unidos, por exemplo.

Além dos diversos estudos que relacionam a exposição solar à incidência de doenças, pesquisas recentes estabeleceram conexões parecidas entre o risco de enfermidades e contagens diretas das concentrações de 25D circulantes no soro sangüíneo. Um levantamento abrangente realizado por pesquisadores da Harvard School of Public Health examinou amostras de soro de cerca de 7 milhões de oficiais do exército e da marinha americanas, assim como seus registros médicos, para verificar quais desenvolveram a esclerose múltipla, entre 1992 e 2004. Os pesquisadores encontraram risco significantemente menor de desenvolvimento da doença no grupo com níveis mais elevados de 25D no soro no momento da coleta das amostras. Oficiais com concentrações de 25D acima de 40 ng/ml apresentaram propensão 62% menor que aqueles cuja concentração era igual ou inferior a 25 ng/ml.

As concentrações de vitamina D no soro sangüíneo com valores entre 21 ng/ml e 29 ng/ml são consideradas insuficientes e, freqüentemente, acompanhadas de uma redução na densidade óssea. Alguns dos sintomas do raquitismo podem se manifestar em concentrações inferiores a 20 ng/ml, e o risco de câncer de cólon aumenta.

Essas baixas concentrações infelizmente são muito comuns, especialmente nos meses de inverno. Em fevereiro e março de 2005, por exemplo, durante o pico do inverno no hemisfério norte, uma pesquisa que examinou 420 mulheres saudáveis do norte da Europa – na Dinamarca (Copenhague: latitude 55°), Finlândia (Helsinque: 60°), Irlanda (Cork: 52°) e Polônia (Varsóvia: 52°) – descobriu que 92% das adolescentes nesses países tinham concentrações de 25D inferiores a 20 ng/ml, e que 37% das meninas apresentavam deficiência extrema, com níveis inferiores a 10 ng/ml. Entres as mulheres mais velhas examinadas, 37% apresentaram carência de vitamina D e 17%, carência total.

Além da latitude, diversos outros fatores contribuem para a deficiência de vitamina D, sendo que a primeira é a etnia. A pele clara sintetiza a vitamina D seis vezes mais rápido que a pele morena, já que a concentração maior de melanina na pele escura bloqueia a penetração dos raios ultravioleta. Como resultado, os níveis de 25D nos negros dos Estados Unidos não chegam à metade daqueles observados nos brancos. Na verdade, dados recolhidos em um levantamento oficial sobre saúde e alimentação nesse país revelaram que 42% das mulheres negras apresentaram deficiência de 25D, com concentrações no soro sangüíneo de menos de 15 ng/ml.

Maior conscientização sobre os danos provocados pela exposição solar da pele sem dúvida também contribuiu para a carência de vitamina D. Quando aplicados adequadamente, os protetores solares de uso tópico também reduzem a vitamina D produzida pela pele em mais de 98%. A concentração saudável de vitamina D pode ser sintetizada pela pele com uma exposição solar que produza ao menos um leve rosado sobre ela. Para pessoas com pele clara e de tom médio na América do Norte, isso corresponde a 15 minutos de banho de sol entre as 10 h e as 15 h durante o verão.

Os suplementos de vitamina D podem combater a alta deficiência de vitamina D nas zonas temperadas, mas quem deve consumi-los permanece objeto de discussão. A Academia Americana de Pediatria recomenda a ingestão de uma dose diária mínima de 200 unidades internacionais (UI) para crianças, que muitos pesquisadores consideram abaixo do ideal, até mesmo para a prevenção do raquitismo. A quantidade diária recomendada atualmente para adultos em países da América do Norte e Europa varia entre 200 UI e 600 UI, dependendo da idade. Depois de analisar diversos estudos comparando a ingestão de vitamina D e as concentrações de 25D no soro sangüíneo, pesquisadores da Harvard School of Public Health e outros concluíram, no último ano, que as doses recomendadas atualmente são inadequadas. Eles sugerem que pelo menos a metade dos americanos adultos precisariam consumir um mínimo de 1.000 UI de vitamina D3 diariamente, para elevar sua concentração de 25D para o nível mínimo saudável de 30 ng/ml.

Não existe uma regra geral para calcular os níveis de 25D no soro sangüíneo gerados pelos suplementos, pois a resposta individual pode variar dependendo, em parte, do grau de deficiência. Um estudo entre gestantes revelou, por exemplo, que doses diárias de 6.400 UI elevaram drasticamente a concentração de 25D, até atingir cerca de 40 ng/ml e, a seguir, nivelar-se. A vitamina D2 também provou ser menos eficiente que a D3 para elevar e manter concentrações de 25D no soro sangüíneo ao longo do tempo.

Uma overdose tóxica de vitamina D com a suplementação é uma possibilidade real, embora em geral isso represente a ingestão diária de uma dose igual ou superior a 40.000 UI da vitamina, por período prolongado. No entanto, não há registros sobre a toxicidade da vitamina D induzida pelo Sol. Para se ter uma idéia, uma mulher adulta de pele clara, tomando banho de Sol de biquíni no verão, gera cerca de 10.000 UI de vitamina D em 15 a 20 minutos. Exposições prolongadas não produzem quantidades maiores de vitamina D, pois os raios UVB também degradam a vitamina, impedindo que boa parte dela se acumule na epiderme.

Cada vez mais evidências sugerem que efeitos sutis a longo prazo da deficiência de vitamina D, mesmo que leve, podem se multiplicar e se manifestar com a idade, na forma de fraturas repetidas e no aumento da predisposição a doenças auto-imunes, além da maior freqüência de certos tipos de câncer. A análise das pesquisas leva fortemente a crer que o público em geral se beneficiaria substancialmente com a divulgação e conscientização sobre os amplos benefícios fisiológicos da vitamina D, com um consenso bem baseado da classe médica sobre a exposição solar bem dosada, e uma clara indicação da ingestão diária ideal de vitamina D por meio da alimentação.

CONCEITOS-CHAVE
- A vitamina D, há muito associada apenas com seu papel na formação óssea, na verdade age sobre todo o organismo, influenciando poderosamente as respostas do sistema imunológico e as defesas celulares.

- Essa vitamina pode ser obtida a partir de alimentos ou ser produzida pela pele humana quando exposta à luz solar. Medições das concentrações de vitamina D mostram, no entanto, que muitas pessoas apresentam quantidades insuficientes no sangue para proteger sua saúde.

- Associações visíveis entre níveis baixos de vitamina D e cânceres, auto-imunidade, doenças infecciosas e outras enfermidades indicam que as recomendações atuais sobre a dose diária para esse nutriente essencial precisam ser revistas. – Os editores

[CONHECIMENTO BÁSICO] A PRODUÇÃO DE UMA VITAMINA ATIVA

O termo “vitamina D” em geral se refere a duas moléculas diferentes – a D3, sintetizada pela pele, e a D2, de origem vegetal, obtida pela alimentação. As duas versões da vitamina D devem passar por estágios de conversão para atingir sua forma biologicamente ativa, conhecida como 1,25D.

1- A vitamina D3 é produzida por células da pele chamadas queratinócitos quando os raios ultravioleta B e o calor agem sobre um produto residual do colesterol, o 7-dehidrocolesterol (esquerda). A vitamina D2, encontrada em certos alimentos, é derivada de uma molécula de esterol vegetal similar (direita). Produzidas pela pele ou ingeridas, tanto a D3 quanto a D2 entram no sistema circulatório.

2- Quando a D3 ou D2 circulante atinge o fígado, é convertida quimicamente por enzimas em 25-hiroxivitamina D (25D). Então, a forma 25D da vitamina volta a entrar na circulação.

3- Boa parte da 25D circulante no organismo passa por uma transformação final nos rins, onde as enzimas convertem a 25D em 1,25D, que é liberada na circulação e percorre diferentes órgãos e tipos de célula afetados fisiologicamente pela vitamina D.

