Arquivo de 19 de Fevereiro de 2008

A Alemanha confronta o Holocausto como se quisesse comemorar o pior da sua história

Nicholas Kulish e Victor Homola

A maior parte dos países celebra o melhor de seu passado. A Alemanha promove incansavelmente seu pior.

O enorme memorial do Holocausto que domina um pedaço do centro de Berlim foi terminado após anos de debate. Mesmo assim, a construção de monumentos à desgraça nazista continua.

Na segunda-feira (28/1), o ministro da cultura alemão, Bernd Neumann, anunciou a permissão para a construção de dois monumentos em Berlim: um perto do Reichstag, aos ciganos mortos, conhecidos aqui como Sinti e Roma, e outro perto do Portão de Brandenburgo, para gays e lésbicas mortos no Holocausto.

Em novembro, a Alemanha inaugurou o centro de Topografia e Terror, muito adiado, no local das sedes de Gestapo e SS. E em outubro, uma enorme mostra foi inaugurada no campo de concentração Bergen-Belsen. No campo de Dachau, perto de Munique, um novo centro para visitantes será inaugurado no verão. A cidade de Erfurt está planejando um museu dedicado aos crematórios. Há atualmente duas exibições concorrentes sobre o papel das linhas de ferro alemãs no envio de milhões para suas mortes.

Quarta-feira é o 75º aniversário do dia em que Hitler e o partido Nazista assumiram o poder na Alemanha, e a ocasião levou a uma nova rodada de indagações.

“Onde no mundo se viu uma nação que ergue memoriais para imortalizar sua própria vergonha?”, perguntou Avi Primor, ex-embaixador israelense na Alemanha, em um evento em Erfurt, na sexta-feira, para lembrar o Holocausto e a liberação de Auschwitz. “Somente os alemães tiveram a bravura e a humildade.”

O esforço para lidar com a história prossegue não apenas em edifícios e exibições. O Escritório de Crime Federal começou a investigar a si mesmo no ano passado, tentando lançar luz no passado nazista de seus fundadores após o final da guerra. E neste mês o promotor federal da Alemanha derrubou um veredicto de culpado de Marinus van der Lubbe, comunista holandês executado por incendiar o Reichstag; o 75º aniversário desse evento será no dia 27 de fevereiro.

A experiência do nazismo está viva em debates públicos contemporâneos sobre assuntos tão variados quanto as tropas alemãs no Afeganistão, o baixo índice de natalidade e a forma como os alemães lidam com estrangeiros. Por que o país parece infinitamente obcecado com o nazismo é assunto de perpétuo debate aqui, indo desde o temperamento filosófico alemão até simples assombro diante da combinação sem precedentes de organização e brutalidade, até a noção que o crime foi tão grande que se espalhou sobre toda uma cultura.

Independentemente das razões, na medida em que o evento se torna mais remoto e menos pessoal, esta sociedade é forçada a confrontar a questão de como deve entronar seus crimes e transgressões no longo prazo.

Nas décadas após a guerra, a questão central era como Hitler chegara ao poder, disse em entrevista Horst Moeller, diretor do Instituto de História Contemporânea. Até a minissérie de televisão americana chamada “Holocausto”, nos anos 70, afetou o debate no que era então a Alemanha Ocidental, mudando o foco muito mais para o sofrimento das próprias vítimas, disse Moeller.

Ruediger Nemitz começou a receber as vítimas exiladas de Berlim pela tirania nazista, uma maioria esmagadora de judeus, em 1969. A cidade traz os antigos cidadãos de volta para uma semana de visita, com todas as despesas pagas e uma recepção pelo prefeito.

O Programa de Convite de Ex-Cidadãos Perseguidos de Berlim, que já trouxe aproximadamente 33.000 pessoas para visitar a cidade, certa vez teve 12 funcionários contratados. Agora tem apenas Nemitz e um funcionário de meio período.

O programa, entretanto, não está terminando por causa de falta de apoio à construção da memória do passado alemão. Ao contrário, em uma determinada época, quando a prefeitura de Berlim estava quase quebrada e teve que fazer profundos cortes em outras áreas, todos os partido políticos na assembléia da cidade apoiaram o programa e não cortaram seu orçamento de US$ 800.000 para vôos, hotéis e passeios desde no mínimo 2000.

“Quando (o programa começou), os convidados eram adultos. Agora, são pessoas que quase não tinham lembranças de Berlim”, disse Nemitz de seu escritório no térreo da Prefeitura. “Os que vêm hoje eram crianças na época”. As visitas terminarão em 2010 ou 2011, estima Nemitz, porque restam poucas vítimas.

Além dos sobreviventes estarem morrendo, a geração de Nemitz, que enfrentou esses crimes intimamente e lutou para romper o silêncio de seus pais e professores, está começando a se aposentar. Quando o último grupo deixar Berlim, Nemitz, 61, que disse ter medo de tirar férias e trata seu cargo mais como missão do que como emprego, vai fechar a porta de seu escritório e aposentar-se.

Alguns dizem que os jovens alemães, de quem se exige o estudo intensivo da era nazista e do Holocausto, mostraram pouca inclinação a deixar cair o tema, apesar de sua distância dos eventos. Eles dizem que a geração mais jovem aborda-o como fonte não de culpa, mas de responsabilidade no palco mundial, de justiça social e pacifismo, inclusive a oposição à guerra no Iraque.

Outros dizem que os crimes são abordados apenas de forma superficial e que os jovens, eventualmente, e talvez de forma cuidadosamente protegida, expressarão sua exaustão com o assunto. “Não posso evitar de sentir que parte do comportamento ‘vamos construir monumentos, vamos construir museus judaicos’ é programada”, disse Susan Neiman, diretora do Fórum Einstein em Postdam, organização de pesquisa pública internacional, por telefone. “Preocupo-me terrivelmente que se vire contra nós”.

O relacionamento da Alemanha com sua história nazista ainda gera controvérsias regularmente, como no caso das mostras de trens concorrentes. A primeira, Trem da Comemoração, é uma locomotiva levando exibições detalhando o caminho das crianças judias assassinadas no Holocausto.

O trem está passando por cidades alemãs, aberto a visitas ao longo do caminho, e por fim irá para Auschwitz. Os organizadores reclamam que, em vez de adotar o projeto, a rede ferroviária nacional, Deutsche Bahn, prejudicou-o, forçando os organizadores a pagarem pelo uso dos trilhos, mesmo ao recontarem a história dos maus atos da ferrovia.

A segunda mostra, patrocinada pela própria Deutsche Bahn, foi inaugurada em Berlin na estação de trem de Potsdamer Platz na semana passada. Os críticos disseram que a mostra oficial era apenas uma resposta à atenção recebida pela primeira mostra. Mas a mostra da Deutsche Bahn explica como a empresa que antecedeu a companhia, Reichsbahn, levou alguns dos 3 milhões de passageiros para a morte; é cheia de estatísticas dolorosas, fotografias e histórias fortes sobre alguns dos que pereceram.

Qualquer incapacidade de lidar com a história imediatamente atrai a atenção nacional. Em Munique, no final de semana, uma parada tradicional de Carnaval coincidiu com o dia de Lembrança Internacional do Holocausto, celebrado a cada ano no dia 27 de janeiro. O resultado foi uma enxurrada nacional de publicidade negativa contra a cidade. Charlotte Knobloch, líder da organização judia nacional da Alemanha, disse que o episódio “desonra e insulta as vítimas”.

Stefan Hauf, porta-voz da cidade, disse: “Não há afronta consciente.” Ele explicou que a prefeitura teria mudado a data da parada, como fizera a cidade de Regensburg, mas muitos participantes estavam vindo de outros países, portanto não podia mudar a parada com pouca antecedência. “A data está no calendário público desde maio do ano passado”, disse Hauf.

Munique teve um papel especial na história nazista. Foi ali que o Partido Nacional Socialista ascendeu e também foi o local da tentativa de golpe fracassada entronada no mito nazista de Beer Hall Putsch, em 1923. Hitler eventualmente declarou a cidade Capital do Movimento. Diferentemente de Berlim, que desenvolveu fama de ter um memorial a cada esquina, Munique foi freqüentemente criticada por minimizar sua história.

“Munique era a Capital do Movimento. Desde 1945 é a capital do esquecimento”, disse Wolfram P. Kastner, artista que brigou com a prefeitura durante anos para tirar licença para usar arte performática para manter a memória do Holocausto viva.

A prefeitura de Munique acredita que tem sido muito ativa em preservar a história dessa época. A uma pequena caminhada da histórica Marienplatz, um complexo inteiro de novas construções é dedicado à história judaica da cidade. A sinagoga foi inaugurada em novembro de 2006, no aniversário dos ataques liderados pelos nazistas contra o povo, empresas e locais de adoração judeus, chamado Kristallnacht. O museu judeu e um novo centro comunitário foram inaugurados em Munique no ano passado.

A prefeitura está trabalhando em um novo museu a ser construído onde era a sede do partido Nazista. Chamado Centro de Documentação para a História do Socialismo Nacional, deve ser inaugurado em 2011. Sua meta, de acordo com o site do museu, “é criar um local de aprendizado para o futuro”.

Com esse objetivo, Angelika Baumann, do Departamento de Arte e Cultura da cidade, vem promovendo oficinas com jovens de 14 a 18 anos, de diferentes escolas e origens, inclusive não alemães. “Estamos planejando para pessoas que ainda nem nasceram”, disse Baumann.

New York Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

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A direita chilena em choque

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um dos trágicos destaques da era Pinochet, no Chile, o ex-general Raúl Iturriaga escondeu-se depois de condenado em julho a cinco anos de prisão.
O governo, o Judiciário e as próprias Forças Armadas condenaram o gesto de Iturriaga, mas outros oficiais reformados prometeram fazer o mesmo caso sejam punidos com sentenças condenatórias por prática de tortura e assassinatos.
O comportamento de resistência não imobilizou ou sequer constrangeu os juízes chilenos com processos em andamento.
Em agosto, a Corte Suprema atuou com dureza no julgamento de ex-oficiais que participaram da Operação Albânia. Puniu pela primeira vez com prisão perpétua em casos de violação dos direitos humanos.
Foi réu o general Hugo Salas Wenzel, um dos que chefiaram a Central Nacional de Inteligência, a polícia política da ditadura de Pinochet. Ele foi acusado de ter sido um dos responsáveis pelas mortes, em junho de 1987, de 12 jovens militantes da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, a FPMR, grupo de guerrilha urbana.
Suicídios
Já são três os suicídios de envolvidos em processos contra crimes do pinochetismo. A fuga do ex-general Iturriaga é o episódio que melhor ilustra a sensação de abandono dos que se julgavam sob um manto de impunidade.
A direita chilena, ou parte considerável dela, ficou chocada quando foi descoberto que Pinochet e sua família tinham contas secretas em bancos americanos. Um de seus argumentos considerados mais sólidos, em defesa do regime militar, era o de um poder que havia entronizado a probidade em palácio, algo raríssimo num continente com história de déspotas bilionários. Violações dos direitos humanos talvez, corrupção nunca. Com o véu em queda, ela se retraiu, continuou sendo direita, mas sem muito pinochetismo.
Partido militar
Com a sensação de desamparo político, oficiais reformados que serviram nos anos de chumbo decidiram criar seu próprio partido, o Militar Metropolitano ou PMM. Foi lançado num clube militar de Santiago por um ex-oficial do Exército, Gabriel Fuentes Campuzano.
Desde a morte do ex-ditador, em dezembro de 2006, cerca de 190 oficiais acusados de abusos foram colocados em bancos dos réus.
O manifesto do Partido Militar Metropolitano promete defender a obra de Pinochet. O "La Nación", de Santiago, disse há algum tempo que ele estaria a ponto de conseguir o mínimo de 13.885 assinaturas exigido para registro.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha S. Paulo

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Apesar das críticas ao Pan, Rio se lança às Olimpíadas de 2016

Ainda em conflito com a oposição, que o acusa de “torrar” R$ 4 bilhões na organização do Pan 2007, prefeito Cesar Maia abraça projeto de candidatura olímpica, que tem custo inicial estimado pelo COB em R$ 5 bilhões.

