Arquivo de 23 de Fevereiro de 2008

Falta de inovação trava avanço do Brasil

Estudo da USP mostra que o Brasil está perdendo em competitividade

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA

A ambição do Brasil de atuar entre os pesos pesados da competição mundial tropeça na inovação. Pesquisa encomendada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) ao Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) mostra que o País não conseguiu fazer da inovação o motor de suas estratégias de desenvolvimento econômico.
Pior ainda: o governo e as empresas ainda confundem inovação com alta tecnologia e política industrial com redução do chamado custo Brasil. O estudo mergulhou na experiência de sete países - Canadá, Estados Unidos, Finlândia, França, Japão e Reino Unido - e identificou ao menos oito barreiras e nove saídas para o Brasil não acabar na rabeira da competição mundial nem sucumbir ao poderio de países como a Índia e da China em matéria de concorrência.
“A lógica da inovação é sair na frente e vender ao mundo algo que não tenha concorrência, ao menos em um primeiro momento”, resume Reginaldo Arcuri, presidente da ABDI. “Os desafios mudaram. Não basta ter sol, terra e água para ser competitivo em agricultura, nem basta ter aço e alumínio para fabricar bons aviões. Hoje, falamos em grãos geneticamente modificados e em materiais compósitos.” Coordenada pelo sociólogo Glauco Arbix, da USP, a pesquisa orientou a elaboração da chamada nova política industrial.
Segunda fase do projeto lançado em 2004, esse novo pacote é esperado há mais de quatro meses. Seu esboço foi apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia 13, com a omissão das desonerações tributárias ambicionadas pelas empresas. A conclusão e a divulgação do texto dependem da aprovação do Orçamento de 2008, em tramitação no Congresso Nacional.
A pesquisa apontou, entre as principais barreiras à inovação no Brasil, a “descoordenação política” dos órgãos do governo envolvidos com o tema e o emaranhado de regras conflitantes, que produzem um ambiente jurídico pouco propício à atração de investimentos em centros de pesquisa tecnológica e de produção de bens e serviços inovadores no País.
O rascunho apresentado ao presidente Lula tenta organizar um modelo a ser coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, com gerência geral da ABDI, e traz sugestões para aperfeiçoar o ambiente jurídico para o setor exportador.
No rastro da política industrial, a ABDI espera ver o Brasil entre os países escolhidos para a instalação de centros de pesquisa tecnológica de colossos mundiais. Mas, como meio de oferecer algo a mais aos possíveis investidores, prepara a criação de uma “rede da diáspora” neste semestre. Trata-se de um sistema para estabelecer uma conexão entre os pesquisadores brasileiros que atuam em empresas e universidades no exterior.
FERIDAS
As conclusões da pesquisa tocam em outras feridas antigas do governo, como a demora na liberação de financiamentos a projetos inovadores, a timidez em usar seu poder de compra como alavanca à inovação e sua incapacidade de motivar a cooperação entre empresas e universidades. Ou seja, questiona as práticas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as diretrizes da Lei 8.666, a lei das licitações, que obriga os órgãos públicos a adquirir bens e serviços pelo menor preço, sem levar em conta o desenvolvimento tecnológico.
Também expõe, indiretamente, a visão defensiva e autocentrada das companhias brasileiras, que preferem desenvolver isoladamente suas pesquisas.
Segundo Arbix, a Embraer enfrenta o desafio de utilizar materiais compósitos (estruturas resistentes criadas a partir de dois ou mais materiais diferentes) que também podem ser úteis em dutos de exploração em águas profundas, a especialidade da Petrobrás. Há pesquisas avançadas nessa área em várias universidades brasileiras. Mas nenhuma cooperação trilateral.

DESAFIOS E SOLUÇÕES

OS OITO OBSTÁCULOS…
1. Falta de coordenação entre órgãos do governo.
2. Baixo aproveitamento
do potencial das compras do governo.
3. Prazo longo de liberação dos financiamentos.
4. Falta de clareza sobre os instrumentos de incentivo à inovação.
5. Desconhecimento das empresas sobre meios de apoio à inovação.
6. Deficiência de gestão e carência de empreendedores.
7. Barreiras para a criação de empresas e de novos produtos.
8. Pouca aplicação do conhecimento produzido nas universidades.

….E AS NOVE SAÍDAS

1. Projeto de metas para o País para os próximos 15 e 20 anos, a ser elaborado pelo governo junto ao setor privado.
2. Explorar as compras governamentais e eliminar a regra da aquisição de bens e de serviços pelo menor preço.
3. Criar um corpo de especialistas para a difusão dos instrumentos de inovação e a orientação das empresas sobre sua gestão.
4. Desonerar empresas inovadoras.
5. Atualizar as políticas de inovação, com base em estudos de competitividade.
6. Incentivar projetos empresariais de médio porte.
7. Aproximar as universidades e das empresas.
8. Incentivar pesquisadores, nas universidades, a desenvolver produtos ou processos inovadores e à abertura de empresas para comercializá-los.
9. Apoiar as empresas nas suas fases iniciais de operação.

Fonte: Plano de Mobilização Brasileira pela Inovação Tecnológica - IEA/USP.

Estado de S. Paulo

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Um juiz torturador e favorável a orgias sexuais

Ele é juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos.
É adorado pelo delinqüente Bush.
Ele é companheiro de caçadas do vice-presidente Chenney.
O nome dele é Antonin Scalia.
Scalia é favorável à tortura.
Isso ele disse em entrevista à BBC.
Palavras dele: “Eu acho que seria absurdo dizer
que nós não podemos enfiar-lhe alguma coisa
debaixo das unhas ou esmurrar­‑lhe a cara.
Seria absurdo dizer que não podemos fazer isto».
E numa palestra na universidade de Harvard declarou:
"Eu entendo que as orgias sexuais eliminam tensões
sociais e deveriam ser incentivadas”.
Talvez esse tipo de gente explique porque o mundo está
onde está…

Blog do Bourdoukan

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Além da moeda

Os EUA acostumaram-se a viver acima dos seus próprios recursos, o que gera passivo crescente e exigirá moratória

Cesar Benjamin

DURANTE milênios, as sociedades humanas não conheceram o que hoje chamamos economia, pois as formas de produzir, trocar e adquirir não tinham autonomia. Existiam embutidas em uma ampla rede de instituições e compromissos, sociais e políticos, que lhes conferiam sentido e lhes impunham limites. Mesmo onde havia comércio e dinheiro, eles não estavam articulados de um modo completo e coerente. O estabelecimento da economia como um sistema separado, situado acima dos demais, em posição de comando, foi parte de um processo histórico específico, violentíssimo, que na origem ocorreu em certas partes da Europa e exigiu pesada intervenção estatal.
Numa sociedade que “liberta” a economia e se organiza em torno da troca de mercadorias, a moeda ocupa o lugar central. Pois, sendo o equivalente geral, sua posse é mais desejável do que a posse de uma mercadoria específica. Ao assumir essa posição, a própria moeda se transforma. Durante milênios, ela possuía valor por ser fabricada com metais preciosos ou porque os representava, podendo, em tese, ser trocada por eles. Uma “relíquia bárbara”, nas palavras de Keynes.
A moeda fiduciária, emitida por um banco central, é um fenômeno extremamente recente. Ela não se refere a nada que não seja o poder do Estado, o qual, ao emiti-la, compromete-se apenas a aceitá-la na quitação de tributos, nada mais, definindo assim o espaço econômico em que exerce a sua própria soberania. Essa evolução só se completou a partir da década de 1970, quando os Estados Unidos anunciaram a inconversibilidade do dólar, rompendo os acordos de Bretton Woods e declarando, contra o mundo, a moratória de suas reservas de ouro. Foi uma ousada solução para os problemas americanos de então. Lançou as bases para a retomada, ou a reafirmação, da hegemonia desse país, na época ameaçada economicamente pelo Japão e pela Alemanha, militarmente pela União Soviética e politicamente pela vaga contestadora que vinha do Terceiro Mundo. O padrão dólar flexível quebrou o ímpeto de todos os concorrentes, reais ou potenciais, inclusive o Brasil.
Permanece em aberto, porém, a questão de saber se pode ser estável uma ordem econômica internacional que gira em torno de uma moeda fiduciária emitida por um Estado nacional. Creio que não. Ela contém uma contradição insanável, pois o espaço de soberania de um único Estado passa a ser todo o planeta. O preço disso são enormes tensões e instabilidades que se acumulam.
Na relação com o mundo, os EUA acostumaram-se a viver muito acima dos seus próprios recursos, o que gera um passivo crescente e exigirá nova moratória futura. Internamente, o novo arranjo tornou amplamente hegemônicos os administradores de ativos líquidos, que nem sequer manejam moeda. Manejam títulos, participações, cotas, ações, derivativos, papéis de todo tipo, inclusive papéis que representam outros grupos de papéis e que só existem na fantasia dos mercados futuros… Não estão sob controle de bancos centrais, chamados só na hora de pagar as contas.
Nos Estados Unidos, essa incrível pirâmide de operações financeiras baseava-se, principalmente, em hipotecas residenciais. Agora, está solta no ar. É por isso que os analistas mais argutos e mais bem pagos, manejando equações cada vez mais complicadas, só conseguem dizer platitudes. Se quisermos encontrar a saída, o desafio é buscar novas maneiras de trazer de volta a economia para dentro das instituições sociais, para religá-la ao mundo-da-vida. Ainda não sabemos como fazê-lo.

CÉSAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006). Passa a escrever quinzenalmente, aos sábados, nesta coluna.

Jornal Folha de S. Paulo
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Rússia aposta em ordem pós-Iraque

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os russos jogam com a expectativa de derrota dos EUA no Iraque e uma redistribuição de poder no mundo. Putin quer viver isso plenamente. Deixa a Presidência em 2008, fica como eminência parda e volta com toda carga em 2012. Algumas cartas já foram jogadas, segundo Moscou. Não vencer no Iraque coloca em xeque o predomínio, a salvo de qualquer desafio, do aparato militar dos EUA. Vai ladeira abaixo o projeto de construção de um "novo século americano".
Com seus foguetes e antifoguetes, bombardeiros de longo alcance em incursões em profundidade no Pacífico e no Atlântico, mini-submarinos de alta tecnologia plantando a bandeira russa no Ártico, superbombas e uma política externa "afirmativa", Moscou já estaria manobrando para ocupar lugares nos bancos da frente de uma ordem pós-Iraque.
Moscou bate de frente com a decisão de Bush de instalar antifoguetes em países da Europa do Leste.
Anuncia que uma frota com sua bandeira pode ir para o Mediterrâneo com intenções de presença permanente. Desde o fim da segunda guerra, a Sexta Frota dos EUA navega absoluta no Mediterrâneo.
Navios de guerra de Moscou poderiam usar bases na Síria, com riscos de inserção de Israel nos conflitos potenciais de uma ordem pós-Iraque. Aviões israelenses executaram ações contra alvos não identificados em áreas desérticas da Síria.
Há especulações sobre um programa nuclear sírio com apoio norte-coreano.
Há tensões em alta na configuração de um pós-Iraque. Barcos russos no Mediterrâneo circulariam numa geografia explosiva.
Olhos também na Ásia, nesse esforço de Moscou por dar tonalidades mais fortes ao "perfil estratégico" da Rússia. Mostrou-o a última reunião do Fórum de Cooperação de Xangai, grupo de seis países com russos e chineses à frente.
Especialistas dizem que a China e o restante (países da Ásia Central) estão interessados sobretudo em cooperação e não confronto. O Fórum, no entanto, entrou por caminhos que cruzam com a Otan, manifestando o desejo de estabelecer "relações íntimas" com o Afeganistão. Vinte anos depois de derrotada em seu esforço militar para salvar o regime comunista afegão, a Rússia tenta voltar ao país, em operação à margem do Ocidente.


