Arquivo de 21 de Fevereiro de 2008

O espetáculo americano

17.02.2008

Alberto Dines

O mundo moderno teve o privilégio de assistir ao colapso de diversos impérios: o Austro-Húngaro e o Otomano em 1918, o 3º Reich nazista em 1945, o Britânico no período 1945-1956 e o Soviético na última década do século 20. O começo de 2000 garantia novo e formidável show histórico: a derrocada do império americano com a vitória de George W. Bush numa eleição visivelmente fraudada e suas estúpidas reações ao ataque terrorista do 11/9 no ano seguinte.

Convém esperar: a anunciada sessão do desmoronamento ianque pode atrasar e até mesmo ser adiada sine-die. O movimento em torno das presidenciais americanas oferece tanta vitalidade, tanta criatividade e libera tamanha dose de energia que torna factível um renascimento político-cultural de grandes proporções e apto a espantar os mais funestos prognósticos.

As três mais fortes postulações democratas (Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards) representavam vetores fortíssimos e, mesmo com a desistência do último, sua plataforma assistencialista sobreviveu e está sendo devidamente reciclada pelos remanescentes.

Significa que aqueles grandes contingentes de cidadãos que jamais tiveram acesso ao “sonho americano” e, por isso, mantinham-se distantes das urnas, poderão superar o desencanto dos marginalizados e iniciar o processo de participação em grande escala. Uma sociedade que ainda consegue empolgar o seu lúmpen e animar os seus excluídos dificilmente poderia ser considerada decadente ou fadada ao declínio.

Hillary Clinton e Barack Obama, independentemente dos delegados que conseguirão arrebanhar para a convenção do partido, são fenômenos extraordinários. Representam conquistas democráticas concretas, irreversíveis e definitivas. Mulheres e negros, qualquer que seja o próximo inquilino da Casa Branca, saíram do limbo, integraram-se ao processo político americano de forma cabal. Os dois senadores não são espécimes exóticos e raros. Só poderiam chegar aonde chegaram se o sistema político americano não tivesse sido revitalizado.

Convém não esquecer que Nancy Pelosi, democrata californiana, chegou ao posto máximo legislativo (presidente da Câmara de Representantes), em novembro de 2006, dois anos antes do próximo pleito. A integração das mulheres ao processo político americano é, portanto, um fato consumado, qualquer que seja a posição da ex-primeira dama na convenção democrata de 4 de agosto.

E embora Collin Powel e Condoleezza Rice sejam desprovidos do charme “progressista” de Barack Obama, não se pode ignorar que Powell foi o primeiro negro a chefiar o Estado Maior das Forças Armadas e, em seguida, comandar a política externa, enquanto ela, sua sucessora no Departamento de Estado, a primeira a comandar uma pasta-chave para a manutenção do império.

Condoleezza (Condi, para a mídia americana), agora está sendo cogitada para ser companheira de chapa do até agora vitorioso John McCain. O que nos remete aos milagres rejuvenescedores que também ocorrem no campo republicano. O senador pelo Arizona, militar, ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, está batendo galhardamente a fina flor do reacionarismo e do fundamentalismo religioso dos EUA.

Este é um dado da maior importância, pois a eventual regeneração da sociedade americana abrange obrigatoriamente os dois campos políticos. Ambos necessitam de uma re-oxigenação depois dos desastrosos oito anos de sufoco e indigência da Era Bush.

Numa sociedade democrática os avanços não são episódicos nem setoriais, mas abrangentes, devem ocorrer simultaneamente em diversos níveis. Este é o ingrediente mais fascinante do mais novo espetáculo americano.

Alberto Dines é jornalista.

Jornal do Commércio

Comentários

Dom João VI, o AI-5 e a Resistência

Na luta pela independência e na superação da ditadura militar, repetem-se velhos padrões brasileiros: a tendência aos acordos conciliatórios, a recusa a mudanças radicais, uma "democracia" que esconde os conflitos. Mas há sinais de que este quadro pode estar mudando

Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli

O ano de 2008 é particularmente significativo para o Brasil. Comemoramos 200 anos da fuga da família real portuguesa à colônia, na companhia de 10 mil cidadãos influentes na corte. Também faz aniversário o AI-5 — Ato Institucional nº 5 —, que instituiu, em 1968, o que Elio Gaspari chama de "A Ditadura Escancarada".

Ao transferir a corte portuguesa para o Brasil, Dom João VI efetivamente inventou um país. Até 1808, o Brasil não passava de uma colônia extrativista, que sustentava uma monarquia atrasada e absolutista, com os dias contados na esteira das grandes modificações iniciadas com a Revolução Francesa de 1789 e as guerras napoleônicas, que reescreveram o mapa de poder na Europa. Quando retornou a Portugal, em 1821, deixando o seu primogênito, D. Pedro I, como príncipe regente, o panorama do país havia mudado radicalmente. Era o nascimento efetivo de uma proto-nação, cujo desenvolvimento posterior já nos é bem conhecido.

O AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi o mais famoso do conjunto de 17 atos institucionais e 104 atos complementares baixados a partir de 1964. Em vigor até dezembro de 1978, produziu um conjunto de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais radical do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados, a partir de meras suspeitas ou posse de materiais considerados“subversivos”.

Recordar esses dois eventos que se cruzam nesse ano é fundamental para o entendimento de estruturas fundantes de nossa história, a fim de que elas cessem de se repetir. Essas estruturas têm invariavelmente cunho autoritário e instauram novos paradigmas, que rompem antigos arranjos de forma vertical e absoluta, eclipsando, muitas vezes com violência, os movimentos sociais que se originam fora da esfera institucional do poder.

Rebeliões com escasso apoio popular: o poder colonial as sufoca, enquanto trama uma independência sem rupturas

No período colonial tivemos um série de revoltas, divididas em revoltas nativistas [1], no final do século 17 e início do século 18 (Revolta de Beckman, em 1684; Guerra dos Emboabas, 1708-09; Guerra dos Mascates, 1710-11 e Revolta de Filipe dos Santos em 1720) e revoltas emancipacionistas [2] no final do século 18 e início do 19 (Inconfidência Mineira, em 1789; Conjuração dos Alfaiates ou Inconfidência Baiana, em 1798, e a Revolução ou Insurreição Pernambucana, de 1817).

Essas insurreições foram abafadas e vencidas pela corte portuguesa. Seus líderes e principais artífices foram mortos, por vezes com crueldade, a fim de dar o exemplo à população sobre o destino daqueles que ousavam pensar de forma diferente. Na verdade, esses movimentos tiveram muito pouco daquilo que se chama “apoio popular”. O cidadão comum tocava a sua vida e esperava a resolução dos conflitos para que, por fim, organizasse as suas ações de acordo com a nova ordem estabelecida — ou, na maioria dos casos, mantida. Mais sucesso tiveram aqueles que sabiam compor com os grupos dominantes. No período regencial, não foram poucos os que, através de apoio financeiro e logístico, ganharam seus títulos de nobreza, fartamente distribuídos por Dom João VI, aproveitando-se, assim, para enriquecer às custas de bons negócios para com a corte. Nossa independência em relação a Portugal se deu por intermédio do próprio establishment português: desde a abertura dos portos na chegada da corte real em Salvador, essa já era uma seqüência histórica previsível.

Em 1964, a corte brasileira mudava de nome e adquiria quepes e fuzis. A segunda ditadura brasileira do século 20, após o Estado Novo [3], teve como mote igualmente a “ameaça comunista”.

Novamente observamos, no decorrer dos assim chamados “Anos de Chumbo”, um fato incômodo à memória daqueles que pagaram caro para o restabelecimento da normalidade democrática no país. A maioria da população manteve-se distante da luta contra a ditadura, durante a maior parte do tempo. Houve um série de negociações com os artífices do regime para que esse terminasse — não em uma implosão como sonhavam os militantes da luta armada, mas em um suspiro lacônico. A lógica da ditadura a acompanhou até o seu derradeiro momento. Parida nos anos 60, a reboque de todo um processo de blidagem da América Latina contra a "ameaça comunista", patrocinada pelos EUA, terminou nos anos 1980, quando a União Soviética já agonizava e os ventos da globalização indicavam novas estruturações econômicas e de poder pelo mundo.

Certamente, nunca foram aconselháveis, no Brasil, os enfrentamentos diretos com o poder. A oportunidade de beijar a mão do soberano gerava filas imensas no paço imperial no século 19. O monarca, representando uma figura paterna dócil e solícita, a todos recebia acompanhado de seus príncipes e nobres. Existe a tendência um tanto jocosa de entender D. João VI como um rei covarde, que fugiu de Portugal deixando seus súditos à mercê das tropas de Napoleão. Mas ele foi, igualmente, o governante que costurou o nosso estado-nação e cujos descendentes governaram o país até novembro de 1889, quando um golpe militar instituiu a República. É esse, também, o perído de formação de uma elite dirigente cujos sobrenomes permanecem até hoje dando as cartas na nossa política.

Uma "representação" que inibe autonomias, pois é quase um cheque em branco aos governantes

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Paulo Fagundez Vizentini nos informa que os militares deixaram o Brasil na posição de único país ao sul do Equador dotado de um completo e diversificado parque industrial, ao contrário de seus vizinhos do Cone Sul. A verve nacional-estatista dos militares até hoje provoca algumas nostalgias por parte de certos setores da nossa esquerda, que não podiam imaginar as metamorfoses que o capital sofreria no período democrático e que atigiriam o país em cheio a partir do governo de Fernando Collor de Mello.

É muito difícil imaginar a queda de Collor sem o apoio da mídia que o elegeu. No período em que se discutia o impeachment presidencial, a Rede Globo apresentou a minissérie “Anos Rebeldes”, que serviu de dispositivo para que pudéssemos repetir, farsescamente, o período das grandes passseatas que exigiam a queda de um governo julgado ilegítimo. Tais atos foram extremamente compensatórios para uma geração abafada e violentada pouco mais de uma década antes. Mas havia diferenças: dessa vez, o real poder e a mídia estavam ao lado e não contra os manifestantes. E estes já não precisavam se preocupar com prisões, torturas e desaparecimentos, tal qual seus companheiros da década anterior. Eram herdeiros do processo de abertura “ampla gradual e segura” iniciada pelo presidente Geisel e pelo general Golbery do Couto e Silva em 1975.

