Arquivo de 18 de Fevereiro de 2008

Fórum Econômico Mundial: entenda o que a elite mundial faz todos os anos em Davos

Frédéric Lemaître

O Fórum de Davos foi criado por um universitário alemão, que mora e ensina na Suíça, Klaus Schwab. Impressionado pelo livro “O Desafio Americano”, publicado por Jean-Jacques Servan-Schreiber em 1967, este jovem docente, que havia seguido parte dos seus estudos no Massachusetts Institute of Technology (MIT, uma universidade situada perto de Boston, considerada como a mais importante nos campos das ciências e da tecnologia), pretendia responder àquela obra, lançando um “desafio europeu”. Para tanto, ele fundou uma associação, a European Business Leaders (Líderes europeus do mundo dos negócios), e organizou um primeiro simpósio em 1971, financiado entre outros por Raymond Barre (1924-2007, ex-primeiro-ministro francês), então comissário europeu para as questões econômicas.

Mais de 400 pessoas participaram da primeira edição do fórum, que durou duas semanas. Foi preciso esperar até 1974 para ver políticos serem convidados a Davos, uma estação de esportes de inverno suíça que foi escolhida justamente em razão do seu isolamento. Em 1976, as 1.000 principais companhias mundiais foram convidadas a se tornarem membros da associação.

Neste ano, a 38ª edição do fórum será realizada, de 23 a 27 de janeiro.

Objetivos A meta inicial - que era de promover um modelo europeu de gestão de empresas - evoluiu. Em 1987, o fórum foi rebatizado com o nome de World Economic Forum (WEF). Um dos seus objetivos é de oferecer uma tribuna para resolver os conflitos mundiais. Atualmente, o objetivo do Fórum Econômico Mundial é de “integrar os dirigentes dos setores político, econômico e social em uma comunidade que atua na escala planetária com o objetivo de melhorar o mundo, além do bem-estar e da prosperidade da humanidade”.

Organização O Fórum é uma organização não-governamental (ONG). Baseada em Genebra, ela é dirigida por quatro pessoas e conta cerca de 280 assalariados. Recentemente, ela abriu dois novos escritórios, um em Nova York e o outro em Pequim.

A administração do Fórum de Davos é coordenada pela Publicis Live, uma sociedade dirigida conjuntamente pelo grupo de comunicação Publicis e pelo francês Richard Attias.

Encontros A cúpula que é organizada anualmente em Davos, durante a última semana de janeiro, e da qual participam 2.400 pessoas, é a manifestação mais emblemática do WEF, mas ela deixou de ser a única. Em 2007, um outro fórum anual viu a luz do dia, desta vez na China. Este novo evento está dirigido aos “novos campeões da economia mundial”.

Além do mais, o WEF também organiza fóruns regionais na Índia, no Oriente Médio, na América Latina, na Turquia e na Rússia, mas estes não se repetem necessariamente todo ano.

Montagens de redes O WEF vem multiplicando as redes. Por iniciativa da sua organização, homens de negócios árabes se reúnem uma vez por ano. As mulheres líderes contam com a sua própria estrutura. As empresas também se reúnem em margem da cúpula de Davos - e beneficiando da mais completa discrição -, distribuídas por setor de atividade. Existem atualmente 17 setores (automóvel, energia, etc.).

Preocupado em valorizar a transparência, e também interessado em dispor de contatos, o WEF reúne duas vezes por ano uma centena de dirigentes dos meios de comunicação (editorialistas, blogueiros, etc.).

Descoberta de talentos O WEF não quer limitar-se a reunir os “dirigentes do mundo” de hoje. Ele quer também detectar aqueles de amanhã. Para tanto, três “comunidades” foram criadas: as empresas de crescimento - 138 sociedades internacionais cuja atividade vem crescendo em mais de 15% por ano, e cujo faturamento situa-se entre US$ 100 milhões (R$ 180 milhões) e US$ 2 bilhões (R$ 3,6 bilhões) -, as pioneiras tecnológicas (38 pequenas sociedades foram selecionadas em 2008), e cerca de 250 “jovens líderes” detectados a cada ano.

Engajamento social Interessado em se diferenciar da imagem ultraliberal que lhe é atribuída com freqüência, o Fórum criou a Fundação Schwab. Atuando em parceria com veículos da mídia, a Fundação premia num grande número de países o “empreendedor social do ano” e o faz beneficiar dos seus serviços.

Além do mais, o WEF desenvolve múltiplas iniciativas contra a fome no mundo, a pobreza, as desigualdades no acesso aos recursos informáticos e tecnológicos, ou ainda em favor da educação.

Publicações Todo ano, o WEF publica um grande número de estudos. Aos poucos, o seu relatório anual sobre a competitividade dos países vem se impondo como uma das referências na área.

Uma atividade intensa, para resultados nem sempre satisfatórios
Cerca de quarenta anos depois da sua fundação, o World Economic Forum é, à primeira vista, um sucesso incontestável. Mais de 2.400 personalidades disputam espaços em Davos. Klaus Schwab, o seu fundador, é considerado como um visionário. Logo no final dos anos 1970, empreendedores chineses foram convidados a participar do evento. Em 2006, a escolha da Índia como “convidada de honra” revelou-se sensata. Mal aquela edição do Fórum havia sido encerrada, o gigante da siderurgia Mittal lançou a sua oferta pública de compra do europeu Arcelor, uma operação que iria simbolizar o novo equilíbrio do mundo.

Por sua vez, os militantes anti-Davos parecem ter “sossegado o facho”. O Fórum Social Mundial que se reuniu no Brasil a partir de 2001 optou em 2005 por “descentralizar-se”. Em 2008, as suas iniciativas estarão concentradas num único dia, sábado, 26 de janeiro.

Contudo, “o espírito de Davos” ainda não ganhou a partida. Primeiro, porque o objetivo inicial do Fórum era de estabelecer um contrapeso europeu em relação ao poderio econômico absoluto dos Estados Unidos. Atualmente, americanos e asiáticos dominam amplamente as atividades do Fórum. Acima de tudo, os dirigentes do WEF reconhecem que o mundo está se tornando cada vez mais incerto. Com isso, o seu objetivo - “tornar o mundo melhor” - está longe de ser alcançado.

Uma pesquisa de opinião, que foi realizada no final de 2007, por encomenda do Fórum de Davos, junto a 61.000 pessoas em 60 países, pelo Instituto Gallup, confirma o pessimismo ambiente. Cerca de 50% das pessoas interrogadas se disseram convencidas de que o mundo estará menos seguro num futuro próximo do que hoje. Para solucionar os problemas, as pessoas interrogadas dizem confiar em primeiro lugar nos professores (34%), nos líderes religiosos (27%), na polícia e no exército (18%), nos jornalistas (16%), nos magistrados (15%), nos patrões (11%), nos sindicalistas (10%) e, por último, nos responsáveis políticos (8%).

Le Monde
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/

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A aventura do verdadeiro Robinson Crusoé

O famoso náufrago do romance de Daniel Defoe, realmente existiu. Mas ele desembarcou do navio por vontade própria e viveu por mais de quatro anos em uma ilha da América do Sul

Yvan Matagon


Robinson Crusoé desembarca em ilha deserta, litogravura, Karl Offter, século XIX, Berlim, Alemanha © AKG IMAGES/LATINSTOCK

Daniel Defoe adaptou livremente a história que ouviu de Alexander Selkirk e fantasiou muito sobre sua vida na ilha

Na pequena Bristol de 1714, todo domingo se via passar pelas ruas um senhor vestido de preto. Por baixo do casaco, o inglês exibia mangas rendadas. Usava uma peruca volumosa e a espada atada à cinta. Entrava nas tabernas para conversar com os operários e marinheiros. Ninguém sabia seu nome, nem o que fazia nos outros dias da semana. Quando o domingo chegava ao fim, ele desaparecia.
Esse comportamento bem peculiar lhe valeu a alcunha de “Gentleman Sunday”, o Cavalheiro Domingo. Almoçava invariavelmente na pensão Leão Vermelho, freqüentada por gente muito esquisita. Num domingo como outro qualquer, entrou nesse estabelecimento um homem vestido de pele de cabra, gorro e botas de cano alto. O Cavalheiro Domingo e o “selvagem” logo simpatizaram e fizeram amizade. Passaram a ouvir juntos o sermão noturno. Ambos eram crentes fervorosos.
Todos conheciam o tal selvagem. Os jornais de Londres já haviam relatado sua extraordinária aventura e ele mesmo contou-a minuciosamente ao Cavalheiro Domingo naquela noite. Seu nome era Alexander -Selkirk. Nascido em 1676 em Largo, na Escócia, foi o sétimo filho de um próspero – mas turrão – artesão de peles. Não queria ser comerciante como o pai por nada neste mundo. Aos 19 anos, recebeu uma condenação por indecência pública por namorar na igreja e decidiu fugir da cidade. Embarcou então em busca de novos horizontes.
Atraído pelo mar, Selkirk preferiu os corsários à Marinha britânica. Apesar de mais arriscada, a carreira era mais bem remunerada. Ele participou da expedição dos capitães Stradling e Dampier numa campanha que prometia muito lucro. Depois de vários meses, no entanto, eles não fizeram nenhuma pilhagem. William Dampier, capitão do São Jorge, revelou-se melhor etnógrafo que pirata. Célebre explorador e navegante talentoso, escreveu diversas obras, entre as quais Discurso sobre os ventos, acerca das correntes e dos ventos marítimos, que seria utilizada depois pelo capitão James Cook e pelo almirante Horatio Nelson.
Selkirk atribuía à indecisão e à indolência de Dampier a ausência de butim. Já Stradling, o capitão do Cinco Portos, foi acusado pro ele de ser autoritário e até mesmo ditatorial. Quando estavam navegando ao largo das ilhas Juan Fernández, um arquipélago do Pacífico, Selkirk instigou nada menos que um motim a bordo do navio.