Maurício Thuswohl

RIO DE JANEIRO – Jogos Pan-Americanos, Copa do Mundo, Olimpíadas. O Rio de Janeiro é, decididamente, uma cidade esportiva. A cada evento que se organiza, a cada candidatura que se constrói, no entanto, a disputa criada em torno dos gastos públicos, do custo dos projetos, da pertinência das obras de infra-estrutura e dos supostos benefícios obtidos indevidamente por este ou aquele grupo político vem à tona e mostra que o verdadeiro esporte carioca é mesmo a polêmica.

Ainda sem ter saído da briga com a oposição, que tenta instalar uma CPI do Pan e acusa a Prefeitura de “torrar” no ano passado R$ 4 bilhões dos cofres municipais com a organização dos Jogos sem que isso se traduzisse em benefícios para a população da cidade, o prefeito Cesar Maia (DEM) já embarca empolgado em outro ambicioso projeto: as Olimpíadas de 2016. Na sexta-feira (11), o Rio manifestou oficialmente ao Comitê Olímpico Internacional (COI) seu desejo de sediar o maior encontro esportivo do planeta daqui a oito anos. O custo inicial estimado para bancar esta nova aventura é de R$ 5 bilhões.

O projeto de pré-candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016 foi apresentado à imprensa na semana passada, em cerimônia organizada no Museu de Arte Moderna (MAM) pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Além de Cesar Maia e do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzmann, marcou presença na festa o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Todas as autoridades manifestaram seu entusiasmo com a possibilidade de receber os Jogos: “Será a redenção do Rio de Janeiro”, resumiu Cesar.

Não se sabe se a redenção virá em 2016, mas o sonho de receber as Olimpíadas deve começar desde já a pesar sobre os cofres públicos. Segundo a apresentação feita por Nuzmann, velhos obstáculos como os “gargalos de infra-estrutura” e os “problemas ambientais” precisam ser imediatamente remediados, sob pena de vermos a candidatura carioca morrer no nascedouro. Para atingir tal objetivo, o presidente do COB estima que os governos municipal, estadual e federal, em parceria com a iniciativa privada, tenham que investir cerca de R$ 5 bilhões já a partir de 2008.

O principal foco de investimentos, segundo a Prefeitura e o COB, seria a construção de novas alternativas de transporte público, além da criação de corredores viários entre os locais das competições. Neste caso, foi sugerida a adoção do modelo BRT (Bus Rapid Transit), com a criação de corredores exclusivos para ônibus que interligariam a Zona Oeste (onde seriam realizadas a maioria das competições) com as Zonas Norte e Sul da cidade.

A proposta apresentada pela Prefeitura prevê três corredores para os BRTs, sendo que dois deles já têm concluídos os seus projetos e dependem apenas do acerto de parcerias com a iniciativa privada para que as obras sejam iniciadas. O Corredor T-5 ligaria a Barra (Zona Oeste) à Penha (Zona Norte), e tem custo inicial estimado em R$ 800 milhões. Outro trecho, batizado como Ligação C, ligaria a Barra a Deodoro (também na Zona Oeste), com custo inicial de R$ 540 milhões.

O terceiro corredor para os BRTs só será levado adiante se o Rio vencer a disputa para sediar as Olimpíadas. Seu projeto prevê a construção de um corredor exclusivo, com a criação de duas novas faixas, para a circulação de ônibus na Auto-Estrada Lagoa-Barra, o que potencializaria o tráfego vindo da Zona Sul. O terceiro corredor exigiria também as construções de um viaduto paralelo ao elevado Zuzu Angel e de um túnel paralelo ao Joá. Trata-se, portanto, do “filé mignon” das obras e não tem sequer seu custo inicial estimado.

Despoluição das lagoas

Outro foco de investimento público-privado para as Olimpíadas de 2016, segundo o COB e a Prefeitura, deverá ser a despoluição do complexo de lagoas da Barra, onde seriam realizadas diversas competições. A falta de um projeto convincente para sanar esse problema ambiental foi o que levou a última tentativa de candidatura olímpica do Rio, realizada em 2004 com vistas aos Jogos de 2012, a ser eliminada pelo COI ainda na primeira fase.

Cesar Maia afirma que a despoluição das lagoas da Barra depende do governo federal. O prefeito argumenta que há dez anos o Japan Bank International Cooperation (J-BIC) aprovou um empréstimo de R$ 372 milhões para ajudar a despoluir as lagoas, mas que a Prefeitura está impedida até hoje de entrar com sua contrapartida e dar início ao projeto, que tem custo total estimado em R$ 620 milhões: “Os recursos não saíram porque, para o governo federal, o município do Rio já havia estourado sua capacidade de endividamento. Agora, ou o governo federal autoriza o financiamento para a despoluição ou os Jogos Olímpicos no Rio estão inviabilizados”, diz.

PAC incluído

Para Carlos Arthur Nuzmann, a melhor maneira de evitar que a candidatura do Rio seja eliminada já no primeiro corte, que acontecerá em junho, é convencer o COI de que o cronograma de investimentos está sendo cumprido mesmo sem a certeza de classificação da cidade para a segunda fase da disputa. Com esse objetivo, ele incluiu na planilha de gastos do projeto olímpico carioca até mesmo o custo de obras previstas no PAC, como os R$ 1,2 bilhão que a União e o Governo do Estado prometeram investir na construção do Arco Rodoviário.

Outra proposta do COB é a construção de um Centro Olímpico de Treinamento, a ser erguido na área atualmente ocupada pelo Autódromo de Jacarepaguá. Parte do terreno do autódromo já foi utilizada no Pan, com a construção de um parque aquático, um velódromo e uma arena multiuso. Com as novas obras propostas por Nuzmann, o terreno receberia quatro novos pavilhões, onde seriam disputadas 20 modalidades olímpicas, e também o futuro Centro Nacional de Tênis. O custo específico destas obras ainda não foi estimado.

Além do Rio de Janeiro, já apresentaram suas candidaturas para sediar as Olimpíadas de 2016 as cidades de Baku (Azerbaijão), Chicago (Estados Unidos), Doha (Qatar), Madri (Espanha), Praga (República Tcheca) e Tóquio (Japão).

Agência Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1

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As Batalhas contra Deus II

O signo da modernidade é também o signo da ascensão do ateísmo. Esta constatação do declínio de Deus tem sido feita tanto pelos intelectuais e cientistas, como também pelos líderes das grandes religiões instituídas. Especialmente esta é a opinião dos papas católicos desde o Syllabus de 1873 de Pio IX, que lançou um anátema de 80 artigos contra o mundo moderno, até a última encíclica de Bento XVI, a Spe Salvis, de 16/12/2007.

A reação antidarwinista

O palco maior da reação às teorias de Darwin tem sido os Estados Unidos, mais do que a Grã-Bretanha, pátria de Richard Dawkins e de Christopher Hitchens, os dois mais conhecidos difusores do neodarwinismo (um na área científica e o outro no campo midiático). A primeira forma de contestação partiu dos defensores do Criacionismo, em geral expressado por pastores batistas e de outras seitas pentecostais.

Baseados no Bible Belts, o Cinturão Bíblico, composto pelos estados sulistas nos quais a presença religiosa dos Evangélicos é mais atuante, os Criacionistas têm procurado impedir o ensino das teorias evolucionistas e darwinistas nas escolas públicas, considerando-as expressões de uma modernidade materialista e atéia que voltou suas costas a Deus.

Um tanto mais sofisticada é a teoria do Desenho Inteligente, cujo representante mais conhecido é o bioquímico norte-americano Michael Behe (in The Edge of Evolution) que, com argumentação, mais científica do que religiosa, procurou refutar alguns aspectos afirmativos do darwinismo, propondo a existência de um “desenhista original” que teria projetado determinadas características das espécies que não estariam submetidas ou afetadas pelo processo da evolução ou da luta pela sobrevivência.

Provavelmente esta foi uma das razões que tenha levado a dupla neodarwinista britânica a um cerrado ataque à religião e a Deus em suas últimas publicações. Mas também deve se considerar o efeito da tensão gerada no mundo anglo-saxão pela surpreendente restauração e expansão do fundamentalismo religioso nos últimos anos que, segundo Christopher Hitchens, estaria alimentando o conflito sem fim no Oriente Médio, contribuindo para a instabilidade da ordem mundial numa escala sem precedentes.

Bibliografia

Behe, Michael – A caixa preta de Darwin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Behe, Michael – The edge of evolution: in search of the limits of Darwinism:

Nova York: Simon&Schuster, 2007.

Darwin, Charles – Origem das Espécies. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002.

Dawkins, Richard – O relojoeiro cego. São Paulo: Cia das Letras, 2001

Dawkins, Richard – Deus – um delírio. São Paulo: Cia. das Letras, 2007

Denton, Michael - Evolution: A Theory in Crisis. Bethesda: Adler & Adler, 1985.

Denton, Michael - Nature’s Destiny: How the Laws of Biology Reveal Purpose in the Universe, The New York: The Free Press, 1998

Hitchens, Christopher – Deus não é grande. Rio de Janeiro:Ediouro, 2007.

Miller, Kenneth – Finding Darwin´s God. A scientist´s search for common ground between God and Evolution. Nova York: Harpers Collins PS Edition, 2007.

Minois, George - História do Ateísmo. Lisboa. Editor Teorema. 2004.

