Romênia, terra de italianos

Mirel Bran

Ao descer do avião no aeroporto de Timisoara, cidade a oeste da Romênia, o viajante pode ter a impressão de estar no norte da Itália. A propaganda e os nomes nas fachadas das lojas são bilíngües, em romeno e em italiano. Aliás, em muitos casos, trata-se das mesmas palavras, uma vez que as duas línguas têm raízes latinas. Mas, desde novembro, as relações entre esses “primos” longínquos ficaram conturbadas: o governo italiano acaba de promulgar um decreto de expulsão cujos alvos são principalmente romenos que emigraram para a península.

O assassinato de uma mulher por um rom (cigano) de origem romena radicalizou a opinião pública italiana contra a nova onda de imigração romena: 342.000 pessoas, segundo os números oficiais, 556.000, segundo a associação Caritas. Em conseqüência, desde o início de novembro, as agressões contra romenos se multiplicaram na Itália. Estes atos xenófobos podem causar importantes prejuízos nas relações comerciais entre os dois países. Com 22.000 empresas instaladas na Romênia, contra 7.000 empresas romenas na Itália, Roma é o principal parceiro econômico de Bucareste.

Os homens de negócios italianos instalados na Romênia são contra as medidas que foram tomadas por Roma e querem ser ouvidos. “Não vai ser com discursos populistas que solucionaremos o problema da ineficiência política”, afirma Michelangelo Rosso. “O problema mais grave é a ignorância total do problema, isso porque, no Oeste, ninguém tem a menor idéia de quem são os romenos. Eu posso lhe dizer que eu me sinto mais seguro como italiano na Romênia do que se eu fosse um romeno na Itália. Recentemente, quando um italiano matou uma romena após uma crise de ciúmes, as autoridades romenas não trataram um povo inteiro de delinqüentes. O tal criminoso foi condenado e basta”.

Este médico veterinário de Turim, que desembarcou em Timisoara em 2002 optou por se instalar em definitivo nesta última. Uma cidade-símbolo da queda da ditadura de Nicolau Ceausescu em dezembro de 1989, Timisoara tornou-se não apenas um mito para os romenos anticomunistas, como também o palco de uma “história de sucesso” para muitos investidores estrangeiros, a maioria de italianos. “Eu tinha 48 anos e comecei uma nova vida”, afirma Michelangelo Rosso. “Eu nunca teria sido tão bem-sucedido na minha Itália natal. Na Romênia, no entanto, tudo era possível, não apenas nos negócios, mas também para a vida em geral. O italiano que chega a Timisoara sente-se em casa. A língua é uma vantagem, mas também a sensação de encontrar novamente as cidades italianas tal como eu as conheci na minha infância. Aqui, tudo está por ser feito, e não é necessário uma fortuna para montar um negócio”.

Cerca de 12.000 italianos vivem nesta região que conta mais de 2.000 companhias italianas. A cidade que se orgulhava do seu apelido de “Pequena Viena” tornou-se neste meio tempo uma colônia italiana na qual o business prospera. Contudo, em 6 de novembro, em visita oficial na Romênia, o ministro italiano do desenvolvimento econômico, Pier Luigi Bersani, pôde dimensionar o impacto das tensões diplomáticas sobre as relações econômicas entre os dois países. Um grande número de romenos que se sentem ameaçados manifestou o desejo de retornar ao país assim que for possível.

Além disso, as grandes empresas italianas temem represálias neste país até então amigável. Os romenos começaram a considerar com certo rancor os italianos que vivem no seu país. “Há engenheiros italianos que recebem uma remuneração de cerca de dez mil euros por mês, ao passo que a maioria dos romenos não consegue receber sequer mil”, diz um empregado da central nuclear de Cernavoda, situada ao sudeste do país. “O problema é que eles não são tão competentes quanto afirmam”.

A companhia italiana Ansaldo espera concluir a construção de uma segunda estação nuclear na Romênia, junto com funcionários da canadense Candu. O projeto de um oleoduto de 1.360 km que deveria se estender entre a cidade romena de Constantza e Trieste, na Itália, também arrisca padecer da deterioração das relações diplomáticas entre os dois países. O destino deste projeto, que foi adiado em diversas oportunidades, depende inteiramente do bom entendimento romeno-italiano.

A crise entre os dois países também poderia ter repercussões na agricultura, isso porque, segundo o ministério italiano da agricultura, cerca de 300.000 hectares de terras romenas - 2% da superfície agrícola do país - foram comprados por italianos. “No meio deles, existem aqueles que chegaram com máquinas de última geração, e que modernizaram a nossa agricultura”, afirma Felicia Stoian, contadora que trabalha na prefeitura de Cilibia, uma aldeia situada a leste da Romênia. “Mas há também aqueles que compraram terras e que hesitam a investir”.

O paradoxo da onda de emigração romena - principalmente rumo à Itália e à Espanha - vem do fato de que a Romênia sofre, desde então, de falta de mão-de-obra. E isso vem causando uma quantidade cada vez maior de problemas para as empresas italianas que se instalaram no país. A auto-estrada Bucareste-Budapeste, cuja construção deveria ter sido iniciada neste ano, viu a sua realização ser postergada em pelo menos um ano. A auto-estrada Bucareste-Constantza, que deveria ser concluída em 2008, está longe de estar terminada.

Os 130.000 empregados romenos a serviço das companhias italianas não estão em número suficiente para atender às necessidades dos seus patrões transalpinos. Com isso, para compensar esta carência de mão-de-obra, a Sonoma Wear Company, uma sociedade têxtil italiana instalada em Bacau, no leste da Romênia, foi obrigada a terceirizar uma parte da sua produção junto a uma empresa romena que atualmente fornece trabalho para 300 chinesas. Resumindo, os romenos partem para a Itália, enquanto chineses chegam para substituí-los.

Será que existem outras soluções? “Eu conheço companhias italianas que se instalam na Romênia e contratam empregados romenos que elas já faziam trabalhar na Itália”, comenta Marco Rondina, o diretor do patronato italiano na Romênia. “Mas, para motivá-los, elas precisam oferecer-lhes uma porcentagem sobre os lucros”.

A Itália já desenvolveu o seu ritmo normal de negócios na Romênia. Mais de mil companhias italianas por ano deveriam continuar a se instalar no país, com a condição de que a situação volte ao normal. Cerca de 5.000 italianos viajam cotidianamente entre os dois países, e somente em Timisoara, o aeroporto oferece cerca de vinte vôos por dia. Mas, para os romenos que embarcam rumo à Itália, a viagem apresenta uma série de perigos.

Le Monde
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