ATIVAÇÃO LOCAL
A pele é o único tecido do corpo humano capaz de sintetizar a D3, bem como todas as enzimas necessárias para convertê-la em 25D e depois em 1,25D. As células imunológicas e muitos outros tecidos podem produzir a enzima necessária para converter 25D em 1,25D localmente.

FONTES DE VITAMINA D

As vitaminas D3 e D2 estão presentes naturalmente em alguns alimentos. Além disso, ambas as versões da vitamina são adicionadas a certos produtos “fortificados”. Alimentos fornecem doses relativamente pequenas de vitamina D comparadas com as quantidades produzidas pela pele em resposta aos raios UVB. (UI = unidades internacionais)

Óleo de fígado de bacalhau (1 colher de sopa): 1,360 UI D3

Atum, sardinha,cavala ou salmão cozidos (85 g a 100 g): 200–360 IU D3

Cogumelo shitake (fresco, 100 g):  100 UI D2(seco, 100 g.): 1600 UI D2

Gema de ovo:  20 UI D3 ou D2

Produtos laticínios fortificados, suco de laranja ou cereais (uma porção):  100–400 UI D3 ou D2

Exposição de corpo inteiro aos raios UVB (15 a 20 minutos no meio do dia no verão, pele clara): 100,000 UI D3

[VITAMINA D EM AÇÃO] UM INTERRUPTOR DE AMPLA AÇÃO

A forma biologicamente ativa de vitamina D, a 1,25D, “aciona” certos genes, desencadeando a produção de proteínas codificadas por eles. Essas proteínas podem causar efeitos fisiológicos locais ou disseminados. Estima-se que mais de mil genes diferentes, em pelo menos uma dezena de tipos de células e tecidos por todo o corpo, sejam regulados pelo 1,25D

1- No interior do núcleo da célula, a molécula de 1,25D se liga a uma proteína chamada receptor de vitamina D (VDR)

2- A VDR forma um complexo com uma proteína semelhante, o receptor do retinóide-x (RXR), e juntas elas se ligam a uma região na fita de DNA denominada elemento de reação da vitamina D

3 - Ligado ao elemento de resposta, o VDR-RXR recruta as proteínas do fator de transcrição para o complexo, levando à transcrição do gene mais próximo

4- A transcrição do gene deixa o núcleo para ser traduzida pelo mecanismo celular no citoplasma para uma proteína acabada

TECIDOS AFETADOS PELA VITAMINA D
O receptor ou proteína VDR (acima) é encontrado em muitos tecidos do organismo, assim como em células imunológicas circulantes, indicando que a vitamina D ativa tem a função de regular a atividade dos genes nesses locais. A lista abaixo inclui alguns dos tecidos e células em que a ação da 1,25D foi estabelecida.

Ossos
Cérebro
Mamas
Gordura
Intestino
Células imunológicas
Rins
Fígado
Nervos
Pâncreas
Glândula paratireóide
Próstata
Queratinócitos da pele

25D NA DOSE CERTA

Estimativas da quantidade de vitamina D disponível no organismo se baseiam na contagem da concentração de 25D no soro sangüíneo. Níveis entre 30 e 45 nanogramas por millilitro de soro são considerados como o mínimo suficiente para a saúde dos ossos, embora algumas da respostas celulares benéficas à vitamina D sejam melhores em concentrações mais elevadas. Quando abaixo de 30 ng/ml, os riscos de saúde aumentam; acima de 150 ng/ml, há acúmulo excessivo de cálcio no sangue e nos tecidos, e é possível apresentar sintomas de toxicidade.

Acima de 150 ng
Sintomas de toxicidade e hipercalcemia

30–60 ng Variação ideal

20–29 ng Insuficiente
Absorção de cálcio comprometida

0–19 ng Deficiente
Possíveis sintomas de raquitismo
Elevação do risco de câncer
Resposta antimicróbica do peptídeo pode ser inibida

A VITAMINA QUE FAZ A DIFERENÇA

Cada vez mais evidências indicam que índices cronicamente baixos de vitamina D aumentam a propensão para certas doenças. Exemplos de estudos com base nos níveis de vitamina D no soro sangüíneo da população ou na exposição ao raios ultravioleta incluem:

- Risco de 30% a 50% maior de desenvolver câncer de mama, próstata e cólon em concentrações de 25D inferiores a 20 ng/ml.

- Risco cinco vezes maior de desenvolver câncer de ovário entre mulheres que vivem em latitudes mais elevadas (por exemplo, Noruega e Islândia), que aquelas que moram em regiões equatoriais.

- 77% de redução na propensão de todos os tipos de câncer entre as mulheres do estado americano do Nebraska com mais de 55 anos, que tomaram 1.100 UI de D3 diariamente por um período de três anos, comparadas a um grupo de controle.

- Risco 62% menor de desenvolver esclerose múltipla, com concentrações sorológicas cima de 40 ng/ml, em comparação a níveis iguais ou inferiores a 25 ng/ml.

- Propensão 80% menor para a diabetes auto-imune (tipo 1) em crianças finlandesas que receberam 2.000 UI de D3 diariamente, durante o primeiro ano de vida.

[PROBLEMA GLOBAL] O INVERNO DA VITAMINA D

A exposição à radiação UVB dos raios de sol é a maior fonte de vitamina D para a maioria as pessoas. Assim, a localização e a estação climática influem no risco de deficiência. Durante um período do ano, conhecido como “inverno da vitamina D”, a intensidade dos raios UVB enfraquece em algumas latitudes, a ponto de afetar a indução da síntese da vitamina pela pele. Como o ozônio bloqueia os raios UVB, eles são mais intensos próximo ao equador, onde o raio de sol percorre uma distância menor através da atmosfera terrestre, e a síntese de vitamina D é possível o ano todo. Um aumento no ângulo de penetração em altitudes mais altas enfraquece a intensidade do UVB até que ele se torne insuficiente para a produção da vitamina, especialmente durante o inverno.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Ao redor de 4 mil baixas estadunidenses no Iraque

BAGDÁ (PL) — O número de óbitos das tropas de ocupação estadunidense no Iraque cresceu para 3.950, após ser confirmado, na quinta-feira 7, a morte de um soldado por causa de uma explosão, segundo estatísticas do Pentágono.

O militar morreu na véspera quando um artefato explosivo, colocado na estrada oeste desta capital, estourou ao passar o veículo em que viajava, anunciou o comando norte-americano num comunicad, onde não se oferecem mais detalhes do incidente.

Os ataques contra as tropas estadunidenses na capital iraquiana aumentaram nas últimas semanas.

A principal causa de morte dos soldados da força de ocupação, estabelecidas neste país árabe desde março de 2003, é o estouro de artefatos explosivos. Desde o início deste ano, esses efetivos são objeto dum ataque a bomba a cada três dias, reconheceu o comando castrense.

Da mesma maneira, nas últimas jornadas houve um incremento dos ataques contra as forças de segurança iraquianas.

Na véspera, dia 6, um comando da resistência matou dois policiais na cidade de Mosul, ao norte, informaram fontes policiais.

Essa cidade é cenário duma grande operação ordenada pelo primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, contra supostos membros da insurgência.

Também uma bomba colocada ao lado dum caminho estourou ao passar uma caravana policial que transportava ao cárcere uma dezena de supostos integrantes do Exército do Mahdi, grupo armado leal ao clérigo muçulmano xiita Moqtada al-Sader.

O acontecimento ocorreu na localidade de Diwaniya, a sul de Bagdá, e causou quatro mortos e nove feridos, acrescentou a polícia.

A explosão tinha como objetivo libertar os 10 detentos, que foram apreendidos no mês passado, acusados de atacarem tropas estadunidenses e iraquianas, segundo o general da polícia Ghassan Mohammed Ali.

