“Eixos do mal” são alvo das armas nucleares americanas

Os alvos nucleares dos Estados Unidos de 2003 não incluem apenas os velhos adversários na Guerra Fria, mas também nações menores e ambiciosas

David Biello

As ogivas nucleares que descansam em mísseis balísticos alojados em silos, navegam pelo mundo a bordo de submarinos ou são carregadas – muitas vezes por engano – por aviões remontam a uma era em que os Estados Unidos tinham seus maiores inimigos na mira: a União Soviética e, mais recentemente, a Rússia e a China. No entanto, um documento obtido pela Federation of American Scientists (FAS), em Washington, D.C. – fundada pelos criadores da bomba nuclear original em 1945 e que vem monitorando armas nucleares desde então –, revela que nos últimos anos a lista de alvos dos Estados Unidos cresceu para incluir os chamados “proliferadores regionais”, nações menores que pretendem adquirir armas de destruição em massa.

“Essa é a primeira confirmação oficial de que esses países entraram na corrente principal do planejamento estratégico de guerra nuclear”, afirma Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da FAS, que obteve parte de uma declaração do Comando Estratégico dos Estados Unidos (U.S. STARTCOM) de 2002 sobre o novo plano de guerra que entraria em vigor em 2003. “Essa ‘expansão de alvos nucleares’ é preocupante”, diz Kristensen, “especialmente quando diplomatas argumentam que temos limitado o papel dessas armas”.

Denver Applehans, tenente da marinha americana, disse que a U.S. STRATCOM não quis comentar o assunto.

Mais especificamente, o documento incluía fotos de um míssil norte-coreano, de uma instalação subterrânea na Líbia para a produção de material nuclear, e de um míssil balístico russo SCUD de baixo alcance (arma que teve papel crucial na Guerra do Golfo). Apesar de esse míssil ser usado em muitos países, apenas cinco nações estavam listadas em uma “Reavaliação de Postura Nuclear” mais abrangente, realizada pela administração Bush em dezembro de 2001: Irã, Iraque, Líbia, Coréia do Norte e Síria.

O Iraque provavelmente saiu da lista após a invasão americana, em março de 2003, explica Kristensen, assim como a Líbia, quando seu líder, o coronel Muammar Qadhafi, renegou formalmente as armas em dezembro daquele ano. As reavaliações de 2003 para esses países incluem uma “série de opções redigidas” e uma “abordagem enfocada no cenário”, assim como “uma estrutura de ataque alterada para aumentar a flexibilidade de execução”.

No entanto, essas opções militares têm seu caminho obstruído por um “número reduzido de ogivas operacionais”, de acordo com o relatório. O problema foi abordado com a criação de uma “nova tríade”, formada por mísseis balísticos intercontinentais, bombas de gravidade lançadas no ar e mísseis balísticos lançados por submarinos, além de outros sistemas de armas.

“Sob o conceito (de uma nova tríade) basicamente tudo se torna estratégico – e ao incluir armas convencionais, defesa com mísseis e instalações para a produção de armas, eles podem dizer que a proeminência de armas nucleares tem sido reduzida”, diz Kristensen. “Mas como é mostrado pelo documento, a nova tríade também leva a uma expansão da política dos alvos nucleares”.

É claro que, como essas informações são secretas, não fica claro se uma foi feita uma versão mais atualizada da reavaliação em 2004. E outros documentos permanecem secretos, embora Kristensen tenha submetido um pedido de acesso a eles de acordo com o Ato de Liberdade de Informação. “Demorei três anos para ter acesso a esse documento, então imagine quando poderei ter acesso aos outros”, ele diz. “Perguntei a eles qual plano estava em vigor, e eles disseram que ainda era a reavaliação de 2004”. Mas parece claro que alvos mais flexíveis e abrangentes têm feito parte da política americana de armas nucleares desde pelo menos 2003.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 105.

Deixe um Comentário