Arquivo de 24 de Fevereiro de 2008

Saúde básica para todos

Dez soluções para garantir serviço fundamental a um custo quase insignificante

Jeffrey Sachs

Um recente relatório da UNICEF sobre mortalidade infantil apresenta dados perturbadores, mas, surpreendentemente, também traz um pouco de esperança. O choque é que 9,7 milhões de crianças com menos de cinco anos morreram em 2006. A boa notícia que essa estatística desoladora traz é que, de fato, esse número representa uma queda em relação aos 12,7 milhões em 1990, dentro de uma população de aproximadamente 630 milhões de crianças com menos de cinco anos para ambos os períodos. Uma notícia ainda melhor é que as outras quase 10 milhões de mortes são quase que totalmente evitáveis, a baixo custo, de uma forma que aliviará em vez de exacerbar as pressões sobre os países pobres.

Quase todas as mortes (aproximadamente 98%) ocorrem nos países em desenvolvimento. Esses casos são o resultado de situações de extrema pobreza e de sistemas de saúde precários em países pobres. As causas da mortalidade refletem as condições de vida inseguras dos pobres (como a vulnerabilidade a doenças tropicais, água potável duvidável e poluição do ar interna) e a falta de acesso a serviços de saúde preventivos e curativos. Os principais colaboradores para as altas taxas de mortalidade são os óbitos que ocorrem nos primeiros 28 dias depois do nascimento, provocados por diarréia (em razão do consumo de água infectada), infecções respiratórias (geralmente provocadas pelo uso de fornos a lenha), malária e doenças que podem ser evitadas com a administração de vacinas. Estima-se que em torno de metade de todas as mortes apresenta como co-fator uma subnutrição crônica.

Há 60 anos, no lançamento da Organização Mundial de Saúde, os governos mundiais declararam a saúde como direito humano fundamental, “sem distinção de raça, religião, crença política, condição social ou econômica.” Há trinta anos, em Alma Ata, os governos do mundo pediram saúde para todos até o ano 2000, principalmente através da expansão do acesso a instalações e serviços de saúde básica. Embora o mundo tenha de longe deixado de atingir esse alvo, podemos ainda chegar a ele, a custos muito baixos. Dez passos básicos podem levar à saúde para todos nos próximos anos.

Primeiro: países ricos deveriam investir 0,1% de seus produtos internos brutos para cuidados com saúde nos países de baixa renda. Com o PIB do mundo rico de U$ 35 trilhões, isso criaria um fundo de cerca de U$ 35 bilhões por ano – o bastante para U$ 35 per capita em serviços adicionais para cerca de um bilhão de pessoas.

Segundo: metade do acréscimo deveria ser canalizada para o Fundo Global de Combate a Aids, Tuberculose e Malária. O Fundo Global provou ser uma instituição altamente eficaz, com mínimo de burocracia e máximo impacto. Apoiou a distribuição de aproximadamente 30 milhões de redes anti-malária, ajudou a colocar cerca de um milhão de africanos em tratamento anti-retroviral e a curar mais de duas milhões de pessoas com tuberculose.

Terceiro: países de baixa renda deveriam destinar 15% de seus próprios orçamentos à saúde. Considere um país pobre onde a renda média anual é de U$ 300. O orçamento total nacional pode estar em torno de 15% do PIB, mais ou menos U$ 45 per capita. Quinze por cento desta soma destinada à saúde chegaria a U$ 6,75 por pessoa por ano. Não o bastante por si mesmos para fornecer cuidados de saúde adequados, mas que cumpririam a tarefa com os U$ 35 per capita de doações.

Quarto: o mundo deveria adotar um planejamento para o controle abrangente da malária, visando levar a mortalidade pela doença a próximo de zero em 2012, com amplo acesso a redes anti-malária, borrifamento de lares, quando apropriado, e remédios eficazes quando a doença atacasse.

Quinto: os países ricos deveriam seguir em seu antigo e realizável compromisso de assegurar acesso a anti-retrovirais para todas as pessoas infectadas pelo HIV até 2010.

Sexto: o mundo deveria preencher uma carência de financiamento de cerca de U$3 bilhões por ano para um controle amplo da tuberculose – outra área na qual há muito tempo se provou que as intervenções são eficazes, mas onde há falta crônica de fundos.

Sétimo: o mundo deveria garantir, com uns poucos bilhões de dólares por ano, o acesso dos mais pobres entre os pobres aos serviços de saúde sexuais e de reprodução, incluindo planejamento familiar, contracepção e cuidados obstétricos de emergência.

Oitavo: o Fundo Global poderia oferecer cerca de U$ 400 milhões por ano para o controle amplo de diversas doenças tropicais (principalmente as infecções por vermes), que ocorrem virtualmente nas mesmas regiões onde a malária é endêmica.

Nono: o Fundo Global poderia abrir um novo mecanismo de financiamento para incentivar o cuidado primário de saúde, incluindo – o mais importante – a construção de clinicas e a contratação e treinamento de enfermeiras e trabalhadores comunitários de saúde.

Décimo: ao usar recentes conquistas na medicina e na saúde pública os sistemas de saúde expandidos nos países mais pobres poderiam estar equipados para lidar com doenças não comunicadas e há muito negligenciadas, mas que podem ser tratadas a custo baixo, como hipertensão, catarata e depressão.

Estes passos simples poderiam salvar a vida de 10 milhões de crianças e adultos por ano, a um custo quase imperceptível para as nações mais ricas. Essas medidas ainda iriam reduzir, e não acelerar, o crescimento populacional em regiões empobrecidas, diminuindo as tensões econômicas e ambientais que populações crescentes estão impondo a elas. A saúde para todos não é apenas o imperativo moral que era no lançamento da Organização Mundial de Saúde há 60 anos - é também a melhor pechincha prática no planeta.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Retrato em branco e preto

Marjane Satrapi: autora e co-diretora de Persépolis, filme que concorre ao Oscar de Melhor Animação. Marjane fugiu criança do Irã. Em quadrinhos, contou sua história - que hoje vale um Oscar

Flávia Guerra

“É um sonho. Jamais pensei em ser indicada para o Oscar com um filme que é a minha própria história e a do país em que cresci”, declarou a iraniana radicada em Paris Marjane Satrapi ao Estado, após muita insistência para que a autora-diretora-personagem falasse de Persépolis, o longa-metragem que ela dirigiu com Vincent Paronnaud e concorre hoje ao Oscar de Melhor Longa de Animação.
Persépolis era o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas não entrou entre os cinco finalistas. Muito justamente, concorre nesta outra categoria nobre da maior premiação do cinema mundial. Não é o favorito. O fenômeno infantil Ratatouille deve mesmo pegar os votantes da academia pelo estômago e levar a estatueta. Mas Marjane, ainda que saia de mãos abanando do Kodak Theatre, em Los Angeles, conclui de forma vitoriosa uma das últimas fases de seu périplo animado.
Foi um longo caminho até que essa filha de uma família da elite esquerdista iraniana pudesse desfilar seu humor cáustico no tapete vermelho de Hollywood. A peregrinação cinematográfica de Marjane já passou por Cannes, Berlim (onde recebeu há 13 dias o prêmio Cinema pela Paz 2008, da Unicef) e por dezenas de festivais pelo mundo, incluindo a Mostra de São Paulo, na qual levou o prêmio do público. Ainda que seja uma produção francesa, um filme que fala da realidade islâmica ser escolhido como o representante da França na festa do Oscar pode ser interpretado como uma espécie de bandeira branca cultural diante das tensões entre imigrantes islâmicos e o governo daquele país.
Pois bem. Ponto para Marjane, que fez ela mesma sua revolução em nanquim. Mas convém lembrar que nem tudo foram glórias na trajetória desse filme e dessa diretora. Recentemente, Bangcoc decidiu cancelar, em cima da hora, a sessão de Persépolis que abriria seu festival anual de cinema. Motivo: o boicote do governo iraniano, que credita ao filme a propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã - e do Islã.
Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência “aprendendo” a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. “Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?”, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: “Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este”. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.
Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. “Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou.”
Mas, afinal, o que de tão ameaçador há nessa mulher e em sua obra? Uma animação belíssima em branco e preto, que consegue, nos traços arredondados, porém cortantes de Marjane, contar séculos de história e costumes de um dos povos mais ricos econômica e culturalmente do Oriente Médio?
O ato mais subversivo do mundo ainda é pensar com a própria cabeça. E em voz alta, dizia Coco Chanel (não por acaso uma das mulheres - e francesas - mais influentes e admiradas do mundo). Pois bem, é exatamente isso que Marjane tem a coragem de fazer - e publicar - quando se fala em Persépolis. O poder de seu pensamento e de seus traços em p&b é tamanho que antes de virar filme a vida de Marjane já havia virado um dos quadrinhos (ou graphic novells) mais cultuados do mundo. “Sou iraniana. E tenho orgulho de ser”, brada ela em uma das cenas mais dramáticas do filme. Mas não foi o que o atual governo iraniano entendeu. E já não havia entendido nos anos 70, quando a família de Marjane resolveu mandar sua única filha para a Áustria, onde ela estaria longe da vigilância severa dos bedéis do Islã.
Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.
Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava “Punk is not dead”, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia. Ela devia usar roupas que jamais marcassem o quadril e o hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas). No lugar de ouvir bandas como Iron Maiden, Abba ou James Brown, deveria prestar atenção aos cânticos dos muezins chamando os fiéis para rezar nas mesquitas. Namorado? Jamais. Se optasse por seguir a cartilha do aiatolá, estava fadada a encontrar um pretendente que a beijaria só depois de casada. Andar pelas ruas de mãos dadas e sentir o vento nos cabelos? Crime grave!
Era esse o cotidiano em que cresceu a cartunista. Um Irã pós- Revolução Islâmica, quando, em 1979, o regime ditatorial do aiatolá Khomeini tomou o país de assalto e a antiga Pérsia se tornou a República Islâmica do Irã. Grosseiramente, pode-se dizer que, na época, os iranianos saíram da frigideira para cair na panela. Em vez de melhorar, as condições de liberdade de expressão, que com o regime dos xás já não eram ideais, pioraram. O país passou a ter uma verdadeira polícia para zelar pelos bons costumes.
Marjane, em vez de se render ou de virar guerrilheira, criou Persépolis, sua graphic novell cheia de textura e bom humor. “Nunca pensei que queria ser cartunista. Simplesmente, queria contar minha história. Eu amo meu país. Lá tem gente boa e gente ruim, como em todos os países. Quando cheguei à Áustria, também sofri muito. Eu mentia, dizendo que era francesa, para ser aceita, para que os garotos não me evitassem. Quem ia sair com uma iraniana? Me sentia péssima. As outras garotas me ridicularizavam. Fiquei deprimida, passei dois meses com frio, perambulando pelas ruas de Viena, até que um dia acordei em um hospital”, conta ela, provando que seus quadrinhos são femininos, mas estão longe de serem gibi da Luluzinha. “Quando me curei, lembrei do que minha avó dizia. Jurei nunca mais mentir sobre minha origem. Tenho muito orgulho dela.”
Com seu traço e sua visão tão particular das raízes de um mundo cada vez mais dividido entre as culturas do Ocidente e do Oriente, Marjane não poupa ninguém, não deixa de falar de temas como guerra, tortura, injustiças, machismo, violência de toda espécie, imperialismo e, assunto tabu dos tabus no Oriente, comunismo. Ela endurece. Mas não perde a ternura. Nem descuida do cajal (este sim, secular item da nécessaire de toda mulher oriental que preze sua vaidade). Sua história começa com ela ainda garotinha e evolui, num flash back, para a História com H maiúsculo do que se tornou o Oriente nestas últimas décadas.
Marjane hoje está no topo do cinema e das discussões que cercam temas tão delicados como o respeito às diferenças e o abuso do absolutismo religioso. Mas se diz feliz com sua tarefa, ainda que involuntária. E mais ainda com seu filme. “Eu, que sou tão enérgica, teria feito um filme do Godard. Vincent é o parceiro ideal, que me ajudou a equilibrar tantas palavras e expressões. Ele, que é tão introvertido, já teria feito um filme do Scorsese, cheio de cenas de ação. Juntos, fizemos um terceiro filme.” Os produtores de Persépolis concordam: “ Nunca podíamos imaginar que teríamos esta nominação ao Oscar, uma honra imensa para a nossa primeira produção. Estamos tão orgulhosos e felizes por Marjane e Vicent”, declararam ao Estado Marc Antoine Robert e Xavier Rigault. “Ela cumpriu sua missão.”
Nada mal para uma garota que aos 9 anos ouvia as histórias de seus tios comunistas presos e torturados na prisão, conversava com Deus e sonhava em ser profeta para melhorar o mundo. Em vez de sermões da montanha, hoje ela prega com palavras e nanquim.

