Arquivo de 25 de Fevereiro de 2008

O paradigma oculto da filosofia moderna

Desempenhando um papel decisivo, mas ainda pouco examinado, o ceticismo orientou boa parte da revisão metodológica que inaugura a modernidade

Luiz Antonio Alves Eva

O ceticismo é um tema discutido por quase todos os principais filósofos modernos - seja como um pesadelo epistemológico que, ameaçando nossa capacidade de conhecer a verdade e alcançar a felicidade, deve ser exorcizado pela boa filosofia (como no caso de Berkeley); seja, ao contrário, como filosofia que, parcial ou integralmente, merece ser acolhida (como para Hume ou Montaigne). De fato, foram e ainda são radicais as divergências filosóficas em torno do tema, e bastante prejudicadas por aquele que diríamos ser o primeiro grande problema com que se depara quem se interessa por ele - a saber, a vagueza do que se chama de “ceticismo”. Quem é exatamente o “cético”? Ele pode ser tanto o sujeito caricato que duvida de tudo (desde a antiguidade houve, como Galeno, quem dizia que o cético está condenado à morte porque, como duvida que o sol nasceu, não se levanta) quanto o portador de uma filosofia elaborada e posta em prática, desde os antigos, constituindo doutrinas (ainda que num sentido peculiar, não-sistemático), cuja coerência pode, decerto, ser examinada e questionada noutros níveis de profundidade. De um ponto de vista histórico, todavia, o problema tem um interesse especial, porque a tematização filosófica moderna do ceticismo tem, bem ou mal, com todos os seus mal-entendidos, sua raiz na redescoberta renascentista das escolas filosóficas céticas antigas - o assim chamado ceticismo da Nova Academia de Platão, segundo a versão latina que encontramos em textos de Cícero, ou o pirronismo dos que se denominaram skeptikoi, “aqueles que investigam”, tal como explica Sexto Empírico, uma vez que o exame crítico que esses filósofos empreenderam das demais filosofias, que procuraram, cada qual, oferecer a verdade, ainda não pôde encontrar um fim, pois a verdade deve ser uma só para todos e existem discrepâncias indecidíveis entre elas, bem como recorrentes defeitos argumentativos em cada uma.

Muitos filósofos modernos que ofereceram sua filosofia como antídoto aos problemas “céticos”, como Berkeley, e mesmo outros que pensavam estar propondo um ceticismo “mitigado” (por oposição à virulência do ceticismo propriamente dito), como Hume, aparecem hoje mais próximos do ceticismo antigo, ao menos sob certos aspectos, do que eles mesmos parecem ter podido reconhecer.

A mesma dificuldade marca análises interessantes como a de Ernest Gellner, segundo quem o ceticismo constituiria mesmo uma espécie de “paradigma oculto” da filosofia moderna. Ele sustenta que o poder e a autonomia adquiridos pelo conhecimento entre os modernos acabaram por produzir uma espécie de suspensão do juízo metodológica sobre o “mundo real”, que entre os antigos fora aceito como um dado. Um bom exemplo seria a “revolução copernicana” de Kant, que pretendeu resolver os impasses da metafísica propondo que, em vez de indagar como o nosso conhecimento se regula pelas coisas, deveríamos nos indagar sobre como nossas condições a priori de conhecimento nos permitem conhecer o que conhecemos. Não deixa de ser curioso que os impasses da metafísica que Kant pretende contornar também são similares aos descritos pelos céticos.

Mas seria também o caso já das Meditações de Descartes, onde encontramos a primeira formulação do assim chamado Problema do Mundo Exterior (o problema de saber como podemos inferir, do conjunto das nossas representações subjetivas, às quais temos acesso imediato, a existência de um Mundo exterior objetivamente existente que elas representariam). Embora as dúvidas filosóficas que ele propõe na sua Primeira Meditação - considerando a possibilidade de estarmos agora sonhando ou sendo enganados por um Gênio Maligno em nossas certezas mais básicas - sejam seguramente moldadas no ceticismo debatido nos círculos intelectuais que freqüentou, isso não faz de Descartes um cético. Essa filosofia encontrou uma acolhida bem mais favorável em seus correspondentes, Mersenne e Gassendi. Mas a dúvida metódica de Descartes, ao contrário, parece antes corresponder a uma “vacina” filosófica capaz de imunizar as verdades metafísicas que, a elas resistindo, provam sua solidez para além daquelas oferecidas pelos seus predecessores. Ao passo que superariam definitivamente a dúvida dos céticos - mesmo que, talvez, ao preço de produzir involuntariamente o que veio a se chamar posteriormente um “ceticismo moderno”, mais radical e virulento do que o proposto pelos antigos.

Extensão do ceticismo antigo?
É uma outra questão controvertida a de saber se esse “ceticismo moderno” (caso essa expressão não seja afinal imprópria) deve ser visto como um aprofundamento do ceticismo antigo, ou se ele resulta de uma incompreensão da sua coerência filosófica particular. Pois os céticos antigos já condenavam seus rivais estóicos e epicuristas de não terem bem compreendido o que diziam. Os céticos sustentavam, afinal, que o ceticismo era perfeitamente compatível com uma vida vivida de modo pleno, regrado, saudável, e com a adoção de crenças num sentido meramente “prático”, seguindo a experiência comum, à falta de atingirem o tipo de Conhecimento prometido pelos filósofos em perpétua contradição (eles, sim, doentiamente apegados, a seu ver, a uma suposta verdade que efetivamente não podem provar).

