Arquivo de 17 de Fevereiro de 2008

A incompetência e a conivência do governo com o desmatamento da Amazônia

Ivan Valente faz um balanço da política ambiental

14-Feb-2008

desmata

Em pronunciamento no plenário da Câmara, o deputado Ivan Valente chamou a atenção para os graves problemas com o desmatamento da Amazônia e um balanço da política do governo Lula na área ambiental.

"Sr. Presidente, trago também um texto para ser registrado nos Anais do Congresso Nacional, chamado A incompetência e a conivência do Governo com o desmatamento da Amazônia. Não vou lê-lo, mas aproveito o momento para fazer um balanço do que foram os últimos 5 anos no Ministério do Meio Ambiente.
Entendo que a Ministra Marina Silva chegou ao Ministério do Meio Ambiente cercando o Governo Lula de altas expectativas à preservação do meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável, devido à sua história junto a Chico Mendes no Acre, aos embates feitos contra a destruição da Amazônia, aos seus posicionamentos como Senadora e ao seu reconhecimento internacional.
Mas o Governo Lula optou por um caminho, ajoelhando-se diante dos interesses do grande capital, particularmente do capital financeiro, e, posteriormente, em uma lavagem cerebral, do agronegócio do nosso País. O Presidente Lula quer promover o desenvolvimento brasileiro ao mesmo tempo em que transforma o País em um deserto verde com o projeto do etanol, a pecuária extensiva e a plantação extensiva de soja, tudo o que fez com que o Brasil se tornasse campeão mundial de desmatamento.
Não dá para mentir. O que se fez na imprensa no último mês, indo e voltando, foi uma grande mentira. O desmatamento na Amazônia aumentou, sim. O INPE foi colocado na berlinda, cometeu alguns erros, mas não errou ao dizer que aumentou, e muito, o desmatamento na Amazônia.
A Ministra Marina Silva sabe que é a expansão da pecuária, da soja e a ação de madeireiros os responsáveis por esse crime, basta ver a manchete do jornal Estado de S.Paulo de hoje e também de outros grandes jornais, que publicaram uma repressão nos Estados do Pará, Mato Grosso, Rondônia. A madeira está lá, aliás, ilegalmente retirada das florestas, primeiro, o madeireiro, a devastação, a queima, a transformação daquilo ou em pasto, ou em cultura da soja, ou outro tipo de cultura para o biodiesel, ou o que for, enquanto isso não se discute um projeto sustentável para a Amazônia."

A incompetência e conivência do governo com o desmatamento da Amazônia
No final de janeiro, o país recebeu mais uma triste notícia: segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia cresceu no segundo semestre do ano passado, principalmente em novembro e dezembro. O governo não tem números exatos sobre o desmatamento ilegal na floresta, mas calcula-se que 80% de tudo que já foi derrubado foi feito fora da lei. Ou seja, cerca de 580 mil quilômetros quadrados da Amazônia desapareceram na ação criminosa praticada, sobretudo, por grandes fazendeiros em busca da expansão de suas fronteiras agrícolas.
Para combater esta prática, a última medida pensada pelo governo federal foi, como divulgou a imprensa, anistiar os fazendeiros que desmataram mais de 20% de suas propriedades da Amazônia Legal, limite previsto no Código Florestal. Segundo o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), João Paulo Capobianco, desde que se dispusessem a reflorestar o equivalente a 50% do território, empresas e agricultores poderiam manter a outra metade desmatada, voltar à legalidade e ter direito ao crédito agrícola oficial.
Nada mais contraditório. Em vez de punir de fato os responsáveis pela destruição da Amazônia, o governo acredita na possibilidade de convertê-los em respeitadores da natureza, dando um crédito pelo crime que cometeram e prejudicando, indiretamente, aqueles que respeitaram a lei. Se a idéia vingar, o governo passará recibo de 220 mil quilômetros quadrados de Amazônia desmatada ilegalmente.
Agora, o secretário Capobianco declarou que a reposição de 50% da mata só valerá para quem desmatou até 1996, quando a Medida Provisória 1.511 fixou o tamanho da reserva legal na Amazônia em 80%. Os fazendeiros terão, portanto, que comprovar quando o desmatamento aconteceu. O recuo do governo comprova a fragilidade da pasta e os conflitos dentro do próprio ministério, encabeçado pela ministra Marina Silva.
De medidas concretas para reprimir o desmatamento o governo não consegue avançar da linha de dar mais efetividade às regras já existentes, como o fortalecimento da fiscalização e o corte do crédito agrícola. E mesmo essas duas podem ser colocadas em cheque. Faltam recursos – financeiros e humanos – para um monitoramento permanente da floresta, os órgãos do Estado na região estão sucateados e os programas de mapeamento da malha fundiária do país vêm sendo historicamente abandonados. Sobra incompetência. Quanto ao crédito agrícola, quem disse que não vale mais desmatar 100% de um território, sabendo que os riscos de punição são pequenos, do que conseguir um empréstimo dos cofres públicos? O prejuízo a quem financia a destruição da floresta tem que ser efetivo, e o Brasil está longe disso.
Na verdade, falta ao governo federal interesse político para enfrentar o desmatamento da Amazônia e o agronegócio que está por trás dele. O presidente Lula teve a coragem de ironizar a situação, dizendo que não vê a Amazônia como um “santuário”. Disse que os habitantes da região precisam ter acesso a bens de consumo e ao mercado de trabalho. O discurso agrada aos ruralistas e a setores do governo que os representam. Mesmo com o preço das commodities em alta, com a demanda crescente pela soja, com a estabilidade da pecuária bovina e a expansão dos canaviais, a sanha do setor agrícola não está satisfeita.
O ministro da Agricultura disse que a medida proposta pelo governo é fundamental para enfrentar o desmatamento em definitivo e que o proprietário de terras se sentirá incentivado a não fazer novos desmatamentos, pois passará a contar com uma área suficiente para “desenvolver suas atividades econômicas”. Segundo a imprensa, Reinhold Stephanes quer agora modificar o Decreto 6.321, publicado no final do ano passado, que estabelece que o MMA divulgue anualmente informações sobre a evolução do desmatamento nos municípios do bioma amazônico e obriga os produtores a se recadastrarem junto ao Incra, para que as propriedades possam ser monitoradas. No Congresso, a bancada ruralista tenta derrubar, desde 1996, a medida provisória que estabeleceu o limite de 20% de derrubada da floresta.
Ou seja, o Estado brasileiro não consegue garantir a preservação da Amazônia e nem parece disposto a enfrentar os interesses daqueles que, definitivamente, não estão preocupados com isso. É incompetente, conivente, negligente e covarde. E os resultados podem ser catastróficos. Segundo os pesquisadores, se a Amazônia for desmatada em 50%, o regime de chuvas da região se modificará completamente, causando a savanização do território. Sem falar da contribuição das queimadas na emissão de gases que geram o aquecimento global e do perigoso precedente que será criado para outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica.
É essencial que o governo construa e implemente uma política de desenvolvimento para a Amazônia em diálogo com a sociedade brasileira. Que faça um mapeamento completo das fazendas na Amazônia, invista nos órgãos de fiscalização e monitoramento e puna rigorosamente os fazendeiros que agem na ilegalidade. Só assim será possível conter a gana do agronegócio e preservar o futuro das próximas gerações.

Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL-SP
Câmara dos Deputados - 14/2/2008

do site: http://www.ivanvalente.com.br

Atualizado em ( 15-Feb-2008 )

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Eleição tensa decide futuro paquistanês

Sob a sombra da fraude e da manipulação, votação de amanhã pode determinar ocaso do regime de Musharraf

Angela Perez

Os paquistaneses vão às urnas amanhã numa das mais decisivas eleições da história recente do país. A popularidade do presidente Pervez Musharraf caiu ao nível mais baixo desde sua chegada ao poder e as pesquisas indicam que os dois principais partidos de oposição têm, juntos, o apoio de 72% do eleitorado. Se obtiverem uma ampla vitória podem prejudicar os amplos e quase sempre questionáveis esforços de Musharraf para manter-se no cargo.
Com o país abalado pelo assassinato, em 23 de dezembro, da ex-primeira-ministra e líder opositora Benazir Bhutto, a campanha para as eleições parlamentares e de quatro assembléias provinciais foi marcada pela apatia. Poucos partidos promoveram comícios diante da constante ameaça de atentados.
“A perspectiva é a de que o partido de Musharraf sofra uma grande derrota, a menos que as eleições sejam fraudadas. O presidente tem muito a perder e parece claro que ele tentará fraudá-las com o apoio de todo seu regime”, disse ao Estado o analista Frederic Grare, do centro de estudos americano Carnegie Endowment. Se a oposição - que considera a reeleição de Musharraf inconstitucional - obtiver dois terços das cadeiras da nova Assembléia Nacional terá poder suficiente para pedir o impeachment do presidente.
Os paquistaneses, por seu lado, estão mais preocupados com o aumento dos preços do que com a política e espera-se uma elevada abstenção. Metade dos 164 milhões de paquistaneses tem direito a voto, mas nas eleições de 2002, menos de 30 milhões foram às urnas. A fim de animar os eleitores, o governo declarou feriado o dia de eleição.
O Partido Popular do Paquistão (PPP), de Benazir, guardou 40 dias de luto antes iniciar a campanha. Em um testamento, a ex-premiê pediu que o marido, Asif Ali Zardari, assumisse a chefia do movimento.
O partido de Benazir conquistou uma onda de solidariedade, apesar de Zardari não ser tão popular quanto sua mulher. Ele enfrentou várias denúncias de corrupção quando foi ministro do governo de Benazir, a ponto de sera apelidado de “senhor 10%”. Benazir também acabou acusada de corrupção, teve de renunciar e, para escapar de um julgamento, passou oito anos no exílio em Dubai e Londres.
Durante sua curta campanha, o PPP passou a maior parte do tempo discutindo sobre quem será o candidato a primeiro-ministro, caso vença as eleições - o próprio Zardari ou o vice-presidente do partido, Mahkdum Amim Fahim.
Já o partido do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif - deposto por Musharraf num golpe em 1999 -, a Liga Muçulmana do Paquistão-N (Liga-N), centrou sua campanha em ataques ao presidente e na defesa de uma “grande coalizão nacional”, pensando em futuros pactos pós-eleitorais.
Para o professor de ciências políticas Rasul Bakhsh Rais, da Universidade de Lahore, o assassinato de Benazir atraiu uma grande simpatia do eleitorado para o PPP. “Espera-se que o partido de Benazir seja o vitorioso nas eleições parlamentares e também em pelo menos duas das quatro assembléias provinciais. Os dois grandes partidos, o de Benazir e o de Nawaz Sharif, vêm se aproximando e devem formar um governo de coalizão”, disse Rais.
Musharraf tem dado seu apoio à Liga Muçulmana do Paquistão-Q (Liga-Q), uma formação de centro-direita fundada em 2001. O partido foi o segundo mais votado em 2002 e obteve 126 cadeiras das 272 da Assembléia Nacional preenchidas pelo voto direto.
A Liga-Q fez uma campanha de perfil baixo, mas fazendo constantes ataques a Zardari, na esperança de impedir que uma alta participação beneficie os outros partidos, principalmente o PPP.
QUEDA
A popularidade de Musharraf começou a cair em março quando ele afastou o presidente do Tribunal Supremo, Iftikhar Chaudhry, e despencou depois que impôs estado de emergência no país por seis semanas, suspendeu a Constituição e demitiu vários juízes do Supremo.
Atualmente, segundo pesquisa do Instituto Republicano Internacional (IRI), com base nos EUA, 75% dos paquistaneses querem a saída do presidente - aliado-chave dos EUA em sua luta contra o terrorismo, mas que enfrenta uma onda de atentados e ataques de militantes islâmicos.
Na quinta-feira, Musharraf advertiu aos partidos de oposição que aceitem os resultados das eleições e não recorram à agitação se não saírem vitoriosos. Ao mesmo tempo, garantiu que as eleições serão livres e justas.
De acordo com a pesquisa do IRI, 50% dos eleitores apóiam o partido de Benazir e 22% a Liga-N, do ex-premiê Sharif. Apenas 14% dos eleitores disseram que votarão no partido pró-Musharraf.
Vários pequenos partidos, incluindo alguns islâmicos, decidiram boicotar as eleições - entre eles, o Movimento Paquistanês por Justiça, do ex-astro de críquete Imran Khan, que foi casado com a socialite Jemima Goldsmith e ficou conhecido por sua amizade com a princesa Diana.
Khan disse ao Estado que seu partido se recusou a participar das eleições por acreditar que sem um Judiciário independente não haverá democracia. “Se participarmos dessa eleição, estaremos dando legitimidade a um processo ilegal. Essas eleições foram manipuladas de vários modos, com a remoção do Judiciário, grandes gastos do Estado com candidatos do governo e violência”, disse o ex-atleta.
“Cerca de 60% de nosso Tribunal Supremo foi sumariamente demitido em 3 de novembro sob o estado de emergência, justamente quando estava prestes a declarar a reeleição de Musharraf uma farsa”, disse Khan, um duro crítico do presidente. “Musharraf também emitiu um decreto perdoando toda a corrupção financeira de políticos, efetivamente acobertando os bilhões de dólares que foram levados do Paquistão”, denunciou.