Estado de S. Paulo

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O Império enxerga seu declínio

As divergências no interior do stablishment norte-americano tornam-se agudas, num sinal de que a guerra contra o Iraque pode ter revelado as debilidades do exército e, ainda mais grave, devastado a “legitimidade mundial da América”

Philip S. Golub

No centro da elite do poder norte-americano, as conseqüências desastrosas da invasão e ocupação do Iraque provocaram uma crise ainda mais profunda do que a desencadeada pela derrota no Vietnã, há 30 anos. Para cúmulo da ironia, essa crise afeta a coalizão de ultra-nacionalistas e neoconservadores que se formou nos anos 70, exatamente para tentar pôr fim à “síndrome do Vietnã”, restaurar o poder norte-americano e fazer reviver o “anseio de vitória” dos Estados Unidos.

Se ainda não houve protestos em massa populares e organizados, como durante a guerra do Vietnã, é, sem dúvida, em razão de o exército ser composto principalmente de voluntários egressos dos meios sociais mais pobres; bem como pelo fato de essa guerra ser financiada “mal-e-mal” pelos capitais estrangeiros (por quanto tempo mais?). Mas, entre a “elite”, a crise rompeu o establishment de segurança nacional que governa o país desde a Segunda Guerra Mundial.

O desacordo expresso publicamente, por meia dúzia de generais da reserva, acerca da condução da guerra [1] — um fato sem precedentes —, veio se juntar à manifestação recorrente de dissenso entre as agências de informação e o Departamento de Estado, desde 2003. Isso denota uma tendência mais profunda, que atinge importantes setores da elite e as principais instituições do Estado. Mas poucos criticos da guerra são tão diretos quanto o general da reserva William Odom. Ele repete incansavelmente que a invasão do Iraque representa o “mais importante desastre estratégico da história dos Estados Unidos” [2]. Ou quanto o coronel Larry Wilkerson, ex-chefe do estado-maior de Colin Powell, que denuncia um “erro de dimensão histórica” e pede a destituição do chefe de Estado [3]. Ou ainda o ex-diretor do Conselho Nacional de Segurança, Zbigniew Brzezinski, que qualificou a Guerra no Iraque e a ocupação do país de “calamidade histórica, estratégica e moral” [4].

“Bando incompetente, arrogante e corrupto” (um oficial de alta patente, sobre o governo Bush)
Em sua maioria, as críticas da elite feitas publicamente não vão tão longe. Em geral, dirigem-se ao modo como a guerra e a ocupação tiveram início, mais do que à questão fundamental da invasão em si. Mas isso não muda o fato de que a discórdia é profunda e generalizada, com diferentes secretários [ministros] do governo rejeitando o erro e se acusando mutuamente de serem os responsáveis pela “perda do Iraque” [5]. Em privado, antigos dirigentes de alto escalão entregam-se a acessos de raiva impotente, denunciam “cabalas” sombrias e vituperam contra a Casa Branca. Sem a menor ironia, um ex-oficial do Conselho de Segurança Nacional compara os atuais ocupantes da instituição com “a família Corleone”, imortalizada no filme O Poderoso Chefão. “Por conta de um bando incompetente, arrogante e corrupto”, diz outro oficial de alta patente, “estamos perdendo nossa posição dominante no Oriente Médio”. Veterano do Vietnã, um senador republicano afirma: “A Casa Branca quebrou o exército e ultrajou sua honra”.

Nenhum desses críticos institucionais poderia ser de algum modo considerado “santo”: sejam quais forem suas afiliações políticas ou opiniões pessoais, eles foram, ou ainda são, guardiães do poder, gestores do Estado de segurança nacional. Foram, por vezes, atores de intervenções imperialistas abertas ou clandestinas, empreendidas no “Terceiro Mundo” durante e depois da guerra Fria. Foram (ou ainda são) “gestores de sistema” do aparelho burocrático de segurança nacional, que o sociólogo C. Wright Mills foi o primeiro a dissecar e cuja função é produzir e reproduzir o poder.

Conseqüentemente, não podemos distinguir tais “realistas”, enquanto grupo social, do objeto de suas críticas, no que diz respeito à disposição em empregar a força ou ao caráter implacável com que, a história está de prova, perseguiram os objetivos do Estado. A causa de seu descontentamento não pode ser atribuída a convicções divergentes em matéria de ética, normas e valores (ainda que tais diferenças possam motivar alguns indivíduos). A discordância é resultado de uma constatação fria, racional, de que a guerra no Iraque deixou “o exército norte-americano quase arruinado” [6] e comprometeu seriamente, até mesmo de maneira irreparável, “a legitimidade mundial da América” [7] — isto é, sua capacidade de moldar as preferências mundiais e de definir a ordem do dia no planeta. Em suas expressões mais sofisticadas, como no caso de Brzezinski, essa divergência traduz a compreensão do fato de que o poderio não se limita ao poder de coerção e que a legitimidade hegemônica, uma vez perdida, é difícil de ser restabelecida.

Américas, Ásia, Europa, Oriente Médio… Em toda parte, sinais de uma hegemonia em crise
Os sinais de queda da hegemonia norte-americana são visíveis em todos os lugares: na América Latina, onde a influência dos Estados Unidos é a mais baixa em décadas; no leste asiático, onde Washington, de má vontade, teve de negociar com a Coréia do Norte e reconhecer na China um ator indispensável à segurança regional; na Europa, onde o projeto de instalar baterias antimísseis é contestado pela Alemanha e outros países da União Européia; no Golfo Pérsico, onde os aliados de longa data, como a Arábia Saudita, perseguem objetivos regionais autônomos que, somente em parte, coincidem com os dos Estados Unidos; no seio das instituições internacionais, seja a ONU, seja o Banco Mundial (cujo presidente, o norte-americano Paul Wolfowitz, envolvido em um esquema de nepotismo, teve de entregar o cargo, em 30 de junho), onde Washington não tem mais condições de determinar a ordem do dia.

Ao mesmo tempo, as pesquisas de opinião internacionais, realizadas regularmente pelo PEW Research Center de Washington [8], apontam uma atitude sistemática de desafio à política externa norte-americana em nível quase mundial e um desgaste do “soft power”, o fascínio exercido pelos Estados Unidos no mundo. O “sonho norte-americano” afundou, diante da imagem de um leviatã militar que exibe apenas desprezo pela opinião pública internacional e viola as regras que os próprios Estados Unidos instituíram [9]. A opinião mundial pode não pôr fim às guerras, mas pesa de forma mais sutil nas relações internacionais.

Limitar, em parte, esse desgaste seria talvez possível sob a condução de outros dirigentes e em circunstâncias totalmente novas. É, no entanto, difícil imaginar como um novo consenso interno poderia ser restabelecido no curto prazo. Foram necessários muitos anos para reconstruir o exército, após submetê-lo a duras provas na Guerra do Vietnã, bem como repensar as doutrinas e definir um novo consenso das elites, quando não popular, sobre o uso da força. Depois do Iraque, não será fácil mobilizar o sentimento nacionalista para empreender novas aventuras no exterior. Da mesma forma, não se pode esperar um retorno ao status quo anterior da política mundial.

Em xeque, idéias sobre o papel internacional dos EUA que animaram o país desde os anos 1940
A invasão e a ocupação do Iraque não são as únicas causas das tendências mundiais evocadas acima. A guerra somente acentuou um momento em que forças centrífugas maiores já estavam em ação: o desgaste e o posterior desmoronamento do “Consenso de Washington” e o aumento da influência de novos centros gravitacionais econômicos — sobretudo na Ásia —, já bem estabelecidos quando George W. Bush tomou a decisão calamitosa de invadir o Iraque. A história avança, enquanto os Estados Unidos permanecem atolados em um conflito que absorve todas as energias do país.

Aos olhos das elites no poder, essa configuração é profundamente preocupante. Desde a metade do século 20, os dirigentes norte-americanos passaram a achar que tinham a responsabilidade histórica singular de dirigir e governar o sistema internacional. Ocupando o topo do mundo desde a década de 1940, eles partiam do princípio que, a exemplo da Grã-Bretanha no século 19, os Estados Unidos estavam destinados a agir como hegemon — Estado dominante detentor da vontade e dos meios de estabelecer e manter a ordem internacional, bem como de assegurar a paz e uma economia mundial liberal aberta e em expansão. Na interpretação seletiva que fizeram da história, foi a incapacidade da Grã-Bretanha de manter esse papel, e a reticência simultânea dos Estados Unidos em assumir sua responsabilidade (o “isolacionismo”), que propiciaram o ciclo guerra mundial-depressão-guerra mundial, durante a primeira metade do século 20.

Essa hipótese, profundamente arraigada nas mentes, tem por corolário um argumento circular: uma vez que a ordem requer um centro dominante, manter tal ordem (ou evitar o caos) requer perpetuar a hegemonia. Esse sistema de pensamento, que os pesquisadores norte-americanos na década de 70 definiram como “teoria da estabilidade hegemônica”, pauta a política externa dos Estados Unidos desde que o país emergiu da Segunda Guerra Mundial como centro ocidental do sistema mundial.

As elites política e econômica norte-americanas entreviam, desde 1940, uma “grande revolução no equilíbrio do poder”. Washington iria se “tornar o herdeiro universal e administrador do patrimônio econômico e político do Império britânico. O cetro [passaria] para as mãos dos Estados Unidos” [10]. Um ano mais tarde, Henry R. Luce anunciava a chegada do famoso “século norte-americano”. “Esse primeiro século em que a América será uma potência dominante no mundo”, escrevia ele, significava que o povo norte-americano deveria “aceitar sem reserva [seu] dever e [sua] perspectiva de futuro como a nação mais poderosa e vital, e exercer sobre o mundo o pleno impacto de [sua] influência pelos meios que [lhe] parecessem apropriados” [11]. Em meados dos anos 40, os contornos do “século norte-americano” já se desenhavam claramente: predomínio econômico reforçado por uma supremacia estratégica baseada em uma rede planetária de bases militares estendendo-se do Ártico à Cidade do Cabo; do Atlântico ao Pacífico.

Presidindo a construção do Estado de segurança nacional, os dirigentes do pós-guerra estavam tomados — para retomar a expressão do historiador William Appleman Williams — de “visões de onipotência” [12]. Os Estados Unidos beneficiavam-se de enormes vantagens econômicas e de um avanço tecnológico considerável e detiveram por um curto período o monopólio atômico. O impasse coreano (1953) e os programas soviéticos de armas e mísseis nucleares certamente abalaram a confiança dos EUA, mas foram a derrota no Vietnã, e as turbulências sociais que acompanharam a guerra no plano interno, que revelaram os limites do poderio.