Existe assim uma imbricação entre problemas conceituais e históricos em torno desse tema, que justificam especialmente, no caso da filosofia moderna, a necessidade de um exame sistemático da retomada e transmissão das fontes do ceticismo antigo, praticamente desconhecido entre os medievais e redescoberto durante o Renascimento, bem como do seu impacto filosófico. Este trabalho, todavia, é bem recente e se fez sobretudo a partir das obras seminais de Charles Schmitt, sobre a difusão das obras céticas de Cícero a partir do século 15, e de Richard Popkin, sobre a redescoberta tardia do pirronismo a partir da tradução das obras de Sexto Empírico para o latim, iniciada em 1562. Popkin sustenta que tal retomada teve um impacto decisivo na constituição do pensamento moderno, oferecendo um esquema intelectual- oportuno em face das crises culturais do Renascimento. Tematizando a impossibilidade de decisão filosófica racional entre os diversos sistemas em conflito, o ceticismo ofereceu um ponto de vista intelectual próprio diante da multiplicidade de fontes antigas redescobertas pelos humanistas, corroborando a dúvida gerada em torno da autoridade aristotélica nos temas filosóficos. Se o questionamento desta autoridade se fazia tanto mais pelo impacto do modelo heliocêntrico copernicano e das descobertas geográficas e antropológicas decorrentes da expansão marítima, os textos céticos também discutem a impossibilidade de encontrarmos, ante a diversidade de costumes, um critério racional para decidir se algum deles representa melhor a verdade ou a natureza (com efeitos evidentes na discussão sobre o estatuto dos povos recém-descobertos por Montaigne).

Mas Popkin focaliza prioritariamente o debate teológico entre católicos e protestantes sobre o critério para determinar o sentido da verdade revelada (seja a autoridade do Papa ou a razão individual iluminada pela fé). Tal problema do critério é explicitamente discutido por Sexto, que argumenta para mostrar a impossibilidade de resolvê-lo racionalmente e oferece, assim, um arsenal para defesas da fé de tendência fideísta (enfatizando o caráter essencial e sobrenatural da fé, em detrimento das justificações racionais) e apoiadas na tradição e nos costumes da Igreja (sendo este um dos critérios “práticos” que o cético oferece para agir na vida, razão pela qual o ceticismo foi inicialmente, mas não exclusivamente, melhor assimilado pelos católicos). Tal interesse, num segundo momento, acabou conduzindo à descoberta do potencial filosófico (epistemológico) dessa reflexão.

Montaigne e o questionamento sistemático da razão
Cruciais nessa transição são as obras do médico e filósofo português Francisco Sanchez (o Quod nihil scitur, de 1581, que empreende uma crítica cética de cunho acadêmico à concepção aristotélica de conhecimento) e do mais conhecido autor francês Michel de Montaigne, cujos Ensaios (1580), exibem, após uma fase de reflexão marcadamente estóica, um ceticismo conseqüente, capaz de empregar de modo ao mesmo tempo rigoroso e original a quase totalidade dos argumentos céticos provenientes de Sexto. Isso é bem claro em sua Apologia de Raimond Sebond, onde ele critica uma “vaidade” bem próxima da “presunção” dogmática: seja a vaidade do homem, que se acha superior aos animais pela posse exclusiva da razão; a vaidade do saber, que pretende alcançar uma verdade que não alcança; ou a vaidade de nossas faculdades cognitivas, em cuja crítica se desenvolve, com base em argumentos céticos antigos, um exame crítico da razão, do juízo e dos sentidos, o que nos lança ao debate epistemológico fundamental da modernidade. Porém, embora para Montaigne o ceticismo exponha radicalmente nossa precariedade cognitiva, não se trata (como em Descartes) de uma filosofia incompatível com a vida. “O cético - diz ele -não quis se fazer pedra nem tronco. Ele quis se fazer homem vivo, pensante e raciocinante, fruindo de todos os seus prazeres corporais e espirituais, em ordem e com retidão. Os privilégios fantásticos, imaginários e falsos que o homem se usurpou, de reger, ordenar e estabelecer a verdade, estes ele de boa fé abandonou e a eles renunciou…” ( Ensaios)

Embora hoje o lugar de Montaigne na história da filosofia possa aparecer como duvidoso, ao longo do séc. 17 ele foi sobretudo lido como cético, e seus Ensaios foram amplamente conhecidos, seja por Descartes, seja por outro influente autor (especialmente para a tradição do empirismo britânico), no qual a presença do ceticismo tem igualmente sido negligenciada, Francis Bacon. Não apenas esse tema freqüentemente retorna em suas reflexões, mas muitas de suas considerações sobre os “ídolos” que nos impediriam o acesso à verdade e que seu método da indução pretenderia paulatinamente remover são inspiradas em Montaigne. Menos ignorada é a leitura que faz Pascal de Montaigne como um “puro pirrônico” e a importância que ganha em suas Pensées essa filosofia, como uma das duas (ao lado do estoicismo de Epicteto) que seriam, a seu ver, merecedoras de consideração, uma por mostrar a miséria, outra por mostrar a grandeza do homem, ainda que as forças da primeira sejam, a seu ver, de longe superiores. Tal leitura de Montaigne contribuiu para que o ceticismo se espraiasse ainda numa versão cristianizada, cujos ecos ressoariam mais tardiamente em Kierkegaard. Outro veio de transmissão da reflexão cética, aparentemente menos afeito à religião, e bem mapeado por Popkin, é o que se dá pelos libertins érudits, como La Mothe le Vayer, que acabarão por ter impacto no debate dos iluministas franceses.

Para além da modernidade
Estes são apenas alguns aspectos de uma rica dimensão da filosofia moderna que permanece um canteiro de obras em aberto para os historiadores, de onde emergem, tanto novas interpretações dos filósofos, quanto, gradualmente, um novo panorama dessa própria história. Ao contrário do que por vezes se alega, levar em conta a presença do ceticismo como motor da reflexão filosófica moderna não conduz necessariamente a uma perspectiva redutora (pois não se trata de negar o modo particular como cada filósofo o reinterpreta); trata-se, ao contrário, de uma tarefa importante do historiador disposto a investigar com seriedade as pistas que momentaneamente se reabrem nos vãos dos preconceitos da época.