A ditadura militar planejava a sua própria retirada de cena em face das mudanças liberais que se desenvolviam rapidamente nos EUA e na Europa, tornando o nacional-estatismo militar um anacronismo impensável na nova era globalizada. Da mesma forma, ao voltar para Portugal e deixar seu primogênito, Dom Pedro I, como príncipe regente, Dom João VI já sabia que a independência do Brasil era inevitável e que o monopólio extrativista português, que já fora golpeado com a abertura dos portos, em 1808 [4], se tornaria insustentável do ponto de vista político e econômico daquele momento em diante.

Lenta, gradual e segura, esse foi o lema de nossa abertura política, até o fim do AI-5. Embora não perdoasse os praticantes de “atos terroristas”, a lei da anistia aprovada a 29 de agosto de 1979 eximia os militares de toda e qualquer culpa. Os próprios artífices da ditadura e dos abusos cometidos durante os anos de chumbo, educadamente entregaram a casa “limpa e arrumada” à democracia florescente. Foi mais uma mostra de como se faz política nesse país. Pela negociação, pelo consenso, pelas redes de cordialidade que sempre se estabeleceram entre o poder e sua resistência. Pela paciência e pela ausência de atos radicais de qualquer natureza. E também pelo dispositivo de uma democracia representativa, que em nossa realidade, significa quase um cheque em branco aos nossos reperesentantes institucionais.

Mas existe resistência, e essa se configura na forma do MST, dos movimentos negros, dos Fóruns Sociais Mundiais, dos direitos humanos, da questão indígena, entre outros, que freqüentemente sofrem a repressão e a violência policial, além da desconfiança de uma parcela significativa da população, capturada pelo discurso que criminaliza ações justas, legítimas e democráticas de fiscalização do poder e reivindicação de direitos. Que possamos depender menos dos favores da corte, de coroa, quepe ou gravata, sendo menos cúmplices de seus desmandos e da tentação de satisfazer nossas aspirações mesquinhas. Só assim evoluiremos de figurantes a atores políticos principais no teatro político de nosso país.

Mais:

[1] Primeiras revoltas que aconteceram no Brasil, combatiam o domínio português. Tinham um caráter nacionalista mas não pensavam em independência, tendo como objetivo a defesa dos interesses específicos de uma determinada região da colônia contra as opressões da metrópole.

[2] As revoltas emancipacionistas reivindicavam a independência, questionando o pacto colonial, a dependência e a sujeição da colônia à metrópole.

[3] Em 1937, preparavam-se as eleições presidenciais para janeiro de 1938, quando foi denunciado pelo governo a existência de um suposto plano comunista para tomada do poder, conhecido como Plano Cohen. Esta situação criou um clima favorável para a instauração do Estado Novo, que ocorreria em novembro deste ano, durando até 1945. Foram criados nesse período o Conselho Nacional do Petróleo (CNP), o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Fábrica Nacional de Motores (FNM), entre outros. (Fonte; FGV – CPDOC)

[4] Naquele período em que a Europa estava sob o bloqueio continental, a medida efetivamente beneficiou a Inglaterra.

Le Monde

Comentários

Docentes e reitoria da Fafil voltam a brigar

SÃO PAULO - Em mais um "round" da briga entre os docentes da Fundação
Santo André e o reitor da faculdade, Odair Bermelho, um grupo de
professores divulgou para a imprensa nesta quinta-feira que serão fechados
dez dos onze cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafil).
A instituição, por outro lado, nega.
A assessoria da universidade informou que, na reunião do Conselho Diretor,
está sendo debatida o encerramento ou não de três ou quatro turmas de
alguns cursos, principalmente na área de licenciatura, por conta da baixa
procura. O que contradiz a informação dos professores, que afirma que a
decisão deve ser comunicada na reunião.
De acordo com os professores, o único curso que deve permanecer aberto é o
de Sistemas de Informação, onde, segundo os docentes, não há oposição à
gestão de Bermelho.
A assessoria da faculdade enfatizou que o único debate em torno dos cursos
é a questão de eles não terem atingido o número mínimo especificado no
edital.
Segundo a assessoria dos professores, a medida é uma retaliação que fazem
oposição à sua gestão. Em 2007, docentes e alunos ficaram em greve durante
59 dias para exigir a saída do reitor do cargo.
Os docentes ainda afirmam que Bermelho usaria o dinheiro das mensalidades
em benefício pessoal e de seus apadrinhados.

IG On Line

Comentários

Alemanha se torna país de baixos salários e esmaga a classe média

Daniel Vernet

Onze por cento! Isso nunca tinha acontecido desde a inflação de dois dígitos dos “trinta gloriosos”, como é chamado o período de forte crescimento econômico na maioria dos países desenvolvidos entre 1945 e 1973. Aliás, 11% foi o aumento das remunerações, que incluiu todas as modalidades, conquistado pelos maquinistas de trens alemães em 13 de janeiro, após vários meses de um conflito social que teve o seu auge com uma paralisia total do tráfego por dois dias, em novembro de 2007. “Nós temos a consciência de estar escrevendo a história”, afirma sem hesitação Thomas Huppeld, um dos dirigentes do sindicato GDL em Frankfurt.

Escrever a história? A expressão pode parecer excessiva. Entretanto, ela define adequadamente um movimento social diferente dos outros. Os maquinistas de trens apresentaram uma imagem fora do comum do sindicalismo alemão, distante daqueles “apparatchiks” de terno e gravata que freqüentam os conselhos de administração em nome da co-gestão e negociam de igual para igual com o patronato. Considerada até hoje como o último recurso, a greve também precisa ser tão organizada quanto os relacionamentos sociais. Lênin já havia constatado, não sem ironia, nos anos 1910, que os ferroviários alemães, antes de ocuparem as vias durante um movimento grevista, compravam um tíquete que dava acesso às plataformas.

Nada disso aconteceu desta vez. O que se viu foram estações vazias e milhares de usuários obrigados a ficarem em casa ou a recorrerem a outros meios de transporte. Tudo levava a crer que esses viajantes barrados se mostrariam furiosos diante da falta de respeito pelas convenções sociais, que eles teriam denunciado, da mesma forma que na França onde os ferroviários estavam em greve mais ou menos na mesma época, e tiveram o seu movimento criticado como sendo uma insuportável “transformação do cidadão num refém”.

Mas não foi o que aconteceu. A opinião pública alemã deu mostras de uma grande compreensão pelos grevistas. Em todo caso, bem maior do que aquela mostrada pelo Partido Social-Democrata (SPD) e pela grande central sindical DGB. A esquerda moderada enxergou nesta greve um perigo de “corporativismo”, um risco de esmigalhamento das reivindicações, além de um questionamento das grandes negociações, categoria por categoria, que fizeram a força do sindicalismo alemão. “Eu não posso aceitar que um grupo de assalariados busque vantagens exclusivamente para si mesmo”, explica Jürgen Bothner, um dirigente regional do sindicato dos serviços públicos, o Ver.di. “Isso é muito perigoso, porque alguns desses grupos têm um poder mais importante de causar prejuízos e podem obter resultados mais facilmente do que os outros, em detrimento da solidariedade”.

No mundo político, as únicas entidades que apoiaram os grevistas foram o Partido Liberal e a esquerda radical, ambas da oposição à grande coalizão dirigida por Angela Merkel. Nesse sentido, Willi von Ooyen, que encabeçou a lista do Linkspartei (a esquerda radical) nas eleições regionais de Hesse, em 27 de janeiro, afirma não desconhecer os riscos de haver uma greve corporativista, mas sublinha também que o movimento dos maquinistas afirmou a sua “identificação com uma profissão”, orgulho da classe operária que tem sido maltratada nos últimos anos pelas diversas formas de trabalho precário.

Este conteúdo simbólico embutido na greve do setor ferroviário explica o amplo apoio que lhe foi dado pela opinião pública. Para muitos alemães, o limite do suportável foi alcançado na soma de todos os sacrifícios que têm sido exigidos ao longo dos últimos quinze anos. No momento em que a chanceler proclama que “o reaquecimento já chegou”, poucos chegaram a sentir os seus efeitos. O slogan que foi popularizado por Gerhard Schröder, chanceler de 1998 a 2005 - “quando a indústria alemã vai bem, o operário alemão vai bem”, uma versão germânica da expressão francesa “quando a construção civil vai bem, tudo vai bem” - não se verifica mais na atualidade. A idéia tradicional de que um operário especializado da indústria deveria ser bem remunerado foi minada pela globalização, as deslocalizações industriais e o desenvolvimento dos empregos precários. Aliás, segundo um sindicalista, as diversas formas de flexibilidade do trabalho mataram o próprio conceito de profissão.

As estatísticas mostram que a Alemanha se tornou um país de baixos salários, se comparado com outros países europeus. Esta constatação, que contradiz um grande número de clichês, pode ser explicada pela conjunção de diversos fatores, pelas medidas que foram tomadas pelo governo, entre outras a Agenda 2010, que havia sido preparada pela coalizão “Vermelha e Verde” liderada por Gerhard Schröder, e que foi mantida pela grande coalizão dos democrata-cristãos e dos social-democratas.

Ela também pode ser explicada pelo crescimento do desemprego no decorrer dos anos 1990, pelo recurso ao emprego de meio-período, cujas vagas foram multiplicadas por dois em dez anos, os contratos de duração determinada e pela terceirização de certas tarefas. Assalariados que foram demitidos são incentivados a fundarem a sua própria empresa e a fornecerem os seus serviços para o seu antigo empregador, por uma quantia inferior àquela da sua remuneração anterior. Ou ainda, companhias demitem os seus empregados e os recontratam para trabalharem numa filial criada para esta finalidade, com salários mais baixos, horários mais extensos e em condições mais severas.

Esta situação tem como outra conseqüência o enfraquecimento dos sindicatos. Desde os dias que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o modelo alemão (criado então pela Alemanha Ocidental) estava baseado no equilíbrio entre as associações de empregadores e os sindicatos de assalariados. O próprio vocabulário utilizado refletia esta suposta paridade. O tradicional confronto entre os patrões e os trabalhadores colocados frente a frente deixara de existir, sendo substituído por negociações entre os “Arbeitgeber” e os “Arbeitnehmer”, os fornecedores de trabalho e os prestadores de trabalho. Esta nova situação foi chamada de “a autonomia dos parceiros sociais”. Atualmente, muitas empresas passaram a dispensar este sistema que implicava em convenções coletivas setoriais e regionais, e até mesmo nacionais. O mesmo movimento está incentivando o aparecimento de sindicatos de categorias, tais como o GDL dos maquinistas de trens, que podem chegar a conquistar sucessos pontuais como resultados de conflitos duros, mas que parecem incongruentes no país da greve controlada e do compromisso social.