Inevitável paralelo com o início do declínio britânico, também marcado por uma guerra desastrosa
O “realismo em uma era de declínio” preconizado por Henry Kissinger e Richard Nixon, era somente uma forma de admitir, a contragosto, que o tipo de hegemonia global exercido havia mais de 20 anos não poderia durar para sempre. Mas o Vietnã e a era Nixon marcaram uma virada mais paradoxal. Eles prepararam a reação dos anos 80: a “revolução conservadora” e os esforços conjuntos para restabelecer e renovar o Estado de segurança nacional e o poderio mundial norte-americano. Quando a União Soviética desmoronou, alguns anos mais tarde, as ilusões de onipotência ressurgiram. Os triunfalistas conservadores voltaram a sonhar com uma “primazia” internacional de longa duração. O Iraque era uma experiência estratégica, destinada a inaugurar o “segundo século norte-americano”. A experiência deu errado, assim como a política externa estadunidense.

As analogias históricas nunca são perfeitas, mas o exemplo da Grã-Bretanha e da prolongada derrocada do império pode lançar uma luz sobre o momento histórico atual. No crepúsculo do século 19, raros eram os dirigentes britânicos que podiam imaginar seu fim. Quando foi celebrado o Diamond Jubilee da rainha Vitória, em 1897, a Grã-Bretanha estava à frente de um império transoceânico formal, que englobava um quarto dos territórios do mundo e 300 milhões de súditos — ou mais do dobro, se incluirmos a China, colônia virtual de 430 milhões de habitantes. A City londrina era o centro de um império comercial e financeiro ainda mais vasto, cuja teia abarcava o mundo inteiro. Portanto, não é nada surpreendente que uma importante parte da elite britânica pensasse, apesar do receio suscitado pela concorrência manufatureira norte-americana e alemã, que a Grã-Bretanha recebera “como presente do todo-poderoso um arrendamento do universo por toda a eternidade”.

O Jubilee devia ser “o último raio de sol de uma confiança total na capacidade britânica de governar” [13]. A segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902) [14], empreendida na África do Sul para preservar a rota das Índias e reforçar o “elo mais fraco da corrente imperial”, foi um enorme desperdício humano e financeiro. Além disso, ela revelou as atrocidades da política da terra arrasada, a uma opinião pública inglesa cada vez menos dócil. “A guerra sul-africana foi, para a potência imperial britânica, a provação mais importante desde a Rebelião Indiana, e a guerra mais vasta e mais onerosa empreendida pela Grã-Bretanha entre a derrota de Napoleão e a Primeira Guerra Mundial” [15].

Apenas doze anos depois, teve início a Primeira Guerra Mundial, levando os seus protagonistas europeus à derrocada e ao esgotamento. O longo fim da era britânica havia começado. Mas o Império não somente resistiu à crise imediata como perdurou por décadas, ultrapassando a Segunda Guerra Mundial, antes de ver um fim sem glória, pela mão dos norte-americanos, em Suez, em 1956. No entanto, um século mais tarde, a nostalgia da grandeza persiste, como vemos nas desventuras mesopotâmicas do primeiro-ministro Tony Blair. Os últimos resquícios imperiais ainda não foram extintos.

Para a elite no poder dos Estados Unidos, manter-se no topo do mundo há mais de meio século é considerado um fato natural. A hegemonia, como o ar que respiramos, tornou-se um modo de ser, um estilo de vida, um estado de espírito. Os críticos institucionais “realistas” são, certamente, mais prudentes do que aqueles a quem criticam. Mas eles não dispõem, ainda, de um quadro conceitual onde as relações internacionais sejam baseadas em outra coisa que não a força, o confronto ou a predominância estratégica.

A crise atual e o impacto crescente dos problemas mundiais, sem solução no âmbito nacional, originarão, talvez, novos impulsos em matéria de cooperação e interdependência. Em todo caso, é preciso esperar. Mas é provável que a política norte-americana permaneça imprevisível: como mostram todas as experiências pós-coloniais, desfazer um império pode ser uma processo longo e traumático.

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[1] Ver “Retired Generals Speak Out to Oppose Rumsfeld”, The Wall Street Journal, 14 abr. 2006.

[2] Associated Press, 5 out. 2005. O general Odom estava à frente da National Security Agency (NSA) na gestão de Ronald Reagan.

[3] Citado em “Breaking Ranks”, The Washington Post, 19 jan. 2006.

[4] Declaração diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, 1 fev. 2007.

[5] O ex-diretor da CIA George Tenet, em seu livro At the Center of the Storm, responsabiliza a Casa Branca pelos erros estratégicos cometidos no Iraque e afirma que nunca houve um “debate sério” sobre a questão de saber se esse país representava uma ameaça iminente ou se não seria melhor simplesmente reforçar as sanções e descartar a guerra. Trata-se do último desentendimento público opondo a CIA à Casa Branca desde, pelo menos, 2003.

[6] Para citar o ex-secretário de Estado Colin Powell durante o programa televisivo “Face the Nation”, na CBS, em 17 dez. 2006.

[7] Zbigniew Brzezinski, declaração diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, 1º de fevereiro 2007.

[8] Ver: The Pew Research Center for the People and the Press.

[9] Ver: PEW Global Attitudes Project

[10] Discurso do presidente do conselho da National Industrial Conference no congresso anual da Investment Bankers Association, 10 dez. 1940. Citado em James J. Martin, Revisionist Viewpoints, Ralph Myles Publisher, Colorado Springs, 1971.

[11] Henry R. Luce, “The American Century”, Life Magazine, 1941, artigo reeditado no Diplomatic History, primavera 1999, vol. 23, n. 2.

[12] William Appleman Williams, The Tragedy of American Diplomacy. Nova York: Delta Books, 1962.

[13] Citado em Elisabeth Monroe, Britain’s Moment in the Middle East, 1914-1956. Londres: Chatto & Windus, 1963.

[14] Tanto o segundo quanto o primeiro conflito (1880-1881) opunham os britânicos e os colonos de origem holandesa (bôeres).

[15] C. Saunders e I. R. Smith, “Southern Africa, 1795-1901”, in The Oxford History of the British Empire, vol. , The Nineteenth Century.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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O efeito Raúl, para peles sensíveis

ENTREVISTA: MAURICIO FONT - economista e sociólogo cubano, diretor do Bildner Center for Western Hemisphere Studies, em Nova York.
Na ilha ensolarada, de praias idílicas, reformistas alinhados ao irmão de Fidel e ortodoxos fiéis ao líder que se afasta disputam os rumos da Revolução Cubana