Estado de S. Paulo

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A industrialização transformou a região

Do Diário OnLine

Foi durante as décadas de 50 e 60, período em que a industrialização no Brasil era forte e ativa, que o Grande ABC deu um grande passo, evoluiu e deixou sua marca na história. Devido às situações favoráveis como grande quantidade de terras planas oferecidas às empresas a preços baixos, proximidade do Porto de Santos, rápido acesso rodoviário interligando o porto com o mercado consumidor (São Paulo) e a existência de mão-de-obra local, a região agregou grandes empresas, a maiorparte delas do ramo automobilístico e têxtil, e tornou-se um dos maiores pólos industriais do país.

A partir daí o ABC entrou em fase de mudanças. A região campestre que antes era habitada por poucas pessoas, rapidamente se desenvolveu, passou a agregar muitos moradores, e as árvores deram espaço às centenas de casas e prédios residenciais e comerciais. De acordo com o levantamento feito pelo engenheiro Paulo Ferreira Lopes, da Diretoria de Engenharia da Prefeitura de Santo André, no início da década de 1940 já existiam na região 15.121 prédios e 362 fábricas.

Odair Vituri, 63, que nasceu e desenvolveu todas as atividades em São Caetano do Sul, inclusive trabalhou e se aposentou em uma das indústrias automobilísticas da região, lembra-se bem dessa época. “Comecei a trabalhar com 13 anos. Naquele tempo (década de 1950) era comum iniciar a vida profissional muito cedo, tirávamos a Carteira Profissional do Menor e com 14 anos já podíamos ser registrados. Com as diversas indústrias instaladas na região os moradores tinham emprego garantido. Não faltava trabalho. Isso fez com que pessoas de outras regiões se aglutinassem nas cidades do ABC aumentando a população local e transformando a arquitetura da região”.

O morador conta que sempre se preocupou com o desenvolvimento da região e os problemas que essa intensa migração poderia causar no futuro. “Não tínhamos mecanismos para medir o crescimento populacional, mas notávamos que a cada ano chegava mais gente. Com o tempo começaram os problemas, o principal deles: desemprego, muitos trabalhadores para poucos postos”. Segundo a pesquisa feita por Lopes, no período pré-industrial a população de todos os distritos aumentou consideravelmente. Em 1942, 90.726 pessoas habitavam a região. Dessas, 20.460 eram operários. Como Santo André agregava mais fábricas na época, estava na frente em número de habitantes e dividia com São Caetano a força industrial. Hoje o Grande ABC conta com mais de 2,5 milhões de habitantes, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) que enfrentam a crise do desemprego.

Segundo Vituri, na década de 40 houve o surgimento do pequeno comércio no Grande ABC. “Açougues, alfaiates, mercearias, sapatarias e pequenas lojas de conveniências começaram a surgir próximas às indústrias, pois já havia muitos consumidores que não podiam se deslocar para a capital paulista, que era mais desenvolvida, somente para comprar roupas e alimentos”. Mesmo com a proximidade entre o ABC e a cidade de São Paulo, o morador ressalta que a dificuldade de locomoção era muito grande devido à falta de condução. “Não tínhamos como ir e vir a todo o momento. Não havia tantos ônibus com destinos diferentes e as avenidas estavam começando a serem construídas. Neste caso, a alternativa foi começar a se desenvolver, não podíamos esperar para iniciar o processo de transformação da região”.

Hoje, “o Grande ABC é considerado uma região desenvolvida que ainda sofre algumas restrições, mas provou, em seu tempo, que era capaz de acompanhar a evolução”, ressalta Vituri.

Imes
http://www.imesexplica.com.br/imesexplica_home.asp

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Cuba reflete sobre derrota de Chávez

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Teria havido um fator Chávez na decisão de Fidel Castro de declarar desapego ao poder? Um dos que levantaram essa hipótese, de forma muito discreta, foi "El País", de Madri, um dos jornais europeus que dão mais espaço à América Latina.
A suposição parte da constatação de que se instala na ilha amplo debate sobre o futuro com presença inclusive de "forças centrífugas", referência à derrota de Hugo Chávez no referendo sobre a reforma constitucional que lhe permitiria concorrer de novo à Presidência quando terminar seu atual mandato, em 2013.
Cuba não deve depender de condições externas, já experimentou más experiências nesse terreno e pode sofrer vazamentos o manto de proteção de um presidente enfraquecido politicamente. Ainda não se desfizeram de todo as amarguras do "período especial" imposto pela desintegração da União Soviética. Cuba perdeu subsídios vitais. As relações com Moscou não foram isentas de problemas, mas era preciso sustentá-las em função de necessidades domésticas, além dos riscos de ter os Estados Unidos às portas.
A tentativa de invasão, embora frustrada, mostrou o que isso significava. A cobertura soviética tornou-se imperativa, mas, já na Crise dos Mísseis, em 1962, Fidel pôde constatar quais eram os termos de Moscou. Kruschov acertou-se com Kennedy sem dar satisfações a Cuba, cuja liderança não escondeu o mau humor.
Outro momento de tensões aconteceu em 1966, quando se reuniram em Havana delegados de movimentos de libertação nacional de cerca de 70 países. A Moscou, no entanto, interessava ter uma cunha no "quintal" dos EUA. Cuba dependia de subsídios e as relações de dependência se sustentaram até o trágico desfecho. O ano de 1962 foi também o de expulsão de Cuba da OEA, em operação comandada pelos EUA.
Excluído dos ambientes diplomáticos formais, o regime cubano decidiu apostar na guerrilha. Ainda em 1962, o PC da Venezuela constituiu-se em grupo guerrilheiro, como ponta-de-lança de ações que deveriam espraiar-se e afinal se esgotaram com saldo zero oito anos depois.
Direitos humanos
A decisão agora seria fortalecer-se internamente e ter condições de sobreviver por conta própria, mas isso exige mudanças. Cuba anunciou que assinará o pacto de direitos humanos da ONU. Por meio da Espanha é negociada a adesão cubana a uma resolução da ONU, promovida pela União Européia, banindo a pena de morte. Alguns ex-presos políticos receberam autorização para tratamento médico na Espanha.
Subitamente se intensificaram atividades políticas de dissidentes. Foram criadas duas coalizões com selos de liberais, fato atribuído à redução da repressão sob Raúl Castro. Oswaldo Payá, um dos mais conhecidos internacionalmente, criou o Comitê Cidadão de Reconciliação e Diálogo, que continua de portas abertas.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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A nova utopia é viver longe e melhor

O “teletrabalho” e a comunicação estão redesenhando o mapa demográfico e urbano da Espanha

Francesco Manetto

Alguns a chamam de urbanização descentralizada e outros de utopia vital do século 21, e está transformando a demografia e a paisagem urbana, seguindo os passos das tendências dos EUA: as classes médias das grandes cidades vão para as cidades médias e os habitantes das cidades pequenas também. A busca da qualidade de vida, as melhores comunicações, os avanços tecnológicos e a segurança de um ambiente mais controlável estão redesenhando a Espanha. E o fazem em duas velocidades.

Um dia o madrilenho Alberto García contou uma história para sua filha Inês. “Vamos morar em outra cidade”, ele disse. “Mas voltaremos a Madri sempre que quisermos, para ver os avós, porque estaremos muito perto. Eu virei todos dias para trabalhar e mamãe a levará a uma creche com árvores.” Entre essas palavras e a nova rotina de Alberto passou um ano.

Hoje ele pega o carro todas as manhãs para percorrer os mais de 55 quilômetros que separam um condomínio em Guadalajara, onde mora, e Barajas, seu local de trabalho. Ele reconhece que passa mais tempo dirigindo e freqüentemente sofre com os engarrafamentos, mas tem certeza de que ganhou em qualidade de vida. Provavelmente concordam os milhares de pessoas que todos os anos abandonam as aglomerações urbanas para viver em cidades médias ou pequenas, promovendo assim um novo estilo de vida e experimentando novas formas de trabalho graças às novas tecnologias.

Trata-se de uma tendência que, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, está destinada a marcar os próximos fluxos migratórios e o futuro do desenvolvimento urbanístico. É que a partir de 2001 as cidades e os arredores de Guadalajara, Toledo, Valladolid, Segóvia, Tarragona, Girona e algumas zonas da Galícia, da Comunidade Valenciana e do País Basco viram sua população aumentar em até 30%.