MARES DO SUL O arquipélago vulcânico ficava a 650 km da costa do Chile. Sem praias de areia fina nem palmeiras, tinha apenas colinas altas e baías tristes, de terra escura. Descoberto em 1574, possuía flora e fauna sui generis. Lá as samambaias chegavam a vários metros de altura e as lagostas pesavam 10 kg. No século XVIII, era uma escala conhecida por todos os navegantes dos mares do sul. Os ingleses, que não dispunham de um único porto no Pacífico, predominantemente dominado pelos espanhóis, costumavam navegar seus corsários pelas águas do arquipélago.
Naquela época, a Guerra de Sucessão espanhola estava no auge na Europa, e os dois países se dilaceravam em todos os mares do globo. Quando os navios britânicos de Stradling e Dampier chegaram a uma das ilhas, no início de 1704, enviaram batedores para verificar se os inimigos hispânicos não estavam por lá. Em vez de espanhóis, encontram uma surpresa: foram recebidos por dois compatriotas. Tratava-se de tripulantes de um certo capitão Davis, que havia desembarcado lá sete meses antes – não era raro abandonarem naquelas ilhas os marinheiros em conflito com o comando: eles deveriam ficar esperando pacientemente a passagem de outra embarcação que se dispusesse a recebê-los a bordo.
Para sobreviver, os dois marujos encontrados pelos subordinados de Stradling construíram uma cabana e se alimentaram de carne de cabra, animal introduzido na ilha pelos espanhóis. A chegada do Cinco Portos pôs fim ao castigo dos dois e deu início ao de Selkirk.
Acreditando contar com a adesão de uma parte da tripulação ao seu motim, Selkirk decidiu desembarcar voluntariamente. Mas nenhum outro membro o seguiu. Decepcionado, ateve-se à certeza de que o São Jorge, normalmente alguns dias atrás do Cinco Portos, não tardaria a ancorar na ilha e acolhê-lo a bordo. Afinal, Selkirk tinha direito à imunidade penal por ter saído do navio por vontade própria. Ou seja, não seria declarado desertor, crime punido com a morte naqueles tempos.
Abandonado à própria sorte, viu-se sozinho com um fuzil, chumbo, apenas uma libra de pólvora, um machado e um facão. Do baú de bordo ele pôde retirar algumas camisas, mudas de roupa e objetos pessoais, entre os quais a Bíblia de Edimburgo e uma coletânea de salmos. Os dois marujos resgatados puseram à disposição de Selkirk os utensílios de cozinha e sua cabana. Ele não tinha a menor idéia que ia passar mais de quatro anos sozinho na ilha.

SOBREVIVÊNCIA Sua preocupação inicial foi obter alimentos. Decidiu atacar as cabras herdadas dos marujos, já que na ilha não havia caça pequena nem pássaros. No início, tolerou a falta de sal e de pão, convencido de que a chegada do capitão Dampier era iminente. A exploração da ilha, o cuidado com a cabana e o descanso naquele asilo marinho ocuparam seus primeiros dias. Mas, com o transcorrer das semanas, foi obrigado a admitir o óbvio: o São Jorge não despontaria no horizonte. Selkirk ficou arrasado.
Depois de um tempo, cabisbaixo, encontrou uma morada mais conveniente que aquela erguida à beira-mar, perigosa caso os espanhóis ancorassem na baía. Selkirk descobriu um platô elevado, de difícil acesso. Seria um observatório perfeito para vigiar o mar. A cavidade natural, atrás da qual se estendia um vale de vegetação exuberante e um pequeno córrego, foi o seu novo lar. O escocês demarcou dois espaços nessa caverna: um serviria de quarto e o outro, de cozinha. Construiu um galpão com galhos e cobriu o teto de varas de samambaias. Peles de cabra forravam as paredes do refúgio, escondendo a única janela e a porta. O marujo sabia que o inverno na região era chuvoso e frio.
Levou para lá tudo que tinha. Fez uma cama de galhos, mato seco e pele. Construiu também um redil para as cabras e assim reuniu um pequeno rebanho. Os filhotes nascidos em cativeiro eram menos ariscos. A seguir, tratou de procurar alimentação mais variada. As lagostas diversificaram agradavelmente seu cardápio. As focas do sul da ilha também lhe forneciam uma carne pouco saborosa, mas com óleo em abundância. Terminada a reserva de pólvora, o suboficial modificou seu método de caça. Às vezes tinha de passar horas à espreita dos animais, mortos com uma clava que fabricara. Examinando a flora, descobriu uma espécie de acetosa cujo suco servia de vinagre. Encontrou couve-rábano e nabo plantados por seus predecessores e conseguiu extrair pimenta-do-reino e pimenta-branca de plantas trepadeiras. Este condimento revelou-se precioso: quando sua última pitada de pólvora desapareceu, ele passou a fazer fogo girando uma vareta entre as mãos numa placa de pimenteira. Por fim, obteve o sal fervendo a água do mar.
Na ilha, só não havia nativos. Ela ficava muito longe da costa para que os índios mais próximos, os araucanos, se aventurassem em suas embarcações de tronco de árvore. As duas únicas visitas que Selkirk recebeu foram dos marinheiros inimigos. Na primeira vez, ao voltar da caçada, detectou pegadas na praia e ficou louco de alegria. Mas logo ouviu vozes falando em espanhol. Apavorado, só se salvou graças à falta de disposição dos marinheiros para perseguir aquele selvagem branco mal-cuidado. Passou a noite inteira trepado numa árvore, aguardando a partida dos inimigos. O segundo desembarque não o surpreendeu: ele viu os espanhóis atracarem e se escondeu na floresta.

APEGO À RELIGIÃO A vida se esvaía monotonamente. Com exceção das cabras, seus únicos companheiros eram os ratos e os gatos, fugidos de algum navio. Não lhe restou outro refúgio senão a Bíblia. Após um período de depressão, ele entregou-se ao misticismo. Observando escrupulosamente os domingos – mais precisamente, os dias que supunha domingo –, celebrava a missa para si próprio. A crença em algo superior revelada pela solidão nunca mais desapareceria.
Já fazia quatro anos e quatro meses que Selkirk vivia na ilha. O capitão Dampier, do São Jorge, não havia aparecido. Ao menos não até aquele momento. Mas foi justamente este homem, tão aguardado, que acabou salvando nosso aventureiro. Depois do São Jorge, Dampier voltara à Inglaterra arruinado por suas aventuras. Sua sede por novos ares levou-o a embarcar novamente em 1708, dessa vez como subordinado do capitão Woodes Rogers, no Duke. Dampier conduziu o navio ao arquipélago Juan Fernández na noite de 31 de janeiro de 1709. Os marinheiros ingleses ficaram alarmados: na escuridão, uma fogueira brilhava na praia e eles não tinham visto nenhum barco espanhol. No dia seguinte, Thomas Dover, médico e imediato do Duke foi encarregado da exploração. Acompanhado de homens armados, ele desembarcou e descobriu um Selkirk saltitante na praia.
Ele contou sua história a Dampier, que o informou do naufrágio do Cinco Portos pelas mãos dos espanhóis. O resto da tripulação estava presa em algum lugar do litoral de Lima e ninguém o procurou porque ele era dado como morto. Stradling, o capitão que não o perdoou, conseguira fugir numa embarcação francesa.
Nas duas semanas que os ingleses passaram na ilha, Selkirk mostrou-lhes seu pequeno mundo. Matou cabras e renovou suas nassas, os cestos de vime feitos para pegar peixes. Assim, os marujos se recuperaram rapidamente dos ataques de escorbuto.
O barbeiro devolveu-lhe a cara de civilizado. Na primeira noite a bordo, ele não conseguiu dormir: perdera o hábito do balanço do navio. Tampouco suportava usar sapatos nos pés. Nomeado segundo suboficial, Alexander Selkirk finalmente deixou a ilha no dia 14 de fevereiro de 1709. Desembarcou na Inglaterra em 1711, com a bolsa recheada de 800 libras. Podia reiniciar a vida.

RETORNO INCÔMODO Voltou ao lar paterno, na Escócia, mas não conseguiu se readaptar. Arrumou uma pequena gruta atrás da casa e passou a levar uma vida reclusa, tendo como única companhia os gatos que criava. Sem se misturar com os habitantes da aldeia, ele passava os dias no mar, pescando, ou a vagar pelo mato. Interrompeu a solidão voluntária no dia em que conheceu Sophia Bruce, com quem se casou. O casal foi morar em Londres, mas não tardou para que se espalhassem boatos de violência doméstica. Lá, em 1713, Selkirk conheceu o ensaísta Richard Steele, que narrou sua aventura no The Englishman. Selkirk teve um breve momento de celebridade. Mesmo porque o capitão Rogers também o havia mencionado em Uma navegação ao redor do mundo, publicado anteriormente.
A mesma história foi contada por Selkirk ao Cavalheiro Domingo na pensão Leão Vermelho de Bristol, pouco antes de retornar ao mar. Seria exatamente por suas mãos que ele ganhara notoriedade.
O cavalheiro misterioso também era uma figura à parte. Nascido 50 anos antes, filho de um chapeleiro de uma família de puritanos integristas – os dissenters, partidários de Oliver Cromwell –, foi educado para ser pastor. Mas, com o retorno da monarquia e o triunfo do anglicanismo, viu-se perseguido, malquisto na pátria britânica. Tendo retomado o negócio do pai e, posteriormente, montado uma perfumaria, percorreu toda a Inglaterra e viajou à Escócia, à Alemanha, à França, à Itália e à Espanha. Seus fracassos mercantis geraram tantas dívidas que nunca pôde pagá-las. Por isso, escondeu-se em Bristol e só saía aos domingos: os credores não podiam perseguir os devedores no Dia do Senhor.
Dez anos e muitas peripécias depois, inclusive uma passagem pela prisão, ele se inspirou livremente na aventura de Selkirk para produzir uma obra-prima da literatura mundial. Seu personagem já havia partido novamente para o mar e, algum tempo depois, faleceu, aos 44 anos. Antes, ele deserdou a infeliz Sophia Bruce, de quem não se separou oficialmente, em benefício de sua segunda esposa, Frances Candis. Ao relato do marinheiro, o Cavalheiro Domingo acrescentou a história do índio Will, ao qual deu o nome de Sexta-feira. Ele teria sido esquecido na ilha mais de 20 anos antes.
O escritor transformou o desembarcado num náufrago. Adicionou antropófagos e situou a ilha no Atlântico, nas proximidades do litoral do Brasil, e não no Pacífico original. Por fim, rebatizou o escocês. Deu-lhe um primeiro nome muito comum na região natal de Selkirk e colocou um sobrenome similar ao de um colega de escola que se tornara ministro. Para a posteridade, Alexander Selkirk passou a ser Robinson Crusoé. O Cavalheiro Domingo se chamava Daniel Defoe.

CRONOLOGIA
1574
O espanhol Juan Fernández (1530-c. 1599) descobre o arquipélago que levou seu nome
1704 - 1709
Permanência de Alexander Selkirk na ilha Más a Tierra.
1719
Daniel Defoe publica Robinson Crusoé
Séculos XVIII e XIX
O arquipélago serve de prisão.
1877
O Chile inicia a colonização do arquipélago.