TROPAS CANSADAS, DESGASTADAS E DIZIMADAS

Em Washington, o chefe do Estado-Maior das forças armadas estadunidenses descreveu, na quarta-feira, dia 6, perante legisladores, que as forças armadas dos Estados Unidos estão cansadas, desgastadas e dizimadas por operações no Iraque e no Afeganistão e não têm possibilidade de voltar a casa em grandes números em curto prazo.

Putin promete retaliar nova ‘corrida armamentista’

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou nesta sexta-feira que uma nova corrida armamentista está em curso no mundo e que a Rússia está sendo "forçada a retaliar" com novas armas de alta tecnologia.

"Já está claro que uma nova corrida armamentista está se desenrolando no mundo", disse o presidente a autoridades, militares e líderes empresariais reunidos em um discurso Kremlin. "Não é nossa culpa, não fomos nós que começamos."

Putin disse ainda que outros países estavam gastando muito mais do que a Rússia em novas amas e que Moscou sempre responderá aos desafios de uma corrida armamentista desenvolvendo mais armamentos de alta tecnologia.

"Na realidade, nós somos forçados a retaliar, a tomar decisões equivalentes", afirmou. "A Rússia tem e sempre terá uma resposta a esses novos desafios."

Sob Putin e com os recursos obtidos com a alta do petróleo, a Rússia tem investido nas suas Forças Armadas, com um aumento de mais de 20% nos gastos com defesa nos últimos três anos. Ainda assim, a sua capacidade militar ainda é muito inferior à que tinha na era soviética.

Durante o discurso no Kremlin, o presidente, que está a três meses de deixar o cargo, defendeu a adoção de uma estratégia para fortalecer as Forças Armadas do país nos próximos 12 anos e consolidar a "segurança nacional".

Otan

Putin disse que, enquanto a Rússia desmantela as suas bases militares da era soviética, o Ocidente expande as instalações da Otan (aliança militar liderada pelos Estados Unidos) para perto do seu território e planeja um escudo antimísseis na Europa Central.

Segundo o presidente russo, a Otan não tomou nenhuma medida concreta para atender às preocupações de Moscou, que é contra a ampliação da presença militar ocidental na sua região de influência e se opõe ao projeto do escudo antimísseis.

"Houve muitas discussões sobre isso, mas nós ainda não vemos nenhum passo real no sentido de chegar a um acordo", afirmou

Em dezembro, o governo russo disse que estava planejando exercícios navais no mar Mediterrâneo e no Oceano Atlântico.

O país também retomou, em agosto do ano passado, as patrulhas de longa distância, prática que havia abandonado depois do colapso da União Soviética.

Putin também condenou tentativas "imorais e ilegais" de países estrangeiros de interferir em assuntos domésticos russos, em uma aparente referência à decisão da Organização para a Cooperação e Segurança Econômica (OSCE) de não enviar observadores para as eleições presidenciais de 2 de março por causa de restrições impostas por Moscou.

O candidato que Putin escolheu como seu sucessor, Dmitry Medvedev, é considerado o favorito para vencer a eleição, mas Putin já disse que pretende continuar atuando na política russa, possivelmente como primeiro-ministro de Medvedev.

BBC Brasil

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Camilo Torres: O Cristianismo rebelde na América Latina

Adital

"Onde caiu Camilo nasceu uma cruz,
porém não de madeira,  e sim de luz".
(Victor Jará)

"Não deporei as armas enquanto o poder
não estiver totalmente nas mãos do povo".
(Camilo Torres)

Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em Bogotá, Colômbia, em 03 de fevereiro de 1929. Sua família pertencia à alta burguesia liberal da Colômbia. Seu pai, Calixto Torres Umaña era um prestigioso professor de medicina na Universidade Nacional da Colômbia, e de 1931 a 1934 representou seu país como Cônsul, em Berlim. Com a separação dos pais, em 1937, Camilo foi morar com sua mãe, Isabel Restrepo Gaviria Torres, e com seu irmão Fernando, em Bogotá. Depois do curso secundário, freqüentou, em 1947, durante um semestre, o Curso de Direito na Universidade Nacional da Colômbia. Em inícios de 1948 resolve entrar no Seminário Conciliar de Bogotá e preparar-se para o sacerdócio. Ali permaneceu durante sete anos, sendo ordenado padre em 1954. Logo em seguida é enviado à Bélgica para estudar sociologia na Universidade Católica de Lovaina. Em 1958 se graduou como sociólogo, apresentando um trabalho que analisava a proletarização de Bogotá.

Voltando a Bogotá em 1959, foi nomeado capelão da Universidade Nacional. Ali, juntamente com outros participantes, fundou a Faculdade de Sociologia, onde, durante algum tempo foi professor. Em 1961, Camilo Torres começou a ter problemas com o Cardeal Luís Concha Córdoba, que não via com bons olhos os seus trabalhos. Foi, então destituído do cargo de capelão, das atividades acadêmicas e das funções administrativas na Universidade Nacional. 

Na tentativa de afastá-lo do mundo acadêmico, o cardeal o nomeou administrador paroquial de uma paróquia na periferia de Bogotá. Mas, Camilo não renunciou ao seu engajamento social. Em 1965 foi pressionado, pelo alto clero, a renunciar ao ministério sacerdotal. E em 27 de julho de 1965 celebra a sua última missa. Em sua "Mensagem aos cristãos", pouco tempo depois, já integrado no ELN, declara: "Deixei os privilégios e deveres do clero, porém não deixei de ser sacerdote. Creio que me entreguei à revolução por amor ao próximo. Deixei de rezar missa para realizar este amor ao próximo, no terreno temporal, econômico e social. Quando meu próximo não tiver mais nada contra mim, quando tenha  realizado a revolução, voltarei a oferecer missa, se Deus me permitir. Creio que assim sigo o mandamento de Cristo: ‘quando levares tua oferenda ao altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda sobre o altar, e vai reconciliar-te com teu irmão, e então volte e apresente tua oferenda’(Mt 5, 23-24). Depois da revolução, os cristãos teremos  a consciência de que estabelecemos um sistema que estará orientado para o amor ao próximo".

Livre das imposições canônicas, Camilo intensificou a sua participação política, criando a "Frente Unida do Povo", como contraponto ao duvidoso "Pacto Nacional", celebrado entre liberais e conservadores. Já em 1964, quando o Governo bombardeou a região de Tolima com napalm, Camilo havia tentado um contato com o grupo de guerrilheiros, que dariam origem, em 1966, às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, (as FARC). Mas o diálogo com este grupo revolucionário comunista não progrediu. Menos complicado foi o contato com o ELN (Exército de Libertação Nacional, criado em 1964). Entretanto, Camilo fortalece a "Frente Unida do Povo" e cria o jornal semanário da "Frente Unida";  convoca o povo para  as praças públicas, e prega a abstenção nas próximas eleições,  como posicionamento revolucionário.

O sucesso político de Camilo cresce vertiginosamente, e as pressões governamentais aumentam. Acusam-no de subversivo. Assim pressionado, resolve colocar-se a serviço dos comandantes do Exército de Libertação Nacional.

Nos últimos meses de 1965, o padre guerrilheiro Camilo Torres envia mensagens aos cristãos, aos militares, aos camponeses e à Frente Unida do Povo. E em 15 de fevereiro de 1966 Camilo Torres morre em combate. Era a primeira ação guerrilheira armada de que participava. Até hoje não se sabe onde o exército colombiano enterrou seu corpo.

Os ideais de Camilo Torres

Camilo Torres considerava que quem definia o caráter pacífico ou violento da sociedade não era a classe popular, mas, sim, a classe dos governantes. Assim, propôs um "projeto de libertação" no qual podiam participar todos os homens e mulheres da Colômbia, guiados por uma opção chamada, por Torres, de "o amor eficaz para todos". Sua ação e pensamento se converteram num convite permanente para a luta, para que "a próxima geração não fosse mais de escravos, mas de homens livres".