Fascínio pelo ambiente rural? Antes de mais nada, melhores condições de vida. Em primeiro lugar, relacionadas ao preço da moradia. Porque se até alguns anos atrás isso podia condicionar a escolha de um bairro ou outro, hoje é um dos fatores determinantes dessa fuga para as cidades pequenas, mais acessíveis. É o caso de José Rodríguez, 31, que acaba de comprar um apartamento de 90 m2 em Guadalajara por pouco mais de 258 mil euros. Em Madri, com o preço médio do solo acima dos 5 mil euros por metro quadrado, poderia ter comprado pouco mais que um quitinete. Concretamente, as províncias de Guadalajara e Toledo são duas das regiões que mais cresceram em 2007, sobretudo às custas de Madri: 4,95% e 3,9%, respectivamente.

E o trabalho? Na grande maioria dos casos não muda. Rodríguez, por exemplo, continuará trabalhando na capital. “Hoje podemos nos deslocar de forma muito mais rápida; o único inconveniente do carro e do ônibus são os engarrafamentos. Mas com o trem de alta velocidade, apesar de ser mais caro, chegamos rapidamente ao centro”, comentam os que escolheram mudar de residência. É verdade. Das duas cidades se pode chegar à estação de Atocha em meia hora. Muito menos do que demoraria no transporte público um madrilenho residente em Tetuán ou San Blas, por exemplo.

“Os modelos de convivência sempre estiveram associados a processos para a realização de si mesmo, favorecer o florescimento do verdadeiro ser humano, a regeneração coletiva ou a reapropriação da vida cotidiana por seus habitantes. E nunca como agora dispusemos de tantos recursos, tecnologias e instrumentos para desenvolver e dinamizar essas utopias locais”, salienta Jesús Oliva, sociólogo e docente da Universidade Pública de Navarra.

Estamos falando de qualidade de vida. A consultora britânica Mercer, que todos os anos publica uma classificação mundial dos melhores lugares para viver, define esse conceito em função de fatores como segurança, serviços sociais, densidade populacional, difusão de transportes públicos, freqüência de engarrafamentos ou poluição. As melhores cidades do mundo, segundo as últimas classificações, seriam as suíças Zurique e Genebra, enquanto Barcelona e Madri se situaram em 2007 em 41º e 42º lugares, atrás de Bruxelas, Berlim, Paris ou Londres.

Embora alguns especialistas considerem essa tendência uma conseqüência natural da expansão das metrópoles espanholas, o desejo de viver melhor parece cada vez mais importante. “No início fui para Guadalajara por razões estritamente profissionais”, confessa Jorge Sánchez, jornalista de 28 anos do bairro madrilenho de Carabanchel. “Mas depois me senti muito à vontade e decidi me assentar. Aqui tudo é mais próximo, parece mais fácil e o ambiente é muito familiar. Além disso, Madri está ao lado. Alguns dizem brincando que a capital é o bairro de lazer de Guadalajara”, acrescenta Sánchez, que acaba de comprar uma casa em Horche, um povoado de 2 mil habitantes situado a cerca de 12 km da cidade.

Outros fatores que costumam condicionar a qualidade de vida? A comodidade para fazer compras, uma maior sensação de segurança para os filhos, poder fazer a maioria dos trâmites de forma mais rápida e também com acesso em pouco tempo aos serviços das grandes cidades. Trata-se de um modelo inspirado na filosofia do “slow city” (literalmente cidade lenta), que nas palavras de Massimo Borri, um dos coordenadores dessa plataforma internacional, “inclui as cidades que cumprem excelentes requisitos em política ambiental, gastronomia, infra-estrutura e novas tecnologias”.

O fator tecnológico é exatamente outra das razões que podem animar a população a encontrar um lugar mais tranqüilo, afastado das aglomerações urbanas. “A possibilidade de utilizar uma conexão de alta velocidade, o celular ou o correio eletrônico nos permite organizar nosso trabalho de forma diferente ou levá-lo para casa”, indica Oliva. Da difusão dessas ferramentas também depende o êxito de algumas empresas que, como método de atração de profissionais motivados, oferecem horários quase à la carte. É o caso de algumas agências de atendimento telefônico, que costumam oferecer alguns cargos para os que desejam trabalhar em casa. Além disso, segundo especialistas, a criação do “teletrabalho” é 50% mais barata que um emprego presencial. “Se você trabalha com gente muito qualificada que quer viver em uma cidade menor, um caso cada vez mais comum, por que devemos prescindir deles?”, pergunta-se María del Pino Velázquez, diretora geral da Unísono, empresa de atendimento telefônico com 3 mil empregados.

Mas o trabalho à distância ainda é pouco praticado na Espanha. Em 2004, segundo uma pesquisa do portal Monster.es, 121.800 pessoas utilizavam essa fórmula: 0,6% dos assalariados, contra 5% em média na União Européia. De todo modo, trata-se de uma tendência em alta, como esse fenômeno que alguns especialistas definem como “urbanização descentralizada” e que parece ter duas dimensões. Uma fuga das áreas metropolitanas mais extensas do país (Madri, Barcelona, Valência, Bilbao, Málaga, Sevilha) para os centros menores e economicamente mais acessíveis, e outra fuga, desta vez das mesmas cidades do interior para os povoados nos seus arredores. Também neste caso o preço da moradia é um fator decisivo.

Um exemplo: com as novas linhas de alta velocidade também disparou o preço médio do solo a que estava acostumada a maioria dos habitantes de cidades como Valladolid, Segóvia, Málaga ou Zaragoza, que em muitos casos preferem se mudar para os povoados ao redor. Concretamente, o caso de Valladolid é especialmente significativo. Ali as últimas revisões do censo apontam um aumento da população dos municípios ao redor da cidade e confirmam uma perda significativa não só da capital, mas também de algumas áreas rurais do interior. Em geral, 137 municípios de Valladolid perdem habitantes; mas o total da província ganha quase 5 mil. Não é um capricho da estatística. Na opinião dos especialistas, também não se trata de uma conseqüência da imigração. Simplesmente, muitos moradores da cidade começaram a buscar uma residência mais barata em algumas zonas dos arredores, e ao mesmo tempo os que vivem nos povoados menores começaram a se mudar para essas mesmas zonas em busca de novas oportunidades de trabalho.

De todo modo, Jesús Oliva, que estudou esse processo em Pamplona e seus arredores, salienta também seu lado mais obscuro: “Essa tendência pode fomentar a difusão de perfis de cidadãos de duas velocidades, um cidadão lento e outro rápido”. O que significa? “Esses hábitos, embora sejam relativamente recentes na maioria dos países europeus, já contam com certa história na chamada ’service class’ [profissionais liberais] americana e britânica. É que se para um médico ou advogado mudar-se para uma cidade menor e deslocar-se todos os dias para seu lugar de trabalho pode ser um alívio, para uma senhora equatoriana com poucos recursos pode ocorrer exatamente o contrário. Porque para uma pessoa que, por exemplo, não pode se permitir pagar um passe de ônibus essa suposta qualidade de vida se transforma em mais um problema cotidiano”.

Os estudos também destacam outras facetas dessa tendência: a volta dos aposentados para cidades do interior e os povoados em que nasceram; a chegada de imigrantes que, depois de residir alguns anos nos centros de Madri, Barcelona ou Valência, optam por buscar um ambiente mais tranqüilo, com menos concorrência e mais oportunidades de trabalho; ou as levas de europeus do norte que decidem se instalar em algumas localidades do litoral.

De todo modo, os que decidem abandonar seu lugar de origem costumam ser na maioria trabalhadores de classe média com cerca de 30 anos e estudos universitários, e que, em muitos casos, acabam de formar uma família. Então, nos encontramos diante de uma das utopias do século 21? E a volta ao campo está idealizada demais? Na realidade, o marketing e as campanhas publicitárias também têm muito a ver com o sucesso desse modelo. “Basta pegar o carro e dirigir por uma estrada para ver os cartazes publicitários. A chamada fuga para o campo desempenha um papel muito importante no mercado imobiliário”, acrescenta Oliva. “Se você pensa realmente que abandonando a cidade terá melhores condições de vida e ficará mais tranqüilo, de alguma maneira acabará acreditando e irá embora.”

Os efeitos das campanhas de marketing podem se refletir, por outro lado, no florescimento de uma nova simbologia comercial. Produtos significativos nesse âmbito são os veículos 4x4. “É o símbolo por excelência desse processo”, que segundo alguns estudos conseguiu êxito na Europa também graças ao sucesso de algumas séries de televisão americanas que transmitem um estilo de vida despreocupado e tranqüilo. Exatamente os EUA estão redescobrindo hoje a vida nos ambientes rurais, embora neste caso sejam sobretudo os trabalhadores de alto poder aquisitivo que decidem comprar uma casa no campo. Mas o fazem pela mesma razão: impelidos pelo desejo de viver mais longe e melhor.

El País
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/

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Kosovo: O começo do fim dos Bálcãs

JEAN-ARNAULT DÉRENS
do Le Monde Diplomatique

A declaração de independência de Kosovo terá consequências sérias para toda a região. Os sérvios da Bósnia-Herzegóvina enxergarão o acontecimento como precedente que confirma seu próprio direito de separar-se de um Estado que nunca funcionou realmente. A independência também vai provocar inquietude em Estados vizinhos, especialmente Macedônia e Montenegro, e terá efeito caótico sobre o mapa dos Bálcãs.

Apesar dessa perspectiva, diplomatas e especialistas nos Bálcãs sugerem que já chegou a hora de derrubar o tabu das fronteiras intocáveis. Os conflitos dos anos 1990 foram travados em nome da Grande Sérvia e da Grande Croácia, e a reivindicação de independência de Kosovo suscita o espectro de uma Grande Albânia. Será que chegou a hora de reexaminar as reivindicações territoriais e definir fronteiras novas e mais justas, que sejam mais representativas da geografia étnica? Uma paz duradoura na região pode tornar necessário um novo mapa para os Bálcãs –de fato, para a Europa. A idéia não é nova, mas se nega a ser descartada.

Durante os distúrbios ocorridos na Macedônia em 2001, o escritor francês Alexandre Adler defendeu a idéia de "não homeopatia, mas cirurgia" e da divisão da república pós-iugoslava em regiões distintas, albanesa e macedônia. Naquele ano, David Owen, co-presidente da Conferência Internacional sobre a Antiga Iugoslávia, também apresentou no "Le Monde" propostas para a redefinição das fronteiras nos Bálcãs. Suas idéias foram ecoadas por uma figura chave no movimento nacionalista albanês na Macedônia, Arben Xhaferi, que pediu a criação de Estados "étnicos".

O fracasso das negociações sobre o futuro de Kosovo e a impossibilidade de uma solução conciliatória entre albaneses e sérvios fizeram ressuscitar as idéias antigas sobre uma divisão da região, apesar de elas serem vistas pela comunidade internacional como tabu, há muito tempo. Em agosto passado o alemão Wolfgang Ischinger, representante da União Européia no trio diplomático que liderou as conversações, disse que qualquer opção capaz de unir as partes teria que ser levada a sério, e que, se Belgrado e Pristina pudessem chegar a um acordo sobre a divisão do Kosovo (o que não aconteceu), a UE teria que ratificar essa partilha.

