Chico Mendes, 19 anos

MEMÓRIA Entrevista pouco divulgada reconstrói a formação educacional revolucionária do seringueiro.

da Redação

POR OCASIÃO do 19º aniversário de morte de Chico Mendes, o Brasil de Fato publica trechos de um depoimento dado pelo próprio seringueiro sobre a sua formação educacional revolucionária. O relato serve de contraste ao discurso ecologicamente correto criado por ambientalistas após sua morte, que apresenta a imagem de um Chico Mendes despolitizado.
Chico, que nasceu em 15 de dezembro de 1944, foi assassinado na porta de sua casa no dia 22 de dezembro de 1988 – exatamente uma semana após completar 44 anos. Desde então, dezembro, mês de seu nascimento e morte, é o mês em que sua vida é relembrada.
Um desconhecido
Nos meados de 1961 ou 1962, apareceu uma pessoa desconhecida no nosso barraco. Havíamos, há pouco tempo, chegado da estrada de seringa e já estávamos começando a defumar o leite. Essa pessoa vinha de viagem, tinha ido ao barracão do seringal comprar mercadorias. Quando ele chegou e nos cumprimentou, eu percebi que era uma pessoa diferente. Não se parecia com os outros companheiros de nossa vizinhança. Nós tínhamos aquela nossa forma tradicional de falar, pessoas humildes, fala de homem da mata. Ele nos revelou que morava ali perto, três horas de distância da nossa colocação. O visitante logo verificou que eu estava interessado em sua conversa, pra mim era curioso encontrar uma pessoa tão diferente.
Política
“Por gostar de receber as pessoas que viajavam, meu pai ofereceu nosso humilde barraco para que o visitante pernoitasse. Ele tinha uma conversa bonita. Falava de política, falava em coisas que eu nunca havia ouvido falar em minha vida. Fiquei até altas horas da noite. Ele convidou a meu pai e a mim pra irmos até a sua casa.
Eu não sabia ler
No dia de folga, fui com meu pai até sua colocação. Observei que sua vida era diferente da dos outros companheiros seringueiros. Ao tomar conhecimento de que eu não sabia ler, perguntou se isso me interessava. Respondi que sim. Foi além e perguntou, ‘por que você tem vontade de aprender?’ Expliquei que era pra descobrir o roubo dos patrões. A gente, por não saber ler e contar, era enganado e não podia provar que estava sendo roubado. Após ouvir atentamente a minha conversa, se dispôs a me ensinar. Todos os sábados à tarde eu deveria caminhar até sua casa, pernoitaria e, durante a noite, teria aulas.
Notícias de jornal
Os primeiros dias foram muito difíceis. Não havia cartilha do ABC. Ele não me ensinava por esse método. Ele começava a ler comigo uma história de um jornal, recorte de jornal. Eu não conhecia jornal, nunca tinha visto. Aqueles jornais chegavam às suas mãos com dois ou três meses de atraso. As dificuldades iniciais foram pouco a pouco sendo superadas.
Com mais ou menos três meses, eu comecei a ler também. Entendia as letras e passei a me interessar muito mais. Depois de um ano, eu já sabia ler e escrever corretamente. Passei a me preocupar com os companheiros de minha região, eles não sabiam ler e escrever. Isso não preocupava meu instrutor, falava que era muito difícil e complicado fazer aquilo com mais pessoas.
Revolução socialista
Pouco tempo depois, ele conseguiu um rádio de pilha. Pela primeira vez, eu ouvia programas de rádios internacionais. Ouvia a BBC de Londres, a voz da América, a Central de Moscou, uma emissora comunista. Ouvíamos com atenção todo o noticiário. Às altas horas da noite, ouviase o programa de rádio Paz e Progresso, esse era o que mais interessava. Nele se falava da revolução socialista, da reforma agrária, da organização dos trabalhadores e dos sindicatos, da ideologia do movimento. No outro dia, eu recebia uma aula baseada em tudo aquilo. Logo após a aula, abria-se uma discussão. Eu fazia perguntas e ele explicava o significado dos programas.
Leituras
“No seringal, as pessoas costumam dormir muito cedo. O silêncio da floresta, o não ter o que fazer, mesmo a obrigação de acordar muito cedo para as tarefas do corte e coleta da seringa levam as pessoas muito cedo pra cama. Eu, pelo contrário, não sentia sono, lia e conversava até a madrugada. Não me sentia mais só.
Um comunista
O tempo de convívio foi estabelecendo uma relação de confiança entre nós. O meu instrutor começou pouco a pouco a se identificar. Era muito desconfiado. Depois de um ano dessa convivência, ele passou a revelar as suas origens, o seu passado. Seu nome era Euclides Fernandes Távora, havia sido militar. Participara do levante comunista de 1935. Era prestista. Estivera preso na ilha de Fernando de Noronha, de onde conseguira fugir para o Pará.
Lá, se envolvera em outras escaramuças, tendo que se exilar na Bolívia. Contava que, na Bolívia, se envolveu com o movimento dos mineiros e depois com a Revolução de 1952, ao lado dos camponeses. Ele não conseguia contar bem essa história, mas a verdade é que, se sentindo encurralado, teve que fugir e, se embrenhando na selva boliviana, chegou até a fronteira. Conviveu com seringueiros bolivianos por pouco tempo, e passou pro lado brasileiro.
Exploração
Muitos seringueiros que moravam nas proximidades o conheciam. Alguns se deslocavam até sua colocação pra conversar. Ele falava do preço da borracha, da exploração dos seringueiros. Isso com muita cautela.
Lia as notícias dos jornais e se dizia também seringueiro, só que não sabia cortar seringa. Alguns companheiros chegaram a comentar comigo que ele sabia ler muito bem, mas não sabia escrever. Ninguém havia visto a sua letra. Eu também nunca vi. Eu sabia que ele escrevia muito bem, só que não entendia porque ele tinha um cuidado tão grande. Enquanto estava dando as aulas, às vezes, ele anotava as coisas, mas, em seguida, queimava tudo que escrevia.
Luís Carlos Prestes
Com o golpe militar de 1964, a nossa atenção com as programações das rádios internacionais é aprofundada. Acompanhamos, por meio dos noticiários, toda a violência que houve neste país. A BBC de Londres era ouvida de modo especial, pois nela era divulgado o que estava acontecendo. A rádio Central de Moscou fazia comentários e denunciava prisões e torturas contra presos políticos e lideranças sindicais. Através da Central de Moscou, cheguei a ouvir entrevista gravada com Luís Carlos Prestes.
O caminho
Os últimos contatos com Euclides foram no ano de 1965. Nesse ano, suas conversas foram reveladoras. Dizia ele: “Chico, nós temos pela frente duros anos de repressão, de ditadura, de linha dura, mas fique certo de que o movimento de liberação neste país e de qualquer lugar do mundo nunca se acabará”.
Eu ficava emocionado quando ele colocava aquilo. Falava que o ideal revolucionário de liberdade iria continuar vivo. A ditadura poderia continuar 15, 18 anos, mas não duraria todo o tempo. O movimento de resistência iria se fortalecer, abrindo brechas para criação de novas associações e sindicatos. “É lá que você tem que atuar, apesar do controle das organizações trabalhistas pelo governo”.
Euclides, meu velho amigo e instrutor, queixavase de se encontrar muito doente. Nesse mesmo ano, saiu de sua colocação pra Xapuri. Não voltei a encontrá-lo’.

Brasil de Fato

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