O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais

Folha de S. Paulo

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Conflito étnico cresce no Quênia

Estima-se que 800 pessoas foram mortas até agora no Quênia, na medida em que a violência pós-eleições assumiu tons perturbadores do genocídio de Ruanda. Na cidade de Nakuru, grupos étnicos rivais estão travando uma guerra entre si, e milhares de pessoas fugiram de seus lares

Thilo Thielke

Uma fumaça densa cobre a favela de Githima, no subúrbio de Nakuru, quarta maior cidade do Quênia. Caminhões militares atravessam as ruas, enquanto helicópteros do exército circulam pelos céus. Tiros ecoam sem parar.

O caos reina em Nakuru, onde gangues tribais vêm lutando há quatro dias. Mais de 60 pessoas já morreram.

O estopim da violência foram as conversas entre o presidente queniano Mwai Kibaki, acusado de fraude eleitoral, e seu opositor, Raila Odinga. Depois de sua reunião na quinta-feira passada (24/1), que inicialmente foi vista com otimismo, Kibai declarou-se “presidente eleito”. Desde então, a situação piorou. E mesmo com o toque de recolher entre 19h e 6h, os soldados não foram capazes de controlar a violência.

Enquanto isso, vários milhares de pessoas em Nakuru fugiram da violência, abandonando seus lares com pressa. Sophie Okiech, mãe de quatro, não pôde nem pegar um cobertor quando fugiu. Membros de um grupo étnico hostil ameaçaram linchá-la. A noite toda, jovens cercaram sua casa, afiando suas facas e facões. De manhã, Okiech fugiu para a delegacia. Esse tipo de limpeza étnica está acontecendo atualmente em toda parte.

A inquietação começou em Nakuru no final da noite de quinta-feira quando grupos de kikuyus -tribo do presidente Kibaki- ocuparam as ruas da cidade e começaram a caçar membros dos grupos luo e kalenjin. Na manhã seguinte, vários milhares de kalenjins da região se uniram e atacaram os kikuyus. Desde então, a batalha prosseguiu de um lado e do outro.

Um funcionário em Nakuru disse à Reuters na segunda-feira que, até agora, havia 64 corpos no necrotério. Em todo o Quênia, estima-se que um total de 800 pessoas foram mortas desde as eleições em dezembro, enquanto cerca de 250.000 pessoas teriam fugido de suas casas. Em um incidente particularmente horripilante, 19 pessoas -11 crianças- foram incendiadas por uma turba em uma casa em Naivasha, no domingo.

Dois alemães também foram esfaqueados até a morte no domingo, durante uma aparente tentativa de roubo em uma mansão privada no resort costeiro de Diani. A polícia, entretanto, disse que as mortes não foram associadas à violência relativa às eleições e atribuiu os assassinatos ao crime organizado.

Barbaridade inacreditável
A batalha entre os grupos rivais étnicos está sendo travada em Nakuru com barbaridade inacreditável, e feridos chegam ao hospital da cidade o tempo todo.

“Atualmente só temos dois médicos”, lamenta uma enfermeira. “A maioria deles não ousa mais trabalhar.” Ela limpa o sangue de uma vítima de tiro, enquanto uma vítima de facão passa por ela com um ferimento enorme na cabeça, seguida de uma pessoa atingida por um dardo envenenado.

Os tiros atravessam os céus, vindos das montanhas em torno da cidade. “A polícia saiu para entrar na matança”, diz um senhor, que acaba de deixar um ferido. “Esse não é o fim da guerra”, diz ele, “é apenas o começo”.

Até este ponto, as coisas estavam calmas em Nakuru, capital da província de Rift Valley. Meio milhão de pessoas moram aqui, em um lugar que o guia de viagem Baedeker descreve como “barulhento, poeirento e miserável”.

Como Nairóbi, a cidade deve sua fundação à famosa linha de trem Uganda Railway, também conhecida como “Expresso Lunático”. Na época, os governantes coloniais britânicos fizeram de Nakuru a principal cidade das chamadas Terras Altas Brancas, a terra fértil preferida pelos brancos. Hoje em dia, a cidade é dominada pelos kikuyus, maior grupo étnico do Quênia. Os kalenjins, que originalmente ocupavam a região, encontram-se em minoria.

Quando Kibaki, líder dos kikuyus do Quênia, fraudou as eleições no final de dezembro, segundo as acusações, houve uma revolta entre muitas tribos, que se sentiram discriminadas pelos kikuyus. Os kalenjins eram os mais revoltados. Quase 40 kikuyus -na maioria mulheres e crianças- foram mortos por fogo em uma igreja perto da cidade de Eldoret.

Desde então, os kikuyus juraram vingança. Acredita-se que políticos quenianos influentes teriam armado as chamadas gangues Mungiki para executarem os ataques de vingança. Os Mungiki são uma seita bruta como uma máfia dos kikuyus que se vê como herdeira dos notórios guerrilheiros Mau Mau pela liberdade, que lutaram contra as forças coloniais britânicas.

Até cerca de meio ano atrás, a polícia do Quênia ainda perseguia incansavelmente a organização Mungiki, que é vista como criminosa no Quênia. Entretanto, o grupo agora estaria agindo em conluio com o governo, que alegadamente fornece armas. Há informes de caminhões cheios de facões e rumores em Nakuru abundam sobre Mungikis com uniformes de polícia atravessando as favelas e massacrando as pessoas.

As células Mungiki em Nakuru negam as acusações. Sete líderes Mungiki apareceram para um encontro no Hotel Merica. Entre eles, o “diretor” Joe, o “marechal de campo” David, o “chefe do serviço secreto” Gidraf e alguns outros jovens.

Os homens, todos vestidos discretamente, têm de 20 a 30 e poucos anos e boas maneiras. Eles bebem Guinness e refrigerantes e se apresentam como sendo cordeiros inocentes.

“Não temos nada a ver com a coisa toda”, diz o porta-voz Joe Waigajo, ao som de tiros. “Estamos apenas protegendo nossas esposas e filhos.” Ele acrescenta que é triste que o Quênia esteja se encaminhando para a guerra civil. Um exército de guerrilheiros já está se formando para tentar tirar o poder do Estado, diz ele. Joe chama de “Exército do Pentágono” -Pentágono sendo o Movimento Democrático Laranja da oposição. “E essa guerra que está começando agora”, diz Joe, “não foi planejada ontem”.

Presos na violência
Enquanto isso, inúmeros comboios de refugiados passam pelas ruas da cidade, com seus pertences empilhados em carrinhos de mão ou caminhões. Os kikuyus estão morando no centro de conferências, enquanto os luos e kalenjins procuraram refúgio na delegacia.

“Nunca voltaremos”, diz Sammy Kinajui, 38, kikuyu que acaba de chegar da cidade de Kericho. Seus vizinhos atearam fogo em sua casa. Agora, ele só quer sair do Rift Valley, apesar de não ter idéia para onde. Ele será forçado a ficar em Nakuru mais alguns dias, pois a estrada para Nairóbi está bloqueada devido às duras batalhas que estão ocorrendo em Naivasha.

E Nakuru tampouco está se acalmando. Nos limites de Githimu, um grupo de kalenjins irritados ergueram uma barricada e rolaram dois troncos de árvores para a estrada. Eles brandem facões e clavas e gritam: “Vamos lutar até a morte.”

O cadáver de um adolescente está caído. Poucos minutos antes, um projétil da polícia dilacerou metade de seu cérebro. Uma casa kikuyu ainda arde ali perto.

O reverendo Richard Nato, da Igreja de Fé Gospel da África, abaixa a cabeça envergonhado. “Quem imaginaria que essa guerra viria tão rapidamente ao Quênia?” pergunta. Ele mesmo não se sente mais seguro. No dia anterior, contou seis corpos do lado de fora da igreja. De acordo com Nato, cada vez mais gangues Mungiki estão rondando com proteção da polícia, caçando pessoas de outras tribos.

Como podemos ter certeza que os Mungiki estavam envolvidos nos assassinatos? “Eles matam com facões”, diz ele. “Eles partem as vítimas em pedaços. Os outros matam com flechas.”

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Reformas do governo fazem surgir um novo modelo de família alemã

Daniel Vernet

A grande coalizão de Angela Merkel está transformando por completo uma das instituições mais bem estabelecidas da Alemanha: a família. É Ursula von der Leyen, 50, uma democrata-cristã de uma família de sete filhos e mãe também de sete filhos, que está conduzindo a batalha.Ela é a ministra da família, das pessoas idosas, das mulheres e da juventude. Ela aprendeu política quando era muito jovem. O seu pai, Ernst Albrecht, foi durante muitos anos ministro-presidente da Baixo-Saxônia. Ela era ministra para as questões sociais deste Land (Estado) quando Angela Merkel foi procurá-la com o objetivo de deslanchar uma verdadeira revolução.

O terreno já havia sido preparado pela coalizão anterior. No governo “vermelho e verde” de Gerhard Schröder, a ministra social-democrata da família, Renate Schmidt, havia iniciado as reformas em relação ao auxílio às famílias. Elas tocavam em um tabu que ainda permanecia vivo ao final do século 20 na Alemanha Ocidental: a possibilidade de conciliar a carreira e a maternidade. No imaginário popular, a mulher encontrava a sua realização apenas como mãe, conforme a célebre fórmula dos três “K”, Kinder-Küche-Kirche (crianças, cozinha, igreja).

Sem dúvida, a mentalidade era de fato mais avançada do que os clichês davam a entender. As pesquisas de opinião mostravam que a maioria das mulheres queria ao mesmo tempo ter filhos e trabalhar fora de casa. Elas também desejavam ter um maior número de filhos. Mas a realidade era muito diferente. Nada estava sendo feito no sentido de incentivar o trabalho feminino e o Estado devia se manter afastado da educação das jovens crianças, pois esta tarefa, ou, melhor dizendo, esta missão, cabia à mãe.

Esta atitude não estava baseada apenas em argumentos duvidosas. A tradição havia sido “consolidada na Alemanha pelas experiências de dois regimes totalitários”, explica Insa Schöningh, a secretária-geral da Associação Evangélica para as questões familiares. “A desconfiança em relação à intervenção do Estado na educação das crianças foi intensificada pela hostilidade contra tudo o que poderia se parecer com a RDA (a antiga Alemanha Oriental)”. No entanto, a reunificação da Alemanha teve um duplo efeito. Muito além da rejeição do “modelo” comunista leste-alemão, ela também acelerou uma conscientização em relação aos “atrasos” do sistema familiar e educativo oeste-alemão, mesmo se hoje os responsáveis por essa política se recusem a reconhecê-lo. “Muitos preferem procurar por referências na França ou na Escandinávia”, comentam funcionários do ministério da família em Berlim, em vez de se referirem àquilo que um jornalista da “Frankfurter Allgemeine Zeitung” (um dos três maiores jornais diários do país) chamou de “as creches leninistas”. Ele não é o único a ter esta opinião. Dom Walter Mixa, o bispo de Augsbourg, denunciou o questionamento dos três “K”, enxergando nesta reforma “uma política ideologicamente determinada, que lembra muito a antiga RDA”.

É preciso deixar a igreja no meio da aldeia, dizem os alemães para explicar que é sempre preferível agir de modo racional. O provérbio não poderia ter melhor aplicação. Isso porque a “revolução von der Leyen”, em primeiro lugar, nada mais é que a adoção pela Alemanha de políticas que vinham sendo praticadas há muito tempo em outros países europeus. Além das mudanças que foram introduzidas pela reunificação de 1990, outros fatores contribuíram para a sua implantação: uma das menores taxas de natalidade da Europa, o crescimento do nível de educação e a necessidade de mão-de-obra qualificada, além da amarga descoberta de que a família também podia ser um lugar em que crianças são maltratadas, em meio à indiferença do Estado e da sociedade.

