Arquivo de 22 de Fevereiro de 2008

Desaparecimento misterioso de abelhas está ligado a vírus raro

Pesquisadores conseguem isolar o possível causador do “despovoamento em massa de colméias”, mas dizem que outros fatores ainda estão no páreo

JR Minkel

A doença misteriosa que vem atormentando os apicultores americanos desde 2006 vem de um vírus de abelhas, que aparentemente se espalhou pelos Estados Unidos, vindo da Austrália há três anos, de acordo com um novo estudo que aponta o primeiro avanço no confuso caso do desaparecimento de abelhas.

Os pesquisadores fizeram uma comparação genética sofisticada de colméias saudáveis e contaminadas nos Estados Unidos, que revelou a presença do vírus israelense de paralisia aguda (IAPV, em inglês), obscuro porém letal, em quase todas as criações de abelhas afetadas pelo “transtorno do despovoamento em massa de colméias” – CCD, em inglês –, mas em apenas uma colônia saudável analisada.

“Não provamos ainda que essa é a causa. O vírus é um candidato a desencadeador do CCD”, explica W. Ian Lipkin, diretor do centro para estudo de infecção e imunologia na Mailman School of Public Health, da Columbia University, e um dos principais autores do estudo.

O transtorno também pode ser resultado de uma combinação de má alimentação, pesticidas e outros fatores, incluindo infecção, de acordo com Lipkin e sua equipe. Eles disseram ainda que são necessários testes mais longos para determinar se o IAPV consegue desencadear o CCD sozinho ou se conta com outros agentes, ou mesmo se certas combinações de fatores de estresse tornam as colméias vulneráveis ao vírus.

Virologistas israelenses descobriram o IAPV três anos atrás, após pesquisar casos sem explicação de montes de abelhas mortas em frente às colméias. O novo estudo encontrou o vírus em amostras de abelhas australianas, importadas pelos Estados Unidos pela primeira vez há três anos.

Se o IAPV for o principal fator desencadeador, dizem os pesquisadores, abelhas do mundo inteiro poderiam ser cruzadas com indivíduos resistentes ao vírus, talvez salvando assim o polinizador mais economicamente importante dos Estados Unidos.

Estima-se que as abelhas façam uma polinização avaliada em US$15 bilhões por ano, “operando” no limite. Metade das cerca de 2,5 milhões de colméias no país é necessária para polinizar plantações de amêndoas.

No final do ano passado, relatórios revelaram que abelhas adultas estavam abandonando misteriosamente as colônias comerciais, deixando para trás colméias-fantasma cheias de mel, larvas e rainhas sozinhas. O transtorno acabou com uma média de 45% das abelhas entre as colônias comerciais, que representam 23% do total, no último inverno nos Estados Unidos.

Pesquisadores e os amantes das teorias da conspiração já ofereceram uma série de explicações potenciais, de ácaros ectoparasitas e pesticidas químicos à radiação de telefones celulares que fariam as abelhas desviarem de seu caminho.

Os entomólogos Diana Cox-Foster, da Pennsylvania State University, e Jeffery Pettis, do Laboratório de Pesquisas de Abelhas do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, criaram o grupo de trabalho para CCD, para tentar desvendar o mistério.

Uma linha-chave de evidências sugeria que a infecção tem um papel fundamental: o grupo descobriu que poderia recuperar colméias com CCD vazias ao enchê-las novamente com abelhas saudáveis, mas somente se irradiassem as colméias com raios gama primeiro – o raio gama destrói DNA.

Com base nessa evidência, Cox-Foster e Pettis convenceram Lipkin, que liderou a descoberta do vírus do Nilo Ocidental, a aceitar participar do estudo, usando tecnologia especializada, fabricada pela firma de seqüenciamento de genoma 454 Life Sciences, em Branford, Connecticut.

O trio e seus colegas misturaram o RNA – a substância química que codifica os genes ativos – de quatro colônias comerciais geograficamente separadas, mas contaminadas pelo CCD, e então compararam a mistura com o RNA combinado de abelhas aparentemente saudáveis do Havaí e da Pensilvânia. Eles também examinaram abelhas aparentemente saudáveis da Austrália e geléia real – que as rainhas usam para alimentar suas operárias jovens – importada da China.

Em suma, as abelhas com CCD portavam mais tipos de microorganismos nocivos que as abelhas saudáveis, como relatam os pesquisadores na edição online da revista “Science”. Para identificar culpados potenciais, eles analisaram as colméias individualmente.

O IAPV apareceu em até 25 de 30 colônias contaminadas, mas em apenas uma saudável nos Estados Unidos. Por outro lado, todas as colméias com CCD continham um vírus aparentado, chamado KBV, e o parasita unicelular Nosema ceranae, que um estudo anterior havia relacionado ao CCD –, mas ambos os organismos estavam presentes em cerca de 80% das colméias saudáveis também.

“O estudo é um modelo de investigação cuidadosa”, elogia o entomólogo Gene Robinson, diretor do centro de pesquisa em abelhas Urbana-Champaign, da University of Illinois, que não está envolvido no estudo. O IAPV parece ser a causa ou um indicador da doença, ele diz. “De qualquer forma, essa é grande novidade na história do CCD. Então, é muito animadora e encorajadora”.

A grande sacada, de acordo com Lipkin, seria infectar abelhas saudáveis ou sob estresse com o IAPV, e ver se elas são infectadas pelo CCD. Os pesquisadores planejam realizar esses testes, mas isolar o vírus é uma tarefa desafiadora, ele completa.

Uma amostragem mais ampla de colônias saudáveis e contaminadas do mundo inteiro também ajudaria a delimitar as causas possíveis, diz Robinson.

Lipkin e sua equipe descobriram que abelhas australianas aparentemente saudáveis estavam infectadas com o vírus, e ressaltam que todas as colméias com CCD que examinaram incluíam abelhas australianas, ou conviveram com elas por algum tempo. Apicultores da Austrália relataram uma “doença do desaparecimento”, mas não na escala do CCD, disse Pettis.

Um fator diferencial, ele diz, poderia ser o ácaro ectoparasita, que suprime os sistemas imunológicos da abelha e diminuiu a população desse inseto em 30% nos Estados Unidos nos últimos 25 anos, mas não é encontrado na Austrália. “Sabemos que é um dos principais fatores de estresse, mas ainda acredito que vários fatores estão envolvidos no CCD e precisamos testá-los de maneira mais rigorosa.”

Se o IAPV estiver realmente causando o CCD, há esperança para interromper sua disseminação. Cerca de 30% das abelhas que Sela estudou possuem pedaços incorporados do genoma do IAPV em seus cromossomos, e são resistentes ao vírus. Outras abelhas poderiam ser cruzadas para carregar esses fragmentos e presumivelmente sobreviver à infecção também, ele diz.

No entanto, ele alerta que o IAPV poderia estar causando, teoricamente, o CCD ao inserir seu material genético em genes de abelhas para feromônios ou outras moléculas que coordenam o comportamento da colméia e, portanto, rompendo esses genes, uma possibilidade que ele e o grupo de trabalho do CCD planejam testar.

Até que os pesquisadores tenham revelado o mistério do CCD, Cox-Foster aconselha os apicultores a manter suas abelhas bem alimentadas e livres de ácaros.

Scientific American Brasil
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Bachelet muda relação entre Bolívia e Chile

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Com seu desembarque em La Paz debaixo de chuva, no domingo, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse que talvez fosse portadora de sol. Pelo menos era o que gostaria, tendo na bagagem a concessão de um corredor de acesso da Bolívia ao Pacífico.
O emprego de metáforas se justificou como maneira de tratar indiretamente de relações passadas tensas, em geral agressivas, talvez a caminho de normalização construída a duras penas. O Brasil é parceiro no corredor, o que suscita algumas questões.
Bachelet se entende com Alan García, do Peru, na criação de contrapontos que reduzam a influência de Hugo Chávez em países latino-americanos. A operação tem inclusive um nome, o de Arco Pacífico. Ele deve reunir países latino-americanos do Pacífico em oposição à Alba, a Alternativa Bolivariana para as Américas de Chávez.
Em última instância, a Alba de Chávez versus a Alca dos americanos e seus aliados.
A Bolívia, onde é maior a influência do presidente venezuelano, teria se tornado alvo preferencial dos mentores do Arco Pacífico.
Numa guerra com o Chile, a Bolívia perdeu seu litoral no Pacífico em 1789. Era aliada do Peru, outro perdedor que hoje trata de andar às boas com o Chile, em função dos movimentos anti-Chávez. É centenária a reclamação boliviana de uma saída para o mar.
Relações rompidas
Os dois países romperam relações nos anos 70 do século passado e a decisão da Bolívia é só reatá-las quando conseguir de volta o litoral que os chilenos lhe tomaram.
Mas o fato é que melhora, e bastante, o diálogo entre os dois países o fato de Bachelet manifestar o desejo de aprofundá-lo "de governo a governo, de povo a povo".
Foi acertada uma agenda bilateral de 13 pontos, que é negociada de modo permanente nas duas capitais a nível de vice-ministros de Relações Exteriores. À medida que avançam, os itens vão subindo a estágios superiores. A novidade maior, e mais significativa, sintoma de febre baixa, foi a colocação na mesa de negociações da reivindicação boliviana de saída para o mar.
Nunca antes esse tema figurou numa agenda oficial de conversações entre os dois países.
Instalou-se a convicção de que se trata de "aproximação inédita", expressão usada por um jornal boliviano. Resta saber se o papel do Brasil no corredor tem algo a ver com tudo isso.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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Nosso presente em evolução

As alterações no ambiente provocadas pelo homem estão acelerando a mudança de muitos ecossistemas

Rob Dunn

Os sapos-cururus saltam à noite. Eu os ouço batendo à minha porta ao julgarem erroneamente onde termina meu quarto de hotel e onde começa a floresta. A força com que um sapo grande bate na madeira é impressionante. Mas a força com que os sapos, que são nativos da América Central, atingiram a Austrália é ainda maior. Levados para Queensland em 1935 para combater os besouros que infestavam as plantações de cana-de-açúcar, os sapos se espalharam a partir de seu ponto de entrada como as ondas de choque de uma bomba, com suas pernas enverrugadas e suas línguas supercrescidas lançadas para cada buraquinho possível em um nicho ecológico.

Uma pesquisa recente de Ben Phillips e seus colaboradores da University of Sydney demonstrou que os sapos estão evoluindo à medida que se espalham, aperfeiçoando sua capacidade de adaptação à paisagem australiana. Os sapos à frente da invasão agora têm corpo menor, toxicidade reduzida e pernas relativamente maiores, aparentemente porque os indivíduos com esses traços têm obtido maior sucesso. A fauna nativa evoluiu em resposta aos sapos: a boca de algumas espécies de cobras está diminuindo, por exemplo, porque muitas das cobras com boca grande estavam comendo os venenosos sapos-cururus e morrendo.