Throwes, James – Breve história do ateísmo ocidental. Lisboa;Edições 70 , 1982

Terra Educação
http://noticias.terra.com.br/educacao

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Chico Mendes, 19 anos

MEMÓRIA Entrevista pouco divulgada reconstrói a formação educacional revolucionária do seringueiro.

da Redação

POR OCASIÃO do 19º aniversário de morte de Chico Mendes, o Brasil de Fato publica trechos de um depoimento dado pelo próprio seringueiro sobre a sua formação educacional revolucionária. O relato serve de contraste ao discurso ecologicamente correto criado por ambientalistas após sua morte, que apresenta a imagem de um Chico Mendes despolitizado.
Chico, que nasceu em 15 de dezembro de 1944, foi assassinado na porta de sua casa no dia 22 de dezembro de 1988 – exatamente uma semana após completar 44 anos. Desde então, dezembro, mês de seu nascimento e morte, é o mês em que sua vida é relembrada.
Um desconhecido
Nos meados de 1961 ou 1962, apareceu uma pessoa desconhecida no nosso barraco. Havíamos, há pouco tempo, chegado da estrada de seringa e já estávamos começando a defumar o leite. Essa pessoa vinha de viagem, tinha ido ao barracão do seringal comprar mercadorias. Quando ele chegou e nos cumprimentou, eu percebi que era uma pessoa diferente. Não se parecia com os outros companheiros de nossa vizinhança. Nós tínhamos aquela nossa forma tradicional de falar, pessoas humildes, fala de homem da mata. Ele nos revelou que morava ali perto, três horas de distância da nossa colocação. O visitante logo verificou que eu estava interessado em sua conversa, pra mim era curioso encontrar uma pessoa tão diferente.
Política
“Por gostar de receber as pessoas que viajavam, meu pai ofereceu nosso humilde barraco para que o visitante pernoitasse. Ele tinha uma conversa bonita. Falava de política, falava em coisas que eu nunca havia ouvido falar em minha vida. Fiquei até altas horas da noite. Ele convidou a meu pai e a mim pra irmos até a sua casa.
Eu não sabia ler
No dia de folga, fui com meu pai até sua colocação. Observei que sua vida era diferente da dos outros companheiros seringueiros. Ao tomar conhecimento de que eu não sabia ler, perguntou se isso me interessava. Respondi que sim. Foi além e perguntou, ‘por que você tem vontade de aprender?’ Expliquei que era pra descobrir o roubo dos patrões. A gente, por não saber ler e contar, era enganado e não podia provar que estava sendo roubado. Após ouvir atentamente a minha conversa, se dispôs a me ensinar. Todos os sábados à tarde eu deveria caminhar até sua casa, pernoitaria e, durante a noite, teria aulas.
Notícias de jornal
Os primeiros dias foram muito difíceis. Não havia cartilha do ABC. Ele não me ensinava por esse método. Ele começava a ler comigo uma história de um jornal, recorte de jornal. Eu não conhecia jornal, nunca tinha visto. Aqueles jornais chegavam às suas mãos com dois ou três meses de atraso. As dificuldades iniciais foram pouco a pouco sendo superadas.
Com mais ou menos três meses, eu comecei a ler também. Entendia as letras e passei a me interessar muito mais. Depois de um ano, eu já sabia ler e escrever corretamente. Passei a me preocupar com os companheiros de minha região, eles não sabiam ler e escrever. Isso não preocupava meu instrutor, falava que era muito difícil e complicado fazer aquilo com mais pessoas.
Revolução socialista
Pouco tempo depois, ele conseguiu um rádio de pilha. Pela primeira vez, eu ouvia programas de rádios internacionais. Ouvia a BBC de Londres, a voz da América, a Central de Moscou, uma emissora comunista. Ouvíamos com atenção todo o noticiário. Às altas horas da noite, ouviase o programa de rádio Paz e Progresso, esse era o que mais interessava. Nele se falava da revolução socialista, da reforma agrária, da organização dos trabalhadores e dos sindicatos, da ideologia do movimento. No outro dia, eu recebia uma aula baseada em tudo aquilo. Logo após a aula, abria-se uma discussão. Eu fazia perguntas e ele explicava o significado dos programas.
Leituras
“No seringal, as pessoas costumam dormir muito cedo. O silêncio da floresta, o não ter o que fazer, mesmo a obrigação de acordar muito cedo para as tarefas do corte e coleta da seringa levam as pessoas muito cedo pra cama. Eu, pelo contrário, não sentia sono, lia e conversava até a madrugada. Não me sentia mais só.
Um comunista
O tempo de convívio foi estabelecendo uma relação de confiança entre nós. O meu instrutor começou pouco a pouco a se identificar. Era muito desconfiado. Depois de um ano dessa convivência, ele passou a revelar as suas origens, o seu passado. Seu nome era Euclides Fernandes Távora, havia sido militar. Participara do levante comunista de 1935. Era prestista. Estivera preso na ilha de Fernando de Noronha, de onde conseguira fugir para o Pará.
Lá, se envolvera em outras escaramuças, tendo que se exilar na Bolívia. Contava que, na Bolívia, se envolveu com o movimento dos mineiros e depois com a Revolução de 1952, ao lado dos camponeses. Ele não conseguia contar bem essa história, mas a verdade é que, se sentindo encurralado, teve que fugir e, se embrenhando na selva boliviana, chegou até a fronteira. Conviveu com seringueiros bolivianos por pouco tempo, e passou pro lado brasileiro.
Exploração
Muitos seringueiros que moravam nas proximidades o conheciam. Alguns se deslocavam até sua colocação pra conversar. Ele falava do preço da borracha, da exploração dos seringueiros. Isso com muita cautela.
Lia as notícias dos jornais e se dizia também seringueiro, só que não sabia cortar seringa. Alguns companheiros chegaram a comentar comigo que ele sabia ler muito bem, mas não sabia escrever. Ninguém havia visto a sua letra. Eu também nunca vi. Eu sabia que ele escrevia muito bem, só que não entendia porque ele tinha um cuidado tão grande. Enquanto estava dando as aulas, às vezes, ele anotava as coisas, mas, em seguida, queimava tudo que escrevia.
Luís Carlos Prestes
Com o golpe militar de 1964, a nossa atenção com as programações das rádios internacionais é aprofundada. Acompanhamos, por meio dos noticiários, toda a violência que houve neste país. A BBC de Londres era ouvida de modo especial, pois nela era divulgado o que estava acontecendo. A rádio Central de Moscou fazia comentários e denunciava prisões e torturas contra presos políticos e lideranças sindicais. Através da Central de Moscou, cheguei a ouvir entrevista gravada com Luís Carlos Prestes.
O caminho
Os últimos contatos com Euclides foram no ano de 1965. Nesse ano, suas conversas foram reveladoras. Dizia ele: “Chico, nós temos pela frente duros anos de repressão, de ditadura, de linha dura, mas fique certo de que o movimento de liberação neste país e de qualquer lugar do mundo nunca se acabará”.
Eu ficava emocionado quando ele colocava aquilo. Falava que o ideal revolucionário de liberdade iria continuar vivo. A ditadura poderia continuar 15, 18 anos, mas não duraria todo o tempo. O movimento de resistência iria se fortalecer, abrindo brechas para criação de novas associações e sindicatos. “É lá que você tem que atuar, apesar do controle das organizações trabalhistas pelo governo”.
Euclides, meu velho amigo e instrutor, queixavase de se encontrar muito doente. Nesse mesmo ano, saiu de sua colocação pra Xapuri. Não voltei a encontrá-lo’.

Brasil de Fato

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Petróleo em NY fecha acima de US$ 100 pela primeira vez

NOVA YORK, 19 Fev 2008 (AFP) - O petróleo, que valia menos de US$ 2 por barril em 1970, disparou nos últimos anos, fechando hoje, pela primeira vez na história, acima dos US$ 100 (a US$ 100,01) em Nova York, em meio aos temores redobrados de uma redução da oferta dos países exportadores.
Durante quase 40 anos o preço oscilou, acompanhando os movimentos de altas e baixas do dólar, numa escalada que também resultou de um aumento desenfreado do consumo, sobretudo na China e na Índia, e das pressões especulativas.
Segue a cronologia, em dólares correntes, da evolução dos preços da commodity no mercado dos EUA:
- 1970: o petróleo saudita é fixado a US$ 1,80 o barril, segundo dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos.
- 1974: o preço de compra para as refinarias passa dos US$ 10 o barril, após o primeiro choque do petróleo (Embargo da Opep durante a guerra do Yom Kippur).
- 1979: o petróleo importado supera os US$ 20, imediatamente após a explosão da Revolução iraniana, que provoca o segundo choque do petróleo.
- 1980: o petróleo custa às refinarias mais de US$ 30 pela primeira vez e sobe até US$ 39 no início de 1981, em plena guerra Irã-Iraque.
- 1983: as cotações do petróleo começam no New York Mercantile Exchange (Nymex).
- Fim de setembro-começo de outubro de 1990: as cotações atingem rapidamente a cotação de US$ 40, antes da Guerra do Golfo, mas recuam.
- Maio de 2004: a cotação passa dos US$ 40 no mercado nova-iorquino.
- Setembro de 2004: com o mercado preocupado com o abastecimento, a cotação passa dos US$ 50.
- Junho de 2005: o barril passa dos US$ 60.
- Finais de agosto de 2005: a cotação chega aos US$ 70, quando o furacão Katrina castiga o Golfo do México.
- 12 de setembro: o barril de "light sweet" passa dos US$ 80. O mercado está preocupado com a situação das reservas estratégicas americanas.
- 18 de outubro de 2007: os preços passam dos US$ 90 nas operações eletrônicas.
- 26 de outubro: o barril passa dos US$ 92 devido às ameaças de intervenção militar turca no Iraque e novas sanções dos EUA contra o Irã.
- 29 de outubro: a commodity chega a US$ 93 devido à redução temporária da produção mexicana provocada pelo mau tempo.
- 31 de outubro: os preços chegam a US$ 95 após uma forte queda das reservas americanas e a decisão do Federal Reserve de voltar a reduzir suas taxas de juros.
- 6 de novembro: o temor de um novo recuo das reservas americanas leva o preço a US$ 97 o barril.
- 7 de novembro: o barril passa dos US$ 98.
- 21 de novembro: o petróleo chega aos US$ 99,29 em Nova York.
- 27 de dezembro: o preço do petróleo recua e fica em torno dos US$ 95, mas volta a subir no fim do mês a mais de US% 97 após o assassinato da líder da oposição e ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto.
- 2 de janeiro: o petróleo chega a US$ 100 o barril.

UOL

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FIDEL DEIXA O PODER

"Desejo apenas combater como um soldado das idéias"

Líder cubano anunciou nesta terça-feira que não voltará a assumir a presidência do Conselho de Estado principal instância de poder do país. Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como um soldado das idéias. Será uma arma a mais no arsenal com o qual se poderá contar”, diz Fidel.