Ursula von der Leyen proporcionou o seu toque pessoal, aquilo que ela chama de “um feminismo conservador” ancorado na sua própria experiência. Ela fala a respeito disso com candura - “Como mãe de sete filhos, eu sei que é difícil conciliar tudo quando é preciso levar um deles para a aula de equitação e o outro para o tênis” - ou com convicção quando ela se recorda da sua formação em medicina: “Quando eu tive o meu terceiro filho, o meu professor me disse: ‘A senhora está perdida para a medicina’. Estávamos na Alemanha. Quando eu tive o meu quarto filho, um outro professor me disse: ‘Que ótimo! Nós vamos encontrar um emprego para a senhora’. Estávamos na Califórnia”.

Os especialistas já haviam constatado que a política de família na Alemanha custava tão caro quanto nos países europeus comparáveis, só que os resultados obtidos eram inferiores. Portanto, já não era sem tempo mudar. A política de Ursula von der Leyen baseia-se em três pilares: o dinheiro, a infra-estrutura, o tempo. Para permitir a conciliação entre os filhos e o trabalho, a grande coalizão criou, em 2007, um salário parental, que veio se acrescentar às alocações familiares. Para o pai ou a mãe que pára de trabalhar durante um ano, a alocação representa 67% do salário perdido, com um teto de 1.800 euros (cerca de R$ 4.750) e um mínimo de 300 euros (cerca de R$ 800), inclusive para os que não trabalham. No caso de o segundo cônjuge tomar o lugar do primeiro depois de um ano, o salário parental é prorrogado por dois meses.

Esta fórmula teve grande sucesso tão logo ela foi aplicada. Ela havia sido concebida principalmente para as mulheres, mas as autoridades ficaram surpresas ao constatarem que 10% das pessoas interessadas são pais. Isso foi interpretado como uma prova de que a mentalidade mudou também na Alemanha , embora não faltem aqueles que zombam daqueles homens no lar, referindo-se ao “trabalho penoso das fraldas” (Windelvolontariat).

Para a infra-estrutura, a ministra optou por dar início à construção de 500 mil novas vagas nas creches daqui até 2013, para as crianças de 1 a 3 anos. Foi esta medida que provocou uma saraivada de protestos nos meios conservadores. Contudo, as necessidades são gritantes. Enquanto, na ex-Alemanha Oriental, a demanda foi mais ou menos atendida, o mesmo está longe de acontecer na parte ocidental. Não mais do que 5% a 9% das necessidades, segundo dados dos Länder (Estados), foram atendidas. Diante disso, 3 bilhões de euros (R$ 7,9 bilhões) deverão ser investidos para permitir a construção das creches e a formação do pessoal. O Partido Social-Democrata propôs garantir o financiamento desta verba limitando as vantagens fiscais concedidas aos casais de maior renda, mas esta idéia foi rejeitada pela democracia-cristã.

Resta a organização do tempo. Neste campo, o Estado federal carece de meios que lhe permitiriam intervir. Ele pode incentivar - o que ele já fez - a abertura das escolas durante o dia inteiro, enquanto tradicionalmente os colegiais alemães ficavam livres à tarde. Ele pode também “enviar mensagens”, como dizem no ministério da família, promover a cooperação com os setores econômicos que andaram se mostrando cada vez mais sensíveis a esses temas por causa da carência de trabalhadores qualificados, ajudar as coletividades locais a proporem serviços às famílias. Trata-se de um setor de atividade muito pouco desenvolvido na Alemanha porque o costume queria que as mulheres ficassem em casa e nunca precisassem recorrer a uma ajuda externa. As Igrejas, que continuam desempenhando um importante papel caritativo, e os parceiros sociais também foram convidados a darem a sua contribuição.

A política familiar já começou a ser incluída nas negociações coletivas das empresas, nem que seja sob a forma de um planejamento do tempo de trabalho. Possivelmente, uma democrata-cristã seria mais indicada do que uma social-democrata para impor uma política que contraria os conservadores. Mesmo se as suas opiniões sejam amplamente minoritárias, os conservadores se mobilizaram contra a ministra von der Leyen. E o fizeram com um vigor tão grande quanto as diferentes ajudas são dirigidas a todas as famílias.

Os conservadores receberam o apoio de uma apresentadora de jornal televisivo, mãe solteira, que se tornou popular com um livro, “Der Eva Princip” (O princípio de Eva), no qual explica que escolheu um rumo equivocado: se eu pudesse recomeçar, escreve, “eu procuraria um marido, o deixaria trabalhar e ficaria cuidando dos filhos”. Os conservadores, entre eles os sociais-cristãos bávaros, obrigaram o governo a prever uma alocação para tratamentos (Betreuungsgeld), destinada aos pais que não enviam os seus filhos à creche. O seu raciocínio é simples: se existe dinheiro para ser distribuído para as mães que “se livram” de seus filhos, aquelas que defendem a boa tradição alemã da mulher no lar não devem ser desfavorecidas.

Esta medida provocou uma onda de protestos entre os partidários de uma modernização da política familiar. Ursula von der Leyen era contra o dispositivo, mas acabou concordando com ele. “Este é o tranqüilizante que permite fazer passar o restante”, lamenta Insa Schöningh. Embora ela esteja muito ligada à Igreja protestante, a sua associação defende posições mais avançadas. Ela sublinha os efeitos perversos desta alocação para tratamentos, que foi experimentada na Noruega. Considerada em muitos casos pela família de renda modesta como um complemento do salário, a alocação não constitui um benefício para as crianças. “As creches”, diz Insa Schöningh, “não foram instituídas apenas para aliviar os pais. Elas também existem para favorecer a socialização dos pequenos”. Esta socialização é importante para as famílias em dificuldade ou para as famílias de imigrantes.

O governo estabeleceu com prazo o ano de 2013 para definir as modalidades da alocação para tratamentos. Daqui até lá, um outro governo terá todo o tempo necessário para desfazer o que este tiver feito. A chanceler Angela Merkel está acompanhando este debate à distância. Ora ela apóia a sua ministra da família, ora ela tranqüiliza a ala direita do seu partido. Tanto nesta matéria como em outras, ela optou por seguir a linha de tentar satisfazer a todo mundo. Até o momento, este é o segredo da sua popularidade.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Controvérsias sobre o flúor

Pesquisas recentes sugerem que o tratamento da cárie com fluoreto em excesso pode ser perigoso

Dan Fagin

Muito antes dos debates acirrados sobre cigarro, DDT, amianto, ou o buraco na camada de ozônio, a única controvérsia relacionada à saúde de que a maioria dos americanos tinha ouvido falar era a da fluoretação da água (tratamento da água potável pela adição de flúor). Nos anos 50, centenas de comunidades espalhadas pelos Estados Unidos se envolveram em calorosas discussões sobre se os fluoretos – compostos iônicos que contêm o elemento flúor – deveriam ou não ser adicionados aos sistemas de abastecimento de água. De um lado estava uma grande coalizão formada por cientistas do governo e das indústrias, que argumentavam que a adição de fluoreto à água potável protegeria os dentes contra as cáries. Do outro, ativistas para quem os riscos da fluoretação haviam sido estudados inadequadamente e a prática equivaleria à medicação compulsória – e, portanto, a uma violação das liberdades civis.

Os defensores dos fluoretos venceram a contenda, em parte ridicularizando seus oponentes, como a John Birch Society¸ associação direitista para a qual a fluoretação seria um plano comunista para envenenar os americanos. Hoje, cerca de 60% da população dos Estados Unidos bebe água fluoretada, incluindo os habitantes de 46 das 50 maiores cidades do país. A prática da fluoretação foi adotada também no Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e mais alguns outros países. Os críticos geralmente são repudiados pelos pesquisadores e agências de saúde pública desses países como pessoas enfadonhas ou fanáticas. Em outras nações, entretanto, a fluoretação da água é rara e controversa. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos consideram a fluoretação da água como uma das dez maiores realizações da saúde do século 20, juntamente com as vacinas e o planejamento familiar.

No entanto, a postura científica atual em relação à fluoretação pode estar mudando justamente no país onde a prática começou. Em 2006, após passar mais de dois anos revisando e debatendo centenas de estudos, um comitê do Conselho Nacional de Pesquisa (NRC, na sigla em inglês) publicou um relatório que deu um toque de legitimação a algumas das antigas colocações feitas pelos opositores da fluoretação. O relatório concluiu que o atual limite de fluoreto na água potável, indicado pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) – 4 miligramas por litro (mg/L) – deveria ser diminuído por causa dos altos riscos, tanto para crianças como para adultos. Nas crianças, a exposição constante ao fluoreto a 4 mg/L pode descolorir e desfigurar os dentes permanentes – a fluorose dental. Nos adultos, pode aumentar o risco de fraturas ósseas e, possivelmente, de fluorose esqueletal moderada, doença que provoca enrijecimento das articulações. A maior parte da água potável fluoretada contém muito menos fluoreto que o limite indicado pela EPA, mas a situação é inquietante, pois ainda há muita incerteza sobre a quantidade adicional de flúor que ingerimos por meio da alimentação, bebidas e produtos de higiene bucal. Além disso, o conselho criado pelo NRC observou que o fluoreto pode também desencadear problemas de saúde mais sérios, como câncer ósseo e danos ao cérebro e à tireóide. Embora esses efeitos ainda não estejam provados, o NRC argumenta que precisam ser mais bem estudados.

Um dos maiores e mais longos estudos sobre os efeitos do fluoreto é o Iowa Fluoride Study, liderado por Steven M. Levy, da Faculdade de Odontologia da University of Iowa. Nos últimos 16 anos, a equipe de Levy monitorou de perto cerca de 700 crianças do estado de Iowa, para tentar identificar os efeitos mais sutis da fluoretação que talvez tenham sido negligenciados por estudos anteriores. Ao mesmo tempo, Levy também lidera um dos trabalhos mais abrangentes para medir as concentrações de fluoreto em milhares de produtos – incluindo alimentos, bebidas e cremes dentais –, e assim desenvolver estimativas mais confiáveis do quanto estamos ingerindo de fluoreto.

Trata-se de uma área de pesquisa altamente complexa, pois a alimentação, os hábitos de higiene bucal e os níveis de fluoretação da água variam muito, e também porque os fatores genéticos, ambientais e culturais parecem deixar algumas pessoas mais suscetíveis que outras aos efeitos benéficos e maléficos do fluoreto. Apesar de todas as incertezas, Levy e alguns outros pesquisadores partilham a visão de que algumas crianças, especialmente as mais novas, provavelmente estejam ingerindo mais fluoreto que deveriam. Eles aceitam a fluoretação da água como um método aprovado para o controle das cáries, principalmente nas populações em que a higiene bucal é deficitária. Mas acreditam que, nas comunidades com bom cuidado dental, os argumentos a favor da fluoretação não são tão poderosos como seria de esperar. “Em vez de apenas procurarmos elevar os níveis de fluoreto, precisamos descobrir o equilíbrio”, adverte Levy.

O Advento do Fluoreto

Anúncios de creme dental de mais de meio século estão pendurados nas paredes da sala de reunião de Levy. Uma dessas propagandas, da pasta de dente Pebeco, pergunta: “Você quer dentes feios e doloridos?”. Outro anúncio diz que “O creme dental Colgate com clorofi la acaba com o mau hálito”. São produtos da era pré-fluoreto, quando a deterioração dental – chamada de cárie na terminologia odontológica – estava por toda parte e os cremes dentais eram comercializados com apelos medicinais questionáveis.

