Arquivo de 16 de Fevereiro de 2008

Nos calores da Guerra Fria

“A democracia não é o melhor dos regimes. É o menos mau. Experimentamos um pouco de todos os regimes e agora podemos compreender isso. Mas esse regime só pode ser concebido, realizado e sustentado por homens que saibam que não sabem tudo, que se recusem a aceitar a condição proletária e nunca se conformem com a miséria dos outros, mas que recuse, justamente, a agravá-la em nome de uma teoria ou de um messianismo cego.”

Albert Camus, novembro de 1948

Entornando um copo de vinho com Albert Camus num daqueles bons cafés de Paris, Sartre comunicou ao amigo que em breve sairia uma crítica bem pesada na sua revista Les Temps Modernes, contra o seu último livro L’Homme révolté, o Homem Revoltado. Haviam se encontrado na rua vindo para um destino comum, uma manifestação contra a ditadura franquista na Espanha. Nunca mais o fizeram.

O ensaio de Camus, aparecido em 1951, provocara um desconcerto geral em meio à esquerda francesa ao tempo em que vendeu quase 70 mil exemplares, editados pela Gallimard, ao longo de 1952. E não era para menos. Naqueles tempos quentes da Guerra Fria, com Mao Tse tung recém chegando ao poder em Pequim e os norte-americanos ameaçando explodir a Coréia, e quiçá a China Popular, com bombas atômicas, como era o desejo do general MacArthur, o famoso escritor deu-se ao desplante de repudiar a revolução, denunciado-a como a parteira dos absurdos e da arbitrariedade do Estado Policial moderno. Foi um pandemônio.

Os amigos rompem

O petardo lançado então contra ele – intitulado “Albert Camus ou a alma rebelde” (Temps Modernes, maio de 1952) -foi estrondoso. Sartre, alegando razões de amizade, passara a ingrata tarefa para um dos seus próximos, um tal de Francis Jeanson, um jovem desconhecido que destratou Camus em vinte páginas.

Ele, chocado com a agressividade do artigo, respondeu em carta à Direção. Sartre então entrou na liça, em defesa de Jeanson. “Nossa amizade” escreveu ele, “não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada…. também a amizade é totalitária: é necessário o perfeito acordo ou o corte de relações.”

Nove anos de boa convivência entre os dois evaporaram-se em outras trinta páginas do Les Temps, nº 82, de agosto de 1952, que teve duas tiragens esgotadas quando público intelectual soube da “guerra literária” entre os dois maiores nomes da literatura francesa de então. Na verdade, o acusatório de Camus não era tanto contra a revolução mas sim contra sua inoperância, denunciando-lhe a inutilidade da sua razão de ser.

O sem sentido da revolução

De que servira à França, indagou, ter tido três outras revoluções desde 1789, todas elas sangrentas, se os escandinavos e os ingleses, sem muitos tumultos , conduzidos pelas políticas de socialistas moderados, tinham atingido um alto padrão de vida, bem superior ao dos franceses?

A crítica de Camus aos destemperos e exageros das revoluções não pararam por ai, visto que acreditava que os seus líderes quando no poder, mais tarde ou mais cedo, se tornavam repressores ou heréticos… policiais ou loucos! Porque, quis saber ele, Prometeu, com suas esperanças de regenerar o mundo, terminava como César, tiranizando as instituições?

O danoso daquilo tudo é que os admiradores das insurreições de massa feitas em nome da liberdade logo adotavam uma política de crimes justificados. Prendiam, interrogavam, confinavam e, em nome de um profundo amor pela humanidade, fuzilavam.

Convictos de que aqueles a quem despachavam da vida eram ervas daninhas que precisavam extirpar do jardim socialista para que, mais tarde, no futuro, no amadurecer da planta, ela vicejasse com todo o vigor. Enquanto isto, os campos de concentração e o tiro no pescoço eram os herbicidas que eles, ainda que a contragosto, se viam obrigados a espargir.

Terra Educação
http://noticias.terra.com.br/educacao

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A segurança internacional em ruínas

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Os jogos de guerra sobre "riscos paquistaneses" reuniram em Washington um pequeno grupo de especialistas militares e de inteligência, integrantes de uma nova modalidade, a dos atentos à proliferação dos engenhos de destruição maciça e de possíveis descontroles.
Entre os cenários e opções traçados figurou inclusive uma operação de alto risco, a de isolamento dos "bunkers" onde estão as armas nucleares do Paquistão. As áreas em volta seriam seladas de modo inviolável, com "dezenas de milhares" de minas jogadas de aviões e municiadas contra tanques e pessoas.
Um dos luminares dessa nova comunidade, o professor Scott Sagan, da Universidade de Stanford, acha que a melhor maneira de garantir a segurança do arsenal nuclear paquistanês é comportar-se de modo cooperativo com as Forças Armadas do país da Ásia Central, colado ao Afeganistão.
Mas existe o perigo de quebra tanto das instituições políticas quanto militares e não passou despercebido o fato de que a ajuda bilionária dada pelos EUA ao Paquistão se voltou sobretudo para o conflito com a Índia em torno da posse da Caxemira. A Índia, de seu lado, já testa mísseis de interceptação de mísseis, se inscrevendo num clube até agora restrito a EUA, Rússia, Israel e China, O que acontece ultrapassa as fronteiras do Paquistão.
Estamos diante da ruína da arquitetura de segurança mundial, que deveria, pelo contrário, firmar-se com o fim da Guerra Fria. O Paquistão deu curso à proliferação e se tornou segmento de alto risco dessa ruína pelo fato de que podem desintegrar-se as elites política e militar que até agora controlaram um pais que é ninho de islâmicos radicais.
A rachadura inicial aconteceu em 2002, quando os EUA se retiraram do tratado sobre mísseis antimísseis, pedra angular de amplo sistema de segurança e cláusula capaz de conter o "first strike", a sedução de ser o primeiro a atirar.
Sistemas antimísseis podem absorver ataques e possibilitar contra-ataques e com isso desencorajar "first strikes". O governo Bush não só eliminou esse elemento de dissuasão como lançou a doutrina dos ataques preventivos e decidiu botar antimísseis na Europa central.
A 12 de dezembro, entrou em vigor a retirada da Rússia do Tratado de Forças Convencionais na Europa, que limita a quantidade de armas pesadas num raio que vai do Atlântico às montanhas Urais. É peça central da arquitetura internacional de desarmamento. A saída da Rússia pode resultar numa corrida às armas na Europa.
O Paquistão nuclear, com riscos de descontrole, se insere num contexto maior de insegurança.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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A falta de sono pode provocar distúrbios psiquiátricos?

Estudo mostra que a privação de sono resulta na reprogramação do circuito emocional do cérebro

Nikhil Swaminathan

Não há dúvida de que as pessoas precisam dormir: estudos já associaram a falta de descanso a tudo, desde distúrbios no sistema imunológico até insuficiência cognitiva para controlar o peso.

Na verdade, o psicólogo Matthew Walker, da University of California em Berkeley, afirma que “quase todos os distúrbios psiquiátricos apresentam algum tipo de problema relacionado ao sono”. Mas, segundo ele, os cientistas anteriormente acreditavam que os problemas psiquiátricos levam a dificuldades para dormir. Entretanto, uma pesquisa realizada por seu laboratório sugere que, na verdade, o que acontece é o contrário; ou seja, a falta de descanso está causando transtornos psicológicos.

A equipe de Walker e colaboradores da Harvard Medical School chegaram a essas conclusões, publicadas no Current Biology, após trabalharem com 26 alunos saudáveis, com idades entre 24 e 31 anos. Parte deles passou uma noitada em claro; a outra teve uma boa noite de descanso.

Entre os voluntários, 14 passaram 35 horas diretas sem descanso antes de serem examinados em um aparelho de ressonância magnética funcional (fMRI), onde o cérebro de cada um foi acompanhado enquanto observavam um conjunto de 100 imagens cada vez mais perturbadoras à medida que eram exibidas. As primeiras eram fotos de uma cesta de vime vazia em cima de uma mesa; no entanto, as cenas mudavam à medida que a série progredia para cenários mais assustadores, como uma tarântula nos ombros de uma pessoa e, finalmente, imagens de vítimas de queimadura e outras visões traumáticas.

Os pesquisadores monitoraram, principalmente, a amígdala, estrutura do mesencéfalo que decodifica as emoções, e perceberam que os grupos de voluntários apresentavam parâmetros similares de atividade ao observarem imagens inofensivas. Mas à medida que as cenas se tornavam cada vez mais apavorantes, a amígdala dos participantes privados do sono se agitava, apresentando 60% mais atividade em relação à reação da população normal. Além disso, os pesquisadores notaram que cinco vezes mais neurônios na região estavam transmitindo impulsos no cérebro daqueles que não dormiram.

Walker descreveu o aumento na reação emocional em estado de cansaço como “profundo”, destacando que “nunca testemunhamos um aumento dessa magnitude entre os dois grupos em nenhum dos estudos anteriores”.

A equipe também verificou as leituras do fMRI para determinar se quaisquer outras regiões do cérebro demonstraram um padrão similar de atividade, o que indicaria que as redes cerebrais estavam se comunicando entre si. Nos participantes normais, a amígdala parecia estar se comunicando com o córtex pré-frontal medial, uma camada externa do cérebro que, de acordo com Walker, ajuda a contextualizar as experiências e emoções. Mas, no cérebro daqueles que não dormiram, a amígdala parecia ser “reprogramada”, conectando-se com uma área do tronco cerebral chamada locus coeruleus, que secreta noradrenalina, um hormônio precursor da adrenalina que desencadeia reações do tipo “lutar ou fugir”.

“O córtex pré-frontal medial é o policial do cérebro emocional”, afirma Walker. “Ele nos torna mais racionais. Essa conexão inibitória de cima para baixo é interrompida na condição de privação de sono. Aparentemente a amígdala é capaz de perder o controle.” As pessoas nesse estado sentem como se estivessem em uma montanha russa de emoções, apresentando sinais de transtorno e irritação ou até euforia em alguns momentos, afirma.

“Parece haver uma relação casual entre o sono prejudicado e algumas sintomatologias e distúrbios psiquiátricos que estamos observando, afirma Robert Stickgold, professor adjunto de psiquiatria da Harvard Medical School que não participou deste estudo. Ele menciona pesquisas associadas à apnéia do sono, em que a respiração é descontínua, até distúrbio de déficit de atenção e hiperatividade, e evidências de haver uma conexão entre depressão e insônia como exemplos. “Pode ser que essas regiões frontais mediais estejam dizendo ao resto do cérebro ‘pode relaxar’, afirma. “Esses circuitos ficam exaustos ou se tornam alterados depois da falta de sono.”

Walker conta que a equipe agora planeja examinar os efeitos da interrupção de certos tipos de sono, tais como o sono REM ou o sono de onda lenta. “Acho que podemos começar a pensar sobre uma nova função potencial para o sono”, diz Walker. “Na prática, o descanso prepara nosso cérebro emocional para as interações sociais e emocionais do dia seguinte.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Dados do Ca$$ino financeiro

A leitura dos balanços corporativos pode ser muito útil para a compreensão da economia real. Vejamos o caso do balanço de uma das dez maiores holdings da economia brasileira. Sua particularidade reside no fato de que ela não produz absolutamente nenhum produto, bem ou serviço.

