A nova utopia é viver longe e melhor

O “teletrabalho” e a comunicação estão redesenhando o mapa demográfico e urbano da Espanha

Francesco Manetto

Alguns a chamam de urbanização descentralizada e outros de utopia vital do século 21, e está transformando a demografia e a paisagem urbana, seguindo os passos das tendências dos EUA: as classes médias das grandes cidades vão para as cidades médias e os habitantes das cidades pequenas também. A busca da qualidade de vida, as melhores comunicações, os avanços tecnológicos e a segurança de um ambiente mais controlável estão redesenhando a Espanha. E o fazem em duas velocidades.

Um dia o madrilenho Alberto García contou uma história para sua filha Inês. “Vamos morar em outra cidade”, ele disse. “Mas voltaremos a Madri sempre que quisermos, para ver os avós, porque estaremos muito perto. Eu virei todos dias para trabalhar e mamãe a levará a uma creche com árvores.” Entre essas palavras e a nova rotina de Alberto passou um ano.

Hoje ele pega o carro todas as manhãs para percorrer os mais de 55 quilômetros que separam um condomínio em Guadalajara, onde mora, e Barajas, seu local de trabalho. Ele reconhece que passa mais tempo dirigindo e freqüentemente sofre com os engarrafamentos, mas tem certeza de que ganhou em qualidade de vida. Provavelmente concordam os milhares de pessoas que todos os anos abandonam as aglomerações urbanas para viver em cidades médias ou pequenas, promovendo assim um novo estilo de vida e experimentando novas formas de trabalho graças às novas tecnologias.

Trata-se de uma tendência que, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, está destinada a marcar os próximos fluxos migratórios e o futuro do desenvolvimento urbanístico. É que a partir de 2001 as cidades e os arredores de Guadalajara, Toledo, Valladolid, Segóvia, Tarragona, Girona e algumas zonas da Galícia, da Comunidade Valenciana e do País Basco viram sua população aumentar em até 30%.

Fascínio pelo ambiente rural? Antes de mais nada, melhores condições de vida. Em primeiro lugar, relacionadas ao preço da moradia. Porque se até alguns anos atrás isso podia condicionar a escolha de um bairro ou outro, hoje é um dos fatores determinantes dessa fuga para as cidades pequenas, mais acessíveis. É o caso de José Rodríguez, 31, que acaba de comprar um apartamento de 90 m2 em Guadalajara por pouco mais de 258 mil euros. Em Madri, com o preço médio do solo acima dos 5 mil euros por metro quadrado, poderia ter comprado pouco mais que um quitinete. Concretamente, as províncias de Guadalajara e Toledo são duas das regiões que mais cresceram em 2007, sobretudo às custas de Madri: 4,95% e 3,9%, respectivamente.

E o trabalho? Na grande maioria dos casos não muda. Rodríguez, por exemplo, continuará trabalhando na capital. “Hoje podemos nos deslocar de forma muito mais rápida; o único inconveniente do carro e do ônibus são os engarrafamentos. Mas com o trem de alta velocidade, apesar de ser mais caro, chegamos rapidamente ao centro”, comentam os que escolheram mudar de residência. É verdade. Das duas cidades se pode chegar à estação de Atocha em meia hora. Muito menos do que demoraria no transporte público um madrilenho residente em Tetuán ou San Blas, por exemplo.

“Os modelos de convivência sempre estiveram associados a processos para a realização de si mesmo, favorecer o florescimento do verdadeiro ser humano, a regeneração coletiva ou a reapropriação da vida cotidiana por seus habitantes. E nunca como agora dispusemos de tantos recursos, tecnologias e instrumentos para desenvolver e dinamizar essas utopias locais”, salienta Jesús Oliva, sociólogo e docente da Universidade Pública de Navarra.

Estamos falando de qualidade de vida. A consultora britânica Mercer, que todos os anos publica uma classificação mundial dos melhores lugares para viver, define esse conceito em função de fatores como segurança, serviços sociais, densidade populacional, difusão de transportes públicos, freqüência de engarrafamentos ou poluição. As melhores cidades do mundo, segundo as últimas classificações, seriam as suíças Zurique e Genebra, enquanto Barcelona e Madri se situaram em 2007 em 41º e 42º lugares, atrás de Bruxelas, Berlim, Paris ou Londres.

Embora alguns especialistas considerem essa tendência uma conseqüência natural da expansão das metrópoles espanholas, o desejo de viver melhor parece cada vez mais importante. “No início fui para Guadalajara por razões estritamente profissionais”, confessa Jorge Sánchez, jornalista de 28 anos do bairro madrilenho de Carabanchel. “Mas depois me senti muito à vontade e decidi me assentar. Aqui tudo é mais próximo, parece mais fácil e o ambiente é muito familiar. Além disso, Madri está ao lado. Alguns dizem brincando que a capital é o bairro de lazer de Guadalajara”, acrescenta Sánchez, que acaba de comprar uma casa em Horche, um povoado de 2 mil habitantes situado a cerca de 12 km da cidade.

Outros fatores que costumam condicionar a qualidade de vida? A comodidade para fazer compras, uma maior sensação de segurança para os filhos, poder fazer a maioria dos trâmites de forma mais rápida e também com acesso em pouco tempo aos serviços das grandes cidades. Trata-se de um modelo inspirado na filosofia do “slow city” (literalmente cidade lenta), que nas palavras de Massimo Borri, um dos coordenadores dessa plataforma internacional, “inclui as cidades que cumprem excelentes requisitos em política ambiental, gastronomia, infra-estrutura e novas tecnologias”.