Redação - Carta Maior

Fidel Castro anunciou hoje (19) que não voltará a ocupar a presidência de Cuba. A renúncia foi divulgada por meio de uma carta publicada no jornal Granma. “A meus caros compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger, recentemente, como membro do Parlamento (…) comunico que não desejarei nem aceitarei – repito – não desejarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante Chefe”, afirma a carta.
E acrescenta: “Desempenhei o honroso cargo de Presidente ao longo de muitos anos (…) Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da maioria do povo”. Fidel fala das limitações que os problemas de saúde trouxeram e lembra que o adversário a ser derrotado é muito forte. “Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como um soldado das idéias. Será uma arma a mais no arsenal com o qual se poderá contar”.
Líder da Revolução Cubana de 1959, Fidel Castro deixou o comando do país em julho de 2006 por problemas de saúde. Neste período, seu irmão Raul Castro assumiu interinamente a função de presidente do Conselho de Estado. Agora, aos 81 anos, Fidel anuncia que não voltará mais ao cargo. Na carta divulgada nesta terça-feira, ele não faz referência ao seu sucessor.
Em relação ao futuro comando político do país, diz apenas: “Felizmente nosso processo conta com quadros da velha guarda, juntamente com outros que eram muito jovens quando se iniciou a primeira etapa da Revolução”. No dia 20 de janeiro deste ano, Cuba realizou eleições para renovar a Assembléia Nacional. Nesta ocasião, fico definido que no dia 24 de fevereiro seria escolhido o novo presidente do Conselho de Estado, principal instância de poder do governo cubano. Raul Castro é apontado como o provável sucessor de Fidel.
A íntegra da carta de Fidel:
Na carta divulgada nesta terça-feira, Fidel Castro afirma:
"Prometi a vocês na sexta-feira, 15 de fevereiro, que na próxima reflexão abordaria um tema de interesse para muitos compatriotas. A mesma adquire desta vez a forma de mensagem.
Chegou o momento de postular e escolher o Conselho de Estado, seu presidente, vice-presidentes e secretário.
Desempenhei o honroso cargo de presidente ao longo de muitos anos. Em 15 de fevereiro de 1976 foi aprovada a Constituição Socialista por voto livre, direto e secreto de mais de 95% dos eleitores.
A primeira Assembléia Nacional foi constituída em 2 de dezembro daquele ano e elegeu o Conselho de Estado e sua Presidência.
Antes, tinha exercido o cargo de primeiro-ministro durante quase 18 anos. Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da imensa maioria do povo.
Sabendo de meu estado grave de saúde, muitos no exterior pensavam que a renúncia provisória ao cargo de presidente do Conselho de Estado, que deixei nas mãos do primeiro-vice-presidente, Raúl Castro Ruz, em 31 de julho de 2006, fosse definitiva.
O próprio Raúl, que adicionalmente ocupa o cargo de Ministro das FAR (Forças Armadas Revolucionárias) por méritos pessoais, e os demais companheiros da direção do partido e do Estado foram resistentes a me considerarem afastado dos meus cargos, apesar do meu estado precário de saúde.
Minha posição era incômoda frente a um adversário que fez tudo o imaginável para se desfazer de mim e ao qual não queria agradá-lo.
Mais adiante, pude recuperar o controle total da minha mente, a leitura e meditar muito, devido ao repouso. Tinha forças físicas suficientes para escrever por longas horas, o que fazia durante a reabilitação e os programas de recuperação. Um elementar bom senso me indicava que essa atividade estava a meu alcance.
Por outro lado, sempre me preocupei, ao falar da minha saúde, em evitar ilusões de que, no caso de um agravamento do quadro adverso, trariam notícias traumáticas a nosso povo no meio da batalha.
Prepará-lo para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação após tantos anos de luta.
Nunca deixei de destacar que se tratava de uma recuperação ‘não isenta de riscos’. Meu desejo sempre foi cumprir o dever até o último momento. É o que posso oferecer.
A meus compatriotas, que fizeram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo âmbito devem ser adotados acordos importantes para o destino de nossa Revolução, comunico a vocês que não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe.
Em breves cartas dirigidas a Randy Alonso, diretor do programa ‘Mesa Redonda’ da televisão nacional, que foram divulgadas por minha solicitação, foi incluídos discretamente elementos da mensagem que hoje escrevo, e nem sequer o destinatário das mensagens conhecia meu propósito.
Confiei em Randy porque o conheci bem quando ele era estudante universitário de Jornalismo, e me reunia quase todas as semanas com os principais representantes dos alunos, que já eram conhecidos como o coração do país, na biblioteca da ampla casa de Kohly, onde se abrigavam. Hoje, todo o país é uma imensa universidade".
Parágrafos selecionados da carta enviada a Randy em 17 de
dezembro de 2007:

"Minha mais profunda convicção é de que as respostas aos problemas atuais da sociedade cubana - que possui uma média educacional próxima de 12 graus, quase um milhão de pessoas com ensino superior completo e a possibilidade real de estudo para seus cidadãos sem nenhuma discriminação - requerem mais soluções para cada problema concreto do que as contidas em um tabuleiro de xadrez.
Nenhum detalhe pode ser ignorado, e não se trata de um caminho fácil, se é que a inteligência do ser humano em uma sociedade revolucionária prevalece sobre seus instintos.
Meu dever elementar não é me perpetuar em cargos, ou impedir a passagem de pessoas mais jovens, mas fornecer experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional que pude viver. Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final".
Carta de 8 de janeiro de 2008:
"Sou decididamente partidário do voto unido (um princípio que preserva o mérito ignorado). Foi o que nos permitiu evitar as tendências de copiar o que vinha dos países do antigo bloco socialista, entre elas a figura de um candidato único, tão solitário e ao mesmo tempo tão solidário com Cuba.
Respeito muito aquela primeira tentativa de construir o socialismo, graças à qual pudemos continuar o caminho escolhido.
Tinha muito presente que toda a glória do mundo cabe em um grão de milho.
Portanto, trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Explico sem dramas.
Felizmente nosso processo conta ainda com quadros da velha-guarda, junto a outros que eram muito jovens quando começou a primeira etapa da Revolução.
Alguns quase crianças se incorporaram aos combatentes das montanhas e depois, com seu heroísmo e suas missões internacionalistas, encheram de glória o país. Contam com autoridade e experiência para garantir a substituição.
Dispõe igualmente nosso processo da geração intermediária que aprendeu conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução.
O caminho sempre será difícil e exigirá o esforço inteligente de todos. Desconfio dos caminhos aparentemente fáceis da apologética, ou da autoflagelação como antítese. É preciso se preparar sempre para a pior das hipóteses.
Ser tão prudentes no êxito quanto firmes na adversidade é um princípio que não pode ser esquecido. O adversário a derrotar é extremamente forte, mas o mantivemos longe durante meio século.
Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias. Continuarei a escrever sob o título ‘Reflexões do companheiro Fidel’. Será mais uma arma do arsenal com o qual se poderá contar. Talvez minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso".

Carta Maior

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As Batalhas contra Deus

O signo da modernidade é também o signo da ascensão do ateísmo. Esta constatação do declínio de Deus tem sido feita tanto pelos intelectuais e cientistas, como também pelos líderes das grandes religiões instituídas. Especialmente esta é a opinião dos papas católicos desde o Syllabus de 1873 de Pio IX, que lançou um anátema de 80 artigos contra o mundo moderno, até a última encíclica de Bento XVI, a Spe Salvis, de 16/12/2007.

Iluminismo e Deísmo

A moderna contestação à existência de um Deus moral, hábil e capaz de influenciar os destinos humanos e responsável mor pelo bom andamento das coisas do universo, é obra do Iluminismo europeu do século XVIII. Se bem que a maioria dos filósofos daquela época, como Diderot, Voltaire e Kant (*), se refugiassem no Deísmo - a crença numa poderosa força racional, num primeiro motor que deu impulso ao cosmo e à vida, não indo além disso -, não chegaram ao extremo de abraçar o ateísmo. Para eles Deus fundia-se com a Razão.

Esta bandeira foi empunhada sim por dois pensadores assumidamente materialistas, contemporâneos deles: o barão D´Holbach e o filósofo e médico Offray de La Mettrie, que abandonaram qualquer tipo de conciliação com a idéia da existência de Deus, sem todavia jamais atingirem a celebridade dos citados acima.

Suas obras mais significativas foram Système de la nature (O Sistema da Natureza), que D´Holbach publicou em 1770, e o L’Homme-Machine (O Homem Máquina), um pequeno ensaio que La Mettrie fez aparecer em 1784, onde refutou a dualidade entre corpo (mortal, perecível) e alma (imortal, perpétua), defendendo a total interação entre eles.

Assim, nesta questão da existência ou não de Deus o Partido dos Filósofos dividiu-se entre os Deístas e os Materialistas, sendo que para muitos os Deístas eram apenas ateístas que não queriam assumir as conseqüências últimas, morais e psicológicas, da negação total da existência de um ser superior.

No campo da ciência seu representante mais efetivo foi do astrônomo e físico francês marquês de Laplace que, por meio do seu livro Méchanique Celeste, A Mecânica Celeste, de 1799-1825, defendeu uma cosmografia independente da presença divina, substituindo o ato da criação pela teoria da nebulosa.

Os resultados objetivos dessa primeira Batalha contra Deus, travada pelos iluministas, tanto contra o clero católico como contra os pastores protestantes, denunciados por eles como insufladores do fanatismo e do atraso do povo, proporcionaram o surgimento do Estado Laico (proclamado tanto pela Republica norte-americana, como, em seguida, pela Revolução Francesa de 1789), assim como o ensino publico secularizado e a afirmação da tolerância religiosa em geral.

Manifestação simbólica deste repúdio à religião e a Deus, foi a abolição do calendário cristão e a proposta dos revolucionários de rebatizar a catedral de Notre-Dame de Paris como “um Templo da Razão”. Proposição que também recebeu a adesão do filósofo positivista Auguste Comte que por igual criou um calendário próprio para expor o seu rompimento com o Mundo Teológico.

Certamente tudo isto abriu caminho para as políticas radicais de transformação social na medida em que, com a ausência de Deus, coube aos homens e à sociedade repararem as injustiças e as desigualdades sociais.

(*) Consta que Kant, tido como fundador do moderno agnosticismo, refugou o ateísmo quando percebeu que seu velho criado, o fiel Lampe, um homem simples, não poderia suportar a inexistência de Deus, alvo das suas cogitações metafísicas.Além disso, o Iluminismo alemão,o Aufklärung, não era tão ousado como o francês.

Idealismo e ateísmo

O segundo campo onde se travou a Segunda Batalha contra Deus foi a Alemanha da primeira metade do século XIX, cujas preliminares foram lançadas pelo livro intitulado Leben Jesu (”Vida de Jesus, examinada criticamente”), escrita por David Strauss e que causou furor desde sua aparição em 1835 (Nietzsche, por exemplo, admitiu que deixou de ser um crente e um cristão quando o leu ainda jovem).

Strauss, juntamente com os irmãos Bauer, Bruno, Edgar e Egbert, o filósofo Ludwig Feuerbach e o doutor Karl Marx, pertencia a uma nova corrente da filosofia alemã denominada Die Junge Hegelians, os jovens hegelianos, um grupo mais radical de discípulos do famoso filósofo G.W.F.Hegel, falecido em 1831, catedrático de filosofia da Universidade de Berlim. Desejavam aprofundar a dialética herdada dele, tido como a maior autoridade da metafísica alemã, com o intento de atacar o que entendiam ser a base do poder autoritário do estado prussiano: a religião.

Assim sendo, orientaram seus estudos, como Spinoza fizera no passado com os Evangelhos (no Tratado Teológico-Político, de 1670), no sentido de apresentar uma versão secularizada e não divina da figura de Jesus Cristo, ao tempo em que concentravam suas crítica no poder que os sacerdotes, a “padrecada” como os chamava Kant, exerciam sobre a sociedade da época. O alvo deles foi a Theologia Crucis, a Teologia da Cruz, defendida por Lutero e que dava suporte doutrinário ao Movimento Protestante alemão.
Marx, todavia, abriu dissidência com seus camaradas, os jovens hegelianos, particularmente os irmãos Bauer (os apelidou Die heilige Familie oder Kritik der kritischen Kritik, “A Sagrada Família”, editado em 1844), afirmando que o verdadeiro poder não se concentrava na religião mas sim no mundo material, na posse de propriedades e capitais. No mundo material que ele ergueu, Deus desapareceu. Tornou-se uma hipótese desnecessária como para Laplace.

A frase síntese que de certo modo definiu o pensamento deles foi dita por Marx mesmo: Religion is das Opium des Volke (”A religião é o ópio do povo”), concluindo que a religião, operação alienada, uma ilusão, era o reflexo invertido do mundo real.