Ceci Juruá

A leitura dos balanços corporativos pode ser muito útil à compreensão da economia real, concreta, independente da filosofia ou ideologia econômica. O balanço traz números que expressam parcialmente os resultados econômico-financeiros das empresas, assim como notas explicativas sobre os diferentes itens das contas. Muitas pessoas argumentam que os balanços escondem fatos relevantes, pois podem ser manipulados. O que não deixa de ser verdade, provavelmente. Por isto, podemos considerá-los como uma primeira aproximação do desempenho de uma empresa. E assim que eu procuro abordá-los.
Balanço de uma holding / 2007
Companhia holding é aquela que detém o controle acionário de uma ou mais sociedades anônimas, situando-se no topo da pirâmide acionária de um grupo de empresas. Sua particularidade reside justamente no fato de que ela não produz absolutamente nenhum produto, nenhuma mercadoria, bem ou serviço.
Sua finalidade é a gestão de investimentos em outras sociedades do grupo, controladas ou coligadas. Os dados que apresento a seguir são de uma das dez maiores holdings presentes na economia brasileira, cujos investimentos em 2007 aproximavam-se de R$ 15 bilhões. No caso selecionado, as despesas gerais e administrativas da holding absorveram, em 2007, 0,7% do montante de investimentos administrados. Os lucros foram superiores a R$ 2 bilhões e é sobre eles que teço comentários a seguir. (1)
Lucros
Quando se fala em lucros na realidade atual da economia brasileira, a atenção das pessoas volta-se principalmente para os bancos e outros segmentos dos mercados financeiros, palco da jogatina especulativa, o cassino onde se formam as grandes fortunas. É curioso que, muitas vezes, apenas os bancos nacionais são apontados como titulares de rendimentos extravagantes, apesar da tendência, real e concreta, de desnacionalização crescente e progressiva do sistema bancário brasileiro e sua ocupação por bancos globais (Santander, HSBC, Citybank, Dresdner, UBS, etc).
Assim, recentemente, houve muitos comentários na imprensa sobre o fato de dois dos maiores bancos brasileiros – Itaú e Bradesco – terem obtido lucros superiores a R$ 8 bilhões em 2007. Sem assumir absolutamente qualquer defesa dos bancos, interessa destacar aqui que a realização do lucro bancário é resultante de milhões de operações econômico-financeiras, com milhares de máquinas de alta tecnologia, em centenas ou milhares de agências próprias ou de correspondentes bancários no Brasil e no exterior. Um banco vende serviços, enfim.
A gestão de uma holding é menos complexa do que a de um banco, certamente. No caso que analiso a gestão societária tem por objeto apenas 9 empresas controladas de grande porte e internacionalizadas. No entanto, parece-me insólito o fato de lucro desta magnitude (R$ 2 bilhões) ter sido obtido mediante operação de equivalência patrimonial na qual foram incluídos amortizações e ágios/deságios. Assim, operações típicas de contabilidade e de negócios nos mercados financeiros puderam gerar um lucro equivalente a ¼ do lucro realizado pelos dois maiores bancos brasileiros. Algo invejável!
O valor adicionado, que é a contribuição da companhia (no caso uma holding) à Renda Nacional, foi constituído quase integralmente pelo lucro obtido da forma que assinalamos acima. O fator de produção mão-de-obra, trabalho, teve participação de apenas 0,8% no valor adicionado, e os impostos e contribuições federais e municipais participaram com 1,8%. Para os financiadores coube a parcela de 0,7%.
A distribuição dos lucros
Pouco mais de 36% do lucro realizado foi destinado aos acionistas e o restante foi reinvestido. O montante pago aos acionistas aproximou-se de R$ 900 milhões, 20 vezes a quantia destinada à União e aos Municípios, e 47 vezes o valor pago aos chamados “colaboradores” (empregados).
Dentre os acionistas há investidores estrangeiros que detêm 23% do capital da holding. Por isso pode-se estimar que houve remessa ao exterior de pouco mais de R$ 200 milhões, para remuneração dos acionistas estrangeiros, e este valor representou, em 2007, mais de 10 vezes a quantia paga aos empregados/ colaboradores. Os investidores institucionais brasileiros são menos poderosos que os estrangeiros e detêm apenas 12% do capital da sociedade.
Grandeza dos negócios financeiros
A empresa holding aqui tratada movimentou quase R$ 20 bilhões na Bovespa em 2007, realizando 644 mil negócios e o volume das transações diárias com ações preferenciais foi de R$ 70 milhões. Na Bolsa de Nova Iorque, as transações com ADR’s (títulos representativos de ações preferenciais) o movimento anual foi maior: US$ 13 bilhões, equivalentes à média diária de US$ 51 milhões !
__________
(1)Para fins de comparação, informo que o IPTU arrecadado pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 2007, atingiu o montante de R$ 600 milhões, segundo declarações do prefeito ao Globo de 16-02-2007.

Ceci Juruá, economista e pesquisadora, integra o programa Outro Brasil, do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Carta Maior

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Apocalipse (Consumista) Now

Só no ano de 2007, a população mundial aumentará em 66 milhões de pessoas; 23.282 espécies serão extintas; 11 milhões de hectares, desmatados; 31 milhões de carros e 72 milhões de computadores produzidos e 26 trilhões de barris de petróleo extraídos

Manoel Neto, Flávio Shirahige

Acorda de manhã. Esfrega os olhos. Toma um banho quente. Olha o relógio e vê que está atrasado para o trabalho. Coloca o pão na torradeira e pega o carro para viajar os 15 quilômetros até o trabalho. Trabalha no ar condicionado, aproveita o horário do almoço para trocar de celular e volta para casa às 6 da tarde, pensando em todos os eletrodomésticos que comprou para a casa nova e os que ainda falta comprar. Televisão, computador, geladeira, freezer, microondas, som, dvd, tevê a cabo, george foreman grill, fogão elétrico… Reconheceu-se nessa descrição? Agora imagine que mais de 1,7 bilhão de pessoas também são capazes de se reconhecer, e a quantidade de mercadorias que elas podem possuir. E mais: esse número tende a crescer assustadoramente, à medida que mais e mais pessoas são incorporadas no mercado consumidor de massas.

No cotidiano, não estamos muito preocupados com os impactos do nosso estilo de vida no planeta. É difícil imaginar que os 45 litros de gasolina que colocamos periodicamente no nosso carro poderão deflagrar uma crise, perante os mais de 5 bilhões de barris de petróleo do campo de Tupi anunciados pela Petrobrás na semana passada. Ou que os 459 kWh consumidos pelos variados eletrodomésticos que cada pessoa no Brasil tem poderão gerar um apagão, diante dos 96,6 milhões de kWh que as usinas hidro e termoelétricas do país são capazes de produzir.

Porém, quando consideramos conjuntamente cada ação do dia-a-dia dos milhões de habitantes no mundo, o impacto é assustador: só no ano de 2007, a população mundial aumentou em 66 milhões de pessoas; 23.282 espécies foram extintas; 11 milhões de hectares foram desmatados; 31 milhões de carros e 72 milhões de computadores produzidos e 26 trilhões de barris de petróleo extraídos.

Diante desse quadro, há as muitas alternativas ecologicamente corretas que estão surgindo, mas que infelizmente têm pouco resultado prático. De nada adianta substituir um produto poluente por um menos poluente, se a geração de energia continuar suja, por exemplo. Na verdade é difícil acreditar que seja possível resolver o problema ambiental apenas substituindo bens de consumo ecologicamente insustentável por um consumismo ambientalmente correto.

Um mundo desigual também no consumo de energia
Segundo a Agência Internacional de Energia, a produção de energia primária (como, por exemplo, os combustíveis fosseis, hidroeletricidade, energia nuclear, solar) no mundo foi, em 2005, de 133,37 milhões de GigaWatts hora (GWh), um valor por habitante de 20.735 kWh. Desse total, apenas 11% foi destinado ao consumo final como eletricidade — o que representa um consumo per capita de 2.596 kWh. Ao comparar os dados dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com a China, cada habitante chinês consome 21,5% da eletricidade gasta nos países que integram aquela organização (1.802 kWh consumidos por habitante na China contra 8.365 kWh nos países da OCDE). Se confrontarmos com o 13.640 kWh per capita dos EUA, esse percentual cai para 13,21%!

Quando verificamos os dados de emissões, os resultados não são menos impactantes: no ano de 2005, o mundo emitiu 27,136 bilhões de toneladas de CO2, oriundas da queima de combustíveis durante o processo de geração de energia. Ou seja, cada pessoa no mundo foi responsável, em média, pela emissão 4,22 toneladas de CO2 para a atmosfera naquele ano, sendo que o valor por habitante em um país da OCDE é de 11 toneladas e dos EUA, 19,6 toneladas

Esses dados nos levam a uma simples reflexão: e se cada pessoa no mundo consumisse energia como nos países da OCDE? O calculo é simples: precisaríamos de 53,8 milhões de GWh de eletricidade ou 30,487 bilhões de toneladas de óleo equivalente de energia primária. Só em petróleo, seriam necessários 99 bilhões barris por ano. Em termos de emissão, teríamos 70,88 bilhões de toneladas de CO2 sendo despejadas na atmosfera por ano. Agora imagine se consumíssemos seguindo os 13.640 kWh do padrão do American Way of Life? O planeta agüentaria?

Estudos indicam que um consumo médio de 4.000 a 6.000 kWh seria capaz de proporcionar um alto índice de IDH, típico dos países mais desenvolvidos. Porém, mesmo que desejássemos estender o padrão de vida desenvolvido ao resto do mundo – no fundo, o verdadeiro sonho de quase todos – ainda assim é difícil não concordar que simplesmente o planeta não suportará. Sem mencionar os impactos econômicos em termos de preços de matérias-primas e derivados.

A questão é complexa e não se trata apenas de desperdício, nem que este possa ser atribuído apenas aos norte-americanos. O fato mesmo é que o modo de vida ocidental baseado numa imensa coleção de mercadorias disponíveis para o consumo — como sinônimo de bem-estar, progresso e sucesso — é socialmente e ambientalmente trágico. Eis porque é cada vez mais premente pensar a questão ecológica tendo como horizonte uma outra sociedade, para além da mercadoria e do consumo.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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O verdadeiro problema de Hillary com Martin Luther King

Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente.