Esses exemplos estão mudando a visão que os cientistas têm da velocidade da evolução. Há muito, esse processo tem sido considerado lento, ou até dormente. Porém, cada vez mais os pesquisadores têm observado a evolução em ação. Você deve conhecer alguns exemplos de evolução de bactérias resistentes a medicamentos, ou de pestes agrícolas. Microorganismos e pestes podem mudar mais rapidamente, mas não são os únicos.

Mais freqüentemente, presenciamos uma evolução rápida quando alguma força (muitas vezes, nós mesmos) dá um empurrão inicial, alterando súbita e dramaticamente o ambiente de um organismo. Os ratos desenvolveram corpo menor ao serem introduzidos em ilhas. Os peixes mais pescados também adotaram tamanhos corporais menores em resposta à preferência dos pescadores por peixes grandes (que, quando mortos, não se reproduzem). As mayflies (um tipo de inseto aquático), em cursos d’água onde trutas foram soltas, agora têm hábitos noturnos para evitar os predadores que nadam velozmente. Muitas centenas de espécies de herbívoros mudaram para novas e às vezes tóxicas fontes de alimento introduzidas por humanos e se especializaram em consumi-las. Várias espécies nativas evoluíram em resposta a concorrentes recém-chegados. Cedros começaram a produzir toxinas para evitar serem comidos por veados que andam por seus habitats que costumavam ser benignos. Mexilhões na Nova Inglaterra evoluíram na habilidade de detectar caranguejos verdes invasores e produzir conchas mais espessas quando esses crustáceos estão presentes.

A maioria dessas mudanças parece fruto de seleção natural: os organismos que aleatoriamente adquiriram algum traço genético que os ajudou a se desenvolver face a novas fontes de stress foram favorecidos e, subseqüentemente, se reproduziram de forma bem-sucedida e transmitiram a característica para as gerações futuras. Mas as mudanças evolutivas que presenciamos podem simplesmente ser o resultado de uma deriva genética (mudanças genéticas aleatórias que se acumulam com o tempo).

Quanto mais olhamos, mais podemos observar as mudanças evolutivas que são rápidas o suficiente para serem vistas no curso de um único estudo. Um estudante de doutorado pode, nos cerca de cinco anos de um projeto de tese, ver de perto o desenvolvimento de uma nova espécie, seja em tempo real ou utilizando ferramentas genéticas para reconstruir sua história evolutiva. Quando os ratos e camun-don-gos domésticos se espalharam pelo mundo junto conosco, se especializaram em formas mais bem adaptadas às diferentes regiões que habitam. No nordeste dos Estados Unidos, uma espécie de mosca evoluiu para se alimentar de um arbusto introduzido na América do Norte há menos de 250 anos. Embora a nova mosca seja um híbrido de duas espécies, ela pode acasalar com qualquer uma delas e manter sua própria população viável.

As pessoas tendem a imaginar a evolução como uma força que age apenas sobre criaturas há muito extintas, como os dinossauros, mas as lâminas afiadas da seleção natural e os empurrões aleatórios da deriva genética estão em ação ainda hoje. Vemos um carvalho vermelho no quintal ou um sapo-cururu na porta do nosso quarto de hotel, mas os nomes nos enganam. Essas espécies não serão as mesmas neste ano e no próximo. Embora a evolução que observamos em tempo real não vá subitamente fazer aparecer animais fantásticos como dinossauros, ela ainda é um processo que deve ser avaliado. Dê a seleção natural para alguns indivíduos de uma espécie, e ela irá funcionar do mesmo modo em uma lagoa de chorume ou no Parque Nacional de Yellowstone. A natureza abomina o vácuo, mas quase todo o resto serve.

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O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 4

Ian Kershaw

Enfraquecidos e isolados
Esses elos não tinham, é claro, uma força uniforme. Ao lado de fanáticos se encontravam céticos e, apesar de não poderem se expressar de qualquer modo significativo, os discordantes. Nem era possível sustentar o entusiasmo por Hitler em um ápice constante.

As manifestações de arrogância nos momentos de triunfo, como no anúncio da remilitarização da Renânia em 1936, foram picos. Elas cediam tão logo o cotidiano cinzento voltava para a maioria das pessoas.

Todavia, a integração eficaz sem dúvida criada pela crescente popularidade de Hitler nos primeiros anos da ditadura foi de importância imensurável. Independente da adulação a Hitler ter sido genuína ou artificial (como sem dúvida foi em muitos casos), ela teve a mesma função. Milhões de alemães, que caso contrário se oporiam, teriam dúvidas ou se dedicariam apenas marginalmente ao regime e à doutrina nazista, eram vistos publicamente dando seu apoio a Hitler. Isto foi crucial para a dinâmica do governo nazista.

Nas bases, o crescimento do culto ao führer significava que Hitler podia se descolar das políticas que eram impopulares e praticamente explorar à vontade as imensas reservas de apoio pessoal. O impacto negativo, por exemplo, da “luta com a Igreja” foi afastado de Hitler e direcionado aos seus subordinados, como Goebbels e Rosenberg. Quando a moral popular estava em baixa em meados de 1936, a remilitarização da Renânia, apontada diretamente como o “grande feito” de Hitler, serviu para reestimular o apoio ao regime. O propósito da “eleição” ao Reichstag em 29 de março de 1936 foi demonstrar a unidade do povo em apoio a Hitler para consumo tanto interno quanto externo. Não foi a última vez durante o Terceiro Reich que os oponentes do regime se sentiram enfraquecidos e isolados. E Hitler contava com o apoio que precisava para promover o avanço de suas metas expansionistas. “O führer permite que as pessoas exijam que ele implante as políticas que deseja”, foi o entendimento perceptivo de um relatório do SoPaDe.

Depô-lo era impossível
A aclamação por plebiscito que Hitler podia convocar em tais ocasiões fortaleceu enormemente sua própria posição contra os diferentes grupos dentro da elite de poder do regime. Entre a elite mais estreita de líderes nazistas, a imensa popularidade de Hitler o tornava, em todos os aspectos, incontestável em suas posições dogmáticas e em sua condução das políticas, mesmo quando, em 1938-39, alguns líderes nazistas, incluindo Göring, estavam com um pé atrás em relação aos riscos do envolvimento em uma guerra contra as potências ocidentais.

Ainda mais importante, a popularidade de Hitler o tornava intocável para estas rodas dentro da elite de poder nacional conservador, acima de tudo na liderança do Wehrmacht e em partes do Ministério das Relações Exteriores, onde o temor de uma futura guerra desastrosa promovia em 1938 os primeiros sinais embrionários de oposição aos rumos perigosos da política externa. Quando as potências ocidentais entraram no jogo de Hitler e lhe deram outro “triunfo sem derramamento de sangue”, fico claro para os nascentes círculos de oposição, no final de setembro de 1938, que qualquer tentativa de depô-lo seria impossível (um entendimento que ajudou a paralisar a resistência conservadora durante a primeira fase vitoriosa da guerra).

A conquista das massas por Hitler teve, portanto, a conseqüência vital de expandir sua autonomia além de qualquer limitação possível dentro de outros setores do regime. Isto ajudou a assegurar que as fixações ideológicas mantidas obsessivamente por Hitler desde o início de sua “carreira” política -a “remoção” dos judeus e a busca do “espaço vital”- despontassem no final dos anos 30 não apenas como sonhos utópicos distantes, mas como objetivos políticos realizáveis. O processo foi promovido em todos os níveis do regime por meio da disposição de “trabalhar pelo führer”. Mas isto em si era um reflexo do domínio estabelecido tão rapidamente por Hitler após a tomada do poder, depois consolidado e ampliado, apoiado em estágios cruciais pela aclamação em plebiscito produzida pela ampliação de sua popularidade.

Finalmente, houve o impacto do grande culto ao führer sobre o próprio Hitler. Algumas das pessoas próximas dele alegaram posteriormente ter detectado uma mudança em Hitler por volta de 1935-36. Ele se tornou, assim disseram, mais desdenhoso do que antes às menores críticas, mais convencido de sua própria infalibilidade. Seus discursos começaram a desenvolver um tom messiânico mais pronunciado. Ele via a si mesmo cada vez mais -uma tendência já presente há muito tempo em sua personalidade, mas agora muito mais exagerada- como escolhido pela Providência. Quando, após o golpe bem-sucedido na Renânia, ele comentou, em um de seus discursos “eleitorais”: “Eu sigo o caminho atribuído para mim pela Providência com a certeza instintiva de um sonâmbulo”, se tratava de muito mais do que uma peça de retórica de campanha. Hitler realmente acreditava naquilo. Ele cada vez mais se sentia infalível.

Em meados dos anos 30, no mais tardar, a característica narcisista de sua própria personalidade, a bajulação extrema e o servilismo que o cercava, assim como a imensa adulação das massas que repetidamente o estimulavam, se somaram para ampliar a crença de que o destino da Alemanha estava em suas mãos, e que ele sozinho poderia guiar seu país para a vitória final no grande conflito cada vez mais próximo. “Depende essencialmente de mim, do meu ser, da minha habilidade política”, ele disse aos seus generais às vésperas da guerra. Ele destacou, como parte de seu raciocínio, “o fato de que ninguém mais contará com a confiança de todo o povo alemão como eu. Nunca haverá um homem no futuro com mais autoridade do que eu. Meu ser é portanto um fator de imenso valor (…) Ninguém sabe por quanto tempo eu viverei. Portanto, é melhor que o conflito ocorra agora”.

Àquela altura, agosto de 1939, todos os setores do regime, e as massas que eram tão jubilantes diante de todos os “sucessos” de Hitler, asseguraram a vinculação de seu destino às decisões do führer. E assim permaneceu até 1945. Nos anos da guerra, à medida que a vitória aparentemente gloriosa deu lugar a uma crescente e inexorável calamidade, à medida que uma derrota após a outra inevitavelmente minava a base carismática de sua liderança, e à medida que ficou claro que ele estava conduzindo a Alemanha para o abismo, os laços fatídicos com Hitler, que foram selados nos “bons anos” dos anos 30, asseguraram que não havia mais como voltar atrás. O povo alemão, após ter apoiado os triunfos de Hitler, agora estava condenado a sofrer a catástrofe para a qual ele o conduziu.