UMA ILHA DESERTA MUITO FREQÜENTADA


A batalha da baía de Vigo, óleo sobre tela, Ludolf Bakhuizen, 1702

A disputa pela sucessão do trono da Espanha opôs a Inglaterra ao país ibérico. Na ilha deserta, Selkirk quase foi pego pelos inimigos, que desembarcaram de surpresa

O primeiro Robinson do arquipélago de Juan Fernández foi um índio misquito, Will, esquecido por seu capitão em janeiro de 1681. Ele viveu lá até abril de 1684. O náufrago seguinte, cujo nome não se sabe, o sucedeu durante cinco anos.
Quando Selkirk desembarcou em 1704, dois marinheiros do capitão Davis moravam lá havia sete meses. Em 1741, o almirante Anson permaneceu na ilha por três meses. Em seu relato, ele apresenta o local como um verdadeiro paraíso perdido. No século XVIII, o arquipélago serviu de prisão de criminosos perigosos, alojados em cavernas. Cem anos depois, durante a guerra de independência do Chile, foi utilizado como cadeia de presos políticos.
A colonização iniciou-se em 1877, dirigida pelo barão suíço Alfred de Rodt, que levou seu papel tão a sério que um grande número dos 500 habitantes eram seus descendentes. A ilha ainda conheceria outro “Robinson”: Hugo Weber, marinheiro do Dresden, navio alemão que, em 1915, perseguido por quatro couraçados ingleses, preferiu ser posto a pique na baía a se entregar. Entre os que se salvaram estava Wilhelm Canaris, futuro chefe da contra-espionagem nazista. Quando os marinheiros retornaram à Europa, Weber optou por ficar na ilha, instalando-se nos montes. Recluso na solidão, viveu por 30 anos intrigando os habitantes, que o consideravam espião. Com esse pretexto, as autoridades chilenas o expulsaram em 1945.
Atualmente, pela excepcional riqueza de sua fauna e flora, o arquipélago de Juan Fernández foi declarado parque natural pelo Estado chileno e reserva mundial da biosfera pela Unesco.

PARA SABER MAIS
Visite a página oficial da ilha Robinson Crusoé no arquipélago Juan Fernández: http://www.comunajuanfernandez.cl

Yvan Matagon é diplomado em história medieval. Trabalhou no arquivo do castelo de Dourdan e atualmente é bibliotecário da cidade de Troyes, na França.

História Viva

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Putin tenta restaurar poderio militar

Potência da Guerra Fria, país investe para reverter processo de decadência do Exército iniciado com o fim da URSS

Gabriella Dorlhiac

Em setembro, caças da Força Aérea britânica interceptaram oito aviões militares russos que voavam no do espaço aéreo da Otan. Em agosto, jatos americanos foram mobilizados quando dois bombardeiros da Rússia se aproximaram da base naval dos EUA em Guam. No sábado, dois bombardeiros russos aproximaram-se de um porta-aviões americano no Oceano Pacífico e tiveram de ser escoltados para longe por caças dos EUA.
Episódios como esses se tornaram cada vez mais comuns nos últimos meses e fazem parte da estratégia russa para recuperar sua influência global. As demonstrações de força, no entanto, ocultam um grande desafio para a Rússia: a potência militar da Guerra Fria hoje luta para reerguer-se do colapso de suas Forças Armadas nos anos 80 e 90.
Com os cofres cheios novamente - graças em grande parte à alta dos preços do petróleo -, o presidente russo, Vladimir Putin, pôde em seus dois mandatos voltar a investir na reforma militar do país.
E esses investimentos não foram pequenos. Desde 2000, o orçamento militar subiu de US$ 5,9 bilhões para US$ 35,2 bilhões. Em junho de 2006, o líder russo anunciou ainda um projeto de US$ 185 bilhões para o rearmamento da Rússia até 2015. Patrulhas aéreas e navais, suspensas havia anos por falta de recursos (para manutenção dos equipamentos e até mesmo para abastecer caças) foram retomadas no ano passado.
O grande problema da Rússia, no entanto, é que os investimentos ainda não conseguiram reverter as conseqüências de anos de profundo declínio de suas Forças Armadas. “Em 1986, quando Mikhail Gorbachev chegou ao poder, ele encontrou um Exército improdutivo, que começava a enfrentar uma grande decadência. Esse colapso acelerou-se no governo de Boris Yeltsin. Os soldados não tinham sequer comida, eram obrigados a ter mais de um emprego”, afirmou ao Estado, por telefone, o especialista em Rússia da Universidade do Texas Zoltan Barany. Segundo Barany, autor do livro Democratic Breakdown and the Decline of the Russian Military (na tradução literal, Colapso Democrático e o Declínio Militar Russo), ao assumir a presidência, Yeltsin exigiu das Forças Armadas a redução do número de soldados (na época, cerca de 3 milhões) e a retirada das tropas dos ex-países da URSS. Ambas as exigências foram cumpridas. Em troca, o líder russo permitiu que o comando militar fizesse o que bem entendesse, fechando os olhos para ações de corrupção sem precedentes. “Há um episódio, do fim os anos 90, no qual 80 navios foram vendidos clandestinamente para a Índia e a Coréia do Norte. Parte do equipamento militar russo simplesmente desapareceu”, disse Barany.
O símbolo da decadência do poderio militar russo foi o naufrágio do submarino nuclear Kursk - que afundou em agosto de 2000 após uma explosão, matando seus 118 tripulantes.
A maior tragédia para as Forças Armadas russas não foi apenas a perda ou decadência de seus equipamentos, mas sim a fuga de seu capital humano qualificado. “Em 1991, após o fim da União Soviética, a maioria dos oficiais deixou o Exército o mais rápido possível. Os que ficaram não tinham qualificação para qualquer outro tipo de emprego”, afirmou o especialista, lembrando que, na década de 90, coronéis do Exército ganhavam menos do que um motorista de ônibus.
Os péssimos soldos, os violentos abusos contra recrutas, os baixos índices de natalidade e o aumento das oportunidades econômicas no país transformaram a carreira militar de ótima opção profissional em último recurso. “Os russos pagam subornos para fugir do serviço obrigatório. No primeiro anos, os recrutas são brutalizados pelos soldados mais graduados”, afirmou o especialista em Rússia da Universidade Estadual de San Diego, Mikhail Alexseev. A evasão do serviço militar tornou-se uma indústria no país, onde pais desesperados subornam quem for preciso para livrar os filhos de abusos quase certos. “Apenas de 9% a 10% dos jovens russos servem no Exército. Em 2005, dos jovens que se apresentaram, 70% receberam dispensa médica, 45% nunca tiveram um emprego, 25% não terminaram a escola e 5% tinham ficha criminal”, disse Barany.
A baixa qualidade de seus soldados dificulta ainda mais o objetivo russo de acabar com o serviço obrigatório e ter um Exército profissional. As primeiras iniciativas para testar a viabilidade dos contratos militares não deram certo. Inúmeros soldados não renovaram seu contrato, em grande parte pelos baixos soldos e poucos benefícios. Alexseev aponta ainda outro grande problema na questão do capital humano. “As Forças Armadas russas não têm pessoas com boa formação para treinar os soldados. O problema não é ter bons tenentes, mas sim bons sargentos, que são os que treinam os soldados.”
Tanto Alexseev quanto Barany concordam que, para que a reforma militar russa dê certo, é preciso antes que Moscou analise o tipo de ameaça que pode sofrer e com isso decida como será seu novo Exército. “Os militares russos ainda acreditam que o país terá de lutar a 3ª Guerra”, explicou o professor da Universidade do Texas. A história recente, no entanto, deixou claro que as Forças Armadas russas devem capacitar-se para outro tipo de conflito: a guerra de guerrilha. A dificuldade dos militares russos de derrotar os rebeldes chechenos no conflito que começou em 1999 demonstrou a fragilidade do Exército. “O ideal seria a Rússia ter cerca de 800 mil soldados muito bem treinados para combater guerrilhas”, disse Alexseev.
As tentativas de reforma, no entanto, parecem esbarrar na vontade política do governo. O próprio Putin, que chegou ao poder prometendo reformar o Exército, não obteve grandes progressos. “A principal base de apoio de Putin são os militares. E eles são completamente contra a reforma. Não querem perder influência, poder e cargos.”
A pouco menos de um mês de deixar a presidência, Putin usa a força militar como massa de manobra para sua política interna. “Um dos principais motivos da alta popularidade de Putin é que ele permitiu que a Rússia voltasse a ser respeitada como uma grande potência. Portanto, é importante manter a percepção de orgulho e poder”, afirmou Alexseev.

Estado de S. Paulo

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Europa teme mais terrorismo nativo

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A cidadezinha alemã de Neu-Ulm só era lembrada pela sua vizinhança de Ulm, onde nasceu Einstein. Mas de repente Neu-Ulm ganhou espaços nos meios de comunicação da Europa por contar com uma mesquita considerada um ninho de militantes muçulmanos radicais. É de lá um dos dois alemães convertidos e recrutados pela Jihad (guerra santa) Islâmica. Tem registro de nascimento no Uzbequistão e irmandade com a Al Qaeda de Bin Laden, com o Taleban e campos de treinamento e de exportação de militantes no Paquistão. A Alemanha escapou "das mais graves tentativas de atentados já preparados em território alemão", segundo o procurador-geral.
Cabelos louros
As atenções se voltaram sobretudo para a presença dominante entre os terroristas de jovens (22 e 26 anos) de origem alemã pura, cabelos louros, nomes e sobrenomes como atestados de nacionalidade. Como se fosse uma extensão desse fenômeno, um nome inconfundivelmente espanhol, o de José Emilio Suárez, figura entre os muçulmanos condenados na Espanha. Teve papel importante nos atentados. Ajudou a roubar explosivos, sem os quais nada feito.
Linha invisível
Citando especialmente Londres, Madri e Neu-Ulm como focos possivelmente contaminados por germes que se disseminarão, podendo alcançar Berlim, Oxford e Roterdã ou qualquer parte sobretudo da Europa, um conhecido jornalista europeu, Timothy Garton Ash, falou de uma "linha de frente invisível".
Garton Ash previu que a luta contra o terrorismo será decidida na Europa e não nos Estados Unidos. Tampouco o Iraque seria decisivo, em campos islâmicos. O mais provável é um binômio de Europa (18 milhões de muçulmanos) e Paquistão, onde a matança já começou e se têm evidências fortes de que os serviços de inteligência, voltados para a Cachemira, colaboram com o islamismo radical.
Ampla porção desses confrontos, e a mais importante a longo prazo, escreveu Ash, é a batalha por mentes e corações dos jovens muçulmanos europeus, em geral homens. Podem tornar-se bons cidadãos ou manipuladores de bombas. Há uma área cinzenta habitada por muçulmanos europeus que na Alemanha são fichados como "simpatizantes". São os que se recusam, por exemplo, a condenar os homens-bomba.
Núcleo duro
Um especialista calculou que os núcleos duros dos muçulmanos ingleses representam 1% do total. Já os simpatizantes, que podem ir para um lado ou outro, seriam 10%. É ai que deve ser travada a batalha por mentes e corações.
Também na agenda policial e de inteligência jovens europeus. Não esquecer que há 30 anos houve o "outono alemão" de terrorismo e a Itália enfrentou a violência das Brigadas Vermelhas. Agora ao jovem alemão de Neu-Ulm se junta o espanhol dos atentados de Madri.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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Dialética do predador

Carnívoros influenciam a composição vegetal de um ecossistema e o processamento da energia solar na Terra

Jack Halverson/Divulgação

Uma aranha Phidippus rimator repousa sobre uma folha; espécie foi usada em experimento para testar teoria ecológica

