Como se não fosse ficção
Abdellatif Kechiche dá ares de documentário a La Graine et le Moulet, seu novo filme — talvez para fundir prosa e poesia e criar obra sutil em que afirma, sem descambar para o panfleto, a igualdade entre franceses e marroquinos, cristãos e muçulmanos
Bruno Carmelo
O novo filme do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche acompanha um dia de uma família marroquina imigrada na França. Vinte ou trinta personagens cozinham, conversam, vão ao trabalho, enfim, consagram-se às suas rotinas diárias.
A câmera acompanha as pequenas atividades e os gestos. Não há ações espetaculares: essa não é a história de um personagem que fez algo incrível ou que passou por momentos únicos. O importante em La Graine et le Mulet é que as ações parecem comuns, banais, mas a câmera dedica a essas pessoas toda a sua atenção para dar a essas imagens um caráter especial.
A maneira de filmar é econômica: a iluminação é sempre natural (seja a luz do sol, sejam as lâmpadas das casas); o som inclui ruídos normais e barulhos de pessoas que falam ao mesmo tempo; os diálogos soam como improvisos, a maioria do elenco é composta de atores não-profissionais. A câmera desliza calmamente de rosto em rosto, e se inclui nessa grande roda de pessoas como se fosse um deles, aproximando a imagem (e o público, que se confunde nesse olhar subjetivo) desse universo periférico da sociedade francesa.
Logo, o diretor consegue atingir um resultado tanto ativo, intromissivo (que opta pelo flagrante, pelo inesperado) quanto passivo e contemplador, já que essa presença fisicamente próxima não implica qualquer tipo de intervenção: os personagens concluem suas ações no tempo necessário, e as elipses (passagens de tempo) são reduzidas ao máximo. Em La Graine et le Mulet, uma mulher que limpa o chão de sua casa ganha atenção e implicação da imagem, que a enquadra e dedica valiosos minutos à sua atividade.
Mise-en-scène e roteiro são claros. Mas a câmera faz o máximo esforço para não ser percebida
Tentando se aproximar do real, esta obra fictícia acaba por ganhar contornos documentais: embora sejam claras a mise-en-scène e a execução de um roteiro, a câmera de Kechiche faz o máximo esforço justamente para não ser percebida. Qualquer elemento de linguagem cinematográfica que poderia lembrar o espectador de se encontrar diante de uma ficção é eliminado.
Essa opção de fusão — esse misto de prosa e poesia — dedica-se a criar uma obra engajada, mas sem o aspecto de denúncia que normalmente acompanha os filmes sobre as classes desfavorecidas. La Graine et le Mulet é um trabalho de conscientização, não só da existência desses grupos sociais como também de sua cultura, da fusão das religiões cristã e muçulmana, a fusão de línguas e a noção de identidade de uma pessoa cujas raízes se encontram a décadas e quilômetros de distância.
O elemento símbolo dessas fusões é a comida, mais especificamente o cuscuz. É ele o grão (“graine”) mencionado no título, e junto do peixe (o “mulet”), compõe o prato que mobiliza a grande família a se encontrar todos os domingos, para almoçarem juntos. É também o cuscuz que faz avançar a história, já que ele constitui o motivo pelo qual se decide abrir um restaurante no qual o prato seria a atração principal.
Por fim, é o grão marroquino que vai aproximar e separar os membros desta família composta de franceses e marroquinos, representando as relações instáveis entre os dois países. Kechiche constrói um filme simples e louvável pelo respeito (sem julgamentos) que dedica a esses personagens, por seu engajamento silencioso e pela instigante pulverização dos limites entre ficção e documentário.
La Graine Et Le Mulet (2007)
Direção de Abdellatif Kechiche.
Com Habib Boufares, Hafsia Herzi, Faridah Benkhetache
Distribuído por Pathé.
Duração de 2h31.
Le Monde
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