A introdução do fluoreto mudou toda a cena. Em 1945, a cidade de Grand Rapids, em Michigan, tornou-se a primeira a fluoretar seu fornecimento de água. Dez anos depois, a Procter&Gamble lançou Crest, o primeiro creme dental fluorado, e que continha fluoreto de estanho (composto formado por um átomo de estanho e dois de flúor). A Colgate-Palmolive seguiu os mesmos passos em 1967, modificando o seu produto com aquele que se tornaria um dos ingredientes mais predominantes de combate à cárie nas pastas de dente: o monofluorofosfato de sódio. Em vez dos sais de fluoreto, encontrados nos cremes dentais e preferidos pelos dentistas, a maioria dos fornecedores de água finalmente acabou optando pela forma mais barata de fluoretação com os silicofluoretos, como o ácido hexafluorssilícico, produto derivado de um processo de fabricação de fertilizantes em que os minérios fosfáticos são tratados com ácido sulfúrico.

Nos anos 70 e 80, os Estados Unidos foram inundados por diversas formas de fluoreto, e a fluoretação se tornou a pedra fundamental da odontologia preventiva na maioria dos países de língua inglesa. Exatamente por que e como a maior parte das incidências de cárie diminuiu é assunto muito controverso, mas o consenso entre os pesquisadores dessa área é que o declínio foi rápido, e os fluoretos merecem muito desse crédito.

Foi nesse cenário que Levy ingressou na odontologia sanitária, em meados dos anos 80. A Colgate-Palmolive financiou suas primeiras pesquisas, que procuravam encorajar o uso do fluoreto nos consultórios odontológicos. Mas quando os dentistas americanos começaram a observar queda na incidência de cáries e aumento da fluorose nos dentes dos seus pacientes mais jovens, Levy se perguntou se as crianças estavam mesmo sendo beneficiadas pela fluoretação. “Houve uma mudança no meu modo de ver aquele problema. Passei de uma postura em que ‘mais fluoreto seria a nossa meta definitiva’ para outra em que teríamos de saber qual o melhor ponto de equilíbrio entre a incidência de cáries e a fluorose.”

Ação no Organismo

O papel dos fluoretos, provocando uma doença e combatendo outra, tem sua raiz no poder de atração que os íons de flúor exercem sobre os tecidos do corpo que contêm cálcio. De fato, mais de 99% dos fluoretos ingeridos, não excretados em seguida, vão para os ossos e os dentes. Eles inibem o aparecimento das cáries por dois mecanismos distintos: no primeiro, os fluoretos que entram em contato com o esmalte – a camada dura e branca que recobre a superfície do dente – incrustam se nas estruturas cristalinas da hidroxiapatita, o principal componente mineral dos dentes e dos ossos. Os íons flúor substituem alguns dos grupos hidroxila nas moléculas de hidroxiapatita do esmalte e isso torna os dentes mais resistentes à ação do ácido que dissolve o esmalte. Esse ácido é excretado pelas bactérias da boca, quando consomem os restos de alimentos. No segundo mecanismo, os fluoretos da superfície dos dentes funcionam como catalisadores que aumentam a deposição de cálcio e fosfato, facilitando a reconstituição dos cristais de esmalte pelo organismo, dissolvidos pela ação das bactérias.

Os fluoretos apresentam um efeito bem diferente quando altas doses são ingeridas por crianças cujos dentes permanentes estão se desenvolvendo e ainda não nasceram. As principais proteínas no início da formação dos dentes são as amelogeninas, cuja função é regular a formação dos cristais de hidroxiapatita. Quando se forma uma matriz de cristal, as amelogeninas decompõem-se e são removidas durante a maturação do esmalte. Mas quando algumas crianças consomem altas doses de fluoreto, absorvidas pelo trato digestivo e depois transportadas pela corrente sangüínea até os dentes em formação, os sinais bioquímicos falham.

As proteínas permanecem dentro do dente que está germinando por um período maior do que o normal, criando assim falhas na estrutura cristalina do esmalte. Como resultado, quando os dentes com fluorose finalmente irrompem, muitas vezes apresentam coloração desigual, com algumas partes mais brancas que outras – efeito visual provocado pela luz refratária que incide sobre o esmalte poroso. Nos casos mais graves a superfície dos dentes fica marcada por manchas marrons. Tanto a alimentação quanto a genética podem influir no desenvolvimento da fluorose, mas o fator mais importante, sem dúvida, é a quantidade de fluoreto ingerido.

Com verbas subvencionadas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Dental e Craniofacial, Levy resolveu determinar a quantidade de fluoreto que as crianças estavam consumindo e como isso estaria afetando seus dentes e ossos. Não há nenhum nível ótimo para a ingestão diária de fluoretos que seja universalmente aceito, ou seja, não há nenhum nível que maximize a proteção contra as cáries ao mesmo tempo que minimiza o risco de outras doenças. Mas o limite freqüentemente citado pelos pesquisadores varia de 0,05 a 0,07 mg de flúor por kg, de acordo com o peso da pessoa.

No início da década de 90, quando as crianças do estudo de Levy ainda eram bebês, ele descobriu que mais de um terço delas estava ingerindo fluoretos – principalmente via leite em pó, alimentos e sucos – em quantidade suficiente para colocá-las sob alto risco de desenvolver fluorose branda nos dentes permanentes. Essa quantidade diminuiu um pouco quando a alimentação das crianças mudou, no período em que começaram a caminhar – momento crítico para a formação do esmalte nos dentes pré-emergentes. A ingestão de fluoretos permaneceu alta nos bebês que entraram na fase de caminhar, em parte porque os cremes dentais substituíram o leite em pó suplementar como fonte de fluoretos. Embora tanto as crianças como os adultos supostamente eliminem o creme dental ao enxaguar a boca logo após a escovação, Levy descobriu, em seus primeiros estudos, que os bebês que estão aprendendo a andar ingerem metade da pasta de dente usada na escovação.

Na época em que as crianças de Iowa já estavam com 9 anos e seus dentes permanentes anteriores tinham surgido, era evidente que a primeira exposição aos fluoretos havia deixado as suas marcas. Os dentes da frente das crianças que entraram para grupo de alta ingestão de fluoretos como lactentes, ou quando aprenderam a andar, estavam duas vezes mais propensos a mostrar os sinais de fluorose em comparação aos das crianças que haviam ingerido menos fluoretos quando eram mais novas. E, quando a alimentação se tornou mais diversificada, o mesmo se deu com as fontes de fluoretos. Testes realizados no laboratório de Levy revelaram, por exemplo, que muitos tipos de sucos e bebidas gasosas contêm fluoretos em quantidade suficiente (geralmente 0,6 mg/L) para que a ingestão de pouco mais de 1 litro por dia seja equivalente ao normal de uma criança de 3 anos com nível ótimo de consumo de fluoretos, e isso sem levar em conta outras fontes do dia-a-dia.

Presença em Alimentos

Vários itens alimentares testados pela equipe de Levy continham altas concentrações de fluoretos: uma média de 0,73 mg/L no suco de mirtilo (fruta silvestre comum nos Estados Unidos), 0,74 mg/L em picolés, 0,99 mg/L no molho de carne e 2,1 mg/L no siri enlatado, por exemplo. Na maioria dos casos, os fluoretos vieram da água adicionada durante o processamento desses alimentos, embora altos níveis dessa substância também estivessem presentes em uvas e uvas-passas, graças aos pesticidas; nos produtos com carne de frango processada por causa da trituração das carcaças, e nas folhas de chá, devido à absorção através do solo e da água.

Levy descobriu que a exposição à água fluoretada foi mesmo o fator de risco mais importante para a fluorose. Em Iowa, crianças de 9 anos que viviam em regiões com água fluoretada eram 50% mais propensas à fluorose branda em, pelo menos, dois dos oito dentes permanentes da frente que crianças da mesma idade, mas de regiões com água não-fl uoretada (houve 33% de prevalência no primeiro caso contra 22% no segundo). Resultados semelhantes apareceram no relatório do NRC. Eles mostraram que bebês e crianças que estão começando a andar nas comunidades onde o suprimento de água foi fluoretado ingerem duas vezes mais fluoretos que deveriam. O comitê do NRC também notou que os adultos que consomem quantidades de água acima da média, incluindo atletas e trabalhadores, estavam também excedendo o nível ótimo de ingestão de flúor.

Com exceção dos casos mais graves, a fluorose não provoca maiores impactos à saúde, mas baixa a auto-estima das pessoas: as marcas nos dentes não são nada atraentes e não saem de jeito nenhum, embora haja tratamento para mascará-las. A questão mais importante é se os fluoretos têm outros efeitos além de alterar a bioquímica da formação do esmalte dos dentes. Pamela DenBesten, pesquisadora de longa data do fluoreto da Faculdade de Odontologia da University of Califórnia em São Francisco, avalia: “Sabemos que os fluoretos influenciam o modo como as proteínas interagem com o tecido mineralizado; assim, qual seria o efeito dessa interação em outras partes do organismo, em escala celular? O fluoreto é muito poderoso e precisa ser tratado com mais atenção”.

Fluoreto e Ossos

O osso é o local mais óbvio para procurar fluoretos, pois é lá que eles estão mais concentrados. Além disso, estudos de pacientes com osteoporose – doença óssea que aumenta o risco de fraturas – têm mostrado que altas doses de fluoretos podem estimular a proliferação dos osteoblastos, células responsáveis pela formação do osso, mesmo nos pacientes mais idosos. O mecanismo exato ainda é desconhecido, mas os fluoretos parecem fazer isso ao aumentar a concentração de proteínas tirosinas fosforiladas, envolvidas na sinalização bioquímica dos osteoblastos. Como no caso do esmalte dos dentes, entretanto, os fluoretos não apenas estimulam a mineralização dos ossos, como também parecem alterar sua estrutura cristalina – e nesse caso os efeitos não são apenas estéticos. Embora os fluoretos possam aumentar o volume do osso, a dureza desses órgãos fica comprometida. Estudos epidemiológicos e testes em animais de laboratório sugerem que a alta exposição ao fluoreto aumenta o risco de fratura óssea, especialmente nas populações mais vulneráveis, como idosos e diabéticos. Embora os estudos ainda sejam um tanto controversos, nove dos 12 membros do conselho criado pelo NRC concluíram que a exposição à água potável fluoretada a 4 mg/L ou mais, durante toda a vida, certamente aumenta o risco de fratura óssea. O comitê notou, também, que níveis mais baixos de fluoretação podem aumentar esse risco, mas as evidências são vagas.

Quando as crianças de Iowa entrarem na adolescência, Levy espera que as análises da resistência de sua espinha dorsal, quadris e de todo o esqueleto apontem para possíveis conexões entre a ingestão de fluoretos e a saúde dos ossos. Ele apresentou alguns dados preliminares em 2007 que mostraram poucas diferenças no conteúdo mineral dos ossos de crianças de 11 anos, com base na quantidade de fluoreto que haviam ingerido quando eram mais novas. Levy avalia que, na adolescência, essas tendências poderão se acentuar.

A maior questão relacionada ao debate sobre os fluoretos é se esses conhecidos efeitos celulares nos ossos e nos dentes são indícios de que o fluoreto está afetando outros órgãos e desencadeando outras doenças além da fluorose. O maior debate corrente é sobre o osteossarcoma – a forma mais comum de câncer ósseo e o sexto tipo de câncer mais comum em crianças. Pelo fato de os fluoretos estimularem a produção de osteoblastos, vários pesquisadores têm sugerido que isso pode induzir tumores malignos. Um estudo de 1990, conduzido pelo Programa de Toxicologia Nacional do Governo dos Estados Unidos, descobriu uma relação dose-resposta positiva para a incidência de osteossarcoma em ratos machos expostos a diferentes quantidades de fluoretos na água potável (todas essas quantidades, típicas para os estudos animais, estavam bem acima das atuais exposições descobertas nas comunidades onde a água foi fluoretada). Mas outros estudos com animais, bem como estudos epidemiológicos em populações humanas têm sido ambíguos na melhor das hipóteses.