Dessa forma, vai se concretizando uma ruptura do tecido social consensual que, em conseqüência do milagre econômico do pós-guerra, havia transformado a República Federal numa vasta classe média. Naquela época, não só as diferenças entre os níveis de renda estavam entre as mais reduzidas da Europa Ocidental, como a grande maioria da população também levava um modo de vida homogêneo, que poderia ser qualificado de “pequeno burguês”. Havia evidentemente pobres e ricos, mas ninguém era muito pobre ou muito rico, e, em todo caso, os muito ricos não exibiam um modo de vida que ostentava a sua condição. Os sociólogos falavam num “nivelamento social em volta do centro”. Hoje, 60% dos alemães continuam se identificando com a classe média, mas o temor do empobrecimento tomou conta desta última. E não é por menos.

“A classe média está derretendo pelas duas pontas”, constata o dirigente sindical Jürgen Bothner. “Pelo lado de cima, em que um número reduzido de pessoas vem ganhando cada vez mais, e pelo lado de baixo, no qual um grande número de pessoas vem empobrecendo”. Até 2000, os salários nas duas extremidades da escala evoluíam como se fossem duas linhas paralelas. Desde então, as curvas vêm divergindo. Tomando por base o ano de 1992, a renda dos 10% mais ricos da população alemã havia aumentado em 12% em 2000, e em 31% em 2006. Enquanto neste mesmo período, a renda dos 10% mais pobres havia aumentado em 6% em 2000, mas acabou recuando 13% em 2006.

Também em 2000, que foi um ano de forte crescimento econômico (3,2%), o sentimento de equidade estava aumentando. Já, em 2007, apesar de um crescimento de 2,6% e de uma espetacular redução do desemprego, ele está diminuindo. Isso porque os frutos do crescimento estão sendo mal distribuídos, e isso de uma forma que está se tornando cada vez mais aguda. A reforma das alocações de desemprego, associada ao nome do antigo diretor dos recursos humanos da Volkswagen, Peter Hartz, e principalmente a reforma conhecida como Hartz 4, que combina as indenizações de desemprego com formas de ajuda social, acelerou o processo de empobrecimento. O número de crianças pobres, isto é, aquelas cujos pais são obrigados a viver com menos da metade da renda média, alcançou 2,5 milhões. Com a reforma Hartz 4, as famílias recebem a quantia irrisória de 2,39 euros (R$ 6,29) por dia, como ajuda para a alimentação, e de 1,79 euro (R$ 4,71) por mês para a compra de material escolar!

Assim, não surpreende que os salários elevados dos dirigentes de empresa, as stock-options, as indenizações por demissão, e, sobretudo, a atribuição dessas vantagens àqueles que fracassaram em sua missão, choquem o grande público, os homens políticos e as Igrejas, que permanecem até hoje uma força moral e exercem uma missão caritativa oficial. “Aquele que exige sacrifícios dos seus colaboradores deve se perguntar se é judicioso conceder a si mesmo generosos aumentos de salário”, declarou o presidente da República, o democrata-cristão Horst Köhler.

Em determinado momento, a chanceler Angela Merkel estudou até mesmo estabelecer um teto para as remunerações dos chefes de empresa. Só que ela não demorou a dar marcha-ré. Mas ela não conseguiu impedir que se desenvolvesse um debate em torno da instauração de um salário mínimo. Alvos de zombaria por parte da oposição liberal, que acreditou detectar na sua iniciativa resquícios do socialismo à moda da Alemanha Oriental, os democrata-cristãos decretaram a implantação de um salário mínimo nos Correios. O SPD recuperou por conta própria a reivindicação sindical de um salário mínimo generalizado a 7,50 euros (R$ 19,75) a hora de trabalho, ou seja, pouco mais de 1.200 euros (R$ 3.160) por mês. O ministro (social-democrata) do trabalho, Olaf Scholz, está preparando uma lei nesse sentido, apesar da oposição do patronato. Este último está agitando a ameaça de uma nova disparada do desemprego e exige que a instauração de salários mínimos por categoria seja decidida por meio da negociação social. Trata-se de uma maneira de recusar o próprio princípio do salário mínimo, uma vez que o número dos assalariados que deixaram de estar cobertos pelas convenções coletivas está crescendo cada vez mais.

Mas isso não impede que o SPD tenha encontrado nesta questão um tema popular - 75% dos alemães se dizem favoráveis a um salário mínimo, segundo informou a revista semanal “Der Spiegel”. Nesse sentido, ele se vale desta proposta para marcar a sua diferença em relação ao seu parceiro na grande coalizão e para trazer de volta à atualidade a questão da justiça social, um antigo cavalo de batalha da social-democracia.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Na Alemanha, esquerda radical enfrenta a esquerda moderada

Daniel Vernet

Diante de uma platéia reduzida demais para o tamanho do salão de festas, Oskar Lafontaine enumera os sucessos do Linkspartei, o partido da esquerda radical que ele fundou junto com antigos comunistas da ex-Alemanha Oriental. O que temos nesta sala é uma amostragem das diversas correntes que, superando muitas dificuldades conseguiram reunir-se antes das eleições federais de 2005 e que lograram conquistar assentos no Bundestag (o Parlamento), provocando um pequeno terremoto na paisagem política. Entre eles estão veteranos comunistas da antiga Alemanha Ocidental (do partido DKP), um dirigente local do sindicato DGB que critica a sua central por achá-la moderada demais e excessivamente ligada aos social-democratas, além de militantes pacifistas veteranos que lamentam “o aburguesamento” dos ecologistas…

Reservadamente, Willi von Ooyen, que encabeça a lista da sua agremiação no pleito regional de Hesse, em 27 de janeiro, reconhece que ainda não existe “uma cultura única de partido”. Ele próprio nem é membro efetivo do Linkspartei. Aliás, é por esta razão que ele foi escolhido, depois de um escândalo que comprometeu um antigo membro do DKP. Inicialmente um pedagogo que trabalhava numa instituição para deficientes mentais, ele é oriundo das Bürgerinitiative (grupos da Iniciativa de Cidadania para o Parlamento - BIP) que haviam lutado durante os anos 1980 contra a implantação na Europa dos foguetes Pershing e dos mísseis de cruzeiro. A sua ambição não é de participar de um governo, mas sim de servir de “ferrão” contra o conformismo, num momento em que o Zeitgeist (espírito do tempo) está passando por um processo de mudança na Alemanha.

Todos os partidos foram afetados. O Partido Liberal (FDP) optou por polarizar-se no liberalismo econômico, abandonando a defesa das liberdades públicas que constituía o segundo pilar da sua doutrina. A CDU-CSU - a aliança formada pela União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU) e a União Social-Cristã da Bavária (CSU), ambas de direita e conservadoras - vem se interrogando a respeito da sua fidelidade à referência cristã. Os ecologistas do Partido Verde criaram juízo por influência da sua participação no governo, de 1998 a 2005. Por sua vez, o SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha) está à procura da sua identidade. O centrismo tradicional está sofrendo um processo de deterioração. Este vem sendo provocado por uma diversificação da sociedade e uma tendência à polarização, a qual vem sendo alimentada pelas mudanças que tomam conta das relações sociais.

Oskar Lafontaine, que abandonou o seu posto de ministro das Finanças quando Gerhard Schröder (chanceler de 1998 a 2005) promoveu a adesão do SPD à “terceira via” encampada por Tony Blair, promete injetar uma nova juventude em temas que até então eram considerados como ultrapassados: a justiça social, a luta contra os privilégios das grandes companhias e dos seus dirigentes, além da rejeição das aventuras militares no exterior, no Afeganistão ou em outros lugares. A revista “Der Spiegel” o chama de “a má consciência da Alemanha”. O líder do Partido Liberal (FDP), Guido Westerwelle, constata que “o vírus Lafontaine” vem se espalhando pelo país afora. Aqueles que mais se mostram incomodados com isso são os seus antigos colegas do SPD. A tal ponto que alguns deles se perguntam se o seu principal objetivo não seria simplesmente de prejudicá-los.

Os temas que o Linkspartei vem defendendo encontram um eco favorável nas bases do SPD, as quais assimilaram muito mal as reformas que foram impostas por Gerhard Schröder e que foram prosseguidas pela grande coalizão. O aumento da idade para a aposentadoria para 67 anos, e a redução das alocações de desemprego, conhecida pelo nome de Reforma Hartz 4, são particularmente impopulares. O Linkspartei passou a atuar no mesmo território que o SPD. Os desempregados, os aposentados e os operários constituem a sua clientela comum. Os social-democratas já recuperaram por sua conta algumas reivindicações que vinham sendo defendidas pela esquerda radical, tais como a manutenção das alocações para os desempregados de longa duração e, sobretudo, a implantação do salário mínimo.

Não se trata de uma mudança de orientação, confessa - modestamente - Oskar Lafontaine, mas sim, apenas de “ligeiras correções”. Estas se revelam suficientes para deixar o SPD constrangido, tanto mais que os dirigentes do Linkspartei dominam todos os segredos da propaganda. No ano passado, eles apresentaram no Bundestag uma proposta de lei visando a instaurar um salário mínimo generalizado, que retomava palavra por palavra uma petição dos social-democratas. Para evitarem provocar uma briga com a chanceler Angela Merkel, os deputados votaram maciçamente e de forma disciplinada contra o seu próprio texto. Desde então, a liderança do SPD fez desta reivindicação a sua prioridade principal. A candidata social-democrata em Hesse, Andrea Ypsilanti, deu início a uma campanha de assinaturas sobre o tema. Com isso, ela aumentou as suas chances de vencer no pleito contra um dos barões da democracia-cristã, cuja reeleição parecia estar garantida algumas semanas atrás.