Popkin parece ter razão ao apontar para a existência de verdadeiras tradições céticas ao longo da filosofia moderna que, de importância maior ou mais restrita, resultam de releituras e recriações desses mesmos argumentos céticos repostos em circulação, em contextos intelectuais e filosóficos diversos. Muito resta, assim, a ser explorado para que compreendamos como pôde esse tema interessar autores tão díspares como Hegel (autor de uma obra de juventude sobre a importância filosófica do ceticismo, destinada a criticar a insuficiência da interpretação proposta pelo “cético” Schulze), Nietzsche (que se refere de modo elogioso aos céticos tanto em obras de juventude quanto em outras mais tardias, como Humano demasiado humano) ou Wittgenstein (o qual, de modo geral alheio à semelhança entre suas reflexões e aquelas provenientes de outras fontes, não deixa por isso de se ocupar explicitamente do tema, sobretudo em seus escritos finais, como os que se reuniram pelo título “Sobre a certeza” - conquanto se tenha ali em vista um “ceticismo” de tipo cartesiano), dentre outros tantos que poderíamos mencionar.

Revista Cult

Comentários

“Olhem quanta coisa eu consigo ver!”

A tecnologia digital está permitindo que o cinema capture a imagem humana com uma nitidez sem precedentes. Na era do Facebook, filmes com a face dos atores são espantosos.

Mark Cousins

No começo do cinema, o público devia se sentir gritando, “Olhem quanta coisa eu consigo ver!” A frase, e seu ponto de exclamação, expressam o prazer de descobrir novas categorias de experiência visual no cinema: descrições de viagens com imagem em movimento de camelos nas pirâmides ou o esplendor czarista na Rússia no final da década de 1890, close-ups das faces resplandecentes de algo chamado uma estrela do cinema no final da década de 1910; as arrebatadoras fantasias em Technicolor da década de 1930; os efeitos de “metal líquido” gerados por computador de “O Exterminador do Futuro 2″ no início da década de 1990. A imagem do cinema começou com uma imitação monocromática descorada, imprecisa, trêmula da luminosidade da vista humana, e desde então tem avançado para transmitir tais detalhes visuais na tela.

Nos últimos anos, graças à tecnologia digital, tal progresso se acelerou ao ponto de que agora, eu grito “Olhem quanta coisa eu consigo ver!” pelo menos uma vez por ano. As tecnologias de filmagem e projeção atuais têm um poder sem precedentes de mimetismo visual. Talvez acelerar o cinema jamais venha a se equiparar às complexidades do nervo óptico de realmente testemunhar um acontecimento, mas estão chegando perto.

Digo isso porque acabo de assistir a “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, com os astros Brad Pitt como James e Casey Afflleck como Ford. Assim que começou, senti que estava em uma floresta do Missouri em 1881. A banda sonora trazia os cicios e zunidos do som daquela floresta e a fantasia era tão clara que eu me senti como se alguém tivesse lavado o vidro do meu carro ou dado melhores lentes de contato. Eu via a textura da casca nos tocos das árvores, o tecido das roupas dos personagens e os poros na pele dos atores com detalhes notáveis.

Vale a pena mencionar as razões técnicas para que isso acontecesse, pois isso mostra que o cinema está a meio caminho de sua grande transição de fotoquímica a digital. O filme foi rodado por Roger Deakins em super-35 mm, um método segundo o qual a área do negativo de 35mm geralmente reservada para a trilha sonora é em vez disso alocada para a imagem, permitindo cerca de um terço a mais de informação visual que o 35 mm padrão, ainda a norma do setor. Então, o filme foi escaneado para um computador, criando um intermediário digital. Como algumas das cenas foram filmadas com a luz do dia, isso permitiu a Deakins e à sua equipe que improvisassem esse intermediário, acrescentando luz aos rostos e outros elementos que poderiam, de outra forma ficar visíveis apenas parcialmente.

Finalmente, na apresentação da qual participei, o filme foi projetado digitalmente, removendo quaisquer dos pequenos balanços (”movimento de portão” ou “trama”) que às vezes ocorrem em um projetor de filmes e são ampliados na tela e garantindo que o foco estivesse totalmente ajustado.

Nem o super-35, ou o intermediário digital nem as projeções digitais são completamente novas, mas quando são usados juntos, consegue-se uma resolução e pureza visual sem precedentes. Comparado a qualquer fotograma de “Jesse James,” o belo filme de 1978 de Terrence Malick, “Cinzas do Paraíso” parece ter sido desenhado em suaves crayons pastel.

Mas a tecnologia é apenas metade da história. “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” baseia-se numa novela de 1983, com o mesmo nome, de Ron Hansen, que segundo diz Deakins, “está cheio de minúcias e realmente o transporta para o local da ação.”

“O roteirista-diretor do filme, o neo-zelandês Andrew Dominik estava determinado a retratar esse relato pormenorizado e o faz de várias formas. As cenas são longas. Existem pausas entre falas do diálogo. A câmera em geral faz close nos rostos de Pitt e em particular, em Affleck. Nós percebemos os atores pensarem antes de falar. Não somente vemos os movimentos faciais, mas também os pequenos músculos em torno do canto de seus olhos. O personagem de Affleck é o super-fã do então legendário Jesse James. Nós acompanhamos, em close, como ele quase desmaia na presença de James, suas pálpebras baixando arrebatadamente, estáticas, como na escultura de Bernini, “O Êxtase de Santa Tereza.”

Esse famoso encontro entre dois homens tem fascinado os cineastas há décadas e Dominik não quis filmar apenas os momentos dramáticos mais importantes. Ele estava interessado na delicada micropsicologia de todo o tempo que eles passaram juntos, mesmo que isso tenha se limitado a apenas sentar-se à mesa ou em torno de fogueiras.