Laura Greenhalgh

No fim do expediente da última segunda-feira, o economista cubano Mauricio Font, diretor do Bildner Center, instituição de estudos sobre as Américas, deixou seu escritório em Nova York, digamos, meio intrigado. Não conseguia acessar os jornais Granma e Juventud Rebelde pela internet. Foi para casa com aquilo na cabeça. Dormiu, mas às 5 da manhã levantou-se para conectar as páginas eletrônicas dos dois mais importantes jornais de Cuba. Conseguiu. E lá estava a notícia: após 49 anos de comando, Fidel Castro Ruz, de 81, anunciava que não disputaria os cargos de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas.
Font admite que ficou cismado com o sumiço dos sites horas antes, mas jura não ter se surpreendido com a notícia-bomba. No Cuba Project, um dos departamentos do Bildner, ele realiza um trabalho curioso, entre pesquisas e seminários que promove sobre sua terra de origem. Auxiliado por universitários americanos, vem analisando o conteúdo dos pronunciamentos de Fidel desde seu afastamento do poder, em 2006, para tratamento de saúde. “Sim, ele preparou a saída, quer assistir à transição e assumiu para si o papel crepuscular de gladiador contra os Estados Unidos”, explica Font, também PhD em Sociologia pela Universidade de Michigan. Nascido na Província do Oriente, filho de ex-funcionário de uma empresa americana na ilha e emigrado para a América em 1961, é um cubano-americano pró-diálogo. Ou seja, representa uma minoria dentro da minoria, mas acha que um dia seu “time” vencerá: a lei Helms-Burton, que endurece o embargo ao país caribenho, vai caducar, Guantánamo não terá base militar americana, Cuba contará com outros líderes e as pessoas poderão dizer o que pensam. Nesta entrevista ao Aliás, o “cubanólogo” faz revelações importantes. Como a de que Raúl Castro não é um mero apêndice do irmão. À frente de generais e coronéis que chefiou no Exército, Raúl lidera a ala pragmática, que se contrapõe à ala dura, liderada por Fidel. “Eu não me preocupo com Cuba depois de Fidel, mas com Cuba entre dois Castros.” Tensões entre reformistas e ortodoxos existem, garante Font, e as eleições deste domingo na ilha podem já evidenciar os primeiros sinais do embate.
O afastamento de Fidel dos seus mais importantes cargos tem a ver com mudança de poder ou manobra do poder?
Mudança. Estamos diante de um novo capítulo da história cubana, não tenho dúvidas. Fidel tem jogado um papel fundamental no país, por mais de meio século, portanto, seu anúncio não foi uma coisa banal. Agora, há sinais de continuidade do processo também. Fidel continuará a influenciar o aparelho de Estado e permanecerá muito vivo no nível simbólico, favorecido por sua capacidade de articulação e sua projeção mundial, que se mantém fantástica.
Ele se afastou em 2006, por questões de saúde. Como é que o senhor avalia a interinidade de Raúl?
Fidel foi sempre uma presença forte e permanente, que rendeu a Raúl certa timidez de comando. Ou melhor: timidez para todo um grupo de reformistas.
Quem são os reformistas?
Falo de um grupo com idéias já maduras sobre as mudanças. Como não tinham poder, essas pessoas tentaram encaminhar o debate, acumular idéias, fazer propostas, e isso aconteceu. Hoje há um interessante debate sobre reformas na ilha. Mas daí veio a interinidade de Raúl, com algumas mudanças em postos-chave, muito discretas, uma sutil preparação para uma outra estrutura de poder. Tudo à sombra do protagonismo do líder máximo. Eis que, depois de alguns meses tratando da saúde, Fidel voltou a se manifestar em março de 2007, com reflexões escritas e artigos para jornais. Reafirmava sua centralidade.
Mas havia o dado imponderável, a saúde do comandante.
Concordo, ninguém sabe exatamente o que se passou com ele. Só Fidel e as pessoas que lhe são próximas. Sobre seu estado de saúde existem comentários vindos de fontes estrangeiras, serviços de inteligência, jornalistas, mas, de fato, não se sabe o que terá acontecido. Acho que houve um momento crítico, em que Fidel pensou que iria morrer. Depois teve uma melhora relativa e pôs-se a escrever. Agora, com a renúncia, deduz-se que exista uma doença séria, que o impede de voltar.
Fidel sinalizou que pretende ver a transição cubana enquanto está lúcido e relativamente ativo?
De certa maneira. Para as lideranças cubanas é importante fazer a transição contando com a lucidez e o carisma do líder. Portanto, fiquemos atentos ao que vai se passar domingo em Cuba (hoje, com a eleição do Conselho de Estado) e ao que virá logo depois. Não há dúvida de que há grupos influentes pressionando por uma redefinição na estrutura de poder.
Que forças políticas operam?
Os reformistas estão aí: são economistas, gerentes de estatais, muitos deles saídos do Exército cubano. Estão no setor de hotéis, serviços, aviação, logística, enfim, trata-se de um grupo com cabeça renovada, operando no esquema de moeda forte.
Um representante desse grupo?
O maior é Raúl Castro. Como chefe das Forças Armadas, posto que ocupa há muito tempo, foi transferindo militares para os setores de maior pujança na economia. São generais, coronéis, pessoas ainda não acostumadas a se promover individualmente, mas como grupo, dentro de uma hierarquia.
Então Raúl manda um bocado.
Raúl conta muito. Não penso uma Cuba sem Fidel. Penso uma Cuba entre dois Castros. Um operando pelo sistema ortodoxo, em defesa do socialismo tradicional, do estatismo, da luta ideológica, que é Fidel. E outro operando pela via do pragmatismo, da liberalização econômica, da busca de resultados, que é Raúl. Eles têm estilos diferentes. Fidel dedicou a vida à revolução. Já Raúl tem vida familiar. De modo geral, podemos mapear duas grandes correntes: os duros e os reformistas. É isso. Há outras forças menores, representadas por intelectuais como o ministro da Cultura, Abel Prieto, que pedem liberdade, respeito às minorias, melhor tratamento aos gays. Mas têm pouca influência.
Como explicar que o grupo defensor da abertura econômica seja liderado por militares formados numa visão monolítica de poder?
Isso se explica pela natureza do regime. O socialismo cubano foi um dos mais centralizadores do mundo. Num momento dado o nível de estatização da economia era superior a 90%. Em 1985, com a perestroika e a glasnost de Gorbachev, houve tímidas reformas na ilha, mas imediatamente Fidel conteve o processo, inaugurando o período de retificación. Que reformas foram aquelas? Raúl tinha posto em prática medidas que davam mais liberdade ao pequeno produtor rural, para estimular a geração de alimentos. Por que fez isso? Porque o Exército estava não só preocupado com a alimentação de suas fileiras, mas com a tranqüilidade do povo. Mais tarde, em 1990, quando a URSS desmoronou, encerrando a era de subsídios a Cuba, não havia uma classe empresarial na ilha para tocar o barco. Foi preciso buscá-la no Exército. Essa é a explicação principal. Secundariamente, consideremos que muitas empresas já atuavam próximas das Forças Armadas, como a Sherritt, do Canadá, que extrai níquel na Província do Oriente. Hoje temos a Petrobrás e outras companhias lidando com esses militares convertidos em executivos. É gente treinada para operar setores estratégicos.
Raúl é visto como o mais intransigente dos Castros, o mais soviético. Combina com o perfil reformista?
Nos anos 70, houve um período de institucionalização da revolução russa, opondo-se ao stalinismo anterior, tocado por forças reformistas. Na Hungria, houve pelo menos dois momentos de reformas. A China de hoje pouco tem a ver com a China de Mao. Raúl acompanhou e estudou esses processos. Carlos Lage, ministro da Economia de Cuba e seu aliado, já visitou a China algumas vezes.
Dizem que Lage tem chance de subir mais na hierarquia cubana, a partir das eleições deste domingo.
Eu ficaria surpreso se o novo esquema de poder não se apoiar nas figuras de Raúl e Lage. Raúl vai fazer 77 anos, Lage tem 56, portanto, podem constituir um eixo duradouro de poder. Faço essa análise apostando que Cuba vá entrar num período de reformas. O ministro de Relações Exteriores, Pérez Roque, é ligado a Fidel e está bem cotado. Assim, se o grupo reformista subir, terá de fazer concessões aos ortodoxos. Contudo é possível que se abra um período de tensão política interna.
O senhor prevê confrontos entre os pró-Raúl e os pró-Fidel?
Sim. Fidel não vai desaparecer do cenário e seus aliados são fortes. Os partidários de um esquema mais liberalizante contarão de início com um clima de consenso, a partir de um acordo político feito em família. Mas a tensão existe. Os problemas econômicos da ilha, as pressões sociais, especialmente dos jovens, as mudanças do mundo, enfim, tudo isso indica que Cuba precisa de rumo. Pode-se concordar ou não com elas, mas existem propostas de mudança em vários setores da economia.
Militares viram executivos no processo de flexibilização da economia. Não foi assim que as máfias russas se formaram?
O risco desses empresários do Estado gravitarem em círculos ilegais, como aconteceu na Rússia, é proporcional ao grau de colapso do sistema político e de câmbios na economia. Esse é um forte argumento em favor da transição suave e gradual.
Cuba parece emitir sinais contraditórios. Os reformistas são gente saída das fileiras do Exército. Já Fidel, que o senhor perfila como ortodoxo, é o líder que os jovens preferem.
Fidel foi e continuará sendo a figura maior da Revolução Cubana. No nível simbólico, ele é o pai do povo. É o pai do povo e o avô de toda criança cubana. Governou 49 anos com um sentido de missão. E desenvolveu um modelo paterno à moda antiga: centralizador, autoritário. Lembremos que aquela Cuba revolucionária lá dos anos 50 virou uma espécie de grande família. Então, não vejo contradições. No plano internacional, a grande marca de Fidel foi ter se oposto abertamente aos presidentes americanos. Ele se comportou como se estivesse apontando o dedo do meio da mão para os ocupantes da Casa Branca. Sem apontar, claro.
Chávez é um imitador de Fidel?
Chávez tenta ser o seu herdeiro. Só que tudo o que o Fidel disse, nestes anos todos, tem a marca da sua elegância pessoal. Ele atacou sempre com muita veemência. Mas também com muita elegância.
Quer dizer que ele jamais diria que Bush é um diabo com cheiro de enxofre, como fez Chávez?
É isso. Fidel foi muito criticado nesses anos todos, mas, se fizermos um balanço, logrou um sucesso tremendo, cativando platéias pelo mundo.
Ficará mais popular ainda?
Não é tão simples. A sociedade cubana passou por um processo interessante. Analisemos a mocidade, gente de 16 a 36 anos. Muitos foram educados antes do Período Especial. Freqüentaram escolas nos anos 80, quando Fidel tinha 70 e a revolução atravessava uma fase gloriosa quanto aos recursos de que dispunha. Falo do Período da Institucionalização, depois daquele tremendo fracasso da supersafra de cana-de-açúcar. Ali houve umas tantas reformas, tocadas sob o carisma de Fidel. Houve também uma espécie de normalização da vida e um sentido de melhorar as instituições. Nos anos 80, Cuba ainda contava com o enorme apoio soviético, algo como US$ 5 milhões a US$ 6 milhões por dia, enquanto o resto da América Latina, e o Brasil inclusive, amargava o peso da dívida externa, a inflação, a estagnação econômica, as ditaduras. Naquele momento Fidel exportou a imagem de que o modelo cubano dava certo. Pois bem, a geração socializada nesse período cresceu pensando que os cubanos eram os forjadores del futuro. Falava-se numa sociedade superior, na qual as escolas serviam merenda duas vezes ao dia. Tinha médico, dentista, verão subsidiado naquelas praias lindas. Mas o sonho ruiu no Período Especial e essa mesma geração ficou perplexa diante das carências que explodiram no país. Esses jovens perderam insumos calóricos, contraíram doenças, viram a economia encolher de 35% a 40%. Foi um baque, uma desilusão. Muitos da geração dos forjadores perceberam que era preciso encontrar meios de sobrevivência por si mesmos, e não esperar pela “ajuda paterna”. Saíram atrás de contatos em outros países, emigraram.
Mas não são os balseiros, certo?
Não. Têm perfil diverso. Estou falando de uma geração bem formada, jovens diferenciados que conseguiram se recolocar em outros países. Os líderes políticos de Cuba sabem disso. Sabem que perderam gente da melhor qualidade. Portanto, ações do governo hoje tentam reintegrar essa geração. Não é à toa que Fidel está promovendo líderes novos. A disputa pela guarda daquele menino cubano Elián González foi um momento em que Fidel favoreceu a emergência de líderes jovens, no contexto da “batalha das idéias”. O “caso Elián”, em 1999, deu origem a uma onda de gestos de voluntarismo, mobilizações públicas, desfiles. Isso foi bem usado internamente. Mesmo aqui nos EUA, acompanhamos a disputa pela guarda da criança, vimos que o pai tinha direitos e Elián teria de voltar para Cuba, mas o grande efeito aconteceu na ilha.
Quando Fidel começou a falar em “batalha das idéias”?
Começou ali, em 1999. Formulou a tese de que existe não só uma solução econômica ao Período Especial, mas uma solução política. Fez isso falando aos moços. Então surgiram novos líderes, até mesmo aquela associação de estudantes secundaristas, líderes de 15, 16 anos, moças e rapazes que passaram a fazer discursos em cadeia nacional. Por isso estou curioso pelo resultado das eleições de domingo. Quero ver como se saem os novos líderes formados pelo fidelismo.
Quem são, afinal?
Vou dar um exemplo. Há um sujeito muito interessante, chamado Hassan Pérez. Como ele surgiu? Deram-lhe platéia para fazer discursos contra os EUA em 1999, 2000. Era um estudante universitário destacado e chamou atenção pela fala consistente, de uma retórica muito forte em torno dos temas mais caros da revolução. Fidel gostou muito dele, ficou mesmo impressionado com o rapaz. Então Hassan subiu rapidamente, chegou ao Parlamento e hoje é gerente de uma das empresas de turismo do país. Randy Allonso, que é citado na carta em que Fidel se afasta, não é dos mais jovens, mas também se encaixa no perfil. Esse grupo cresce e ganha poder por decisão no país.
Fidel será o fiel da balança, conjugando ortodoxos e reformistas? Ele pode jogar dos dois lados. É um ditador que sempre soube gozar de muita mobilidade, colocando-se acima dos grupos e das facções. Maneja muito bem o contato direto entre líder e massa, lembrando Mao Tsé-tung. Também é capaz de quebrar, a qualquer momento, as regras que criou. Seus favoritos estão acima de tudo.
O que o senhor pensa de uma Cuba sem Fidel Castro?
Ele agora poderá ser um freio às reformas, pregando a volta ao socialismo “puro” e fazendo a crítica ao liberalismo econômico. É um articulador quase religioso disso tudo. Se ele desaparecer, tais teses perderão sentido nesse mundo globalizado em que vivemos, onde é preciso gerar novas dinâmicas, disputar mercados, atuar num sistema financeiro de alta complexidade. A China está comprando até empresas financeiras em Wall Street! Em Cuba ninguém mais acredita que o país possa se virar sozinho num mundo assim.
Existe o medo de que, abrindo-se para o mundo, a ilha seja engolfada pelo vizinho poderoso, com os cubano-americanos de volta, numa espécie de reocupação?
Esses temores existem. E lidar com eles é um grande desafio. Obviamente, a lei Helms-Burton, que em 1996 endureceu o embargo contra Cuba, tem medidas duras, que justificam tais sentimentos. A linguagem usada no texto da lei chega a ser ofensiva ao falar explicitamente na eliminação dos dois irmãos Castro. É algo que não se aplica em termos de boas práticas internacionais. Muitos de nós, aqui nos EUA, achamos que isso não tem cabimento.
O próximo presidente americano terá condições de revogá-la?
Essa é uma lei feita para a Flórida, que é chamado de swing state, ou seja, um Estado que pode mudar politicamente de forma muito rápida e radical. Isso é o que faz dos cubano-americanos uma força política importante. Eles mudam de um lado para outro conforme a conveniência e isso conta na corrida presidencial. Agora, mudar a lei, revogá-la, é missão do Congresso.
O senhor é um cubano-americano pro-diálogo. Trata-se de uma minoria dentro de outra minoria?
Somos minoria, mas estamos crescendo, principalmente entre as novas migrações. Existe mais espaço para o diálogo.
Quem é mais favorável ao diálogo: Obama, Hillary ou McCain?
Obama tem uma fala boa, mais objetiva do que a de Hillary. Ele tenta definir ações para flexibilizar contatos entre os dois países. E tenta inscrever o tema no mote de campanha dele - Change! (Mude!). McCain tem sido duro porque precisa conquistar de uma vez a ala conservadora da comunidade cubano-americana, que tradicionalmente volta com os republicanos. Do ponto de vista político-eleitoral, é compreensível. Mas, atenção: McCain é veterano da Guerra do Vietnã. Foi prisioneiro dos vietnamitas do Norte por cinco anos, saiu de lá com imagem de homem íntegro e liderou no Congresso americano o movimento pela normalização das relações com o Vietnã. Então, a tendência dele seria tratar Cuba dentro da mesma lógica: a Guerra Fria acabou, o mundo mudou, há reformas em curso, então, vamos normalizar.
A desastrada decisão de invadir o Iraque semeou um sentimento antiamericano pelo mundo. Isso ajudou Cuba?
Os oito anos de governo George W. Bush têm sido desastrados. Sua política externa ajudou Cuba e ajudou Fidel. Eu me lembro da simpatia que os EUA granjearam depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Até Fidel veio a público se solidarizar com a sociedade americana. Ora, Bush jogou tudo fora com a guerra do Iraque. Cedeu a pressões, ficou nas mãos dos neoconservadores, adotou um unilateralismo exacerbado. Isso abalou o prestígio mundial dos EUA.
Existe aproximação possível diante do que os EUA fazem em Guantánamo? Como se sabe, há um antigo litígio entre os dois países, mas, na administração Bush, a base militar americana nessa península de Cuba virou um centro de tortura.
É uma vergonha. Há um sentimento muito forte contra isso. Guantánamo, desde o início do século 20, foi o combustível do nacionalismo cubano. Estou falando da nossa velha república, de 1902 a 1959. Os americanos ocuparam aquela região com base na Emenda Platt, um contrato que não define prazo para a desocupação. Penso que com os Castros no poder, a situação não se resolverá. Mas, no futuro, é de se esperar que os cubanos recuperem sua baía. Isso tem a ver com soberania do país. É possível resolver? Sim. Jimmy Carter não resolveu a questão do Canal do Panamá? Cuba precisará de atores nessa mediação, então penso que o Brasil poderá ser fundamental, assim como México e Chile.
Como estão as relações de Cuba com a América Latina? Quais são seus parceiros?
Obviamente Chávez é o maior deles no momento. Até porque ele aspira a ser um novo Fidel. Chávez tem tomado medidas concretas para exercer essa influência, como a de construir uma refinaria em Cienfuegos, para processar o óleo cru venezuelano, que é muito grosso, ou ao vender para a ilha petróleo com preço subsidiado. Mas isso vai durar até quando? Tenho conversado com cubanos e venezuelanos e há sérias dúvidas sobre a sustentabilidade do apoio. Ainda que Chávez queira permanecer no poder até 2030. Por outro lado, vê-se o Brasil crescendo com dinamismo, recursos naturais, uma classe empresarial de peso, uma democracia que se consolida. O Brasil virou um país-chave para Cuba. Acrescente-se o fato de que Fidel e Lula têm afinidades históricas, nem sequer abaladas com a crítica do comandante ao etanol brasileiro.
Fidel também se dava bem com Antônio Carlos Magalhães.
Sim, adorava jantar com ele em Salvador. E teve uma relação razoável com Fernando Henrique. Talvez tivesse preferido uma relação mais profunda, mais declarada, mas tenho certeza de que sabia das dificuldades que o governo brasileiro enfrentava naquele momento, com reformas no aparelho do Estado, crises internacionais, etc. Recentemente o governo brasileiro firmou um acordo segundo o qual Cuba lhe dá permissão para prospectar petróleo nas águas do Golfo do México e o Brasil se compromete a cumprir um programa de investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. Só por isso podemos concluir que o Brasil vá ter um papel diferenciado na transição. Há também o grande interesse chinês por Cuba.
Como é esse interesse?
A China tem laços antigos com a ilha. Há inúmeros contatos pessoais e políticos desde os anos 60. Li na semana passada que três canais chineses serão incorporados à rede televisiva oferecida aos turistas em Cuba. Os produtos made in China estão invadindo o país, como acontece aí no Brasil. De um lado isso é bom, porque as pessoas na ilha poderão comprar eletrodomésticos e carros a preços baratos, reequipando seus lares. Mas, até que ponto isso impulsiona o desenvolvimento? É um ponto preocupante. Cuba está em ruínas: não há dinheiro para recuperar imóveis, estradas, portos, sistemas de comunicação.
Cuba fica vulnerável aos olhos da opinião pública mundial quando se trata da supressão das liberdades. Como é que o país deve se recompor em termos de direitos humanos?
De fato ainda existe a cultura do paredão, algo muito identificado com Fidel. É uma visão maniqueísta do mundo: a revolução defende o povo e quem não está de acordo com ela deverá ser “legitimamente” eliminado. Eu conheço um cubano que gostava de uns tragos. Um dia, bebendo um pouco a mais, ele escreveu um poema contra Fidel. Pegou três anos de prisão. Sempre me lembro desse caso ao pensar quão peculiares são os pressupostos éticos desse regime. Como superá-los? O número de libertados vem aumentando nos últimos tempos, mas isso é insuficiente. Os cubanos terão de rever a Constituição de seu país, levando em consideração os direitos individuais. À medida em que o país liberaliza sua economia, o direito à propriedade individual também terá de ser reconhecido. Isso poderá acontecer? Creio que sim. No fundo, os cubanos sabem como mexer nas suas instituições gradualmente. Mas os jovens estão ansiosos. Querem ganhar mais, comprar, viajar, enfim, ter acesso ao mundo da modernidade. Isso pulsa nos blogs que pipocam na ilha. Como o Generación Y, de Yoane Sánchez, uma jovem universitária de Havana. Quem poderá calá-la?
OS PRAGMÁTICOS
“São generais, coronéis, gente bem formada que hoje comanda as estatais da ilha”
OS IDEOLÓGICOS
“Fidel promoveu líderes de 15, 16 anos e eles então passaram a falar em rede nacional”
UM CÁLCULO
“John McCain pode repetir o que fez em relação ao Vietnã e normalizar laços com Cuba”