Para não se verem ultrapassados pelos seus concorrentes da esquerda e para se diferenciarem dos seus aliados democrata-cristãos da grande coalizão, tendo em vista a confrontação em 2009 perante os eleitores, os social-democratas radicalizaram o seu discurso. Eles também querem debelar a hemorragia de militantes que vem atingindo o partido desde a guinada “liberal” dos anos 2000. Kurt Beck, que, além do mais, vem a ser o ministro presidente do Land (Estado) de Renânia-Palatinado e que é o terceiro presidente do partido desde Gerhard Schröder, vem buscando a sua salvação num retorno aos temas clássicos da social-democracia. Isso está provocando uma grande irritação entre os expoentes da direita do SPD, que criticam Beck por sofrer de uma “fixação” em relação ao Linkspartei. “Eu reconheço que essas respostas correspondem em gênero e grau à tradição da social-democracia”, afirma Wolfgang Clement, um antigo ministro da economia do governo “vermelho e verde” de Schröder, que se reconverteu na indústria energética. “Mas elas deixaram de ser as respostas certas”.

Nos Länder (Estados) que integravam antigamente a RDA (ex-Alemanha Oriental), os social-democratas se dizem dispostos a fazer alianças com os antigos comunistas. Este é também o caso em Berlim, que vem sendo governada por uma coalizão chamada de “vermelho-vermelha”. Mas, do lado ocidental, a cooperação entre os irmãos inimigos ainda constitui um tabu. Contudo, Willi von Ooyen avalia que o espantalho representado pelos antigos comunistas leste-alemães não assusta mais ninguém. O chefe do grupo parlamentar da CDU-CSU no Bundestag, Volker Kauder, lhe dá implicitamente razão ao proferir a advertência: “Os jovens em particular não estão conscientes de que nós estamos lidando aqui com um partido (o Linkspartei) que é um herdeiro direto do SED e do PDS (ou seja, os dois partidos comunistas leste-alemães, antes e depois da queda do Muro de Berlim em 1989), e não de uma organização de beneficência”.

O SPD vem insistindo de todas as formas sobre o fato de que está fora de questão formar governos regionais em parceria com a esquerda radical, e nem mesmo aceitar o seu apoio. Depois da sua entrada no Parlamento federal, o Linkspartei se contentaria em participar de alguns Parlamentos regionais na parte ocidental da Alemanha, o que, para ele, seria uma garantia de uma implantação perene. Uma vez alcançada esta meta, ele poderia exercer o seu papel de “ferrão” contra o conformismo e de “desmancha-coalizão”. O pesadelo dos social-democratas alemães lembra o dilema dos socialistas franceses antes da vitória de François Mitterrand (1916-1996), eleito presidente em 1981: com a sua aliança com os comunistas, eles assustavam os centristas, cuja contribuição, contudo, era indispensável para formar uma maioria; sem os comunistas, eles não tinham nenhuma esperança de conquistar a presidência algum dia.

Por muito tempo, o tabuleiro político alemão permaneceu um território reservado a três agremiações, dois grandes partidos de massas, a União Democrata-Cristã e a Social-Democracia, mais o pequeno Partido Liberal que servia de apoio eventual para um ou outro. Durante os anos 1980, o jogo foi ficando mais complicado com o aparecimento do Partido Verde, ecologista. Agora, com o surgimento de um quinto participante, uma coalizão governamental integrada apenas por dois partidos desponta daqui para frente como difícil, e deve até mesmo ser descartada. Ao recusar-se a cooperar de uma maneira ou de outra com o Linkspartei, o SPD corre risco de se ver condenado quer a dividir com os democrata-cristãos uma grande coalizão, quer a infligir a si mesmo uma interminável estada entre os partidos da oposição.

Enquanto isso, o cursor da política externa já se deslocou - ligeiramente - em direção à esquerda. Este talvez seja um paradoxo, mas a formação, em 2005, da grande coalizão, um vasto agrupamento centrista por definição, empurrou a democracia cristã para a esquerda. Para tornar-se chanceler, Angela Merkel foi obrigada a renunciar às reformas econômicas e social-liberais que ela havia anunciado durante a campanha. Ela implementou a maior parte das decisões que o seu predecessor, o social-democrata Gerhard Schröder havia tomado durante o seu segundo mandato. Ela até mesmo consentiu fazer concessões sociais aos seus ministros do SPD, os quais, por sua vez, vinham sofrendo pressões por parte do presidente e da base do seu partido, sendo também alvos do “ferrão” da esquerda radical. A melhor ilustração desta situação é a discussão em torno do salário mínimo. Em si, esta medida nada tem de revolucionário - a própria Grã-Bretanha de Tony Blair restabeleceu um salário mínimo - e é provável que o debate no âmbito do governo se encerrará com um compromisso. Mas este último não será menos difícil de impor à ala liberal e aos representantes patronais, no quadro da democracia cristã.

Nem por isso esta evolução significa que o centro, que vem sendo o ponto estratégico da política alemã desde a fundação da República Federal (RFA) em 1949, tenha sido abandonado em definitivo. Diante do aparecimento da “esquerda da esquerda” e da radicalização - relativa - do SPD, Angela Merkel compreendeu que é de seu interesse preparar os próximos embates eleitorais nacionais ocupando este terreno, o famoso “Mitte” que permite todas as alianças e composições. Em 1998, Gerhard Schröder havia conduzido a sua campanha sobre o tema do “novo centro”.

“Onde quer que nós estejamos, lá está o centro”, declarou a chanceler durante o mais recente congresso do seu partido. Para ela, não é necessário defini-lo de maneira mais precisa. Ao contrário. A sua popularidade baseia-se na sua capacidade de conciliar, e em certos casos de defender, posições contraditórias. Isso porque longos anos de “vacas magras” e um reaquecimento econômico do qual eles nem sempre desfrutam dos resultados talvez tenham abalado a confiança dos alemães no valor dos compromissos. Em todo caso, as dificuldades não a destruíram.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Energia é maior desafio do governo argentino

Cristina busca socorro junto a Evo, Chávez e Lula

Ariel Palacios, BUENOS AIRES

A presidente Cristina Kirchner terá nas próximas semanas uma agenda internacional carregada, com foco nas formas de driblar a crise energética que afeta o país e constantemente ameaça desacelerar o crescimento econômico.
Sexta-feira, ela receberá na capital argentina o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem discutirá uma extensa lista de assuntos, entre eles a integração energética. No dia seguinte, ambos os presidentes se reúnem com o presidente da Bolívia, Evo Morales, para discutir as dificuldades que seu governo enfrenta para garantir o abastecimento de gás que tanto o mercado argentino como o brasileiro necessitam para 2008.
No dia 5 de março, Cristina viajará a Caracas, Venezuela, para assinar acordos com o presidente Hugo Chávez, que permitirão que a Argentina possa trocar alimentos por combustível venezuelano.
Cristina está correndo contra o relógio, de forma a garantir energia por mais um ano. Enquanto isso, tenta aplicar um plano de redução de consumo de energia elétrica que até agora não conseguiu o apoio da população. Em janeiro, primeiro mês do programa, os argentinos consumiram mais do que no mesmo mês de 2007.
No encontro com o presidente Lula, além de conversar sobre um eventual acordo com a Embraer, para que a empresa passe a administrar a Fábrica de Aviões de Córdoba (uma parceria sonhada por Cristina desde seu primeiro comício eleitoral, em julho de 2007), e analisar as negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), a presidente argentina pretende avançar nas discussões sobre a futura construção da usina hidrelétrica binacional de Garabi, que seria localizada sobre o rio Uruguai, na fronteira entre os dois países.
Garabi, que levaria ao menos cinco anos para ser construída, implicaria investimentos entre US$ 1,5 bilhão e US$ 1,7 bilhão. A hidrelétrica aumentaria a potência energética argentina em 9%.
Cristina também está interessada na reativação do plano da hidrelétrica binacional de Corpus, sobre o Rio Paraná, projeto que data dos anos 70 e jamais foi sequer iniciado. Essa hidrelétrica é binacional com o Paraguai. Mas os argentinos estão interessados há anos no eventual investimento brasileiro na obra (que poderia contar com empreiteiras do Brasil).
O caso de Corpus foi discutido recentemente com o presidente Lula e a presidente Cristina por um dos principais candidatos presidenciais do Paraguai, o general Lino Oviedo, que demonstra grande interesse pela construção da usina.
No dia seguinte, sábado, Lula e Cristina se reunirão com o presidente Evo Morales, que irá especialmente à Buenos Aires para discutir pessoalmente com seus colegas a impossibilidade de poder cumprir o convênio assinado há dois anos, segundo o qual enviaria 7,7 milhões de metros cúbicos de gás por dia à Argentina.
Sem capacidade para concretizar essas remessas, Evo envia ao mercado argentino somente 3 milhões de metros. Para Cristina, essa redução é angustiante, já que a demanda de gás aumenta sem parar.
O cenário, sem o gás boliviano, promete uma nova crise de escassez de energia no próximo inverno para os argentinos. O vice-presidente boliviano, Alvaro García Linera, afirmou na semana passada que, apesar da crescente demanda brasileira, seu país não poderá remeter ao Brasil mais do que os 29 milhões de metros cúbicos diários que atualmente envia. Os três presidentes se reunirão na residência oficial de Olivos para discutir como o gás boliviano será dividido entre os países.
Cristina pretende garantir todos os flancos possíveis, de forma a suavizar ao máximo as chances de uma nova crise energética, como a que afetou o país no inverno do ano passado e desacelerou o crescimento industrial. Para isso, no dia 8 de março, ela viajará a Caracas, onde se reunirá com o presidente Hugo Chávez para assinar uma série de acordos que determinam a troca de alimentos feitos na Argentina por combustível venezuelano.
O diesel da Venezuela tornou-se crucial nos últimos anos para abastecer as termoelétricas argentinas, que sofrem o desabastecimento de gás. A Argentina enviaria à Venezuela carne, trigo e laticínios, para reduzir a escassez de alimentos nesse país. Esses acordos bilaterais equivaleriam a um comércio de US$ 250 milhões a US$ 300 milhões neste ano. Desde que Cristina assumiu a presidência, vários apagões já ocorreram no país.