Interpretações Científicas

A última contenda sobre fluoreto e osteossarcoma foi instigada por uma jovem pesquisadora chamada Elise B. Bassin, da Faculdade de Odontologia Médica da Harvard University. Elise coletou informações sobre exposição ao fluoreto entre 103 pacientes com osteossarcoma e 215 pacientes de um grupo-controle. Concluiu que o fluoreto é um fator de risco para o aparecimento de câncer entre os meninos, mas não entre as meninas. O trabalho de Elise apareceu em 2006 no periódico Câncer Causes and Controls; na mesma edição, Chester Douglas, orientador da sua dissertação, escreveu um comentário em que adverte os leitores para serem “especialmente cautelosos” na interpretação das descobertas de Elise, porque, segundo ele, os melhores dados ainda não haviam sido publicados, contrariando as conclusões a que ambos haviam chegado. Grupos antifluoretação e alguns grupos ambientais rapidamente se apressaram em defender Elise, exigindo que a Harvard investigasse Douglas, pesquisador sênior e chefe da cadeira de epidemiologia da Faculdade de Odontologia, por, supostamente, distorcer o trabalho de Elise e por ter um conflito de interesses, pelo fato de ser o editor-chefe de uma revista para dentistas, fundada pela Colgate. A investigação de Douglas, feita pela universidade, terminou em 2006 e chegou à conclusão de que não houve nenhuma distorção ou conflito de interesses.

Discordâncias sobre os possíveis efeitos neurológicos do fluoreto também têm sido intensas. Phyllis Mullenix, então do Instituto Forsyth em Boston, acirrou a controvérsia no início dos anos 90, quando relatou que experimentos com ratos de laboratório mostraram que o fluoreto de sódio pode se acumular no cérebro e afetar o comportamento animal. Ela notou também que exposições pré-natais se correlacionam com a hiperatividade em ratos jovens, especialmente machos, enquanto exposições após o nascimento têm efeito contrário, tornando as ratas “preguiçosas”, nas palavras de Phyllis. Embora sua pesquisa tenha sido publicada no Neurotoxicology and Teratology, ela foi criticada por outros cientistas que afirmaram que a sua metodologia era falha e que ela tinha usado altas dosagens. Desde então, uma série de estudos epidemiológicos na China tem associado altas exposições aos fluoretos com baixo QI. Algumas pesquisas têm também sugerido um possível mecanismo para explicar essa associação: a formação dos complexos de fluoreto de alumínio – pequenas moléculas inorgânicas que imitam a estrutura dos fosfatos e, desse modo, influenciam a atividade enzimática no cérebro. Há, também, alguma evidência de que os silicofluoretos usados na fluoretação da água possam aumentar a absorção do chumbo no cérebro.

O sistema endócrino é outra área em que existe evidência do impacto do fluoreto. O comitê do NRC concluiu que o fluoreto pode alterar sutilmente as funções endócrinas, especialmente na tireóide – glândula que produz os hormônios que regulam o crescimento e o metabolismo. Embora os pesquisadores não saibam como o consumo de fluo reto pode provocar alterações na tireóide, os efeitos parecem estar influenciados pela dieta e pela genética. De acordo com John Doull, professor emérito de farmacologia e toxicologia do Centro Médico da University of Kansas, que preside o comitê do NRC, “as alterações na tireóide me preocupam. Há algumas coisas aqui que precisam ser exploradas”.

A Controvérsia Continua

A publicação do relatório do NRC não provocou pânico coletivo contra a fluoretação da água, nem induziu a EPA a, rapidamente, baixar seu limite de fluoreto de 4 mg/L (a agência diz que ainda está estudando o assunto). Os fornecedores de água que adicionam fluoreto normalmente mantêm os níveis entre 0,7 e 1,2 mg/L, bem abaixo do limite da EPA. Cerca de 200 mil americanos e milhões de pessoas na China, Índia, Oriente Médio, África e Sudeste Asiático – bebem água com concentrações mais altas que o limite, mas nesses casos os excessos de fluoreto vêm de fontes naturais, das rochas e dos solos que abrigam as fontes de água.

O relatório, entretanto, motivou alguns pesquisadores a investigar se mesmo 1 mg/L é muito para a água potável, levando em conta o crescente reconhecimento de que alimentos, bebidas e produtos de higiene bucal são, também, fontes muito importantes de fluoretos, principalmente para crianças pequenas. O comitê do NRC não tratou formalmente a questão, mas sua análise sugere que níveis muito baixos de fluoretação da água podem apresentar riscos. “O comitê constatou que viemos mantendo o statu quo dos fluoretos por muitos e muitos anos, e agora precisamos lançar um novo olhar sobre essa questão”, considerou Doull. “Na comunidade científica, as pessoas tendem a pensar que isso já é assunto acabado. Eu entendo quando o chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos [equivalente a ministro da Saúde] vem a público declarar que foi uma das dez maiores realizações do século 20, que dificilmente será superada. Mas quando olhamos para os estudos que têm sido realizados, descobrimos que muitas dessas questões ainda não estão bem fundamentadas e que temos muito menos informações que pensávamos, levando em conta esse tempo todo de fluoretação. Acho que é por isso que essa prática ainda vem sendo desafiada, mesmo passados todos esses anos. Diante das dúvidas, as controvérsias se alastram.”

Alguns dos mais antigos pesquisadores do fluoreto, no entanto, não se deixaram impressionar pelas evidências dos efeitos dessa substância que vão além dos dentes e dos ossos.

CONCEITOS-CHAVE
- Pesquisadores estão intensificando os seus estudos sobre o fluoreto adicionado à maioria dos sistemas de água públicos dos Estados Unidos. Pesquisas recentes sugerem que o consumo em excesso de fluoreto pode aumentar os riscos de doenças que atacam os dentes, os ossos, o cérebro e a glândula tireóide.

- Relatório de 2006 feito por um comitê do Conselho Nacional de Pesquisa (NRC) recomenda a diminuição do limite atual para a concentração de fluoreto na água, por causa dos altos riscos para a saúde das crianças e dos adultos.
– Os editores

[TENDÊNCIAS] ÍNDICES DE FLUORETAÇÃO

A fluoretação da água espalhou-se pelos Estados Unidos desde a introdução em 1945. Em 2002, o ano mais recente com dados disponíveis, os americanos que receberam água fluoretada representaram 67% de todas as pessoas abastecidas pelos sistemas de água públicos e 59% do total da população. A fluoretação da água prevalece nos distritos de Colúmbia (100%) e Kentucky (99,6%); sendo menos comum no Havaí (8,6%) e em Utah (2,2%). No Brasil, de um total de 5.507 municípios, 2.466 recebem água fluoretada, atendendo a 53% da população, equivalente a 100 milhões de pessoas. A primeira cidade brasileira a receber água tratada com flúor foi Baixo Guandu (ES), em 1953, para diminuir a incidência de cáries, principalmente entre as crianças.

[EFEITO NOS DENTES] PROTEÇÃO CONTRA CÁRIES

O papel dos fluoretos no combate às cáries tem suas raízes no poder de atração dos íons flúor ao esmalte, a camada dura e branca que recobre os dentes.

Sem fluoreto
O mineral primário do esmalte é a hidroxiapatita, cristal composto de cálcio, fósforo, hidrogênio e oxigênio. Quando restos alimentares se depositam entre os dentes, as bactérias consomem o açúcar e excretam ácido lático, que pode abaixar o pH da boca o suficiente para dissolver a hidroxiapatita. Se a taxa de dissolução é mais rápida do que a taxa de remineralização – a deposição de íons cálcio e fosfato no esmalte, a partir da saliva –, então as cáries se formarão nos dentes.

Com fluoreto
A aplicação local de fluoreto nos dentes tem dois efeitos. Primeiro, os íons flúor substituem alguns dos grupos hidroxila das moléculas de hidroxiapatita, criando cristais de fluorapatita, que são um pouco mais resistentes ao ácido excretado pelas bactérias. Segundo, o fluoreto na superfície dos dentes serve como catalisador que intensifica a deposição de cálcio e fosfato, remineralizando o esmalte danificado e combatendo a cárie.

Debatendo os Efeitos
Os centros para Controle e Prevenção de
Doenças dos Estados Unidos avaliaram a fluoretação como uma das dez maiores realizações da saúde pública do século 20, ao afirmar que a adição dessa substância à água potável tem sido uma das principais razões para o declínio da incidência de cárie das últimas quatro décadas (medida pelos dentes cariados, faltantes ou obturados, em crianças com 12 anos). Porém, as taxas de dentes cariados também caíram abruptamente em muitos países onde os sistemas de água públicos não são fluoretados. Em algumas dessas nações, fluoretos adicionados aos alimentos, bebidas e produtos de higiene bucal podem ter contribuído, em parte, para esse declínio.

[ZONA DE PERIGO] O FLUORETO ENFRAQUECE OS OSSOS?

Cientistas têm voltado sua atenção para os efeitos do fluoreto nos ossos, já que grande parte dessa substância fica estocada neste tecido. Estudos têm mostrado que altas doses de fluoreto podem estimular a proliferação dos osteoblastos, células responsáveis pela formação do osso, com medo de que isso possa induzir a formação de tumores malignos. Os fluoretos também parecem alterar a estrutura cristalina do osso, possivelmente aumentando o risco de fraturas.

SINAIS DE FLUOROSE

Quando as crianças muito novas consomem grandes quantidades de fluoretos, essa substância pode atrapalhar o desenvolvimento de seus dentes permanentes. Quando os dentes emergem, o esmalte pode ficar descolorido (acima) ou, nos casos mais graves, desfigurado (abaixo). Pesquisadores descobriram que essa condição, chamada de fluorose dental, é mais comum nas comunidades onde a água potável é fluoretada.

[CONHECIMENTO BÁSICO] HISTÓRIA DO FLUORETO

Os riscos do fluoreto já eram conhecidos bem antes dos seus benefícios. Partindo na primeira década do século 20, um dentista chamado Frederick McKay viajou o oeste dos Estados Unidos investigando relatos do que ficou conhecido então como Colorado brown stain (Manchas marrons do Colorado). Com a colaboração de G. V. Black, da Northwestern University Dental School, McKay descobriu que as crianças nascidas em Colorado Springs, no Colorado, tinham dentes maculados, ao contrário dos adultos que se mudaram para lá. Eles consideraram que as crianças mais novas, cujos dentes permanentes ainda não haviam irrompido ou desenvolvido esmalte, enfrentavam os maiores riscos de desenvolver as manchas. McKay, que considerou que as máculas eram provocadas por algum componente desconhecido da água potável local, também notou um fato curioso: os dentes manchados eram surpreendentemente resistentes à cárie.

As causas permaneceram desconhecidas até 1930, quando McKay viajou para o Arkansas para investigar relatos de dentes manchados em Bauxita, cidade mantida pela Aluminum Company of America (Alcoa). Com receio de que o alumínio pudesse ser o culpado, o químico-chefe da Alcoa, H. V. Churchill, testou a água local e descobriu algo que McKay nunca havia suspeitado: altos níveis de fluoreto que ocorriam naturalmente. McKay rapidamente testou outros suprimentos de água suspeitos e descobriu que em todo lugar em que os níveis de fluoreto eram altos – normalmente 2,5 mg/L ou mais – as manchas marrons do Colorado predominavam. Uma nova doença entrava para o léxico: fluorose.