Barbara Ehrenreich*

No começo pensei que era outra trapaça branca com a cultura negra e a criatividade: os Rolling Stones apropriando-se do Bo Diddley beat, Bo Derek praticando esporte com o cabelo cheio de trancinhas e agora Hillary, dando crédito a Lyndon Baines Johnson para votar a lei de direitos de 1965. Se essa honra já foi concedida a um branco, LBJ era uma curiosa opção desde que passou toda a convenção democrata de 1964 manobrando para evitar que o Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi conseguisse ocupar sequer uma cadeira dos dixiecrats. Segundo os critérios de Clinton, em 1972 deveríamos ter confiado em que Richard Nixon ia legalizar o aborto.
Mas o comentário de Clinton sobre LBJ revela algo ainda mais preocupante do que a surdez racial: uma teoria da mudança social que é tão elitista como incorreta. Os direitos civis dos negros não foram conquistados por homens (ou mulheres) trancados em escritórios. Foram ganhos por um movimento de massas de milhões de pessoas que marcharam, ficaram sentadas, suportaram prisão, tiros e surras pelo direito ao voto e a transitar livremente. Alguns eram estudantes e pastores, muitos eram agricultores pobres e trabalhadores urbanos. Ninguém tentou ainda fazer uma lista com seus nomes. Também é problemático, evidentemente, que se reduza o movimento pelos direitos civis a dois nomes: Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. O que aconteceu com Fannie Lou Hammer, que chefiou a delegação do Partido Democrata pela Liberdade do Mississippi na convenção de 1964? E com Ella Baker, Fred Hampton, Stokely Carmichael e centenas de outros líderes?
A teoria da história das grandes personalidades pode simplificar a escrita de livros didáticos, mas não lança luz sobre como a mudança realmente ocorre. Os direitos das mulheres, por exemplo, não foram obtidos por Betty Friedan e Gloria Steinem enquanto elas tomavam chá. Tal como Steinem seria a primeira em reconhecer, o movimento feminista dos anos setenta fincou suas raízes em volta de mesas de cozinha e de cafés, impulsionado por centenas de milhares de mulheres anônimas e fartas de serem chamadas de meu bem no trabalho e de serem excluídas dos trabalhos “de homens”. As estrelas da mídia, como Friedan e Steinem fizeram um brilhante trabalho de proselitismo, mas precisaram de um exército de heroínas anônimas para encenar os protestos, organizar conferências, repartir pasquins e difundir a mensagem para a vizinhança e os colegas de trabalho.
Mudança, este ano, é um grito de guerra democrata, mas se eles não sabem como ocorre a mudança, não estão preparados para promovê-la por si mesmos. Um caso ilustrativo é o plano de “reforma sanitária” de Clinton, de 1993. Ela não fez nenhuma viagem pelo país para ouvir o que as pessoas tinham a dizer a esse respeito, nem teve reuniões televisionadas apresentando comoventes testemunhos locais. Em vez disso, juntou durante meses uma tropa de especialistas e palacianos em reuniões a portas fechadas, algumas rodeadas de tanto segredo que até os próprios participantes foram proibidos de usarem lápis ou caneta. Segundo David Corn, de The Nation, quando Clinton foi informada de que 70% dos americanos pesquisados eram favoráveis a um sistema de pagamento individual, respondeu com sarcasmo: “agora me diga alguma coisa interessante”.
Poderia ter feito as coisas de maneira diferente, de um modo que não deixasse os 47 milhões de americanos sem cobertura sanitária que existem atualmente. Poderia ter começado percebendo que não ocorrerá nenhuma mudança real sem a mobilização das pessoas comuns que querem a mudança. Em vez de seqüestrar a si mesma com economistas e consultores de negócios, poderia ter se reunido com organizações de enfermagem, grupos de médicos, sindicatos de trabalhadores sanitários e advogados de pacientes. E, depois, poderia ter ido até a população e dizer: estou trabalhando por uma mudança séria na forma de fazer as coisas e será necessário vencer duras resistências, ou seja que vou precisar de todas as formas possíveis de apoio.
Mas ela fez do seu jeito e acabou com um plano de 1300 páginas do qual, de um lado e de outro, ninguém gosta e que ninguém sequer compreende, o que demonstra que a mudança histórica não é feita pela garota mais elegante, mesmo que ela divida a cama com o presidente. Da mesma maneira, ignorou o movimento contra a guerra desta década e perdeu, com isso, um incalculável número de votantes democratas, feministas incluídas.
Eu gostaria de pensar que Obama, com sua experiência na organização da sua comunidade e com sua insistência em estimular as pessoas, entende tudo isto um pouco melhor. Mas, seja qual for o presidente eleito este ano, não haverá nenhuma mudança real de cunho progressista sem um movimento social de massas para trazê-la, seja pedindo contas ao presidente ou à presidenta, seja impondo a ele, ou ela, uma verdadeira prova de fogo. E um movimento social não começa na cúpula. Começa exatamente agora, com vocês.
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*Barbara Ehrenreich é uma jornalista norte-americana de grande reputação como pesquisadora das classes sociais nos EUA. Esta atividade de pesquisa tem ocupado toda sua vida desde que se infiltrou, usando um disfarce de si mesma, na classe operária que recebe salários de miséria, em seu já clássico Nickel and Dimed [Por quatro centavos], um relatório exaustivo das enormes dificuldades pelas que passam muitos norte-americanos que precisam trabalhar duramente para sair adiante.
Depois, anos mais tarde, repetiu essa operação colocando o foco na classe média, mas desta vez, para sua surpresa, não acabou trabalhando de incógnito entre trabalhadores, senão que, basicamente, teve que tratar com desempregados mergulhados no desespero de terem sido expulsos do mundo empresarial. O resultado desta recente incursão é outro livro, mais recente, Bait and Switch. The (Futile) Pursuit of the American Dream. [Gato por lebre. A (fútil) busca do sonho americano]. Atualmente dedica muito tempo a viajar por todo o país com o propósito de contar suas experiências para diversos públicos que compartilham suas mesmas vivências. Escreve freqüentemente em seu blog e está muito envolvida em montar uma nova organização dedicada a articular os desempregados de classe média.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Carta Maior

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A questão do Quênia

A imprensa européia está tomada por relatos sobre a situação do Quênia, que se deteriora no que é descrito já como campanhas de massacres ou enfrentamentos étnicos, entre Kikuyus, grupo do atual presidente, Mwai Kibaki, e Raila Odinga, da oposição, dos Luo.

Flávio Aguiar

BERLIM – Por entre o crescente frenesi em torno da terça-feira, 5 de fevereiro, onde primárias democratas e republicanas ocorrerão em duas dezenas de estados norte-americanos, a imprensa européia de hoje está tomada por relatos sobre a situação do Quênia, que se deteriora no que é descrito já como campanhas de massacres ou enfrentamentos étnicos, entre Kikuyus, grupo do atual presidente, Mwai Kibaki, e Raila Odinga, da oposição, dos Luo.

É difícil penetrar mais a fundo em diferenças programáticas – se existem – entre esses dois candidatos que se enfrentaram nas eleições presidenciais do fim do ano passado e que foram o estopim dos atuais enfrentamentos, sob acusações de que o presidente Kibaki teria comandado uma fraude eleitoral para ser declarado vencedor.

Toda a descrição da cena remonta a citação de massacres mútuos entre Kikuyus e Luos, perpetrados a golpes de machete, de porretes, ou com pneus em chamas presos aos pescoços das vítimas. São imagens de uma “guerra suja”, em contraste com as “guerras limpas”, intervenções cirúrgicas e assépticas para os interventores, apesar dos milhares de mortos do outro lado, que as potências do mundo hoje costumam patrocinar e praticar.
Como quase toda nação africana moderna, o Quênia tem um passado confuso e complexo de intervenções vindas de fora. É necessário inicialmente compreender que estamos falando de um dos berços da humanidade. Os traços de humanóides, hominídeos, australopitecos e demais antepassados ou primos distantes do homo sapiens remontam respectivamente a 20, 6, ou 2 milhões de anos.

Desde milhares de anos as terras do Quênia foram cenário de caravanas e povos invasores, desde os árabes, depois os europeus: primeiro os portugueses, depois os alemães e finalmente os ingleses, que ocuparam os planaltos interiores com plantações de chá.

A ocupação inglesa provocou uma série de revoltas e sedições desde o começo do século XX, todas reprimidas com notória brutalidade pelos ocupantes. Foi assim na década de 20 com os movimentos de reivindicação trabalhistas, e foi assim logo depois da Segunda Guerra, quando surgiu o primeiro movimento organizado de independência nacional e luta pela terra, conhecido com o nome, dado pelos ocupantes, de a Revolta dos Mau Mau, que, entre eles, chamavam-se de “combatentes da liberdade”. Em todas essas revoltas, inclusive a dos Mau Mau, a participação dos Kikuyus foi preponderante.

A repressão contra os Mau Mau foi notória e espetacular. Houve, primeiro, uma repressão simbólica. Declarados um grupo terrorista, de fanáticos assassinos de fazendeiros brancos, os Mau Mau foram estigmatizados na literatura e no cinema. O mais famoso filme dessa laia, que assisti aterrorizado (pelos “cruéis Mau Mau”) numa matinê dominical do cinema Capitólio, em Porto Alegre, foi Safari, com Victor Mature no papel principal, como um fazendeiro branco que tem o filho e o resto da família assassinados pelos “fanáticos” e se dedica ao seu extermínio, o que consegue depois de muita perseguição e assassinatos.

Informações mais equilibradas dizem hoje que de fato houve violência dos Mau Mau contra famílias de fazendeiros ingleses, mas que ela foi esporádica. Havia mais perseguições contra africanos que colaboravam com os ingleses, o que não elimina nem absolve violências praticadas. Mas os Mau Mau se caracterizavam sobretudo por serem independentistas, por desejarem atrair outras etnias para sua causa, e por lutar pela posse da terra, esbulhados que se sentiam pelos colonos europeus.

Em compensação, a repressão britânica foi exemplar. Oficialmente, de 1952 a 1959, ano em que a rebelião foi considerada extinta, houve 13 mil mortos em conseqüência das ações militares ou da repressão política. Dos Mau Mau, morreram 10.173, sendo que destes, 1.574 foram mortos por enforcamento. O número de prisões passou de 70 mil, grande parte sem processo nem julgamento.

Entre as conseqüências dessa repressão em meio a uma luta desigual, descrevem-se hoje 1) a conclusão a que os britânicos chegaram de que seria impossível no Quênia estabelecer um governo de minoria branca, como queriam os fazendeiros; daí abrirem caminho para a independência liderada por um governo formado por africanos, o que se efetivou em dezembro de 1963, sob a liderança de Jomo Kenyatta, um Kikuyu que fora preso e condenado a 7 anos por ocasião da revolta dos Mau Mau; 2) a independência se fez num país em que a repressão, como não é incomum nesses casos, se assentou sobre rivalidades e perseguições tribais, impedindo a formação de um sentimento de unidade nacional mais profundo.

Desde a independência, a luta política no Quênia vem se dando no interior do grupo que “sucedeu” a Kenyatta, centrado nos políticos herdeiros da frente liderada por ele onde predominaram os de origem Kikuyu. Esses grupos, a começar pelo próprio Kenyatta, exerceram uma repressão dura contra seus oponentes, aponto de num dado momento, o Quênia tornar-se um país de partido único. Isso que, aparentemente seguiria um modelo comunista, se dava, no entanto, num país pobre, em que a maioria da população vive com menos de 1 dólar por dia, e integrado, durante e depois dos anos 90, às vagas das políticas neo-liberais que impediam a concentração de possibilidades de reerguimento estatal para alvancar um desenvolvimento. O resultado desses quadros sucessivos foi o agravamento da “tribalização” das lideranças políticas, seguidas denúncias de corrupção, o que aparece como uma luta por um botim de verbas públicas, de financiamentos estrangeiros e até das ajudas humanitárias provindas de organismos internacionais e de ongues sobretudo religiosas e européias, e uma concentração de poderes cada vez maior nas figuras presidenciais, Daniel Moi, que sucedeu Kenyatta, e ficou anos no poder, e agora Kibaki, que sucedeu Moi. Tudo isso num cenário de miséria e favelização crescente das cidades, sobretudo de Nairobi, cuja estimativa populacional fala em 4 milhões de habitantes, mas cuja estimativa não oficial fala em mais de 6 milhões. Kibera é uma das maiores e mais pobres favelas do mundo, e ali, em meio às lutas com machetes e porretes, disputam-se tanto migalhas e barracos mínimos quanto o poder que isso representa, em termos locais e em termos de obtenção de favores dos “de cima”. Teme-se que logo depois dos machetes venham as metralhadoras, e que o país possa dividir-se num sul Kikuyu e num norte Luo.

