Apesar das críticas ao Pan, Rio se lança às Olimpíadas de 2016

Ainda em conflito com a oposição, que o acusa de “torrar” R$ 4 bilhões na organização do Pan 2007, prefeito Cesar Maia abraça projeto de candidatura olímpica, que tem custo inicial estimado pelo COB em R$ 5 bilhões.

Maurício Thuswohl

RIO DE JANEIRO – Jogos Pan-Americanos, Copa do Mundo, Olimpíadas. O Rio de Janeiro é, decididamente, uma cidade esportiva. A cada evento que se organiza, a cada candidatura que se constrói, no entanto, a disputa criada em torno dos gastos públicos, do custo dos projetos, da pertinência das obras de infra-estrutura e dos supostos benefícios obtidos indevidamente por este ou aquele grupo político vem à tona e mostra que o verdadeiro esporte carioca é mesmo a polêmica.

Ainda sem ter saído da briga com a oposição, que tenta instalar uma CPI do Pan e acusa a Prefeitura de “torrar” no ano passado R$ 4 bilhões dos cofres municipais com a organização dos Jogos sem que isso se traduzisse em benefícios para a população da cidade, o prefeito Cesar Maia (DEM) já embarca empolgado em outro ambicioso projeto: as Olimpíadas de 2016. Na sexta-feira (11), o Rio manifestou oficialmente ao Comitê Olímpico Internacional (COI) seu desejo de sediar o maior encontro esportivo do planeta daqui a oito anos. O custo inicial estimado para bancar esta nova aventura é de R$ 5 bilhões.

O projeto de pré-candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016 foi apresentado à imprensa na semana passada, em cerimônia organizada no Museu de Arte Moderna (MAM) pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Além de Cesar Maia e do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzmann, marcou presença na festa o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Todas as autoridades manifestaram seu entusiasmo com a possibilidade de receber os Jogos: “Será a redenção do Rio de Janeiro”, resumiu Cesar.

Não se sabe se a redenção virá em 2016, mas o sonho de receber as Olimpíadas deve começar desde já a pesar sobre os cofres públicos. Segundo a apresentação feita por Nuzmann, velhos obstáculos como os “gargalos de infra-estrutura” e os “problemas ambientais” precisam ser imediatamente remediados, sob pena de vermos a candidatura carioca morrer no nascedouro. Para atingir tal objetivo, o presidente do COB estima que os governos municipal, estadual e federal, em parceria com a iniciativa privada, tenham que investir cerca de R$ 5 bilhões já a partir de 2008.

O principal foco de investimentos, segundo a Prefeitura e o COB, seria a construção de novas alternativas de transporte público, além da criação de corredores viários entre os locais das competições. Neste caso, foi sugerida a adoção do modelo BRT (Bus Rapid Transit), com a criação de corredores exclusivos para ônibus que interligariam a Zona Oeste (onde seriam realizadas a maioria das competições) com as Zonas Norte e Sul da cidade.

A proposta apresentada pela Prefeitura prevê três corredores para os BRTs, sendo que dois deles já têm concluídos os seus projetos e dependem apenas do acerto de parcerias com a iniciativa privada para que as obras sejam iniciadas. O Corredor T-5 ligaria a Barra (Zona Oeste) à Penha (Zona Norte), e tem custo inicial estimado em R$ 800 milhões. Outro trecho, batizado como Ligação C, ligaria a Barra a Deodoro (também na Zona Oeste), com custo inicial de R$ 540 milhões.

O terceiro corredor para os BRTs só será levado adiante se o Rio vencer a disputa para sediar as Olimpíadas. Seu projeto prevê a construção de um corredor exclusivo, com a criação de duas novas faixas, para a circulação de ônibus na Auto-Estrada Lagoa-Barra, o que potencializaria o tráfego vindo da Zona Sul. O terceiro corredor exigiria também as construções de um viaduto paralelo ao elevado Zuzu Angel e de um túnel paralelo ao Joá. Trata-se, portanto, do “filé mignon” das obras e não tem sequer seu custo inicial estimado.

Despoluição das lagoas

Outro foco de investimento público-privado para as Olimpíadas de 2016, segundo o COB e a Prefeitura, deverá ser a despoluição do complexo de lagoas da Barra, onde seriam realizadas diversas competições. A falta de um projeto convincente para sanar esse problema ambiental foi o que levou a última tentativa de candidatura olímpica do Rio, realizada em 2004 com vistas aos Jogos de 2012, a ser eliminada pelo COI ainda na primeira fase.

Cesar Maia afirma que a despoluição das lagoas da Barra depende do governo federal. O prefeito argumenta que há dez anos o Japan Bank International Cooperation (J-BIC) aprovou um empréstimo de R$ 372 milhões para ajudar a despoluir as lagoas, mas que a Prefeitura está impedida até hoje de entrar com sua contrapartida e dar início ao projeto, que tem custo total estimado em R$ 620 milhões: “Os recursos não saíram porque, para o governo federal, o município do Rio já havia estourado sua capacidade de endividamento. Agora, ou o governo federal autoriza o financiamento para a despoluição ou os Jogos Olímpicos no Rio estão inviabilizados”, diz.

PAC incluído

Para Carlos Arthur Nuzmann, a melhor maneira de evitar que a candidatura do Rio seja eliminada já no primeiro corte, que acontecerá em junho, é convencer o COI de que o cronograma de investimentos está sendo cumprido mesmo sem a certeza de classificação da cidade para a segunda fase da disputa. Com esse objetivo, ele incluiu na planilha de gastos do projeto olímpico carioca até mesmo o custo de obras previstas no PAC, como os R$ 1,2 bilhão que a União e o Governo do Estado prometeram investir na construção do Arco Rodoviário.

Outra proposta do COB é a construção de um Centro Olímpico de Treinamento, a ser erguido na área atualmente ocupada pelo Autódromo de Jacarepaguá. Parte do terreno do autódromo já foi utilizada no Pan, com a construção de um parque aquático, um velódromo e uma arena multiuso. Com as novas obras propostas por Nuzmann, o terreno receberia quatro novos pavilhões, onde seriam disputadas 20 modalidades olímpicas, e também o futuro Centro Nacional de Tênis. O custo específico destas obras ainda não foi estimado.

Além do Rio de Janeiro, já apresentaram suas candidaturas para sediar as Olimpíadas de 2016 as cidades de Baku (Azerbaijão), Chicago (Estados Unidos), Doha (Qatar), Madri (Espanha), Praga (República Tcheca) e Tóquio (Japão).

Agência Carta Maior
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