A idéia parece ser lógica: se as populações não querem viver juntas, por que não deixá-las viver separadamente, mesmo que isso implique em deslocamentos de pessoas de modo a ajustar as fronteiras à distribuição étnica em cada área? Imagine-se que bastasse um toque de uma varinha de condão para que uma conferência internacional chegasse a um acordo pacífico sobre novas fronteiras nos Bálcãs ocidentais, definidas segundo critérios étnicos.

Seriam necessários planos para unir as áreas com maioria albanesa: Albânia, Kosovo e a parte noroeste da Macedônia, além do vale do Presevo, no sul da Sérvia, e as margens orientais de Montenegro, em torno de Vusanje e Ulcinj (Mas nenhuma dessas redivisões de territórios e populações incluiria a solução de questões práticas como a geração e distribuição elétrica, que, em muitos casos, continuarão a ser feitos de maneira que atravessa fronteiras. O governo sérvio já ameaçou cortar o suprimento de eletricidade quando Kosovo ganhar sua independência, e é pouco provável que ofereça quaisquer recursos a uma Grande Albânia).

Isso deixaria a Macedônia truncada e quase irreconhecível como Estado, a não ser que o lobby pró-bulgaro tivesse êxito nas tentativas de colar o país a seu vizinho oriental. Restaria, então a questão das minorias na Albânia: os gregos, no sul, poderiam reivindicar sua inclusão na Grécia, enquanto os albaneses expulsos de Épiro (ou Çamëria, como é conhecido na Albânia), no norte da Grécia, após 1945 também se levantariam para defender seus direitos há muito tempo esquecidos. Montenegro procuraria compensação na região de Shkoder, onde ainda vivem minorias sérvio-montenegrinas, e a Macedônia reivindicaria os vilarejos eslavos em torno dos lagos Ohrid e Prespa.

Os sérvios da Bósnia-Herzegóvina retornariam a seu país natal. Isso destruiria a Bósnia, especialmente se os croatas do oeste de Herzegóvina, da Bósnia central e de Bosanka Posavina (Orasje, Odzak) retornassem à Croácia. Restaria um micro-Estado bósnio muçulmano centrado em Sarajevo, Zenica e Tuzla. Seria exatamente como o famoso plano de divisão da Bósnia-Herzegóvina idealizado em 1991 por Franjo Tudjman e Slobodan Milosevic. A Bósnia se esforçaria para defender o encrave oriental de Gorazde e reivindicação do Sanjak de Novi Pazar, hoje compartilhado pela Sérvia e por Montenegro.

O Estado de Montenegro deixaria de existir dentro de suas fronteiras atuais. Além da secessão de suas regiões albanesa e bósnia, é provável que também perdesse suas regiões sérvias, no norte. Como os bósnios e os sérvios nessa área são totalmente miscigenados, um período de conflito seria inevitável, enquanto as diferentes comunidades se reorganizassem e as novas fronteiras tomassem forma. A Croácia conquistaria a baía de Kotor, que possui longa tradição católica e que só passou a fazer parte de Montenegro em 1918. Montenegro em pouco tempo se veria de volta a suas fronteiras de meados do século 19, mas poderia ter a esperança de conseguir uma saída para o mar em Budva.

A posição da Sérvia seria igualmente estranha. Apesar da perda de suas regiões albanesa e bósnia, ela teria conquistado a Republika Srpska, de Bósnia-Herzegóvina, além das áreas sérvias no norte de Montenegro. Além disso, teria um acordo com Vojvodina. Essa região autônoma no norte da Sérvia abriga cerca de 20 minorias distintas, quase 50% da população total. Sua maior comunidade (cerca de 350 mil pessoas) é húngara, e as comunidades de Subotica, Senta e Kanjiza voltariam para a Hungria, a não ser que Vojvodina decidisse declarar sua independência e se tornasse a única ilha multiétnica restante nos Bálcãs.

Outros países da UE também seriam afetados pela reorganização. Existem minorias na Grécia, e não apenas a albanesa: os muçulmanos da Trácia ocidental exigiriam retornar à Turquia e Bulgária, cancelando o Tratado de Lausanne, de 1923. A questão da população eslava da Macedônia grega também exigiria atenção, embora esse tema nem sempre tenha sido mencionado no país. A Eslovênia finalmente teria satisfeitas suas reivindicações em seus conflitos microterritoriais com a Croácia. Ela reivindicaria o cancelamento dos plebiscitos de 1918 e expandiria seu território até a Caríntia, na Áustria, onde ainda existem várias comunidades eslovenas. A Eslovênia também poderia ganhar parte de Friuli, na Itália, em vista da atitude positiva que vem demonstrando na administração dos conflitos da região –talvez ganhasse a cidade de Gorizia (atualmente atravessada pela fronteira), ou até mesmo Trieste.

Essa reorganização não agradaria a todos: os gorani, em Kosovo, os rutênios, na Eslavônia do leste da Croácia, ou os aromanos, na Macedônia, Albânia e Grécia. E os entre 3.000 e 4.000 roma (ciganos) dos Bálcãs ocidentais continuariam a ser, como sempre foram, um povo sem Estado.

É pouco provável que tais transformações se dessem de modo pacífico. A emergência de conflitos armados de média intensidade parece ser mais que provável, e seria necessária uma força-tarefa regional para comandar tropas da UE encarregadas de manter a paz. Mas o deslocamento de populações não poderia ser visto como efeito colateral indesejável, pois seria o objetivo de toda a movimentação. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) supervisionaria a operação, ajudado por ONGs. O orçamento de assistência emergencial disponível para os Bálcãs ocidentais teria que ultrapassar de longe os recursos levantados após o tsunami asiático de dezembro de 2004.

Esse cenário pode parecer altamente improvável, mas partes do roteiro já foram escritos, no que diz respeito às questões ligadas à Bósnia-Herzegóvina e à nacionalidade albanesa. Os proponentes da independência de Kosovo destacam que esta não deve criar um precedente; mesmo assim, é inevitável que ela fosse, sim, vista como precedente, se os setores insatisfeitos, nos Bálcãs ou em outras regiões, achassem que poderiam utilizá-la como tal.

A idéia de que problemas de nacionalidade possam ser resolvidos com a reorganização de fronteiras é baseada na ilusão de que as fronteiras podem ser redefinidas com precisão segundo linhas étnicas. Todas as fronteiras nacionais são criações históricas, legado de manobras políticas e militares. As fronteiras não são mais justas e precisas do que são naturais.

O uso do termo "Bálcãs" se difundiu no século 19. Quando o Império Otomano começou a se fragmentar, as reivindicações inconciliáveis de suas populações antes súditas abalaram essa região da Europa. Os Bálcãs passaram a ser vistos como sinônimos de sentimento nacionalista, conflitos complexos, transtornos e fragmentação –em outras palavras, a "balcanização". "Os Bálcãs" era um conceito ideológico, não geográfico. Nesse caldeirão de culturas, aspirações e reivindicações contraditórias, os conflitos de fronteiras eram acirrados.

A emergência de Estados e a definição de suas fronteiras marcaram a entrada dos Bálcãs na política moderna. Os novos Estados eram, de modo geral, nacionalistas, baseados sobre e adaptados dos modelos fornecidos pela história específica da Europa ocidental. No início do século 19, a Grécia e a Sérvia se estabeleceram por meio da limpeza étnica, organizando a expulsão ou assimilação de populações vistas como exógenas (por motivos religiosos: os turcos, ou seja, muçulmanos, quer fossem de idioma eslavo, albanês ou turco, foram expulsos de ambos os Estados).

A definição de fronteiras criou a impressão de que a confusão nos Bálcãs estava sendo administrada –que ela poderia ser transformada num ideal europeu de ordem, baseado na coincidência de uma população, suas fronteiras naturais e o Estado. A diversidade que caracterizara a era otomana, as identidades múltiplas de língua, "nacionalidade" e religião, começaram a perder força.

Esse processo se acelerou durante as guerras na Iugoslávia na década de 1990: a população sérvia da Croácia caiu de 12% para cerca de 4%, e o mosaico bósnio foi reorganizado em largas zonas monoétnicas sob o controle de uma das três comunidades.

Nos séculos 19 e 20, a Austro-Hungria e a Rússia, além da França, Grã-Bretanha e Itália, combateram para ampliar suas zonas de influência no que restava do Império Otomano. Elas apoiaram e incentivaram as aspirações nacionalistas das populações dos Bálcãs. A política desses Estados era transmitida a outros países por jornalistas e viajantes. No final dos anos 1930 a escritora britânica Rebecca West repreendeu os "humanitários e filantropos" que apoiavam as causas nacionalistas.

Desde 1878, houve alguns momentos chaves na definição das fronteiras. A "grande crise oriental" foi solucionada primeiro pelo Tratado de San Stefano, que previu a criação de uma Grande Bulgária sob um protetorado russo. Os planos provocaram reações negativas em Londres, Paris e Viena por deixarem de levar em conta a Sérvia e a Romênia. Foram revertidos alguns meses mais tarde no Congresso de Berlim, onde a Áustria-Hungria ganhou controle sobre a Bósnia-Herzegóvina e o Sanjak de Novi Pazar.

As guerras dos Bálcãs de 1912-13 e a 1ª Guerra Mundial também são episódios chaves. Em 1918 a Sérvia e a Romênia foram regiamente recompensadas por sua fidelidade aos Aliados: a casa sérvia de Kara-or-evi pôde proclamar o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (que mais tarde se tornaria a Iugoslávia), enquanto Bucareste estabelecia a Grande Romênia.

Apesar dos princípios wilsonianos anunciados após a 1ª Guerra Mundial, nenhum desses Estados reconheceu qualquer direito de autonomia desses povos individuais. Eles encerraram grande número de comunidades dentro de suas novas fronteiras e as converteram em minorias nacionais. Nos anos 1920 o Comintern denunciou o reino da Iugoslávia como sendo uma nova "prisão de povos". É verdade que o Estado centralizado criado pelos Karadordevic guardava pouca semelhança com o sonho romântico de um Estado unificado para os povos eslavos do sul (os iugoslavos).

As fronteiras internas traçadas em 1945 para a República Federal Socialista da Iugoslávia foram a menos negativa de todas as soluções conciliatórias, segundo o político que foi o responsável principal por elas, o dissidente Milovan Djilas, nascido em Montenegro. O sistema dependia da manutenção de uma distinção clara entre cidadania e nacionalidade e tinha suas origens no pensamento marxista austríaco. Os iugoslavos eram cidadãos da república federal em que viviam (e também da Federação Socialista), mas permaneciam livres para escolher sua comunidade nacional: não havia obrigação no recenseamento iugoslavo.