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Imagine um planeta com apenas duas espécies de animais e várias de vegetais, no qual leões comem zebras que comem gramas e ervas. Se não fosse pelos leões comendo as zebras, elas acabariam com os vegetais e transformariam o hipotético planeta em um deserto.
Esse importante papel dos carnívoros na cadeia alimentar foi sugerido faz já meio século por biólogos especialistas em ecologia. "Eles argumentaram que o herbivorismo deveria reduzir o mundo verde a um lugar estéril se não fosse pelo carnivorismo", lembra o ecólogo Shahid Naeem, da Universidade Columbia, de Nova York, se referindo aos autores da tese - N. G. Hairston, F.E. Smith e L.B. Slobodkin- divulgada em um clássico estudo em 1960.
O planeta é verde porque plantas e algas usam a energia do Sol para transformar matéria inorgânica em orgânica -a vida baseada no elemento químico carbono. Essa é a produtividade dita "primária".
"Por que a Terra é verde, ou o que governa a produtividade primária, é uma das questões mais básicas, mas surpreendentemente complexas, na pesquisa ecológica", escreveu Naeem em artigo na última edição da revista "Science" no qual comenta um estudo que aumentou ainda mais a complexidade do tema. O trabalho mostrou agora um detalhe importante: o modo como o predador age também afeta o quão verde pode ser um ambiente.
Correr ou ficar
Voltando ao hipotético planeta, seria como se o tipo de vegetação dominante estivesse ligado ao modo como os leões fazem a caçada -vagando em busca de presas, ou ficando parados para fazer emboscadas.
Na falta de um planeta tomado só por savana africana, a pesquisa de Oswald Schmitz, da Universidade Yale, foi feita em um campo gramado perto do campus, em Connecticut. E no lugar de leões e zebras, aranhas e gafanhotos.
"As espécies têm mais chance de ter efeitos fortes em ecossistemas quando elas alteram fatores que regulam funções-chave do ecossistema, como a produção, a decomposição, e a mineralização do nitrogênio", diz Schmitz.
O efeito é direto quando um herbívoro escolhe qual planta vai comer; é indireto se o predador alterar o modo como os herbívoros afetam a composição da vegetação.
Do geral ao particular
O experimento de Schmitz durou três anos. Ele fechou pequenos lotes circulares de dois metros quadrados e colocou nesses cercados a presa -gafanhotos herbívoros da espécie Melanopuls femurrubrum- e o predador, nas densidades médias encontradas na natureza (duas aranhas e cinco gafanhotos por metro quadrado).
O detalhe importante foi usar duas espécies diferentes de aranhas que capturam a presa de maneira diferente. A aranha Pisaurina mira é do tipo senta-e-espera, que faz uma teia em lugares altos e embosca a presa. Já a da espécie Phidippus rimator perambula ativamente em busca da comida por todo o ambiente.
"Predadores de emboscada do tipo senta-e-espera causam reações de comportamento na sua presa porque ela reage fortemente a dicas persistentes da presença do predador", diz Schmitz. Em outras palavras, se você é um gafanhoto que quase trombou numa teia na parte mais alta da gaiola, convém ficar esperto e passar a comer mais perto do chão.
Já um predador sempre em movimento não dá nenhuma dica de como ser evitado.
Os resultados em termos de ambiente foram inesperados. "As aranhas ativamente caçadoras reduziram a diversidade de espécies de plantas mas aumentaram a produção primária acima do solo e o ritmo de mineralização do nitrogênio, enquanto as aranhas de emboscada senta-e-espera tiveram o efeito oposto", escreveu Schmitz na "Science".
A presença de um predador ativo fez o lote circular apresentar uma redução de 14% na diversidade de plantas, 33% de aumento na mineralização de nitrogênio e -"mais importante", como lembra o comentário de Naeem- 168% de aumento na produtividade primária.
Toma-lá-dá-cá
O mecanismo por trás dessas diferenças de composição de plantas é uma escolha tipo toma-lá-dá-cá que os gafanhotos devem fazer entre se alimentar de gramas e procurar refúgio ou se alimentar da erva que é a planta dominante no habitat.
Claro, os sistemas naturais costumam ser mais complexos do que os gramados de Connecticut, contendo mais espécies de presas e predadores. Mas a pesquisa de Schmitz mostra como a perda de predadores nos níveis mais altos da cadeia pode afetar o resto das espécies, seja na sua abundância, seja na sua diversidade.
Como lembra Naeem, a produção primária é o "sistema de injeção de combustível" do planeta Terra. Quase um quarto dessa "fixação de carbono" é apropriada pelos seres humanos na forma de comida, biocombustíveis e material de construção. É isso que permite existirem 6,7 bilhões de pessoas vivendo em uma atmosfera de 21% de oxigênio na qual outros gases regulam um efeito-estufa que permite surgir uma temperatura adequada a toda essa biodiversidade.

Folha de S. Paulo

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Estranho, porém verdade: quanto menos dormimos, mais sonhamos

Perder uma noite de sono turbina os sonhos da noite seguinte

Christie Nicholson

Três anos atrás, Eva Salem se meteu numa encrenca com um crocodilo. Sua mão ficou presa nas mandíbulas mas, mesmo em pânico, ela conseguiu acertar o animal e se livrar dele. Então ela acordou.

“Acho que é isso que acontece quando você é uma heroína. Meus sonhos eram assim… vívidos, malucos e movimentados” ela conta. Salem era mãe de primeira viagem e vinha amamentando sua filha por cinco meses antes do sonho do ataque do crocodilo, dormindo apenas quatro horas por noite. Quando ela dormia uma noite inteira, os sonhos eram tão animados que Salem tinha a sensação de não ter dormido nada!

Sonhos são absurdamente persistentes. Perca algumas horas de sono e o seu cérebro irá computar que você está devendo sonhos – e vai querer acertar as contas assim que você fechar suas pálpebras.

“Quando alguém não dorme o suficiente, o sono se torna mais intenso, o que significa uma grande atividade cerebral durante o sono; os sonhos se tornam mais numerosos e mais vívidos” diz o neurologista Mark Mahowald, da University of Minnesota, e diretor do Minnesota Regional Sleep Disorders Center, em Minneapolis.

Este fenômeno é chamado de rebote do sono REM. O REM ou “rapid eye moviment” (movimento rápido dos olhos) se refere aos movimentos rápidos e bruscos dos olhos enquanto estamos dormindo. É o estado em que sonhamos mais intensamente e nossa atividade cerebral é misteriosamente semelhante àquela quando estamos despertos. Ao mesmo tempo, nossa musculatura fica inativa e nós nos encontramos paralisados. O dedão pode até sacudir, mas basicamente não podemos nos mover, uma vez que o cérebro protege nosso corpo para que ninguém tente colocar na prática aquilo com que está sonhando.

O sono está dividido em REM e quatro estágios não-REM, cada um com uma freqüência distinta de atividade cerebral. O primeiro estágio não-REM é o período inicial em que o indivíduo não está nem dormindo, nem acordado e que às vezes é interrompido por uma sensação de estar caindo em um buraco. No segundo estágio, o cérebro diminui o ritmo e mantém apenas algumas atividades. Nos estágios três e quatro o cérebro praticamente desliga e entra em um período de dormência durante o qual as freqüências cardíaca e respiratória diminuem dramaticamente.

Só depois de 70 minutos de sono não-REM é que entramos no primeiro período de REM, que dura apenas cinco minutos. O ciclo não-REM é de mais ou menos 90 minutos. O padrão se repete em média cinco vezes ao longo da noite. Mas conforme a noite vai passando, os estágios REM aumentam e os não-REM diminuem, resultando em um período de 40 minutos de sonho, pouco antes da hora de despertar.

O único modo dos cientistas estudarem a privação do REM é por meio de torturantes privações de sono. “Acompanhamos o eletroencefalograma e, quando observamos que o paciente dormiu, o despertamos”, explica o psicólogo Tore Nielsen diretor do Dream and Nightmare Lab do hospital Sacré-Coeur, em Montreal. “Assim que você começa a privá-los do o REM, a pressão para voltar a essa fase aumenta”. De vez em quando, Nielsen tem que acordar o indivíduo estudado 40 vezes em apenas uma noite, pois a fase REM se inicia instantaneamente assim que ele adormece.

É claro que também existe o rebote não-REM, mas o cérebro dá prioridade às ondas lentas de sono e então ao REM, o que indica que os estados são independentes entre si.

Em 2005, em um estudo publicado na “Sleep”, Nielsen demonstrou que perder 30 minutos de REM em uma noite pode levar a um aumento de 35% de REM na noite seguinte. Os indivíduos saltaram de um sono REM de 74 minutos para um rebote de sono REM de 100 minutos.

Nielsen também descobriu que a intensidade dos sonhos aumenta com a privação do estágio REM. Os indivíduos estudados que tiveram apenas 25 minutos de sono REM classificaram seus sonhos entre 8 e 9 em uma escala de 1 a 9 – 1 era “sem graça” e 9, “muito intenso”.

É claro que a privação da fase REM e seu subseqüente rebote são muito comuns também fora do laboratório. O álcool e a nicotina têm a capacidade de suprimir a fase REM. Remédios reguladores da pressão sangüínea, assim como antidepressivos, também são conhecidos supressores de REM (sem sonhos, a depressão curiosamente desaparece). Quando os pacientes suspendem os medicamentos, são recompensados com um rebote assustador.

Porém, a persistência do sono REM nos leva a uma nova questão: pra que insistir tanto? Quando ratos ficam sem a fase REM por quatro semanas, acabam morrendo (a causa da morte permanece desconhecida). Mesmo passando um período equivalente a 27 anos sonhando, durante toda a nossa vida, os cientistas ainda não chegaram a um consenso para as razões de sua importância.

O psiquiatra Jerry Siegel, chefe do Centro de Pesquisas do Sono da University of California em Los Angeles, provou recentemente que alguns mamíferos como golfinhos e baleias não possuem REM. “Morrer por falta de REM é ficção”, diz Siegel. “Isso nunca foi observado em outras espécies, apenas em ratos”.

Algumas teorias sugerem que o REM ajuda a regular a temperatura corporal e os níveis dos neurotransmissores. Existe também evidência de que sonhar ajuda a consolidar as memórias. Os bebês e os fetos passam 75% do tempo que dormem em estado REM. Por outro lado, experiências mostram que ornitorrincos são os animais com a maior fase REM. Os pesquisadores tentam descobrir o porquê já que, de acordo Mahowald, “Ornitorrincos são estúpidos Que tipo de memória eles precisam consolidar?”

Mas, supondo que os ratos passam a fase REM sonhando com labirintos iguais aos do laboratório, alguns pesquisadores acreditam que deve existir alguma função ou informação significativa nos sonhos.