Estado de S. Paulo

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Colombo levou a sífilis para a Europa?

A DST pode ter sido a primeira doença globalizada

Aparentemente, o Novo Mundo não foi só o que o intrépido explorador Cristóvão Colombo descobriu. Parece que também devemos a ele a difusão do patógeno causador da sífilis – além de notícias das Américas – pela Europa.

Um novo estudo traz evidências que, de acordo com os cientistas, são as mais claras até agora de que o aventureiro italiano e parte de sua tripulação contraíram a doença durante a expedição para o Novo Mundo – e, sem querer, a introduziram no Velho Mundo em 1493.

A pesquisa é o ponto alto de séculos de debates sobre a doença ter se desenvolvido a partir de uma bactéria originária do Velho ou do Novo Mundo.

Pesquisadores da Emory University, em Atlanta, relataram na publicação online PLoS Neglected Tropical Diseases que usaram filogenética – um estudo da ligação evolucionária entre organismos – para estudar 26 linhagens dispersas de uma família de bactérias conhecida como Treponemas, causadora da sífilis, uma doença sexualmente transmissível, e também de infecções não-venéreas, como a bouba (um tipo de erupção cutânea). Eles descobriram que as linhagens que causam a sífilis venérea apareceram em um período relativamente recente na história humana, e estão intimamente relacionadas a uma antiga infecção isolada na América do Sul que causa bouba.

“Isso corrobora a hipótese de que a sífilis – ou algum precursor dessa doença – veio do Novo Mundo,” – declarou Kristin Harper, pesquisadora de genética molecular na Emory e principal autora do estudo.

De acordo com os pesquisadores, a origem da sífilis tem sido debatida acaloradamente desde a primeira epidemia registrada na Europa, em 1495. A maior parte das evidências científicas recentemente foi obtida de ossos de membros de civilizações antigas, tanto do Novo quanto do Velho Mundo; os ossos eram considerados marcadores confiáveis já que a sífilis crônica causa lesão esquelética. No entanto, as análises dos ossos foram dificultadas pela incapacidade de determinar sua idade com precisão, e também pela falta de evidências epidemiológicas.

Outro empecilho potencial é o fato das bactérias Treponema causarem doenças que compartilham sintomas similares, mas são transmitidas de maneiras diferentes. A sífilis é sexualmente transmissível, enquanto que a bouba e a sífilis crônica são doenças tropicais que se espalham pelo contato oral ou pela pele. Uma hipótese é que subespécies de Treponema das Américas tropicais tenham se transformado em linhagens venéreas e mais virulentas, causadoras de sífilis, para conseguirem sobreviver aos climas mais amenos da Europa.

Os cientistas dizem que o estudo é significativo por causa do grande número de linhagens analisadas, incluindo duas espécies de boubas encontradas em habitantes isolados nas Guianas.

“A sífilis foi uma grande assassina na Europa durante o Renascimento”, conta George Armelagos, biólogo da Emory especializado no estudo do esqueleto e co-autor da pesquisa, e que estuda a doença há três décadas. “Compreender sua evolução é importante não apenas para a biologia, mas também para entender a história social e política. Poderíamos dizer que a sífilis é um dos primeiros e mais importantes exemplos de doença globalizada, e a globalização permanece um fator importante para as doenças emergentes.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Colombo levou a sífilis para a Europa?

A DST pode ter sido a primeira doença globalizada

Aparentemente, o Novo Mundo não foi só o que o intrépido explorador Cristóvão Colombo descobriu. Parece que também devemos a ele a difusão do patógeno causador da sífilis – além de notícias das Américas – pela Europa.

Um novo estudo traz evidências que, de acordo com os cientistas, são as mais claras até agora de que o aventureiro italiano e parte de sua tripulação contraíram a doença durante a expedição para o Novo Mundo – e, sem querer, a introduziram no Velho Mundo em 1493.

A pesquisa é o ponto alto de séculos de debates sobre a doença ter se desenvolvido a partir de uma bactéria originária do Velho ou do Novo Mundo.

Pesquisadores da Emory University, em Atlanta, relataram na publicação online PLoS Neglected Tropical Diseases que usaram filogenética – um estudo da ligação evolucionária entre organismos – para estudar 26 linhagens dispersas de uma família de bactérias conhecida como Treponemas, causadora da sífilis, uma doença sexualmente transmissível, e também de infecções não-venéreas, como a bouba (um tipo de erupção cutânea). Eles descobriram que as linhagens que causam a sífilis venérea apareceram em um período relativamente recente na história humana, e estão intimamente relacionadas a uma antiga infecção isolada na América do Sul que causa bouba.

“Isso corrobora a hipótese de que a sífilis – ou algum precursor dessa doença – veio do Novo Mundo,” – declarou Kristin Harper, pesquisadora de genética molecular na Emory e principal autora do estudo.

De acordo com os pesquisadores, a origem da sífilis tem sido debatida acaloradamente desde a primeira epidemia registrada na Europa, em 1495. A maior parte das evidências científicas recentemente foi obtida de ossos de membros de civilizações antigas, tanto do Novo quanto do Velho Mundo; os ossos eram considerados marcadores confiáveis já que a sífilis crônica causa lesão esquelética. No entanto, as análises dos ossos foram dificultadas pela incapacidade de determinar sua idade com precisão, e também pela falta de evidências epidemiológicas.

Outro empecilho potencial é o fato das bactérias Treponema causarem doenças que compartilham sintomas similares, mas são transmitidas de maneiras diferentes. A sífilis é sexualmente transmissível, enquanto que a bouba e a sífilis crônica são doenças tropicais que se espalham pelo contato oral ou pela pele. Uma hipótese é que subespécies de Treponema das Américas tropicais tenham se transformado em linhagens venéreas e mais virulentas, causadoras de sífilis, para conseguirem sobreviver aos climas mais amenos da Europa.

Os cientistas dizem que o estudo é significativo por causa do grande número de linhagens analisadas, incluindo duas espécies de boubas encontradas em habitantes isolados nas Guianas.