Estado de S. Paulo

Comentários

Iraque em tempos de guerra civil

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Tem cobertura acadêmica o aviso do general David Petraeus, chefe das tropas dos Estados Unidos no Iraque, de que pode durar anos o combate à insurgência no país. A Brookings Institution, centro de estudos independente em Washington, dá selo de validade às conclusões de que o pais invadido está à caminho de um guerra civil.
Outros -talvez intimamente o próprio Petraeus- não têm dúvidas de que esta já se instalou, e autoridades no assunto procuram dizer o que isso significaria. São citados, de modo especial, Paul Collier, James Fearon e Bárbara Walter, de Oxford, Stanford e Universidade da Califórnia em San Diego.
A primeira constatação bate com o ""pessimismo" de Petraeus. As guerras civis têm sido mais longas do que as convencionais. Há registros de até dez anos. De 1945 até hoje, a média ficou em sete. Foram oito anos sangrentos na Argélia, às vezes citados como repositórios de pontos de identificação com o Iraque. Começaram com levante de pouca intensidade contra a metrópole colonial, a França, e acabaram coletando todos os ingredientes de conflitos armados "não-convencionais", nos quais se enquadram as guerras civis. Guerrilha, terrorismo contra não-combatentes, tortura, contra-insurgência etc. Os franceses ganharam a batalha de Argel, a capital conflagrada, mas perderam a guerra politicamente.
Um filme sobre essa batalha tem sido objeto de estudo da inteligência militar americana. A nova estratégia de Bush no Iraque, a cargo de Patraeus, parte da crença de que o envio de mais tropas resultará na imposição da lei do mais forte e que um triunfo na batalha de Bagdá destruirá a insurgência em todo o Iraque. Independentemente dos equívocos que essa espécie de raciocínio possa produzir, que opções restariam a Bush em sua decisão de não dar o braço a torcer? Conseguir um compromisso político?
Estudos cobrindo 50 guerras civis mostraram que as sectárias, como a do Iraque, são muito mais difíceis de terminar por meio de acordos do que as ideológicas, como a de El Salvador. Fearon acrescenta que é ainda mais complicado alcançar compromissos políticos quando há subdivisões em ambos os lados. No Iraque, xiitas e sunitas abrigam milícias que brigam entre si. Além disso, a história das guerras civis registra que as negociações em geral só acontecem quando se chega a impasses, o que não parece ser o caso do Iraque.
Lideranças xiitas e sunitas e seus centuriões estariam convencidas de que conseguirão o que querem, por meio da força, quando (ou se) os americanos caírem fora. É possível, diz Fearon, que as ambições permaneçam até que sejam postas à prova, algo possível apenas com a saída dos Estados Unidos.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

Comentários

De Havana para Washingnton

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
A idéia de algum diálogo entre Cuba e Estados Unidos parece embutida na cabeça de Raúl Castro, quem sabe com uns poucos novos fios de esperança. As propostas já somam três, uma agora e duas anteriores, talvez calçadas num precedente importante -a recente visita a Cuba de dez parlamentares americanos, tida como "rara incursão". Juntaram-se nessa empreitada democratas e republicanos, e alguns decidiram romper o silêncio manifestando-se favoráveis a um "abrandamento" das sanções impostas a Cuba no começo dos anos 60.
A nova proposta de diálogo -feita anteontem em discurso do mandatário que ocupa interinamente o posto de Fidel Castro- tem um diferencial. Não foi feita ao governo George W. Bush, mas ao que sucedê-lo. Um especialista em relações interamericanas diz que os atuais ocupantes da Casa Branca e do Departamento de Estado "não entendem nada do que está se passando na América Latina, e a falta de entendimento produz desinteresse".
A ausência de iniciativas é prova disso. A expectativa é a de que o futuro presidente americano, sobretudo se for democrata, comporte-se de modo "mais compreensivo, mais negociador".
Andrés Oppenheimer, em sua coluna no "Miami Herald", falou de possíveis impactos da Guerra do Iraque na política externa dos Estados Unidos, inclusive em relação a Cuba. Envolta numa tragédia, diante de uma "síndrome iraquiana", a Casa Branca se tornaria mais humilde, disposta a conversar, um super-poder afinal convertido ao multilateralismo.
Poderia haver movimentos "gradativos" de distanciamento da velha política de pressionar Cuba com sanções para que haja uma mudança de regime. Um recuo a algo menos ambicioso como objetivo. Reforma do regime, por exemplo.
Numa reunião do Council on Foreign Relations, entidade de ponta no "establishment" diplomático americano, foram lembrados dois erros graves dos Estados Unidos no Iraque: a destruição do Exército iraquiano e do partido Baath, de Saddam Hussein, instituições-chave que mantinham a integridade do país invadido.
Conselho
O conselho implícito é de que os Estados Unidos não cometam "os mesmos erros" em Cuba, onde também só há duas instituições, o Exército e o Partido Comunista. Terão de lidar com eles em qualquer iniciativa futura. O Exército, por exemplo, estendeu sua influência muito além do campo militar.
Generais são ministros do Interior e do Açúcar e procurador-geral. Militares treinados no exterior em escolas de condução de negócios estão à frente de cerca de 300 empresas com o controle de 80% das exportações de mercadorias e de parcelas consideráveis dos ganhos em turismo e serviços.
Um general, vice-ministro da Defesa, dirige o Grupo de Administração Federal, "holding" do Exército. Controla lugares turísticos, como o Cubanacan, uma cadeia de casas de câmbio, a aviação civil, a Marinha mercante e empresas de pesca.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de assuntos internacionais

Folha de S. Paulo

Comentários

Passagem pela adolescência

Rosely Sayão

"Filho criado, trabalho redobrado." Esse conhecido ditado popular ganha sentido quando chega a adolescência. Nessa fase, o filho já não precisa dos cuidados que os pais dedicam à criança, tão dependente. Mas, por outro lado, o que ele ganha de liberdade para viver a própria vida resulta em diversas e sérias preocupações aos pais. Temos a tendência a considerar a adolescência mais problemática para os pais do que para os filhos. É que, como eles já gozam de liberdade para sair, festejar e comemorar sempre que possível com colegas e amigos de mesma idade e estão sempre prontos a isso, parece que a vida deles é uma eterna festa. Mas vamos com calma porque não é bem assim.
Se a vida com os filhos adolescentes, que alguns teimam em considerar um fato aborrecedor, é complexa e delicada, a vida deles também o é. Na verdade, o fenômeno da adolescência, principalmente no mundo contemporâneo, é bem mais complicado de ser vivido pelos próprios jovens do que por seus pais. Vejamos dois motivos importantes.
Em primeiro lugar, deixar de ser criança é se defrontar com inúmeros problemas da vida que, antes, pareciam não existir: eles permaneciam camuflados ou ignorados porque eram da responsabilidade só dos pais. Hoje, esse quadro é mais agudo ainda, já que muitos pais escolheram tutelar integralmente a vida dos filhos por muito mais tempo.
Quando o filho, ainda na infância, enfrenta dissabores na convivência com colegas ou pena para construir relações na escola, quando se afasta das dificuldades que surgem na vida escolar -sua primeira e exclusiva responsabilidade-, quando se envolve em conflitos, comete erros, não dá conta do recado etc., os pais logo se colocam em cena. Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a idéia de que eles não existem por muito mais tempo.
É bom lembrar que a escola -no ciclo fundamental- deveria ser a primeira grande batalha da vida que o filho teria de enfrentar sozinho, apenas com seus recursos, como experiência de aprender a se conhecer, a viver em comunidade e a usar seu potencial com disciplina para dar conta de dar os passos com suas próprias pernas.
Em segundo lugar, o contexto sociocultural globalizado atual, com ideais como consumo, felicidade e juventude eterna, por exemplo, compromete de largada o processo de amadurecimento típico da adolescência, que exige certa dose de solidão para a estruturação de tantas vivências e, principalmente, interlocução. E com quem os adolescentes contam para conversar?
Eles precisam, nessa época de passagem para a vida adulta, de pessoas dispostas a assumir o lugar da maturidade e da experiência com olhar crítico sobre as questões existenciais e da vida em sociedade para estabelecer com eles um diálogo interrogador. Várias pesquisas já mostraram que os jovens dão grande valor aos pais e aos professores em suas vidas. Entretanto, parece que estamos muito mais comprometidos com a juventude do que eles mesmos.
Quem leva a sério questões importantes para eles em temas como política, sexualidade, drogas, ética, depressão e suicídio, vida em família, vida escolar, violência, relações amorosas e fidelidade, racismo, trabalho etc.? Quando digo levar a sério me refiro a considerar o que eles dizem e dialogar com propriedade, e não com moralismo ou com excesso de jovialidade. E, desse mal, padecem muitos pais e professores que com eles convivem.
Os adolescentes não conseguem desfrutar da solidão necessária nessa época da vida, mas parece que se encontram sozinhos na aventura de aprender a se tornarem adultos. Bem que merecem nossa companhia, não?