O significado do livro estava nos seus detalhes - o cinema hoje pode fotografar o detalhe como nunca antes, e portanto Dominik, forçou um estúdio, adepto do star-system que adora ostentação, edição rápida e corridas de automóveis, a adotar um retrato nada habitual, resignado, pontilhista, de dois homens percebendo lentamente que o destino de cada um estava nas mãos do outro.

Vemos como Ford começa a se melindrar com o fato de que sua adoração obcecada não é correspondida. O devoto sente que, uma vez que o seu fervor “criou” Jesse, sua ira poderá eliminá-lo. E então Ford atira nele e Jesse colabora com sua própria morte, uma vez que está cansado de ser uma lenda, mas compactua ao que sabe que vai se tornar um fim legendário. Nós vemos esses pensamentos nos rostos de Affleck e Pitt. As minúcias “nos transportam para aquele mundo.”

Talvez seja o ritmo lento que tenha feito com que o filme de US$ 30 milhões, estrelado por um dos atores mais famosos do mundo, arrecadasse menos de US$ 4 milhões nos Estados Unidos. Talvez seja o seu título afetadamente artístico. O fato de ser sobre a patologia da admiração dos fãs deve ser uma visão irritante para os admiradores de Brad, especialmente porque ele parece estar interpretando a si mesmo.

No entanto, apesar das reclamações de muitos dos críticos dos EUA e da Grã-Bretanha que é lento e tedioso, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” é uma obra-prima e um pequeno marco na história do humanismo cinematográfico.

Desde “A Paixão de Joana D’Arc” (1928), pelo menos, os filmes tentaram nos levar para outro lugar, dentro das mentes dos personagens, constantemente olhando para os rostos. A tecnologia dos filmes nos permite manter esse olhar, e ir além dessa visita, mais claramente que nunca. Na era do Facebook, os filmes de rostos são espantosos.

Mark Cousins é o autor de “The Story of Film.”

Prospect Magazine

Comentários

Vôos de fênix

Fragmento de proteína ligado ao controle da pressão arterial pode ajudar a emagrecer e a tratar dependência química

Carlos Fioravanti

Emer Ferro tentou esquecer a hemopressina, mas não conseguiu. Quando a descobriu com a bióloga Vanessa Rioli em 2003, em um dos laboratórios do quarto andar do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), pensou que era apenas mais uma molécula capaz de reduzir a pressão arterial. Ele então mediu as próprias forças, concluiu que para continuar teria de entrar em uma luta desgastante que o levaria no máximo a mais um entre dezenas de outros medicamentos anti-hipertensivos e deixou essa pesquisa de lado. Como uma fênix, essa molécula ganhou vida novamente quando duas biólogas do Instituto Butantan, Camila Dale e Rosana Pagano, insistiram para estudar as propriedades biológicas da hemopressina e mostraram que ela também servia para aplacar a dor em ratos. Nesse momento esse fragmento de proteína ganhou outra dimensão e reacendeu o interesse de Emer, que ainda não imaginava que essa molécula poderia fazer muito mais – nem que ele próprio, meses depois, ajudaria a encontrar um novo método capaz de acelerar o desenvolvimento de novos fármacos.

No final de julho de 2006, como parte de sua agenda de trabalho na Faculdade de Medicina Albert Einstein da Universidade Yeshiva, em Nova York, Emer reexaminou os resultados dos experimentos feitos com a hemopressina até então. Foi quando suspeitou que, para explicar esses efeitos sobre pressão arterial e dor, a molécula deveria agir sobre proteínas específicas da superfície celular – os receptores de canabinóides chamados CB1, acionados por compostos produzidos pelo próprio organismo ou por componentes de plantas entorpecentes como a maconha. Intrigado, atravessou Nova York e pediu ajuda a uma colega brasileira, Andrea Heimann, que estava lá pesquisando na Escola de Medicina Monte Sinai, a poucas quadras do Central Park. Como havia terminado seu trabalho antes do prazo e tinha material à mão, Andrea fez em apenas três dias os experimentos em células que tornaram a hemopressina um notável candidato a medicamento: por causa desse mecanismo de ação sobre os receptores CB1, então confirmado, poderia também ajudar as pessoas a emagrecer, a tratar o diabetes tipo 2, a reduzir a dependência de drogas e a aplacar a necessidade de fumar.

Tamanha versatilidade se deve ao fato de a hemopressina realmente bloquear os receptores de canabinóides, que regulam a fome, o bom humor e o prazer. É o mesmo efeito do rimonabanto, um fármaco já aprovado para uso contra obesidade e sobrepeso na Europa e no Brasil, mas ainda em fase de análise pelas autoridades regulatórias do governo dos Estados Unidos. O rimonabanto tem avançado lentamente nos Estados Unidos por causa dos efeitos colaterais, como o risco de depressões severas e de suicídio. De acordo com um estudo publicado em novembro na Lancet, pesquisadores dinamarqueses acompanharam 4.105 pessoas durante um ano e concluíram que esse medicamento pode causar depressão mesmo em quem nunca teve.

Bom começo - Segundo Emer, a hemopressina pode passar ao largo dessas limitações por ser um peptídeo (fragmento de proteína) produzido pelo próprio organismo possivelmente a partir da reciclagem da hemoglobina, a molécula que transporta oxigênio às células do corpo. Os experimentos preliminares em animais não mostraram nenhuma toxicidade relevante nem efeito colateral aparente, além de indicarem que a hemopressina pode funcionar também por via oral, como Camila Dale e Rosana Pagano verificaram nos experimentos feitos no Butantan.