“A sífilis foi uma grande assassina na Europa durante o Renascimento”, conta George Armelagos, biólogo da Emory especializado no estudo do esqueleto e co-autor da pesquisa, e que estuda a doença há três décadas. “Compreender sua evolução é importante não apenas para a biologia, mas também para entender a história social e política. Poderíamos dizer que a sífilis é um dos primeiros e mais importantes exemplos de doença globalizada, e a globalização permanece um fator importante para as doenças emergentes.”

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Quem faz as guerras químicas

No momento em que os EUA usam fósforo branco e urânio empobrecido contra o Iraque, vale observar as seqüelas do agente laranja provoca no Vietnã, vinte anos após pulverizado

Francis Gendreau

Entre 1961 e 1971, o exército norte-americano realizou pulverizações maciças de desfolhantes sobre o Vietnã. Pretendia arrasar a cobertura vegetal, para impedir que adversário se camuflasse, e destruir as colheitas para matar de fome as populações e os combatentes. O segundo objetivo era explícito: como “as operações de guerrilha dependiam estreitamente das colheitas locais para seu abastecimento, os agentes antiplantas possuíam um elevado potencial ofensivo para destruir ou limitar a produção de alimento [1]…”

Os desfolhantes compreendiam essencialmente o agente laranja - que contém a dioxina, um produto químico particularmente tóxico. A quantidade de desfolhantes derramada foi estimada em 2003, por uma equipe de investigadores norte-americanos, em 77 milhões de litros e a da dioxina em quase 400 quilos — uma quantidade considerável [2]. A superfície abrangida atingiu 2,6 milhões de hectares (essas superfícies foram “tratadas” em média cinco vezes, e certas zonas receberam até dez pulverizações sucessivas). Isso representa 10% da superfície do Vietnã do Sul e 50% das florestas de mangue. No total, entre 2,1 milhões e 4,8 milhões de pessoas, que viviam nas 20 mil aldeias, foram diretamente afetadas. A título de comparação, no acidente de Seveso [3] , algumas centenas de gramas de dioxina (provavelmente menos de 2 kg) espalharam-se durante 20 minutos sobre 1.800 hectares, onde viviam 37 mil pessoas.

Foi uma catástrofe sanitária e ambiental para o Vietnã. E ainda é, porque a dioxina, produto químico muito estável, degrada-se lentamente e se integra na cadeia alimentar. Seus efeitos persistem no ambiente e afetam os habitantes das zonas atingidas [4]. Há alguns anos, os líderes vietnamitas, as autoridades locais, as associações humanitárias e organizações não governamentais (ONGs) que atuam no local - como a Cruz Vermelha vietnamita - tomaram consciência desse problema de múltiplas facetas [5]: humanitário, sanitário, sócio-econômico, ambiental, político e jurídico [6].

Seqüelas físicas e traumas coletivos
Trinta anos após o fim das pulverizações, o agente laranja continua a provocar mortes, patologias de extrema gravidade, mal-formações no nascimento (deficiências físicas e mentais, membros ou órgãos supranumerários ou deficitários, lesões nervosas irreversíveis etc.). A Cruz Vermelha vietnamita calcula o número de vítimas em cerca de 1 milhão. Certamente, a relação de causalidade entre a dioxina e algumas patologias nem sempre é cientificamente demonstrada. Mas investigações efetuadas nos Estados Unidos entre veteranos estadunidenses da guerra do Vietnã consideraram que a dioxina foi responsável por várias patologias agudas ou crônicas, principalmente diferentes tipos de câncer [7]. No Vietnã, estudos genealógicos confirmam que as famílias cujos ascendentes sofreram pulverizações foram particularmente afetadas por abortos espontâneos e mal-formações congênitas.

No plano psicológico, as conseqüências do agente laranja traduzem-se por um “traumatismo coletivo” que toca o conjunto do tecido cultural e social
Toda a população foi atingida: devido à miscigenação ligada às migrações, o norte e o sul foram afetados. Numerosas famílias têm pelo menos um membro deficiente, adulto ou criança, a quem é necessário fornecer cuidados médicos e cirúrgicos, reeducação adequada, próteses, cadeira de rodas ou outros materiais adaptados.

No plano psicológico, as conseqüências do agente laranja traduzem-se por um “traumatismo coletivo” que toca o conjunto do tecido cultural e social. A deficiência física é às vezes vista, pelo círculo de familiares e amigos, como a manifestação de mau destino ou conseqüência de uma “falta”. Há manifestações de rejeição dos pacientes pela comunidade das vilas. As vítimas têm, então, seu status social diminuído, que se estende aos outros membros da família. Eles também são rejeitados: os irmãos e as irmãs com boa saúde não podem se casar, por exemplo. Além disso, sobre os elevados platôs do Vietnã Central, região particularmente afetada pelas pulverizações, vivem “minorias étnicas” cuja cultura atribui um lugar importante à natureza (a floresta, a água etc.). Com a degradação ou a destruição dos ecossistemas devido ao desfolhamento, o seu universo de referência desabou.

As repercussões econômicas são enormes e a força de trabalho é afetada. Os adultos de uma família que goza de boa saúde devem consagrar parte do seu tempo a se ocupar dos parentes deficientes. As crianças doentes têm dificuldades para ser escolarizadas. Os rendimentos das famílias são diminuídos e o custo dos cuidados médicos agrava sua situação. Uma pesquisa feita em 2001 na província de Quang Tri (ao redor paralelo 17, zona particularmente desflorestada) mostrou que o rendimento per capita das famílias que têm pelo menos um membro deficiente é metade que o das famílias não afetadas, e que as despesas médicas per capita são 30% superiores8 .

É preciso colocar em prática dispositivos de ajuda para favorecer a inserção das vítimas na vida econômica e social, dar-lhes os meios para prover suas necessidades básicas. Pode ser, por exemplo, formação em certos ofícios, exigindo a adaptação dos postos de trabalho, ou um apoio ao crescimento dos rendimentos nas famílias, pelo fornecimento de animais de criação (porcos, vacas, búfalos).

As autoridades vietnamitas não estão indiferentes a esses problemas. O governo fornece a certas vítimas subsídios que vão de 5 a 10 euros por mês (independentemente das ajudas eventualmente prestadas pelas províncias e pelos distritos). É pouco, mesmo considerando o padrão de vida médio (de 530 euros per capita por ano). No entanto, pesa no orçamento (no total, cerca de 50 milhões de euros ou 0,5% das despesas públicas).

Uma vegetação muito pobre, chamada no Vietnã de “erva americana”, recobre as zonas de pulverizações
O desastre ambiental persiste
Em relação ao meio ambiente, ainda que as taxas de dioxina no solo sejam felizmente baixas, regiões inteiras tornaram-se impraticáveis para os agricultores. Uma vegetação muito pobre, chamada no Vietnã de “erva americana”, recobre as zonas de pulverizações. Os solos perdidos para as atividades humanas devem ser reabilitados, tornados novamente aptos à agricultura. Florestas e mangues devem reflorestados.

Além disso, existem as zonas poluídas “hot spot”, onde a dioxina é encontrada em taxas elevadas no solo, sedimentos e em certos lagos. São as regiões onde foram efetuados pulverizações mais maciças (vale de A Luoi, ao oeste de Hué, perto da fronteira com o Laos, por exemplo), ou ainda os locais de armazenamento, como certos aeroportos e seus arredores, onde os aviões terminavam de liberar sua carga antes de aterrizar ao regresso da missão (Bien Hoa, IP Nang, Ho Chi Minh etc.). Nessas zonas, a dioxina tem conseqüências para a saúde animal e pode ser encontrada em certos alimentos (peixes, camarões, frangos, patos, porcos). Pode-se também detectá-la no leite materno, devido sua reciclagem na cadeia alimentar. Medidas devem ser tomadas para proteger as populações e suas atividades econômicas - impõe-se uma descontaminação, as populações devem ser informadas e eventualmente deslocadas.

Perante a amplitude do desastre, a questão fundamental permanece: responsabilidade. Um momento decisivo foi tomado com a criação da Associação Vietnamita das Vítimas do Agente Laranja/Dioxina [8], em Hanoi, em 10 de janeiro de 2004. A partir da seu surgimento, a associação e as vítimas apresentaram (em 30 de janeiro) ao Tribunal de Justiça do distrito leste de Nova York uma queixa contra as 36 empresas que fabricam o agente laranja para o exército norte-americano [9]. Entre essas sociedades, estão a famosa Monsanto [10] e a Dow Chemical. Os motivos jurídicos são numerosos: violações das leis internacionais, crimes de guerra, fabricação de produtos perigosos, prejuízos tanto involuntários como intencionais, enriquecimento abusivo etc. Os queixosos reclamaram indenizações por lesões pessoais sofridas, mortes, nascimentos de crianças mal-formadas e reparações para a necessária descontaminação do ambiente e a restituição dos lucros. Por enquanto, essa queixa, examinada unicamente do ponto de vista da sua admissibilidade, foi rejeitada pelo tribunal em primeira instância, em 10 de março passado.

Os queixosos imediatamente apelaram. Seu objetivo não é somente obter a reparação para os sofrimentos sofridos, mas também ver a comunidade internacional, sobretudo os Estados Unidos, reparar um escandaloso esquecimento da história “oficial”. Nesse espírito, o processo judicial pode ser apenas um primeiro passo: muito mais que as vítimas e as empresas, as conseqüências do agente laranja envolvem dois Estados: EUA o Vietnã. O primeiro, por ter cometido um crime de guerra; o segundo, atingido na sua população e território. Estão em debate a eficácia do direito humanitário e a imperiosa necessidade de reparar os prejuízos da guerra.

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[1] Quartel general do Departamento de Defesa dos EUA, abril de 1969, “Training circular n° 3-16. Employment of riot control agents flame, smoke, antiplant agents, and personnel detectors in counterguerilla operations”, Washington D. C.

[2] Ler Jeanne Mager Stellman, “The extent and patterns of usage of Agent Orange and other herbicides in Vietnam”, Nature, 17 de abril de 2003.

[3] Cidade situada na Itália, perto de Milão, onde um acidente acontecido em julho de 1976 num reator químico que produz clorofenol na fábrica Icmesa emitiu uma nuvem de vapores com a dioxina.

[4] Ler Schofield Coryell, “Au Vietnam, le Napalm tue Encore”, Le Monde Diplomatique, março de 2002.

[5] Nessa perspectiva, a AAFV organizou uma conferência internacional no Senado em Paris entre 11 e 12 de março de 2005 e publicou uma obra, “L’agent Orange au Vietnam. Crime d’Hier, Tragédie d’Aujourd’hui” (Tirésias, 2005).

[6] Ler Monique Chemillier-Gendreau, “Dommages de Guerre à Géométrie Variable”, Le Monde Diplomatique, outubro de 2003.

[7] Mas o governo dos Estados Unidos nunca reconheceu a sua responsabilidade, não apenas no que diz respeito aos veteranos (ler Howard Zinn, “L’ultime trahison”, Le Monde Diplomatique, abril de 2004), mas também em relação às vítimas vietnamitas.

[8] www.vava.org.vn

[9] O texto desta queixa está disponível no site: www.nnn.se/vietnam/environ.htm na rubrica “Open Forum”.

[10] É também a Monsanto que fabrica o “Round Up Ultra”, o desfolhante utilizado na Colômbia.