Der Spiegel
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O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 3

Ian Kershaw

Aumento do apoio
Em vez de condenação por sua autorização de um assassinato em massa, ele colheu enorme aprovação ao parecer ter agido impiedosamente para erradicar os males e delitos que colocavam a nação em risco. “Por meio de suas ações enérgicas, o führer conquistou as massas, particularmente aqueles que ainda hesitavam diante do movimento; ele não é apenas admirado, ele é idolatrado”, foi o veredicto de um relatório confidencial de dentro dos escalões inferiores da burocracia do regime. Muitos outros relatórios repetiam os mesmos sentimentos. Relatórios descartados pelos círculos da oposição social-democrata -cujo principal propósito era, naturalmente, criticar o regime- reconheciam o aumento do apoio a Hitler.

Segundo um relatório da Baviera: “Em geral, infelizmente, ficou claro que as pessoas não pensam politicamente. Elas pensam: ‘Agora que Hitler impôs ordem, agora as coisas avançarão- os sabotadores que buscavam atrapalhar seu trabalho foram destruídos’”. Um relatório de Berlim acrescentou: “A autoridade de Hitler está fortalecida em círculos mais amplos. Cada vez mais se ouve as pessoas dizendo: ‘Hitler está atuando de forma rígida’”.

A visão de que Hitler trouxe ordem para a Alemanha é uma que persistiu até muito depois da guerra. Que, apesar dos “erros” (supostamente aqueles que arruinaram seu país com a guerra, assim como morte e destruição para milhões), ele “limpou” a Alemanha, colocando fim à desordem, extirpando a criminalidade, tornando as ruas seguras para novamente se caminhar à noite e melhorando os valores morais, que juntamente com o crédito pela erradicação do desemprego em massa e construção das auto-estradas, foram elementos duradouros do Mito do Führer.

Ao lado da recuperação econômica, a reconstrução do poderio militar e a restauração da “ordem”, Hitler conquistou apoio ao personificar os valores “positivos” investidos na unidade nacional e na “Volksgemeinschaft”, ou comunidade nacional. A propaganda o retratava incessantemente como um paterfamilias rígido mas compreensivo, preparado para sacrificar satisfações humanas normais e trabalhar dia e noite visando o bem de seu povo. Independente das críticas freqüentes aos seus subalternos e a imagem negativa dos “pequenos Hitlers” -os funcionários do partido que as pessoas encontravam diariamente e freqüentemente deixavam a desejar- o próprio Hitler era amplamente visto como distante de interesses menores e preocupações materiais, com sua abnegação contrastando da ganância e corrupção dos altos funcionários do partido.

O encantamento ritual publicado anualmente por Goebbels ao “nosso Hitler”, em seu aniversário, e os populares livros de fotos publicados em massa por Heinrich Hoffmann (cada um vendendo quantidades imensas), que aparentemente revelavam o Hitler “privado” -”O Hitler que Ninguém Conhece” (1932), “Jovens em Volta de Hitler” (1934), “Hitler em suas Montanhas” (1935) e “Hitler em Descanso” (1937)- tudo visava acentuar o lado “humano” do führer e mostrar que suas qualidade “heróicas” derivavam do fato de ser um “homem do povo”.

Quantos engoliram plenamente o culto nauseante da personalidade nunca poderá ser estabelecido, é claro. Obviamente não foram poucos. Cartas fervorosas, poemas sem rima e outros elogios, fotos e presentes -incluindo em uma ocasião a oferta de um saco de batatas que aparentemente o führer gostou- chegavam em grande quantidade e eram selecionadas pelos assistentes de Hitler. Nos primeiros anos do Terceiro Reich houve um aumento do número de pais batizando seus filhos recém-nascidos de Adolf, apesar de um decreto de 1933 ter instruído os cartórios locais a desencorajaram a prática e protegerem o nome do führer. Tais efusões de culto ao führer estavam sem dúvida confinadas principalmente à minoria fanática, nazificada. Mas mesmo aqueles capazes de manter os excessos do culto à personalidade à distância, ainda assim aceitavam pelo menos algumas partes da imagem positiva de Hitler.

A comunidade nacional obteve sua própria definição por aqueles que foram excluídas dela. A discriminação racial era, portanto, inevitavelmente uma parte inerente da interpretação nazista do conceito. Como as medidas visando a criação da “pureza racial”, como a perseguição a homossexuais, ciganos e “anti-sociais”, exploravam o preconceito existente e visavam fortalecer uma nação etnicamente homogênea, elas reforçaram a imagem de Hitler de personificação da comunidade nacional. A denúncia impiedosa dos supostos inimigos poderosos da nação -o bolchevismo, a “plutocracia” ocidental e mais proeminentemente os judeus (associados pela propaganda a ambos)- reforçaram ainda mais o apelo de Hitler como defensor da nação e amurada contra as ameaças à sua sobrevivência, sejam externas ou internas.

Apesar da paranóia anti-semita de Hitler não ser compartilhada pela maioria da população, ela claramente não pesava muito na balança de aspectos negativos para compensar os atributos positivos que a maioria via nele. A altamente predominante antipatia latente aos judeus, mesmo antes da propaganda nazista reforçar as mensagens de ódio, não oferecia barreira ao ódio “dinâmico” presente em uma minoria considerável -apesar de após 1933 ser uma minoria detendo o poder. Muita pesquisa ilustrou a diversidade das posturas em relação à perseguição aos judeus (mas visíveis nas várias reações à promulgação das Leis de Nuremberg em setembro de 1935 e à “Kristallnacht” em novembro de 1938). Todavia, os nazistas parecem ter sido bem-sucedidos em estabelecer, diante dos olhos da maioria, a existência de uma “Questão Judia” e ao aprofundar o sentimento anti-semita na época em que crescia a ameaça externa de uma guerra iminente.

Uma consideração irrelevante
Quando a violência aberta da Kristallnacht provou ser impopular, mesmo dentro dos círculos nazistas, Hitler buscou se distanciar publicamente da perseguição que ele próprio autorizou. Mas apesar da grande desaprovação aos métodos, havia naquele momento uma sensação geral de que não havia mais lugar para os judeus na Alemanha, e a associação por Hitler dos judeus ao crescente risco internacional (que ele fomentou mais do que qualquer outro) fortaleceu -ou no mínimo não enfraqueceu- sua imagem como defensor fanático dos interesses de seu país.

Materialmente, muitos se beneficiaram com a exclusão dos judeus da sociedade alemã, da expropriação econômica, da expulsão deles. O “movimento de boicote” que teve início assim que Hitler se tornou chanceler do Reich e, em ondas, removeu os judeus da vida comercial, levando no final ao programa de “arianização” de 1938, que roubou dos judeus as suas posses, contribuiu para o lucro de um grande número de alemães. Aqui, também, muitos sentiam motivos para serem gratos a Hitler. O custo humano, pago por uma minoria impopular, era para eles uma consideração irrelevante.

A série aparentemente sem fim de sucessos que Hitler podia reivindicar durante os anos de “paz” do Terceiro Reich tinha um subproduto que os reforçava ainda mais. Após 1933, as afiliações ao Partido Nazista espalharam seus tentáculos para quase todos os setores da sociedade. Milhões de alemães foram “organizados” pelo movimento nazista de um modo ou outro, e a cada afiliação se tornava mais difícil escapar do abraço apertado do culto ao führer. Exércitos de burocratas insignificantes e carreiristas deviam sua posição e promoção ao “sistema” liderado por Hitler. A ênfase em “liderança” e “realização” estimulava uma concorrência impiedosa, que explorava a ambição cotidiana e abria uma série de possibilidades, canalizando uma vasta energia ao amplo empreendimento de promover a visão de renovação nacional personificada pelo próprio Hitler. Literal e metaforicamente, muitos indivíduos em todas as esferas do regime operavam segundo as diretrizes estabelecidas por Werner Willikens, o secretário de Estado no Ministério da Agricultura prussiano, em fevereiro de 1934, quando declarou:

“Todos aqueles que têm oportunidade para observar sabem que o führer dificilmente pode ditar do alto tudo o que pretende realizar. Pelo contrário, até agora todos com um posto na nova Alemanha trabalharam melhor quando puderam, por assim dizer, cooperar com o führer”.

Willikens acrescentou que era “dever de todos tentar cooperar com o führer” -uma chave sobre como funcionava o Terceiro Reich, e um elo importante entre o “führer” e a sociedade.

Der Spiegel
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O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 2

Ian Kershaw

Aclamação prontamente aceita
Nos primeiros anos do Terceiro Reich, a maioria das pessoas sentia que após os anos deploráveis de desesperança havia uma nova direção, energia e dinamismo. Havia um amplo sentimento de que o governo finalmente estava fazendo algo para reerguer a Alemanha.É claro, Hitler, cujo conhecimento de economia era primitivo, não guiou pessoalmente a recuperação econômica nos primeiros anos do Terceiro Reich. Os motivos para o rápido revival foram complexos e variados. Se um único indivíduo pudesse ser apontado como o mentor da recuperação, este seria Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank e ministro da economia do Reich. A contribuição de Hitler foi acima de tudo a de alterar o humor, dar um ar de confiança de que a Alemanha estava sendo revitalizada. Mas a propaganda retratava a recuperação econômica como feito do próprio Hitler. Ele prontamente aceitou a aclamação e a maioria das pessoas a considerou merecida.

Foi o primeiro grande passo para a conquista daqueles que não o apoiaram em 1933. Parecia inegável: enquanto outros países europeus (e os Estados Unidos) ainda sofriam com desemprego em massa, Hitler removeu o flagelo da Alemanha e promoveu uma espécie de “milagre econômico”. Um relatório do SoPaDe de Ruhrgebiet, no final do verão europeu de 1934, reconheceu que mesmo “a força de trabalho neutra” em grande parte acredita em Hitler, acrescentando: “A ‘criação de trabalho’ que dá emprego aos desempregados, mesmo que mal-remunerado, os impressionou muito. Eles acreditam que a ‘rápida tomada de decisão’ de Hitler o levará algum dia, se ele for ‘devidamente informado’, a mudar os impostos a favor deles”. Em uma visita clandestina à Alemanha de seu exílio na Noruega na segunda metade de 1936, ninguém menos que Willi Brandt reconheceu o mesmo: que a geração de empregos fez com que o regime conquistasse o apoio até mesmo daqueles que antes votavam na esquerda.

Deixando uma marca duradoura
Em 1936 havia pleno emprego. É claro, àquela altura o rearmamento, contendo graves riscos para o futuro, estava impulsionando o mercado de trabalho. Mas poucos alemães se preocupavam sobre de onde vinham as oportunidades de trabalho. O fato era que, enquanto no passado havia grande miséria por causa do desemprego em massa, agora havia trabalho. Aquilo foi visto como um feito pessoal de Hitler. Mas apesar da imagem diferir da realidade, foi uma imagem que deixou uma marca duradoura.