Como Camilo Torres chegou a estas suas conclusões?

Desde cedo, Torres manifestava sua compaixão para com os oprimidos. Ainda criança, e vivendo com seu pai médico, distribuía as amostras grátis dos remédios que o pai recebia entre os trabalhadores de uma cerâmica, não muito distante de sua casa. O dinheiro que recebia para ir ao cinema o dava a crianças pobres das favelas. Quando abandona o curso de Direito, para entrar no seminário, declara que havia compreendido que "a vida, assim como a vivia e entendia, não tinha sentido". Por isto desejava ser padre para se tornar um "servo da humanidade", pois descobrira que "o cristianismo era um caminho totalmente concentrado no amor ao próximo".

Mais tarde, quando lhe perguntaram por que deixara o ministério sacerdotal, respondeu: "Abandonei o ministério sacerdotal (não o sacerdócio, pois este é eterno!) pelas mesmas razões pelas quais me comprometi com ele. Descobri o cristianismo como uma vida centrada totalmente no amor ao próximo; dei-me conta de que valia a pena comprometer-me com este amor nesta vida. Escolhi o sacerdócio para converter-me em um servidor da humanidade. Foi depois disto que compreendi que, na Colômbia, não se pode realizar este amor simplesmente por beneficência, mas que era urgente uma mudança de estruturas políticas, econômicas e sociais, que exigiam uma revolução, à qual este amor estava intimamente ligado. Mas, desgraçadamente, enquanto minha ação revolucionária encontrava uma resposta bastante ampla no povo, a hierarquia eclesiástica, em um determinado momento, tentou calar-me, contra a minha consciência que, por amor à humanidade, me levava a defender tal revolução. Então, para evitar qualquer conflito com a disciplina eclesiástica, solicitei a dispensa da minha sujeição a estas leis. Não obstante, me considero sacerdote até a eternidade, e entendo que meu sacerdócio e seu exercício se cumprem na realização da revolução colombiana, no amor ao próximo e na luta pelo bem-estar das maiorias". Para ele, a pura beneficência, a caridade, as esmolas nada mais são do que "a bebida que se dá ao tuberculoso para que pare de tossir".

Naturalmente, com este apelo revolucionário, surge a pergunta: o que Camilo Torres entende por revolução?

Em diversos momentos ele se explica, e diz: "(Entendo por revolução) uma mudança fundamental (e rápida) das estruturas econômicas, sociais e políticas. Considero essencial a tomada do poder pela classe popular, pois a partir dela surgem as realizações revolucionárias, que devem priorizar a propriedade da terra, a reforma urbana, a planificação integral da economia, o estabelecimento de relações internacionais com todos os países do mundo, a nacionalização de todas as fontes de produção, dos bancos, dos transportes, dos hospitais, dos serviços de saúde, assim como outras reformas que sejam indicadas pela técnica, para favorecer as maiorias, e não as minorias, como acontece hoje em dia".

Camilo Torres considera que, nesta revolução, o fundamental a se conquistar é a mudança da estrutura de poder, retirando o poder das mãos da oligarquia e colocando-o nas mãos do povo. E quem dirá se esta tomada de poder será pacífica ou violenta são as oligarquias. Se as oligarquias quiserem entregar o poder pacificamente, o povo o tomará pacificamente; mas, se apelarem para a violência, terão violência. Mas, antes de apelar para a violência, diz Camilo, devem se esgotar todos os caminhos pacíficos. No entanto, ele não confia muito em que as oligarquias entreguem o poder sem luta. Contudo previne que, antes de se apelar para ações revolucionárias violentas, a doutrina social da Igreja ensina que é necessário verificar quais as conseqüências de tais ações. Evidentemente, os resultados não poderão piorar a situação que se pretende corrigir. Para ele, a mudança das estruturas de poder na Colômbia devem mudar de qualquer forma, pois o perigo de piorar é muito pequeno, observando-se o número de crianças que morrem de fome, as meninas menores na prostituição, os constantes massacres, a violência e a miséria generalizadas em todo país, ao lado de minorias opressoras, coniventes com o imperialismo americano e sempre mais ricas.

Frente aos jornalistas, Camilo Torres, muitas vezes, teve que justificar sua atitude revolucionária, já que era cristão e padre. Dando suas explicações, ele diz: "Sou revolucionário como colombiano, como sociólogo, como cristão e como padre. Como colombiano, porque não quero ficar distante da luta de meu povo. Como sociólogo, porque minhas intuições científicas, em relação à realidade, me convenceram que é impossível chegar a soluções efetivas e adequadas sem uma revolução. Como cristão, porque o amor ao próximo é a essência do ser-cristão, e o bem-estar da maioria não se consegue sem a revolução. Como sacerdote, porque a entrega ao próximo, que exige a revolução, é um requisito da caridade fraterna, indispensável para celebrar a missa, que não é uma oferenda individual, mas de todo o povo de Deus por intermédio de Cristo"

O amor que Camilo pregava devia ser um amor eficaz, pois "a fé sem obras é morta" (Tg 2,17).

O texto que ele, muitas vezes, citava era o do Evangelho segundo Mateus 25,31-46, onde Cristo coloca os critérios de julgamento no juízo final: "Tive fome e me destes de comer…". Para Camilo, este texto somente cria valor se nos perguntarmos, nas circunstâncias concretas de nossa realidade, de que maneira somos capazes de dar de comer à maioria dos famintos, vestir a maioria dos desnudos, a abrigar a maioria dos sem-teto. E isto, segundo sua convicção, na Colômbia não se conseguiria sem reformas estruturais profundas em favor das maiorias. E se a revolução for necessária para realizar o amor ao próximo, o cristão deve ser um revolucionário.

* Prof. de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco. Doutor em Teologia pela Universidade de Munster/Alemanha. Pres. Exec. do Instituto Dom Helder Camara (IDHeC).

Adital

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Anatomia do Pé Grande

O Sasquatch é apenas uma lenda? Algumas evidências sugerem que não, argumenta o anatomista Jeffrey Meldrum. Ele defende esta posição apesar do ceticismo de parte dos antropólogos e de seus colegas de universidade

Marguerite Holloway

Em uma manhã nublada de domingo em 1996, Jeffrey Meldrum e seu irmão dirigiram até Walla Walla, Washington, para ver se podiam encontrar Paul Freeman, reconhecido entre os círculos de admiradores do Pé Grande como fonte de moldes de pegadas. Meldrum – que acompanha a história do Pé Grande desde que era menino – ouviu que Freeman era um embusteiro, “de forma que eu tinha minhas dúvidas quanto a recebê-lo”, ele lembra. Os irmãos chegaram sem aviso, disse Meldrum, e conversaram com Freeman sobre sua coleção. Freeman disse que tinha encontrado rastros naquela manhã, mas as pegadas não eram boas, nem valiam um molde. Os irmãos quiseram vê-las assim mesmo. “Eu imaginei que poderíamos usar aquilo para estudar a anatomia de uma fraude”, diz Meldrum. Em vez disso, a visita de Meldrum a um dos cumes das Blue Mountains o colocou firmemente na busca a que se dedica desde então.