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O longo e épico adeus

Fidel se afastou do poder como viveu sua vida: sempre no centro das atenções

Jon Lee Anderson*

No início dos anos 90, quando eu morava em Havana com a família, minha filha mais velha, Bella, então com cerca de 6 anos, chegou da escola num estado de excitação. Ela me perguntou, em espanhol: “Papai, você sabe o que significa amor?” Fingi que não sabia. Bella respirou fundo e recitou: “Amor es lo que Fidel siente para el pueblo”.
Cuidando para não demonstrar meu incômodo, parabenizei Bella por sua memória, e ela brilhou de orgulho. Compreensivelmente, estava muito feliz com a façanha escolar.
A escola primária de Havana que Bella freqüentava chamava-se Eliseo Reyes, em homenagem a um guerrilheiro cubano que acompanhara Ernesto Che Guevara na expedição final à Bolívia e morrera com ele no país, lutando pela causa da revolução marxista. Acima da porta principal da escola, uma placa de madeira dizia: “Muerte a Traidores”.
A cartilha de Bella trazia pequenos símbolos ilustrando cada letra do alfabeto. O símbolo de “F”, por exemplo, era um fuzil, enquanto o de “T” era um tanque. Espalhavam-se pelo livro dizeres de Fidel sobre a importância da educação, do estudo e do dever revolucionário. Também havia fotos. Uma mostrava um jovem Fidel entrando em Havana num tanque. Outra o exibia no calor da batalha, comandando as tropas cubanas durante a invasão da Baía dos Porcos , em 1961. Na cartilha escolar, Fidel Castro sempre era citado apenas como Fidel.
Inevitavelmente, nos três anos que vivemos em Cuba, Fidel se tornou uma figura ao mesmo tempo familiar e emblemática para meus filhos - metade avô, metade Deus. Com os feitos e aforismos de Fidel servindo de alimento diário e seu rosto e sua voz onipresentes toda noite na televisão, meus filhos aprenderam que El Jefe Máximo era o supremo guia que controlava suas vidas e as de todos ao redor. Ele representava o passado, o presente e também o futuro. Fidel, de algum modo, era Cuba.
Agora, aparentemente, Fidel renuncia. A doença e a idade já o obrigaram a deixar a arena pública, que ocupou por quase meio século, para sumir num longo isolamento desde julho de 2006. À parte o estilo basicamente silencioso de seu demorado adeus, pareceu adequado Fidel ter se afastado do mesmo modo que viveu sua vida - como num longo épico. Ao não aparecer em público, ao desaparecer e no entanto não desaparecer, ele continuou sendo, claramente, o centro das atenções em Cuba, como sempre foi.
Se a sobrevivência é uma virtude, Fidel é de fato um grande virtuoso, pois está conosco há muitíssimo tempo. Em 1957, quando ele estava na Sierra Maestra combatendo o ditador cubano Fulgencio Batista, Dwight D. Eisenhower era o presidente americano e os Estados Unidos ainda tinham só 48 Estados. Durante os dois anos da guerra de guerrilha de Fidel, os soviéticos puseram o Sputnik no espaço, Detroit lançou o Ford Edsel e Leave it to Beaver estreou na TV americana.
Fidel tomou o poder em janeiro de 1959 e se transformou no mais longevo líder político do mundo, sobrevivendo não apenas a nove presidentes americanos, mas também a seu maior patrocinador ideológico e financeiro, a União Soviética. O comunismo ruiu; Fidel, não.
Ao longo das décadas, ele deixou sua marca muito além das fronteiras de Cuba. Da ruptura com os Estados Unidos, da adoção do socialismo e da aliança com a URSS (que levaram à invasão da Baía dos Porcos e depois à crise dos mísseis) ao patrocínio a longo prazo da revolução marxista na América Latina e na África, o desafio de Fidel à hegemonia americana no exterior acabou por redefinir a Guerra Fria.
A relevância política internacional de Fidel pode ter definhado depois da era do confronto das superpotências, mas sua mera sobrevivência o transformou num dos estadistas mais velhos do mundo, e também um dos mais admirados. O embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba - um rude legado da guerra fria que existe há 46 anos e continua em vigor - só aumentou a torcida pró-Fidel, assim como inspirou outros a seguir seu exemplo de “rato que ruge”. O mais proeminente é o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que deixa bem clara a intenção de imitar Fidel desafiando com vigor as políticas dos EUA em seu país e ao redor do mundo.
Já em Cuba, pode-se dizer que a revolução foi um experimento político, social e econômico bem-sucedido em alguns aspectos e desastroso em muitos outros, garantindo que seu legado doméstico será controverso e, talvez, tão duradouro quanto seu governo.
Muitos cubanos são genuinamente leais a Fidel e têm pavor das incertezas que sua morte deverá trazer. Seu irmão mais novo, Raúl, assumiu discretamente o papel consagrado de sucessor de Fidel. Isso já representou uma espécie de continuidade, mas a idade avançada de Raúl, 76 anos, significa que ele será apenas uma figura de transição. Assim, o futuro do país ainda é uma questão em aberto.
Por outro lado, muitos cubanos sonharam durante anos com a morte de Fidel, convencidos de que o destino os puniu entregando suas vidas a esse homem particularmente obstinado, egocêntrico e resistente. Sob ele, suas vidas transcorreram numa espécie de invólucro de realidade sufocante, um reino exclusivamente cubano no qual o tempo pára e avança simultaneamente, oscilando entre episódios dramáticos ligados inextricavelmente aos caprichos e desejos de Fidel. Como ele sempre imaginou a si mesmo, seus compatriotas e Cuba envolvidos numa luta heróica - pelo socialismo, contra o imperialismo, em defesa da soberania nacional e assim por diante -, isso de algum modo se concretizou. Graças à sua constante exaltação da rotina cubana como algo vital na luta pela sobrevivência da revolução, existe um senso coletivo de significado no dia-a-dia de Cuba.
Em 2005, por exemplo, depois que Fidel lançou uma campanha nacional de economia de energia, seu governo importou uma enorme quantidade de panelas de pressão chinesas e começou a distribuí-las aos cubanos a preços subsidiados. Em seguida, numa série de discursos na TV, ele explicou os problemas energéticos de Cuba e argumentou que a eficiência das panelas de pressão transformara sua aquisição num dever patriótico. É difícil imaginar alguém, que não Fidel, capaz de transformar um utensílio de cozinha numa prioridade nacional urgente.
Com Fidel dedicando a mesma paixão a tudo, das campanhas de erradicação de mosquitos - “a batalha contra a dengue” - à luta para “preservar as conquistas do socialismo”, a existência cotidiana adquiriu um sentido solene, mas freqüentemente desolado para os cubanos, pois as escaramuças na grande revolução são intermináveis e o futuro perfeito nunca chega.
Suspeito que, com Fidel afastado, não só seus defensores sintam sua falta, mas também seus oponentes. Por mais que eles tenham sofrido, a qualidade épica de suas próprias vidas desaparece com o eclipse da era de Fidel. O próximo golpe será sua morte e, inevitavelmente, o rebaixamento da história cubana e, talvez, da própria ilha. Se, nos últimos 49 anos, Fidel foi Cuba, o que Cuba será sem ele?
Todo cubano entende que a renúncia de Fidel - ou mesmo sua morte - não levará necessariamente ao fim do longo impasse entre Cuba e Estados Unidos e, de um modo ou de outro, o futuro da ilha será determinado, direta ou indiretamente, como sempre foi, por decisões tomadas em Washington.
Há poucos anos, Caleb McCarry, nomeado “coordenador da transição em Cuba” pelo governo Bush, disse-me que, mesmo se Raúl Castro adotasse medidas para abrir a economia, como fez a China, isso não alteraria a política dos EUA para a ilha. “Liberdades econômicas são importantes”, afirmou McCarry, “mas é preciso haver também liberdade política - democracia multipartidária. No fim das contas, é isso que ajudará os cubanos a encarar o legado da ditadura sob a qual viveram e definir um futuro onde a reconciliação e a liberdade sejam possíveis. Em outras palavras, a solução é uma transição genuína que devolva a soberania ao povo cubano, permitindo que ele decida quem serão seus líderes.”
Na falta disso, o governo americano “continuará a oferecer uma transição real em Cuba, e continuaremos tratando o regime com firmeza”.
Tal discurso franco em Washington sobre a promoção da “mudança de regime” soa, para a maioria dos cubanos que conheço, incluindo detratores de Fidel, insuportavelmente intervencionista. Mas isso não é nenhuma novidade; esse discurso é tão velho quanto a nação cubana, ela própria criada pela intervenção dos EUA durante a Guerra Hispano-Americana. Com a independência cubana veio uma série quase ininterrupta de regimes pró-americanos, alguns totalmente submissos.
Muito antes de se tornar um socialista, Fidel foi um fervoroso nacionalista cubano que concebeu sua revolução como o antídoto da intromissão ianque ao longo da história do país. Mais tarde, passou a acreditar que ele e sua revolução haviam finalmente garantido a soberania cubana total - ou, como ele dizia com freqüência, a “dignidade” - ao enfrentar os Estados Unidos e sobreviver.
Numa conversa que tivemos em 2006, Ricardo Alarcón, o presidente da Assembléia Nacional de Cuba, sugeriu que a independência cubana foi a conquista mais importante de Fidel e sua revolução. Mas Alarcón também pareceu temer que no futuro, depois de Fidel, a soberania do país não esteja mais garantida.
Ele afirmou: “Temos um dilema básico, praticamente sem paralelo. Sabe por quê? Porque sempre seremos um país pequeno, enquanto o outro - o seu - sempre será grande. Não importando os problemas que vocês tenham no Iraque, com sua economia e tudo o mais, o fato é que vocês são uma grande potência e Cuba é um pequeno país. Há duas realidades que vocês não podem mudar: a grande desproporção entre as duas nações e sua proximidade geográfica, o que para nós é tudo”.
“Sabe qual é nosso grande problema? Observamos, e o que vemos é um jogo desigual. Não temos como realmente competir, então tudo o que podemos fazer é apostar na idéia de que um dia haverá nos Estados Unidos um governo motivado por outras idéias, outras atitudes.”
O tempo dirá. Cada um dos candidatos presidenciais americanos reagiu à renúncia de Fidel com pedidos de liberdade em Cuba. Barack Obama disse que os EUA deveriam estar prontos para normalizar as relações se Havana “começasse a abrir Cuba a mudanças democráticas significativas”. Mas por enquanto, depois de 50 anos de revolução e 81 de vida, Fidel está quase no fim, e Cuba e os Estados Unidos permanecem onde sempre estiveram - separados pelo mar, a 145 quilômetros um do outro.

*Jon Lee Anderson é jornalista, colaborador da revista The New Yorker e autor, entre outros, de Che - uma Biografia (Objetiva).

Estado de S. Paulo

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A odisséia de onze esportistas iraquianos em busca de asilo político em Chipre

Cécile Hennion

Então são vocês, os iraquianos da equipe de taekwondo que desapareceram?” Diante dos policiais estupefatos, eles responderam positivamente, com um aceno coletivo com a cabeça. Todos eles ainda estavam alheios à agitação que tomou conta da mídia da ilha de Chipre, provocada pelo seu desaparecimento, em 10 de janeiro, do hotel Kasgar Court em Kyrenia, um pequeno porto da (autoproclamada) República Turca de Chipre do Norte, onde eles haviam sido convidados para uma série de treinamentos com a equipe local.

Cinco dias mais tarde, após terem “reaparecido” na frente de uma delegacia de Larnaka, na parte sul da ilha, parte do território da União Européia, eles se limitaram a apresentar os seus passaportes, explicando que haviam entrado em Chipre para apresentar um pedido de asilo político. E que para eles estava fora de questão retornem ao Iraque. “Nós tivemos uma hora de pausa durante um dos treinos”, conta um deles. “Foi exatamente o tempo necessário para irmos até o hotel, colocar os nossos abrigos e nos esconder! Nós abandonamos todo o resto, as nossas malas e os nossos equipamentos, dentro dos nossos quartos”. Foi assim que os onze iraquianos da equipe de taekwondo iniciaram a sua fuga, contra a vontade do seu capitão, Taha Al-Azzawi, que, sem nada poder fazer e furioso diante desta deserção maciça, teria jurado que ele iria alertar a polícia ao perceber que eles estavam escapulindo.

