Dados do Ca$$ino financeiro

A leitura dos balanços corporativos pode ser muito útil para a compreensão da economia real. Vejamos o caso do balanço de uma das dez maiores holdings da economia brasileira. Sua particularidade reside no fato de que ela não produz absolutamente nenhum produto, bem ou serviço.
Ceci Juruá
A leitura dos balanços corporativos pode ser muito útil à compreensão da economia real, concreta, independente da filosofia ou ideologia econômica. O balanço traz números que expressam parcialmente os resultados econômico-financeiros das empresas, assim como notas explicativas sobre os diferentes itens das contas. Muitas pessoas argumentam que os balanços escondem fatos relevantes, pois podem ser manipulados. O que não deixa de ser verdade, provavelmente. Por isto, podemos considerá-los como uma primeira aproximação do desempenho de uma empresa. E assim que eu procuro abordá-los.
Balanço de uma holding / 2007
Companhia holding é aquela que detém o controle acionário de uma ou mais sociedades anônimas, situando-se no topo da pirâmide acionária de um grupo de empresas. Sua particularidade reside justamente no fato de que ela não produz absolutamente nenhum produto, nenhuma mercadoria, bem ou serviço.
Sua finalidade é a gestão de investimentos em outras sociedades do grupo, controladas ou coligadas. Os dados que apresento a seguir são de uma das dez maiores holdings presentes na economia brasileira, cujos investimentos em 2007 aproximavam-se de R$ 15 bilhões. No caso selecionado, as despesas gerais e administrativas da holding absorveram, em 2007, 0,7% do montante de investimentos administrados. Os lucros foram superiores a R$ 2 bilhões e é sobre eles que teço comentários a seguir. (1)
Lucros
Quando se fala em lucros na realidade atual da economia brasileira, a atenção das pessoas volta-se principalmente para os bancos e outros segmentos dos mercados financeiros, palco da jogatina especulativa, o cassino onde se formam as grandes fortunas. É curioso que, muitas vezes, apenas os bancos nacionais são apontados como titulares de rendimentos extravagantes, apesar da tendência, real e concreta, de desnacionalização crescente e progressiva do sistema bancário brasileiro e sua ocupação por bancos globais (Santander, HSBC, Citybank, Dresdner, UBS, etc).
Assim, recentemente, houve muitos comentários na imprensa sobre o fato de dois dos maiores bancos brasileiros – Itaú e Bradesco – terem obtido lucros superiores a R$ 8 bilhões em 2007. Sem assumir absolutamente qualquer defesa dos bancos, interessa destacar aqui que a realização do lucro bancário é resultante de milhões de operações econômico-financeiras, com milhares de máquinas de alta tecnologia, em centenas ou milhares de agências próprias ou de correspondentes bancários no Brasil e no exterior. Um banco vende serviços, enfim.
A gestão de uma holding é menos complexa do que a de um banco, certamente. No caso que analiso a gestão societária tem por objeto apenas 9 empresas controladas de grande porte e internacionalizadas. No entanto, parece-me insólito o fato de lucro desta magnitude (R$ 2 bilhões) ter sido obtido mediante operação de equivalência patrimonial na qual foram incluídos amortizações e ágios/deságios. Assim, operações típicas de contabilidade e de negócios nos mercados financeiros puderam gerar um lucro equivalente a ¼ do lucro realizado pelos dois maiores bancos brasileiros. Algo invejável!
O valor adicionado, que é a contribuição da companhia (no caso uma holding) à Renda Nacional, foi constituído quase integralmente pelo lucro obtido da forma que assinalamos acima. O fator de produção mão-de-obra, trabalho, teve participação de apenas 0,8% no valor adicionado, e os impostos e contribuições federais e municipais participaram com 1,8%. Para os financiadores coube a parcela de 0,7%.
A distribuição dos lucros
Pouco mais de 36% do lucro realizado foi destinado aos acionistas e o restante foi reinvestido. O montante pago aos acionistas aproximou-se de R$ 900 milhões, 20 vezes a quantia destinada à União e aos Municípios, e 47 vezes o valor pago aos chamados “colaboradores” (empregados).
Dentre os acionistas há investidores estrangeiros que detêm 23% do capital da holding. Por isso pode-se estimar que houve remessa ao exterior de pouco mais de R$ 200 milhões, para remuneração dos acionistas estrangeiros, e este valor representou, em 2007, mais de 10 vezes a quantia paga aos empregados/ colaboradores. Os investidores institucionais brasileiros são menos poderosos que os estrangeiros e detêm apenas 12% do capital da sociedade.
Grandeza dos negócios financeiros
A empresa holding aqui tratada movimentou quase R$ 20 bilhões na Bovespa em 2007, realizando 644 mil negócios e o volume das transações diárias com ações preferenciais foi de R$ 70 milhões. Na Bolsa de Nova Iorque, as transações com ADR’s (títulos representativos de ações preferenciais) o movimento anual foi maior: US$ 13 bilhões, equivalentes à média diária de US$ 51 milhões !
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(1)Para fins de comparação, informo que o IPTU arrecadado pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 2007, atingiu o montante de R$ 600 milhões, segundo declarações do prefeito ao Globo de 16-02-2007.
Ceci Juruá, economista e pesquisadora, integra o programa Outro Brasil, do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
Carta Maior
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vitor disse,
23 de Fevereiro de 2008 @ 22h 52m
Quero deixar meu blog.
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