O Quênia é um país de paisagens extraordinárias. Quando lá estivemos, em janeiro de 2007, para cobrir a 7a. jornada do Fórum Social Mundial, além da cobertura fizemos (a Carta Maior – veja nossas reportagens e crônicas) uma viagem ao parque Masai, o sudoeste de Nairobi, onde conhecemos alguns dos membros desse povo-pastor, antigamente nômade. Lá conversei longamente, junto com o Marcel Gomes, com Maripet Ole Nkoile, um pastor de cabras, ovelhas e reses, a quem carinhosamente apelidei de “filósofo”.

Maripet tentava entender as mudanças por que passavam seu país e seu povo, com a crescente chegada do turismo e seus fornidos dólares, com a educação sendo aberta para todos e para as meninas, e me confessava olhar tudo isso com esperança, mas também com temor. Ficamos amigos, prometi mandar-lhe um postal de S. Paulo, onde eu morava então. Cumpri a palavra, mandei. Espero que ele possa me responder. Com mais esperança do que medo.

Carta Maior
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A reinvenção do existencialismo

Alexandre Carrasco

“A subjetividade é a verdade.” Tal juízo, dito pelo próprio Kierkegaard no seu Post Scriptum não científico às Migalhas filosóficas, poderia ser a nossa deixa para apresentar e definir essa filosofia que, salvo engano, foi a primeira a se designar “existencialista”.

Nada parece, aliás, mais adequado quando igualmente se sabe que o existencialismo que fez fama e fortuna, o francês, não se cansava de anunciar justamente um retorno à “subjetividade” como a cura para todos os males (os passíveis de cura, evidentemente).

Além do mais, há outro elemento, em parte resultado do que se chamou de “renascimento” de Kierkegaard nos anos 1920, que poderíamos adicionar a essa constelação de coincidências que parecem culminar no encontro do existencialismo francês com Kierkegaard: em 1938, Jean Whal publicava seus Estudos kierkegaardianos, e, sem o saber, tornava-se o primeiro leitor qualificado - como seus textos posteriores atestam - para entender a virada da maré existencialista na França, então em curso acelerado.

Entretanto, qual a surpresa quando se depara, ao abrir o primeiro livro de ensaios de Merleau-Ponty, Sentido e sem sentido, com um artigo intitulado “O existencialismo em Hegel”.

Não apenas Kierkegaard havia escrito deliberadamente contra Hegel - ou, como ele talvez preferisse, havia escrito justamente “migalhas” filosóficas, de maneira “não científica”, contra um filósofo do “sistema” e “científico” -, como a própria idéia de uma arena privilegiada para o espetáculo da verdade, a existência, marcada por sua necessária finitude, tem como matriz a oposição que Kierkegaard pretendeu fazer ao famigerado saber absoluto hegeliano, que, como se sabe, afirma peremptoriamente (uma vez que é absoluto) que “a verdade é o resultado, que o resultado é a verdade”.
Daí que, talvez, valha a pena rastrear o que há de Kierkegaard e o que há de Hegel nesse “novo” existencialismo, prestes a ganhar notoriedade no fim dos anos 1940. Como Hegel é um caso muito especial, fiquemos por hora com Kierkegaard.
Tomemos como exemplo o ensaio de Merleau-Ponty indicado acima. Lá, Kierkegaard aparece assimilado a tudo que é “concreto” (e, mesmo com Marx, Merleau-Ponty sugere algum parentesco). Mas não escapa a Merleau-Ponty uma distinção importante: trata-se do cuidado com que ele opõe e separa a “boa” imanência da “má” imanência. A última, a do espírito absoluto que engole a subjetividade; a primeira, a da subjetividade que se dá no mundo. Sua apreciação de Hegel é sintoma desse critério: desde cedo, Merleau-Ponty percebe que o absoluto hegeliano tornar-se-á uma má imanência à medida que traz para o buraco negro do conceito (o mecanismo do absoluto) a existência, que, muitas vezes - senão todas -, é aqui índice da subjetividade. Quer dizer, esvazia a subjetividade da sua capacidade de autoposição ou, diríamos simplesmente, de sua iniciativa.

Ora, tal apreciação põe Merleau-Ponty muito próximo de Kierkegaard e da sua “dialética”, que significa, com todas as conseqüências que se pode tirar disso, uma intransigente ancoragem do sentido na subjetividade (e, tal como a “situação” sartreana, serve de crítica ao hegelianismo das altas altitudes). Isso sugerirá a Merleau-Ponty, nos parece, a possibilidade de retomar uma tradição dialética representada, sem dúvida, pelo próprio Kierkegaard, que se autodenomina dialético em vários textos, e que se dá primordialmente na escala da subjetividade e não na escala do saber absoluto; e tudo, obviamente, em benefício desse existencialismo redivivo do qual ele faz parte.

Vejamos duas passagens de Kierkegaard:

“O problema colocado nesta brochura, sem nenhuma pretensão de o ter resolvido, já que se trata simplesmente de o pôr, seria o seguinte: pode haver consciência eterna baseada num ponto de partida histórico; como um tal ponto de partida pode oferecer um interesse mais que histórico; pode-se fundar uma felicidade eterna num saber histórico?

(…)

“Entretanto, para prevenir toda confusão, lembremos imediatamente que o problema não é aquele da verdade do cristianismo, mas da relação do indivíduo com o cristianismo; em outros termos, ele não concerne ao zelo sistemático que um indivíduo, alhures indiferente, desprende para alinhar em si a verdade do cristianismo, mas no cuidado e no interesse infinitos que ele dá à questão de suas relações com essa doutrina. Em termos tão simples quanto possível (e para submeter-me à experiência): ‘Eu, Johanes Climacus, nascido nesta cidade, hoje com trinta anos, homem ordinário como a maioria, admito que para mim como para um criado e para um professor, há em perspectiva um bem supremo que se chama felicidade eterna; ouvi dizer que o cristianismo condiciona esse bem, eu pergunto como relacionar-me com essa doutrina?’. Ouço um pensador: ‘Que imprudência, ele diz, que atroz vaidade em nosso século 19 teocêntrico e tão importante para a especulação, que ultraje ousar supor um tal peso a seu pobre e pequeno eu!’. Tremo; se não tivesse me firmado contra os diversos tipos do horror, eu me enfiaria no buraco do camundongo. Mas eu me sinto livre de toda acusação nesse sentido, pois não me é própria a insolência; ela me vem, como obrigação, do cristianismo.”1

Nas passagens transcritas (a prosa de Kierkegaard vale a longa citação) de um livro em que o anti-hegelianismo aparece já no título (o caráter “não científico” do post-scriptum), Kierkergaard centra o fogo naquilo que chamará de “pensamento objetivo” e cuja natureza, radicalmente diferente da subjetividade, inviabilizaria a própria subjetividade, se o tomarmos como princípio ou fundamento. Como ele parece estar bem ciente das implicações desse recorte, que diferencia naturezas e não apenas separa quantidades, asseverará adiante (cf. p. 52) que a tese hegeliana “segunda a qual o exterior é o interior; e o interior, o exterior” não vale para o cristianismo justamente porque o cristianismo não será, na versão inventiva de Kierkergaard, a doutrina em forma de compêndio, mas uma relação íntima do eu com a idéia inescrutável, o espaço válido para a liberdade e a invenção do pequeno eu do filósofo.

Há outro elemento-chave para essa conversão pela subjetividade e que não aparece no texto citado: trata-se do instante, descrito em detalhes nas próprias Migalhas filosóficas e em O conceito de angústia. O instante é, por excelência, o limite existencial do tempo, porque é nele que o tempo pode realizar um salto qualitativo. Será no instante que o homem - interessado em sua própria felicidade e, portanto, fazendo uso de sua liberdade -, supera precariamente os limites de sua finitude; é no instante que as palavras do mestre (interior) se convertem em ensinamentos para o discípulo.

Ora, o intrigante desse parti pris é seu resultado. Como dirá Merleau-Ponty, menos que uma outra teologia, as obras de Kierkegaard fundam uma antropologia em que o constante e, por vezes, inusitado desdobramento do sentido interior é a pedra de toque do movimento da subjetividade.

Importante notar, ademais, que a tese hegeliana da reversibilidade interior-exterior é o que mais interessa aos existencialistas, que não desistem da procura de um “existencialismo” em Hegel. Dado que a intencionalidade é, em suma, a posição subjetiva da objetividade, não serão poucos os momentos em que o Hegel da “fenomenologia do espírito”, isto é, o Hegel dos momentos objetivos da “subjetividade”, na tradução dos existencialistas, aparecerá como mais essencial que Kierkegaard e seu existencialismo da “interioridade”, interioridade em relação à qual Sartre e Merleau-Ponty pretendem escapar.

Entretanto, se é o interior que contamina o exterior - e, portanto, deixamos a salvo a consciência -, se é o interior que reduz o exterior às significações válidas para mim, então permanece o ponto de partida de Kierkegaard. Se Kierkegaard não aceita outra dialética senão aquela que ele chama de “comunicativa” e “negativa” (cf. op. cit., p. 61 e ss.), é porque essa subjetividade, mesmo que ganhe ares “objetivos” graças à intencionalidade, não realizará os feitos do saber absoluto, e bem poderá se aparentar à dialética “truncada” sartreana.

Não à toa Sartre descobrirá por meio dela o mundo dos “artistas e dos profetas”. Kierkegaard sentir-se-ia em casa.

Revista Cult
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Empresas de países ricos não consideram a mudança climática uma prioridade

Um estudo que incluiu pesquisas com mais de 500 grandes empresas no Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Índia e China, apresentou como resultado que só uma de cada dez companhias considera a mudança climática como uma prioridade. O estudo revela que as empresas esperam que os governos liderem a luta contra esse fenômeno ambiental e alertam que em um cenário de crise econômica mundial, como a que estaria configurando-se por esses dias, é ainda menos factível que se assuma a mudança climática como tema prioritário.

Nada novo, se poderia dizer. Não é possível esperar, pelo menos hoje que sejam as grandes corporações as que liderem a luta mundial contra a mudança climática. Ainda assim é sua responsabilidade. Essa batalha a encabeçam os movimentos e organizações sociais ao redor do mundo, em sua luta pelo que chamam "justiça climática", e até agora seus pedidos e propostas tiveram muito pouco eco em quem tem o poder para tomar decisões. Não obstante, bem vale conhecer as cifras deste estudo, que põe números que desinteressam aos líderes econômicos dos países ricos na luta contra a crise climática.

Só 5% das mais de 500 empresas consultadas, e nenhuma na China, consideraram a mudança climática como sua principal prioridade, ao mesmo tempo, que apenas 11% a colocou em segundo ou terceiro lugar, segundo o estudo da consultora internacional Accenture, que retoma o diário britânico The Independent.

Em uma análise geral, a mudança climática ficou em oitavo no ranking de prioridades dos líderes empresariais. O aumento das vendas, a redução dos custos, o desenvolvimento de novos produtos e serviços, a concorrência por pessoal bem capacitado, o crescimento nos mercados emergentes, a inovação e a tecnologia estão na frente.