A respeito dos detalhes desta fuga cinematográfica, uma única frase: “No comment”. Eles não farão nenhum comentário, exceto para revelar a pequena fortuna - US$ 5.000 (pouco menos de R$ 9.000) - que eles teriam pago aos passadores para atravessarem a “linha verde” que corta Chipre em dois. A presença de uma mulher idosa, mãe de um dos esportivos, além de duas crianças e de um recém-nascido doente, são outros fatos que constituem alguns dos numerosos mistérios que cercam o desenrolar desta viagem. A condição física destes atletas de taekwondo também permanece uma incógnita. No saguão do hotel Sunflower em Larnaka, que se tornou o quartel-general e a sala de espera comum para dezenas de cidadãos originários do Oriente Médio que aguardam uma resposta para o seu pedido de asilo, os oito “atletas” que aceitaram contar a sua história estão em péssimo estado.

Mustafa (ele não aceitou revelar a sua verdadeira identidade), 36 anos, perdeu o movimento do braço esquerdo e tem uma dupla cicatriz no alto da cabeça. Em 2006, um grupo de milicianos o seqüestrou junto com o seu pai, no bairro de Adhamiya, onde eles viviam em Bagdá. O seu pai foi executado. Mustafa foi considerado morto, abandonado à beira de uma estrada com uma bala na cabeça. Ele acabou voltando a si num leito de hospital, depois de 38 dias de coma. Por sua vez, Alaa, 30 anos, por pouco não foi queimado vivo dentro do seu carro, em 2006, durante uma emboscada no posto de controle de uma milícia, não longe da sua cidade de Baaquba, ao norte de Bagdá. Saleh, 17 anos, foi seqüestrado em duas ocasiões, quando ele estava em sua casa. Nesse meio-tempo, o seu pai foi assassinado. “As artes marciais me ensinaram a me defender, mas não contra disparos de kalachnikovs”, diz, com o olhar sombrio.

Ahmed morava com a sua mulher (também uma integrante da equipe) em Haditha, e não mais agüentava a vida que eles estavam levando naquele lugar: “Nós estávamos presos numa armadilha, entre as tropas americanas que nos prendem e nos encarceram quando elas bem entendem; os explosivos colocados nas estradas e os terroristas da Al Qaeda”. Ele é o jovem pai de uma menininha de três meses, a qual ele estava decidido a afastar a qualquer custo “daquele furor iraquiano”. O bebê, que chegou doente a Chipre, passou os seus primeiros dias em Larnaka de hospital em hospital. “Ela é uma futura grande esportiva”, diz para se tranqüilizar.

Estes iraquianos têm como único ponto em comum o fato de serem sunitas. “Isso nada tem de surpreendente”, explica Mustafa. “Os esportistas xiitas treinam no Irã, enquanto os sunitas vão para Turquia ou para a Jordânia. Aliás, é melhor que seja assim”. Os “doboks” (vestuário para treinamento) ficaram no vestiário, mas não os pesadelos. Mustafa e Alaa levaram os seus telefones celulares, que têm armazenados vídeos que mostram Mustafá com a cabeça raspada e duas feridas escancaradas dos dois lados da cabeça e Alaa com as costas e os braços cobertos de queimaduras. Eles não pretendem utilizar esses vídeos como “provas” para convencer os serviços da imigração. Segundo a legislação em vigor na República de Chipre, eles receberão automaticamente - com a exceção apenas dos detentores das nacionalidades iraquiana e palestina - o asilo territorial, uma proteção subsidiária que lhes permitirá permanecerem e trabalharem durante um ano até que o seu caso seja reexaminado. Os dois homens dizem estarem conservando essas imagens para “mostrá-las para os seus filhos”, que estão instalados na Síria, “de maneira que eles se lembrem disso tudo”.

Ao longo dos últimos anos, tudo o que eles mantiveram gravado em sua memória em relação ao esporte no Iraque foram apenas dois eventos: a descoberta, em 17 de julho de 2007, de treze cadáveres, todos membros da equipe nacional de taekwondo, que haviam sido seqüestrados mais de um ano antes entre Fallouja e Ramadi. Este grupo estava viajando para a Jordânia com a esperança de obter a sua qualificação para os Jogos Olímpicos de Pequim. Dois dias antes, o presidente do comitê olímpico iraquiano, Ahmed Abdel Ghafur Al-Sammaraï Al-Hajji, também havia sido seqüestrado em pleno centro de Bagdá por homens que trajavam uniformes de polícia. Desde então, ninguém nunca mais soube do seu paradeiro.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) havia então declarado que ele tomaria medidas visando a facilitar os treinamentos de esportivos iraquianos fora do seu país. Para a pequena equipe de “braços quebrados”, esses assassinatos em série haviam reforçado, sobretudo, a sua convicção de que era preciso fugir. Mas a decisão final, afirmam os fugitivos, foi tomada por ocasião de uma discussão muito tensa, no convés do navio que os estava levando até os tatames da Federação cipriota turca de taekwondo.

“Isso tudo está me cheirando uma história suja”, comenta, do outro lado da “linha verde”, Phivos Christou, o representante dubitativo da “única federação de taekwondo da ilha oficialmente reconhecida pelo COI”. Todos os contatos de iraquianos com os esportivos turcos ou com os seus representantes foram suspensos brutalmente a partir de 2006. Em relação a este maluca empreitada da equipe iraquiana, Christou diz que ele tentou em vão entrar em contato com eles. A mais recente entrada legal em data de esportivos iraquianos no sul deste território dotado de uma geopolítica complicada remonta a 2004.

Naquele ano, a Grã-Bretanha, que mantém na ilha várias bases militares, havia solicitado às autoridades cipriotas que elas aceitassem oferecer a sua infra-estrutura para os treinamentos da equipe olímpica do Iraque antes das Olimpíadas de Atenas. “Nós aceitamos sem nenhum problema, é claro”, conta Andreas Stavrou, o secretário-geral do comitê olímpico de Chipre. “E nós também sabemos que as condições no Iraque não melhoraram nem um pouco”. Ele também acrescenta que - por uma ironia do destino - os uniformes da equipe olímpica cipriota e de toda a sua delegação são patrocinados por um homem de negócios… iraquiano, que está instalado há muito tempo no sul da ilha.

Em Larnaka, o saguão-sala de espera do hotel Sunflower ainda não revelou um derradeiro mistério: a presença de ao menos três outros iraquianos, eles também atletas de taekwondo, que haviam sido convidados para competições amistosas no norte turco da ilha em novembro de 2007, e que imediatamente se bandearam para o lado sul, sem que ninguém percebesse. Ao que tudo indica, é perfeitamente possível que nenhum deles nunca tenha praticado recentemente outro tipo de esporte, a não ser aquele da sobrevivência no Iraque.

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Integração à UE é falsa promessa da Europa para os Bálcãs

Sérvia, Kosovo, Montenegro, Macedônia. A União Européia mostrou a cenoura da afiliação a todos esses países. Mas quem na UE quer ver o bloco aumentar? Quase ninguém

Hans-Jürgen Schlamp
Em Bruxelas

A Europa é uma potência mundial, pelo menos em princípio. Com a declaração divulgada na segunda-feira pelos 27 ministros das Relações Exteriores da União Européia, tornou-se mais ou menos a política oficial do bloco: a Europa, diz a declaração, terá um papel de liderança na estabilidade de todos os Bálcãs ocidentais.
Nos próximos 120 dias, cerca de 2 mil policiais, peritos judiciais e especialistas do serviço civil seguirão para o recém-independente Kosovo para ajudar a estabelecer a estrutura de trabalho oficial necessária para um país funcionar. Bruxelas entrou no clube de elite das potências que assumiram total responsabilidade pela segurança e a economia de um território estrangeiro. Os outros membros modernos desse clube são Moscou e Washington.

Daniel Mihailescu/AFP - 18.fev.2008

Garoto segura bandeiras sérvias durante protesto no vila de Gracanica, em Kosovo

Como exatamente isso vai funcionar no caso de Kosovo -e no resto dos Bálcãs ocidentais- é há muito tempo um tema para "brainstorming" e sessões de planejamento. A estratégia resultante depende em grande parte de dois instrumentos: um envolve dinheiro e o outro mostra a cenoura do eventual acesso à União Européia. Os países que se comportarem receberão primeiro um pacote de ajuda econômica e então, em algum momento, a identidade de sócio, completa, com a paz e a prosperidade que a acompanham.
A lógica política é fácil de seguir. Oferecer aos países da antiga Iugoslávia uma "perspectiva européia", como se diz nos salões de Bruxelas, vai encorajar os vários grupos étnicos, religiosos e lingüísticos da região a abandonar qualquer idéia de novos derramamentos de sangue.
Mas há um detalhe: alguns -talvez a maioria- dos membros da UE estão trabalhando ativamente contra essa vaga promessa de afiliação feita aos sérvios, bósnios, montenegrinos e albaneses. Bruxelas tem de andar na corda bamba e oferecer a esses países o prêmio da afiliação sem realmente dá-la. O motivo disso é claro: com o acesso da Romênia e Bulgária à UE em 1º de janeiro de 2007, a disposição do grupo de se expandir ainda mais encolheu para zero.
A Spiegel Online examina rapidamente as possibilidades de acesso à UE de cada país dessa região inclinada a crises:
Croácia - próximo membro da UE?
A Croácia é a primeira candidata ao acesso na sala de espera dos Bálcãs, e como tal a primeira a ser afetada pela nova atitude européia em relação à expansão. Há muito tempo disseram que o país entraria para o clube em 2009. Mas hoje em dia poucos em Bruxelas acreditam que a Croácia será convidada para embarcar antes de 2011 -apesar das negociações continuarem em bom ritmo. As negociações começaram em 3 de outubro de 2005 e vão bem, segundo um recente relatório da Comissão Européia. A economia do país está crescendo e as reformas jurídicas, conforme os regulamentos da UE, estão bem encaminhadas.
Mas enquanto a comissão demonstrou uma disposição a olhar para outro lado quando avaliou falhas óbvias tanto na Romênia quanto na Bulgária, antes da ampliação de 2007, hoje minúcia é o nome do jogo -especialmente quando se trata de inadequações jurídicas ou deficiências no combate à corrupção. E enquanto os burocratas europeus se tornam mais detalhistas a euforia diminui no país -resultando em menos disposição para cooperar entre seus políticos. As conseqüências podem ser vistas nos choques recentes sobre direitos de pesca ao largo da costa da Croácia, ou disputas sobre o acesso da vizinha Eslovênia às águas internacionais. Zagreb está se tornando menos disposta a compromissos. Os que são forçados a correr atrás da cenoura por muito tempo eventualmente perderão o apetite.
Macedônia - esperando pelos vizinhos?
Os macedônios ainda estão ávidos para entrar na UE, e o país, que fica ao norte da Grécia, é o segundo candidato oficial à afiliação nos Bálcãs. Mas as negociações de acesso ainda nem começaram -Bruxelas também está ganhando tempo aqui. O país fez rápido progresso na implementação de uma estrutura de pré-acesso e até deu passos na direção de controlar a corrupção, como Bruxelas notou. O crescimento sólido com inflação limitada também pode ser colocado no lado positivo da balança, mas a UE nota uma constante tensão política no país entre a maioria eslava e a minoria albanesa. Em suma, a Macedônia não será convidada a entrar para a UE tão cedo, e provavelmente terá de esperar até que seus vizinhos estejam prontos para que possa se unir ao grupo.
Albânia, Montenegro e Bósnia-Herzegovina -ainda nã