O fator tecnológico é exatamente outra das razões que podem animar a população a encontrar um lugar mais tranqüilo, afastado das aglomerações urbanas. “A possibilidade de utilizar uma conexão de alta velocidade, o celular ou o correio eletrônico nos permite organizar nosso trabalho de forma diferente ou levá-lo para casa”, indica Oliva. Da difusão dessas ferramentas também depende o êxito de algumas empresas que, como método de atração de profissionais motivados, oferecem horários quase à la carte. É o caso de algumas agências de atendimento telefônico, que costumam oferecer alguns cargos para os que desejam trabalhar em casa. Além disso, segundo especialistas, a criação do “teletrabalho” é 50% mais barata que um emprego presencial. “Se você trabalha com gente muito qualificada que quer viver em uma cidade menor, um caso cada vez mais comum, por que devemos prescindir deles?”, pergunta-se María del Pino Velázquez, diretora geral da Unísono, empresa de atendimento telefônico com 3 mil empregados.

Mas o trabalho à distância ainda é pouco praticado na Espanha. Em 2004, segundo uma pesquisa do portal Monster.es, 121.800 pessoas utilizavam essa fórmula: 0,6% dos assalariados, contra 5% em média na União Européia. De todo modo, trata-se de uma tendência em alta, como esse fenômeno que alguns especialistas definem como “urbanização descentralizada” e que parece ter duas dimensões. Uma fuga das áreas metropolitanas mais extensas do país (Madri, Barcelona, Valência, Bilbao, Málaga, Sevilha) para os centros menores e economicamente mais acessíveis, e outra fuga, desta vez das mesmas cidades do interior para os povoados nos seus arredores. Também neste caso o preço da moradia é um fator decisivo.

Um exemplo: com as novas linhas de alta velocidade também disparou o preço médio do solo a que estava acostumada a maioria dos habitantes de cidades como Valladolid, Segóvia, Málaga ou Zaragoza, que em muitos casos preferem se mudar para os povoados ao redor. Concretamente, o caso de Valladolid é especialmente significativo. Ali as últimas revisões do censo apontam um aumento da população dos municípios ao redor da cidade e confirmam uma perda significativa não só da capital, mas também de algumas áreas rurais do interior. Em geral, 137 municípios de Valladolid perdem habitantes; mas o total da província ganha quase 5 mil. Não é um capricho da estatística. Na opinião dos especialistas, também não se trata de uma conseqüência da imigração. Simplesmente, muitos moradores da cidade começaram a buscar uma residência mais barata em algumas zonas dos arredores, e ao mesmo tempo os que vivem nos povoados menores começaram a se mudar para essas mesmas zonas em busca de novas oportunidades de trabalho.

De todo modo, Jesús Oliva, que estudou esse processo em Pamplona e seus arredores, salienta também seu lado mais obscuro: “Essa tendência pode fomentar a difusão de perfis de cidadãos de duas velocidades, um cidadão lento e outro rápido”. O que significa? “Esses hábitos, embora sejam relativamente recentes na maioria dos países europeus, já contam com certa história na chamada ’service class’ [profissionais liberais] americana e britânica. É que se para um médico ou advogado mudar-se para uma cidade menor e deslocar-se todos os dias para seu lugar de trabalho pode ser um alívio, para uma senhora equatoriana com poucos recursos pode ocorrer exatamente o contrário. Porque para uma pessoa que, por exemplo, não pode se permitir pagar um passe de ônibus essa suposta qualidade de vida se transforma em mais um problema cotidiano”.

Os estudos também destacam outras facetas dessa tendência: a volta dos aposentados para cidades do interior e os povoados em que nasceram; a chegada de imigrantes que, depois de residir alguns anos nos centros de Madri, Barcelona ou Valência, optam por buscar um ambiente mais tranqüilo, com menos concorrência e mais oportunidades de trabalho; ou as levas de europeus do norte que decidem se instalar em algumas localidades do litoral.

De todo modo, os que decidem abandonar seu lugar de origem costumam ser na maioria trabalhadores de classe média com cerca de 30 anos e estudos universitários, e que, em muitos casos, acabam de formar uma família. Então, nos encontramos diante de uma das utopias do século 21? E a volta ao campo está idealizada demais? Na realidade, o marketing e as campanhas publicitárias também têm muito a ver com o sucesso desse modelo. “Basta pegar o carro e dirigir por uma estrada para ver os cartazes publicitários. A chamada fuga para o campo desempenha um papel muito importante no mercado imobiliário”, acrescenta Oliva. “Se você pensa realmente que abandonando a cidade terá melhores condições de vida e ficará mais tranqüilo, de alguma maneira acabará acreditando e irá embora.”

Os efeitos das campanhas de marketing podem se refletir, por outro lado, no florescimento de uma nova simbologia comercial. Produtos significativos nesse âmbito são os veículos 4x4. “É o símbolo por excelência desse processo”, que segundo alguns estudos conseguiu êxito na Europa também graças ao sucesso de algumas séries de televisão americanas que transmitem um estilo de vida despreocupado e tranqüilo. Exatamente os EUA estão redescobrindo hoje a vida nos ambientes rurais, embora neste caso sejam sobretudo os trabalhadores de alto poder aquisitivo que decidem comprar uma casa no campo. Mas o fazem pela mesma razão: impelidos pelo desejo de viver mais longe e melhor.

El País
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