Estimulado pelas descobertas de Churchill e McKay, Henry Trendley Dean, pesquisador e chefe da unidade de higiene bucal do Instituto Nacional de Saúde, tentou determinar quanto fl uoreto seria sufi ciente para desencadear fluorose. No final dos anos 30 ele havia concluído que níveis abaixo de 1 mg/L provocariam pouco risco. Dean lembrou que McKay havia descoberto que os dentes fl uoretados eram resistentes às cáries, e, assim, começou a lutar para que se fizesse um teste, em uma cidade, de um método que viria a ser revolucionário: adicionar fluoreto deliberadamente à água, em níveis que deteriam as cáries sem desencadear fluorose. Ele realizou seu projeto em 1945, na cidade de Grand Rapids, Michigan. Assim, Dean veio a se tornar o principal defensor da fluoretação como primeiro diretor do novo Instituto Nacional de Pesquisa Dental, cargo que presidiu de 1948 até se aposentar, em 1953. – D. F.

PARA CONHECER MAIS
Patterns of fluoride intake from birth to 36 months. Steven M. Levy, John J. Warren, Charles S. Davis, H. Lester Kirchner, Michael J. Kanellis e James S. Wefel, em Journal of Public Health Dentistry, vol. 61, no 2, págs. 70-77, junho de 2001.

Patterns of fluoride intake from 36 to 72 months of age. Steven M. Levy, John J. Warren e Barbara Broffitt, em Journal of Public Health Dentistry, vol. 63, no 4, págs. 211-220, dezembro de 2003.

Timing of fluoride intake in relation to development of fluorosis on maxillary central incisors. Liang Hong, Steven M. Levy, Barbara Broffi tt, John J. Warren, Michael J. Kanellis, James S. Wefel e Deborah V. Dawson, em Community Dentistry and Oral Epidemiology, vol. 34, no 4, págs. 299-309, agosto de 2006.

Age-specific fluoride exposure in drinking water and osteosarcoma. Elise B. Bassin, David Wypij, Roger B.Davis e Murray A. Mittleman, em Cancer Causes and Control, vol. 17, págs. 421-428, maio de 2006.

Caution needed in fluoride and osteosarcoma study. Chester W. Douglass e Kaumudi Joshipura, em Cancer Causes and Control, vol. 17, págs. 481-482, maio de 2006.

Fluoride in drinking water: a scientific review of EPA’s standards. National Academy of Sciences, 2006. Disponível no www.nap.edu/catalog.php?record_id=11571

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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A luta que mudou o destino das metrópoles

Em O Mapa Fantasma, Steven Johnson mostra como um devastador surto do cólera em Londres orientou novas metodologias

Ubiratan Brasil

O escritor americano Steven Johnson estava no cinema assistindo ao filme Seabiscuit - Alma de Herói, em 2003, quando teve o famoso estalo - durante a projeção, ele descobriu o tema de seu próximo livro. “E, em dois minutos, eu já tinha formatado todo o projeto na minha cabeça”, lembrou Johnson, ainda entusiasmado. Com a infindável silhueta de edifícios de São Paulo ao fundo, ele conversou com o Estado na manhã de quinta-feira, na cobertura do hotel onde ficou hospedado.
Referência quando o assunto é cibercultura, Johnson esteve na cidade participando da Campus Party, um encontro entre interessados por tecnologia. E ontem ele era esperado em Porto Alegre, convidado da Conferência Mundial sobre Desenvolvimento de Cidades. Assuntos aparentemente distantes, que Johnson consegue unir com naturalidade. “O que me fascina é o poder das grandes metrópoles em descobrir soluções para os problemas que elas mesmas criam.”
A frase é a pista para falar sobre O Mapa Fantasma (276 páginas, R$ 40, tradução de Sérgio Lopes), que a Jorge Zahar Editor lança nesta semana. “Foi a imagem de uma região específica de Londres, a Broad Street, que me veio à mente quando estava no cinema”, comenta Stevenson, que trata, no livro, de um grave problema sofrido pela capital inglesa, no século 19.
A história começa no dia 28 de agosto de 1854, época em que Londres acomodava, naquela região e em um reduzido espaço, as classes baixas, que totalizavam no mínimo cem mil pessoas. Eram catadores de ossos, de fezes, exploradores de esgoto, limpadores de fossa e varredores da costa, entre outros, todos vivendo em condições totalmente anti-higiênicas. Pois foi naquele dia, às seis horas da manhã, que um bebê de seis meses começou a vomitar e a expelir fezes esverdeadas e aquosas. Enquanto aguardava a vinda do médico, sua mãe lançou a água com que lavou as fraldas na fossa que havia em frente à sua casa.
“Foi assim que tudo começou”, conta Stevenson. “A menina estava contaminada pela bactéria do cólera, que se alastrou pela água.” Em pouco tempo, os habitantes daquela região, o bairro do Soho, começaram a sentir uma estranha agitação, acompanhada por um ligeiro desarranjo intestinal. A epidemia rapidamente se alastrava, tornando-se a mais mortal das pragas que assolaram a cidade de Londres, dizimando mais de 10% da população daquele bairro, ou seja, quase 700 pessoas, no curto período de oito dias.
“Havia uma crença completamente errônea de que a doença se propagava pelo ar e foi somente graças a dois homens, o médico epidemiologista John Snow e o reverendo Henry Whitehead, que se chegou à devida conclusão: o contágio era feito pela água.” Até lá, a região transforma-se em verdadeiro campo de horror, com as mortes se acumulando dia a dia. A grande sacada de Johnson foi fazer uma dedicada pesquisa, que permitiu recuperar detalhes daquela batalha que durou praticamente uma semana.
Segundo ele, o caminho começou a ser descoberto quando Snow decidiu mapear a área onde a doença atacava, destacando os pontos onde a mortandade imperava. Foi graças a essa medida que o médico conseguiu convencer as autoridades de que o problema estava na água. “Na verdade, foi por meio desse mapa e de seu brilhante raciocínio que Snow chegou até a origem do problema, ou seja, a casa onde vivia a bebê contaminada, localizada próxima à bomba d’água que alimentava a região.”
Mesmo assim, o médico e o reverendo enfrentaram mais dificuldades ao tentarem convencer os moradores de que os cadáveres recém enterrados não deveriam repousar próximos das fontes de água. A atitude corajosa figura, até hoje, como um dos mais eficazes exemplos de ação sanitária da história da saúde pública.
E Stevenson consegue contar essa história com rara maestria. Utilizando as técnicas de um romance de suspense, ele conquista a atenção do leitor ao unir dados científicos com uma narrativa absorvente, detalhando o fracasso das pessoas que sucumbem por conta da doença. “Minha intenção era concentrar a história em quatro protagonistas: uma bactéria letal, uma metrópole como Londres, e dois homens que, embora diferentes, eram muito talentosos.”
Dotados de uma mente aberta e investigativa, Snow e Whitehead triunfaram não apenas por seus conhecimentos, mas também por um certo diletantismo engajado. “Eles desempenharam um pequeno, mas definitivo, papel na transformação das grandes cidades: ao solucionarem o mistério local, Snow e Whitehead permitiram uma série de soluções globais”, acredita Stevenson. “Muitos dos tópicos que definem o mundo moderno atual - o crescimento desmesurado das cidades, crises no meio ambiente, temor por epidemias apocalípticas, necessidade de água pura - estão, de forma embrionária, na epidemia que atacou a Broad Street.”
Sobre isso, Stevenson pretendia falar ontem, em Porto Alegre. Afinal, para ele, os desafios globais não são necessariamente uma crise do capitalismo. “No passado, enfrentamos crises igualmente terríveis. O desafio, agora, é não enfrentar as atuais às custas da vida de milhões de pessoas.”

Estado de S. Paulo

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Pequenos editores, grandes ambições

Editoras e mídias alternativas surgem como contraponto aos grandes conglomerados da imprensa. Uma maneira de inverter a postura panfletária, acrítica e maniqueísta da mídia oficial, propondo uma visão pluralista e independente

André Schiffrin

Antes mesmo do ataque contra o Afeganistão, a secretária de Estado Condolezza Rice convocou os responsáveis pelas redes de televisão norte-americanas para comunicar que o governo não queria ver civis feridos em suas programações. Consciente da imensa influência que esse tipo de informação tivera na construção de um movimento de oposição à guerra do Vietnã, a administração de George W. Bush quis estabelecer um sistema de autocensura, que funcionou perfeitamente nos dois primeiros anos da guerra, enquanto a imprensa aceitou as mentiras do governo.

Essa colaboração implicou não somente as mídias, mas também o mundo editorial. Nenhuma das editoras pertencentes aos grandes conglomerados – os cinco mais importantes controlam 80% dos livros destinados ao grande público – lançou uma única obra crítica sobre a guerra e a política estrangeira de Bush. Se vários livros foram publicados, isso se deu pelas pequenas editoras independentes – sendo a escolha editorial dos grandes conglomerados determinada mais por razões políticas do que comerciais. De fato, existia um imenso público antiBush. Assim, quando a modesta editora Seven Stories lançou o pequeno livro de Noam Chomsky após o 11 de setembro, foram vendidos 300 mil exemplares, um recorde, em apenas algumas semanas. [1]

Quando a situação política começou a se deteriorar, os principais jornais e as grandes editoras finalmente decidiram publicar as inúmeras obras críticas que se tornaram best-sellers.

A importância dos editores e das revistas independentes é clara. A maneira como surgem e se mantêm em atividade não é tão evidente. Seu número aumentou de maneira impressionante nos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na França, um recente encontro reuniu dezenas de pequenas editoras alternativas, a maioria editoras de literatura e poesia, mas também alguns editores políticos. [2] Estes últimos desempenham um papel cada vez mais importante, pela escolha de autores e temas considerados muito arriscados pelas grandes editoras. [3] Eles também foram os primeiros a publicar autores como Chomsky, o historiador norte-americano Howard Zinn (Agone) ou os teóricos Judith Butler e Stuart Hall (Amsterdam).

Esse é um fato que diz muito sobre a indústria editorial francesa: ultimamente, várias obras indispensáveis tiveram de ser publicadas na Bélgica. Os leitores do Monde diplomatique conhecem muito bem a saga de Eric Hobsbawn e sua história do século XX, A era dos extremos, cujo original publiquei nos Estados Unidos em 1990 e que fora traduzido em dezenas de línguas menos em francês. Os grandes editores estavam convencidos de que não haveria lugar nas livrarias da França para o trabalho de um antigo comunista; na Gallimard, até mesmo Pierre Nora reconheceu isso. Foi somente após a intervenção do “Diplo” que uma editora belga Complexe se interessou pelo livro e o transformou num best-seller [4]. Uma história que se assemelha à da nossa recente coleção dos discursos de Chomsky, Understanding Power. Apesar da venda de quase 100 mil exemplares nos EUA, não estávamos conseguindo encontrar um editor francês, até que uma pequena editora independente belga, Aden, finalmente se propôs a publicá-lo. [5]

Um sinal particularmente encorajador: duas editoras francesas se lançam na publicação de revistas neste final de ano. A Amsterdam publicará La Revue Internationale des Livres et des Idées, tentando assim uma versão francesa da London Review of Books. Por sua vez, a Les Arènes prepara uma revista em formato de livro que apresentará reportagens originais de vários repórteres cujos jornais não dão mais espaço para longos artigos de análise. Essas novas publicações encontrarão as mesmas dificuldades de distribuição e financiamento que todas as pequenas editoras, mas seu surgimento marca o início de uma etapa promissora.

A grande vantagem dessas pequenas editoras é que elas não precisam de um grande capital. Talvez os grupos poderosos tenham acesso a somas milionárias, mas um ótimo catálogo pode ser viabilizado com alguns milhares de euros. Bastam um ou dois mil euros para imprimir uma pequena tiragem, que com um pouco de sorte será rentabilizada em um período relativamente curto. Durante séculos, a edição de livros foi principalmente artesanal, e ainda pode funcionar dessa maneira.