John Antrobus, professor aposentado de psicologia e pesquisador do sono do City College of New York, afirma que o conteúdo do sonho está vinculado a nossas ansiedades. No entanto, ele nunca comprovou a extrema vivacidade no rebote do sono REM que outros assumem existir com base no alto nível de atividade cerebral, que provavelmente possa significar sonhos cheios de ação.

“O cérebro é um órgão interpretativo, e quando as regiões estão menos conectadas, como durante o sono, temos sonhos bizarros” ele explica. Mas qual é o propósito? “Para isso temos que nos perguntar qual é o propósito do pensamento. Não podemos responder uma pergunta sem responder a outra”.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Como se não fosse ficção

Abdellatif Kechiche dá ares de documentário a La Graine et le Moulet, seu novo filme — talvez para fundir prosa e poesia e criar obra sutil em que afirma, sem descambar para o panfleto, a igualdade entre franceses e marroquinos, cristãos e muçulmanos

Bruno Carmelo

O novo filme do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche acompanha um dia de uma família marroquina imigrada na França. Vinte ou trinta personagens cozinham, conversam, vão ao trabalho, enfim, consagram-se às suas rotinas diárias.

A câmera acompanha as pequenas atividades e os gestos. Não há ações espetaculares: essa não é a história de um personagem que fez algo incrível ou que passou por momentos únicos. O importante em La Graine et le Mulet é que as ações parecem comuns, banais, mas a câmera dedica a essas pessoas toda a sua atenção para dar a essas imagens um caráter especial.

A maneira de filmar é econômica: a iluminação é sempre natural (seja a luz do sol, sejam as lâmpadas das casas); o som inclui ruídos normais e barulhos de pessoas que falam ao mesmo tempo; os diálogos soam como improvisos, a maioria do elenco é composta de atores não-profissionais. A câmera desliza calmamente de rosto em rosto, e se inclui nessa grande roda de pessoas como se fosse um deles, aproximando a imagem (e o público, que se confunde nesse olhar subjetivo) desse universo periférico da sociedade francesa.

Logo, o diretor consegue atingir um resultado tanto ativo, intromissivo (que opta pelo flagrante, pelo inesperado) quanto passivo e contemplador, já que essa presença fisicamente próxima não implica qualquer tipo de intervenção: os personagens concluem suas ações no tempo necessário, e as elipses (passagens de tempo) são reduzidas ao máximo. Em La Graine et le Mulet, uma mulher que limpa o chão de sua casa ganha atenção e implicação da imagem, que a enquadra e dedica valiosos minutos à sua atividade.

Mise-en-scène e roteiro são claros. Mas a câmera faz o máximo esforço para não ser percebida
Tentando se aproximar do real, esta obra fictícia acaba por ganhar contornos documentais: embora sejam claras a mise-en-scène e a execução de um roteiro, a câmera de Kechiche faz o máximo esforço justamente para não ser percebida. Qualquer elemento de linguagem cinematográfica que poderia lembrar o espectador de se encontrar diante de uma ficção é eliminado.

Essa opção de fusão — esse misto de prosa e poesia — dedica-se a criar uma obra engajada, mas sem o aspecto de denúncia que normalmente acompanha os filmes sobre as classes desfavorecidas. La Graine et le Mulet é um trabalho de conscientização, não só da existência desses grupos sociais como também de sua cultura, da fusão das religiões cristã e muçulmana, a fusão de línguas e a noção de identidade de uma pessoa cujas raízes se encontram a décadas e quilômetros de distância.

O elemento símbolo dessas fusões é a comida, mais especificamente o cuscuz. É ele o grão (“graine”) mencionado no título, e junto do peixe (o “mulet”), compõe o prato que mobiliza a grande família a se encontrar todos os domingos, para almoçarem juntos. É também o cuscuz que faz avançar a história, já que ele constitui o motivo pelo qual se decide abrir um restaurante no qual o prato seria a atração principal.

Por fim, é o grão marroquino que vai aproximar e separar os membros desta família composta de franceses e marroquinos, representando as relações instáveis entre os dois países. Kechiche constrói um filme simples e louvável pelo respeito (sem julgamentos) que dedica a esses personagens, por seu engajamento silencioso e pela instigante pulverização dos limites entre ficção e documentário.

La Graine Et Le Mulet (2007)
Direção de Abdellatif Kechiche.
Com Habib Boufares, Hafsia Herzi, Faridah Benkhetache
Distribuído por Pathé.
Duração de 2h31.

Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Secessão anima outros movimentos

Do Cáucaso ao Tibete, grupos étnicos buscam seguir passos dos albaneses de Kosovo na direção da autonomia

Cristiano Dias

A divisão de um Estado multinacional como a Sérvia poderia abrir um precedente jurídico e causar um efeito em cascata que seria embaraçoso, principalmente para países europeus que lutam para manter a soberania em detrimento de minorias étnicas.
O medo de estabelecer uma jurisprudência é a maior razão de a União Européia estar dividida sobre o assunto. Espanha, Eslováquia, Hungria, Grécia, Bulgária, Chipre e Romênia - que convivem com minorias étnicas - são contra a independência de Kosovo. Os mais otimistas dizem que esses países reconheceriam a nova nação em um segundo momento, mas teriam dificuldade para justificar isso no âmbito interno.
Existe também oposição fora do bloco. A Turquia, apesar das boas relações com os albaneses, evita o tema porque tem de lidar com uma minoria curda em seu território. A posição da China é a mesma. Um precedente como esse abriria espaço para separatismo no Tibete e em Taiwan. Já os russos não querem Kosovo independente por uma série de razões. Além da afinidade histórica e religiosa com a Sérvia, a Rússia não tolera o nacionalismo checheno e também teme o ressurgimento de movimentos separatistas.
O nascimento de Kosovo abriria um precedente para os movimentos separatistas do Cáucaso. Como já era esperado, as regiões da Abkházia e da Ossétia do Sul, de maioria russa, na Geórgia, anunciaram ontem que pedirão “em breve” à Rússia e à ONU que reconheçam sua independência. “Kosovo não é um caso único”, disse Serguei Bagapsh, presidente da Abkházia. Além das duas regiões, Nagorno-Karabach, de maioria armênia, também deve tentar separar-se do Azerbaijão. O Transdniester, de maioria russa, teria um bom argumento para reivindicar sua independência da Moldávia.
Para muitos analistas, a independência de Kosovo abre uma caixa de Pandora, que desestabilizaria também os Bálcãs. A Sérvia seria jogada na esfera de influência da Rússia e os nacionalistas, que quase venceram as eleições no início de fevereiro, ganhariam força. Duas outras conseqüências mais graves podem afetar a estabilidade dos Bálcãs. A primeira ameaça é a de separação do norte de Kosovo, onde vivem os sérvios. Na sexta-feira, os sérvios de Mitrovica, segunda maior cidade kosovar, anunciaram a criação de um Parlamento.
Outra encrenca será impedir que o impasse atinja a Bósnia. O Acordo de Dayton, que pôs fim à guerra da Bósnia, em 1995, é um compromisso de convivência entre os três grandes grupos do país: croatas, muçulmanos e sérvios. A Bósnia foi dividida entre um Federação Croato-Muçulmana e a República Srpska, composta de sérvios, que está disposta a separar-se da Bósnia. Na Macedônia, o cenário também é sombrio. Os albaneses formam um quarto da população, que ocupa o nordeste do país. O Exército Nacional Albanês, uma espécie de facção do Exército de Libertação do Kosovo, conta com 12 mil homens e está em plena operação. O temor é o de que o mesmo roteiro seguido para justificar a independência de Kosovo se repita também na Macedônia.
O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, é que a declaração de independência de Kosovo seja reconhecida por parte da UE e pelos EUA, mas não pela Sérvia, Rússia e vários outros países. Kosovo pode jamais conseguir um lugar na ONU, já que Rússia e China têm o poder de vetar a entrada de novos membros.

IUGOSLÁVIA DESINTEGRADA
ESLOVÊNIA:
Tornou-se independente da Iugoslávia em 1991. Membro da União Européia
CROÁCIA: Independência em 1991. Candidato à UE
BÓSNIA: Declarou-se independente em 1992. Após uma guerra sangrenta, dividiu-se, em 1995, em duas porções: uma Federação Croata-Muçulmanda e a República Sérvia da Bósnia Srpska
MONTENEGRO: Deixou a federação que formava com a Sérvia em 2006
MACEDÔNIA: Independência em 1991. Candidato à UE
SÉRVIA: Perdeu a influência sobre Montenegro em 2006
KOSOVO: Província de maioria albanesa separou-se da Sérvia

CRONOLOGIA
1918
Reino Sérvio

Kosovo integra-se ao Reino Sérvio após o fim do Império Otomano
1941
Itália

Boa parte da região é assimilada pela Albânia, controlada pela Itália
1946
Iugoslávia

Kosovo é absorvida pela Federação da Iugoslávia
1974
Autonomia

Constituição prevê autonomia de Kosovo, que cria governo próprio
1989
Milosevic

O presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, restringe a autonomia
da região
1990
Independência

Líderes albaneses declaram independência. Autoridades de Belgrado decidem dissolver o governo de Kosovo
1998
Tensões

Policiais sérvios entram em confronto com kosovares separatistas. Otan dá um ultimato a Milosevic, exigindo fim de repressão
1999
Conflito

Otan ataca a Iugoslávia. Refugiados albaneses relatam massacres promovidos pelos sérvios. Em julho, Milosevic retira suas tropas e a ONU organiza uma força de paz
2004
Votação

Partido Liga Democrática, pró-independência, ganha as eleições gerais, boicotadas pela população sérvia
2006
Negociações

ONU organiza diálogo sobre Kosovo. Um referendo na Sérvia apóia a nova Constituição, que declara a região parte do país
2007
Plano da ONU

Enviado da ONU Martti Athisaari elabora plano de independência. O governo de Kosovo aceita, mas a Sérvia rejeita a proposta

Estado de S. Paulo

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Belgrado reage, mas promete não usar força

Rússia também condena independência e pede reunião do CS da ONU

Belgrado

A Sérvia reagiu ontem à declaração de independência de Kosovo afirmando que a separação unilateral é “um ato ilegal”. Tradicional aliada de Belgrado, a Rússia também condenou a independência do território.
“A Sérvia fará tudo ao seu alcance para revogar essa declaração de independência unilateral e ilegal”, afirmou o presidente Boris Tadic (que acaba de ser reeleito para seu segundo mandato). Apesar da ameaça, Tadic descartou a possibilidade de Belgrado utilizar a força para reconquistar o território. O presidente pediu ainda que os cerca de 130 mil sérvios que vivem em Kosovo “mantenham a calma”.
O governo da Sérvia anunciou na semana passada um “plano de ação” secreto para lidar com a independência de Kosovo. Até agora, nenhum detalhe desse plano veio a público. Belgrado alertou que reduzirá o nível das relações diplomáticas e a retirada de embaixadores de todos os países que reconhecerem a independência de Kosovo. Tadic pediu ontem que todas as organizações internacionais “anulem imediatamente essa separação, que viola os princípios básicos do direito internacional”.
O primeiro-ministro sérvio, Vojislav Kostunica, responsabilizou os EUA pela independência de Kosovo. Segundo o premiê, o presidente americano, George W. Bush, entrará para a “história negra” da Sérvia.
“Os EUA colocam a política da força sobre a Carta da ONU. Washington viola leis internacionais para avançar em seus próprios interesses militares”, disse Kostunica, que afirmou ainda que o governo organizará inúmeros protestos pacíficos contra a declaração. Pelo menos 20 pessoas ficaram feridas durante violentos confrontos entre sérvios nacionalistas e policiais na frente da Embaixada dos EUA na capital sérvia.
O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se ontem a pedido da Rússia, que queria que o CS declarasse nula a declaração de independência. Após horas de discussões, no entanto, os países não conseguiram chegar a nenhum acordo. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon pediu ontem a sérvios e albaneses mantenham a calma e não façam declarações agressivas.
Em comunicado divulgado ontem pelo Kremlin, a Rússia pedia que “a ONU e as forças da Otan em Kosovo ajam imediatamente para anular a decisão do governo do território, além de adotar duras punições contra as autoridades kosovares”. O governo russo voltou a alertar sobre o precedente perigoso da independência de Kosovo para outras regiões separatistas (leia mais ao lado). Além disso, Moscou disse temer novos conflitos nos Bálcãs.