Meldrum, 49 anos, professor associado de anatomia e antropologia da Idaho State University, é um especialista em morfologia do pé e locomoção de símios e hominídeos. Ele estuda a evolução do bipedismo e editou From biped to strider (Springer, 2004), livro de referência. Ele empregou seus conhecimentos de anatomia no sítio nos arredores de Walla Walla. As pegadas de pouco mais de 35 cm que Freeman lhe mostrou eram interessantes, relata Meldrum, pois algumas viravam para fora em um ângulo de 45o, sugerindo que o responsável por elas havia olhado para trás, por cima do ombro. Algumas mostravam marcas de pele, outras eram planas com detalhes anatômicos distintos, outras ainda registravam os pés em uma corrida – pegadas apenas da parte dianteira do pé, do contato dos dedos com a lama. Meldrum extraiu moldes e decidiu que seria difícil falsificar as pegadas dos pés em uma corrida, “a menos que você tivesse algum tipo de dispositivo, alguns dedos mecânicos flexíveis”.

Para Meldrum, a anatomia registrada naquelas pegadas e nos moldes de outras que também examinou, assim como os pêlos não identificados, as gravações estranhas e depoimentos de testemunhas, se somam como evidência válida que merece estudo. Ele analisa essas evidências em Sasquatch: legend meets science (Forge, 2006). “Meu livro não é uma tentativa de convencer as pessoas da existência do Sasquatch”, diz enfaticamente Meldrum. Em vez disso, ele argumenta que “a evidência existente justifica plenamente a investigação e o interesse nessa questão”.

Para os críticos de Meldrum – incluindo colegas da universidade e cientistas de seu próprio campo de estudo –, a mesma coleção não é evidência válida, e o exame feito por ele seria pseudocientífico: nada mais que crença envolta em linguagem de análise e rigor científicos. “Mesmo se você tiver 1 milhão de provas, se toda evidência for inconclusiva, não é possível esperar que a soma delas produza algo conclusivo”, diz David J. Daegling, antropólogo da University of Florida e autor de Bigfoot exposed (AltaMira, 2004), que critica Meldrum e sua busca pelo Pé Grande na Skeptical Inquirer.

Nenhum lado pode vencer essa questão sem um espécime ou fóssil de Sasquatch – ou uma confissão de um grupo de forjadores de pegadas. Enquanto isso, observadores assistem a um debate notável pelo fato de ambos os lados usarem virtualmente a mesma linguagem, refutarem as interpretações um do outro com o mesmo tom de descrença e insistirem que sua meta é idêntica: honrar o método científico. E a pergunta de como se deve lidar com a “ciência marginal” permanece aberta: alguns observadores dizem que Meldrum, que foi atacado por colegas e teve sua promoção rejeitada duas vezes, deveria ser deixado em paz para fazer seu trabalho. Outros rebatem que, nesta era de criacionismo, negação do aquecimento global, de amplo sentimento anticiência e ignorância científica, é particularmente imperativo que a má ciência seja denunciada e analisada de forma rigorosa.

Meldrum é um homem alto, de bigodes, tranqüilo, amistoso e sociável. Em uma manhã recente, em seu escritório – repleto de parafernália do Pé Grande – ele explicou que seu interesse pelo assunto surgiu quando tinha 11 anos e viu o agora famoso filme de Roger Patterson, de um suposto Sasquatch entrando a passos largos na floresta. Meldrum listou a criptozoologia (o estudo de criaturas escondidas como o yeti e o monstro do lago Ness) como um interesse em seu currículo quando se candidatou ao trabalho de doutorado. Mas o Pé Grande não havia se tornado uma meta propriamente dita até chegar à Idaho State University, em 1993, e retornar ao Noroeste Pacífico, onde cresceu.

O laboratório de Meldrum abriga mais de 200 moldes relacionados ao Pé Grande. Enquanto abre gavetas e fala sobre os moldes, Meldrum mostra alguns com sinais de fraude e outros que o intrigam devido à anatomia, estrias de pêlos, musculatura e uma aparente fratura na região mediotársica – um par de articulações no meio do pé símio que apresenta menos mobilidade no pé humano por causa do arco. Mostra uma peça particularmente controversa chamada molde Skookum (excelente), que ele acha que pode ser de um Sasquatch se inclinando – e outros pensam que pode ser de um alce se inclinando. “Há uma chance de estarmos errados”, ele diz. “Mas com as pegadas, tenho mais certeza.” Desconsiderar os moldes incomuns “não é nem um pouco científico. É irresponsabilidade”, argumenta Meldrum.

“Ele traz mais rigor científico a essa questão que qualquer outro estudioso no passado, além de fazer uma análise de ponta das pegadas”, ressalta David R. Begun, paleoan-tropólogo da University of Toronto. Todd R. Disotell, antropólogo da New York University, concorda: “Ele está tentando empregar rigor nisso”. Ambos os pesquisadores colaboram com Meldrum apesar de não aceitarem sua hipótese de existência de uma grande criatura símia. “Se ele me entregar uma amostra de fezes, sangue ou pêlos, estou disposto a fazer o que faço com qualquer coisa que tiver”, diz Disotell. “Eu o acompanho porque há duas formas de enxergar a situação: ou estou fazendo boa ciência, encontrando alternativas ou desmascarando fraudes, ou participarei da descoberta do século.” Disotell às vezes é motivo de gozação durante rodadas de cerveja por causa do Pé Grande, mas não é nada semelhante ao que Meldrum enfrenta: “Eu acho que o que está acontecendo com ele é uma vergonha”.

Em sua famosa palestra “Cargo cult science” (Ciência de culto à carga), em 1974, Richard Feynman descreveu o pensamento e a integridade científicos como “uma espécie de honestidade incondicional – algo como ir ao outro extremo” para levantar e examinar qualquer dúvida, cada interpretação. Esse tipo de pensamento, dizem os críticos, está faltando no trabalho de Meldrum sobre o Pé Grande – mas está presente em sua pesquisa de fósseis e do andar dos primatas. O principal crítico de Meldrum em seu próprio campo é Daegling, que conclui que a “evidência não parece melhor sob uma análise mais profunda; parece pior”. Ele acrescenta que “a questão não é o Pé Grande, mas a maneira como cientistas fazem seu trabalho, e como devemos ser autocríticos”.

Meldrum responde dizendo que a maioria das pessoas não o vê peneirando criticamente todas as evidências que chegam até ele – e descartando a maioria delas. Mas se às vezes ele se sente frustrado e sitiado pelos céticos, parece que alguns em sua comunidade se sentem sitiados por sua insistência para que mais pesquisadores aceitem suas interpretações ou participem de sua missão. Em uma crítica aos livros de Meldrum e Daegling na American Journal of Physical Anthropology, Matt Cartmill, da Duke University, concluiu que se as chances de o Pé Grande ser real forem de uma em 10 mil (apenas um palpite), então contar com um antropólogo físico no caso parece uma alocação razoável de recursos profissionais – e, portanto, Meldrum não merece zombaria nem abusos. Mas Cartmill, que nota estar “convicto” de que o Sasquatch não existe, se irrita com a tentativa de Meldrum de tentar culpar aqueles que não estudam o Pé Grande e seu desprezo por eles, como se fossem preguiçosos ou arrogantes.

A tensão é inevitável para a ciência marginal, diz Trent D. Stephens, da Idaho State, co-autor de um livro com Meldrum sobre biologia evolucionária e mormonismo. Como ele coloca: “Nós, cientistas, somos péssimos para julgar as coisas marginalizadas, que não são populares. E dizemos que nossos erros sobre aquilo que está à margem são todos históricos; nós alegamos que não cometemos estes erros atualmente”.

As questões marginalizadas já produziram uma ciência maravilhosa, assim como produziram ciência surpreendentemente péssima. De qualquer forma, nunca foram assunto confortável.

JEFFREY MELDRUM
INTERESSE PELO PÉ GRANDE: Respeitado por seu trabalho antropológico com primatas e hominídeos, é desprezado por suas pesquisas sobre a lenda do Sasquatch.