A experiência dos Bálcãs mostra que as reivindicações de populações diferentes não podem ser apresentadas em termos de Estados sem causar divergências e confrontos. Em Kosovo só existem duas soluções possíveis para as reivindicações mutuamente excludentes das populações que dividem o mesmo território: ou a vitória de uma população sobre a outra, suscitando frustrações e buscas de vingança, ou a invenção de novas formas de coexistência e co-soberania política. O contexto europeu certamente poderia gerar novas oportunidades políticas capazes de superar esses conflitos territoriais.

As grandes potências sempre exerceram papel essencial na determinação das fronteiras nos Bálcãs. Hoje Kosovo é um peão na batalha planetária entre Rússia e Estados Unidos, de modo que pouca atenção será dada aos interesses reais dos albaneses, sérvios e outros que vivem em Kosovo.

Qualquer tentativa de solucionar os problemas através de novos planos de partilha afetaria a Europa inteira. É tempo de encontrar uma resposta melhor que simplesmente traçar novas linhas no mapa.

*Jean-Arnault Dérens é editor do "Courrier des Balkans" e, com Laurent Geslin, autor de "Comprendre les Balkans: Histoire, sociétés, perspectives" (Non Lieu, Paris, 2007).

Folha de S. Paulo

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19 meses e passamos das 500 mil visitas

Neste 17 de fevereiro completam-se 19 meses de vida do Blog Controvérsia e no período cravamos a incrível marca de meio milhão de visitas, ocorrida no dia 10 de fevereiro (veja a matéria). A audiência do Blog tem sido bastante significativa e reputamos tal fato à qualidade das publicações.

Muito obrigado pelo apoio. Em breve, como retribuiução ao apoio dos leitores, uma boa surpresa. Obrigado aos controversos pelos cliques, sugestões, contribuições e críticas.

Acompanhe a movimentação mês a mês (desde 17 de julho de 2006, quando o Blog foi lançado).

grafico_visitas

19º mês (17/01 a 17/02): 55 mil visitas (460.000 a 515.000)
18º mês (17/12 a 17/01): 44 mil visitas (416.000 a 460.000)
17º mês (17/11 a 17/12): 56 mil visitas (360.000 a 416.000)
16º mês (17/10 a 17/11): 60 mil visitas (300.000 a 360.000)
15° mês (17/09 a 17/10): 50 mil visitas (250.000 a 300.000)
14º mês (17/08 a 17/09): 39 mil visitas (211.000 a 250.000)
13º mês (17/07 a 17/08): 31 mil visitas (180.000 a 211.000)
1º ano (17/06 a 17/07): 180 mil visitas (0 a 180.000)

Obrigado. Ricardo Alvarez

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Bauman, um visionário na sociedade da paranóia

Em seu livro Medo Líquido, o polonês faz inventário dos pavores contemporâneos

Lilia Moritz Schwarcz

Franklin Roosevelt concluiu seu discurso de posse, em 1933, dizendo: “Permitam-me afirmar minha crença inabalável de que a única coisa que devemos temer é e próprio medo.” No filme Alice nas Cidades, de Wim Wenders, a personagem principal confessa só ter medo do seu medo. O fato é que vivemos numa época de temores: difusos, dispersos e indistintos. Criamos uma parafernália de mecanismos que nos auxiliam a ter a ilusão de que controlamos o imprevisto. Carros blindados, edifícios murados, vidros escurecidos, condomínios fechados; todo esse conjunto lega a frágil certeza de que estamos protegidos. Mas o efeito final acaba sendo oposto: quanto mais nos protegemos, mais nos sentimos inseguros, com medo do que conhecemos e do que está por vir.
E essa sensação não é nova. Lucien Febvre tratou da experiência de se viver na Europa do século 16 e a resumiu da seguinte maneira: “Medo sempre e em toda parte.” O historiador mostrava, em Le Problème de L’Incroyance Au XVI Siècle, os vínculos profundos que se estabeleciam entre medo e escuridão. A incerteza diante da imensidão que se configurava fora do lar gerava a constante sensação de perigo, manifesta numa série de documentos de época. Outros autores dedicaram-se ao tema, analisando seu impacto em diferentes momentos históricos. Um dos mais conhecidos é Phillipe Ariès, que escreveu sobre a morte no Ocidente, examinando as saídas rituais que foram sendo criadas, sempre no sentido de trapacear com a morte.
Mas, se parece mais fácil olhar para contextos distantes, já tratar do presente tem se revelado uma empreitada problemática: poucos foram os trabalhos que cuidaram de nossos próprios medos. Não me refiro aos estudos sobre violência, ou às análises acerca da desigualdade social. Penso nos ensaios que abordaram o medo como objeto específico de análise. É certo que relatos de genocídios ou do Holocausto exploraram facetas mais escondidas de nossa inserção no mundo. Primo Levi, por exemplo, narrou em seus livros com imensa sensibilidade e dureza a experiência de ser um prisioneiro num campo de concentração e a dificuldade de viver em um mundo que tenha “naturalizado” tal tipo de vivência e incorporado o medo. Esse não foi o caso de Levi, que denunciou enquanto pôde os monstros que existem dentro de nós. No entanto, o fato é que temos destinado um local especial a esse tipo de literatura, chamando-a de “relato de delação”, sendo que caberia a ela incorporar tais reflexões. Mais uma vez, falar das fragilidades alheias é mais fácil e confortável do que vislumbrar as nossas próprias.
É em torno desse tema atual e polêmico que se detém o sociólogo Zygmunt Bauman. Professor emérito de sociologia das universidades de Varsóvia e Leeds, Bauman teve seus livros e artigos censurados em 1968, sendo obrigado a exilar-se primeiro no Canadá, depois nos Estados Unidos, mais tarde na Austrália, fixando-se após um tempo na Inglaterra. Tal situação propiciou-lhe a condição de estrangeiro em qualquer lugar e uma visão cosmopolita e compreensiva acerca do que chama de nossa “modernidade líquida”. Famoso por seu estilo a um só tempo claro e desafiador, o sociólogo tem se revelado um grande pensador/ provocador de nossos tempos. Em sua vasta obra, tem dedicado um lugar especial a temas da contemporaneidade. Além do mais, na contramão dessa naturalização do medo, nesse seu novo livro - Medo Líquido (tradução de Carlos Alberto Medeiros) - o sociólogo analisa mais uma faceta desta castigada modernidade.
O livro funciona como uma espécie de inventário de nossos medos, sem recusar os temas menos nobres. Analisa, por exemplo, o fenômeno do Big Brother e o chama de “contos morais” de nossa época. Mostra como esse tipo de programa e outros reality shows de uma maneira geral acabam por banalizar o medo e a morte, fazendo deles um grande simulacro; quando não um objeto para estetização. É fato que todas as culturas podem ser entendidas como dispositivos engenhosos destinados a adornar o medo e a morte, assim como torná-los mais contempláveis. No entanto, foi a sociedade moderna que os transformou em lucro. O medo vende e atrai público, o que faz com que o circuito torne-se ainda mais perverso. Não há quem não tema o medo, mas não há quem não queira se defrontar com ele, sobretudo quando mediados por uma tela.
Medo também se associa à idéia de mal. Auschwitz, Gulag, Hiroshima gerariam metaterrores; seriam incubadores de medo gestados e difundidos por nossa percepção. Por outro lado, pensar neles implica desejar que se desvaneçam e que fiquem seguros em sua invisibilidade. Hannah Arendt descobriu nos relatórios apresentados pelos doutos psicanalistas chamados a testemunhar no julgamento de Eichmann que o “comportamento dele era normal”. Aliás, a atitude do nazista teria sido considerada não só “normal”, mas até “agradável” em relação à esposa, aos irmãos, aos filhos e aos amigos. O problema reside em pensar que, se Eichmann era “normal”, nós também podemos ser, ou, quem sabe, somos nós que nos transformamos em bárbaros, quando observados a partir dessa outra lente. Pensando sob outro prisma: se os executores podem ser “pessoas como nós”, o que mais assusta é vislumbrar a hipótese de que, quem sabe, seríamos capazes de nos transformar naquilo que tanto receamos ser: genocidas, assassinos, nazistas… todos “normais”.
Nosso temor também se dirige ao que é considerado “inadministrável”. Temos medo do tsunami, do Katrina e outros desastres naturais. Tememos erros de cálculo e a negligência humana. Medo é, pois, o outro nome que damos à nossa “falta de defesa”. E tudo isso ganha potência renovada diante desse mundo globalizado, que permite temer o que não conhecemos e, também, aquilo que jamais conheceremos. Diante dessa sociedade aberta nos tornamos ainda mais vulneráveis e nossa segurança é pouco confiável. Vivemos ameaçados por guerras de proporções universais, por conflitos econômicos, políticos e sociais; pela visão apocalíptica de um confronto entre o bem e o mal; pela regionalização da política.
Foi o filósofo Jacques Derrida quem observou como cada morte é o fim de um mundo. Numa época em que o pensamento intelectual está cada vez mais sujeito a suspeitas de toda ordem, nada como um sociólogo do calibre Bauman para nos ajudar a restituir a fé no pensamento e no poder das idéias. Adepto da noção de “iluminação”, no seu sentido filosófico, ele é quase um “profeta” de nossos tempos nervosos, mesmo negando ser. É só nesses momentos que Medo Líquido perde um pouco de seu poder de crítica e se converte numa espécie de livro de auto-ajuda, apesar de seu valor intelectual indubitável. Particularmente, prefiro quando Bauman duvida do que quando tem certeza. Afinal, estamos diante de um dos autores mais importantes a tratar da pós-modernidade; adepto de uma sociologia reflexiva e que incide sobre nós mesmos.
Este livro recupera, ainda, o trajeto original de um pensador que, após dedicar-se a estudos do marxismo, passou a analisar a sociedade de consumo para chegar à nossa pós-modernidade. Já em suas análises sobre o Holocausto (e na sua concepção de “obediência cega” e de “suspensão de responsabilidade moral”) percebe-se o caminho desse sociólogo que viu na modernidade um processo acelerado de racionalização combinado com uma carga alta de mistificação e, no caso da obra que aqui comentamos, medo. Por isso, a modernidade carrega ao mesmo tempo duas lógicas: é sempre sólida, mas também líquida. O 11 de Setembro desempenhou para a modernidade papel semelhante ao que a Tomada da Bastilha representou para o período moderno. Quem não estava lá pensou que poderia ter estado e, assim, padeceu do mesmo temor. Tendo assolado o mundo dos humanos, o medo é capaz de impulsionar e de se intensificar por si mesmo. Ele é, assim, em boa parte das vezes, não a conseqüência, mas a causa de nossos males devidamente amplificados.

Lilia Moritz Schwarcz é prof. do Departamento de Antropologia da USP e autora de As Barbas do Imperador.

