A odisséia de onze esportistas iraquianos em busca de asilo político em Chipre
Cécile Hennion
Então são vocês, os iraquianos da equipe de taekwondo que desapareceram?” Diante dos policiais estupefatos, eles responderam positivamente, com um aceno coletivo com a cabeça. Todos eles ainda estavam alheios à agitação que tomou conta da mídia da ilha de Chipre, provocada pelo seu desaparecimento, em 10 de janeiro, do hotel Kasgar Court em Kyrenia, um pequeno porto da (autoproclamada) República Turca de Chipre do Norte, onde eles haviam sido convidados para uma série de treinamentos com a equipe local.
Cinco dias mais tarde, após terem “reaparecido” na frente de uma delegacia de Larnaka, na parte sul da ilha, parte do território da União Européia, eles se limitaram a apresentar os seus passaportes, explicando que haviam entrado em Chipre para apresentar um pedido de asilo político. E que para eles estava fora de questão retornem ao Iraque. “Nós tivemos uma hora de pausa durante um dos treinos”, conta um deles. “Foi exatamente o tempo necessário para irmos até o hotel, colocar os nossos abrigos e nos esconder! Nós abandonamos todo o resto, as nossas malas e os nossos equipamentos, dentro dos nossos quartos”. Foi assim que os onze iraquianos da equipe de taekwondo iniciaram a sua fuga, contra a vontade do seu capitão, Taha Al-Azzawi, que, sem nada poder fazer e furioso diante desta deserção maciça, teria jurado que ele iria alertar a polícia ao perceber que eles estavam escapulindo.
A respeito dos detalhes desta fuga cinematográfica, uma única frase: “No comment”. Eles não farão nenhum comentário, exceto para revelar a pequena fortuna - US$ 5.000 (pouco menos de R$ 9.000) - que eles teriam pago aos passadores para atravessarem a “linha verde” que corta Chipre em dois. A presença de uma mulher idosa, mãe de um dos esportivos, além de duas crianças e de um recém-nascido doente, são outros fatos que constituem alguns dos numerosos mistérios que cercam o desenrolar desta viagem. A condição física destes atletas de taekwondo também permanece uma incógnita. No saguão do hotel Sunflower em Larnaka, que se tornou o quartel-general e a sala de espera comum para dezenas de cidadãos originários do Oriente Médio que aguardam uma resposta para o seu pedido de asilo, os oito “atletas” que aceitaram contar a sua história estão em péssimo estado.
Mustafa (ele não aceitou revelar a sua verdadeira identidade), 36 anos, perdeu o movimento do braço esquerdo e tem uma dupla cicatriz no alto da cabeça. Em 2006, um grupo de milicianos o seqüestrou junto com o seu pai, no bairro de Adhamiya, onde eles viviam em Bagdá. O seu pai foi executado. Mustafa foi considerado morto, abandonado à beira de uma estrada com uma bala na cabeça. Ele acabou voltando a si num leito de hospital, depois de 38 dias de coma. Por sua vez, Alaa, 30 anos, por pouco não foi queimado vivo dentro do seu carro, em 2006, durante uma emboscada no posto de controle de uma milícia, não longe da sua cidade de Baaquba, ao norte de Bagdá. Saleh, 17 anos, foi seqüestrado em duas ocasiões, quando ele estava em sua casa. Nesse meio-tempo, o seu pai foi assassinado. “As artes marciais me ensinaram a me defender, mas não contra disparos de kalachnikovs”, diz, com o olhar sombrio.
Ahmed morava com a sua mulher (também uma integrante da equipe) em Haditha, e não mais agüentava a vida que eles estavam levando naquele lugar: “Nós estávamos presos numa armadilha, entre as tropas americanas que nos prendem e nos encarceram quando elas bem entendem; os explosivos colocados nas estradas e os terroristas da Al Qaeda”. Ele é o jovem pai de uma menininha de três meses, a qual ele estava decidido a afastar a qualquer custo “daquele furor iraquiano”. O bebê, que chegou doente a Chipre, passou os seus primeiros dias em Larnaka de hospital em hospital. “Ela é uma futura grande esportiva”, diz para se tranqüilizar.