O resultado objetivo do ateísmo dessa geração de idealistas alemães, fruto dessa segunda Batalha contra Deus, foi preparar o caminho para o Movimento Socialista e para o surgimento de partidos da classe trabalhadora, primeiro na Alemanha e depois pelo restante da Europa (a Internacional Socialista, fundada em 1864), bem como para a secularização geral do Estado Alemão, operação executada constitucionalmente pela República de Weimar (1919-1933) e depois, tanto pela Republica Federal Alemã (1948-1991) como pela Republica Democrática Alemã (1949-1989).

No século XX os principais seguidores dessa posição atéia foram os integrantes da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse, etc…), surgida a partir de 1923.

Darwinismo e ateísmo

Caudatária da sociologia se Herbert Spencer (1820-1903), difusora da idéia evolucionista e da expressão “sobrevivência dos mais aptos”, a biologia de Charles Darwin foi o mais formidável golpe que o ateísmo provocou na concepção religiosa da vida. Com ela abriu-se a terceira Batalha contra Deus, travada preferencialmente em solo britânico (e hoje transferido para os Estados Unidos). Desta feita foi a própria concepção da criação das espécies, particularmente a do Homem, quem entrou na liça.

A espetacular recepção que o livro dele Origin of Species, “A Origem das Espécies”, surgido em 1859, teve, vendendo milhares de exemplares em tempo curtíssimo, consagrando-se como primeiro best-seller da literatura cientifica moderna, já foi sintoma da mudança da mentalidade do setor mais esclarecido da população, ávido em buscar outras explicações que não fossem as extraídas dos Livros Sagrados. E, por igual, indicativa da necessidade de haver um outro entendimento para os fenômenos da natureza baseados nos princípios gerais do Iluminismo.

Lançadas em meio a desafios de toda ordem, do clima, do terreno e da ameaça das demais formas de vida, as espécies se fizeram a si mesmo, se auto-constituiram por assim dizer. Não foram geradas por Deus num só modelo ou forma, mas sim se constituindo e se adaptando ao longo da história natural, que datava de milhares e milhares de anos.

Por conseguinte não houve um ato de criação que as produzisse de uma só feita como constava no Gênese, visto que elas estavam em constante modificação e adaptação, bem mais longe no tempo do que a Data da Criação fixada em 4004 a .C. acolhida pelos religiosos.

Eram os obstáculos e as respostas dadas a eles quem de fato esculpiam e explicavam a diversidade biológica existente na Terra. Sujeitas à seleção natural imposta pela sobrevivência do mais apto, as espécies desapareciam ou se aperfeiçoavam sem que houvesse qualquer tipo de intervenção divina nesse processo. Darwin, enfim, banira Deus da vida.

Avesso ao envolvimento pessoal e direto com seus inúmeros antagonistas, Darwin encontrou em Thomas Huxley, um emérito médico, filósofo e naturalista, o seu qualificado escudeiro para enfrentar os anátemas que desabaram sobre ele vindos do casta sacerdotal.

Particularmente os do arcebispo Samuel Wilberforce com quem Huxley – que então se auto-designou como o buldogue de Darwin - protagonizou notável polêmica, um dos mais famosos debates, um clássico da ciência contra a religião, travado em Oxford, pela Associação Britânica para o Avanço da Ciência, em 30 de junho de 1860.

Décadas mais tarde, foi a vez de Sigmund Freud, um admirador de Darwin e cientista da natureza como ele, assumir a tarefa de banir Deus da constituição da alma humana. Para ele, como expôs tanto no ensaio Totem und Tabu, Totem e Tabu, de 1913, seguido do Die Zukunft eine Illusion, O Futuro de uma Ilusão, de 1927, o culto religioso e a crença em Deus originavam-se de um parricídio, o assassinato cometido pelos filhos da horda primal contra o patriarca que monopolizava as fêmeas.

O ato da formação da religião vinha assim manchado pelo sangue derramado durante o Banquete Totêmico patrocinado pelos filhos rebelados contra o pai. A prática religiosa, para Freud, assemelhava-se ao comportamento e as fantasias de um neurótico. Tudo não passava pois senão que uma grande ilusão tendente a desaparecer no futuro da humanidade. Darwin e Freud, generais emblemáticos dessa Terceira Batalha contra Deus, deram impulso a que as ciências naturais e as psicológicas também acelerassem passo rumo à secularização geral das pesquisas e dos costumes.

Terra Educação
http://noticias.terra.com.br/educacao

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Eleições na Sérvia serão a catarse das guerras dos Balcãs

Os sérvios escolherão entre a Europa e o isolamento nas eleições de domingo

Ramón Lobo

Belgrado é um mapa em escala da Sérvia ferida. Não é físico -pois quase não se vêem os edifícios destruídos pela Otan em 1999, só uma parte da televisão se mantém como monumento ao bombardeio, e o quartel-general do exército como indecisão do que fazer com as ruínas-, mas mental: a cartografia dolorida de um país estigmatizado como único carrasco dos crimes cometidos nos Bálcãs nos anos 90, que ainda não sabe se perdeu aquelas guerras e que agora se vê amputado em sua soberania em uma província que considera o berço espiritual da nação.

Oito anos depois da derrota militar de Slobodan Milosevic em Kosovo, sua política permanece incrustada como um vírus sob a pele de uma classe dirigente que se renovou apenas em nomes e discursos. Na realidade, a Sérvia vive presa desde 1989 em um quarto com a porta e as janelas fechadas, no qual mal se consegue respirar e onde ninguém se decide a mudar a maldita música. “Não sabemos quando começaram as guerras e não sabemos quando terminaram, por isso não podemos fazer o luto e a catarse necessários”, afirma o etnólogo e antropólogo Iván Colovic.

As eleições presidenciais de amanhã poderiam ser uma oportunidade para renovar esse ambiente, mas tudo indica que ajudarão a torná-lo ainda mais rarefeito. O principal inimigo do chefe de Estado da Sérvia, o europeísta, democrata e pragmático Boris Tadic, o homem que a UE deseja manter no poder, é a abstenção. Os jovens parecem mais interessados em ser vistos à noite nos bares de Strahinjica Bana, a rua da moda conhecida como Silicon Alley (avenida do silicone e dos espécimes de academia), do que acudir em massa às urnas. O tédio e o desencanto são maiúsculos em uma população que não encontra referências morais e para a qual a Europa começa a ser um sonho inatingível.

As últimas pesquisas dão a Tadic 35% das intenções de voto, empatado com o candidato do ultranacionalista, antieuropeu e pró-russo Partido Radical, Tomislav Nikolic, que poderia vencer no primeiro turno. Se nenhum deles superar 50%, como se espera, disputarão a presidência em 3 de fevereiro em um duelo extremamente perigoso para Tadic, para Kosovo, para a UE e a viabilidade de seus planos balcânicos.

“A campanha de Nikolic é excelente. Desta vez tem tudo para ganhar”, afirma Dejan Anastasevic, analista da revista “Vreme” (Tempo). “O Partido Radical capta o voto antiocidental, dos nacionalistas, das vítimas da transição, dos que perderam o trabalho e dos jovens que não encontram o primeiro emprego. Embora a maioria dos sérvios deteste os radicais e queira entrar na UE, Tadic é vítima das contradições, não pode vender Kosovo e a Europa ao mesmo tempo, e da grande divisão no campo democrata. Tadic compete com as costas cheias de facas”, acrescenta.

“Não à Europa sem Kosovo”, proclama um dos cartazes que povoam Belgrado, escrito em alfabeto cirílico, como obriga a nova Constituição. É uma mensagem clara e precisa que coincide com o discurso do primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, o homem que a comunidade internacional confundiu com um reformista quando na realidade é um nacionalista cada vez menos dissimulado. Aliado teórico de Tadic, apóia no primeiro turno outro candidato, Velimir Ilic, líder da Nova Sérvia e ministro das Infra-Estruturas. Kostunica rejeita a assinatura do Tratado de Associação e Estabilização com a UE, que deveria ser firmado em 28 de janeiro, porque o considera uma compensação grosseira pela perda de Kosovo.

“O anúncio desse acordo é um grave erro, porque se transformou em parte da campanha e prejudica Tadic”, afirma Anastasevic. “Caso seja assinado, Kostunica o bloqueará no Parlamento, o que seria uma humilhação para a UE, e se Bruxelas decidir que não seja assinado e o adiar será um golpe tremendo para Tadic, a poucos dias do segundo turno. O fará parecer frágil em um momento em que cada voto é crucial.”

A Sérvia se dirige novamente para uma encruzilhada. Nestas eleições não só se elege o presidente, o homem que tornará mais ou menos difícil a secessão de Kosovo; nestas eleições se escolhe entre dois modelos: uma Sérvia antieuropéia, isolada e vítima de seus fantasmas históricos e outra moderna e plenamente integrada à União Européia.

El País
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História sem fim

Fenômeno valorizado no século 19, mas que faz escola até hoje, obras inacabadas “desmascaram” escritores

PETER BURKE

Qual é o fascínio exercido pelo fragmentário, o inacabado? Ele se estende pelas artes, incluindo a “Sinfonia Inacabada” de Schubert e o “non finito” da Renascença italiana -especialmente, talvez, os escravos de Michelangelo, encomendados originalmente para o túmulo do papa Júlio 2º-, além de estantes e mais estantes de livros não terminados: obras de poesia e prosa, ficção e erudição, que normalmente ficaram inacabadas devido à morte de seus autores.
Entre as mais famosas obras de poesia inacabadas estão a tragédia de Friedrich Hölderlin “A Morte de Empédocles” e “Hipérion” [ed. Nova Alexandria], o épico iniciado por John Keats -se bem que, a rigor, devamos também incluir a “Eneida” [Martins Fontes], já que Virgílio ainda estava burilando o texto quando morreu, e, de fato, pediu para que o manuscrito fosse destruído precisamente porque não terminara de trabalhar sobre ele.
Entre os romances, um inglês pensaria de imediato em “Sanditon”, o livro em que Jane Austen estava trabalhando quando morreu (com apenas 42 anos) em 1817. Já um espanhol lembrará que a primeira parte de “Dom Quixote” foi vista como inacabada -ou, pelo menos, passível de ser continuada, quando primeiro publicada. Foi a tentativa de Avellaneda de levar a história adiante que persuadiu Cervantes a escrever a segunda parte.