“A hemopressina começa a se tornar uma molécula interessante”, reconhece Emer. “Esse é o primeiro peptídeo natural que funciona como agonista inverso de CB1.” O que ele está dizendo, em termos mais simples, é que a hemopressina reduz a ação das formas ativas de um dos tipos de receptores de canabinóides. Essa molécula cumpre assim uma tarefa antes desempenhada apenas pelos hormônios e neurotransmissores que participam do controle da fome e do prazer. Foi uma descoberta com peso o suficiente para ser aceita para publicação na revista científica PNAS, editada pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Há outra razão pela qual esse fragmento de proteína, de apenas nove aminoácidos, dificilmente alcançará em pouco tempo o mesmo estágio de desenvolvimento do rimonabanto, que age sobre as mesmas proteínas de superfície das células do cérebro, do tecido adiposo, do fígado e dos músculos. Segundo Andrea, a produção em escala industrial de peptídeos como a hemopressina tende a ser mais cara e mais refinada que a de compostos químicos sintéticos como o rimonabanto. Ela e Emer acreditam que o melhor caminho para avançar é desenvolver compostos sintéticos que tenham a mesma função que o fragmento ativo da hemopressina, formado por quatro dos nove aminoácidos dessa molécula; é o mesmo caminho adotado no desenvolvimento de muitos outros fármacos. “Temos agora de trabalhar com químicos que possam encontrar uma versão sintética da hemopressina”, reconhece Andrea.

Não será a primeira vez que ela desafia a sorte. Quatro anos atrás, prestes a terminar o doutorado, Andrea ouviu uma bronca da mãe ao comunicar que deixaria não só o laboratório de 1.200 metros quadrados no décimo andar do Instituto do Coração, ao lado da avenida Paulista, mas também a perspectiva de batalhar por uma carreira acadêmica, em razão, primordialmente, da escassez de vagas para novos pesquisadores. Já alguns colegas até a chamaram de insensata quando souberam que ela havia se tornado a sócia principal da Proteimax, uma pequena empresa de biotecnologia instalada nos fundos de uma casa de um condomínio residencial em Cotia, na Grande São Paulo.

Andrea agora dá o troco ao mostrar que produz ciência de qualidade e domina uma técnica que pode facilitar bastante a seleção de compostos de interesse farmacológico por meio de anticorpos produzidos por dez coelhos brancos, malhados e marrons. Esses anticorpos têm a forma de um Y, como qualquer outro anticorpo que o organismo produz para combater tumores, vírus ou bactérias. São peculiares, porém, por se ligarem aos receptores de superfície celular preferencialmente quando são acionados por hormônios como a adrenalina, por neurotransmissores como a serotonina, por peptídeos como a hemopressina e, na retina, pela própria luz. Uma vez ativados, esses receptores assumem outra forma e acionam a chamada proteína G. É uma proteína estratégica para as informações fluírem pelo organismo, porque ela amplia os sinais recebidos do exterior para o interior das células. Os anticorpos ajudam a mapear essas conexões e a selecionar os compostos que devem ou não despertar a proteína G.

Andrea, claro, começou devagar, com muitas dúvidas, medos e apenas sete anticorpos, cada um deles capaz de se ligar a moléculas específicas. Quase não tinha equipamentos nem reagentes quando reencontrou uma farmacologista de origem indiana, Lakshmi Devi, que estuda a proteína G e os mecanismos bioquímicos de dependência de drogas. Três anos depois de terem se conhecido, quando veio ao Brasil para um congresso de farmacologia, Lakshmi lhe abriu as portas de seu laboratório, na Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York. Era lá que Andrea trabalhava, verificando se os sete primeiros anticorpos faziam exatamente o que ela queria, enquanto Emer reexaminava os experimentos com a hemopressina na Universidade Yeshiva, onde estava a convite do farmacologista Lloyd Fricker.

Exportações - Em 2007 Andrea e Lakshmi apresentaram os anticorpos de conformação específica como uma nova ferramenta para identificar os compostos capazes de acionar a proteína G em um artigo publicado no Journal of Biological Chemistry. Esse trabalho chamou a atenção de Michael Melnick, biólogo da Universidade de Stanford com doutorado em Harvard que havia fundado e dirigido a Cell Signaling Technology, uma empresa pioneira no desenvolvimento de anticorpos para a pesquisa de câncer. “Acredito que os anticorpos da Proteimax serão extremamente úteis na pesquisa básica e em muitas doenças em que os receptores da proteína G estão envolvidos”, comenta Melnick, que mostrou interesse em se associar de algum modo à empresa brasileira. Quase metade dos medicamentos atualmente em uso aciona receptores de superfície acoplados à proteína G.

O trabalho publicado no Journal of Biological Chemistry trouxe também os primeiros pedidos de exportação e facilitou um acordo com a Assay Designs Inc. (ADI), dos Estados Unidos, para distribuição dos anticorpos produzidos e purificados na Proteimax. De lá para cá, devidamente equipada, Andrea pode verificar em Cotia a eficiência de compostos por meio de anticorpos específicos – em membranas de neurônio – nos mesmos três dias que os testes da hemopressina lhe tomaram em Nova York.

Dos sete iniciais, hoje são 35 anticorpos, mas a equipe da Proteimax, formada pela própria diretora e pelas biólogas Laura Leticia de Souza e Bianca Alves Pauletti, confia que poderá chegar a 50 em mais seis meses de trabalho. Elas criaram o que Emer chama de plataforma de análise molecular, que poderia reduzir em anos o trabalho de seleção de compostos químicos com potencial uso terapêutico.

De cada experimento, Fricker, que trabalhou dois meses no laboratório de Emer como pesquisador visitante, obtém centenas de novos peptídeos que poderiam ser mais estudados. O problema é escolher quais merecem ser realmente mais bem avaliados.

“Precisávamos de um método de seleção rápida e compatível com análises em larga escala”, comenta Emer. Antes ele empregava outro método de trabalho, fundamentado na expressão de genes luminescentes derivados do vaga-lume. Essa abordagem mostrava se o peptídeo era biologicamente ativo, mas não identificava a que receptor se ligava. Já se valendo da seleção com os anticorpos de conformação específica, enquanto planeja testes mais rigorosos de toxicidade e ação da hemopressina, Emer identificou 14 novos peptídeos que se ligam a um ou outro receptor de canabinóides (CB1 ou CB2) e às vezes aos dois e também às enzimas que regulam a pressão arterial. Ainda é uma possibilidade muito distante, mas nada nos impede de imaginar um só composto que possa nascer daí e controlar a pressão arterial, a vontade de fumar e a fome ao mesmo tempo.