A posição do mandatário estadunidense George W. Bush de que a mudança climática se enfrenta de melhor maneira mediante iniciativas voluntárias do mundo empresarial fica pelo chão. De fato, as empresas esperam que os governos indiquem as medidas necessárias para enfrentar a crise climática. Estão longe de tomar a iniciativa.

O estudo acrescenta que a maioria das companhias afirma que está adotando algumas ações, que são no geral muito limitadas, para reduzir suas próprias emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento global. Entretanto, uma empresa de cada cinco não tomou nenhuma medida nesse sentido.

Nesta mesma linha, cerca de 67% dos negócios perguntados reconheceram que têm um papel para cumprir na luta contra a mudança climática. No entanto, só quatro empresas de dez se sentem em posição de atuar na matéria. Na China, em particular, só 14% das empresas perguntadas manifestou sentir-se forte nesse sentido.

O estudo conclui que "os empresários claramente estão buscando sinais de longo alcance sobre onde e como investimentos. São relutantes em fazer grandes investimentos em iniciativas vinculadas à luta contra a mudança climática até que esteja claro o alcance da futura regulação", segundo afirma o The Independent.

A devastação da Amazônia e do bom senso

O noticiário recente sobre os números da devastação da Amazônia é mais uma demonstração da incapacidade, ou desinteresse da imprensa em tratar os temas realmente fundamentais neste começo de século. Ao lado dos conflitos originados no processo de globalização, de fundo religioso, econômico ou como resultado da expansão de guerras tribais remanescentes de milhares de anos, certamente o tema da defesa da biodiversidade – com a conseqüente mudança nas matrizes de energia e modelos econômicos de exploração dos recursos naturais – é um dos mais relevantes do nosso tempo. E a Amazônia, que tem 60% de sua área em território brasileiro, se coloca no centro dessa questão.

A sobrevivência da Amazônia está ameaçada, e não é pelas razões tradicionais – garimpeiros, madeireiros etc. Segundo o Greenpeace, nos últimos 35 anos a Amazônia Brasileira perdeu 17% de sua cobertura vegetal. O ritmo do desmatamento se acelerou a partir dos anos 80, com o avanço da pecuária, e vem sofrendo novo impulso há cerca de dez anos, com a expansão das áreas de plantio da soja. A pecuária e a produção de grão estão comprovadamente relacionadas à perda da floresta, e não há sinais de que essas atividades econômicas tenham resultado em benefícios para a maioria da sociedade brasileira.

Um modelo econômico baseado na exportação das chamadas commodities – produtos de baixo valor agregado, como minérios in natura e grãos –, além de ser concentrador de riqueza, representa uma verdadeira motoniveladora nas bordas da floresta: na visão de empreendedores ignorantes e irresponsáveis, sai mais em conta derrubar a mata do que recuperar as áreas degradadas que deixam para trás. Sai "mais em conta" porque eles ficam com o lucro e dividem o prejuízo com o resto de nós.

Celebração do agronegócio

E o que a imprensa tem com isso? Tem que a imprensa nunca faz a conta certa dessa economia. Quase todo mês, a mídia faz a celebração dos grandes números do agronegócio, e omite o custo real para o País, que é remetido para as gerações futuras de brasileiros. Agricultores e pecuaristas que se valem da destruição do patrimônio natural que é de todos para obter seus lucros são bandidos e deveriam ter suas terras confiscadas, em vez de serem ungidos como heróis da mídia e ainda contarem com o benefício dos subsídios governamentais.

Durante os recentes debates sobre os números do desmatamento em 2007, divulgados com alarde pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e pela ONG Imazon, junto com o Ministério do Meio Ambiente, os jornais fizeram muito alarde sobre o anúncio de que a devastação havia se acelerado no último trimestre. No entanto, faltou a ligação entre o crime e suas motivações.

Faltou dizer, por exemplo, que há um conluio entre autoridades e produtores rurais em Estados como Mato Grosso e Rondônia para produzir o fato consumado da redução da cobertura florestal e assim justificar um novo contorno para a Amazônia Legal, excluindo esses territórios das áreas "protegidas" por lei. Houve uma breve citação, mas fora de contexto, de uma relação direta entre o desmatamento e outros sintomas de ausência da autoridade do Estado nas chamadas novas fronteiras agrícolas: nos municípios campeões de desmatamento, principalmente no Mato Grosso, Rondônia e Pará, é onde são registrados mais freqüentemente os casos de trabalho escravo.

Esses municípios são também os mais violentos do País, segundo o Mapa da Violência divulgado semana passada pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana. Apenas O Estado de S.Paulo se demorou um pouco mais em observar essa coincidência, mas há um corte na imprensa que impede o leitor de relacionar os problemas sociais com o modelo econômico apoiado pela mídia.

Da mesma forma como o noticiário escandaloso sobre crimes de grande repercussão forma no cidadão comum opiniões pouco civilizadas sobre criminalidade e Justiça, a divulgação espalhafatosa de dados sobre a questão ambiental produz todo tipo de emoção, mas não ajuda a formar a consciência da população. Já se disse neste Observatório que a imprensa não se dispõe a fazer a crítica do sistema econômico. Apenas eventualmente se refere a suas mazelas, com abordagens fora de contexto. A questão crucial da preservação da diversidade biológica e do imenso patrimônio das nossas florestas não pode continuar motivando apenas manchetes indignadas.

A insanidade de alguns predadores precisa ser contraposta ao bom senso do interesse

coletivo e de longo prazo. Em algum momento, a imprensa precisa começar a refletir sobre a necessidade de um modelo econômico que contemple o futuro de todos, e não apenas o lucro imediato de seus heróis sem caráter.

Texto: Fonte: Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa.

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Salto alto no deserto mongol

Em um momento no qual os pastores nômades da Mongólia enfrentam ameaças à sua existência tradicional, as mulheres estão adquirindo novos papéis nas estepes do país. E elas estão tendo sucesso

Manfred Ertel

Este é um dia especial em Bayan Bag, no centro do Deserto de Gobi. Homens e mulheres usando roupas tradicionais festivas andam pela poeirenta praça central da cidade seguindo em direção a uma tenda erguida para a ocasião. Os robes de um magnífico azul brilhante ou cinza cintilante, usados sobre as calças e que vão até o topo das botas ásperas, são chamados de “deel”.

Alguns dos mongóis que participam do festival viajaram horas pela areia quente do deserto. Alguns chegam em automóveis utilitários esportivos ou em motocicletas, mas a maioria usa cavalos ou camelos como meios de transporte. Esses são os representantes de cerca de 250 famílias nômades que, muitas vezes vivendo a vários quilômetros de distância umas das outras, ganham a vida criando animais neste território árido.

Bayan Bag - um conjunto de cabanas rudimentares de madeira e yurts, as construções tradicionais arredondadas também conhecidas como “gers” - é ao mesmo tempo a principal cidade e o único local de assentamento permanente em toda a área. Para esses pastores nômades, Bayan Bang é o lugar onde eles compram os produtos de consumo e vendem lãs e peles. Quando vêm à cidade, eles também discutem os diversos problemas em reuniões comunitárias, como aquela que ocorre hoje, presidida pelo supervisor do governo da cidade. Um exemplo do tipo de tópico discutido em tais reuniões é a compra de uma motocicleta que será usada pelo curandeiro local.

Um líder definitivamente não tradicional
Em meio a um mar de faces queimadas pelo sol, uma jovem gesticula para aqueles à sua volta. Gantuul Sukhee, 33, está de pé na poeira, usando botas de caubói de salto alto e fino, calças que vão até o joelho e uma jaqueta curta cor de vinho. Essa indumentária não tem nada a ver com a Mongólia. O cabelo dela é cortado à altura do ombro. Ela caminha com passos bamboleantes pela praça esburacada com as suas botas de salto alto, conversando com homens e mulheres, rindo e dando instruções.

A aparência de Gantuul esconde o fato de que ela é na verdade uma pastora nômade que vive em regiões remotas, e que é mãe de dois filhos. Para chegar a Bayan Bag ela tem que viajar uma hora e meia de jipe por uma estrada cheia de crateras. Apesar de ser tão jovem, ela já atuou como diretora do seu conselho comunitário, tendo abandonado esse cargo para poder passar mais tempo com o filho e a filha. Agora Gantuul é a chefe não oficial da comunidade nômade - e o orgulho e a alegria da Agência Alemã de Cooperação Técnica (GTZ, na sigla em alemão de Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit). A jovem nômade deve a sua carreira nas areias do deserto a um inusual programa de desenvolvimento capaz de dar resultados surpreendentes com meios modestos.

Liderada por Sabine Schmidt, 50, uma ex-geóloga que atuava no Alasca, a GTZ lançou um programa no final da década de 1990 com o objetivo de ensinar aos nômades melhores métodos de manejo de pastagens com o uso sustentável dos seus desertos e pradarias. Foi um projeto ambicioso e no qual muita gente não tinha esperança, lançado neste país árido que é mais de quatro vezes maior do que a Alemanha.

Os novos nômades da Mongólia
Quase 40% da população da Mongólia de cerca de 2,6 milhões de habitantes ainda é composta de pastores nômades que vivem nas estepes centrais e pradarias da Ásia, em uma existência que segue os ritmos de costumes e tradições seculares. As pessoas seguem os animais e as forças da natureza, que trazem verões curtos e quentes, invernos prolongados e de um frio cortante e, entre essas duas estações, períodos de chuvas e ventos abundantes.

Embora mais da metade dos mongóis ainda more nos seus yurts, as favelas em torno da capital Ulan Bator estão crescendo. Os mongóis passam as suas tradições de geração a geração, o que ajudou a garantir que eles atualmente formem aquilo que provavelmente é a última nação razoavelmente intacta de nômades. Mas agora a própria existência deles está ameaçada pelo avanço da desertificação, que está engolindo inexoravelmente as estepes e as pradarias da Mongólia. O resto das pastagens é excessivamente utilizado, uma conseqüência retardada do colapso da União Soviética.

Após a revolução pacífica da Mongólia de 1990, centenas de milhares de funcionários públicos desempregados retornaram às suas raízes no vasto interior do país. Jörg Janzen, professor de geografia e especialista nos nômades, chama esses indivíduos de “novos nômades”. Após terem deixado para trás as ruínas da ex-República Popular, eles agora lutam para sobreviver no interior do país.

Segundo as estatísticas oficiais, durante esse período os rebanhos da Mongólia - que incluem carneiros, cabras, bois, cavalos e camelos - aumentaram de cerca de 25 milhões para cerca de 35 milhões de cabeças. Outros calculam que o número atual está mais perto das 50 milhões de cabeças.

Os novos nômades eram geralmente pobres e relativamente desacostumados com as tradições dos seus ancestrais nômades. Os seus rebanhos eram pequenos e consistiam praticamente de cabras - criadas devido à lã lucrativa que produzem -, bem como de alguns carneiros. Os novos nômades preferiam ficar nas proximidades das poucas cidades do país. Em vez de se deslocarem de uma pastagem a outra segundo o ritmo das estações, eles permitiam que os rebanhos acabassem com o capim que já era raro. Nos invernos rigorosos, quando as temperaturas podem chegar a -50ºC, eles usavam os arbustos restantes como combustível para aquecimento.

Sabine Schmidt e a sua equipe de funcionários especializados em desenvolvimento logo perceberam que os clássicos programa de proteção ambiental de estilo ocidental, com as suas regras, proibições e regulamentações, eram totalmente inapropriados para a Mongólia. “Não dava para conversar com as pessoas sobre conservacionismo quando elas não tinham o que comer”.