Continuações
Continuações desse tipo, feitas por alguém que não o autor original, não eram incomuns nos séculos 16 e 17. Vêm à mente a segunda parte de “Lazarillo de Tormes”, a segunda parte original de “Guzmán de Alfarache” ou a segunda e terceira partes de “Diana”, de Montemayor, ou o humanista italiano Maffeo Vegio, que ousou continuar a “Eneida” de Virgílio, acrescentando um terceiro livro ao poema.
Entre as obras de erudição inacabadas, um exemplo famoso é o “Capital”, de Marx -o manuscrito é interrompido justamente quando o autor discutia as classes sociais, deixando a seus intérpretes a tarefa de adivinhar o que teria escrito. Um exemplo mais recente vem de Cambridge, onde o cientista e sinólogo Joseph Needham começou a publicar os vários volumes de seu “Science and Civilization in China” [Ciência e Civilização na China] em 1954, quando já tinha 54 anos.
Na década de 80, num jantar no Caius College [na Universidade de Cambridge], me recordo de ouvir um visitante norte-americano um tanto quanto destituído de tato indagar a Needham quando previa concluir seu livro. “Não há pressa”, respondeu o autor, com calma. Embora tenha vivido até os 95 anos, trabalhando até o final, Needham morreu antes de conseguir concluir o livro -mas legou o projeto a seus colegas e discípulos, de modo que é possível que a grande obra seja completada algum dia.
No caso de “Ciência e Civilização”, é difícil não lamentar o estado fragmentário da obra, como faríamos se Gibbon, por exemplo, tivesse morrido antes de terminar seu “Declínio e Queda do Império Romano” [Cia. das Letras], ou Proust, antes de concluir “Em Busca do Tempo Perdido” [Globo].
Mesmo assim, obras inacabadas de escritores famosos -como os escravos de Michelangelo, no caso da escultura- exercem sobre muitos leitores um fascínio especial. Por que isso acontece? Uma explicação possível enfatiza o papel do leitor, enquanto a outra privilegia o escritor.
Em primeiro lugar, as obras inacabadas deixam mais por conta da imaginação do leitor, que pode, por exemplo, especular sobre finais alternativos. É fato largamente sabido na publicidade que uma série inacabada de palavras ou imagens captura a atenção do público, porque muitos de nós sentimos uma compulsão em completar a série, como se fosse um quebra-cabeças com uma ou duas das peças faltando.
Outra explicação do fascínio exercido pelo “non finito” privilegia o criador ou, mais exatamente, a imagem que o leitor ou o espectador faz do criador. Tendemos a pensar que uma obra inacabada ou não burilada revela mais sobre o processo criativo do que faz a obra acabada -que nos diz mais sobre a personalidade real do escritor, que não teve tempo de desaparecer por trás da obra. Mas os leitores nem sempre pensaram assim.

Interesse crescente
Antes da ascensão do movimento romântico, havia menos interesse por obras de arte ou literatura inacabadas. Após o ano de 1800, mais ou menos, os europeus começaram a ler a literatura de maneira diferente, enxergando-a não como expressão da sabedoria coletiva, mas da personalidade individual do autor.
Veio daí o aumento do interesse, naquela época, pela publicação e leitura de diários e cartas particulares, redigidos sem nenhuma idéia de que algum dia pudessem sair impressos, e em estilo menos formal que os romances, por exemplo, ou poemas do mesmo autor. Cada vez mais, a formalidade passou a ser vista como modo de insinceridade, como uma espécie de teatro, e as obras inacabadas passaram a ser altamente valorizadas precisamente por proporcionar ao leitor um vislumbre da vida nos bastidores ou do pensamento em movimento.
O movimento romântico terminou há muito tempo, e a “morte do autor” já foi proclamada mais de uma vez. Ao mesmo tempo, o romantismo parece ter deixado uma marca indelével sobre a maneira como muitos de nós lemos, mesmo hoje. De qualquer maneira, novos desenvolvimentos na mídia, especialmente a ascensão das telenovelas, incentivam a idéia de que na arte, assim como na vida, as histórias nunca terminam de fato. Tome-se o caso do seriado de televisão norte-americano “Família Soprano”, exibido em seis partes e 86 episódios entre 1999 e 2007. Ele aparentemente chegou ao fim, mas pode ser retomado a qualquer momento. Afinal, outras séries já duraram muito mais tempo.
Muitas pessoas no Reino Unido ainda ouvem o drama radiofônico “The Archers”, ambientado no vilarejo rural fictício de “Ambridge”. Vem sendo transmitido regulamente desde 1951 e já teve mais de 15 mil episódios. Personagens individuais morrem, tanto no ar quanto na vida real, e os atores vão e vêm, mas o seriado continua, porque está associado à continuidade de uma família e uma cidadezinha.
Parece haver uma demanda crescente por formas de arte que evitam conclusões e que imitam o caráter confuso e indefinido da vida.

Folha de São Paulo
http://www.folha.uol.com.br/

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Por dentro da TV

Arlindo Machado

São 170 milhões de telespectadores. A partir do início da década de 1950, o Brasil tornou-se o país da televisão, num processo de conquista que começou quando as câmeras da PRF3-TV, a extinta TV Tupi de São Paulo, deram início à sedução. O país abraçou com gosto o eletrodoméstico, que determina padrões estéticos, modifica a linguagem popular, dita comportamento, oferece entretenimento fácil e, no fundo, não quer ser nada mais que uma luminosa e colorida vitrine para a venda de produtos e serviços. Em outras palavras, um bom negócio para os beneficiários das concessões dos canais comerciais. Essa visão extremamente crítica, adotada parcial ou totalmente por dez entre dez intelectuais, não impede, entretanto, que o veículo seja estudado nos meios acadêmicos. Teses e teses são produzidas todos os anos pela universidade, numa discussão que faz todo o sentido. Afinal, como negar o poder da televisão na vida das pessoas? Para o bem ou para o mal, sua influência tende a crescer ainda mais a partir de dezembro próximo, com o anunciado lançamento da TV digital no país. A tecnologia que, entre outros recursos, promove a convergência com a Internet, deverá tornar a televisão mais onipresente. Mas a promessa de um salto de qualidade no conteúdo vem de outra frente: a rede pública, bancada pelo governo federal, cujo lançamento também está prometido para os próximos meses. CULT convidou jornalistas especializados, pensadores e profissionais do setor a refletir sobre o passado, o presente e o futuro da televisão brasileira. O resultado está nos ensaios, depoimentos e entrevistas publicados no dossiê da CULT de julho, que já está nas bancas. Leia, abaixo, um dos textos do dossiê:

Modos de pensar a televisão

Apesar de considerado o meio de comunicação hegemônico a partir da segunda metade do século 20, a televisão é, na verdade, uma idéia do século 19. Num momento de intensiva expansão do capitalismo, fez-se necessário desenvolver formas de comunicação rápidas e à longa distância, preferencialmente em tempo real e sem transporte de objetos físicos, utilizando cabos ou ondas eletromagnéticas. É assim que surge o telégrafo (transmissão de texto), o telefone (transmissão de som) e a televisão (transmissão de imagem e som). O primeiro protótipo de televisão (ainda mecânico) foi proposto pelo pesquisador alemão Paul Nipkow, em 1884, portanto, bem antes da invenção técnica do cinema, mas a televisão eletrônica, tal como hoje a conhecemos, é resultado do esforço simultâneo de dois engenheiros, considerados os pais da mídia eletrônica: o russo Wladimir Zworykin (que trabalhou na Westinghouse e, depois, na RCA, nos EUA) e o norte-americano Philo Farnsworth, um inventor solitário.

Uma vez que o objetivo original da televisão era a transmissão de imagens em tempo real e presente, a operação ao vivo acabou por se revelar, dentre todas as possibilidades de televisão, aquela que marcou mais profundamente a experiência desse meio. A televisão nasceu ao vivo, desenvolveu todo o seu repertório básico de recursos expressivos num momento em que operava exclusivamente ao vivo e esse continua sendo o seu traço distintivo mais importante dentro do universo do audiovisual. De fato, a operação em tempo presente constitui a principal novidade introduzida pela televisão dentro do campo das imagens técnicas. A partir da televisão (como já acontecia com o rádio, no plano da transmissão sonora), o registro de um espetáculo, a sua edição e a sua visualização por parte da comunidade de espectadores podem se dar simultaneamente e é esse justamente o traço distintivo da transmissão direta: a recepção, por parte de espectadores situados em lugares distantes, de eventos que estão acontecendo em outros lugares e nesse mesmo instante.

A transmissão direta constitui, portanto, o primeiro formato de televisão, pois, como se sabe, as primeiras emissões televisuais foram transmissões ao vivo de eventos extratelevisuais, como os Jogos Olímpicos de Berlim (1936), a coroação do rei Jorge VI da Inglaterra (1937), a convenção do Partido Republicano norte-americano na cidade de Filadélfia (1940) e assim por diante. Daniel Dayan e Elihu Katz, em seu livro Media events: the live broadcasting of history, desenvolveram uma teoria muito interessante das cerimônias televisuais de exceção, que interrompem as convenções do fluxo convencional da televisão, quebram toda a grade de programação e unificam todos os canais em torno de uma celebração coletiva ao vivo. Os grandes exemplos da espécie são os funerais de líderes como Winston Churchill, John Kennedy, Indira Gandhi e Aldo Moro, a descida dos americanos à Lua, o casamento real de Charles e Diana na corte inglesa, as jornadas do papa João Paulo II à Polônia e do presidente egípcio Anwar al-Sadat a Jerusalém, os processos de Watergate no Senado norte-americano, os acontecimentos revolucionários na Europa oriental em 1989, os debates presidenciais no período pré-eleitoral e os atentados terroristas nos EUA em 11 de setembro de 2001.

Típicos exemplos brasileiros seriam os funerais de Tancredo Neves (1985) e Ayrton Senna (1994), a votação pelo Congresso Nacional do impeachment do presidente Fernando Collor (1992) e as finais de Copas mundiais de futebol. Nessas ocasiões, o país inteiro interrompe suas atividades para ver televisão e a recepção é quase que obrigatória. Quando bem sucedidas, essas transmissões mobilizam audiências esmagadoramente grandes, às vezes uma nação inteira, quando não o planeta todo, materializando a idéia mcluhaniana da “aldeia global”. Ainda de acordo com os autores acima citados, esses rituais coletivos que a televisão transforma em “história instantânea” têm o poder de modelar a memória coletiva, assim como de integrar e reorganizar sociedades inteiras em torno de um mito ou de uma vontade coletiva. Transmissões desse gênero - afirmam Dayan e Katz - estão intimamente ligadas à História, não apenas no sentido de que elas custodiam a vontade coletiva, mas, sobretudo, no sentido de que a representação de eventos que ainda estão em processo de realização pode influir em seu desenvolvimento e em suas conseqüências. Nesse sentido, mais que se referir à História, elas muitas vezes fazem (ou pelo menos marcam) a História.

Uma outra característica marcante da televisão é a seriação. Como se sabe, a programação televisual é muito freqüentemente concebida em forma de blocos, cuja duração varia de acordo com cada modelo de televisão. Uma emissão diária de um determinado programa é normalmente constituída por um conjunto de blocos, mas ela própria também é um segmento de uma totalidade maior - o programa como um todo - que se espalha ao longo de meses, anos, em alguns casos, até décadas, sob a forma de edições diárias, semanais ou mensais. Chamamos de seriação essa apresentação descontínua e fragmentada do programa televisual. No caso específico das formas narrativas, o enredo é geralmente estruturado sob a forma de capítulos ou episódios, cada um deles apresentado em dia ou horário diferente e subdividido, por sua vez, em blocos menores, separados uns dos outros por breaks para a entrada de comerciais ou de chamadas para outros programas. Muito freqüentemente, esses blocos incluem, no início, uma pequena contextualização do que estava acontecendo antes (para refrescar a memória ou informar o espectador que não viu o bloco anterior) e, no final, um gancho de tensão, que visa a manter o interesse do espectador até o retorno da série depois do break ou no dia seguinte.