Projeto

Biologia molecular celular de oligopeptidases

Modalidade

Projeto Temático

Coordenador

Emer Ferro – ICB/USP

Investimento

US$ 271.000.00 e

R$ 270.000,00 (FAPESP)

Projeto

Anticorpos de conformação específica

Modalidade

Pesquisa Inovativa na Pequena e Micro Empresa (Pipe)

Coordenadora

Andrea Heimann - Proteimax

Investimento

US$ 147.158.16 e

R$ 113.720,10 (FAPESP)

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Comentários (1)

Questão Ambiental da Nova Ordem Mundial

Durante a ordem mundial bipolar a questão ambiental era considerada secundária. Somente os movimentos ecológicos e alguns cientistas alertavam a humanidade sobre os riscos de catástrofes ambientais. Mas a grande preocupação dos governos - e em especial da grandes potências mundiais - era com a guerra fria, com a oposição entre o capitalismo e o socialismo. O único grande risco que parecia existir era o da Terceira Guerra Mundial, uma guerra atômica entre as superpotências de então. Mas o final da bipolaridade e da guerra fria veio alterar esse quadro. Nos anos 90 a questão do meio ambiente torna-se essencial nas discussões internacionais, nas preocupações dos Estados - e principalmente dos grandes centros mundiais de poder - quanto ao futuro.

Já antes do final dos anos 80 percebia-se que os problemas ecológicos começavam a preocupar as autoridades soviéticas, norte-americanas e outras, mas sem ganharem muito destaque, Houve em 1972, na Suécia, a Primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, promovida pela ONU e com a participação de dezenas de Estados. Naquele momento, a questão ambiental começava a se tornar um problema oficial e internacional. Mas foi a Segunda Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, a ECO-92 ou RIO-92, realizada no Brasil vinte anos depois da primeira, que contou com maior número de participantes (quase cem Estados-nações) e os governos enviaram não mais técnicos sem poder de decisão, como anteriormente, e sim políticos e cientistas de alta expressão em seus países.

Isso porque essa segunda conferência foi realizada depois do final da guerra fria e o desaparecimento da “ameaça comunista” veio colocar a questão ambiental como um dos mais importantes riscos à estabilidade mundial na nova ordem. Além disso, os governos perceberam que as ameaças de catástrofes ecológicas são sérias e precisam ser enfrentadas, e que preservar um meio ambiente sadio é condição indispensável para garantir um futuro tranqüilo para as novas gerações.
Mas a problemática ambiental suscita várias controvérsias e oposições. Os países ricos voltam suas atenções para queimadas e os desmatamentos nas florestas tropicais, particularmente na floresta Amazônica, a maior de todas. Já os países pobres, e em particular os que têm grandes reservas florestais, acham natural gastar seus recursos com o objetivo de se desenvolverem.

“Se os países desenvolvidos depredaram suas matas no século passado, por que nós não podemos fazer o mesmo agora?”, argumentam. Alguns chegam até afirmar que essa preocupação com a destruição das florestas tropicais ou com outras formas de poluição nos países subdesenvolvidos ( dos rios, dos grandes centros urbanos, perda de solos agrícolas por uso inadequado, avanço da desertificação, etc.) nada mais seria que uma tentativa do Norte de impedir o desenvolvimento do Sul; a poluição e a destruição das florestas, nessa interpretação, seriam fatos absolutamente naturais e até necessários para se combater a pobreza. Outros ainda - inclusive países ricos, como o Japão, a Suécia ou a Noruega - argumentam que é uma incoerência os Estados Unidos pretenderem liderar a cruzada mundial contra a poluição quando são justamente eles, os norte-americanos, que mais utilizam os recursos naturais do planeta.

Todos esses pontos de vista têm uma certeza razão, e todos eles são igualmente limitados ou parciais. Os atuais países desenvolvidos, de fato, em sua maioria depredaram suas paisagens naturais no século passado ou na primeira metade deste, e isso foi essencial para o tipo de desenvolvimento que adotaram: o da Primeira ou da Segunda Revolução Industrial, das indústrias automobilísticas e petroquímicas. Parece lógico então acusar de farsante um país rico preocupado com a poluição atual nos países subdesenvolvidos. Mas existe um complicador aí: é que até há pouco tempo, até por volta dos anos 70, à humanidade não sabia que a biosfera podia ser irremediavelmente afetada pelas ações humanas e existiam muito mais florestas ou paisagens nativas no século passado do que hoje.

Nas últimas décadas parece que o mundo ficou menor e a população mundial cresceu de forma vertiginosa, advindo daí um maior desgaste nos recursos naturais e, ao mesmo tempo, uma consciência de que a natureza não é infinita ou ilimitada. Assim, o grande problema que se coloca nos dias atuais é o de se pensar num novo tipo de desenvolvimento, diferente daquela que ocorreu até os anos 80, que foi baseado numa intensa utilização - e até desperdício - de recursos naturais não renováveis.

E esse problema não é meramente nacional ou local e sim mundial ou planetário. A humanidade vai percebendo que é uma só e que mais cedo ou mais tarde terá que estabelecer regras civilizadas de convivência - pois o que prevaleceu até agora foi a “lei da selva” ou a do mais forte - , inclusive com uma espécie de “Constituição” ou carta de gestão do planeta , o nosso espaço de vivência em comum. É apenas uma questão de tempo para se chegar a isso, o que provavelmente ocorrerá no século XXI.