AP E REUTERS

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Kosovo ignora advertências da Sérvia e declara-se independente

Novo Estado espera agora pelo reconhecimento da comunidade internacional, que pediu calma na região dos Bálcãs

Pristina

A província sérvia de Kosovo declarou-se ontem independente, ignorando as advertências da Sérvia e o protesto de países como Rússia e China. Pelas cidades do território de maioria albanesa, a declaração unilateral foi recebida com festa nas ruas, apesar das baixas temperaturas do rigoroso inverno nos Bálcãs. Com cerca de 2 milhões de habitantes (dos quais 90% têm origem albanesa), Kosovo estava sob administração da ONU desde 1999, quando a Otan expulsou tropas lideradas pelo ex-líder iugoslavo Slobodan Milosevic e pôs fim a um violento conflito étnico.
Em meio à celebração, no entanto, granadas foram lançadas contra edifícios da União Européia (que deve reconhecer a nova República de Kosovo) e da ONU na cidade de Mitrovica, de maioria sérvia. Apesar de o incidente não ter deixado feridos, ele demonstra que a oposição sérvia será um duro desafio para o novo país (leia mais abaixo).
Antecipando-se às tensões, o premiê de Kosovo, Hashim Thaci, reiterou ontem - em meio à mensagem ao Parlamento no qual declarou a independência kosovar - que o novo Estado garantirá às minorias do território segurança e direitos iguais aos da maioria albanesa.
Negligenciada na era da Iugoslávia comunista, a precária infra-estrutura do território será outro desafio para o governo do novo país. Há poucas estradas e ferrovias e, em alguns locais, a energia elétrica só é fornecida no período da noite . Estima-se em mais de 50% o índice de desemprego e 45% vivem com menos de US$ 3 por dia.
A independência de Kosovo foi aprovada por aclamação na sessão extraordinária do Parlamento. “Nós, os líderes democraticamente eleitos pelo povo, declaramos neste momento que Kosovo é um Estado independente e soberano”, segundo a proclamação, lida no Parlamento em albanês, sérvio e inglês. A separação do território seguirá o plano do enviado especial da ONU Martti Ahtisaari, que prevê independência “sob supervisão internacional” e autonomia para a minoria sérvia.
“Nunca perdemos a esperança de que um dia seríamos um Estados livre, e hoje somos. Nossos sonhos são infinitos, nossos desafios enormes, mas nada poderá nos deter”, discursou Thaci, ex-líder guerrilheiro do separatista Exército de Libertação de Kosovo. Logo depois, parlamentares aprovaram os novos símbolos nacionais de Kosovo. Pelas ruas, no entanto, a população celebrava a independência tremulando bandeiras da Albânia e dos EUA.
Após a proclamação, os líderes do novo país assinaram uma enorme escultura de metal com a palavra “newborn” (recém-nascido) e foram para o estádio de Pristina, onde orquestra filarmônica kosovar executou a Ode à Alegria, de Beethoven. “Tenho agora meu próprio país, meu próprio código postal, e nele não consta mais o nome da Sérvia”, celebrou Ymer Govori. Apesar da euforia, quatro pessoas, duas delas crianças, foram feridas por balas perdidas durante as comemorações em Pristina.
Kosovo terá de esperar agora pelo reconhecimento de sua independência pela comunidade internacional. Os EUA, principais aliados do governo kosovar, disseram ontem ter recebido com satisfação a notícia sobre a separação do território. “Saudamos o claro compromisso de Kosovo de proteger as minorias étnicas”, disse o porta-voz do governo, Sean McCormack, que afirmou que Washington emitirá em breve um comunicado sobre sua posição. Em visita à África, o presidente George W. Bush, disse que seu governo fará todo o possível para evitar novos confrontos na região.

AP, EFE E REUTERS

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Cresce a crítica aos biocombustíveis

A União Européia anunciou planos de aumentar o uso de gasolina e diesel produzidos de plantas. Mas a crítica aos biocombustíveis está crescendo. Muitos dizem que são até mais prejudiciais do que os combustíveis fósseis convencionais

Charles Hawley

As imagens são suficientes para acalmar a alma. Campos dourados de grãos estendendo-se até onde os olhos podem ver; as flores amarelas brilhantes de brássica desabrocham nos campos europeus; os motoristas cruzam alegremente pelas auto-estradas, sorrindo com o conhecimento que o biodiesel que seu carro queima não prejudica o meio ambiente.

Entretanto, essa visão bucólica dos biocombustíveis -gasolina e diesel feitos a partir de plantas- em breve pode se tornar coisa do passado. A União Européia revelou na quarta-feira (23/1) um plano amplo para cortar as emissões de gases de efeito estufa em 20% em relação a 1990 e dramaticamente aumentar a participação de energias renováveis na composição de energia do bloco de 27 membros. O esquema também pede que 10% do combustível usado em transportes seja biocombustível. Este último elemento, porém, está se tornando cada vez mais controverso -e grupos ambientais nesta semana estão formulando uma acusação agressiva para deter os biocombustíveis.

“Não há como torná-los viáveis”
“A rota dos biocombustíveis não tem saída”, disse o Dr. Andrew Boswell, consultor do Partido Verde na Inglaterra e autor de um estudo recente sobre os efeitos danosos dos biocombustíveis. “Eles vão criar danos ao ambiente e também produzirão problemas sociais dramáticos (em países tropicais onde grande parte do biocombustível é produzida). Basicamente, não há forma de torná-los viáveis.”

As evidências contra o biocombustível reunidas por Boswell e outros ambientalistas parecem bastante condenatórias. Anunciado como o combustível que somente emite a quantidade de dióxido de carbono que as plantas absorvem quando crescem -tornando-o neutro- de fato resultou em um setor industrial lucrativo atraente em países em torno do mundo. Grandes trechos de florestas foram derrubados e queimados na Argentina e em outras partes para plantios de soja. Brejos de turfa ricos em carbono estão sendo drenados e florestas úmidas destruídas na Indonésia para dar lugar a extensas plantações de dendê.

Como as florestas freqüentemente são queimadas e a turfa oxida rapidamente, o resultado são enormes quantias de CO2 liberadas na atmosfera. Além disso, os brejos e florestas saudáveis absorvem CO2 -os cientistas referem-se a eles como “ralos de carbono”- tornando seu desaparecimento duplamente nocivo.

De fato, o Relatório Stern sobre a Economia da Mudança Climática, divulgado em outubro de 2006, estima que o desmatamento e outras mudanças no uso da terra são responsáveis por 18% das emissões de gás de efeito estufa em torno do mundo. Os biocombustíveis aceleram esse processo, dizem os ativistas.

A corrida do ouro
“Estamos causando uma catástrofe climática promovendo combustíveis agrícolas”, disse o especialista em agricultura do Greenpeace Alexander Hissting, usando o termo do grupo para se referir aos biocombustíveis. “Estamos criando uma enorme indústria em muitas partes do mundo. Na Indonésia, surgiu algo parecido com uma corrida do ouro.”

A União Européia parece ter pressentido a tempestade que está se formando contra os biocombustíveis. O plano observou que a meta de 10% depende da “produção ser sustentável”, como ficou claro em uma apresentação da UE aos repórteres na terça-feira. A UE também quer tornar ilegal o uso de biocombustíveis produzidos em reservas naturais ou em florestas recém-cortadas. Os cultivos em lugares valiosos como ralos de carbono também deverão ser evitados.

Os críticos duvidam, entretanto, que as cláusulas que pedem que os campos aceitáveis sejam certificados sejam fiscalizáveis. “No momento, tais sistemas de certificação são muito incompletos e é muito improvável que jamais funcionem”, diz Boswell. “A cadeia de oferta de biocombustível é incrivelmente complicada.”

Até mesmo cientistas da UE questionam se os supostos benefícios dos biocombustíveis superarão os custos. Um relatório recente no “Financial Times” citou um estudo não publicado do Centro de Pesquisa Conjunta, uma comissão de cientistas europeus, que dizia que a “incerteza é grande demais para dizer se o alvo de 10% de biocombustível da UE cortará gases de efeito estufa ou não”. Ele observava que os subsídios para promover os biocombustíveis custarão aos contribuintes europeus entre 33 e 65 bilhões de euros até 2020.

Ambientalistas dizem que as emissões não são o único problema sério criado pelo boom do biocombustível. Mesmo os cultivos dos países do Norte, como o milho nos EUA ou brássica na Alemanha e o resto da Europa, impõem grandes perigos ao clima. Tanto o milho quanto o brássica são consumidores vorazes de nitrogênio, levando os produtores a usarem grandes quantidades de fertilizantes de óxido nitroso. Mas quando este é lançado na atmosfera, reflete 300 vezes mais calor que o dióxido de carbono. Paul J. Crutzen, que recebeu o prêmio Nobel de química em 1995, estima que o biodiesel produzido a partir da brássica pode resultar em até 70% mais emissões gases de efeito estufa do que combustíveis fósseis. A planta preferida para produção de biocombustível nos EUA, o milho, resulta em 50% mais emissões, estima Crutzen.

“Um desastre total”
Outra questão que está recebendo atenção crescente recentemente é o aumento dos preços dos alimentos quando essa matéria-prima se torna combustível. Aumentos nos preços de soja e milho atingiram particularmente países em desenvolvimento. De fato, houve distúrbios contra o preço de alimentos no México, Marrocos, Senegal e outros países em desenvolvimento. Apesar do aumento dos preços não poder ser atribuído inteiramente aos biocombustíveis, certamente estes tiveram um papel. Em outubro, o representante especial para o direito à alimentação da ONU, Jean Ziegler, pediu uma moratória de cinco anos sobre os biocombustíveis para combater os preços crescentes. Usar terra arável por biocombustíveis, disse ele, “é um desastre total para os que estão com fome”.