A primeira providência dos funcionários da agência de desenvolvimento foi convencer os nômades de que eles poderiam alcançar mais resultados cooperando entre si do que atuando sozinhos. Logo eles passaram a fazer as refeições, e até a tomar um ou dois copos ocasionais de vodca, em conjunto. À medida que a confiança aumentava, eles foram percebendo que os alemães estavam certos. As famílias de pastores nômades uniram forças para formar comunidades de forma que atuassem com mais eficiência - em uma espécie de triunfo atrasado do socialismo.

A cooperativa “Ireedui” foi uma das primeiras desses grupos, e ainda é considerada um dos projetos modelos da equipe alemã. Criada em 1999, ela inicialmente contava apenas com um punhado de famílias. Atualmente a cooperativa Ireedui consiste de 35 famílias - 150 homens, mulheres e crianças, e 7.000 animais.

As famílias ajudaram umas as outras com tarefas como o reparo de estábulos, a eliminação de carcaças de animais e a perfuração de poços mais profundos, ou com a troca de informações sobre o cultivo de verduras e legumes. A cooperativa criou um conjunto de regras para governar as vidas dos seus membros e as interações entre estes. Hoje cada família tem que se deslocar para uma pastagem diferente quatro vezes por ano, e a remoção de arbustos para fazer lenha é proibida. Em vez disso, os nômades usam esterco seco como combustível para aquecimento.

Riqueza no deserto
“Antigamente cada família lutava para sobreviver por conta própria”, diz Gantuul. Agora cada membro da cooperativa é também parcialmente responsável pelo bem-estar do grupo como um todo. Todas as famílias da cooperativa contribuem para um fundo destinado aos períodos difíceis. As mulheres foram as pioneiras no grupo. Cinco delas, incluindo Gantuul, logo entenderam que tinham que livrar as suas famílias da pobreza. Atualmente Gantuul considera-se rica. Ela tem 200 animais bem alimentados, um veículo utilitário esportivo russo, uma motocicleta e um gerador movido a energia solar - que também fornece eletricidade para uma antena parabólica. Atualmente todas as famílias possuem televisores nos seus yurts.

Esse novo mundo no deserto também modificou as relações entre homens e mulheres. No passado, os homens cuidavam do patrimônio mais valioso das famílias - os rebanhos -, enquanto as mulheres tomavam conta das crianças e administravam o lar. Os garotos eram tirados da escola ainda novos para ajudarem a tomar conta dos rebanhos. A maioria freqüentava a escola de primeiro grau por apenas quatro ou cinco anos. As meninas, que eram tidas como um peso e um risco social, tinham permissão para freqüentar a escola por mais tempo, geralmente até concluírem o equivalente ao primeiro ano do segundo grau.

Agora quem está usando calças?
Nas novas cooperativas de pastores nômades, as mulheres não só possuem direitos iguais nas suas famílias, como são elas também que chefiam. As mulheres administram cerca de 80% das 83 cooperativas no Deserto de Gobi. Elas participam de aulas de gerenciamento, onde aprendem liderança e técnicas organizacionais, bem como a fazer discursos e a falar em público.

Gantuul praticou as suas habilidades de oratória enquanto pastoreava carneiros sozinha no deserto. Só depois de um ano inteiro de brigas e discussões o seu marido, Erdenetogtokh, 32, aceitou o novo papel da mulher. Até hoje Erdenetogtokh não entende as perguntas dos visitantes curiosos sobre a igualdade de direitos e os novos papéis das mulheres na comunidade. Mas ele não perde tempo em afirmar que está “orgulhoso” da sua “nova mulher”.

A próxima etapa na agenda de Gantuul é estudar gerenciamento organizacional, de preferência em uma universidade particular. Ela está até pensando em seguir uma carreira política, e pretende concorrer ao cargo de governadora do seu “aimag”, ou Estado. “Sou uma pastora”, afirma Gantuul. “Entendo os problemas locais e sou capaz de conversar com as pessoas sobre as coisas que são importantes para elas”.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Pão subsidiado esconde corrupção e problemas sociais no Egito

Michael Slackman

“Saia! Para trás! Para trás! Eu não vou vender para você!”

Ibrahim Ali Muhammad, um vendedor de pão, estava gritando com seus clientes. Seus dentes são escuros e disformes por cáries e ele disse que o estresse de seus 20 anos no emprego lhe rendeu uma diabete. Ele estava em pé atrás de grades, como de prisão, gritando com uma multidão que empurrava e se acotovelava, esticando dinheiro para ele.

“Eu já vendi para você”, ele gritou de novo, desta vez distraído por um homem vestindo jaqueta azul que se virou e bateu no homem atrás dele.

É difícil conseguir se sustentar no Egito, onde cerca de 45% da população sobrevive com apenas US$ 2 por dia. Este é um motivo para tentar comprar pão subsidiado poder ser um negócio feroz, sobrando punhos e cotovelos, homens empurrando e crianças pequenas se esquivando dos golpes para chegarem até o balcão.

O Egito é um Estado onde a corrupção é amplamente vista como sistêmica, um motivo adicional para a população ficar agressiva ao tentar comprar pão subsidiado. O pão barato do Estado pode ser revendido, freqüentemente pelo dobro do preço original.

“O que não mudou no Egito em 50 anos não vai mudar agora”, disse Muhammad, apesar de não ter ficado claro se falava do caos diante dele ou do pão barato sendo assado atrás dele.

Grande parte do que aflige o Egito parece se refletir na história do pão subsidiado. Ela fala de um Estado que está de muitas formas preso ao passado, lutando para se lançar ao futuro, incapaz, ou não disposto, a derrotar a corrupção ou mesmo persuadir as pessoas a se importarem umas com as outras.

Como pegar um sistema falido que de alguma forma ajuda a alimentar 80 milhões de pessoas e consertá-lo sem causar desordem social? Este é um desafio para o Egito de forma geral, e para esta pequena padaria onde Muhammad ganha com esforço sua vida, com um cigarro pendurado nos lábios e uma multidão enfurecida exigindo seu pão.

Pão, em árabe egípcio, é chamado “aish”, que literalmente significa vida, em vez de “khobz”, a palavra usada por outras povos de língua árabe. “A palavra, aplicada ao pão, dá a este elemento cotidiano uma qualidade quase mística”, disse Hamdy el-Gazzar, autor de “Black Magic”, um romance popular recentemente traduzido para o inglês. “O relacionamento do Egito com o pão não é de liberdade, mas de necessidade.”

O Egito começou a subsidiar itens básicos como pão, açúcar e chá por volta da Segunda Guerra Mundial e não parou desde então. Quando ele tentou encerrar o subsídio ao pão em 1977, houve grande tumulto. Os egípcios costumam não ser conhecidos como pessoas explosivas, mas se lhes disser que vai aumentar o preço do pão -da vida- é melhor ter cuidado.

Assim, o subsídio ao pão continua, custando ao Cairo cerca de US$ 2,74 bilhões por ano. No geral, o governo gasta mais em subsídios, incluindo a gasolina, do que gasta em saúde e educação. Mas não é apenas o custo dos subsídios que atormenta o governo. Ele também alimenta uma espécie de corrupção desenfreada que mina a fé no governo, desencoraja o investimento e reforça o espírito de cada um por si no país.

“O setor mais corrupto no país é o de provisões”, disse um inspetor do governo que pediu para não ser identificado por temer punição. Seu trabalho é ir até as padarias para assegurar que estejam de fato usando a farinha barata do governo para produzir o pão barato que é vendido a preço apropriado.

O inspetor explicou por que o sistema é tão vulnerável a abusos. O governo vende às padarias sacos de farinha de 25 libras (cerca de 11 kg) por oito libras egípcias, o equivalente a cerca de US$ 1,50. As padarias devem supostamente vender o pão a um preço subsidiado, o que lhes dá um lucro de cerca de US$ 10 por saco. Ou a padaria pode simplesmente vender a farinha no mercado negro por US$ 15 o saco.

Se o inspetor, que disse receber US$ 42 por mês, certificar após três meses que a padaria usou fielmente a farinha para fazer pão, a padaria recebe um reembolso de cerca de US$ 1 por saco. Uma padaria que usa cerca de 40 sacos por dia em um período de três meses é reembolsada em 18 mil libras (cerca de US$ 3.300) -uma bela soma, disse este inspetor, que poderia ser facilmente compartilhada com um inspetor mal remunerado.

“Eu sou alguém com 230 libras de salário”, disse o inspetor. “Digamos que eu queira alimentar meus filhos três vezes ao dia e enviá-los para escolas públicas. Apenas para fazer isso são necessárias 1.000 libras por mês.”

Abdallah Badawy Aboul Magd, chefe do escritório da Administração de Provisões em Giza, disse que a corrupção aumentou recentemente devido ao aumento dos preços do trigo e de outros itens básicos. Para tentar combater o problema, ele disse, os administradores deram início a um projeto piloto de separação da produção da distribuição, forçando as padarias a venderem apenas aos distribuidores, que podem ser mais facilmente monitorados.

É difícil avaliar o atual grau de corrupção porque as práticas corruptas não são regularmente denunciadas. Em uma proeminente pesquisa de 2007 que classificou 180 países pela “percepção de corrupção” de seus habitantes, o Egito caiu para o 105º lugar, de 70º no ano anterior

A economia egípcia está crescendo em um ritmo saudável -7% no ano passado- mas virtualmente isso não tem afetado às classes mais baixas. Assim, em vez de tornar a vida nas ruas mais estável, o desempenho econômico estatisticamente forte apenas deixa as pessoas mais irritadas. Um estudo recente do Banco Mundial corroborou este amplo sentimento de descontentamento, concluindo que a pobreza em geral em 2004-2005 “voltou quase ao mesmo nível em que se encontrava em 1995-1996″.

“No total, quase 14 milhões de indivíduos não conseguem obter seus alimentos básicos e necessidades não alimentares”, disse o relatório.

Assim, as pessoas lutam por pão barato. Elas começam a se reunir diariamente do lado de fora da padaria despojada por volta das 11h, exceto às sextas, o dia da oração.

Ao longo de uma hora em um dia recente, Mahmoud Ahmed, 14 anos, conseguiu chegar quatro vezes até o balcão. O trabalho dele, ele disse, era assegurar um fluxo constante de pão para um vendedor de alimento próximo, que então o revendia na forma de sanduíches. Parecia que o padeiro o deixava abrir caminho até a frente para receber o pão antes dos outros. Havia algum acerto entre eles? Mahmoud não disse.

Descendo a rua, a cinco quadras de distância, Muhammad Abdul Nabi, 12 anos, estava vendendo pão, do mesmo tipo, em uma mesa improvisada por mais que o dobro do preço na padaria. Mas não havia filas.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Receita americana para reprodução da elite

Como o sistema educacional norte-americano joga fora as idéias de “concorrência” e mérito para garantir que os filhos da elite tenham lugar cativo em um clube fechado de proteção e reprodução de seus quadros

Rick Fantasia

O sistema reproduz as elites e, ao mesmo tempo, nega a existência de um sistema de classe e sua influência sobre o poder
Na noite da eleição presidencial, o champanha correrá num edifício de pedra – “La Tombe” [O Túmulo], situado no coração do campus da Universidade de Yale, em New Haven, no Connecticut. As comemorações vão acontecer qualquer que seja o vencedor, John Forbes Kerry ou George Walker Bush.