A idéia de que Hitler livrou a Alemanha do desemprego em massa e resgatou o país das profundezas da depressão foi mantida por muitos alemães por muito tempo após o fim da guerra como sendo um grande feito, independente dos desastres que mais tarde se seguiram. As boas condições de vida e o pleno emprego estavam entre os atributos positivos de Hitler registrados nas pesquisas de opinião realizadas na zona ocupada pelos americanos no final dos anos 40, enquanto uma amostra de jovens alemães no norte do país, cerca de uma década depois, achava que Hitler tinha feito muito bem ao eliminar o desemprego. No final dos anos 70, trabalhadores do Ruhr ainda tinham lembranças positivas dos anos de paz do Terceiro Reich, que associavam ao pleno emprego e aos prazeres das excursões promovidas pela organização de lazer nazista “Kraft durch Freude”, ou “Força por meio da Alegria”.

O segundo ponto apontado pelo SoPaDe como base do apoio a Hitler era sem dúvida um fator chave. Hitler nunca deixou de martelar a humilhação sofrida pela Alemanha na derrota em 1918 -supostamente obra dos “criminosos de Novembro”- e no Tratado de Versalhes, assinado no ano seguinte. A revolta contra o Tratado e sua percebida injustiça estava presente em todo o espectro político alemão. A redução do exército a meros 100 mil homens era a manifestação duradoura da fraqueza nacional. As ações ousadas de Hitler em política externa, realizadas para romper os grilhões de Versalhes e reafirmar a força e prestígio nacional da Alemanha eram, portanto, fontes garantidas de apoio popular em massa desde que pudessem ser conseguidas sem derramamento de sangue.

A saída do país da Liga das Nações em 1933, o plebiscito de Saar em 1935, a reintrodução do serviço militar obrigatório e o anúncio de um grande e novo Wehrmacht no mesmo ano, a remilitarização da Renânia em 1936 e o “Anschluss”, ou a anexação da Áustria dois anos depois, foram todos vistos como imensos triunfos nacionais, demonstrando abertamente a fraqueza das potências ocidentais que controlavam a Alemanha desde a guerra, e um feito -inimaginável apenas poucos anos antes- só possível graças à “genialidade” de Hitler como estadista. Mesmo os círculos de oposição foram forçados a reconhecer isto, como ilustra um relatório do SoPaDe sobre as reações à introdução do recrutamento militar, em março de 1935:

“Enorme entusiasmo em 17 de março. Toda Munique estava nas ruas. É possível forçar as pessoas a cantarem, mas não forçá-las a cantarem com tamanho entusiasmo. Eu vivenciei os dias de 1914 e só posso dizer que a declaração da guerra não causou a mesma impressão em mim que a recepção a Hitler em 17 de março. (…) A confiança na honestidade e talento político de Hitler está crescendo à medida que ele ganha terreno entre o povo. Ele é amado por muitos.”

A crise nos sudetos tchecos no verão europeu de 1938, à medida que aumentava a ameaça de guerra, apresentou o primeiro desafio significativo à imagem que Hitler buscava cultivar de defensor fanático dos direitos da Alemanha, de alguém que restaurou a posição de seu país no mundo, mas que lutava para evitar derramamento de sangue. As potências ocidentais na época, reunidas em Munique no final de setembro, permitiram a Hitler um último grande triunfo em política externa (a cessão dos sudetos à Alemanha) -mesmo que um que internamente ele ressentiu, já que desejava um pretexto para tomar a Tchecoslováquia.

A resignação, em vez do entusiasmo, com que a guerra foi recebida quando ela finalmente chegou, em setembro de 1939, mostra novamente que Hitler ampliou seu apoio popular durante os anos de paz do Terceiro Reich sob uma falsa perspectiva. A maioria das pessoas queria a manutenção da paz. Hitler buscava a guerra. Ele reconheceu a necessidade de enganar o público em um discurso confidencial aos representantes da imprensa alemã, em novembro de 1938, quando comentou:

Conquistas alemãs ilimitadas
“As circunstâncias me forçaram a falar quase que somente de paz por décadas. Foi apenas pela ênfase contínua no desejo alemão pela paz e nas intenções pacíficas que foi possível dar ao povo alemão as armas que foram sempre uma exigência para o próximo passo.”

Para a maioria dos alemães, a restauração do orgulho nacional e do poderio militar, a derrubada do Tratado de Versalhes e expansão do Reich para incorporação dos alemães étnicos da Áustria e dos sudetos tchecos eram metas por si só. Mas a maioria não conseguia ou não poderia entender que, para Hitler e para a liderança nazista, elas eram o prelúdio de uma guerra por conquistas alemães ilimitadas.

Além de seu suposto feito de fortificação da posição externa da Alemanha, Hitler sem dúvida conquistou muito apoio pelo que foi considerado uma restauração da “ordem” em casa. A propaganda nazista foi influente nos anos repletos de crise da República de Weimar, ao incutir em grande parte da população uma imagem exagerada de criminalidade, decadência, desordem social e violência (em grande parte instigadas pelos próprios nazistas). Assim que chegou ao poder, Hitler tinha muito a ganhar ao parecer representar “a justiça do povo” e a “salutar sensibilidade nacional”. Sua imagem pública era a do mantenedor da moralidade pública que reprimiria, onde quer que os encontrasse, aqueles que representavam uma ameaça à lei e ordem.

No final de junho de 1934, Hitler tomou o que muitos consideraram uma ação implacável, mas necessária, de esmagar a liderança da SA (a milícia paramilitar nazista), um setor cada vez mais impopular de seu próprio movimento. Em seu discurso no Reichstag em 13 de julho de 1934, Hitler assumiu responsabilidade pessoal pelos assassinatos que ocorreram. O que tinha sido na verdade um golpe político brutal, maquiavélico, foi retratado como uma medida necessária para esmagar uma ameaça interna iminente à nação e extirpar a corrupção e a imoralidade. Hitler enfatizou a homossexualidade, estilo de vida extravagante e irresponsável de Ernst Röhm e de outros líderes da SA. Explorando um preconceito comum existente, ele conseguiu contornar qualquer respeito pelos princípios legais existentes ao alegar ter agido segundo o interesse nacional na condição de mais alto juiz do povo alemão.

Der Spiegel
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O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 1

Ainda existiam muitos alemães céticos em relação a Hitler quando ele se tornou chanceler em 1933. Mas a propaganda do führer e o sucesso militar logo o transformaram em um ídolo. A adulação ajudou a tornar possível a catástrofe do Terceiro Reich

Ian Kershaw

“Hoje Hitler É Toda a Alemanha”. A manchete de jornal de 4 de agosto de 1934 refletia a transferência vital de poder que tinha acabado de ocorrer. Dois dias antes, na morte do presidente do Reich, Paul von Hindenburg, Hitler não perdeu tempo em abolir a presidência do Reich e em fazer com que o exército prestasse um juramento pessoal de obediência incondicional a ele, como “o führer do povo e do Reich alemão”. Ele agora era chefe do Estado e comandante supremo das forças armadas, assim como chefe do governo e do partido único, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Nazi (o acrônimo do nome em alemão). Hitler tinha poder total na Alemanha, irrestrito por qualquer controle constitucional. Mas a manchete deixava muito mais implícito do que uma grande mudança de poder. Ela sugeria uma identidade entre Hitler e o país que governava, o que significava um elo total entre o povo alemão e Hitler.

O referendo que se seguiu em 19 de agosto de 1934, para legitimar a mudança ocorrida no poder político, visava demonstrar esta identidade. “Hitler para a Alemanha -toda a Alemanha de Hitler” dizia o slogan. Mas como mostrou o resultado, a realidade era muito diferente da propaganda. Segundo os números oficiais, mais de um sexto dos eleitores desafiaram a pressão intensa para obedecer e não votaram no “sim”. Em algumas grandes áreas operárias da Alemanha, mais de um terço não votou em Hitler. Mesmo assim, havia um ou dois indícios de que o apelo pessoal de Hitler superava o do próprio regime nazista, assim como o do partido. “Para Adolph Hitler, sim, mas mil vezes não para as demais autoridades” estava escrito em uma cédula em Potsdam. O mesmo sentimento podia ser ouvido em outros lugares.

Sob o verniz da adulação ao führer, alardeada constantemente pela propaganda nos meios de comunicação de massa, há vários indicadores de que o apelo de Hitler estava longe de ser total, mesmo no que a memória freqüentemente chama de “bons anos” de meados da década de 30. Um exemplo de forte crítica contra Hitler pode ser vista em um relatório da Gestapo em Berlim, em março de 1936. A tolerância de Hitler à corrupção e ao estilo de vida luxuoso das autoridades do partido em uma época em que baixos padrões de vida ainda afligiam a maioria dos alemães comuns era, como notou o relatório, altamente criticada. “Por que o führer aceita isso?” era a pergunta nos lábios de muitos, como notou o relatório, e era evidente que “a confiança das pessoas na personalidade do führer está no momento passando por uma crise”.

Esquecidos na euforia
Mas um dia depois da apresentação deste relatório, as tropas alemãs marcharam para a zona desmilitarizada da Renânia. Em uma ação espetacular que expôs plenamente a fragilidade das democracias ocidentais, Hitler pôde celebrar seu maior triunfo em política externa até aquele momento. Os problemas domésticos dos meses anteriores -escassez de alimentos, preços altos, salários baixos e, nas áreas católicas, muito antagonismo com o regime devido à luta entre a Igreja e o Estado- foram temporariamente esquecidos na euforia.

Apesar do resultado absurdo da “eleição” no final do mês, quando -em meio a fraudes, manipulação eleitoral e intensa propaganda pelo conformismo- 98,9%, segundo os números oficiais, votaram “a favor da lista e conseqüentemente pelo führer”, a remilitarização da Renânia foi sem dúvida uma medida altamente popular e uma amplamente atribuída à liderança hábil e ousada de Hitler. Muito sugere, de fato, que entre a morte de Hindenburg em agosto de 1934 e a anexação da Áustria e de parte da Tchecoslováquia quatro anos depois, Hitler foi bem-sucedido em conquistar o apoio da grande maioria do povo alemão, algo de importância imensurável para o rumo desastroso que a política alemã tomaria. Fora talvez o período imediato após a impressionante vitória na França, no verão europeu de 1940, a popularidade de Hitler nunca foi maior do que no auge de seus sucessos em política externa em 1938.