A maioria das pequenas editoras sobrevive remunerando muito mal a sua equipe – todos os empregados da Agone recebem o Smic (salário-mínimo) – ou não pagando o editor ou o redator-chefe – é o caso da editora dos meus primeiros livros traduzidos na França, La Fabrique. Essa situação além de não ser ideal não pode durar indefinidamente. Mas isso significa também que o auxílio de que um editor independente necessita pode ser relativamente modesto. Vários modelos foram experimentados através do mundo. O mais conhecido talvez seja o da Raisons d’Agir, criada por Pierre Bourdieu quando suas pesquisas sobre a indústria da edição mostraram que as maiores editoras colocavam sérios limites à sua produção política e intelectual. No começo, Bourdieu instalou sua pequena editora em seu escritório no Collège de France, tendo como equipe somente um assistente e ele próprio. Apesar disso, muitos livros publicados venderam muito bem, alguns até mesmo centenas de milhares de exemplares. A utilização do espaço universitário – e de um salário de professor – também foi aplicada em outros lugares com excelentes resultados. Quando criamos a The New Press, nos ofereceram escritórios em um dos prédios mais decrépitos da Universidade da Cidade de Nova York, o que possibilitava a economia de centenas de milhares de dólares de um aluguel que não poderíamos pagar. Não há qualquer razão para que outras universidades não possam dividir dessa maneira os seus espaços. Até mesmo pequenas cidades doaram prédios de escolas desafetadas a alguns editores, mostrando assim que as municipalidades progressistas podem ter um gesto, mesmo quando os governos nacionais não estão dispostos.

Em Estocolmo, Ordfront propõe um outro modelo interessante. Esse grupo organizou uma cooperativa de leitores de aproximadamente 30 mil membros, que pagam anualmente uma modesta cota de 20 Euros, que lhes dá direito a assinatura de uma das melhores revistas suecas, possibilitando à editora Ordfront a publicação de dezenas de títulos a cada ano. Basta que 10% dos membros comprem um livro, e as despesas são amortizadas. Essa experiência se revelou bem mais convincente que as cooperativas de autores experimentadas na Suécia e na Alemanha, que acabaram em meio a rivalidades e ciúmes.

Um último modelo possível é o o que seguimos quando deixei a Pantheon Books, editora que dirigi por aproximadamente 30 anos, em Nova York. Perante as crescentes exigências de rentabilidade por parte do novo grupo proprietário, decidi que uma editora sem fins lucrativos seria a única maneira de continuar sem comprometer a qualidade intelectual. [6] Na realidade, criamos o equivalente a uma imprensa universitária sem universidade, o que nos permitiu visar um público mais amplo. Este ano, a The New Press comemora seu 15º aniversário, com cerca de 80 títulos publicados por ano. Muitos foram os que, no meio editorial nova-iorquino, acreditavam num fracasso… Mas nós comtamos com o excepcional apoio da maioria dos autores que publiquei e com uma ajuda substancial de um grande número de fundações norte-americanas mais esclarecidas, que há muito tempo compreenderam que, nos EUA, a atividade cultural, a música, a dança, o teatro e até mesmo a televisão inteligente não poderiam sobreviver num contexto capitalista, e quiseram estender essa lógica ao mundo editorial.

O que é possível nos EUA nem sempre é possível em um outro lugar. No entanto, esse gênero de financiamento já auxilia alguns dos melhores jornais europeus. Na Inglaterra, o The Guardian e sua edição dominical, The Observer, pertenceram por muito tempo a uma fundação (The Scott Trust), bem como o alemão Frankfurter Algemeine Zeitung e a maior parte dos jornais dinamarqueses.

O fato que jornais e editoras de livros pertençam a fundações independentes, sem fins lucrativos, ou a cooperativas pode se revelar o meio mais promissor de preservar uma autonomia política e cultural. Essa solução poderia ter evitado que importantes editoras como Le Seuil e Einaudi fossem vendidas a conglomerados cujo principal objetivo é o aumento do seu lucro (durante séculos, o meio editorial ocidental conheceu uma taxa de lucro anual de 3% a 4%; os grandes conglomerados desejam pelo menos 10%, ou até mesmo 15%, o que altera completamente a natureza do que pode ser publicado). [7]

O filósofo alemão Jürgen Habermas escreveu recentemente um texto conclusivo propondo estender essa solução ao mundo da imprensa. [8] Observando que o mais importante jornal alemão de centro-esquerda, o SüddeutscheZeitung, poderia ser vendido a um conglomerado, ele defende a idéia de uma compra realizada por uma fundação de Estado. Essa perspectiva aparentemente não foi aceita na Alemanha, país que tem tristes lembranças do controle estatal. Mas os exemplos bem-sucedidos da Arte (com a Alemanha) e da France Culture ilustram bem a possibilidade de se pôr em prática um apoio governamental para as mídias. Da mesma forma, na França, a indústria cinematográfica e vários cinemas se beneficiaram durante anos de subvenções consideráveis sem, por isso, terem sofrido qualquer censura. Nos países ocidentais, o rádio e a televisão foram em um primeiro momento considerados como tendo um importante papel intelectual e cultural a desempenhar. Nos EUA, até mesmo um presidente conservador como Herbert Hoover decidiu que todas as estações de rádio deveriam ser instaladas em universidades para evitar o controle comercial. As receitas da BBC vêm de um imposto sobre todos os aparelhos de rádio (e agora de televisão) que vai diretamente para os seus cofres, impedindo o controle governamental. Uma quantia que representa atualmente cerca de 200 euros por residência. Por que tais métodos não poderiam ser aplicados no apoio a jornais e editores independentes? Uma taxa sobre as receitas publicitárias ou outras poderia ser estabelecida para garantir a estabilidade econômica das mídias que tentam existir sem publicidade.

Habermas defende com eloqüência que a vitalidade do debate democrático depende da capacidade de intervenção do governo para garantir que uma pluralidade de opiniões seja acessível a um público amplo. Mesmo nos EUA, tais questões podem mobilizar a opinião pública. No âmbito de uma campanha conduzida por organizações não governamentais tanto de esquerda como de direita, mais de 3 milhões de cartas foram enviadas ao Congresso para protestar contra os planos de Bush, que queria dar mais poder aos grandes conglomerados. As pequenas editoras de livros e revistas aqui citadas lutam de forma corajosa contra situações econômicas difíceis, que poderiam muito bem, a longo prazo, obrigar um certo número delas a abandonar a luta. Por que essas empresas com recursos tão limitados não poderiam ser mantidas por uma ação legislativa?

O Estado francês ajuda as novas empresas responsabilizando-se pela metade dos empréstimos necessários para que elas iniciem as atividades. Neste momento, esse apoio não se aplica nem às cooperativas nem às fundações. Mas nenhuma editora se recusaria a ser adquirida por um proprietário desse gênero, sem fins lucrativos, que lhe permitiria prosperar tranqüilamente. Tal possibilidade teria permitido aos diretores da Seuil uma outra escolha; idem para os acionistas do jornal alemão Süddeutsche [9] (nos dois casos, trata-se de empresas familiares, o que é muito comum no mundo editorial). O aumento do controle das mídias pelos conglomerados tem conseqüências políticas e intelectuais perigosas. Ainda é tempo de inverter essa ameaça global.

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[1] Noam Chomsky. Power and Terror: Post-9/11. Talks and Interviews. Nova York: Seven Stories Press, 2003.

[2] Os primeiros Encontros da Edição Européia Independente [Rencontres de l’édition européenne indépendante] aconteceram de 31 de maio a 1º de junho, em Lurs et Forcalquier (Alpes de Haute Provence), por iniciativa de Editer en Haute Provence (Le Grand Carré, avenue des Martyrs de la résistance, 04300 Forcalquier; editerhauteprovence@free.fr).

[3] Principalmente Agone, em Marselha (atheles.org/agone), e Arènes (arenes.fr), bem como Amsterdam (editionsamsterdam.fr), em Paris, cujo papel foi essencial. Uma nova editora, Demopolis, dará os seus primeiros passos no fim deste ano.

[4] Eric Hobsbawn. L’Age des extrêmes. Bruxelas-Paris : Complexe / Le Monde diplomatique, 2003.

[5] Noam Chomsky, Comprendre le pouvoir. Bruxelas : Aden, 2006.

[6] Ler a narrativa dessa experiencia em André Schiffrin. L’Edition sans éditeurs. Paria : La Fabrique, 1999.

[7] Ler André Schiffrin. Le Contrôle de la parole. Paris : La Fabrique, 2005.

[8] Le Monde, 22 de maio de 2007.

[9] Mesmo sendo um jornal da Bavária, o Süddeutsche Zeitung é um dos três maiores jornais diários da Alemanha

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Agricultura acelerou a evolução humana

Análise de padrões comuns de variação genética revela que os humanos têm evoluído mais rapidamente na história recente

David Biello

O Homo sapiens sapiens se espalhou pelo globo e aumentou esmagadoramente em número nos últimos 50 mil anos – de estimados cinco milhões de pessoas em 9.000 a.C. para os cerca de 6,5 bilhões de hoje. Um número maior de pessoas significa mais oportunidades para que as mutações cheguem despercebidas ao genoma humano básico, e novas pesquisas confirmam que nos últimos 10 mil anos assistiram a uma série de mudanças em tudo, da digestão aos nossos ossos.

“Descobrimos muitos genes humanos passando por uma seleção”, explica o antropólogo Gregory Cochran, da University of Utah, membro da equipe que analisou 3,9 milhões de genes que demonstraram uma variação maior. “A maioria é muito recente, o que indica que o ritmo da evolução humana nos últimos milhares de anos é muito mais veloz que nos últimos milênios”.

“Acreditamos que isso possa ser explicado por um aumento no poder da seleção à medida que os humanos se tornaram agricultores – uma grande mudança ecológica –, e houve uma grande elevação no número de mutações favoráveis à medida que a agricultura levou a um aumento populacional”, ele afirma.

Há cerca de 10 mil anos, a humanidade passou pela transição de uma vida de caçadores e coletores para o plantio de alimentos e a domesticação de animais. Como isso concentrou as populações, doenças como a malária, a varíola e a tuberculose, entre outras, se tornaram mais virulentas. Ao mesmo tempo, a nova alimentação com base na agricultura impôs seus próprios desafios – incluindo a deficiência de ferro no organismo devido à falta de carne, além das cáries e uma estatura mais baixa por causa da má alimentação, explica o antropólogo John Hawks, da University of Wisconsin–Madison, outro membro do grupo.

“O corpo e os dentes dessas pessoas encolheram, assim como seu cérebro”, ele completa. “No entanto, elas começaram a apresentar novos alelos (formas alternativas de genes), que os ajudaram a digerir os alimentos com maior eficiência. Os novos alelos protetores permitiram a uma fração da população sobreviver melhor às terríveis doenças.”

Ao observar as fileiras de material genético que mudavam pouco de pessoa para pessoa dentro dessas seções de grande variação, os pesquisadores identificaram regiões que apareceram recentemente e conferiam algum tipo de vantagem (porque se tornaram comuns rapidamente). Por exemplo, o gene conhecido como LCT deu aos adultos a capacidade de digerir leite, enquanto o G6PD ofereceu algum tipo de proteção contra a malária causada pelo parasita Plasmodium falciparum.

“Há dez mil anos, ninguém no planeta tinha olhos azuis”, ressalta Hawks, pois esse gene – OCA2 – ainda não tinha se desenvolvido. “Somos diferentes das pessoas que viveram 400 gerações atrás em maneiras muito óbvias, visíveis a olho nu.”

A comparação da quantidade de diferenciação genética entre os humanos e nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, indica que o ritmo das mudanças foi acelerado entre 10 e 100 vezes, relatam os pesquisadores no Proceedings of the National Academy of Sciences USA.