Brasil Escola

Comentários

O Bem, o Mal e o Terrorismo

Quatro livros recém-lançados examinam o recurso à violência pessoal, a pretexto de obter reivindicações políticas. Entre os debates necessários, uma pergunta incômoda: que distingue o terror dos “inimigos” do que é praticado pelos “aliados”?

Eric Rouleau

O terrorismo permanece como uma abstração conceitual. A comunidade internacional não conseguiu, até agora, atribuir-lhe uma definição. Desde 1937, a Liga das Nações tenta adotar uma convenção para previni-lo e reprimi-lo, por falta de um acordo entre os Estados-membros, Pelo mesmo motivo, a ONU, apesar dos diversos debates, ao longo de 60 anos de existência, não pôde determinar sua natureza. Recentemente, durante sua criação, em 1998, o Tribunal Penal Internacional teve que excluir o terrorismo internacional de suas competências, ainda que seja encarregado de sancionar um largo elenco de crimes, que inclui até o genocídio.

Não é por menos que o tema pautou a imprensa. Sistemas repressivos foram instaurados num grande número de Estados, com o pretexto de resistir a uma ameaça julgada existente. Raramente na história da edição, tal quantidade de livros, eruditos ou não, foram consagrados a um fenômeno que conduziu à “guerra” proclamada pelo presidente George W. Bush no dia seguinte aos atentados do 11 de setembro de 2001.

Washington tem motivo para se regozijar: inúmeros Estados concluíram convenções de “cooperação” com os Estados Unidos — o que nem mesmo a resistência ao “comunismo internacional” foi capaz de fazer, na época. Melhor: os EUA dos neoconservadores pôde reunir a União Européia e a Rússia à sua causa, e fechou uma aliança antiterrorista com elas, no início de abril de 2007. Mas se trata de uma convergência repleta de pensadores contrários, e não de um consenso, como pode ser tentador acreditar.

E se os “civilizados” matam cem vezes mais que os “terroristas”?
Há pouco tempo, nos EUA, um conferencista evitaria analisar as causas políticas e sociais da violência, por temer ser suspeito de justificar o terrorismo. A ordem oficial exigia que considerássemos o planeta ameaçado pela raiva irracional contra a democracia. Politólogos e jornalistas evitavam, prudentemente, alinhar-se na contracorrente. No entanto, a onda de contestação que eclode, em seqüência aos escândalos explosivos que atingem o governo Bush, varre progressivamente os tabus e as idéias prontas, como atestam diversas obras publicadas recentemente. Elas não justificam o terrorismo, mas analisam suas causas e sugerem o remédio.

Autor de diversos livros dedicados aos conflitos mundiais, Matthew Carr faz, com seu livro Unknow soldiers [Soldados desconhecidos] [1], o contraponto aos neoconservadores, demonstrando que o terrorismo não é mais do que uma política servida (ou desservida), exclusivamente ou não, pela violência. Ele banaliza o fenômeno, ao apontar os atentados e assassinatos cometidos na Rússia, no século 19, pelas organizações que reclamavam da Revolução Francesa de 1789, assim como pelos anarquistas dos dois lados do Atlântico (na França notadamente, depois do massacre dos integrantes da Comuna de Paris em 1870). No século passado, uma loucura morticida tomou conta dos Bálcãs (1900-1913), da Irlanda do Norte a partir de 1919. Eram países colonizados que se levantaram contra as potências ocupantes.

Estas últimas justificam o desencadeamento das sangrentas repressões demonizando os combatentes pela liberdade. Matthew Carr disse que esses “terroristas” foram qualificados por seus opressores como bandidos, criminosos de direito comum, seres malfeitores, monstros, serpentes e parasitas. Os Mau Mau do Quênia, por exemplo, foram apresentados, nos anos 1950, como membros de uma “seita demoníaca” pelo governo e colonos britânicos. E o respeitável New York Times explicava, doutoralmente, a sublevação queniana como “frustrações de um povo de selvagens incapaz de se adaptar aos progressos da civilização”. Os números oficiais indicariam, mais tarde, que aqueles que foram acusados de ser “sedentos de sangue”, na realidade, mataram, durante os sete anos de sublevação, 32 colonos e 167 membros das forças de ordem — dentre os quais, 101 africanos. Em contrapartida, mais de 20 mil integrantes do movimento foram massacrados pelas forças de segurança e milhares de quenianos foram feridos, mutilados e retirados de suas casas. Carr, que evoca, entre outros, o caso argelino, conta que todos os conflitos coloniais encontraram seu epílogo com a ascensão ao poder de líderes “terroristas”: Jomo Kenyatta no Quênia, Nelson Mandela na África do Sul, Ahmed Ben Bella na Algéria, Menahem Begin em Israel, Anouar El-Sadat no Egito, para não citar outros.

Para os poderes estabelecidos, os terroristas jamais têm motivações legítimas; suas frustrações tanto quanto suas reivindicações políticas ou sociais, não são dignas de ser levadas em consideração (salvo sob pressão). E o uso da violência não é mais do que a expressão de seu “fanatismo” ou de sua “loucura”. Matthew Carr contou que, nos anos 1970, as autoridades da Alemanha Oriental retiraram os cérebros dos cadáveres dos membros da Baader-Meinhof para determinar as origens genéticas de sua mentalidade criminal. Um psiquiatra alemão foi capaz de “descobrir” uma disfunção patológica em um dos órgãos que examinou.