Sebastian Haffner calculou de forma plausível que Hitler teve sucesso em 1938 ao conquistar o apoio da “grande maioria daquela maioria que votou contra ele em 1933″. De fato, Haffner imaginou que naquela época Hitler uniu quase todo o povo alemão em seu apoio, que mais de 90% dos alemães àquela altura “acreditavam no führer”. Na ausência de qualquer pesquisa genuína de opinião, e em condições de intimidação e repressão para aqueles que ousassem contestar a propaganda oficial, quando a única opinião pública que existia era a das agências do regime, tal número pode ser apenas imaginado e provavelmente é alto demais. Ao mesmo tempo, parece difícil negar que o regime tenha conquistado muito apoio desde 1933, e que isto ocorreu em grande parte devido aos percebidos “feitos” pessoais de Hitler. O foco personalizado dos “sucessos” do regime refletia os esforços incessantes da propaganda, que visava conscientemente criar e ampliar a imagem “heróica” de Hitler como um gênio grandioso, a ponto de Joseph Goebbels ter alegado com alguma justiça, em 1941, que a criação do Mito do Führer era seu maior feito de propaganda.

A imagem da propaganda nunca foi melhor resumida do que pelo próprio Hitler, em seu discurso no Reichstag, em 28 de abril de 1939 (que também é citado por Haffner):

‘Pelos Meus Próprios Esforços’

“Eu superei o caos na Alemanha, restaurei a ordem, aumentei enormemente a produção em todos os campos da nossa economia nacional (…) Eu tive sucesso em recolocar em produtividade aqueles 7 milhões de desempregados que tanto tocaram nossos corações (…) Eu não apenas uni politicamente a nação alemã, mas também a rearmei militarmente, e tentei liquidar folha por folha aquele Tratado, cujos 448 artigos continham o estupro mais vil ao qual nações e seres humanos já tiverem que se submeter. Eu devolvi ao Reich as províncias que nos foram tomadas em 1919; eu conduzi milhões de alemães profundamente descontentes, que foram tirados de nós, de volta à pátria; eu restaurei a unidade histórica milenar do espaço vital alemão; e tentei conseguir isto sem derramamento de sangue e sem infligir os sofrimentos da guerra ao meu povo ou a qualquer outro. Eu realizei tudo isto, como alguém que há 21 anos ainda era um trabalhador desconhecido e um soldado do meu povo, pelos meus próprios esforços…”

A alegação de que a mudança na sorte da Alemanha foi conseguida por uma única pessoa era, é claro, absurda. Só que o mais fascinante nesta ladainha do que a maioria dos alemães comuns na época apenas via como sucessos pessoais notáveis do führer, é o fato de representarem “conquistas” nacionais, em vez de refletirem os dogmas centrais do próprio Weltanschauung de Hitler. Não havia nenhuma palavra nesta passagem sobre a obsessão patológica pela “remoção” dos judeus, ou sobre a necessidade da guerra para aquisição de espaço vital. A restauração da ordem, a reconstrução da economia, a remoção do flagelo do desemprego, a demolição das restrições do odiado Tratado de Versalhes e o estabelecimento da unidade nacional, todos tinham grande repercussão popular, indo muito além dos nazistas radicais, tendo apelo de formas diferentes junto a praticamente todos os setores da sociedade. Pesquisas de opinião realizadas muito depois do final da Segunda Guerra Mundial mostravam que muitas pessoas, mesma àquela altura, continuavam associando positivamente estas “realizações” a Hitler.

Em comparação à situação da Alemanha seis anos antes, era difícil para aqueles que escutaram o discurso de Hitler em 1939, mesmo muitos daqueles que antes se opunham aos nazistas, não reconhecer que Hitler tinha realizado algo extraordinário. Poucos tinham disposição ou visão suficiente para analisar o que estava por trás das “realizações”, para rejeitar a desumanidade flagrante que serviu de base para a reconstrução da Alemanha, para perceber o solapamento das estruturas governamentais e a liquidação das finanças do Reich que estavam acontecendo, acima de tudo, para englobar os riscos colossais à existência do próprio país envolvidos no curso de ação do regime. E poucos estavam em posição de contradizer a mentira fundamental na afirmação de que Hitler tinha se esforçado constantemente para evitar derramamento de sangue e para poupar seu povo (e outros) dos sofrimentos da guerra. O que para a maioria dos alemães na primavera européia de 1939 eram metas que Hitler parecia ter atingido de forma triunfal, eram para os líderes nazistas apenas a plataforma para a guerra de conquista racial-imperialista que estavam se preparando para travar.

Mas, por mais falsa que fosse a base, as alegações em seu discurso apontam para áreas de grande sucesso na conquista do apoio das massas a Hitler. Mesmo com todas as advertências necessárias contra generalizações sobre aprovação, já que aqueles que desaprovavam eram principalmente forçados a se silenciarem, certamente não é errado falar em um amplo consenso cimentado pela força integradora do Mito de Hitler durante os anos de paz da ditadura.

Foi um consenso fabricado, uma construção de propaganda, tendo a repressão a oponentes políticos, “inimigos raciais” e outros forasteiros à proclamada “comunidade nacional” como o outro lado da moeda. A imagem de “super-homem” de Hitler representava um componente central da fabricação. Antes mesmo da “tomada do poder”, ela foi a criação da mais moderna e bem-sucedida estratégia de “marketing” político de sua época, concebida por Goebbels. E assim que o monopólio da propaganda controlada pelo Estado caiu nas mãos nazistas em 1933, não havia mais obstáculo nos meios de comunicação de massa à rápida disseminação do apelo “carismático” de Hitler.

Mas mesmo as técnicas sofisticadas e astutas por trás da criação do Mito do Führer teriam sido ineficazes caso o terreno fértil não tivesse sido preparado muito antes de Hitler se tornar o chanceler do Reich. As expectativas de salvação nacional estavam disseminadas em 1933, não apenas entre os simpatizantes do nazismo, e já tinham sido investidas na pessoa de Hitler. Quando ele tomou o poder, mais de 13 milhões de eleitores tinham engolido pelo menos em parte o culto ao führer, que foi mais plenamente abraçado pela massa imensa (apesar de flutuante) de filiados ao partido e sua miríade de afiliações subordinadas. Portanto, a base organizacional já tinha sido estabelecida para uma disseminação mais ampla do culto ao führer.

Dado o fracasso da democracia de Weimar e as condições de crise em meio às quais o governo de Hitler chegou ao poder, estava claro que se o novo chanceler do Reich conseguisse rapidamente alguns sucessos, ele aumentaria substancialmente sua popularidade. A dimensão da rápida ampliação da adulação a Hitler, a conquista da “maioria da maioria” que não votou nele em março de 1933, foi estabelecida. A velocidade com que o culto a Hitler se espalhou àquela altura precisa ser vista por esta perspectiva, assim como pelo uso magistral das imagens de propaganda.

Havia várias áreas cruciais onde Hitler podia conquistar grande apoio ao agir no que parecia ser um interesse nacional, não político-partidário, e pela conversão de sua imagem de líder do partido para líder nacional. Mesmo seus oponentes reconheciam o aumento de sua popularidade. A organização social-democrata exilada, o SoPaDe (o Partido Social-Democrata da Alemanha), com sede em Praga, reconheceu em abril de 1938 a visão amplamente aceita que era constantemente repetida, “a de que Hitler podia contar com o acordo da maioria das pessoas em dois pontos essenciais: 1) ele criou empregos e 2) ele tornou a Alemanha forte”.

Der Spiegel
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A política não faz mais heróis

Mohammed Salah

Por que os árabes estão à procura de um herói popular? Por que os jornais e a mídia, as elites culturais e políticas, e as massas celebram um cidadão árabe se ele ousa opor-se à corrente antiárabe? Como um jogador de futebol egípcio tornou-se um “símbolo político” apenas por, ao marcar um gol na Copa das Nações Africanas, levantar seu uniforme e revelar uma camiseta por baixo, na qual podia ser lido “Solidarize-se com Gaza”, em árabe e inglês? A imagem de Mohammed Abu Treika, transmitida ao mundo por estações de satélites e emitida por agências de notícias, tornou-se uma obra de arte, com todos orgulhosos em obter uma cópia. 

Sem consideração pelo debate levantado nas comunidades de esportes árabes sobre o direito de um jogador expressar sua opinião política ou seus sentimentos humanos durante uma disputa esportiva, ao largo do aviso de punição da Federação da Copa Africana no caso de ele ou outro jogador agir dessa forma novamente, a comoção política que se seguiu refletiu o grau ao qual as massas árabes tornaram-se puramente emocionais. Isso ocorre por causa de políticos que lhes causaram a perda da esperança quando se fala de qualquer solução para os vários problema árabes, soluções que não mais estão nas mãos dos árabes.

O legado cultural dos árabes os vê regozijar as glórias e heróis do passado, assim como o logo da rádio egípcia Sawt al-Arab diz. No entanto, as repercussões da causa palestina, da crise no Iraque, e uma série de falhas árabes no Sudão e Somália e das condições sócio-econômicas que golpeiam árabes de todos os cantos veio a causar à nova geração a perda de esperança em ter uma vida normal, uma que lhes garanta o mínimo nível de direitos, emprego, alimento e abrigo. Você pode esquecer do luxo de escolher um governo que vá governar-lhe, ou ter um Parlamento que faça leis e regule as relações entre os vários membros da sociedade egípcia. Tudo isso levou as massas árabes à felicidade, e talvez a dançar de alegria, à imagem de uma pessoa desafiando as maiores potências, mesmo que essa pessoa não quisesse desafiar ninguém, mas somente expressar sentimentos humanos. 

A coisa mais interessante nos círculos políticos do Egito é que a maioria daqueles que apoiaram as ações de Abu Treika não são fãs amadores que não sabem muito sobre as regras do jogo e suas estrelas. No entanto, todos ouviram e leram sobre o que o jogador fez, o que atraiu suas atenções e tomou seus corações. O público correu para acompanhar a cobertura por satélite do torneio africano de Gana – talvez eles possam ver a cena uma vez mais, e sentir o orgulho que foi perdido, agradeça a seus políticos.

O jogador não tem qualquer conexão com o “Hamas” ou a Autoridade Palestina. Ele nunca foi membro da “Irmandade Muçulmana” ou do partido de esquerda Tagammo egípcio. Ele jamais fez parte de um encontro partidário ou de um protesto do Sindicato dos Jornalistas Egípcios, ou de qualquer outro. Ele não protestou com centenas de outros, em vários lugares, por várias razões. No entanto, ele teve um impacto maior, já que escolheu um momento e lugar, e evento, onde as câmeras estariam clicando, e ele sendo observado por fãs e mídia. Ele revelou sua surpresa, a qual ele havia discretamente preparado, e na qual não havia objetivos políticos. Ele constrangeu políticos que não estão sujeitos à para a Confederação Africana de Futebol ou à Fifa, mas aos cálculos políticos, que talvez sejam lógicos, mas que não fazem heróis.