Lentamente, parece que alguns governos estão começando a ouvir o coro de críticas. No último outono, a província canadense de Quebec anunciou que ia cessar a construção de plantas para produção de etanol. Na segunda-feira, o Comitê Ambiental da Câmara dos Comuns do Reino Unido determinou que o aumento do uso de biocombustível fosse combatido. “Os biocombustíveis podem reduzir emissões de gases de efeito estufa do transporte rodoviário. Mas, atualmente, a maior parte dos biocombustíveis tem um impacto negativo no ambiente”, disse o diretor do comitê Tim Yeo disse, de acordo com a Reuters.

A União Européia reagiu com raiva ao relatório do Reino Unido. Andris Piebalgs, comissário europeu de energia, disse ao “Guardian” que “a Comissão discorda fortemente da conclusão do relatório da Câmara dos Comuns Britânica”.

O relatório, entretanto, é música aos ouvidos de ambientalistas como Boswell. “Nós apontamos esses problemas há anos”, diz ele. “Agora é hora de o governo britânico agir em cima do relatório do comitê.”

Der Spiegel
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O homem que retardou a transição democrática tem nas mãos o futuro da Sérvia

O primeiro-ministro Kostunica é chave para a vitória do candidato a presidente Nikolic

Ramón Lobo

O primeiro-ministro da Sérvia, Vojislav Kostunica, o homem que poderia ser o Adolfo Suárez da transição sérvia mas que escolheu o papel de Carlos Arias Navarro, o que bloqueia as reformas e a viagem de lugar nenhum para o coração da Europa democrática, tem a chave da presidência da Sérvia. Dele depende que o atual chefe de Estado, na teoria seu aliado Boris Tadic, o homem que a UE sonha em manter no poder para realizar sem riscos seus planos para Kosovo e o resto dos Bálcãs, ganhe em 3 de fevereiro o segundo turno das eleições presidenciais.

O candidato do ultranacionalista Partido Radical, Tomislav Nikolic, venceu no domingo o primeiro turno, com 39,5% dos votos. Quatro pontos a mais que o atual presidente, que ainda tem pela frente a quadratura do círculo: conseguir o voto dos seguidores de Velimir Ilic, candidato de Kostunica no primeiro turno, que obteve 7,6%, muitos dos quais são nacionalistas e anti-Tadic -e os de Ceda Jovanovic, do Partido Liberal Democrático (5,6%), o único que propõe uma verdadeira ruptura na política sérvia, que odeia Kostunica e defende a entrega de Kosovo aos albaneses e a de Ratko Mladic a Haia. Se Tadic se inclinar por uns, perderá os outros, e se duvidar ficará sem nenhum.

No dia seguinte tudo são conjecturas, temores e cálculos, nos quais ganham destaque os decimais. A imprensa séria e a populista repetem títulos dando a Kostunica o papel de fazedor de reis e prevendo uma competição acirrada. O primeiro-ministro mantém silêncio (ao que parece é sua melhor política: não dizer nada) e os outros fazem declarações que convidam Tadic à negociação. O bazar está aberto.

“Embora o presidente não tenha um poder real porque é um cargo de representação, este tem um enorme simbolismo”, afirma o professor de sociologia Milan Vukomanovic. “Possivelmente não haverá mudanças efetivas se Nikolic ganhar, mas mudará a percepção que a UE tem da Sérvia, e isso terá conseqüências.” As pesquisas foram pegas de surpresa com a alta participação (61%), quando se pensava que a apatia e o desencanto fossem o principal adversário de Tadic. Apesar dessa inesperada mobilização, o presidente perdeu. Assim como nas eleições de 2004, quando no primeiro turno Nikolic venceu com 30,1% contra 27,3% de Tadic, que no segundo turno arrasou com 20 pontos de diferença.

Apesar do precedente, desta vez as diferenças são preocupantes. Grande parte dos 200 mil refugiados-deslocados sérvios das guerras perdidas da Croácia, Bósnia-Herzegovina e Kosovo votaram em Nikolic, assim como as pessoas que se viram prejudicadas pelas privatizações e perderam seus empregos e os 100 mil sérvios que foram às urnas nos enclaves de Kosovo.

“Tadic compete com as costas cheias de punhais”, disse há alguns dias o analista do semanário “Vreme” (Tempo) Dejan Anastasevic, mas também o faz com as mãos atadas. Sua grande cartada é a adesão da Sérvia à UE, um coletivo de países mais ou menos avançados que se dispõem a aprovar a separação de Kosovo, a província em que os sérvios consideram que estejam as bases espirituais de sua nação.

“Todo mundo sabe que Kosovo está perdido, que só falta um papel que o certifique. Mas o debate não é esse, e sim quem defende melhor um mito que é um elemento essencial na vida política sérvia, sobretudo desde a chegada ao poder de Slobodan Milosevic”, afirma o etnólogo Ivan Colovic, estudioso da simbologia nacionalista.

“Tadic não tem o poder de acelerar as reformas porque o poder está com o primeiro-ministro, mas nestas eleições ele levou a responsabilidade pelo bloqueio a que Kostunica nos submeteu”, afirma uma fonte do círculo presidencial. “O primeiro-ministro tem agora a oportunidade de escolher entre ser um radical ou um democrata.”

Bruxelas também tem possibilidades de escolher, mas há tempo dá a sensação de que joga, sem saber, com as cartas voltadas para o lado contrário. Adia a independência de Kosovo para depois das eleições sérvias, como se esse truque de calendário pudesse aliviar a carga de Tadic, e ao mesmo tempo não deixa de falar de secessão com os líderes de Kosovo. É um trunfo para Kostunica, mas sobretudo para os radicais que souberam despertar essa fibra tão sérvia, se é que estava adormecida: o vitimismo.

El País
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O minério é nosso?

André Siqueira

A Vale tenta a maior compra de sua história, mas a União teme que os interesses de mercado prevaleçam sobre os do País

A maior aquisição da história do mundo empresarial brasileiro depende do aval do presidente Lula para ser, ou não, concretizada nos próximos dias. A companhia Vale, segunda maior empresa de mineração do planeta, pretende pagar mais de 80 bilhões de dólares pelo controle da sexta do ranking, a anglo-suíça Xstrata. A operação, segundo a imprensa internacional, conta com o apoio dos financiadores, um pool de 12 grandes bancos que emprestaria 50 bilhões de dólares à empresa. O restante do valor seria coberto pela emissão de novas ações, a ser entregues aos donos da concorrente. O governo se vê diante de um impasse: como manter as rédeas sobre uma empresa com tal porte e importância estratégica para a indústria mundial?
Em teoria, a dúvida não deveria existir. Durante o processo de privatização, há dez anos, foi criada a golden share, cláusula que dá ao governo o poder de veto em negócios que envolvam alterações significativas na estrutura de capital da empresa. Além disso, o BNDES e a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, detêm a maioria das ações controladoras da Vale, ao lado do Bradesco e do banco japonês Mitsui.
Na prática, sabe-se que é cada vez mais difícil conter o ímpeto expansionista da Vale e represar os investimentos da empresa dentro do Brasil. Tal preocupação foi tornada pública pelo presidente Lula. E não sem fundamento. A mineradora é dona da maior malha ferroviária do País, com quase 10 mil quilômetros, e maior investidora do setor. É dona de seis usinas hidrelétricas e responsável por projetos como Estreito, de 1.422 megawatts, e uma térmica no Pará de 600 megawatts. Na área siderúrgica, é o braço capitalista brasileiro em parcerias internacionais para a construção de grandes usinas no Ceará, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.
O presidente da Vale, Roger Agnelli, tem conversado diretamente com Lula nas últimas semanas, em busca de aprovação à compra da Xstrata, mas ainda não recebeu uma resposta definitiva. Analistas de mercado consideram a bênção do governo o último grande obstáculo à compra, por se tratar de um negócio do interesse de ambas as empresas. CartaCapital apurou que, no momento, a tendência é o Planalto vetar a operação.
Ao lado do interesse nacional sobre os rumos da Vale, é preciso observar a movimentação do mercado internacional de exploração mineral, um setor altamente concentrado nas mãos de poucos grupos. A australiana BHP Billiton, maior mineradora do mundo, tenta avançar nas negociações para a compra da terceira colocada, a Rio Tinto. Se bem-sucedido, o arremate criará um gigante no setor, capaz de dar as cartas no mercado caso não tenha concorrentes à altura.
“A dúvida do governo é quase shakespeariana”, avalia o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) Evaldo Alves, especialista em economia internacional e ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “Se não deixar a Vale participar do jogo da globalização e demarcar seus territórios, corre o risco de vê-la perder mercado para as concorrentes ou até receber futuras ofertas de compra. Mas à medida que a companhia cresce, o peso do interesse nacional sobre as decisões da empresa fica diluído.”
O professor lembra ainda que o xadrez da mineração mundial é também uma disputa entre nações emergentes. “Os países desenvolvidos concentram esforços em setores de alto valor agregado, como a nanotecnologia, a química fina e as pesquisas de novos materiais. Mas, se o governo segura o crescimento da Vale hoje, corre o risco de indianos, russos ou chineses entrarem no mercado e se tornarem uma ameaça no futuro”, diz Alves.
As justificativas para a preocupação do governo não param por aí. O especialista em direito societário e professor da USP Modesto Carvalhosa, do escritório Carvalhosa e Eizirik, lembra que, embora a intenção seja utilizar ações preferenciais, sem direito a voto, na aquisição da Xstrata, a Lei das S.As. prevê situações em que esses papéis dão poder sobre a companhia. “Basta que deixem de ser distribuídos dividendos por três anos, um prazo que pode ser reduzido por um projeto de lei que tramita no Senado”, explica. O temor tem base legal, mas não factual, de acordo com o advogado, pois o mecanismo não foi utilizado no País até hoje.
Carvalhosa ressalta ainda a possibilidade, mais concreta, de a companhia transferir o centro decisório e os executivos para fora do País e jogar exclusivamente as regras do mercado, mesmo que a sede formal permaneça no Rio. “Admitida essa hipótese, poderíamos ver a empresa concentrar as exportações nas minas da Oceania, por questões logísticas, e reduzir o ritmo de produção e os investimentos no Brasil”, exemplifica.
A Vale tem minas espalhadas por todos os continentes e é hoje a maior produtora mundial de minério de ferro e um player importante em carvão, alumínio, potássio, cobre, manganês e ferro ligas. Após a compra da canadense Inco, tornou-se também uma das líderes em níquel. Essa última aquisição, fechada em outubro de 2006 por 17 bilhões de dólares, é até agora a maior transação feita pela brasileira, apontada como responsável por um salto no valor de mercado da empresa. Até a quarta-feira 30, a companhia estava avaliada em 134,6 bilhões de dólares, de acordo com a consultoria Economática. O cálculo leva em conta a cotação das ações.
Com a compra da Xstrata, a Vale se tornaria dona de mais de 25% do mercado mundial de níquel e quarta maior produtora de cobre, além de aumentar a presença na área de carvão mineral. Um relatório do Citibank aponta ganhos de até 3 bilhões de dólares a serem alcançados, caso as duas empresas operem em conjunto. O Morgan Stanley prevê em 83 bilhões de dólares o valor a ser pago pela brasileira, com um ágio de 30% sobre o valor de face das ações da concorrente.
Para os investidores do mercado de capitais, o impacto da aquisição da Xstrata também seria significativo. A Vale foi a empresa estrangeira mais negociada na Bolsa de Nova York em 2007, com uma movimentação média diária na ordem de 725 milhões de dólares por dia. Entre a segunda-feira 21, quando assumiu publicamente a negociação com a Xstrata, e a quarta-feira 30, os papéis preferenciais da Vale na Bovespa caíram 3,54%, enquanto o índice Ibovespa registrou alta de 4,84%.
“A crise internacional também teve impacto sobre a cotação, mas a aquisição pode prejudicar a rentabilidade e a distribuição de dividendos a curto prazo. Isso explica a desvalorização imediata das ações e também permite prever uma alta caso o negócio não seja fechado”, afirma o analista-chefe da corretora Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa. Ele ressalta que os acionistas minoritários interessados em manter o porcentual de participação serão obrigados a elevar em muito o investimento na empresa.
Mais do que um dilema para os acionistas, a negociação põe em xeque o modelo de desenvolvimento da Vale, constantemente comparado ao caminho tomado pela Petrobras, outra empresa estratégica para o País, mas que permaneceu sob estrito controle estatal. Alves, da FGV-SP, avalia que dificilmente o governo conseguirá segurar o crescimento da mineradora, mesmo se a negociação com a Xstrata não vingar. O segredo, defende, está na clara definição dos termos em que será concedido o aval para a expansão da companhia.
“É possível obter os compromissos de que as decisões serão mantidas aqui, ou que fornecedores nacionais terão preferência”, sugere. Ele cita a fórmula adotada pelo governo da Coréia do Sul, responsável em grande parte pelo sucesso de empresas como a Hyundai, que conquistou, com o apoio estatal, uma fatia do disputado mercado automobilístico internacional. “O sucesso, no mundo globaliza