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

Folha de S. Paulo

Comentários (1)

Fidel e o futuro de Cuba

Fidel:O líder cubano Fidel Castro anunciou ao mundo nesta terça-feira (19) que não comandará mais o estado de Cuba. O revolucionário foi enfático: “comunico a vocês que não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe”.
Após sérios problemas de saúde, Fidel deixou o comando do país em julho de 2006, desde então, seu irmão Raul Castro assumiu o comando. O “comandante” afirmou que permanecer no posto seria “trair sua consciência”, já que a responsabilidade exige “mobilidade e entrega total”, o que já não lhe é possível.
Fidel foi o principal líder da Revolução Cubana que, em 1959, derrotou o exército do ditador Fulgêncio Batista. De 1959 a 1976, foi o primeiro-ministro cubano. Em 1976, após a aprovação da Constituição Socialista por voto livre e direto por mais de 95% dos eleitores, Castro assumiu a presidência.
Aos 81 anos, Fidel anunciou que agora seu dever é “fornecer experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional” que viveu e que, portanto, será um “soldado das idéias”.
Para explicar melhor o passado e o futuro da revolução socialista cubana, a Radioagência NP entrevistou a escritora e historiadora, Cláudia Furiati , autora do livro “Fidel Castro, uma biografia consentida”.
Radioagência NP: Boa parte dos meios de comunicação se refere ao Fidel Castro como um ditador. Você concorda?
Os ditadores que nós conhecemos favoreceram sua família, seus sócios e tiraram dinheiro do povo. Não fizeram nada para os seus povos e sim para si mesmo. O Fidel não se encaixa nesse conceito de ditador. Existe uma censura? Controle da informação? Existe o primado de um partido? Existe tudo isso. Mas você não pode equiparar a história do Fidel e da revolução com essas pequenas histórias desses ditadores. A ditadura é um conceito factível de distintos pontos de vista. A ditadura do proletariado é um conceito da teoria leninista. Então, Fidel é um exemplo de ditador do proletariado? Pode ser.
RNP: E enquanto líder político, qual a imagem que fica de Fidel Castro?
Ele vai ficar para história como grande líder do século XX. Exemplo máximo da história da libertação dos povos colonizados, oprimidos, daquilo que se chamou terceiro mundo. Mesmo as pessoas mais a direita sabem que é. Os mais conservadores vêem esse homem de grande carisma, de grandes valores humanos e morais. É uma pessoa basicamente coerente!
RNP: Qual é a importância histórica da Revolução Cubana?
Muitos movimentos de esquerda menos adequados pela União Soviética buscaram a orientação da Revolução Cubana para começar a organizar sua própria revolução. Mas, o processo cubano é inédito, não pode ser copiado em lugar nenhum. Existem inclusive fatores desse processo que são inacreditáveis, porque não obedecem a lógica. Por exemplo, um exército pequeno, não chegando a mais de duas mil pessoas, foi capaz de, pouco a pouco, ganhar de um exército que tinha o amparo de toda logística norte-americana, como foi o caso dos guerrilheiros de Fidel no final de 1958, é um fato histórico que não cabe em nenhuma lógica objetiva. A veia de estrategista que Fidel tinha, e de grande militar, ajudou e muito a elaboração da vitória daquela guerrilha. Então, os atributos desta pessoa fizeram a história andar para frente e a revolução vingar.
RNP: Hoje, o que a Revolução Cubana deixa para nós?
Para todos nós que vivemos nesses países que tem um histórico colonial, o grande exemplo que o Fidel nós dá é de que é possível levar adiante um movimento revolucionário. Quando você quer mudar o status, porque ele é indigno, porque ele é injusto, porque ele é contra a maioria, é importante você ter esse rumo e essa vontade.
RNP: O que deve acontecer com a Cuba pós-Fidel?
Antes do Fidel ficar doente, o poder já estava partilhado, as pessoas é que não queriam ver. O Fidel já não estava assumindo todas as atribuições que ele tinha, ele foi deixando poder pouco a pouco, foi fazendo a sua sucessão desde 1995, 1996. Então, quando as pessoas perguntam o que vai acontecer com Cuba, vai acontecer isso que já está acontecendo.
RNP: Seria um processo de transição?
Tenho problemas com essa palavra transição. Os processos históricos são dialéticos. Acho que Cuba está caminhando para uma mudança firme, do ponto de vista de determinados princípios socialistas que se mantém. E ao mesmo tempo cada vez mais aberta. Nós temos que encarar o socialismo cubano tal como ele é, tentar vê-lo da maneira mais clara. Ele já não é um socialismo puro, nem nunca foi.
RNP: Mas a revolução se sustenta?
Uma coisa que ele [Fidel] fez nos últimos dez anos é o foco na juventude. Existe uma nova geração em Cuba que é produto do movimento estudantil que a meu ver é a base do sustentáculo desse processo revolucionário. Essa nova geração que tem uma consciência clara da importância do seu país, da história do seu país, tem uma noção da importância de manter aquela sociedade firme, digna, e mantendo relações com mundo capitalista, mas jamais se tornando subalterna.
De São Paulo, da Radioagência NP, Vinicius Mansur.

Rádio Agência NP

Comentários

CUBA: MÍDIA VAI FAZER CAMPANHA DE DESINFORMAÇÃO

Jorge Pereira Filho - Brasil de Fato (*)

A renúncia de Fidel vai desencadear uma campanha midiática de desinformação de proporções mundiais. Essa é a previsão do jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues, integrante do Partido Comunista Português. Segundo ele, a mídia mente ao afirmar que há uma oposição organizada ao regime em Cuba. "As personalidades e grupos contra-revolucionários carecem de expressão social. São quase folclóricos. Fazem muito barulho graças à mídia internacional", afirma Miguel Urbano, que viveu oito anos em Cuba.

Para o jornalista, o regime socialista cubano seguirá seu próprio caminho, aperfeiçoando-se dentro de sua lógica. Com relação a uma eventual intervenção externa, como já chegou a cogitar o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, Miguel Urbano afirma que considera a hipótese improvável. "Mas estou certo de que, no caso de uma agressão desse tipo, o povo cubano lhe daria a resposta de abril de 61, quando derrotou em Playa Giron o desembarque mercenário idealizado e financiado pelos EUA". Confira a íntegra da entrevista.

Brasil de Fato - Qual o significado prático para o povo cubano da renúncia do presidente Fidel Castro? O que pode mudar em Cuba?

Miguel Urbano Rodrigues - São os povos o sujeito da História. Mas o fator subjetivo em determinadas situações pode pesar muito. Fidel Castro marcou decisivamente o rumo da história do seu país e da América Latina na segunda metade do século XX. Que pode mudar agora? Nada daquilo que o sistema de poder estadunidense desejaria. Fidel já havia transferido o poder executivo para Raul . A sociedade cubana não é estática. Mas as mudanças vão se inserir na continuidade do regime socialista. Não haverá ruptura com as grandes metas fixadas. Somente mudança de estilo como aliás já vinha ocorrendo.

E, do ponto de vista simbólico, a saída de Fidel Castro pode significar o fortalecimento de movimentos contra-revolucionários?

A mídia, sobretudo nos EUA e na Europa, tem difundido a idéia de que em Cuba existe uma oposição organizada com base popular. É uma inverdade. Residi oito anos em Cuba até 2004, e adquiri a certeza de que as personalidades e grupos contra-revolucionários carecem de expressão social. São quase folclóricos. Fazem muito barulho graças à mídia internacional.

Atualmente na sociedade cubana ocorre um debate interno crítico sobre o regime. Existe uma vontade popular de retorno ao capitalismo ou essa é mais uma pressão que vem de fora para dentro de Cuba?

O discurso de Raul Castro no 26 de Julho de 2007 desencadeou um debate intenso na sociedade cubana. Mas deforma o seu significado defini-lo como crítico do regime. Em milhares de reuniões, nas fábricas, nas escolas, nas cooperativas, nos serviços, no Partido, em todas as Províncias, os cubanos, respondendo a um apelo de Raul, debateram grandes problemas nacionais, expressando sem temor idéias, apresentando sugestões, criticando o que se lhes afigura passível de críticas, mas sempre numa perspetiva de aperfeiçoamento do socialismo e nunca de um regresso ao capitalismo.

Não poucas vezes o presidente George W. Bush anunciou que esperava o afastamento de Fidel Castro para colocar em prática um plano para fazer uma suposta "transição democrática" em Cuba, cogitando abertamente ações intervencionistas…

O presidente Bush carece totalmente autoridade moral e intelectual para se apresentar como árbitro do futuro de Cuba. O seu projeto de "transição" para Cuba tem matizes fascistas. No contexto da grave crise estrutural do capitalismo estadunidense, considero praticamente improvável uma intervenção militar de Washington em Cuba. Mas estou certo de que, no caso de uma agressão desse tipo, o povo cubano lhe daria a resposta de Abril de 61 quando derrotou em Playa Giron o desembarque mercenário idealizado e financiado pelos EUA.

O governo cubano teme que possa ocorrer uma onda internacional conservadora, coordenada pelos Estados Unidos, pressionando para uma mudança de regime em Cuba?

O povo cubano sabe que a simples decisão de Fidel de não retornar à Presidência desencadeará uma campanha midiática de desinformação de proporções mundiais, caracterizada por cenários fantasistas e especulações sobre o tipo de "mudanças" desejadas pelo imperialismo. Mas não creio que leve muito a sério essa inevitável intrigalhada.

Qual o legado que o governo de Fidel Castro deixa para a América Latina e para os povos?

A Revolução Cubana resiste vitoriosamente há quase meio século a uma guerra não declarada. Dez presidentes dos EUA comprometram-se a destruir o socialismo em Cuba. Foram sucessivamente desmentidos pela história. Essa resistência de Cuba não configura apenas a epopéia coletiva do seu povo. Funcionou como estímulo para os povos da América Latina e do Terceiro Mundo. Confirmou que o poder do imperialismo tem limites. Sem a resistência de Cuba, a Revolução Bolivariana na Venezuela não teria sido possível, e processos como aqueles que estão em curso no Equador e na Bolívia seriam inviáveis. Quando Fidel adoeceu escrevi que via nele um Aquiles cubano. Identifico no grande revolucionário um herói da Humanidade.

(*) O Jornal Brasil de Fato publicou especial sobre a renúncia de Fidel, clique aqui para ler.

Fazendo Media

Comentários

Paul Krugman: Não chores por mim, América

Paul Krugman

México. Brasil. Argentina. México, de novo. Tailândia. Indonésia. Argentina, de novo. E agora, os Estados Unidos.

A história se repete de novo e de novo ao longo dos últimos 30 anos. Os investidores globais, decepcionados com os retornos que estão obtendo, buscam por alternativas. Eles acham que encontraram o que estão procurando em algum país ou outro, e o dinheiro ingressa aos montes.

Mas no final fica claro que a oportunidade de investimento não era tudo o que parecia, e o dinheiro foge correndo, com péssimas conseqüências para o ex-favorito financeiro. Esta é a história de múltiplas crises financeiras na América Latina e na Ásia. E também é a história das bolhas de crédito e imobiliária americanas. Atualmente, nós estamos fazendo o papel normalmente reservado às economias do Terceiro Mundo.

Por motivos que explicarei depois, é improvável que os Estados Unidos passarão por uma recessão tão severa quanto, digamos, a da Argentina. Mas as origens de nosso problema são praticamente as mesmas. E entender estas origens também ajuda a entender onde a política econômica americana errou.

As origens globais de nosso atual problema foram na verdade expostas por ninguém menos que Ben Bernanke, em um discurso influente que fez no início de 2005, antes de ser nomeado presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Bernanke fez uma boa pergunta: “Por que os Estados Unidos, sendo a maior economia do mundo, tomam empréstimos pesados nos mercados de capital internacionais, em vez de emprestar, como seria mais natural?”