*Mohammed Salah, em artigo publicado no site do Al Hayat.
(Tradução de Arturo Hartmann)

Icárabe

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Infantilidade amazônica

É um retrocesso culpar apenas um ministério pelo desastre que se prenuncia

Muita gente estranhou o fato de o desmatamento na Amazônia não ter sido tratado aqui nos últimos quatro meses. Justamente agora que o desmate se encontra em aceleração e o governo supostamente cogita uma mal-explicada anistia para devastadores?
É fadiga, gente. São 20 anos lendo e escrevendo sobre um debate que se arrasta a passos infinitesimais. Sim, há avanços -mais estudos, mais dados, algumas iniciativas sensatas do governo federal (o que não quer dizer que sejam suficientes). Mas há também retrocessos. O mais grave, talvez, seja ver tanta gente -de Lula a ONGs- responsabilizando (só) o Ministério do Meio Ambiente pelo desastre que se prenuncia.
Como se ele pudesse de fato fazer alguma coisa diante do trator exportador de commodities. Dá engulhos ouvir Kátia Abreu (DEM-TO) recomendar a Marina Silva que se demita por "negligência, incompetência ou traição". Justo a ruralista do grupelho de senadores para desautorizar autuações de trabalho similar à escravidão na Pagrisa, plantação de cana em plena Amazônia…
Assim caminha no Brasil -com a qualidade de bate-boca em porta de ginásio- a discussão sobre temas complexos. Quer mais? Tente acompanhar o Fla-Flu interminável dos transgênicos.
Na semana que terminou, mais um passo. Parece definitivo: o Conselho Nacional de Biossegurança (instância máxima, com 11 ministros) deu aval para uma decisão anterior da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) liberando plantio de duas variedades de milho modificado. Mas gente da Anvisa, do Ibama e de ONGs já ensaia novas exigências, recursos, processos…
Ninguém agüenta mais essa lenga-lenga de dez anos, que há muito já se descolou de um debate substantivo e maduro, capaz de avançar com base em informações empíricas. E não só por responsabilidade dos adversários dos transgênicos, note bem, que bem ou mal garantiram um mínimo de discussão pública sobre a questão.
O tema está confinado dentro de duas molduras estanques e mutuamente excludentes. De um lado, a retórica que identifica transgenia com biotecnologia, biotecnologia com ciência e ciência com progresso da humanidade. De outro, a que elege a transgenia como antítese e nêmese da agroecologia, da agricultura familiar e de um anacrônico ideário campesino-antiimperialista.
Toda a dificuldade reside em que a maioria daqueles que se pronunciam sobre a questão termina por fazê-lo optando por um dos lados, o que só perpetua a irresolução. Existem, claro, alguns quixotes independentes por aí. Gente que escreve artigos e livros que ninguém lê.
Apesar da fadiga, vai aqui recomendado um livrinho recente, bem fácil de ler: "Transgênicos, Sementes da Discórdia" (Editora Senac, 171 págs., R$ 35). É uma coletânea de ensaios organizada pelo economista José Eli da Veiga, quixote profissional. São três textos: um a favor (dos agroeconomistas José Maria da Silveira e Antonio Marcio Buainain), um contra (do agrônomo Gabriel Fernandes) e um interpretativo (do sociólogo Ricardo Abramovay).
Leitura indispensável, sobretudo para gente que ainda acredita em manter a discussão numa camisa-de-força "técnica", que restrinja "emoções". Conclui Abramovay: "Os processos democráticos pelos quais as escolhas tecnológicas, cada vez mais, são feitas pertencem ao interior mesmo da atividade científica". Vale para os transgênicos e vale para o uso da biodiversidade amazônica. Também para a pesquisa com embriões e animais, energia nuclear, mudança climática… Vamos crescer, gente?


MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp, 2007) e de "Clones Demais" e "O Resgate das Cobaias", da série de ficção infanto-juvenil Ciência em Dia (Editora Ática, 2007).

Folha de S. Paulo

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Jogados às traças

Por falta de interesse e dinheiro, Brasil sofre para manter acervos de seus principais escritores

MARCOS STRECKER
DA REDAÇÃO

Enquanto no exterior o acervo pessoal de escritores é disputado em lances milionários, no Brasil a questão nem é ser disputado por instituições, mas conseguir abrigo seguro em alguma delas.
A falta de verbas, a descontinuidade administrativa e a falta de interesse em uma visão de divulgação sistemática para o público dão o tom quando se fala em coleções particulares de escritores brasileiros.
Em geral, os arquivos nacionais são doados pelas famílias após a morte do escritor, poucas instituições têm estrutura para acolhê-los e muitas vezes há um trâmite complicado de obtenção de patrocínio para a catalogação e a preservação.
Uma exceção é o Instituto Moreira Salles (IMS), que tem se destacado numa ação ativa de incorporar acervo de escritores, inclusive em vida.
É o caso recente de Lygia Fagundes Telles e de Lêdo Ivo, por exemplo.
O instituto já guarda manuscritos, recortes de jornais, correspondências, livros, estudos, periódicos e fotografias também de nomes como Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, Ana Cristina Cesar e Dora Ferreira da Silva, entre outros.
Entre as instituições públicas, a principal neste trabalho é a Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, que já tem 121 nomes em seu arquivo de escritores brasileiros, em sua sede no bairro carioca de Botafogo.
A mais antiga fundação nesse trabalho é a Biblioteca Nacional, que tem em sua divisão de manuscritos o acervo de 22 nomes, alguns capitais para nossa literatura, como Machado de Assis, Euclydes da Cunha, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias e Lima Barreto.
Em São Paulo, o Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB) guarda as coleções de 50 personalidades, a maior parte de autores, incluindo Graciliano Ramos e Aparício Torelly (o Barão de Itararé).
A própria instituição originou-se da brasiliana do historiador paulista Yan de Almeida Prado, comprada em 1962. E também é uma das poucas a adquirir coleções. Foi assim que a instituição obteve os acervos pessoais de Mário de Andrade (em 68), de Guimarães Rosa (em 73) e do historiador Caio Prado Jr. (em 2001).
A compra no Brasil ainda é um tabu. O Instituto Moreira Salles, que já tem um dos acervos mais importantes em fotografia e música no Brasil, é um dos poucos a comprar acervos.
Antonio Fernando de Franceschi, superintendente executivo do instituto, não revela valores, mas confirma que os acervos de Lygia Fagundes Telles, do ensaísta e crítico literário João Alexandre Barbosa e de Maurício Rosenblatt, editor que trabalhou na mítica editora Globo de Porto Alegre, tiveram contrapartida em dinheiro.
"Só na vontade"
Ele cita o caso do crítico e pesquisador de música José Ramos Tinhorão, cuja coleção de música foi adquirida pelo instituto depois de um longo período em que o próprio IMS tentou levantar patrocínio para que fosse abrigada no Instituto de Estudos Brasileiros.
No caso da biblioteca do poeta Haroldo de Campos, Franceschi disse que houve interesse, mas elogia o "final feliz", que foi sua integração à Casa das Rosas, onde está hoje. Mas, também no caso do IMS, a maior parte vem de doações, como foi o caso recente dos documentos e cartas do ator Paulo Autran.
Vera Faillace, da divisão de manuscritos da Biblioteca Nacional, diz que a instituição bicentenária já participou de leilões no passado, mas que não há uma procura desses acervos porque não há espaço físico.
Ela diz que "muita gente gostaria de doar, mas fica só na vontade". Um caso recente e bem-sucedido foi o do arquivo da antiga editora José Olympio, que foi doado pelo filho de José Olympio -um dos grandes nomes da história editorial brasileira-, Geraldo Jordão Pereira, e agora será catalogado com patrocínio da Petrobras.
Novo prédio
Eliane Vasconcellos, responsável pelo acervo de escritores da Casa de Rui Barbosa, diz que a única opção para abrigar coleções particulares é receber doações. Ela diz que apenas pesquisadores têm acesso aos originais e reconhece que deve haver inéditos e preciosidades ainda desconhecidas entre as coleções.
O IEB deve ganhar um novo prédio em 2010, que está sendo construído para abrigar a coleção doada pelo bibliófilo José Mindlin. Mas não se trata de incorporação pelo IEB, já que a administração da brasiliana de Mindlin, umas das principais coleções privadas brasileiras, reunida ao longo de décadas, permanecerá independente.
O IEB, que foi fundado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1962, perdeu o acervo pessoal do seu próprio fundador para a Unicamp em uma disputa que durou meses e terminou em 1983. Atualmente, os livros e documentos do autor do clássico "Raízes do Brasil" estão abrigados em Campinas (SP).

Folha de S. Paulo

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A filosofia como investigação

Waldomiro José da Silva Filho

Todos sabem que o cético duvida de tudo. E todos sabem que duvidar de tudo não tem sentido: as idéias céticas podem ser sedutoras, mas dizer que não sabemos nada, que não temos certeza de nada é algo exagerado, absurdo e auto-refutável.O ceticismo, usualmente, é tido como algo negativo, enquanto, na filosofia, freqüentemente é descrito como uma posição que deve ser desafiada, enfrentada e vencida.

Essa atitude negativa que se atribui ao filósofo cético, porém, não é mais que um aspecto incidental e parcial do ceticismo. Na verdade, tal dúvida universal é inventada por filósofos modernos. Por isso, muitos autores que lidam com a questão cética são responsáveis pela difusão de uma imagem do ceticismo que não faz plena justiça à tradição intelectual que lhe deu origem. Oswaldo Porchat, um dos mais importantes filósofos brasileiros, já disse que a filosofia moderna e contemporânea costuma recorrer a “caricatas figurações” da filosofia cética: “cada filósofo fabrica seu inimigo cético particular e atribui-lhe esdrúxulas doutrinas ad hoc forjadas de modo que melhor sejam refutadas”.

Quando nos defrontamos diretamente com os escritos e as idéias dos céticos, em especial dos céticos gregos antigos que sobreviveram ao tempo, encontramos uma imagem surpreendentemente rica e interessante do ceticismo, bem como uma maneira peculiar de questionar as doutrinas filosóficas. Há, assim, uma diferença crucial entre o cético moderno e o cético antigo. O primeiro lança uma dúvida radical sobre todos os domínios do conhecimento. Lembremo-nos, por exemplo, dos cenários onde são traçados os argumentos do sonho e do gênio maligno nas Meditações de Descartes: tenho o pensamento de que estou aqui, neste momento, sentado nesta cadeira, segurando uma folha de papel, mas posso estar sonhando ou sendo enganado por um deus poderoso. Por essa razão, uma questão central da epistemologia moderna é a seguinte: já que um pensamento que eu tomo como verdadeiro pode ser falso ou ilusório, o que deve ocorrer a um pensamento para lhe conferir a qualidade de conhecimento? O cético antigo, por sua vez, não supõe que todas as nossas crenças são ou podem ser simultaneamente falsas. A postura dubitativa do cético é ainda mais radical, pois a sua questão cética central não seria “é possível conhecer?” ou “como conhecemos?”, mas a pergunta mais fundamental: “temos alguma razão para acreditar?”