Estado de S. Paulo

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Uma Austrália no caminho do Timor

Atritos deixam timorenses reféns de forças e interesses estrangeiros

António Pinto Barbedo de Magalhães*

Em 18 de janeiro de 2008, dia seguinte ao do lançamento do seu livro sobre o Timor na Fundação Mário Soares, tive uma longa conversa com o embaixador da Austrália em Lisboa. Estava preocupado com a situação no Timor e disse ao embaixador que considerava imprescindível que o novo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, um velho amigo do Timor e amigo do presidente José Ramos-Horta, controlasse as Forças Armadas australianas colocadas no Timor e seus serviços secretos. De fato, em governos anteriores, estas tinham estado mais a serviço da Austrália e dos interesses econômicos de petrolíferas que da estabilidade e da democracia no novo país asiático.
A ineficácia dos serviços de informações das forças internacionais, quase exclusivamente australianas, que não souberam prever e evitar os ataques contra as duas principais figuras do Estado timorense, nem capturar ou neutralizar os militares que apoiavam o major Reinado (Alfredo, líder rebelde morto no ataque a Ramos-Horta) é um sinal de que, até o dia do atentado, a política herdada do governo anterior ainda não tinha sido mudada no terreno.
Convém não esquecer que em março de 2002 o governo de John Howard retirou a Austrália dos tribunais internacionais relacionados com fronteiras marítimas. Em dezembro do mesmo ano, uma semana depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alexander Downer, ter ameaçado o primeiro-ministro timorense de lhe dar uma lição de política, a casa de Mari Alkatiri foi revistada por um australiano e incendiada. A fúria de Downer contra Alkatiri resultava de este não ceder às injustificadas e completamente ilegais exigências australianas relativas ao petróleo do mar de Timor.
Até 1979, a resistência timorense foi liderada pela Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), uma frente nacionalista de inspiração revolucionária ao estilo dos movimentos de libertação das ex-colônias portuguesas.
Com a queda da última base da resistência em novembro de 1978 e a morte do lendário Nicolau Lobato, nos finais desse ano, a resistência foi quase completamente aniquilada.
Dois anos e meio depois, Xanana Gusmão assumiu a liderança da resistência e desenvolveu uma estratégia de grande abertura a todos os patriotas timorenses, mesmo os que colaboravam com os ocupantes. Foi nesse quadro que, em setembro de 1982, Xanana provocou um encontro com monsenhor Martinho Lopes, “bispo” de Díli, e consolidou uma aliança estratégica com a Igreja.
Foi também no quadro da política de “conviver com o inimigo” que Xanana se encontrou com o comandante militar indonésio, alcançando um cessar-fogo que foi crucial para a reestruturação da resistência.
Foi também Xanana quem se encontrou com o governador colaboracionista Mário Carrascalão, conseguindo assim que se desenvolvesse uma ampla convergência nacionalista.
Nos anos seguintes, Xanana foi-se afastando da Fretilin a fim de consolidar essa unidade nacional e transformar as forças da resistência em forças nacionais e suprapartidárias.
O realismo em que Xanana Gusmão baseou sua estratégia levou-o a assumir, em 7 de dezembro de 1987, o compromisso de que Timor Leste não se tornasse nunca uma “ameaça à estabilidade da área”. Ao mesmo tempo, garantia sua determinação de evitar que Timor viesse a cair nas mãos de algum partido hegemonista pouco democrático.
Nessa altura muitos líderes da Fretilin criticaram Xanana duramente. Mas este conseguiu fazer vingar a única estratégia que permitiria à resistência timorense conquistar apoio internacional suficiente para a autodeterminação.
Depois do referendo de 1999, uma Assembléia Constituinte, com maioria da Fretilin, elaborou uma Constituição na qual o presidente era uma figura esvaziada de quaisquer poderes em tempos normais. Desse modo os líderes da Fretilin procuravam aniquilar politicamente o carismático líder.
A marginalização de Xanana do processo político, o clima de medo criado pelo ex-ministro do Interior Rogério Lobato (detido em 2006, julgado e condenado por ter entregue armas a civis e promovido a instabilidade no país), os conflitos com a Igreja e a arrogância do então primeiro-ministro foram fatores determinantes da crise de 2006.
Ao continuar a afirmar que o atual governo, de maioria parlamentar, resultante das eleições de 2007, é ilegítimo, Alkatiri continua a tentar destruir politicamente um líder essencial para Timor. Com isso enfraquece a democracia, debilita o Estado e contribui para que este fique cada vez mais dependente de forças e interesses estrangeiros.
A Austrália tem tido e continua a desempenhar um papel dominante no Timor Leste. Imprescindível para evitar a guerra civil e a completa destruição do Estado, tem sido, também, uma das principais, se não a principal, causa da manutenção de uma instabilidade quase permanente, ainda que “controlada”.
Mas os líderes timorenses que, no seu irrealismo, ignoram o contexto internacional em que o Timor se insere e se ocupam em se destruir mutuamente, também têm, definitivamente, que se entender e colaborar.Uma relação de confiança entre eles é fundamental. Ramos-Horta fazia tudo que podia nesse sentido. Sua contribuição era fundamental e continua a ser da maior importância.
Uma relação de confiança com a Austrália, como aquela que existe com a Indonésia, é também fundamental. Com Rudd, será possível. É preciso, no entanto, que ele consiga controlar seus serviços secretos e militares e moderar os ímpetos de alguns interesses econômicos absolutamente selvagens.

*António Barbedo é professor da Universidade do Porto e autor de seis livros sobre o Timor, entre eles, Timor Leste: Interesses Internacionais e Atores Locais (Afrontamento)

Estado de S. Paulo

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Ainda o Semi-árido

Há uma nova concepção do semi-árido, antagônica ao velho discurso das oligarquias, que traduz o confronto mortal entre dois modelos. A nova concepção do semi-árido – que chamamos de convivência com o semi-árido -começa de seu rico potencial.

Roberto Malvezzi

Uma das dificuldades maiores no debate sobre a transposição do rio São Francisco é deparar com pessoas que ainda tem uma velha e obsoleta visão do que seja o semi-árido brasileiro. Normalmente essas pessoas repetem argumentos da velha indústria da seca e consideram o semi-árido como uma “região feia, seca, inviável, cujo problema central é a falta de água”. As pessoas repetem a esmo essas afirmações, sem se darem conta que estão apenas repetindo o velho discurso das oligarquias nordestinas, que sempre construíram seu poder a partir da sede e da fome do povo. Por isso, muitos artigos publicados em defesa da transposição não tinham sequer o conhecimento básico sobre o semi-árido para um diálogo construtivo.

Bem, aí é nosso dever, já que estamos envolvidos e defendemos outras propostas para o sertão. Temos perdido essa guerra para o rolo compressor do governo e seu marketing, mas também temos ampliado a difusão de nossas propostas. O governo tem pago e vai pagar um alto custo, inclusive eleitoral, por sua opção.

Há uma nova concepção do semi-árido, antagônica ao velho discurso das oligarquias, que traduz o confronto mortal entre dois modelos. A nova concepção do semi-árido – que chamamos de convivência com o semi-árido -começa de seu rico potencial. Essa região tem uma excelente pluviosidade – em se tratando de semi-árido -, com uma média anual de 750 mm que caem sobre um território de quase um milhão de Km2. Significa a precipitação de praticamente 750 bilhões de metros cúbicos por ano. Temos infra-estrutura para armazenar apenas 36 bilhões de metros cúbicos, ou seja, apenas 5%. Portanto, fundamento número um, teremos que ampliar a malha de captação dessa água em reservatórios que não permitam sua evaporação.

O bioma caatinga, o principal do semi-árido, é rico em biodiversidade e as plantas e animais já “aprenderam a conviver com essa realidade”. Quem nunca aprendeu foi o ser humano. Muitas plantas guardam água dos períodos chuvosos em suas raízes, mas a maioria “adormece”, “hiberna”, poupando energia até às próximas chuvas. A revolução cultural exigida aqui é fazer a poupança de água, de feno, silagem, alimentos, no período de chuvas para viver bem nos períodos normalmente sem chuva. Não se muda esse clima, a saída é adaptar-se bem a ele. Esse é o segundo fundamento.

Para isso é preciso uma revolução cultural e educacional, que deve começar nas salas de aulas. É o que cobramos como educação contextualizada. Ela passa pela desconstrução do velho conceito de semi-árido, centrado no discurso da seca, para um novo entendimento, que exige uma nova prática política, social e ambiental. Terceiro fundamento.

Já temos um leque poderoso de tecnologias sociais capazes de oferecer uma vida muito mais digna à população. Elas vêm da sabedoria popular, das organizações e movimentos sociais, mas também da própria Embrapa Semi-árido. Bastaria que elas fossem maciçamente aplicadas – cisternas para beber, cisternas para produzir, barragens subterrânea, etc. -, além de uma reforma agrária consistente, para que a vida comece a melhorar consistentemente. É preciso também ter terra para que se possa criar animais de pequeno e médio porte, adaptados ao clima. Existem às dezenas. Quarto fundamento.

Para o meio urbano defendemos a implementação do Atlas do Nordeste, com suas adutoras levando água diretamente aos serviços de abastecimento de 1.356 municípios – que agora vai ser refinado também para os municípios abaixo de 5 mil habitantes -, oferecendo segurança hídrica a 34 milhões de nordestinos que vivem no meio urbano. É o quinto fundamento.

Muitas dessas propostas já estão se fazendo realidade, como o projeto 1 milhão de cisternas, mas estamos muito longe de ter a implementação de uma malha satisfatória dessas tecnologias. São experiências testadas e comprovadas em sua eficácia, ao menos para minorar o sofrimento das populações mais pobres do país.

Saídas temos. Tecnologias temos. Conhecimentos temos. Nossa opção é por obras capilares, que cheguem ao povo, não mais por mega projetos, concentradores de terra e água. Não temos decisão política que queira implementá-las. Nossa luta é transformar essas possibilidades em realidade.

Agência Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1

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Novos preconceitos são consentidos

A cultura aparece cada vez mais atrelada às prioridades políticas do eixo EUA/UE. O Ocidente é cego diante do sofrimento palestino. A guerra de Israel contra o Líbano e os relatórios diários do gueto de Gaza não comovem a Europa oficial.