Sua resposta foi de que a principal explicação não estava aqui nos Estados Unidos, mas no exterior. Em particular, as economias do Terceiro Mundo, que foram favoritas dos investidores ao longo de grande parte dos anos 90, foram abaladas por uma série de crises financeiras a partir de 1997. Como resultado, elas passaram abruptamente de destinos de capital para fontes de capital, à medida que seus governos passaram a acumular imensas reservas de ativos estrangeiros por precaução.

O resultado, disse Bernanke, foi uma “superabundância de poupança global”: muito dinheiro, todo arrumado mas sem ter para onde ir.

No final, grande parte de tal dinheiro veio para os Estados Unidos. Por quê? Por causa, disse Bernanke, da “profundidade e sofisticação dos mercados financeiros do país”.

Tudo isso estava certo, exceto por uma coisa: os mercados financeiros americanos, como se mostraram, são caracterizados menos pela sofisticação e mais pelo sofisma, que meu dicionário define como “um argumento deliberadamente inválido, com aparência de verdade, com a intenção de enganar”: isto é, “reembalar empréstimos duvidosos em obrigações de dívidas colateralizadas cria muitos ativos AAA (a melhor nota das avaliações de risco) perfeitamente seguros, que nunca darão problemas”.

Em outras palavras, os Estados Unidos não estavam, na verdade, particularmente capacitados para fazer uso dos fundos excedentes do mundo. Era, em vez disso, um lugar onde altas somas poderiam e foram investidas muito mal. Direta ou indiretamente, o fluxo de capital dos investidores globais para os Estados Unidos acabou financiando uma bolha imobiliária e de crédito que agora estourou, com conseqüências dolorosas.

Como eu disse, essas conseqüências provavelmente não serão tão ruins quanto as recessões devastadoras que atingiram as vítimas da mesma síndrome no Terceiro Mundo. A salvação da situação americana é o fato de nossas dívidas externas serem na nossa própria moeda. Isto significa que não sofreremos o mesmo tipo de mergulho mortal em parafuso financeiro experimentado pela Argentina, no qual a desvalorização do peso fez com que as dívidas do país, que eram em dólares, inchassem em valor relativo aos ativos domésticos.

Mas mesmo sem estes efeitos da moeda, o próximo ano ou dois poderá ser bastante desagradável.

E o que deveria ter sido feito de forma diferente? Alguns críticos dizem que o Fed ajudou a inflar a bolha imobiliária com as baixas taxas de juros. Mas as taxas estavam baixas por um bom motivo: apesar da última recessão ter oficialmente terminado em novembro de 2001, foram necessários mais dois anos para que a economia americana começasse a apresentar um crescimento convincente na oferta de empregos, e o Fed estava acertadamente preocupado com a possibilidade de uma estagnação econômica prolongada como a japonesa.

O verdadeiro pecado, tanto do Fed quanto do governo Bush, foi o fracasso em exercer uma supervisão adulta sobre mercados descontrolados.

Não foi apenas a não disposição de Alan Greenspan de reconhecer que havia algo mais do que um pouco de “espuma” nos mercados imobiliários, ou sua recusa em fazer algo a respeito dos abusos dos empréstimos de risco. O fato é que à medida que o sistema financeiro americano se tornava ainda mais complexo, ele também superou a estrutura de regulamentação bancária que costumava nos proteger -mas em vez de uma tentativa de modernizar a estrutura, tudo o que recebemos foram cantos de glória às maravilhas do livre mercado.

No momento, Bernanke está em modo de gestão de crise, tentando lidar com o estrago que seu antecessor deixou para trás. Eu não tenho nenhum problema com seu depoimento na quinta-feira, apesar de suspeitar que seja tarde demais para impedir uma recessão.

Mas vamos torcer para que quando a poeira assentar, Bernanke comande a discussão sobre o que precisa ser feito para consertar um sistema financeiro muito, muito errado.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Comentários

Projeto dos 1.000 Genomas: expandindo o mapa da genética humana

Pesquisadores esperam que a iniciativa acelere a descoberta das raízes genéticas de várias doenças

David Biello

O número de genomas humanos seqüenciados logo chegará aos mil, como parte de um novo consórcio internacional de pesquisa para determinar a origem genética de doenças. Mas, antes, uma mãe, um pai e um filho adulto de uma família de ascendência européia de Utah, nos Estados Unidos, assim como os pais e um filho de uma família de descendentes de Yorubas (grupo étnico do oeste da África) na Nigéria, se juntarão a uma pessoa anônima e aos famosos geneticistas Craig Venter e James Watson no exclusivíssimo grupo de humanos que já tiveram uma leitura completa de seus quase três bilhões de pares de DNA. E essas seis pessoas também terão seus códigos genéticos examinados pelo menos vinte vezes, fornecendo uma precisão 10 vezes maior que a das seqüências genéticas existentes, e abrindo caminho para uma iniciativa ambiciosa apelidada de “Projeto dos 1.000 Genomas” – que irá mapear de maneira abrangente as variações genéticas da humanidade.

“A referência que obtivemos em 2003 (da pessoa anônima) é apenas uma seqüência do genoma humano, mas há seis bilhões de pessoas e as seqüências de todos são importantes”, afirma um dos líderes do projeto, Richard Durbin, do Wellcome Trust Sanger Institute em Cambridge, na Inglaterra. “Seqüenciar tudo isso não é possível, mas os resultados do Projeto dos 1.000 Genomas chegarão um pouquinho mais perto do total.”

O projeto terá três etapas, de acordo com o consórcio. A primeira, que já está em andamento e deve ser completada até o final deste ano, é uma varredura detalhada do genoma dessas seis pessoas. O procedimento será seguido por um escaneamento menos detalhado do genoma de 180 pessoas anônimas do mundo inteiro, e então por varreduras parciais de mais mil participantes. “Com os dados de mil pessoas, teremos variantes genéticas que estão presentes em cerca de 1%, ou em uma freqüência mais baixa, na população humana”, diz a geneticista Lisa Brooks, diretora do Programa de Variação Genética do National Human Genome Research Institute, em Bethesda, Maryland, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores planejam usar as seqüências genéticas comuns das seis pessoas iniciais para permitir um escaneamento menos rigoroso à medida que o projeto se acelera. Por exemplo, uma região do DNA em comum de umas das pessoas que tiveram o genoma escaneado detalhadamente poderia preencher as lacunas em branco de um participante que terá uma varredura menos rigorosa. “Tudo isso precisa ser testado”, diz Brooks, “Fazer esse escaneamento duas vezes será suficiente?”

Amostras de sangue para o projeto final já foram coletadas dos primeiros seis candidatos, assim como de grupos selecionados aleatoriamente no mundo todo: japoneses de Tóquio, chineses de Pequim, Luhyas e Masais do Quênia, italianos da Toscana, Gujaratis de Houston, chineses de Denver, americanos de origem mexicana de Los Angeles e negros do sudoeste dos Estados Unidos. “Queríamos examinar algumas populações diferentes, duas ou três dos principais continentes do Velho Mundo. Isso nos dá uma variedade, mas não sabemos exatamente quem são essas pessoas,” ressalta Brooks.

Os pesquisadores não reuniram nenhuma informação que pudesse identificar os participantes, como históricos médicos ou dados básicos, como altura e peso, já que o estudo não enfoca doenças específicas, mas uma extensão da variação genética humana. “Quantas pessoas são autistas em 100 amostras de uma comunidade?”, pergunta Brooks. “Não se trata de um estudo de doenças muito bom, mas servirá de base para um zilhão de pesquisas de enfermidades, especificamente criadas para isso.”

Por exemplo, uma vez completo, as informações dos 1.000 genomas permitirão aos pesquisadores apontar genes, variantes estruturais em cromossomos e outras variações genômicas individuais associadas a doenças que vão do autismo ao câncer. Com as informações genéticas incompletas disponíveis hoje, os cientistas já conseguiram identificar pelo menos 100 regiões do genoma associadas a diversas doenças, ao comparar as variações do DNA entre pessoas saudáveis e doentes. “Esse projeto fornecerá uma quantidade de dados cem vezes maior”, afirma Durbin.

O projeto também ajudará a esclarecer a história evolucionária compartilhada da humanidade. “Aprenderemos mais sobre o período de algumas centenas de milhares de anos atrás, quando os humanos modernos evoluíram antes de saírem da África e se espalharem pelo mundo”, conta Durbin. “Podemos estudar isso examinando evidências da seleção no padrão de variação observado no genoma”.

Já está claro que 99% do DNA é o mesmo para todos os humanos. Mas ao mapear as variações no 1% restante, o Projeto dos 1.000 Genomas pode ajudar a revelar as bases de certas doenças. “Com esses elementos revelados, podemos pensar no desenvolvimento de tratamentos”, diz Brooks, “O projeto não apontará os culpados, mas nos dará pelo menos uma lista dos suspeitos.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Comentários