Pirro - que, como Sócrates, nada escreveu - é reconhecidamente o precursor de uma atitude intelectual que tempos depois da sua morte fora chamada de sképsis: o termo significa, ao pé da letra, “observação”, “investigação”, “exame”. Aqueles que se filiavam às idéias de Pirro se designaram como skeptikoí, “aqueles que examinam”, “os que investigam”. Enquanto os outros filósofos (os dogmáticos) pensam ter descoberto a verdade ou sabem que a verdade não existe, o cético persiste na investigação da verdade. Diferente das “caricatas figurações”, este leva às últimas conseqüências o ideal da filosofia como uma investigação racional por meio de uma argumentação rigorosa e imparcial. Aplicando vários procedimentos chamados tropos ou modos, argumenta que nenhuma das nossas crenças está plenamente justificada, imune à crítica e numa posição melhor que as posições contrárias.

Quando critica as filosofias que chama de dogmáticas, não o faz por soberba. Sexto Empírico, nas Hipotiposes pirrônicas, nossa principal fonte para o ceticismo antigo, diz o seguinte: “O cético, por amar a humanidade, quer curar pelo discurso, na medida de suas forças, a presunção e a precipitação dos dogmáticos”. Além disso, o cético não pode evitar a estranheza diante da absoluta falta de acordo entre os filósofos: há um conflito insuperável dos dogmatismos, uma perpétua diaphonía, já que os filósofos não se põem de acordo sobre nada, nem mesmo sobre o objeto, a natureza ou o método da filosofia. O cético, assim, não afirma, a respeito de qualquer doutrina filosófica, que esta é verdadeira ou falsa, nem que um conceito está mais próximo ou mais distante da realidade. Ele apenas perscruta as filosofias, examina cautelosamente cada um dos seus argumentos e mostra suas falhas, incoerências e contradições.

Posto que não imaginar uma posição humana que garanta como as coisas realmente são, ele só pode conceber como parecem ou como são percebidas num lugar, num tempo e em certas circunstâncias. Para o cético, um “fenômeno” ou “aparência” é qualquer coisa que se imponha à sua sensibilidade e ao seu intelecto - e isso diz respeito tanto à experiência sensória e aos objetos físicos, como a questões científicas, éticas ou políticas. O cético não diria que “O mel é doce” ou “Não se deve roubar”, mas “parece-me que o mel é doce”, “parece-me que não se deve roubar”. Dada a condição humana, não está em questão o acordo ou desacordo de nossas representações com o mundo, pois não seria possível saltar do círculo do que nos parece para o círculo do que é em si. Em vista disso, o pirrônico é levado a suspender o juízo sobre a realidade. No fundo, não temos razões mais fortes para acreditar numa doutrina sobre a natureza das coisas que para não acreditar nessa doutrina. Ao não dar seu assentimento a uma doutrina qualquer, nem à doutrina que lhe é contrária, o cético suspende seu juízo. O estado mental que a suspensão do juízo pode levar é a ataraxia, a tranqüilidade, quando então o cético não mais se preocuparia com questões que estejam além do fenômeno e do que lhe aparece.

A filosofia pirrônica é uma filosofia com inegável dimensão prática, que deve ser vivida, não constituindo um simples exercício acadêmico. Suspendendo o juízo sobre todo conhecimento do absoluto, procura o que é útil e benéfico para os homens. Ele substitui a metafísica pelo saber da experiência: “Não temos mais uma realidade a conhecer - demos, na prática, nosso adeus a esse mito -, o que temos é um mundo experienciado com o qual precisamos lidar: diante dele e de seus desafios, não temos como permanecer inativos.”

O traço característico da filosofia praticada pelo cético não é postular um conjunto preciso de teses (sejam positivas ou negativas), mas o cultivo de uma atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade - o que torna o ceticismo “uma forma atual de filosofar” . O cético estuda filosofia com o intuito de descobrir a verdade sobre as coisas; ele é levado a filosofar, porque percebe uma série de problemas teóricos que se revelam nas contradições entre os discursos que pretendem descrever a natureza das coisas. Mas o ceticismo é algo como um purgante que elimina tudo, inclusive a si mesmo. Por isso, o cético pratica a-dogmaticamente (adoxástos) a observância não-filosófica da vida comum, seguindo suas inclinações naturais e o que lhe aparece. O cético faz-se um estudioso da filosofia dogmática para, logo depois, como aquela famosa imagem da escada, lançá-la fora e viver sem dogmatismos.

Revista Cult
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Como evitar a catástrofe climática

Falta incluir, no debate sobre o aquecimento da Terra, um dado essencial. As energias limpas já são uma alternativa viável. A humanidade só permanece refém dos combustíveis fósseis e nucleares porque a mudança de paradigma ameaça os interesses de mega-corporações

Hermann Scheer

No que diz respeito às fontes mundial de energia, há boas e más notícias. As más? O petróleo acabará. As boas? O petróleo acabará. E não somente ele: cedo ou tarde, todas as energias fósseis terão o mesmo destino — até mesmo o urânio que alimenta as centrais nucleares.

Disponível na forma liquida, fácil de utilizar, o petróleo tornou-se a energia mais comum, “o ouro negro” do século 20. Mas sempre foi evidente que se esgotaria um dia. Como ninguém sabia exatamente quando, o problema foi deixado de lado. O clima alarmista que reina entre os chefes de Estado mostra que administravam a questão no dia-a-dia, enquanto crescia a dependência a esse recurso em declínio.

Na verdade, a questão de saber quanto tempo ainda irão durar as reservas não está entre as primeiras preocupações, porque, antes que se esgotem os recursos disponíveis, o mundo “civilizado” terá atingido um nível insuportável de destruição ambiental. Se acreditarmos nos resultados das pesquisas do Grupo Intergovernamental sobre a evolução do clima (GIEC) [1], seria necessário reduzir ao menos 60% das emissões de gás responsável pelo aquecimento da atmosfera terrestre até o ano 2050, para evitar um enorme colapso econômico e ecológico.

A segunda questão diz respeito às conseqüências do aumento dos preços da energia, tanto para a economia mundial como para as economias nacionais. Esta alta contínua é provocada por diversos fatores. A era do petróleo fácil de extrair (petróleo convencional) está encerrada, o que explica a busca de energias fósseis não convencionais. Mas elas são insuficientes para satisfazer ao aumento do consumo de combustíveis, provocado pelo desenvolvimento de países como a China e pela multiplicação de deslocamentos no planeta. E o custo da infra-estrutura necessária para extração eleva-se cada vez mais, à medida em que se torna necessário explorar os últimos recursos existentes.

Diante da ameaça climática, retórica e covardia
As incertezas políticas constituem um quarto fator. Em um mundo cada vez mais instável política, econômica, cultural e socialmente — devido, entre outras razões, à liberalização dogmática — estas crises têm todas as probabilidades de se agravar. O principal desafio logístico é fornecer continuamente petróleo, gás e urânio, para o mundo inteiro, a partir de alguns lugares e países produtores, utilizando importantes redes de transporte. Esta vulnerabilidade provoca um aumento dos custos políticos e militares com segurança — por exemplo, para proteger os meios e os centros de fornecimento dos ataques terroristas.

Os custos crescentes tornam a armadilha energética cada vez mais perigosa. Os países em desenvolvimento sofrem um golpe dramático por serem obrigados a pagar os preços do mercado mundial. Em muitos casos, as importações de produtos energéticos absorvem toda a receita das exportações. Em 2005, o custo do petróleo, para tais nações, aumentou em 100 bilhões de dólares, o que representa muito mais que o conjunto da ajuda ao desenvolvimento oferecida por todas as nações industrializadas. Enquanto isso, os ganhos das grandes corporações petroleiras aumentaram de maneira astronômica: em 2005, a Exxon teve um lucro de 35 bilhões de dólares; a Shell, de 25 bilhões; a British Petroleum (BP) 22 bilhões [2]…

Muito antes dos recursos estarem realmente esgotados, convém ressaltar o estado precário e calamitoso do sistema mundial de fornecimento de energia primária. As iniciativas tomadas na reunião do G8 em São Petesburgo, em julho de 2006 foram uma tentativa de solucionar essas crises. Esforços ilusórios: o recurso, no mundo inteiro, à energia nuclear e ao “carvão limpo”, para produzir eletricidade, parte do princípio de que o sistema energético mundial poderia permanecer o mesmo, caso não houvesse o impacto das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa e a mudança do clima.

Crescem as pressões junto aos países fornecedores, para que aumentem sua produção, e para que as redes internacionais de fornecimento sejam reforçadas, em total contradição com os objetivos de proteção da natureza e do clima. Apresentadas retoricamente como saída, as energias renováveis, são, na prática, consideradas apenas marginalmente. Há muito tempo deveriam ter se transformado numa prioridade estratégica absoluta.

Os insustentáveis argumentos contra a energia limpa
Alega-se que o potencial das energias “renováveis” não é suficiente para substituir as energias nucleares e fósseis, e que seria oneroso desenvolvê-las em grande escala. Afirma-se que a mudança levaria muito tempo — o que equivale a manter, por décadas, a matriz energética atual. Sugere-se, por fim, que o problema de estocagem das energias renováveis ainda não foi resolvido.

Nenhum dos argumentos acima, se bem analisado, é convincente. O potencial das energias renováveis é astronômico. A utilização direta ou indireta da energia solar, do vento, da água, da biomassa e das ondas hoje desperdiçada — sob a forma de vento não captado, de calor solar não recuperado etc. –- forneceria um volume de energia 15 mil vezes superior à consumida pela a humanidade. Uma usina eólica pode ser instalada em uma semana, enquanto uma central térmica clássica requer entre cinco a quinze anos. Já existem soluções para corrigir a intermitência de elementos geradores como a luz solar e os ventos [3].

As possibilidades de ampliar rapidamente a participação das energias renováveis na matriz energética, até constituir sistemas totalmente limpos foram expostas em diversas ocasiões: desde 1978, o grupo de Bellevue [4] desenvolveu cenários para a França. Nos EUA, a Union of Concerned Scientists faria o mesmo para os Estados Unidos [5].