Tariq Ali

Quando aceitei participar na Feira do Livro de Turim —já tinha feito isso anteriormente— não tinha nenhuma idéia de que Israel e seu 60º aniversário seria o convidado de honra. Também é o sexagésimo aniversário do nakba, termo usado pelos palestinos para denominar o desastre que enfrentaram nesse ano, quando foram expulsos de seus povoados, alguns assassinados e as mulheres estupradas pelos colonizadores. Estes fatos estão fora de discussão.
Então, por que a Feira do livro de Turim não convidou o mesmo número de palestinos? 30 escritores israelenses e 30 escritores palestinos (sim, há tantos, eu garanto, e são ótimos poetas e romancistas): isso poderia ter sido visto como um gesto positivo e pacífico e, como bônus, poderia ter ocorrido um proveitoso debate entre eles. Seria uma versão literária da orquestra Diwan, de Daniel Berenboim, que é metade israelense e metade palestina. Uma iniciativa deste tipo poderia unir as pessoas. Mas não… os comissários culturais são mais avisados. Já debati calorosamente com alguns escritores israelenses em outras edições desta mesma feira e a mesma coisa poderia ter sido feita felizmente agora, se as condições fossem diferentes. Isso que os comissários decidiram fazer é uma horrível provocação.
A cultura aparece cada vez mais atrelada às prioridades políticas do eixo EUA/UE. O Ocidente é cego diante do sofrimento palestino. A guerra de Israel contra o Líbano e os relatórios diários do gueto de Gaza não comovem a Europa oficial. Na França, como já sabemos, é impossível criticar Israel. E na Alemanha também, por razões especiais. Seria triste que a Itália seguisse a mesma trilha. Quantas vezes será necessário repetir que as críticas feitas às políticas coloniais de Israel não significam o exercício de anti-semitismo? Aceitar que sejam é sucumbir servilmente à chantagem utilizada pelo establishment israelense para amordaçar seus críticos.
Existem alguns valentes críticos israelenses, como Aharon Shabtai, Amira Hass, Yitzhak Laor e outros, que não estão dispostos a que suas vozes sejam silenciadas desta maneira. Shabtai recusou-se a participar desta feira. Como poderia eu agir de outro modo?
Uma coisa é estar de acordo com o direito de Israel de existir, o que defendo e sempre defendi. Mas confundir esse direito de existência com um cheque em branco concedido a Israel para fazer o que bem quiser com os que foram expulsos, aos quais trata como se fossem subumanos (Untermenschen) é inaceitável.
Pessoalmente, sou partidário de um estado Israel/Palestina em que todos os cidadão sejam iguais. Muitos já me disseram que isso é utópico. Pode até ser, mas trata-se de uma solução a longo prazo. Devido aos temas das minhas novelas, freqüentemente me perguntam —muito recentemente, em Madison, Wisconsin— se seria possível recriar os tempos de al-Andalus e Sicília, onde três culturas coexistiram durante muito tempo. Minha resposta sempre é a mesma: atualmente, o único lugar onde isso poderia ser recriado é Israel/Palestina.
Vivemos em um mundo de dois pesos e duas medidas, mas não precisamos aceitá-lo. É comum que as pessoas e os grupos que sofreram danos, por sua vez causem danos. Mas o primeiro não justifica o segundo. O anti-semitismo europeu tolerou o massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial, e disso os palestinos resultaram ser as vítimas indiretas. Muitos israelenses estão conscientes deste fato, mas preferem não pensar nisto.
Agora, muitos europeus vêm os palestinos e muçulmanos como antes viram os judeus, uma ironia que se torna palpável nos comentários da imprensa e nas coberturas televisivas de praticamente todos os países europeus. É uma pena que a burocracia da Feira do Livro de Turim tenha consentido em ceder diante dos novos prejuízos que estão varrendo o continente. Vamos esperar que seu exemplo não seja seguido em outras partes.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores.

Tariq Ali, escritor, é membro do Conselho Editorial da revista espanhola Sinpermiso.

Carta Maior

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Antigos forasteiros podem ter sido os primeiros moradores dos subúrbios

Os imigrantes provavelmente se mostraram mais poderosos que governantes centrais na formação de uma antiga metrópole na Síria

David Biello

Detritos de habitação humana – em grande parte, fragmentos de potes de argila amarela – revelaram que Tell Brak, uma antiga cidade no noroeste da Síria, foi urbanizada há mais de sete mil anos e deu origem ao aparecimento de subúrbios habitados por imigrantes 6.200 anos atrás. Na verdade, em vez da fábula de um antigo governante que resolve criar uma cidade da estaca zero, os fragmentos de cerâmica de Brak contam uma história diferente, de uma metrópole que cresceu por suas próprias forças, à medida que as pessoas migravam para lá.

A colina de Brak fica a 40m da planície, como resultado de habitação humana – uma camada da cidade foi surgindo sobre a outra. Com uma área de 40 hectares, o centro da cidade é cercado por quase 300 hectares com sinais de vida urbana. Ao analisar 55 mil fragmentos de cerâmica trazidos à superfície pela agricultura local, o arqueólogo Jason Ur e sua equipe da Harvard University mostraram que o centro da cidade foi formado por assentamentos suburbanos, já em 4.200 a.C..

Essa expansão do subúrbio fez com que a cidade aumentasse para mais de 55 hectares de extensão, em uma época em que outros assentamentos pela Mesopotâmia raramente passavam de três hectares. “A população que apareceu de repente nessas áreas satélites era maior que aquela que poderíamos esperar do crescimento populacional”, explica Ur. “A distância espacial está provavelmente ligada a uma distância social ou política que foi mantida.”

Ao contrário das primeiras cidades tradicionais no sul da Mesopotâmia, como Uruk, onde a terra era controlada por uma autoridade central e limitada por muros, a metrópole de Tell Brak, ao norte da Mesopotâmia, mostra uma padrão de crescimento mais casual, talvez promovido por forasteiros. “As comunidades-satélite queriam fazer parte desse lugar, mas não estavam preparadas para deixar sua autonomia para trás, e isso está bem claro com a distância espacial”, afirma Ur, “As pessoas vinham para este local por razões próprias, e não porque eram coagidas por classes sociais mais altas.”

Essa descoberta aponta para uma nova versão da fundação das primeiras cidades, muito diferente daquela tradicionalmente contada. “Os reis se apossavam rapidamente dos méritos de terem fundado cidades. Interpretamos inscrições reais, que podem não assegurar a versão mais verdadeira da história.”

Uma vez estabelecidos, esses subúrbios se expandiram na direção do centro da cidade, até atingi-lo em 3.900 a.C., talvez à medida que a cidade se tornara conhecida como um local onde os imigrantes pudessem começar vida nova e alimentar suas famílias, principalmente com as plantações de trigo e cevada, ou com as criações de ovelhas, bodes ou bois.

Para resumir a história, até 3.400 a.C. a cidade havia inchado para 130 hectares, e ostentava um templo elaboradamente decorado, uma multidão de artesãos e alguma forma de elite, de acordo com o estudo que apresentou a descoberta dos fragmentos de cerâmica, publicado na revista “Science”. As evidências da chegada dos mesopotâmios do sul à região nessa época podem indicar a formação de uma cidade de imigrantes ou de algum tipo de colônia de mercadores, argumentam Joan Oates e sua equipe da University of Cambridge em um estudo publicado na revista “Antiquity”.

Mas mesmo se Tell Brak não permaneceu como centro urbano vital – fato que permitiu aos fragmentos de cerâmica contar essa história tão antiga –, certamente esteve entre as primeiras a ganhar o título de cidade. “Brak alcançou um estágio urbano tão cedo quanto ou mesmo antes que Uruk, tradicionalmente considerada a primeira cidade do mundo,” rebate Ur. “O urbanismo pode ter acontecido em mais de um local no Oriente Próximo.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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O jovem Einstein

O físico de vinte e poucos anos vestia-se bem e era boa pinta

Talvez uma das fotos mais conhecidas do século 20 seja aquela de Albert Einstein (1879-1955) com a língua de fora. No seu aniversário de 72 anos, dia 14 de março de 1951, Einstein estava cansado dos jornalistas que não o deixavam em paz. Quando deparou-se com o exército de fotógrafos que o esperava, Einstein pôs a língua de fora, na esperança que os fotógrafos desistissem dele e fossem realmente embora.
Grande engano! A imagem tornou-se um ícone do gênio, excêntrico e brincalhão. Incontáveis filmes, desenhos animados e peças teatrais exploram o mito do cientista meio louco meio gênio, cabelos despenteados, sotaque carregado, roupas amarrotadas e sapatos desamarrados. Poucos sabem que esse Einstein tem muito pouco a ver com o outro Einstein, o jovem que criou teorias mirabolantes sobre o espaço, o tempo e a matéria, teorias que revolucionaram toda a visão que se tinha sobre o cosmo na época.
O jovem Einstein era um rapaz problemático, ao menos segundo os olhos de seus professores. Não que fosse um mau aluno: em 1896, graduou-se no então científico com as melhores notas da turma, mesmo que um ano mais novo. Seu problema maior era o autoritarismo do sistema educacional europeu. Os professores achavam-se literalmente intocáveis, incapazes de errar e muito menos de serem criticados por estudantes metidos.
Pois Einstein era justamente um desses estudantes que vivia questionando seus professores, tentando encontrar erros em seus argumentos, sem medo de se expor ou de criar controvérsia. Em 1898, quando cursava o Instituto Politécnico de Zurique, Weber, um dos maiores físicos da Europa e seu professor, afirmou: "Você é muito inteligente, mas jamais aceita a opinião dos outros". Einstein estava irritado com Weber, que limitava-se a ensinar a física pré 1850. Matava aulas e usava as notas de seu amigo Marcel Grossmann. Weber acabou opondo-se à sua carreira e Einstein não conseguiu emprego como seu assistente e também ficou de fora de uma universidade.
Acabou encontrando um emprego no escritório de patentes em Berna, na Suíça, graças à influência do pai de Grossmann. Nessa altura, Einstein tinha um círculo de amigos que se reunia sempre nos cafés da cidade para discutir filosofia e física, a chamada Academia Olímpia.
Enquanto lia os textos dos grandes filósofos e físicos, Einstein escrevia também seus próprios artigos. Era clara a sua liberdade e coragem intelectual. Esse Einstein, de vinte e poucos anos, vestia-se bem, era boa pinta e engraçado. Em 1904, seu melhor amigo, Michele Besso, juntou-se a ele no escritório de patentes.
Einstein diria dele: "Não poderia ter encontrado pessoa melhor para discutir minhas idéias em toda a Europa". Em 1905, Einstein publicou quatro artigos que mudaram a ciência. A teoria da relatividade especial foi apenas um deles. Qualquer dos outros trariam fama imortal ao seu autor. Tinha apenas 26 anos.
Na relatividade, Einstein vai contra 300 anos de física, demonstrando contra tudo e todos que o problema do éter, o meio que supostamente dava suporte à propagação da luz, não era um problema: o éter simplesmente não existia.
Anos de reflexão levaram a uma conclusão fantástica: "O tempo não pode ser absolutamente definido". O jovem rebelde traz a noção de perspectiva à ciência, ressaltando o papel do observador nas medidas de tempo e de espaço.
Se a elegância foi-se com a idade, ficou ao menos a rebeldia, se não tanto nas idéias ao menos na língua.


MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Folha de S. Paulo

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Aumento dos preços é sentido nas mesas de jantar ao redor do mundo

Keith Bradsher

O aumento dos preços do óleo de cozinha estão forçando os moradores da maior favela da Ásia, em Mumbai, Índia, a racionar cada gota. Padarias nos Estados Unidos estão preocupadas com o custo mais alto do óleo. E aqui na Malásia, novas fábricas construídas para converter óleo vegetal em diesel para caminhões estão inoperantes, com seus proprietários incapazes de arcar com o preço da matéria-prima.