CASCA GROSSA: “Se não achasse que há algum mérito nisto, não suportaria as flechadas e estilingadas.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Oscar Wilde e a luta pelos direitos homossexuais

A condenação do escritor pela opção sexual está na raiz da luta antipreconceito

João Silvério Trevisan

Quando Oscar Wilde irrompeu na cena intelectual e mundana da Londres dos anos 1880, o amor entre pessoas do mesmo sexo gerava uma vaga consciência social. Sua existência era mais conhecida por termos eufemísticos como “sodomia”, “pecado nefando”, “uranismo” ou “pederastia”. Anos antes, em 1869, na Alemanha, essa prática sexual fora batizada com o nome científico de “homossexualismo”, por um médico que seria ele próprio homossexual. O objetivo do criador do conceito era apresentar a atração pelo mesmo sexo como natural e não adquirida. Visava assim a afastar a culpabilidade (e a punição) por sua prática. Mas esse termo científico demorou para entrar no vocabulário popular. Foi muito mais rapidamente absorvido pela psiquiatria. De pecado, o amor entre pessoas do mesmo sexo se tornou desvio moral e doença. Sua condenação se transferiu do campo da religião para o da ciência, de modo que os padres foram substituídos por médicos e juízes, que ora tentavam curar, ora julgavam segundo a lei.

Durante seu acidentado julgamento, em 1895, Oscar Wilde negou sistematicamente sua vida homossexual. Mas a partir do momento em que foi acuado com provas irrefutáveis, tomou a defesa do amor que praticava. Ao ser inquirido pela promotoria, Wilde respondeu com um dos textos mais corajosos e contundentes em defesa da prática homossexual: “Esse amor é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas, o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos sonetos de Miguel Ângelo e Shakespeare. Tal amor é tão mal compreendido neste século que se admite descrevê-lo como o ‘amor que não ousa dizer seu nome’. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada nele que seja antinatural. Ele é intelectual, e repetidamente tem existido entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o encanto da vida à sua frente. O mundo não compreende que seja assim. Zomba dele e às vezes, por causa dele, coloca alguém no pelourinho.” Não há registros de que Oscar Wilde tenha se manifestado explicitamente contra a opressão sofrida pelo então chamado “terceiro sexo”. Mas ele ousou tematizá-lo em sua obra, freqüentemente acusada de pervertida - como foi o caso de O retrato de Dorian Gray . E é sobretudo esse seu discurso no tribunal que permanece como uma eloqüente afirmação do direito de amar contra a corrente.

Após o julgamento, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por prática de “indecência grave”. A acusação se baseava numa emenda ao Código Penal que visava a proteger moças de ataques sexuais e prostituição. Mas, por causa dos seus termos vagos, a emenda acabou abrangendo “atos indecentes” em geral, nos quais se incluíam de modo privilegiado as relações entre pessoas do mesmo sexo, ainda que adultas e consensuais. Cumprida a pena e libertado em maio de 1897, Oscar Wilde partiu diretamente para o exílio em Paris, falido, solitário e fisicamente destroçado. Aí viveu ajudado por amigos, morando em hotéis baratos, até sua morte em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos. Foi inicialmente enterrado como indigente. Ainda durante o julgamento, sua família abandonara a Inglaterra, com destino à Suíça, onde seus filhos tiveram o sobrenome Wilde substituído por Holland, para fugir da desonra.

Esse episódio escandaloso da Era Vitoriana teve repercussão internacional, e seu eco se faria ouvir por muitas décadas adiante. De fato, a condenação de Wilde aterrorizou várias gerações de homossexuais em todo mundo. Mais que isso, criou um grave precedente de estereotipia: homossexuais passaram a ser universalmente vistos como efeminados, viciados e decadentes, além de corruptores da juventude. Mas, paradoxalmente, seu julgamento também tornou pública a existência de uma subcultura gay em estruturação, pelo menos nas grandes cidades. A ampla exposição na imprensa ofereceu, bem ou mal, uma maior visibilidade sobre um grupo social clandestino, permitindo que inúmeros homossexuais tivessem melhor conhecimento de sua existência e com ele pudessem se identificar. Assim, o nome de Oscar Wilde se tornou, ele próprio, um signo de identificação. Tal fenômeno é notável no caso do nosso João do Rio, discípulo assumido de Wilde, a quem chamava de Grande Poeta e de quem traduziu várias obras para o português.

Mas há motivos para crer que a condenação de Wilde repercutiu também como uma espécie de gota d´água entre redutos mais politicamente conscientes da necessidade de libertar o amor de preconceitos culturais e religiosos. Por esse período, a pauta dos direitos homossexuais começou a se instaurar nos meios socialistas de vários países. Na Alemanha, já a partir de 1895, Eduard Bernstein e W. Herzen discutiram o caso Wilde diretamente nas páginas do jornal do Partido Social Democrata. Na Inglaterra, gente como Bernard Shaw se manifestou com veemência em defesa de Wilde. Outros, como Edward Carpenter e Havelock Ellis, passaram a discutir a publicamente a liberdade de escolha das pessoas “uranistas”.

Nesse contexto, está longe de parecer mera coincidência que em 1897, mesmo ano em que Wilde terminou de cumprir sua pena, um médico alemão chamado Magnus Hirschfeld criou em Berlim a primeira organização de luta pelos direitos homossexuais de que se tem notícia. A partir de 1919, o grupo passou a se chamar Comitê Humanitário e Científico, acoplado ao Instituto de Ciência Sexual, que se dedicava a estudos de homossexualismo e travestismo. Segundo o Anuário do Comitê, seu objetivo era conseguir apoio do legislativo para abolir do Código Penal alemão o famoso parágrafo 175, que punia relações homossexuais, e para “interessar os próprios homossexuais na luta por seus direitos”.

Além de promover palestras por toda parte, a começar pelo próprio Reichstag (Câmara dos Deputados), o Comitê produziu filmes sobre a questão homossexual, o mais famoso deles é Anders als die andern (”Diverso entre os diversos”), de 1919, do qual sobraram apenas resquícios. ? O entusiasmo era tal que em toda a Alemanha chegaram a existir 25 sucursais do Comitê Humanitário. Em 1920, havia no país mais de 20 jornais dirigidos ao público homossexual masculino, além de quatro exclusivamente para lésbicas e uma revista para cultores do sadomasoquismo. Tão intensa era a vida homossexual em Berlim que, em 1922, inaugurou-se o Eros Theater, exclusivo para espetáculos de temática homoerótica. As campanhas pela reforma sexual promovidas pelo Comitê alemão obtiveram ampla repercussão, recebendo apoio de gente famosa como Thomas Mann, Lou Andreas Salomé, Herman Hesse e Rainer Maria Rilke, entre outras 6.000 assinaturas. Suas atividades se espalharam pela Inglaterra, Áustria, Holanda, Itália e Tchecoslováquia, onde se organizaram outros grupos liberacionistas.

Entre os eventos internacionais integrados pelo Comitê Humanitário e Científico, ocorreram vários congressos para reforma sexual dos códigos penais. O primeiro aconteceu em 1921, na capital alemã. Em 1928, durante o 2º Congresso, ocorrido em Copenhague, fundou-se a Liga Mundial pela Reforma Sexual. O congresso seguinte foi organizado no ano de 1929, em Londres, tendo Bertrand Russel como delegado inglês. O último ocorreu em Viena, 1930. No seu auge, a Liga contou com 130.000 afiliados no mundo todo. Os liberacionistas homossexuais, que em sua grande maioria eram socialistas, transformaram o apelo de Marx e lançaram seu próprio lema: “Uranistas do mundo todo, uni-vos”. Infelizmente, o movimento foi dizimado a partir da ascensão do nazismo, em 1933, sendo o próprio parágrafo 175 revigorado, enquanto homossexuais eram caçados e mandados para campos de concentração. A antiga condenação sofrida individualmente por Oscar Wilde se generalizou, então, para multidões de “degenerados”.