Parecido com um mausoléu, “O Túmulo” é a sede da Skull and Bones Society (Associação do Crânio e dos Ossos). É o mais fechado dos grupos iniciáticos de Yale. A cada ano, 15 estudantes, em licença, encontram-se nessa sociedade secreta, trampolim para o poder desde que nasceu, há 172 anos. Tem 800 membros vitalícios que, por meio de ritos secretos e encantações, foram unidos numa lealdade testada. Não é só George W. Bush que é um “Bonesman”, também o são seu pai, o ex-presidente George H. W. Bush, seu tio Jonathan Bush, os tios de seu pai, John Walker e George Herbert Walker III, e seu avô, Prescott Bush; por outro lado, o atual presidente dos Estados Unidos nomeou pelo menos cinco membros desse grupo para cargos em seu governo. Se o candidato republicano vier a perder a eleição, será sucedido por um outro diplomado de Yale e membro da Skull and Bonés: John Kerry.

A Skull and Bones Society serve igualmente como correia de transmissão para a Corte Suprema, para a Central Intelligence Agency (CIA), para as bancas de advogados e para os conselhos de administração mais prestigiosos do país. A rede constituída por essa sociedade oferece um abundante material a quem quiser elaborar uma história tecida de complôs e de intrigas. Entretanto, é mais produtivo partir desses clubes e associações para dissecar os mecanismos habituais de privilégios de classe que funcionam no interior do sistema educacional através de clubes privados. Porque, assim como Yale tem sua Skull and Bonés, Harvard tem seu Porcellian Club e a Universidade de Princeton tem seu Ivy Club. Com as instituições menos conhecidas que a elas se vinculam, as oito universidades de elite norte-americanas da “Ivy League” compõem um mecanismo de seleção social bem regulado que permitiu reproduzir as elites norte-americanas e, ao mesmo tempo, negar a existência de um sistema de classe e sua influência sobre o poder.

Mudança no pós-guerra
As instituições privadas da elite tiveram aceitar os que eram socialmente bem colocados e os que eram escolarmente bem preparados
No pós-guerra, teve início uma dinâmica de democratização do ensino secundário norte-americano graças ao desenvolvimento do sistema público de ensino superior e universitário. Uma população importante e diversificada teve acesso a estudos superiores, o que não deixou de induzir mudanças no âmbito da elite e das instituições privadas. Até então, as universidades da Ivy League funcionavam a serviço da classe alta, recebendo quase unicamente filhos das famílias aristocráticas, geralmente na base de uma “piscada e de um aperto de mãos” (o que equivale a dizer em função da rede de relações sociais). Uma vez admitidos, esses filhos de família de “sangue azul” levavam uma vida universitária tranqüila num clima de veneração institucional. Estabeleciam sólidas ligações com seus pares, destinadas a durar a vida toda e que iam do Rotary Club aos conselhos de administração, passando pelos terrenos de golfe (é o que ainda se chama de old boy network, ou “rede dos rapazes de idade madura”).

No decorrer das décadas seguintes, sob a pressão das novas políticas governamentais de ajuda aos estudantes sem dinheiro, do Movimento dos Direitos Civis dos Negros e das lutas feministas, as instituições privadas da elite tiveram que fazer coexistirem os que eram socialmente bem colocados e os que eram escolarmente bem preparados. As universidades da Ivy League apoiaram, então, critérios de admissão mais meritocráticos do que aristocráticos (resultados nos exames, histórico escolar). Com a multiplicação dos estabelecimentos públicos de qualidade e uma escolaridade a baixo custo, o aparecimento de bolsistas nos campi da maioria dos faculdades e universidades de elite fortaleceu a idéia de um sistema de ensino superior aberto a (quase) todos. Bastava trabalhar muito.

Seleção social
As portas das instituições abriram-se, mas o mundo fechado dos clubes ainda desempenha um papel social maior
O sistema norte-americano de educação superior, entretanto, continua a obedecer a poderosos mecanismos de seleção social, embora sejam mascarados pelos importantes fundos que os faculdades e universidades investem em suas relações públicas, apresentando, externamente, uma imagem de excelência educacional e de neutralidade social. As portas das instituições abriram-se, mas o mundo muito fechado dos clubes, das associações estudantis e das sociedades iniciáticas ainda desempenha um papel social maior nos estabelecimentos da Ivy League. Eles se encarregam da seleção que as universidades efetuavam abertamente antes da democratização” 1. Esses clubes reproduzem o mundo social da elite como uma espécie de conflito cultural, uma conserva cultural da exclusão de classes num sistema de educação baseado, em princípio, na negação das estratificações sociais.

Ainda que os estabelecimentos da Ivy League recebam estudantes originários de um espectro mais amplo da população que no passado, o essencial de seus efetivos provém das elites sociais norte-americana e internacional. Por outro lado, estimulam a presença de clubes reservados à classe superior porque eles asseguram quase automaticamente um pool de doadores potenciais no momento de suas campanhas de arrecadação de fundos.

O ensino superior norte-americano é assegurado por mais ou menos 2 mil instituições cuja hierarquia, com freqüência, estabelece uma correlação entre nível de seletividade e de prestígio com a antiguidade – a hera, ivy, leva tempo para cobrir a fachada de um edifício –, o volume de sua dotação financeira e a origem social de seu corpo discente. No ápice, encontra-se Harvard (fundada em 1636), Yale (1701) e Princeton (1746), as três universidades mais seletivas e mais famosas. Cada uma está à frente de um fundo de dotações equivalente ao capital de firmas multinacionais (com 22 bilhões de dólares, Harvard é a universidade mais rica do planeta; tanto Yale como Princeton detêm, cada uma, cerca da metade desse montante). Cinco outras universidades privadas da Ivy League possuem vários bilhões de dólares, o mesmo ocorrendo com cerca de uma dúzia de outras faculdades privadas entre as mais cotadas.

Negócio universitário
As doações de famílias ricas são estimuladas por “escritórios de desenvolvimento” instalados no interior das universidades
Essa fonte de riqueza é fruto das relações estreitas e antigas entre os estabelecimentos e as famílias norte-americanas mais ricas e eminentes, cujas copiosas doações são cuidadosamente estimuladas por “escritórios de desenvolvimento” instalados no interior das próprias universidades. Aos olhos das multidões, os clubes privados podem passar por bastiões dos privilégios e da exclusão; aos olhos dos administradores das faculdades, são sobretudo frutos maduros a serem colhidos. Os legados dos ex-alunos da Ivy League se sucederam ao longo das gerações, oferecendo aos estudantes atuais as vantagens (equipamentos, professores) de uma herança considerável: as dotações de Princeton, Harvard e Yale, por estudante, chegam, respectivamente, a 1,3 milhão de dólares, a 1,065 milhão de dólares e a 947 mil dólares. A prática que consiste em fazer donativos pessoais a sua alma mater começa a se estender aos estabelecimentos públicos.

Isentas de impostos, as universidades, com freqüência, dão aos municípios uma contribuição voluntária que lhes permite manter boas relações com os políticos locais. Não contentes com investir seus fundos de dotação nos mercados financeiros, várias delas possuem também um enorme parque imobiliário. Amplos setores de Cambridge e de Boston, por exemplo, pertencem a Harvard. Yale possui um patrimônio imobiliário muito apreciável na região de New Haven. Quanto à Universidade de Columbia, seu fundo de dotação de 5 bilhões de dólares faz dela um dos maiores proprietários de terras de Nova York, cidade em que os imóveis são dos mais caros do mundo.

Atrás dos estabelecimentos da Ivy League vêm dezenas de faculdades privadas classificados em função de sua seletividade, de sua reputação, de sua antiguidade, de seus fundos de dotação e da origem social dos alunos. Voltadas para a aquisição de uma “cultura geral” (i) e para a formação dos alunos para a reflexão “gratuita”, essas instituições atraíram os filhos das elites sociais que não sofrem pressão financeira e parental para adquirir conhecimentos práticos e entrar no mercado tão logo acabem os quatro anos de estudos e obtenham a licença.

Regime de exclusão
Ameaças de privatização e medidas fiscais regressivas obrigaram algumas das maiores universidades públicas a acumular seus próprios fundos de dotação
Um grau mais baixo na escala social, encontram-se os estabelecimentos públicos. Financiados pelos Estados, sua influência não alcança a de seus congêneres privados, embora os de maior prestígio (Berkeley, o MIT, Caltech, Michigan State University etc.) compensem com sua reputação científica o que lhes falta no plano social2. Durante as décadas do pós-guerra, sua base financeira foi fortalecida pela popularidade de suas equipes de futebol, a qual garantiu um apoio popular e a benevolência dos políticos encarregados do controle de seu orçamento. Porém, mais recentemente, as pressões conjugadas da privatização e de medidas fiscais regressivas obrigaram algumas das maiores universidades públicas a acumularem seus próprios fundos de dotação a fim de atenuar os limites financeiros.

Além dos quase 150 estabelecimentos, públicos ou privados, que combinam qualidade de ensino, nível científico e reputação social, existem mais ou menos 2 mil instituições de ensino superior. A metade delas é constituída por centros universitários públicos de ciclo básico que asseguram, em dois anos, apoio escolar e formação profissional destinada, ao mesmo tempo, a compensar as lacunas do ensino secundário e a formar operários qualificados. Esses estabelecimentos, os community colleges, conservaram, entretanto, uma aparência de função universitária e possibilitam que estudantes de origem popular tenham acesso a universidades para fazerem aí uma graduação de quatro anos. Ainda que menos importante do que no passado, foi essa função de antecâmara, de “transferência”, que contribuiu para dar ao ensino superior seu verniz democrático, disfarçando um sistema injusto atrás do véu simbólico das promessas de futuro, da “oportunidade” aberta aos menos favorecidos3.

O processo de exclusão social opera em todos os níveis de um sistema que tem experiência em travestir uma seleção de classe dando-lhe a aparência de performance universitária. O exemplo mais flagrante de tal viés é o tratamento de favor dispensado aos “legados” (legacies) pela maior parte das instituições de elite. Esse termo designa o tratamento preferencial em matéria de admissão de que se beneficiam os filhos e os netos dos alumni (ex-alunos). Para os filhos daqueles que contribuem generosamente para o fundo de dotação da universidade, a admissão é quase garantida, a menos que se trate de um aluno verdadeiramente incapaz de demonstrar um mínimo de aptidão escolar4.

As escolas do poder
No ápice da pirâmide social, não é a qualidade do ensino que conta, e sim as relações sociais que se estabelecem e se consolidam nas faculdades privadas
Os filhos e as filhas de privilegiados podiam considerar sua admissão a uma das universidades de elite igual a um direito herdado ao nascer; sua experiência universitária lhes servia antes de tudo para tecer os laços e para fortalecer relações entre pessoas originárias do mesmo mundo. Nos últimos anos, o número dos que pretendem atuar na corte dos grandes e poderosos aumentou. Alguns têm os meios financeiros necessários, mas não têm as relações. Os filhos das famílias abastadas que não têm o pedigree social da elite acham-se diante de um problema. Como evitar que sejam excluídos por causa dos mecanismos instituídos pelas gerações anteriores (graças aos quais a classe alta mantinha sua coesão social) e, ao mesmo tempo, por causa de exigências universitárias rigorosas que nem todo mundo está apto a satisfazer?