Há várias explicações sobre as razões que levaram a televisão a adotar a seriação como a principal forma de estruturação de seus produtos audiovisuais. Para muitos, a televisão, muito mais que os meios anteriores, funciona segundo um modelo industrial e adota como estratégia produtiva as mesmas prerrogativas da produção em série que já vigoram em outras esferas industriais, sobretudo na indústria automobilística. A necessidade de alimentar com material audiovisual uma programação ininterrupta teria exigido da televisão a adoção de modelos de produção em larga escala, na qual a seriação e a repetição infinita do mesmo protótipo constituem a regra. Com isso, é possível produzir um número bastante elevado de programas diferentes, utilizando sempre os mesmos atores, os mesmos cenários, o mesmo figurino e uma única situação dramática. Enquanto produtos como o livro, o filme e o disco de música são concebidos como unidades mais ou menos independentes, que demoram um tempo relativamente longo para serem produzidos, o programa de televisão é concebido como um sintagma-padrão, que repete o seu modelo básico ao longo de um certo tempo, com variações maiores ou menores. O fato mesmo da programação televisual como um todo constituir um fluxo ininterrupto de material audiovisual, transmitido todas as horas do dia e todos os dias da semana, aliado ainda ao fato de que uma boa parte da programação é constituída de material ao vivo, que não pode ser editado posteriormente, exigem velocidade e racionalização da produção. A tradição parece demonstrar que um certo “fatiamento” da programação permite agilizar melhor a produção (o programa pode já estar sendo transmitido enquanto ainda está sendo produzido) e também responder às diferentes demandas por parte dos distintos segmentos da comunidade de telespectadores.

Mas, independentemente dessa explicação econômica, existem também razões de natureza intrínseca ao meio condicionando a televisão à produção seriada. A recepção de televisão em geral se dá em espaços domésticos iluminados, em que o ambiente circundante concorre diretamente com o lugar simbólico da tela pequena, desviando a atenção do espectador e solicitando‑o com muita freqüência. Isso quer dizer que a atitude do espectador em relação ao enunciado televisual costuma ser dispersiva e distraída em grande parte das vezes. Diante dessas contingências, a produção televisual se vê permanentemente constrangida a levar em consideração as condições de recepção e essa pressão acaba finalmente por se cristalizar em forma expressiva. Um produto adequado aos modelos correntes de difusão não pode assumir uma forma linear, progressiva, com efeitos de continuidade rigidamente amarrados como no cinema, ou então o telespectador perderá o fio da meada cada vez que a sua atenção se desviar da tela pequena. A televisão logra melhores resultados quanto mais a sua programação for do tipo recorrente, circular, reiterando idéias e sensações a cada novo plano, ou então quando ela assume a dispersão, organizando a mensagem em painéis fragmentários e híbridos, como na técnica da collage.

A noção de programa tem sido bastante questionada nas últimas décadas. Razões não faltam para isso: a televisão costuma borrar os limites entre os programas, ou inserir um programa dentro do outro, a ponto de tornar difícil a distinção entre um programa “continente” e um programa “conteúdo”. Além disso, os programas de televisão carregam a contradição de terem uma duração, de um lado, cada vez mais reduzida (spots publicitários, videoclipes, logos de identidade da rede televisual) e, de outro, cada vez mais dilatada (seriados, telenovelas). Nos dois casos, o que chamamos de programa resulta numa entidade tão difícil de ser identificada quanto definida. Nos anos 1970, Raymond Williams questionou o conceito “estático” de programa, por considerar que, na televisão, não existem unidades fechadas ou acabadas, que possam ser analisadas separadamente do resto da programação. Em lugar do conceito de programa, ele contrapôs o conceito mais “dinâmico” de fluxo televisual, em que os limites entre um segmento e outro não eram mais considerados tão marcados como em outros meios. Por outro lado, na televisão, a recepção tende a ser cada vez mais fragmentada e heterogênea, em decorrência do efeito zapping, ou seja, do embaralhamento de todos os canais com o controle remoto. Com a ameaça permanente desse dispositivo, já não se contam mais histórias completas, esfacelam-se as distinções de gênero e formato, não mais sobra sequer a distinção ontológica entre realidade e ficção.

Apesar disso tudo e mesmo que a singularidade do programa de televisão continue sendo questionada, investigações empíricas têm demonstrado que tanto a produção quanto a recepção televisual continuam se baseando fortemente em núcleos de significação coerentes, como os gêneros, os formatos e os programas. Em outras palavras, os programas, os formatos e os gêneros continuam sendo os modos mais estáveis de referência à televisão como fato cultural. Por essa razão, podemos nos perguntar se o fluxo televisual é o resultado da afirmação de alguma essência “natural” da televisão ou tão somente de uma contingência histórica particular. É preciso considerar finalmente - e esse nos parece o ponto mais importante - que a idéia de programa leva ainda, sobre a idéia de fluxo, a vantagem de permitir uma abordagem seletiva e qualitativa. O conceito de fluxo empastela toda a produção televisual num caldo homogêneo e amorfo, enquanto o de programa permite nitidamente distinguir diferenças ou perceber a qualidade que desponta sobre o fundo da mesmice.

Qualidade é hoje uma palavra-chave na área dos estudos de televisão, embora não seja um conceito fácil de definir. Geoff Mulgan, no livro The question of quality, enumera pelo menos sete diferentes acepções da palavra “qualidade” em circulação nos meios que discutem a televisão. Qualidade pode ser (1) um conceito puramente técnico, a capacidade de usar bem os recursos expressivos do meio: a boa fotografia, o roteiro coerente, a boa interpretação dos atores, a indumentária de época convincente etc. Esse conceito encontra-se difundido principalmente entre os profissionais que fazem televisão. Na direção contrária, qualidade pode ser (2) a capacidade de detectar as demandas da audiência (análise de recepção) ou as demandas da sociedade (análise de conjuntura) e transformá-las em produto, abordagem predileta dos comunicólogos e também dos estrategistas de marketing. A qualidade pode ser também (3) uma particular competência para explorar os recursos de linguagem numa direção inovadora, como o requer a abordagem estética. Já a abordagem que Mulgan chama de “ecológica”, identificada com o ponto de vista dos educadores e religiosos, prefere privilegiar (4) os aspectos pedagógicos, os valores morais, os modelos edificantes e construtivos de conduta que a televisão está potencialmente apta a promover. Mas se a televisão é vista como um ritual coletivo, a qualidade pode estar (5) no seu poder de gerar mobilização, participação, comoção nacional em torno de grandes temas de interesse coletivo, abordagem melhor identificada com o ponto de vista dos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita. Outros, pelo contrário, podem encontrar mais qualidade (6) em programas e fluxos televisuais que valorizem as diferenças, as individualidades, as minorias, os excluídos, em vez de a integração nacional e o estímulo ao consumo. Por fim, se é difícil conciliar tantos interesses divergentes, a qualidade pode estar (7) simplesmente na diversidade, o que significa dizer que a melhor televisão seria aquela que abrisse oportunidades para o mais amplo leque de experiências diferenciadas.

“Devo ressaltar - adverte Mulgan no mesmo livro - que a riqueza e a ambigüidade dessa palavra pode ser vista como uma virtude e não como um problema.” De fato, talvez se deva buscar, em televisão, um conceito de qualidade a tal ponto elástico e complexo, a ponto de permitir valorizar trabalhos nos quais os constrangimentos industriais (velocidade e estandardização da produção) não sejam esmagadoramente conflitantes com a inovação e a criação de alternativas diferenciadas; nos quais a liberdade de expressão dos criadores não seja totalmente avessa às demandas da audiência; nos quais ainda as necessidades de diversificação e segmentação não sejam inteiramente refratárias às grandes questões nacionais e universais. Numa sociedade heterogênea e complexa, em que não existe - felizmente - nenhum consenso sobre a natureza do meio, sobre seu papel na sociedade e sobre o modo como devem interagir produtores e receptores, uma televisão de qualidade deve ser capaz de equacionar uma variedade muito grande de valores e oferecer propostas que sintetizem o maior número possível de “qualidades”. De qualquer forma, sejam quais forem as nossas concepções com relação à televisão, a discussão sobre qualidade é sempre imprescindível. Fugir dessa discussão seria uma enorme irresponsabilidade. Nenhuma sociedade e nenhum setor da sociedade podem ser aperfeiçoados se não estiverem submetidos a julgamento e avaliação permanentes. A querela sobre o que é ou o que não é qualidade em televisão não deve servir de pretexto para se fugir do debate sobre o significado dos produtos e processos televisuais. A crítica, na verdade, é parte constituinte do próprio processo de fazer televisão.

Revista Cult
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Romênia, terra de italianos

Mirel Bran

Ao descer do avião no aeroporto de Timisoara, cidade a oeste da Romênia, o viajante pode ter a impressão de estar no norte da Itália. A propaganda e os nomes nas fachadas das lojas são bilíngües, em romeno e em italiano. Aliás, em muitos casos, trata-se das mesmas palavras, uma vez que as duas línguas têm raízes latinas. Mas, desde novembro, as relações entre esses “primos” longínquos ficaram conturbadas: o governo italiano acaba de promulgar um decreto de expulsão cujos alvos são principalmente romenos que emigraram para a península.

O assassinato de uma mulher por um rom (cigano) de origem romena radicalizou a opinião pública italiana contra a nova onda de imigração romena: 342.000 pessoas, segundo os números oficiais, 556.000, segundo a associação Caritas. Em conseqüência, desde o início de novembro, as agressões contra romenos se multiplicaram na Itália. Estes atos xenófobos podem causar importantes prejuízos nas relações comerciais entre os dois países. Com 22.000 empresas instaladas na Romênia, contra 7.000 empresas romenas na Itália, Roma é o principal parceiro econômico de Bucareste.

Os homens de negócios italianos instalados na Romênia são contra as medidas que foram tomadas por Roma e querem ser ouvidos. “Não vai ser com discursos populistas que solucionaremos o problema da ineficiência política”, afirma Michelangelo Rosso. “O problema mais grave é a ignorância total do problema, isso porque, no Oeste, ninguém tem a menor idéia de quem são os romenos. Eu posso lhe dizer que eu me sinto mais seguro como italiano na Romênia do que se eu fosse um romeno na Itália. Recentemente, quando um italiano matou uma romena após uma crise de ciúmes, as autoridades romenas não trataram um povo inteiro de delinqüentes. O tal criminoso foi condenado e basta”.

Este médico veterinário de Turim, que desembarcou em Timisoara em 2002 optou por se instalar em definitivo nesta última. Uma cidade-símbolo da queda da ditadura de Nicolau Ceausescu em dezembro de 1989, Timisoara tornou-se não apenas um mito para os romenos anticomunistas, como também o palco de uma “história de sucesso” para muitos investidores estrangeiros, a maioria de italianos. “Eu tinha 48 anos e comecei uma nova vida”, afirma Michelangelo Rosso. “Eu nunca teria sido tão bem-sucedido na minha Itália natal. Na Romênia, no entanto, tudo era possível, não apenas nos negócios, mas também para a vida em geral. O italiano que chega a Timisoara sente-se em casa. A língua é uma vantagem, mas também a sensação de encontrar novamente as cidades italianas tal como eu as conheci na minha infância. Aqui, tudo está por ser feito, e não é necessário uma fortuna para montar um negócio”.

Cerca de 12.000 italianos vivem nesta região que conta mais de 2.000 companhias italianas. A cidade que se orgulhava do seu apelido de “Pequena Viena” tornou-se neste meio tempo uma colônia italiana na qual o business prospera. Contudo, em 6 de novembro, em visita oficial na Romênia, o ministro italiano do desenvolvimento econômico, Pier Luigi Bersani, pôde dimensionar o impacto das tensões diplomáticas sobre as relações econômicas entre os dois países. Um grande número de romenos que se sentem ameaçados manifestou o desejo de retornar ao país assim que for possível.