Este é o outro choque do óleo. Da Índia até o Estado de Indiana, escassez e preços em alta para óleo de palma, óleo de soja e muitos outros tipos de óleos vegetais são o exemplo mais recente, mais notável, de um problema global: o encarecimento dos alimentos.

O índice de preço dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), com base nos preços para exportação de 60 itens alimentares comercializados internacionalmente, saltou 37% no ano passado. Isto se somou ao aumento de 14% em 2006 e a tendência se acelerou nos últimos meses.

Em alguns países pobres, o desespero está começando a tomar conta. Na semana passada, ocorreram protestos no Paquistão pela escassez de trigo e na Indonésia pela escassez de soja. O Egito proibiu a exportação de arroz para manter o alimento em casa, e a China impôs controle de preços ao óleo de cozinha, cereais, carne, leite e ovos.

Segundo a FAO, tumultos por causa de alimentos ocorreram nos últimos meses na Guiné, Iêmen, Marrocos, Mauritânia, México, Senegal e Uzbequistão.

“Os pobres urbanos, os sem-terra rurais e os pequenos agricultores deverão sair perdendo”, disse He Changchui, o representante chefe da agência para Ásia e Pacífico.

Uma grande mudança está em andamento nos mercados mundiais de alimentos. O aumento dos preços dos combustíveis alterou a equação do cultivo de alimento e de seu transporte ao redor do mundo. A imensa demanda por biocombustíveis criou tensão entre o uso da terra para produção de combustível e de alimento.

O crescimento da classe média nos países em desenvolvimento está provocando uma maior demanda por proteína, de carne de porco e hambúrgueres a frango e sorvete. E tudo isto está acontecendo em meio a uma mudança climática global que está começando a tornar mais difícil o cultivo de alimentos em alguns dos lugares mais bem equipados para fazê-lo, como a Austrália.

Nos últimos anos, a demanda mundial por produtos agrícolas e carne aumentou acentuadamente. Uma pergunta que permanece aberta é como e quando a oferta alcançará a demanda. Pelo futuro próximo, isto provavelmente significará preços mais altos nos supermercados e pagamentos mais gordos para produtores rurais de itens como trigo, milho e soja.

E uma inflação pior pode estar a caminho. Especialistas em alimentos dizem que os aumentos acentuados nos preços dos commodities ainda não foram repassados integralmente para as bancas de rua nos países em desenvolvimento ou para os supermercados no Ocidente.

Os governos em muitos países pobres tentam responder aumentando os subsídios aos alimentos, impondo ou endurecendo os controles de preços, restringindo a exportação e cortando as taxas para importação de alimentos.

Estas medidas temporárias já estão começando a fracassar. Por todo o Sudeste Asiático, por exemplo, as famílias estão começando a estocar óleo de palma. Os contrabandistas estão provocando uma alta dos preços ao levarem óleo de mercados mais subsidiados, como o da Malásia, para mercados menos subsidiados, como o de Cingapura.

Nenhuma categoria de alimento apresentou alta de preços tão rápida nos últimos meses do que os chamados óleos comestíveis -com resultados às vezes trágicos. Quando uma loja do Carrefour em Chongqing, China, anunciou uma oferta de óleo de cozinha por tempo limitado, em novembro, uma correria de compradores deixou três mortos e 31 feridos.

Óleo de cozinha pode parecer uma despesa insignificante no Ocidente. Mas nos países em desenvolvimento, o óleo de cozinha é uma importante fonte de calorias e representa uma das maiores despesas para as famílias pobres, que cultivam grande parte de seus alimentos, mas precisam comprar o óleo para cozinhá-los.

Poucos itens ilustram tão bem os problemas emergentes na cadeia global de alimentos como o óleo de palma (mais conhecido no Brasil como óleo de dendê), um commodity vital em grande parte do mundo e particularmente na Ásia. De mercados nas ruas e selvas do Sudeste Asiático a empresas alimentícias nos Estados Unidos e usinas de biodiesel na Europa, o aumento dos preços do óleo estão arrastando ambientalistas, empresas de energia, consumidores, povos indígenas e governos a disputas amargas.

As palmeiras, com suas copas e folhas características, ocupam um oitavo de toda a área de terras da Malásia e um espaço ainda maior na vizinha Indonésia.

A palmeira é uma produtora altamente eficiente de óleo vegetal, que é extraído do fruto da palma. Um acre de palmeiras produz tanto óleo como oito acres de soja, o principal concorrente dos óleos de palma; a colza, usada para fazer óleo de canola, fica em um distante terceiro lugar. Entre as principais culturas agrícolas, apenas a cana-de-açúcar se aproxima de rivalizar o óleo de palma em calorias de alimento humano por acre.

Os preços do óleo de palma saltaram quase 70% no ano passado devido ao lento aumento da oferta diante do forte crescimento da demanda.

Produtores rurais e empresas estão respondendo aos preços mais altos, derrubando centenas de milhares de hectares de floresta tropical para o plantio de palmeiras. Mas a palmeira leva oito anos para atingir produção plena. Uma seca no ano passado na Indonésia e uma enchente na Malásia ajudaram a limitar a oferta. A produção mundial de óleo de palma cresceu apenas 2,7% no ano passado, para 42,1 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, a demanda por óleo de palma está crescendo acentuadamente em todo o mundo por vários motivos. Eles incluem a mudança de decisão entre os produtores rurais sobre o que plantar, o aumento do consumo de óleos comestíveis na China e Índia, os subsídios ocidentais para produção de biodiesel.

Os produtores rurais americanos estão plantando mais milho e menos soja porque a demanda por etanol de milho elevou o preço do milho. A área cultivada de soja nos Estados Unidos encolheu 19% no ano passado, produzindo uma queda na produção e estoques de óleo de soja.

Os produtores rurais chineses também reduziram a área plantada de soja no ano passado, devido ao crescimento urbano ter tomado boas terras agrícolas e ao governo chinês fornecer mais incentivos aos cereais.

Mas a população chinesa também está consumindo mais óleos. A China não apenas foi a maior importadora de óleo de palma no ano passado, com 5,2 milhões de toneladas nos primeiros 11 meses do ano, como também dobrou sua importação de óleo de soja para 2,9 milhões de toneladas, forçando compradores de toda parte a trocarem pelo óleo de palma.

Preocupações nutricionais costumavam prejudicar as vendas de óleo de palma, mas agora estão começando a ajudar. O óleo por muito tempo foi considerável prejudicial à saúde no Ocidente, mas se tornou uma opção atraente para substituição das gorduras alteradas quimicamente conhecidas como gorduras trans, que recentemente passaram a ser vistas como os menos saudáveis.

Nova York proibiu fritura com gorduras trans em restaurantes no ano passado e proibirá o uso de gorduras trans em padarias e confeitarias neste ano. Por todo o país, fabricantes estão tentando substituir as gorduras trans. A importação americana de óleo de palma quase dobrou nos primeiros 11 meses do ano passado, aumentando em 235 mil toneladas.

“Há quatro anos, quando toda esta história de proibição da trans começou, nós não processávamos óleo de palma aqui”, disse Mark Weyland, gerente de produto americano de uma empresa holandesa que fornece óleo de palma. “Agora é nosso produto que mais vende.”

No ano passado, a conversão de óleo de palma em combustível foi uma fonte de demanda com rápido crescimento, mas nas últimas semanas, o aumento dos preços lançou tal setor em turbulência.

Aqui na costa leste da Malásia, uma série de tanques de armazenamento verdes e cinzas de 14 metros de altura está ligada a um labirinto de canos amarelos e prateados. A nova fábrica reluzente tem capacidade de transformar por ano 116 mil toneladas de óleo de palma em 110 mil toneladas de biodiesel, assim como em subprodutos valiosos como glicerina. A Mission Biofuels, uma empresa australiana, concluiu a fábrica no mês passado e está trabalhando em uma fábrica vizinha ainda maior.

Mas os preços subiram tanto que a empresa não tem como cobrir todos os seus custos e mantém parada a refinaria concluída enquanto procura por uma nova estratégia, como pedir ao comprador de biodiesel que pague por um preço associado aos custos do óleo de palma, e algum dia trocar o óleo de palma pelo pinhão manso, que não é comestível.

“Nós achávamos que os preços do óleo de palma já estavam altos; não achávamos que poderiam subir ainda mais, mas subiram”, disse Nathan Mahalingam, o diretor administrativo da empresa.

Os biocombustíveis foram responsáveis por quase metade do aumento na demanda mundial por óleos vegetais no ano passado e representaram 7% do consumo total de óleos, segundo a Oil World, um serviço de previsão em Hamburgo, Alemanha.

A produção de biodiesel, que tem sido misturado ao diesel comum para uso em motores pesados, é controversa, não apenas por competir com os usos alimentares do óleo, mas também por preocupações ambientais. Grupos ambientalistas europeus alertam que as florestas tropicais estão sendo derrubadas para dar espaço para plantações de palmeiras, destruindo o habitat de orangotangos e rinocerontes em Sumatra, ao mesmo tempo em que liberam gases do efeito estufa.

A União Européia restringiu a importação de óleo de palma obtido de modos insustentáveis. A medida irritou a indústria de óleo de palma malasiana, que ingressou na produção de biocombustível em parte para atender a exigência européia.

Outra controvérsia envolve o tratamento dado aos povos indígenas cujas terras foram tomadas pelas plantações para óleo. Este é um problema em Bornéu.

Anne B. Lasimbang, diretora-executiva do Pacos Trust no Estado malasiano de Sabah, no norte de Bornéu, disse que apesar de alguns povos indígenas terem se beneficiado com a venda de óleo de palma produzido por eles mesmos, muitos perderam terras ancestrais com pouco retorno, incluindo terras que costumavam ser hábitats para orangotangos ameaçados

“Finalmente, um pouco de pressão internacional surtiu efeito. Algumas das empresas estão mais abertas ao diálogo; elas querem conversar com as comunidades”, disse Lasimbang, membro do grupo indígena dusun. “Do nosso lado, nós ainda nutrimos suspeitas.”

Com os múltiplos conflitos e pressões econômicas associados ao óleo de palma afetando a economia global, o resumo parece ser que o mundo deseja mais óleo do que pode obter.

Mesmo na Malásia, o centro da indústria global de óleo de palma por meio século, escassez tem aparecido em alguns pontos. Recentemente, à medida que os preços no atacado subiam, os produtores de óleo de cozinha se queixavam de subsídios inadequados e redução da produção doméstica de óleo, vendido a preços baixos, controlados.

Os vendedores de rua na capital, Kuala Lumpur, se queixavam de que não conseguiam encontrar óleo de cozinha suficiente para preparação do roti canai, o pão que é o lanche nacional preferido. “Está muito difícil de encontrar”, disse um vendedor que disse apenas seu primeiro nome, Palani, após reconhecer que tinha comprado secretamente óleo de cozinha destinado aos lares, em vez de pagar o preço mais alto para uso comercial.

Muitas das vítimas mais duramente atingidas pelo aumento dos preços dos alimentos estão nas grandes favelas que cercam a