Paradoxalmente, o maior legado de Wilde às vindouras gerações de homossexuais ocorreu através e a partir da dolorosa derrota. Em todo o mundo, sua figura exerceu um importante papel na construção de um processo identitário homossexual. Ninguém até então tinha sido tão amplamente identificado enquanto homossexual: graças ao processo judicial sua identidade e homossexualidade se imbricaram num único todo. Assim, deflagrou-se o início do que mais tarde seria definido como “consciência homossexual”. Isso permite dizer que Oscar Wilde talvez tenha sido o primeiro moderno homossexual do planeta, fator que o torna tão atual. Em resumo, o caso Oscar Wilde teve o importante papel de permitir o nascimento de uma identidade homossexual. Seu julgamento, que aterrorizou várias gerações de homossexuais, a longo prazo também cristalizou a identidade do desejo homossexual nos termos em que o conhecemos até hoje. Essa foi, seguramente, uma contribuição imensurável para a eclosão do moderno movimento homossexual, tal como ocorrida na cidade de Nova York, em 28 de junho de 1969. Multidões de homossexuais reagiram contra a violência policial, queimando carros e gritando palavras-de-ordem, num ato sem precedentes, que ficou conhecido como Rebelião de Stonewall. Por detrás dela paira, ironicamente, a imagem de Oscar Wilde.

Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp

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Jovem mata 4 e fere 18 em universidade de Illinois

Segundo a polícia, atirador invadiu uma aula de geologia carregando um rifle e duas pistolas e disparou pelo menos 30 vezes antes de se suicidar

Chicago

Um rapaz, descrito por testemunhas como um “jovem branco e magro”, entrou num auditório da Northern Illinois University, na cidade de Dekalb, a 105 quilômetros de Chicago, e atirou nos estudantes, matando quatro - todas mulheres - e ferindo pelo menos 18. De acordo com a polícia, o atirador se matou em seguida.
A chacina aconteceu às 15 horas de ontem (19 horas de Brasília). Segundo testemunhas, faltando 5 minutos para terminar uma aula de geologia, o atirador, vestindo roupa e gorro pretos, chutou a porta de um auditório no Cole Hall, na região central do câmpus. Segurando duas pistolas e um fuzil, ele subiu no palco e efetuou pelo menos 30 disparos contra os cerca de 140 alunos que assistiam a aula.
Alguns se jogaram no chão. Outros tentaram se esconder atrás das carteiras. Estudantes contaram à rede de TV ABC que viram colegas de classe serem atingidos na nuca, no olho, na cabeça e caírem sangrando no chão. Em seguida, o pânico espalhou-se pelo auditório, com dezenas de jovens correndo em direção à saída.
O estudante Edward Robinson disse para a TV WLS de Chicago que o atirador tinha como alvo estudantes de uma determinada parte do auditório. “Era como se ele soubesse em quem estava atirando”, disse. Várias testemunhas afirmaram que ele ainda teve sangue-frio para recarregar a munição algumas vezes.
As vítimas foram levadas para o hospital Kishwaukee, a 26 quilômetros do câmpus. O hospital informou por telefone ao Estado que das 17 pessoas que chegaram, uma morreu e outras seis estavam em estado crítico. Pelo menos outros seis feridos foram transferidos em estado grave para outros hospitais da região - três deles morreram.
A polícia chegou rápido ao câmpus e isolou completamente a área. A universidade emitiu um alerta pelo seu site e cancelou as aulas. A polícia disse que o atirador era um ex-estudante da Northern Illinois University.
Os policiais demoraram duas horas para liberar a área porque ainda havia a possibilidade de haver um segundo atirador - o que foi descartado em seguida.
AP E REUTERS


DRAMA RECORRENTE
Abril de 1999:
Dois adolescentes matam 13 pessoas na escola Columbine, no Colorado
Setembro de 1999: Homem de 47 anos mata sete pessoas em uma Igreja Batista no Texas
Março de 2005: Jovem executa cinco colegas, um professor e um segurança em uma escola em Minnesota
Outubro de 2006: Homem mata cinco meninas amishes, entre 6 e 14 anos, na Pensilvânia
Fevereiro de 2007: Imigrante bósnio mata cinco e fere quatro em shopping de Salt Lake City, no Estado de Utah
Abril de 2007: Estudante mata 32 pessoas e se suicida na Universidade Virginia Tech.

Estado de S. Paulo

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1867: Primeira execução pública da valsa "Danúbio Azul"

Monumento ao rei da valsa Johann Strauss, no Parque Municipal de Viena

Monumento ao rei da valsa Johann Strauss, no Parque Municipal de Viena

Obra-prima de Johann Strauss filho estreou em 15 de fevereiro, num baile de Carnaval no salão de uma piscina pública. Compositor não compareceu à apresentação. Muitos consideram a famosa valsa o hino nacional da Áustria.

A priori, a escolha das composições a serem executadas como bis após um concerto cabe ao maestro da orquestra. Porém, no tradicional Concerto de Ano Novo da Filarmônica de Viena, o regente não tem escapatória. Após o encerramento da parte oficial do programa, o público sabe de antemão o que vai ouvir e não está nem aí que todos os anos seja a mesma coisa.

Aos aplausos incessantes e pedidos de bis, seguem-se os primeiros violinos num acorde de lá maior, em tremolo, agudo e pianíssimo. E quando as trompas começam a soar, a platéia aplaude de novo entusiasticamente. Todo ano repetem-se duas obras clássicas, uma delas é a valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss filho. A segunda, a Marcha Radetzky, de Johann Strauss pai.

Danúbio Azul é uma peça para orquestra, que acabou mais identificada com a Áustria do que o próprio hino nacional do país. A valsa tornou-se tão popular que, tanto na Alemanha quanto no Brasil, consagrou-se chamá-la abreviadamente. Originalmente, a obra carrega o nome An der schönen blauen Donau (No Belo Danúbio Azul), mas, em alemão, acostumou-se a referir-se a ela simplesmente como Donauwalzer e, em português, Danúbio Azul.

Strauss não regeu na estréia

A valsa estreou num baile de Carnaval, a 15 de fevereiro de 1867, no salão da piscina pública Dianabad de Viena. Por acaso, a obra não foi regida por seu compositor, Johann Strauss, em sua primeira execução pública. Na mesma noite, o vienense tinha uma apresentação marcada na corte imperial. Um compromisso que não poderia ser trocado por um baile de Carnaval.

A honra de apresentar Danúbio Azul num palco pela primeira vez coube a Rudolf Weinwurm, regente da Associação Masculina de Canto Coral de Viena. Afinal, fora a associação que havia encomendado a valsa de concerto e tivera de esperar o fim da guerra entre Prússia e Áustria, provocada pelo então primeiro-ministro prussiano, Otto von Bismarck. Patriota, Strauss alegava falta de condições de compor algo alegre durante o conflito. Somente quando a paz foi assinada em 3 de outubro de 1866, o vienense dedicou-se ao trabalho.

Assim, Danúbio Azul ficou pronta com mais de seis meses de atraso. Com a Áustria ocupada pelos prussianos, foi o próprio Bismarck quem definiu a data de apresentação da nova composição de Strauss, que possivelmente sentiu-se desconfortável ao saber que sua estréia foi executada pela banda do regimento alemão de infantaria 42, Jorge 5º, rei de Hannover, que estava estacionada em Viena.

Naquela noite, a música de Strauss foi acompanhada de um texto cantado, de autoria de Josef Weyl, um dos membros do coral. Tida como medíocre, a letra acabou sendo mais tarde abandonada, de modo que a valsa consagrou-se por sua composição musical.

Pai e filho compositores

Há quem confunda a autoria de Danúbio Azul, devido ao fato de pai e filho terem o mesmo nome e ambos terem sido compositores de valsas. Mas, embora Johann Strauss pai tenha composto muitos clássicos, como a Marcha Radetzky, foi seu filho que consagrou-se como o rei da valsa.