Na Alemanha, a prova dos nove: é possível mudar a matriz
Os únicos custos diretamente ligados à produção de energias renováveis são os do desenvolvimento tecnológico. Os custos dos combustíveis seriam eliminados – exceto no caso da biomassa, já que o trabalho agrícola e florestal deve ser remunerado. Os custos dos equipamentos diminuirão com o desenvolvimento da produção em grande escala e a melhora contínua das tecnologias. Enquanto isso, os preços da energia convencional tendem a aumentar constantemente.

Ao mesmo tempo, as energias renováveis oferecem vantagens políticas e econômicas significativas. A importações de energias fósseis é substituída por fontes permanentes, e disponíveis em todos os locais. Reforça-se a segurança energética, com impacto positivo na balança de pagamentos. Novo impulso às estruturas econômicas regionais baseadas na agricultura e nas trocas. A necessidade de infra-estruturas será amplamente reduzida. Tudo isso sem falar dos graves danos ao meio ambiente e à saúde que seriam evitados. Quanto mais diminuir o uso de energias convencionais, mais importantes serão os efeitos.

Utópico? Irrealista? A lei alemã sobre energias renováveis, adotada na primavera de 2000, demonstra o contrário. Os estímulos oferecidos asseguraram, desde o ano 2000, um aumento anual de 3.000 MW na capacidade de produção de eletricidade através de fontes de energias renováveis. O acréscimo total supera 18.000 MW. Um aspecto importante da lei é proporcionar, a cada produtor de energia renovável, acesso à rede nacional de distribuição e tarifa assegurada por 20 anos — o que garante o retorno dos investimentos. Os custos do incentivo são repartidos entre todos os consumidores, e não passam de 5 euros por pessoa a cada um ano.

O novo setor industrial já criou 170 mil empregos [6]. Nenhum programa político de apoio à industria custou tão pouco e alcançou tantos resultados em tão pouco tempo! E se o público aceita os custos suplementares é porque está de acordo com o objetivo a ser seguido. Em seis anos, os custos de investimento caíram 40%, graças ao aumento de escala na produção. Essa mudança energética diminuiu as emissões de CO2 em 7 milhões de toneladas adicionais a cada ano. Ou seja: a lei, enquanto instrumento da política ambiental, teve muito mais efeito do que o mercado de quotas de emissão de CO2, um dos instrumentos criados pelo protocolo de Kioto. E tudo isso foi obtido sem necessidade de burocracias.

Se o processo continuar no mesmo ritmo, a produção de eletricidade de origem nuclear e fóssil terá sido inteiramente substituída em aproximadamente 40 anos. Os custos adicionais diminuirão, inclusive devido do aumento dos preços das energias convencionais. Mesmo antes do ano 2020, o preço da eletricidade renovável será menor que o da eletricidade gerada nas novas centrais nucleares e térmicas, acelerando ainda mais a transição energética.

Por que a mudança energética assusta as corporações
Um potencial de substituição similar existe no terreno do aquecimento. Graças às fontes renováveis, já existem residências auto-suficientes em energia, e brevemente haverá arranha-céus [7]. O montante dos investimentos é compensado, em dez ou vinte anos, pela economia de combustíveis alcançada. O desenvolvimento de carros híbridos deve permitir igualmente substituir os combustíveis fósseis por biocarburantes e motores elétricos, utilizando novas tecnologias de bateria.

A possibilidade de caminharmos para um mundo pós–fóssil e pós-nuclear não é vista como viável. Ao contrário, é constantemente negada. Nosso sistema superado, com suas estruturas de empresas associadas, é tido como eterno. Tem-se como definitivo que ele é tecnicamente neutro, em relação às outras fontes de energia — cujos custos são vistos de maneira isolada, quando seria necessário comparar sistemas energéticos em sua totalidade. Essa visão mostra completa falta de conhecimentos sobre tecnologias de produção de energia.

A escolha da fonte primária de energia determina o esforço político, econômico e tecnológico necessário para sua extração, transformação, transporte e distribuição — sem esquecer as tecnologias de utilização. É evidente que a mudança para as energias renováveis — portanto, para fluxos energéticos totalmente diferentes — muda tudo.

Supõe passar de energias primárias comerciais a fontes não comerciais; de poucas usinas e refinarias a um maior número de unidades de pequeno e médio porte; de infra-estruturas internacionais, a estruturas regionais; de energias poluidoras a energias limpas que não emitam gáses de efeito estufa. Enfim, significa passar das estruturas concentradas, como grandes empresas e propriedades, a formas de organização mais diversificadas. A mudança sistêmica em matéria de fornecimento energético representa uma mudança de paradigma em termos tecnológicos, econômicos e políticos. É aí, na verdade, que está o nó da questão.

———————–

[1] Ver site.

[2] Em 2005, as cinco maiores companhias petroliferas do mundo- Exxon Mobil,Chevron Corp,Total, British Petroleum (BP) e Shell – acumularam 106,8 bilhões de dólares de lucros (Le Figaro Economie, Paris, 9 de setembro 2005).

[3] Isso é possível graças a meios de estocagem como o bombeamento-turbinagem, nas usinas hidrelétricas, a injeção de ar comprimido nos reservatórios subterrâneos, ou os sistemas híbridos que associam estes artifícios com uma programação adequada do uso da hidreletricidade e da biomassa, para aumentar sua eficácia global

[4] O Grupo de Bellevue existiu na França, sendo constituído por pesquisadores de diferentes horizontes — Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), College de France, Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INRA) e a empresa estatal Eletricité de France (EDF) — envolvidos profissionalmente nas pesquisas sobre energias renováveis.

[5] União de Cientistas Preocupados, que pode ser encontrada em http://www.ucsusa.org/Ver também os cenários 100% baseados em energias renováveis, desenvolvidos recentemente por países como a Alemanha (notadamente na Baviera) e o Japão, em http://www.usysu.de (em inglês e alemão.

[6] Ministério do Meio Ambiente alemão (BMU).

[7] Sobre o tema, ler Autonomia Energética, de Hermann Scheer, membro do Parlamento Alemão. Além do idioma original, já está publicado em inglês, francês e italiano. Uma breve resenha pode ser lida em italiano ou inglês.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Coral milenar é ser mais velho dos mares

Formação de recife profunda com 4.200 anos é fonte de biodiversidade e pode ajudar a estudar o aquecimento global. Zona entre RS e SP é a quinta mais rica do mundo em corais do tipo; cientista quer fim da pesca de arrasto que ameaça espécime na região.

CLAUDIO ANGELO
ENVIADO ESPECIAL A BOSTON

A criatura mais longeva dos oceanos tem 4 milênios de idade e pode ser a mais nova ferramenta para o estudo das mudanças climáticas. Seu nome é Leiopathes glaberrina, e ela é um coral que habita águas profundas e frias mundo afora. Para desvendar seus segredos, um grupo de cientistas recorreu a todos os tipos de truques: de submarinos sofisticados a bombas atômicas.
O esforço se justifica, porque os corais de profundidade formam ecossistemas únicos e ainda pouco conhecidos -mas já muito ameaçados. Eles são verdadeiros oásis de biodiversidade nos abismos oceânicos, concentrando até três vezes mais seres vivos do que as áreas em volta deles. E boa parte do que os seres humanos comem vem desses oásis.
"Cerca de 40% da pesca mundial é feita em águas profundas", diz o biólogo catarinense Alberto Linder, da Universidade de São Paulo. Ele e colegas dos EUA e do Reino Unido apresentaram anteontem, durante a Reunião Anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), em Boston, resultados de vários estudos sobre as bizarrices dos corais de profundidade.
Reverso evolutivo
O próprio Linder se viu diante de uma dessas peculiaridades no seu doutorado, na Universidade Duke (EUA). Ele demonstrou que um grupo de corais profundos, os estilasterídeos, evoluiu ao contrário: em vez de o surgimento desses seres vivos ter ocorrido em águas mais rasas (com luz, calor e nutrientes), provavelmente tudo teve início nas profundezas. Só depois houve a invasão das águas rasas -quatro vezes.
"Esta é a primeira evidência robusta de que um grupo de animais fez isso", afirmou.
Para chegar a essa conclusão, Linder analisou o DNA de mais de cem espécies de corais do grupo (quanto mais seqüências de DNA em comum, mais aparentados os organismos). Esse exame mostrou que há 98% de probabilidade de que o ancestral comum de todas as linhagens tenha vivido em águas profundas. Somente entre 25 milhões e 15 milhões de anos atrás é que os estilasterídeos começaram a migrar.
O cientista da USP -que de quebra identificou 25 novas espécies de estilasterídeos- diz que a descoberta é fascinante por ser contra-intuitiva. "As áreas profundas também são uma fonte de diversidade."
E o Brasil, que tem corais rasos pobres, é muito mais rico abaixo dos mil metros de profundidade. Estudos demonstram que o litoral brasileiro, entre o Rio Grande do Sul e Santos (SP), é a quinta região do mundo mais rica em espécies de corais profundos.
No entanto, eles estão sendo destruídos pela pesca de arrasto antes de serem conhecidos. A frota pesqueira literalmente raspa o fundo do mar em busca de camarões, fazendo terra arrasada dos corais. Pesquisadores que estudam esses animais pensam até em pedir ao governo a proibição do arrasto em águas profundas do Brasil.
Matusalém e a bomba
Brendan Roark, biólogo da Universidade Stanford, tem um argumento para pedir que seu objeto de estudo seja preservado: respeito aos mais velhos. Ele determinou a taxa de crescimento -e por tabela a idade- dos corais profundos, e concluiu que esses seres devem ser os mais antigos do mar.
Agora, será mais fácil usar esses corais de profundidade como testemunhas da mudança climática. Os corais de água rasa, por exemplo, são usados o tempo todo para registros do clima milênios atrás, quando não havia termômetros.
Roark, para resolver o problema da datação, lançou mão das bombas testadas em 1957 pelos americanos. Os testes nucleares lançaram de repente uma grande quantidade de carbono-14 (parente radioativo do carbono) na atmosfera.
O cientista conseguiu provar que a quantidade desse tipo de carbono nos corais profundos variava na exata proporção do que foi visto na atmosfera com a bomba: um pico e um declínio em seguida. Portanto, os corais não devem absorver carbono dissolvido na água mas sim partículas orgânicas que caem da superfície (e levam só algumas semanas para chegar ao fundo).
Corais datados por Roark atingiram idades que iam de algumas centenas a vários milhares de anos. A amostra mais velha crescia havia 4.200 anos.
A idade avançada se explica pela taxa de crescimento lento dos corais, de apenas alguns milésimos de milímetro por ano. E isso é mais um problema, porque um banco de corais afetado pela pesca de arrasto pode levar centenas de anos para se recuperar.

Folha de S. Paulo

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