Mas nem todas as populações demonstram a mesma “velocidade evolutiva”. Os africanos, por exemplo, mostram um ritmo um pouco mais lento de mutação. “Os africanos não tiveram que se adaptar a um clima muito diferente”, já que a humanidade evoluiu onde eles moram, explica Cochran. “Europeus e asiáticos do Leste, por sua vez, vivem em ambientes muito diferentes daquele de seus ancestrais africanos e primeiros agricultores, e eram mal-adaptados a eles”.

Esse ritmo acelerado de evolução não diminuirá até que toda mutação benéfica possível comece a acontecer – no ritmo máximo de adaptação. Isso já começou a ocorrer em algumas regiões com a cor da pele: grupos diferentes de genes são responsáveis pela tez mais clara de europeus e asiáticos do Leste, de acordo com os pesquisadores.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Uma marca marxista

Guilherme Bryan

Caio da Silva Prado Júnior, filho de aristocrática e tradicional família paulistana, teve como dois momentos importantes de sua vida uma viagem à União Soviética e à então denominada “Cortina de Ferro” (formada por Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária e Romênia, entre outros) e quando embrenhou pelo interior do Brasil, indo a lugares como o Triângulo Mineiro e Goiás.

No ano de seu centenário de nascimento - nasceu em São Paulo em 11 de fevereiro de 1907 -, Caio Prado Júnior continua respeitado como um dos principais responsáveis pela renovação da historiografia e das ciências humanas brasileiras. Essa inovação veio quando o historiador começou a procurar uma explicação diferenciada da sociedade colonial brasileira por meio da teoria marxista. Um de seus preceitos era que não lhe interessava saber datas e dinastias, mas conhecer a produção, o movimento dos negócios, as técnicas de plantio, o mecanismo de transmissão da propriedade etc.

Com relação à história brasileira, Caio Prado considerava que o caráter colonial, que teve como período “síntese” o início do século 19, permanecia na estruturação da sociedade brasileira na primeira metade do século 20. “A obra de Caio Prado Júnior representa um caso bem sucedido de ‘nacionalização’ do marxismo, o qual entendeu principalmente como uma abordagem, que deveria servir de instrumento para analisar as particularidades constitutivas de diferentes formações sociais. Com isso, não procurou feudalismo onde não havia - como fazia a maior parte da esquerda brasileira - mas se esforçou para entender a singularidade da experiência histórica do Brasil. Nessa perspectiva, chamou a atenção para o ’sentido da colonização’: produzir, em grandes unidades trabalhadas pelo braço escravo, bens demandados pelo mercado mundial capitalista então em constituição. A partir daí, inaugurou uma nova linha de interpretação do Brasil e da América Latina, que se faz sentir inclusive nos trabalhos de Celso Furtado e da teoria da dependência”, avalia o historiador Bernardo Ricupero, autor do livro Caio Prado Júnior e a nacionalização do marxismo (2000).

Entre suas principais obras estão Evolução política do Brasil, de 1933, uma análise marxista e materialista da história nacional; História econômica no Brasil, de 1945, interpretação da formação econômica nacional desde o período colonial até a época de publicação do livro; e A revolução brasileira, de 1966, uma análise dos rumos do país após 1964, que lhe rendeu o prêmio de Intelectual de 1966, concedido pela União Brasileira dos Escritores.

“Nota-se em seu trabalho, principalmente em Formação do Brasil contemporâneo (1942), contribuições teóricas no que se refere à elaboração da complexidade da inter-relação entre fatores externos (ligados à dependência do Brasil em relação ao mercado mundial, e, portanto, à tese do ’sentido da colonização’) e internos; à consideração da possível reciprocidade das relações entre fatores econômicos, sociais, políticos e culturais (ou seja, embora aceite a tese da determinação última pela base econômica, ele vê a relação com os fatores culturais e sociais como complexa, muitas vezes de mão dupla, não como epifenômenos); ao aprofundamento da visão da diversidade temporal das reações à temporalidade cíclica do ’sentido da colonização’, e, conseqüentemente, à necessidade de estudo dos contextos regionais (ou seja, não basta determinar o ’sentido da colonização’ de forma genérica, há que se estudar seus contextos particulares, regionais, de diferenciação); à atenção aos fatores de desequilíbrio e instabilidade da sociedade”, avalia Paulo Teixeira Iumatti, autor da biografia Caio Prado Jr. - uma trajetória intelectual e um dos organizadores de Caio Prado Jr. e a Associação dos Geógrafos Brasileiros, ambos a serem lançados no segundo semestre.

Caio Prado Júnior também se destacou no modo de avaliar o ofício de historiador, o qual, em sua opinião, deveria compreender que, ao estudar qualquer fato da história de um povo, é necessário considerar que este ocupa um determinado espaço numa linha de acontecimentos históricos. Além disso, é preciso penetrar por todas as áreas do conhecimento para entender da melhor maneira os fatos, nunca se atendo somente a eles.

Outra área em que Caio Prado Júnior teve intensa participação, desde sua juventude, foi na política brasileira. Ele se opôs aos interesses dos fazendeiros de café e foi preso, por razões políticas, inúmeras vezes. Em 1947, por exemplo, quando era deputado federal, teve seu mandato pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) cassado. Também foi perseguido em 1964, sendo preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Quatro anos mais tarde, teve seu título de livre-docência na Faculdade de Direito da USP cassado, e sua aposentadoria decretada.

Entre os feitos de Caio Prado Júnior, são bastante importantes a fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB, primeira entidade científica nacional) e a criação da editora Brasiliense, em 1943, especializada em livros de especialistas das mais diversas áreas científicas e renomados professores comunistas da Universidade de São Paulo (USP). Caio Prado Júnior faleceu em 1990, devido a complicações decorrentes de um aneurisma na artéria aorta.

“Muitos aspectos de sua obra são vistos como ‘datados’. Por exemplo, nos anos 1970, surgem as primeiras críticas ao enfoque do ’sentido da colonização’. Mas parece que é só entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990 que a ruptura total com o enfoque de Caio Prado se processará, consolidando um estereótipo de sua obra como propositora de uma espécie de ‘império do comércio externo’, que tudo explica e determina. Vide, por exemplo, o primeiro estudo do livro Escravidão e abolição no Brasil - novas perspectivas (1988), organizado por Ciro Flamarion Cardoso. Outro exemplo, e mais contundente, é o livro de João Fragoso e Manolo Florentino, O arcaísmo como projeto (1993), em que os autores reavaliam o significado do mercado interno na história brasileira e criticam a tese do ’sentido da colonização’, que vêem como nefasta à compreensão da economia colonial. Agora não me parece que Caio Prado seja hoje um ‘dogma’ que precise ser refutado ou defendido. O desafio está em construir instrumentos para compreender de forma mais isenta o seu percurso como intelectual e seu papel na história do pensamento”, completa Paulo Iumatti.

Revista Cult
http://revistacult.uol.com.br/website/default.asp

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Violência na catedral da Cidade do México atiça a diferença entre a esquerda e a Igreja

Joëlle Stolz

Uma saraivada de sons de sinos um pouco insistente levou até o seu paroxismo o conflito, reaberto há mais de um ano, entre a esquerda mexicana e uma hierarquia católica que simpatiza com a direita no poder, mas que está interessada em suavizar o laicismo em vigor no México. No domingo, 18 de novembro, este antagonismo assumiu um caráter espetacular quando partidários de Andrés Manuel Lopez Obrador, também conhecido como “AMLO”, invadiram a catedral da Cidade do México, interrompendo a missa, derrubando as bancadas e provocando a fuga de celebrantes e fiéis.

Qual era a razão da cólera? Enquanto a esquerda, reunida em volta de AMLO, que até hoje não aceitou a sua derrota na eleição presidencial de 2006, estava realizando uma “convenção nacional democrática” na Praça do Zocalo, na frente da catedral, os sinos dobraram durante dez minutos, o que tornou inaudível o discurso de Rosário Ibarra, uma senadora do Partido da Revolução Democrática (PRD, de esquerda). “Será que eles estão tocando para saudar a nossa convenção? Ou será que eles pretendem calar a voz do povo?”, perguntou em voz alta a senhora Ibarra, que mais tarde se defendeu de ter tido a intenção de incentivar a violência.

Mas o mal estava feito. Amplificado pelos meios de comunicação, o “catedralgate” - segundo a expressão empregada por AMLO, que denuncia um “complô” urdido pelos adversários - ofuscou as propostas elaboradas pela esquerda e permitiu que a Igreja católica se apresentasse como vítima da intolerância, agravando paralelamente as divergências entre radicais e moderados do PRD.

O arcebispado fechou “até nova ordem” a catedral. Ele também exigiu como condição prévia para a reabertura, garantias por escrito por parte do PRD, além de proteção policial. Este gesto sem precedente ressuscita o trauma da “guerra dos Cristeros”. Em conseqüência das leis anticlericais que haviam sido promulgadas em 1926, as insurreições que tomaram conta de várias províncias haviam provocado a morte de dezenas de milhares de pessoas. Depois disso, nenhuma missa pôde ser celebrada, durante três anos, na catedral da Cidade do México.

O incidente deste domingo, conforme sublinha Bernardo Barranco, um especialista nas questões religiosas, é simplesmente a conseqüência lógica de uma extensa série de desentendimentos entre a esquerda e a hierarquia católica - à frente da qual se destaca a liderança do arcebispo da Cidade do México, o cardeal Norberto Rivera. Uma personalidade controvertida, que procura de bom grado expor-se aos holofotes, Rivera havia inicialmente consolidado os laços de uma calorosa amizade com Lopez Obrador, que fora o prefeito da capital antes de se candidatar à presidência da República.

Estes laços foram rompidos quando o cardeal, nos dias que se seguiram a uma eleição presidencial marcada por irregularidades e polêmicas, foi a primeira personalidade da sociedade civil a felicitar o vencedor, o conservador Felipe Calderón. A partir de então, as agressões verbais - mais de 24, segundo o arcebispado - se multiplicaram, nas proximidades da catedral e do Zocalo, onde a esquerda realiza com freqüência as suas reuniões, atiçando os rancores mútuos.

A Igreja não perdoou à municipalidade da Cidade do México, dirigida por representantes do PRD, por esta ter colocado em votação, na assembléia local, leis que autorizam a união civil dos casais homossexuais e que liberalizam o aborto - duas questões que haviam sido mantidas como tabus durante o reinado de Lopez Obrador.

“Norberto Rivera, el infierno te espera”, gritavam partidários de AMLO a cada aparição do prelado, entre outros por ocasião da missa dominical. Por sua vez, o cardeal tampouco procurou apaziguar os ânimos, e chegou até mesmo a se dizer “ameaçado de morte”. Nesta briga, ele também se apoiou numa organização de advogados católicos muito mais atuante do que a conferência episcopal, que preferiu se manter à distância.

Isso porque muitos são os fiéis católicos que criticam Norberto Rivera por encobrir os procedimentos condenáveis de padres suspeitos de pedofilia, em particular aqueles do fundador da Legião de Cristo, Marcial Maciel (suspenso em 2006 pelo Vaticano), ou ainda de Nicolas Aguilar, acusado de ter abusado de mais de cinqüenta jovens rapazes, no México e na Califórnia.

No final de outubro, a Corte Suprema de Los Angeles negou o julgamento do cardeal Rivera por “participação na prática da pederastia” no caso Aguilar. Mas estas acusações, que foram repercutidas ao longo de meses pela imprensa mexicana, que por muito tempo havia se mostrado hesitante em relação a este assunto, debilitaram a imagem do cardeal e da Igreja católica, no momento em que esta última esperava exercer alguma influência numa eventual reforma constitucional. A sua intenção era de obter o direito de garantir a realização do ensino religioso nas escolas públicas, e ainda de possuir canais de televisão.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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A democracia começa pela cidade

Sergio Granja

O PSOL tem diante de si uma larga avenida pa