Bachelet muda relação entre Bolívia e Chile
NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
Com seu desembarque em La Paz debaixo de chuva, no domingo, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse que talvez fosse portadora de sol. Pelo menos era o que gostaria, tendo na bagagem a concessão de um corredor de acesso da Bolívia ao Pacífico.
O emprego de metáforas se justificou como maneira de tratar indiretamente de relações passadas tensas, em geral agressivas, talvez a caminho de normalização construída a duras penas. O Brasil é parceiro no corredor, o que suscita algumas questões.
Bachelet se entende com Alan García, do Peru, na criação de contrapontos que reduzam a influência de Hugo Chávez em países latino-americanos. A operação tem inclusive um nome, o de Arco Pacífico. Ele deve reunir países latino-americanos do Pacífico em oposição à Alba, a Alternativa Bolivariana para as Américas de Chávez.
Em última instância, a Alba de Chávez versus a Alca dos americanos e seus aliados.
A Bolívia, onde é maior a influência do presidente venezuelano, teria se tornado alvo preferencial dos mentores do Arco Pacífico.
Numa guerra com o Chile, a Bolívia perdeu seu litoral no Pacífico em 1789. Era aliada do Peru, outro perdedor que hoje trata de andar às boas com o Chile, em função dos movimentos anti-Chávez. É centenária a reclamação boliviana de uma saída para o mar.
Relações rompidas
Os dois países romperam relações nos anos 70 do século passado e a decisão da Bolívia é só reatá-las quando conseguir de volta o litoral que os chilenos lhe tomaram.
Mas o fato é que melhora, e bastante, o diálogo entre os dois países o fato de Bachelet manifestar o desejo de aprofundá-lo "de governo a governo, de povo a povo".
Foi acertada uma agenda bilateral de 13 pontos, que é negociada de modo permanente nas duas capitais a nível de vice-ministros de Relações Exteriores. À medida que avançam, os itens vão subindo a estágios superiores. A novidade maior, e mais significativa, sintoma de febre baixa, foi a colocação na mesa de negociações da reivindicação boliviana de saída para o mar.
Nunca antes esse tema figurou numa agenda oficial de conversações entre os dois países.
Instalou-se a convicção de que se trata de "aproximação inédita", expressão usada por um jornal boliviano. Resta saber se o papel do Brasil no corredor tem algo a ver com tudo isso.
O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais
Folha de S. Paulo
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