Carta Capital

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Turistas demais pode ser algo ruim? Na Toscana, talvez

Elisabetta Povoledo

Os planos para trazer a cidade histórica italiana de Siena para a era dos jatos, com a ampliação de seu pequeno aeroporto, estão sendo contestados por um grupo de cidadãos que dizem que Siena está “muito bem do jeito que está, obrigado”.

A última coisa que estes moradores parecem querer é o meio milhão de turistas adicionais que os defensores do aeroporto prevêem que pousariam em Siena em 2020. O turismo já está prosperando, argumentam os contrários, com mais de um milhão de visitantes chegando anualmente por terra, muitos atraídos pela ação da colorida Pálio, a corrida de cavalos de Siena.

Eles não querem a construção de novos terminais, estacionamentos e infra-estrutura para atender à maior capacidade do aeroporto, e temem que mais turistas apenas levariam a mais empreendimentos de grande escala, como shoppings ou redes de hotéis. Eles também temem o barulho, poluição e o impacto que o aeroporto teria sobre os arredores, uma mistura de igrejas medievais, castelos e vilarejos aninhados dentro de reservas naturais, florestas e fazendas.

O progresso não pode ser medido apenas em termos de aumento do produto interno bruto, disse Luciano Fiordoni, um economista que falou em um recente comício “antiaeroporto” em Siena.
“É preciso considerar a qualidade de vida”, ele disse. “Não somos contrários ao crescimento, mas nossa principal intenção é permanecer humanos.”

Mas para o atual conselho administrativo do aeroporto Ampugnano as alternativas são simples: crescer ou jogar a toalha.

Construído nos anos 30 como campo de aviação militar para as tropas de Mussolini, o aeroporto se tornou civil há poucos anos e tem perdido dinheiro desde então -entre 500 mil e 800 mil euros por ano-, segundo o presidente do conselho, Enzo Viani.

“Era impensável pensar que poderia continuar perdendo dinheiro”, ele disse por telefone. “Tínhamos que tomar uma decisão.”

Tal decisão foi uma licitação pública para um projeto de ampliação do aeroporto, que foi vencida no início deste ano pelo Galaxy Fund, um fundo de ações dedicado a infra-estrutura de transporte e cujos investidores centrais são o grupo francês Caisse des Dépôts, o italiano Cassa Depositi e Prestiti e o banco público de desenvolvimento alemão Kreditanstalt fuer Wiederaufbau. O Banco de Investimento Europeu também é um dos co-investidores do Galaxy.

Com o investimento do Galaxy de 50 milhões de euros e 30 milhões de euros adicionais fornecidos pelos atuais acionistas do aeroporto -a prefeitura de Siena e o governo provincial, sua câmara de comércio, a municipalidade de Sovicille e o banco Monte dei Paschi di Siena local- o aeroporto se tornaria lucrativo, disse Viani.

O investimento basicamente asseguraria que a pista poderia ser usada em toda sua extensão, 1.500 metros, permitindo que aviões de porte médio com capacidade entre 30 e 80 passageiros pudessem operar em segurança. Jatos executivos e aviões pequenos são atualmente os principais clientes do aeroporto.

O projeto ainda não foi formalmente adotado, já que os administradores locais ainda estão analisando as conclusões dos estudos de impacto ambiental e o sentimento dos cidadãos locais, disse Viani.

O Galaxy projeta que o aeroporto ampliado receberia vôos de 15 destinos -a maioria capitais européias- em 2009. O afluxo de turistas passaria de quase 150 mil em 2009 para cerca de 330 mil em 2012.

Mas nem todos gostam disso.

“Eu acho que a administração vê isso como uma questão de status, que um aeroporto colocaria Siena no mapa, mas Siena é o que é porque nunca esteve na estrada principal”, disse Helen Ampt, uma moradora de Montagnala Sienese, uma área montanhosa a oeste de Siena, e membro do comitê que combate à ampliação.

“Esta área tem uma história de comitês de protesto”, ela notou, citando várias cruzadas ambientais anteriores contra excesso de pedreiras ou torres de alta tensão, por exemplo. “Mas este é o maior comitê de todos.”

Como outros, Ampt se pergunta se o dinheiro não seria melhor gasto melhorando a ferrovia antiquada de Siena e as estradas próximas; não há uma rodovia que leve até a cidade.

E a Toscana já conta com dois aeroportos: em 2006, Pisa contou com cerca de três milhões de passageiros e Florença com metade disto, e ela apontou que outro em Grosseto está em desenvolvimento.

Os críticos temem que um aeroporto modernizado apenas abriria as portas para uma avalanche de vôos baratos e uma avalanche de turistas. Além disso, o imperativo do Galaxy de lucrar -ele é um fundo de investimento- poderia forçar o aeroporto a crescer ainda mais do que o previsto no projeto original.

“Será que eles acham que ficaríamos contentes com um aeroporto não destinado para nós?”, perguntou Fabio Marzini, um bancário aposentado que virou fazendeiro.

“E assim que todos esses turistas chegarem, para onde irão?” acrescentou Simona, a filha de Marzini. O turismo aqui é voltado para estadias em casas de fazenda e o ritmo tranqüilo do campo. “Nós não queremos que se transforme em um parque de diversões”, ela disse.

Muitos manifestantes disseram se sentir traídos pelo governo de centro esquerda da cidade, que tradicionalmente defendia a área contra um desenvolvimento exagerado, e pelo Monte dei Paschi di Siena, que diz ser o banco mais antigo da Itália e por séculos foi uma força motriz da economia local.

“Como um banco com tamanha ligação local pode desejar fazer algo que devastará a paisagem rural?” perguntou Maria Rosa Mariani, uma advogada e membro do comitê. Ela disse esperar que os administradores “recobrem o juízo” e comecem a se perguntarem sobre “como isto afetará a região”.

Viani insiste que a transformação de Ampugnano será “boa para a região”, e que o aeroporto está interessado apenas em atrair “turismo de alta classe”, não vôos baratos.

“Grandes aeroportos têm um impacto sobre as pessoas, de forma que quanto menor, melhor”, disse Enrico Diciotti, um professor de Direito da Universidade de Siena. Ele disse que milhares vêm anualmente para desfrutar da natureza preservada da região.
“Nós herdamos um recurso”, ele disse, “que achamos que deve ser legado para a posteridade”.

New York Times
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As lágrimas de Heráclito ou o riso de Demócrito?

Deonísio da Silva

Ano que vem completam-se 400 anos do nascimento do Padre Antônio Vieira, glória imortal de nossas letras. No Brasil, como é costume ocorrer com efemérides, ninguém está se mexendo ainda. Ninguém, não! Na Bahia, a Fundação Pedro Calmon já está preparando vários eventos. Portugal também está se preparando para celebrar o grande intelectual, já que Vieira nasceu lá e veio menino - aos seis anos - para o Brasil.

Entre tantos sermões de leitura indispensável para desfrute da sapiência do orador mais famoso que o Brasil já teve, há um escrito e proferido originalmente em italiano, em Roma, no dia 6 de dezembro de 1674. É As lágrimas de Heráclito, ou, no original italiano A favore d’Eraclito. Quem tem as obras completas de Vieira, em papel bíblia, da editora Nova Aguilar, encontra-o no tomo XIV. Ele somente veio a ser traduzido para o português 13 anos depois da morte do autor.

Mas por que Vieira pregou em Roma e não em Lisboa ou no Maranhão? Ele estava na Itália porque, perseguido pelo Tribunal do Santo Ofício, solicitava revisão do processo inquisitorial de que era vítima. Enquanto lá esteve, protegido pelo padre-geral, a autoridade máxima da Companhia de Jesus, e pela rainha Cristina, da Suécia, produziu 20 sermões.

Na sessão de abertura da Academia Real de Roma, foi proposta a seguinte questão: o que seria mais razoável: o riso de Demócrito, que zombava de tudo, ou o pranto de Heráclito, que por tudo chorava?

Foram convidados a pregar dois padres jesuítas: Girolamo Cattaneo e Antônio Vieira. Cada um podia escolher o lado. Vieira, gentil, pediu que o colega escolhesse primeiro e por isso ele ficou com a defesa das lágrimas, certamente mais coerente com o seu estado de alma naquele período, perseguido pelos próprios pares.

Girolamo Cattaneo começa o sermão apresentando a clássica oposição entre o Bem e o Mal: “todo o artifício adorável, que o Mestre eterno empregou na fábrica maravilhosa do mundo, o natural ou o moral, foi tirado ou da pertinaz disputa dos elementos