Estes iraquianos têm como único ponto em comum o fato de serem sunitas. “Isso nada tem de surpreendente”, explica Mustafa. “Os esportistas xiitas treinam no Irã, enquanto os sunitas vão para Turquia ou para a Jordânia. Aliás, é melhor que seja assim”. Os “doboks” (vestuário para treinamento) ficaram no vestiário, mas não os pesadelos. Mustafa e Alaa levaram os seus telefones celulares, que têm armazenados vídeos que mostram Mustafá com a cabeça raspada e duas feridas escancaradas dos dois lados da cabeça e Alaa com as costas e os braços cobertos de queimaduras. Eles não pretendem utilizar esses vídeos como “provas” para convencer os serviços da imigração. Segundo a legislação em vigor na República de Chipre, eles receberão automaticamente - com a exceção apenas dos detentores das nacionalidades iraquiana e palestina - o asilo territorial, uma proteção subsidiária que lhes permitirá permanecerem e trabalharem durante um ano até que o seu caso seja reexaminado. Os dois homens dizem estarem conservando essas imagens para “mostrá-las para os seus filhos”, que estão instalados na Síria, “de maneira que eles se lembrem disso tudo”.
Ao longo dos últimos anos, tudo o que eles mantiveram gravado em sua memória em relação ao esporte no Iraque foram apenas dois eventos: a descoberta, em 17 de julho de 2007, de treze cadáveres, todos membros da equipe nacional de taekwondo, que haviam sido seqüestrados mais de um ano antes entre Fallouja e Ramadi. Este grupo estava viajando para a Jordânia com a esperança de obter a sua qualificação para os Jogos Olímpicos de Pequim. Dois dias antes, o presidente do comitê olímpico iraquiano, Ahmed Abdel Ghafur Al-Sammaraï Al-Hajji, também havia sido seqüestrado em pleno centro de Bagdá por homens que trajavam uniformes de polícia. Desde então, ninguém nunca mais soube do seu paradeiro.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) havia então declarado que ele tomaria medidas visando a facilitar os treinamentos de esportivos iraquianos fora do seu país. Para a pequena equipe de “braços quebrados”, esses assassinatos em série haviam reforçado, sobretudo, a sua convicção de que era preciso fugir. Mas a decisão final, afirmam os fugitivos, foi tomada por ocasião de uma discussão muito tensa, no convés do navio que os estava levando até os tatames da Federação cipriota turca de taekwondo.
“Isso tudo está me cheirando uma história suja”, comenta, do outro lado da “linha verde”, Phivos Christou, o representante dubitativo da “única federação de taekwondo da ilha oficialmente reconhecida pelo COI”. Todos os contatos de iraquianos com os esportivos turcos ou com os seus representantes foram suspensos brutalmente a partir de 2006. Em relação a este maluca empreitada da equipe iraquiana, Christou diz que ele tentou em vão entrar em contato com eles. A mais recente entrada legal em data de esportivos iraquianos no sul deste território dotado de uma geopolítica complicada remonta a 2004.
Naquele ano, a Grã-Bretanha, que mantém na ilha várias bases militares, havia solicitado às autoridades cipriotas que elas aceitassem oferecer a sua infra-estrutura para os treinamentos da equipe olímpica do Iraque antes das Olimpíadas de Atenas. “Nós aceitamos sem nenhum problema, é claro”, conta Andreas Stavrou, o secretário-geral do comitê olímpico de Chipre. “E nós também sabemos que as condições no Iraque não melhoraram nem um pouco”. Ele também acrescenta que - por uma ironia do destino - os uniformes da equipe olímpica cipriota e de toda a sua delegação são patrocinados por um homem de negócios… iraquiano, que está instalado há muito tempo no sul da ilha.
Em Larnaka, o saguão-sala de espera do hotel Sunflower ainda não revelou um derradeiro mistério: a presença de ao menos três outros iraquianos, eles também atletas de taekwondo, que haviam sido convidados para competições amistosas no norte turco da ilha em novembro de 2007, e que imediatamente se bandearam para o lado sul, sem que ninguém percebesse. Ao que tudo indica, é perfeitamente possível que nenhum deles nunca tenha praticado recentemente outro tipo de esporte, a não ser aquele da sobrevivência no Iraque.
Jornal Le Monde
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