Além disso, as grandes empresas italianas temem represálias neste país até então amigável. Os romenos começaram a considerar com certo rancor os italianos que vivem no seu país. “Há engenheiros italianos que recebem uma remuneração de cerca de dez mil euros por mês, ao passo que a maioria dos romenos não consegue receber sequer mil”, diz um empregado da central nuclear de Cernavoda, situada ao sudeste do país. “O problema é que eles não são tão competentes quanto afirmam”.

A companhia italiana Ansaldo espera concluir a construção de uma segunda estação nuclear na Romênia, junto com funcionários da canadense Candu. O projeto de um oleoduto de 1.360 km que deveria se estender entre a cidade romena de Constantza e Trieste, na Itália, também arrisca padecer da deterioração das relações diplomáticas entre os dois países. O destino deste projeto, que foi adiado em diversas oportunidades, depende inteiramente do bom entendimento romeno-italiano.

A crise entre os dois países também poderia ter repercussões na agricultura, isso porque, segundo o ministério italiano da agricultura, cerca de 300.000 hectares de terras romenas - 2% da superfície agrícola do país - foram comprados por italianos. “No meio deles, existem aqueles que chegaram com máquinas de última geração, e que modernizaram a nossa agricultura”, afirma Felicia Stoian, contadora que trabalha na prefeitura de Cilibia, uma aldeia situada a leste da Romênia. “Mas há também aqueles que compraram terras e que hesitam a investir”.

O paradoxo da onda de emigração romena - principalmente rumo à Itália e à Espanha - vem do fato de que a Romênia sofre, desde então, de falta de mão-de-obra. E isso vem causando uma quantidade cada vez maior de problemas para as empresas italianas que se instalaram no país. A auto-estrada Bucareste-Budapeste, cuja construção deveria ter sido iniciada neste ano, viu a sua realização ser postergada em pelo menos um ano. A auto-estrada Bucareste-Constantza, que deveria ser concluída em 2008, está longe de estar terminada.

Os 130.000 empregados romenos a serviço das companhias italianas não estão em número suficiente para atender às necessidades dos seus patrões transalpinos. Com isso, para compensar esta carência de mão-de-obra, a Sonoma Wear Company, uma sociedade têxtil italiana instalada em Bacau, no leste da Romênia, foi obrigada a terceirizar uma parte da sua produção junto a uma empresa romena que atualmente fornece trabalho para 300 chinesas. Resumindo, os romenos partem para a Itália, enquanto chineses chegam para substituí-los.

Será que existem outras soluções? “Eu conheço companhias italianas que se instalam na Romênia e contratam empregados romenos que elas já faziam trabalhar na Itália”, comenta Marco Rondina, o diretor do patronato italiano na Romênia. “Mas, para motivá-los, elas precisam oferecer-lhes uma porcentagem sobre os lucros”.

A Itália já desenvolveu o seu ritmo normal de negócios na Romênia. Mais de mil companhias italianas por ano deveriam continuar a se instalar no país, com a condição de que a situação volte ao normal. Cerca de 5.000 italianos viajam cotidianamente entre os dois países, e somente em Timisoara, o aeroporto oferece cerca de vinte vôos por dia. Mas, para os romenos que embarcam rumo à Itália, a viagem apresenta uma série de perigos.

Le Monde
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Padre Antônio Vieira: 400 anos

17.02.2008

Inácio Strieder

O dia 6 de fevereiro de 2008 teria sido motivo de gloriosas recordações tanto para a história cultural, como para o cristianismo no Brasil. Pois no dia 6 de fevereiro de 1608 nasceu em Lisboa o menino que entraria na história do Brasil e na literatura da língua portuguesa com o inesquecível nome de padre Antônio Vieira. Com certeza, a imponente figura de Antônio Vieira teria merecido lembranças mais vigorosas na passagem de seu quarto centenário de nascimento. A grande mídia, mal e mal, lhe dedicou 30 segundos de menção, os seus confrades jesuítas, em alguns recantos do País, o terão lembrado um pouco mais. Contudo, sem repercussão popular. De resto, nas instâncias católicas e cristãs em geral, a data passou em brancas nuvens. Parece que no Brasil gostamos de fazer mais o que Voltaire criticava em seu tempo, quando suplicava: “Não transformemos em heróis depois da morte os salafrários desta vida.” Nos livros escolares de história não se poupam louvores aos bandeirantes paulistas, que entravam nos sertões caçando índios, seqüestrando, estuprando, massacrando. Estes são considerados os heróis desbravadores de nossos sertões.

E por que a maioria da juventude de hoje, deste País, chega à universidade sem nunca ter ouvido falar de Antônio Vieira? Ele, além de ser colocado entre os grandes missionários, deveria estar entre os grandes sertanistas, pois se embrenhou pela Amazônia como poucos na época. Em Santarém existem lembranças da visita de Vieira, nos museus de Belém encontramos a presença de Vieira, as ruínas jesuíticas de Joannes na Ilha de Marajó recordam Vieira, em São Luís do Maranhão a presença polêmica de Vieira deixou sinais de muitas formas. No Maranhão Vieira lutou, e conseguiu do rei de Portugal, que a escravidão indígena fosse proibida no Brasil. Isto lhe custou a expulsão daquela província. E, posteriormente, em um de seus sermões, disse que Maranhão começa com o mesmo “m” de mentira. Pois por lá se mente com todas as formas do verbo “mentir”. Na igreja do Seminário de Olinda ainda se encontra um púlpito a partir do qual Vieira teria pronunciado alguns de seus célebres sermões, neste seminário ele também lecionou diversas disciplinas. Na Bahia, onde chegou acompanhando a família, com 6 anos de idade, estudou, entrou na Ordem dos Jesuítas, lecionou, fez o célebre sermão contra a invasão holandesa e faleceu aos 18 de julho de 1697. O Colégio dos jesuítas, em Salvador, onde faleceu, hoje leva seu nome: Colégio Antônio Vieira. Ainda em vida, por incentivo do rei de Portugal, Vieira começou a publicar seus sermões. Na apresentação da primeira parte destes sermões, publicada em 1679, Vieira explica aos leitores que a sua vida esteve “a serviço de Deus e da pátria”, e por diferentes terras e mares foi obrigado a falar em público de diversas maneiras.

Por que lembrar Vieira? Pelo que escreveu e fez, ele foi um homem de seu tempo. Intranqüilizou consciências injustas, desumanas e hipócritas. Por isto foi expulso por poderosos, levado aos tribunais da Inquisição. Aprendeu a língua geral tupi-guarani, e quando não lhe permitiram abrir a primeira universidade no Brasil, declarou que haveria de instalar uma verdadeira universidade debaixo do telhado de palha dos indígenas. Com certeza, nem o Brasil nem o cristianismo brasileiro seriam o que são, sem o padre Antônio Vieira.

Inácio Strieder é teólogo e filósofo.

Jornal do Commércio

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A opacidade natural da República

Governos praticam o segredo e a oposição corre atrás de escândalos, ignorando o que de fato interessa

Renato Lessa

A despeito de surtos governamentais de virtude auto-atribuída, é da natureza dos governos a opacidade. A idéia de um governo transparente soa - ou deveria soar - a ouvidos adultos quase como um oxímoro. Com efeito, o planeta parece estar ocupado por governos que praticam em maior ou menor grau - e com doses diversas de pudor - a arte do segredo. Ao que tudo indica, eventuais tendências declinantes nas taxas de segredo público são antes função da irredenção da saloiada que da capacidade governamental de auto-reforma.
O mantra da transparência tomou conta do parco vocabulário público. É desses termos cuja repetição contrita parece conferir ao locutor a plenitude existencial da assepsia moral. Trata-se de uma espécie de varredura na alma, análoga, imagino eu, à experiência católica da deglutição da hóstia, quando vivida de forma genuína.
Mas, do que se trata? É possível seguir assim com tanta parvoíce? A crer que não há virtude maior do que a da honestidade e da transparência na política? Claro está que há, pelo menos, duas direções possíveis para tratarmos do tema da visibilidade na política. A mais grave de todas diz respeito à crescente visibilidade dos cidadãos por parte da capacidade de observação estatal, para diversos fins. Da fúria fiscal dos instrumentos de detecção da Receita Federal ao exame minucioso da composição das bancas de exame de dissertações de pós-graduação, há um ideal que cobre a gestão da República de tudo ver, classificar, cobrar e avaliar. Uma obsessão panóptica parece não estar fora dos horizontes de alguns gestores da República. E como é da natureza das obsessões o não se observar quando se age no mundo, o voyerismo oficial é seletivo. Deixa intactos, por exemplo, facínoras homenageados no que há de pior no carnaval carioca.
O sentido comumente empregado do surrado termo transparência, por sua vez tem a ver com o grau de visibilidade do domínio público. Nesse campo, ao contrário do anterior, o déficit é vultoso. A justificativa tucano-pefeliana de que privatizações, por exemplo, eliminam zonas obscuras do Estado, acabou por privatizar a opacidade. Dr. Pangloss não resistiria à experiência de lidar com operadoras de telefonia celular.
Os programas de transparência aplicados pelos governos trazem consigo zonas de sombra, de opacidade. O Portal da Transparência do governo federal, por exemplo, mostra o que pode mostrar. Há avanços com relação ao segredo absoluto que cobria os hábitos, quando no governo, de vestais recém-convertidas à causa da proteção do Erário. Agora, mostra-se algo, mas a opacidade persiste na limitada capacidade de análise e no fato de que a maior parte dos gastos lá não consta. O que aparece são vestígios, suficientes para suscitar inspeção, formulação de dúvidas procedentes e aperfeiçoamento.
O descontrole governamental em, pelo menos, parte do que se revela é evidente. O papel constitucional da oposição e das instituições de controle deve incidir sobre esse ponto. O que desde já salta à vista é a contradição - como dizíamos nos bons tempos - entre o padrão de visibilidade proporcionado pela, digamos, “ferramenta” e a expectativa de opacidade por parte de alguns ordenadores de despesa. A toleima humana revelada em situações de heterodoxia no gasto público é fascinante e democrática em seus efeitos contábeis: vai da tapioca do ministro ao apartamento do reitor. É evidente que alguém tem que cuidar e explicar isso. Mas, é o caso de, em um efeito metonímico perverso, de ocupar o centro da agenda política da República?
O lugar do “escândalo dos cartões corporativos” na agenda da oposição é indício da baixa qualidade da atividade política em curso no país. O governo da República desenvolve no momento diversos programas de intervenção na sociedade brasileira. Alguns em curso efetivo, outros em vias de implementação e alguns no cérebro de nefelibatas. Seu ativismo exige a presença de oposição qualificada. Se o imobilismo governamental é um desastre, as virtudes do ativismo trazem consigo a possibilidade ordinária do erro e ocasião para coisa pior.
A liderança parlamentar da oposição aparece ao País como qualificada para a detecção de escândalos, ao mesmo tempo que silente diante de decisões, estratégias e intervenções com forte impacto sobre a vida brasileira. Mais do que às bancadas do governo, a inteligência e a imaginação são recursos necessários para a ação das oposições parlamentares. Para o governo, a alimentação das bancadas dóceis não exige a mobilização das energias cognitivas dos membros da base aliada. É administrar o botim e controlar o baixo clero, a malta que lembra o deputado Numa Pompílio de Castro, personagem de Lima Barreto em A Numa e a Ninfa, que de tão discreto na faina parlamentar era, com freqüência, barra