E, apesar da popularidade de Danúbio Azul, muitos músicos apontam outras composições como as melhores de Strauss: Rosas do Sul (Rosen aus dem Süden), Vozes da Primavera (Frühlingsstimmen) e Vida de Artista (Künstlerleben), entre outras.

Isto não quer dizer, porém, que Danúbio Azul não tenha admiradores entre os mestres da música erudita. Richard Wagner, por exemplo, não escondia seu encanto pelo primor da introdução da valsa, e Johannes Brahms teria anotado certa vez num guardanapo um comentário sobre a obra-prima de Strauss: "Infelizmente não é minha."

DW

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Opinião: Integração não quer dizer assimilação

Durante muito tempo, a Alemanha confundiu integração com assimilação, diz Peter Philipp. Os alemães deveriam deixar de esperar que os estrangeiros se tornem como eles.

Tanto os Estados Unidos como o Canadá são países de imigração, com uma política de imigração declarada, mas com métodos totalmente diferentes de acolhida dos novos cidadãos.

Os EUA enalteceram e cultivaram durante muito tempo –  talvez tempo demais – o princípio do melting pot. Os imigrantes deveriam adaptar-se, tornar-se como a maioria da sociedade, adotar como denominador comum o modo de vida supostamente comum a todos, deixando tanto quanto possível para trás aquilo que os tinha cunhado até então. O "american way of life" tornou-se o modelo para todos.

O Canadá, por sua vez, pratica conscientemente uma política do multiculturalismo. Os imigrantes são até encorajados a continuar cultivando sua herança cultural e a introduzi-la na sociedade canadense. Dessa forma, o Canadá se encontra num constante processo de desenvolvimento e de transformação.

Esses são apenas dois exemplos dentre muitos. Em ambos os casos, os imigrantes são integrados e assumem seu papel na sociedade. Nos EUA, eles se submetem ao mesmo tempo a um processo de adaptação, enquanto no Canadá ajudam a configurar e a transformar a sociedade.

Na Alemanha, a situação é diferente. Aqui se pretendeu durante muito tempo que a Alemanha não fosse um país de imigração, embora o recrutamento dos chamados "trabalhadores convidados" tenha justamente criado a base para isso.

Mesmo quando os trabalhadores estrangeiros começaram a se estabelecer na Alemanha, a ter e a criar filhos no país ou a adquirir a nacionalidade alemã, a maioria da população negligenciou a integração dessas pessoas na sociedade. Em vez disso, os imigrantes foram acusados de não querer se integrar e de preferir viver numa sociedade paralela.

O que se queria dizer com isso era muito mais "assimilação" do que "integração". A integração envolve dois elementos: a pessoa que quer se integrar e assumir seu papel na sociedade, e a sociedade disposta a aceitá-la e acolhê-la.

Sem falar abertamente, esperava-se na Alemanha a assimilação dos estrangeiros. Foi isso que deu origem ao conceito da deutsche Leitkultur, a "cultura-guia alemã".

Se os imigrantes quisessem reivindicar um espaço em nossa sociedade, eles então que se tornassem iguais a nós, pensavam as pessoas. Um argumento sem pé nem cabeça: o operário de fábrica originário da Anatólia, o médico do Irã ou o requerente de asilo da África não vão começar de repente a internalizar a literatura alemã ou mesmo a cozinhar e comer só pratos alemães. Não é realista sequer partir do princípio de que "os alemães" vivam desse jeito.

"Integração" significa que todos os que vivem num país tenham participação no todo – independentemente de onde venham e de que religião tenham. Já "assimilação" implica uma decisão individual de se adaptar.

Os problemas surgem sempre que um Estado tenta forçar minorias a se adaptar – como, por exemplo, a Turquia em relação aos curdos. E mesmo a melhor assimilação não protege minorias de hostilidades e de perseguição, como experimentaram os judeus na Alemanha nazista. (lk)

Peter Philipp é chefe da equipe de correspondentes da Deutsche Welle e especialista em Oriente Médio.

DW

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A política não faz mais heróis

Mohammed Salah

Por que os árabes estão à procura de um herói popular? Por que os jornais e a mídia, as elites culturais e políticas, e as massas celebram um cidadão árabe se ele ousa opor-se à corrente antiárabe? Como um jogador de futebol egípcio tornou-se um “símbolo político” apenas por, ao marcar um gol na Copa das Nações Africanas, levantar seu uniforme e revelar uma camiseta por baixo, na qual podia ser lido “Solidarize-se com Gaza”, em árabe e inglês? A imagem de Mohammed Abu Treika, transmitida ao mundo por estações de satélites e emitida por agências de notícias, tornou-se uma obra de arte, com todos orgulhosos em obter uma cópia. 

Sem consideração pelo debate levantado nas comunidades de esportes árabes sobre o direito de um jogador expressar sua opinião política ou seus sentimentos humanos durante uma disputa esportiva, ao largo do aviso de punição da Federação da Copa Africana no caso de ele ou outro jogador agir dessa forma novamente, a comoção política que se seguiu refletiu o grau ao qual as massas árabes tornaram-se puramente emocionais. Isso ocorre por causa de políticos que lhes causaram a perda da esperança quando se fala de qualquer solução para os vários problema árabes, soluções que não mais estão nas mãos dos árabes.

O legado cultural dos árabes os vê regozijar as glórias e heróis do passado, assim como o logo da rádio egípcia Sawt al-Arab diz. No entanto, as repercussões da causa palestina, da crise no Iraque, e uma série de falhas árabes no Sudão e Somália e das condições sócio-econômicas que golpeiam árabes de todos os cantos veio a causar à nova geração a perda de esperança em ter uma vida normal, uma que lhes garanta o mínimo nível de direitos, emprego, alimento e abrigo. Você pode esquecer do luxo de escolher um governo que vá governar-lhe, ou ter um Parlamento que faça leis e regule as relações entre os vários membros da sociedade egípcia. Tudo isso levou as massas árabes à felicidade, e talvez a dançar de alegria, à imagem de uma pessoa desafiando as maiores potências, mesmo que essa pessoa não quisesse desafiar ninguém, mas somente expressar sentimentos humanos. 

A coisa mais interessante nos círculos políticos do Egito é que a maioria daqueles que apoiaram as ações de Abu Treika não são fãs amadores que não sabem muito sobre as regras do jogo e suas estrelas. No entanto, todos ouviram e leram sobre o que o jogador fez, o que atraiu suas atenções e tomou seus corações. O público correu para acompanhar a cobertura por satélite do torneio africano de Gana – talvez eles possam ver a cena uma vez mais, e sentir o orgulho que foi perdido, agradeça a seus políticos.

O jogador não tem qualquer conexão com o “Hamas” ou a Autoridade Palestina. Ele nunca foi membro da “Irmandade Muçulmana” ou do partido de esquerda Tagammo egípcio. Ele jamais fez parte de um encontro partidário ou de um protesto do Sindicato dos Jornalistas Egípcios, ou de qualquer outro. Ele não protestou com centenas de outros, em vários lugares, por várias razões. No entanto, ele teve um impacto maior, já que escolheu um momento e lugar, e evento, onde as câmeras estariam clicando, e ele sendo observado por fãs e mídia. Ele revelou sua surpresa, a qual ele havia discretamente preparado, e na qual não havia objetivos políticos. Ele constrangeu políticos que não estão sujeitos à para a Confederação Africana de Futebol ou à Fifa, mas aos cálculos políticos, que talvez sejam lógicos, mas que não fazem heróis.

*Mohammed Salah, em artigo publicado no site do Al Hayat.

(Tradução de Arturo Hartmann)

Icarabe

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Farra na FSA com dinheiro dos alunos

Fernandes - DGABC