Para responder a esses problemas, implantou-se, nos últimos dez anos, uma indústria de consultoria que oferece um amplo leque de serviços aos filhos de pais endinheirados que aspiram a um estabelecimento da Ivy League. Os consultores tiram proveito desse engarrafamento no ápice. Propõem cursos particulares e sessões de preparação para os exames de ingresso exigidos pelas faculdades e pelas universidades. Segundo a diretora de uma agência de consultoria, as tarifas para uma preparação de alto nível decuplicaram no decorrer da última década. Sua empresa fornece diferentes serviços cujos preços variam entre 100 dólares (por uma simples avaliação dos alunos) e 10 mil dólares pelo “programa de admissão garantida à Ivy League”. O programa é acompanhado de uma “promessa de reembolso” caso o candidato não seja admitido. Contudo, os alunos são cuidadosamente selecionados antes de poderem comprar esse serviço…

No ápice da pirâmide social, não é a qualidade do ensino que conta mas, sim, as relações sociais que se estabelecem e se consolidam nas faculdades, que são mais apreciados ainda à medida que são exclusivos. Para a classe alta, esses laços vêm muito antes da experiência universitária. Eles foram fortalecidos em escolas primárias privadas, nas férias de verão passadas num pequeno número de localidades litorâneas do Maine (para Bush) e do Massachusetts (para Kerry) e, principalmente, num grupo de escolas secundárias privadas muito fechadas, que são chamadas de prep schools. Dentre elas, 16 são famosas por seus serviços prestados às famílias norte-americanas da classe alta5. Situados em áreas rurais, geralmente na Nova Inglaterra, esses pensionatos foram destinados a isolar seus hóspedes da decadência moral e dos hábitos malsãos imputados às cidades do Nordeste para onde afluíam os imigrantes no século XIX. Como seus congêneres britânicos, buscavam “fortalecer a cepa” da classe alta impondo um regime de levantar-se de madrugada, duchas geladas, regulamentos rígidos e trabalho escolar obstinado.

Recrutamento na elite
O pessoal encarregado das admissões universitárias tende a favorecer o recrutamento de estudantes originários da elite
Esses conservatórios sócio-culturais continuam a prosperar e a preparar seus alunos para se moverem no meio da elite, inculcando-lhes uma certa maneira de ver as coisas, de agir e de falar e empenhando-se para lhes assegurar o máximo de chances de serem aceitos numa faculdade ou numa universidade de elite. Providas de dotações mais importantes que aquelas de que dispõem muitas faculdades privadas, e exigindo despesas de escolaridade da ordem dos 25 mil a 30 mil dólares por ano, essas escolas preparatórias têm os meios de recrutar um exército de consultores que prepararão dossiês elaborados e negociarão diretamente, em nome de seus alunos, com os comitês de admissão das universidades.

Os critérios de admissão – que permitem uma classificação por notas (médias obtidas ao longo do curso de nível médio ou resultados de exames) – conferem uma aparência científica ao que se mantém como um processo social. Porque os exames continuam beneficiando os detentores de um capital cultural, em parte herdado. De resto, os estabelecimentos do ensino médio que atribuíram as notas aos alunos (em vista de sua admissão à universidade) foram, eles próprios, objeto de uma classificação hierárquica estabelecida em função da riqueza do distrito geográfico em que se encontram e conforme se trate dessa ou daquela instituição privada do ensino médio (algumas são conhecidas por servirem de incubadoras para as universidades da Ivy League)6.

O pessoal encarregado das admissões universitárias tende a favorecer o recrutamento de estudantes originários da elite. As universidades já são predispostas a examinar favoravelmente o dossiê dos diplomas dos prep schools. Com freqüência egressos dos estabelecimentos da Ivy League, os consultores sabem persuadir seus interlocutores, na linguagem nuançada típica da classe alta, dos fundamentos para a admissão de seus alunos. As escolas públicas não têm condições de fazer concorrência nesse contexto: devido às restrições orçamentárias que sofrem, a relação média entre estudantes e consultores é, nelas, de 401 para 17. No entanto, os propagandistas da “meritocracia” são, freqüentemente, sinceros. Como venceram dentro do sistema, têm interesse em divulgar seus mitos fundadores.

Sistema vitalício
Pode-se compreender, numa sociedade que não garante nada a ninguém, a preocupação permanente com sua vantagem pessoal
Como seu pai, o presidente George W. Bush freqüentou a Phillips Academy, em Andover (Massachusetts) e John Kerry, a St. Paul’s School, em Concord (New Hampshire). Cada uma dessas escolas tem um fundo de dotação de 300 milhões de dólares e ambas fazem parte dos estabelecimentos privados mais famosos do ensino médio. Aqui, o que conta não é apenas o fato de que os homens (e as mulheres) de poder são produzidos socialmente num estrato muito reduzido da sociedade ou que o sistema educacional funciona segundo um princípio que responde ao palavrão impronunciável “classe”. A maneira como se desenrola a vida da elite social revela a contradição fundamental aninhada no coração da sociedade norte-americana: uma tal existência aristocrática viola abertamente a ideologia do mercado que domina o pensamento dos grandes partidos e o das elites sociais.

Pode-se compreender, numa sociedade que não garante nada a ninguém, a preocupação permanente com sua vantagem pessoal. “Dar a meu filho todas as vantagens”: uma prática que está encaixada na que já faz pender a balança social para o lado dos beneficiários da maior parte das vantagens. Porque os 10% de norte-americanos situados no ápice da escala, que detêm cerca de 72% da riqueza nos Estados Unidos, viram sua renda anual aumentar numa média de 90% entre 1970 e 2000, ao passo que a renda dos outros estagnava.

Embora repisem o discurso da concorrência, do mérito e da economia liberal, as elites sociais não poupam esforços nem dinheiro para protegerem seus filhos em lugares privados, longe da violência que corre em outros locais e longe do risco de ver sua prole se unir a alunos estranhos a seu meio social, suscetíveis de influenciá-los e de rivalizar com eles. Esse mundo de relações em espaço fechado, onde se vive cercado em cada etapa da existência por altas muralhas institucionais, protegido por listas de membros, critérios de admissão na frente do cliente e dos estratos sucessivos de ritos e de práticas de exclusão, gera um intenso fenômeno de classe numa sociedade que se imagina desprovida de classes. Quando se observa que essas instituições de elite, que atraem os membros de uma elite, os recrutam para a vida toda (alunos do primário escolhidos com o maior cuidado, prep schools, universidades da Ivy League, enclaves privados no interior dessas universidades, como a Skull and Bonés, clubes reservados aos homens ou às mulheres), é impossível não ficar chocado com algo paradoxal: um sistema vitalício, elaborado, de associações coletivas e de “proteções sociais” que representa – mas no seio da elite e para seu proveito – uma forma de socialismo “do berço até o túmulo”.

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1 - A abertura dos faculdades de maior prestígio para categorias de estudantes que deles eram excluídas anteriormente, como as mulheres e os negros, não significa que essas instituições tenham recrutado muito entre os pobres ou na classe operária. Um estudo recente sobre as 146 faculdades e universidades mais competitivos indica que só 3% dos estudantes admitidos vêm de famílias econômica e socialmente modestas (ver “Class Rules: the Fiction of Egalitarian Education”, Peter Sacks, The Chronicle of Higher Education, 25 de julho de 2003). Henry Louis Gates Jr., presidente do Departamento de Estudos Africanos e Afro-americanos de Harvard, estima que “as crianças negras que entram em Harvard ou em Yale vêm das classes médias. Ninguém mais é admitido nelas”.
2 - A riqueza e a fama das universidades da Ivy League se convertem em capital (ou em recursos) científico, pois esses estabelecimentos conseguem, mais facilmente, atrair os melhores professores e pesquisadores, oferecendo-lhes bolsas de pesquisa muito importantes.
3 - Ver, de Steven Brint e Jerome Karabel, The Diverted Dream: Community Colleges and the Promise of Educational Opportunity in America, 1900-1985, Oxford University Press, Nova York, 1989.
4 - Cf., de Jacques Steinberg, “Of Sheepskins and Greenbacks: College-Entrance Preferences for the Well Connected Draw Fire”, The New York Times, 13 de fevereiro de 2003.
5 - Ver, de Caroline H. Persell e Peter P. Cookson, “Pensionnats d’élite: ethnographie d’une transmission de pouvoir” in Actes de la recherche en sciences socials, n° 138, junho de 2001, p. 56-65; e Preparing for Power: America’s elite boarding schools, Basic Books, New York, 1985.
6 - Nos Estados Unidos, as escolas são amplamente financiadas pelos impostos sobre bens imóveis, embora o financiamento das escolas seja em função do nível de ensino e da riqueza dos contribuintes da localidade (e do Estado). O governo federal (Washington) dá somente cerca de 10% da verba destinada ao ensino de primeiro grau e ao ensino médio.
7 - Dados extraídos de The State of College Admission, 2003-2004, publicado pela National Association for College Admission Counseling, Alexandria, Virgínia, fevereiro de 2004, p. 4-6.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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É O ESTADO, ESTÚPIDO!

Emir sader

O clima político brasileiro continua agitado, com a reiteração das polarizações produzidas desde as denuncias de 2005 sobre o que a imprensa convencionou chamar de “mensalão”. De um lado, os partidos de oposição, com seu núcleo coesionador – PSDB e DEM – acompanhados de partidos aliados, como o PPS e tendo no bloco monopolista da grande mídia privada seu carro-chefe -, de outro o governo e expressões da mídia alternativa.

Pela tensão, pela violência dos ataques, pela reiteração das acusações, poderia parecer que o país vive um clima de forte polarização social e política, com dois projetos de sociedade em oposição frontal. Mas quando se olha para os fatores estruturais, constatamos que existe um modelo econômico consensual entre as grandes forças políticas – as mesmas que se envolvem diretamente nesses embates -, políticas sociais que não são questionadas, porque representam inquestionavelmente uma melhoria de vida da massa pobre do país e que incentiva a expansão do mercado interno. Enquanto isso, o país vive um período de poucas convulsões sociais, como se a energia se perdesse pelas beiradas do caldeirão social, canalizada para a violência cotidiana e não para grandes lutas populares.

Então de onde vem e a que corresponde essa virulência da oposição ao governo? Por que até mesmo uma parte significativa do grande empresariado, atendido pelo modelo econômico, se soma à campanha opositora? Por que a afirmação de setores radicalizados da esquerda de que se trata de um governo neoliberal não consegue dar conta do enfrentamento central do campo político em todo o período político atual? O que está em jogo? O que se disputa, além de cargos eleitorais?

O neoliberalismo reconstruiu o campo político, concentrando todas as energias negativas no Estado – responsável pela estagnação econômica, pela falta de dinamismo, pelo confisco dos recursos dos indivíduos, pela ineficácia nas políticas sociais, etc., etc. O Estado mínimo deveria concentrar seus recursos e esforços no incentivo à expansão do capital que, nos seus desdobramentos – dado o dinamismo e o protagonismo central que passou a ser atribuído às empresas, uma forma de designar ao mercado – produziria crescimento econômico, modernização tecnológica, diminuição da arrecadação tributária, expansão do mercado externo, geração de empregos, aumento da capacidade de consumo, etc. etc. Como já se disse tantas vezes, um Estado mínimo para a grande maioria – que depende de políticas sociais – e um Estado máximo para o capital, com a privat