Kosovo não tem DDD, moeda nem selo próprio

Apesar do apoio do Ocidente, estrutura é incipiente

MARCELO NINIO
DE GENEBRA

Os telefones têm prefixos da Sérvia, da Eslovênia e até do principado de Mônaco. As cartas são postadas com selos da ONU. O dinheiro em circulação é o euro. Kosovo já tem bandeira nacional e o reconhecimento das principais potências do Ocidente, mas em questões práticas a independência declarada no último domingo ainda está longe de sair do papel.
"Ainda não recebemos de Kosovo nenhum pedido de adesão ou de prefixo telefônico", disse à Folha Sanjay Acharya, porta-voz da União Internacional das Telecomunicações (UIT), agência da ONU que coordena os padrões da telefonia mundial. Para aderir à UIT, explicou Acharya, um país precisa obter a aprovação de dois terços dos membros. Se o pretendente pertence à ONU, a adesão é automática.
Sem aval da ONU
Aí começam os problemas de Kosovo. Para ter seu pedido de adesão à ONU encaminhado à Assembléia Geral da organização, um país deve ter pelo menos nove dos 15 votos do Conselho de Segurança, incluindo os dos cinco membros permanentes. Ocorre que dois deles, Rússia e China, são contra a independência kosovar.
"Um país não precisa da ONU para existir, mas sem a ONU as dificuldades são bem maiores", diz o especialista em direito internacional Pál Dunay, do Centro de Política de Segurança de Genebra.
Para uma população em busca de emancipação, ademais, detalhes técnicos ganham enorme valor simbólico. Sem acordos internacionais e ainda tutelado pela ONU, Kosovo pode ter sua própria bandeira, que só depende da aprovação de seu Parlamento. Mas o desejo de um código de área nacional terá que esperar. Os telefones fixos continuam com o prefixo 381, da Sérvia. Já os números de celulares podem ser precedidos de 386, código da vizinha Eslovênia, ou, mais bizarro, de 377, de Mônaco.
A conexão entre o sofisticado principado e uma das regiões mais pobres da Europa tem origem numa concessão dada em 1999 pela Unmik, a missão da ONU em Kosovo, à Monaco Telecom. Hoje ela é a principal provedora de telefones celulares da Província.
Enquanto estiver na sala de espera da comunidade internacional, Kosovo também terá que se conformar com um serviço postal emprestado. "A ONU continuará a emitir os selos e gerir o setor enquanto vigorar a resolução 1.244", diz o porta-voz da União Postal Universal (UPU), Laurent Widmer, em referência à decisão que estabeleceu a internacional em Kosovo, em 1999. Para entrar na UPU, as condições são semelhantes às da UIT.
Na galeria de emblemas da soberania, alguns símbolos são deixados de lado em nome do pragmatismo. Poucos kosovares parecem incomodados com o fato de seu país usar o euro como moeda. "Ninguém aqui pensa em começar a imprimir dinheiro", diz o ambientalista kosovar Luan Shllaku. "Nosso destino é a União Européia, mesmo que demore dez anos."

Folha de S. Paulo

Comentários

Direitos humanos e o lamento de Milanés

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Com a interinidade de Raúl, a situação dos direitos humanos em Cuba melhorou, piorou ou se manteve estável? É importante sabê-lo como um marco de projeção para o futuro. De acordo com relatório da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CDHRN), o regime simplesmente mudou de táticas desde que Raúl assumiu o poder.
No ano passado, o número de dissidentes presos caiu de 283 para 234. Mas não é aceita a noção de melhoria, em razão do fato de que somaram pelo menos 325 as prisões temporárias, por dias ou horas, feitas "de modo arbitrário".
As autoridades cubanas não reconhecem a comissão. Dizem que ela deve sua existência ao apoio que recebe dos Estados Unidos. Não teria autenticidade e tampouco credibilidade. Mas seus relatórios e denúncias conseguem bons espaços em publicações estrangeiras de peso, como "Le Monde", de Paris, que divulgou denúncias de dissidentes falando de "recrudescimento da repressão por meio de prisões temporárias e de manifestações de hostilidade contra opositores".
Payá e igreja
Um dos dissidentes de maior prestígio, no entanto, Oswaldo Payá, parece ter optado por fixar-se em outras questões, como se procurasse brechas onde possa penetrar com suas conclusões e proposições. Payá insiste em que a grande novidade dos últimos meses é a constatação de que "todos os cubanos afinal pensam que o fim do regime é possível". A própria Igreja Católica sai aos poucos de sua "discrição" e sugere como procedimento que parece considerar viável a adoção de um "processo gradual de mudanças".
Não chega a especificar que transformações seriam essas. Alguns bispos avançaram um pouco mais, assegurando que a população aguarda "com ansiedade" o que possa acontecer de diferente das últimas décadas. "Cuba deve se abrir ao mundo e o mundo deve ser abrir a Cuba", disse o segundo do Vaticano no décimo aniversário da ida do papa a Cuba.
Payá criou um novo movimento de dissidentes cujo nome identifica objetivos. É o Comitê Cidadão de Reconciliação e Diálogo. Payá não quer traumas, golpes, invasões ou algo do gênero. Propõe conversas de alto nível em Havana com o objetivo de determinar e liberar o que os cubanos guardam na alma e de acertar a adoção de leis que resguardem as liberdades individuais.
Mandou um recado aos americanos. Não só o regime comunista deve perguntar aos cubanos o que eles querem. Também o governo Bush deve perguntar o que querem os cubanos, em vez de repetir discursos agressivos que estariam dando, como sempre, mais munição aos detentores do poder.
Assunto na cabeça de qualquer agenda de diálogo é a proibição de viagens ao exterior, tema de uma das últimas composições de Pablo Milanés. Diz ela: "Meu irmão Jacinto, que vive em Havana, não sabe que sua filha, que teve uma neta, que ainda não conheceu, ficará sabendo que sua mãe morreu de repente. As autoridades não deixam que ele saia". Fecha com as seguintes reflexões: "Valeu a pena, pergunto, não sei. Valeu a pena, respondo não sei". Milanês é amado em Cuba e tornou-se cancioneiro do regime. Seu último show no México foi dedicado aos 80 anos de Fidel Castro.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Comentários

Rememorando o Grande ABC

Do Diário OnLine

“Grande ABC Paulista”, assim ficou conhecida a região que se situava acima da serra do mar. Terras que durante muito tempo foram protegidas pelo português João Ramalho, para que não fossem invadidas pelos europeus logo que o Brasil foi descoberto e colonizado, em 1500. Conforme a história oficial, no começo havia apenas uma grande mata fechada que, após séculos, transformou-se em uma das regiões mais industrializadas do país.

Tudo começou em 1890, quando a região começou a ser dividida. Neste ano foi fundado o distrito de São Bernardo do Campo e, vinte anos depois, já existia o distrito de Santo André (incluindo os atuais municípios de Santo André, São Caetano e parte de Mauá). A partir daí, o Grande ABC, que em 1553 foi nomeado de Vila de Santo André da Borda do Campo, dividiu-se em sete cidades (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) e, até o início da década de 60, todos os municípios se emanciparam e conquistaram independência político-administrativa.

Mas, para contar como foi a evolução da região, ninguém melhor do que os próprios moradores que, direta ou indiretamente, construíram a história dos bairros onde cresceram. A cantora e compositora Manilce Lalli, 78, que aos 12 anos mudou-se para a cidade de Santo André, onde mora até hoje, relembra como era a região na sua infância: “Havia poucas casas, as ruas eram de terra e só as avenidas principais eram de paralelepípedo. Não havia iluminação no local,que era repleto de pequenos vales e represas. Calmo, tudo era muito tranqüilo, não havia o tumulto da cidade grande”.

Essa é a mesma lembrança de grande parte dos moradores que vivem no ABC há mais de cinqüenta anos. Eles acompanharam de perto todo o desenvolvimento industrial e cultural da região e sentem prazer em contar suas experiências, conforme narra o ator Antônio Aracílio Petrim, 65, em entrevista ao Memórias do ABC, grupo de pesquisa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Imes): “Eu devo dizer que a infância era muito rica nas relações humanas, porque as pessoas se davam muito bem, se ajudavam muito, não havia violência, e, ao mesmo tempo, havia muita pobreza, não havia os confortos dos dias de hoje. Na época nem luz elétrica tinha. Esse foi um período bastante difícil porque era a adaptação dos meus pais para esse lugar industrial. Eram ruas sem asfalto e aquela vida muito simples”.

Um dos problemas da região era a mobilidade, “não havia transporte e tudo era tão longe de casa”, relembra Amélia Nascimento, 71, que chegou em São Bernardo em 1939, quando a sede do município deixou de ser em São Bernardo e mudou-se para Santo André, devido à crescente evolução da cidade. Os são-bernardenses não aceitaram a mudança e rapidamente se movimentaram para que a cidade se emancipasse e a conquista ocorreu em 1945. “Eu era muito pequena e não me lembro do fato com detalhes, mas lembro que todos comentavam que não podiam se conformar com aquela situação. Nesse período me mudei para Mauá e a distância entre uma cidade e outra era tanta que não tínhamos mais notícias dos acontecimentos”.

Amélia passou cinco anos em Mauá e conta com era a infância: “Eu cantava e balançava nas árvores enquanto mamãe lavava a roupa no rio perto de casa. Me lembro que nosso colchão era de capim, minha mãe colocava um saco e nós dormíamos, não tinha tanto conforto como hoje em dia. Para chegar ao centro da cidade tínhamos que andar muito, ainda não havia transporte coletivo e demorávamos horas no caminho”. A cidade conquistou sua independência somente em 1954, mas nessa época Amélia já havia retornado a São Bernardo, onde mora até hoje, e lá acompanhou toda a evolução.

O município de São Caetano do Sul conseguiu autonomia política-administrativa em 1949, após uma consulta popular realizada um ano antes. Odair Vituri, 63, nasceu e cresceu em São Caetano, seus avós colonizaram a cidade da qual o morador tem muitas lembranças. “A região era uma enorme fazenda. Os quintais das casas eram muitos grandes, todos tinham sua própria chácara. Tínhamos nosso próprio pomar no fundo de casa, lá tinha tudo, inclusive variedades de frutas. Aprendi muito sobre cultivar plantas, mas hoje não temos mais o espaço para isso”, comenta.

Ribeirão Pires só foi emancipada de Santo André em 1953, a partir daí a cidade começou a desenvolver-se economicamente, contando com indústrias metalúrgicas, de móveis, plásticas, artefatos de cimento, cerâmica, alimentos e vestuário. Cinco anos depois, em 1958, foi a vez de Diadema conquistar a independência, que também ocorreu após um plebiscito. A última mudança significativa da região do Grande ABC ocorreu em 1963, quando o Distrito de Rio Grande da Serra se emancipou de Ribeirão Pires.

- O início do desenvolvimento

Na década de 1920 é construída a Represa Billings, em São Bernardo. A partir daí, a região começa a se urbanizar e o ABC não parou de se desenvolver. “As árvores, estradas de terra e os vales deram espaço a grandes indústrias, prédios e mais prédios. Com o tempo não ouvíamos mais os passarinhos cantarem”, comenta Manilce.

O Grande ABC deixou de ser uma região campestre e, na década de 1930, começou a agregar várias indústrias . As fábricas de cerâmica marcaram a industrialização de São Caetano. Em Santo André localizava-se grande parte das empresas do ramo têxtil. Mas, a região foi definitivamente marcada como um grande pólo industrial somente em 1950 com a chegada das indústrias automobilísticas, maior parte delas localizadas em São Bernardo do Campo.

Imes

Comentários