Chomsky considera “espantosa” a investigação de Phil Rees
Outras teorias foram espalhadas por intelectuais americanos de grande prestígio. Samuel Huntington, professor de ciências políticas na Universidade de Harvard, previu, desde 1993, um “conflito de civilizações” entre o Ocidente e o Islã, enquanto o historiador Bernard Lewis explicou que, desde 1964, a confrontação árabe-israelense se explica pela incapacidade do Islã em se adaptar à modernidade. Nada admirável, já que Lewis se tornou um dos gurus mais apreciados pelos neoconservadores e dos ultra-sionistas americanos. Uma obra singular desse gênero contribuiu fortemente na desmistificação dos fantasmas guardados sobre as motivações dos terroristas. Dining with terrorists [Jantando com terroristas] [2] foi escrito por Phil Rees, célebre jornalista investigativo laureado com diversos prêmios internacionais com seus livros, documentários e artigos na imprensa. Durante anos, ele percorreu o planeta para “jantar” com os responsáveis pelas organizações praticantes da violência. A proeza consistia em se introduzir e se infiltrar no coração de movimentos clandestinos em países tão diferentes como Colômbia, Argélia, País Basco, Indonésia, Camboja, Sri Lanka, Afeganistão, Líbano, Irã, Egito, Irlanda, Iugoslávia, Caxemira, Paquistão e Palestina. A coleta dessas investigações, complementada por fotografias, é julgada com toda razão como “espantosa” por Noam Chomsky. A face humana que emerge dos combatentes, e a força de suas convicções, encorajam a imaginar outros meios que não a força para chegar ao fim de sua violência, ainda que ela possa parecer atroz.

Contador de histórias sem igual, Phil Rees nos entrega narrativas de suas aventuras e desventuras, perfis surpreendentes de seus interlocutores. Nenhum deles se considera um terrorista, todos sustentam que se opõem à violência — à violência de seus opressores. São raros aqueles que esperam uma vitória militar. Alguns desejam obrigar o inimigo a negociar um compromisso e outros se contentam em difundir uma “mensagem política”. Assim, Matthew Carr classifica certas atividades dos palestinos nos anos 1970 (notadamente o desvio de aviões) na categoria de propaganda.

Para Rees, os palestinos são resistentes do mesmo naipe que os sionistas durante o mandato britânico (1922-1948) e os franceses sob a ocupação nazista. Em 1997, ele conheceu um dos fundadores do Hamas, um intelectual diplomado em universidades norte-americanas, professor de engenharia na Universidade Islâmica de Gaza e autor de diversos livros de tecnologia e política. Ismail Abou Shanab contou que reuniria voluntários aos acordos de Oslo, se pensasse que Israel aceitaria a criação de um Estado palestino digno desse nome. “Face aos tanques, com os bombardeios dos aviões F-16, com mísseis de helicópteros Apache do exército de ocupação, o que nós poderíamos fazer a não ser enviar nossos filhos para se matar em Israel?”, disse tristemente a Rees. É, também, para ele um modo de lançar um apelo angustiado à opinião pública mundial.

O essencial: como resolver as questões que dão pretexto ao terror
Abou Shanab, com 47 anos de idade, permaneceu como militante apesar dos oito anos de confinamento que acabava de cumprir nas prisões israelenses, dos quais ele passou dois anos numa minúscula cela subterrânea. Seis anos mais tarde, em 2003, enquanto dirigia seu carro, o foguete de um helicóptero israelense o decapitou e estraçalhou seu corpo, um espetáculo ao qual Phil Rees assistiu, aterrado, enquanto via, por acaso, a reportagem difundida por um canal de televisão via satélite.

Abou Shanab não é, hoje, como notou o repórter, mais do que a 138ª vítima da política israelense dita de “assassinatos pontuais” em dois anos. Ele poderia ter acrescentado que as execuções extrajudiciais são crimes de guerra aos olhos das leis internacionais. O Hamas – que é também, e sobretudo, um partido político majoritário em um parlamento democraticamente eleito – é severamente sancionado como uma “organização terrorista” tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Européia, os quais cortaram a ajuda ao governo palestino após sua vitória em eleições democráticas.

Phil Rees não teme atravessar a Colômbia de uma ponta à outra, adentrando sucessivamente as zonas controladas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e as bases das milícias contra-revolucionárias (onde, freqüentemente, uns e outros praticam seqüestros e assassinatos não apenas de concidadãos suspeitos de simpatia por um ou outro campo, mas também estrangeiros de passagem). Phil transtorna-se, mas estima que é contraprodutivo trajá-los com a qualificação infame de “terroristas”. Para promover a paz, sustenta que deveríamos excluir a injúria e levar em conta os interesses e o que está em jogo em ambas as partes em conflito. Aliás, ele complementa, citando antigos embaixadores americanos na América Latina: a política de Washington seria menos “terrorista” [3]?

No país basco, Rees não esconde os crimes cometidos pelo movimento independentista ETA, mesmo que censure o governo de Madri (e incidentalmente aos Estados Unidos e União Européia) por denunciar esse “terrorismo” abstendo-se de se engajar num diálogo sério com aquilo que reclama como sendo a história, a cultura, a identidade basca. Ele lembra que na Irlanda do Norte, um conflito antigo de diversas décadas — que é apresentado obrigatoriamente como de essência religiosa, e por isso irredutível —, pôde ser controlado graças às longas e cansativas negociações com o Exército Republicano Irlândes (IRA).

Wright ouve 483 agentes ou testemunhas dos atentados da Al-Qaeda
A situação é bastante diferente para a Al-Qaeda que, em perfeita harmonia com o presidente Bush, julga que a confrontação entre o Ocidente “cristão-judaico” e o Islã é de ordem existencial. Nenhuma negociação, compromisso e coexistência pacífica — que poderiam ser estabelecidas, por exemplo, com “O Império do Mal” soviético —, é viável nesse caso. A guerra santa, o “jihad” de Osama Bin Laden é tão intransigente quanto a “cruzada” levada adiante pelo presidente Bush depois dos atentados do 11 de setembro. Como, aliás, compor com uma nebulosa entranhada nas montanhas do Afeganistão e do Paquistão, sem estruturas globais, sem raízes internacionais, que se contenta em incitar seus partidários à violência contra o império norte-americano e seus partidários locais? Como lidar com células de militantes disseminadas pelo mundo, que funcionam de maneira autônoma como elétrons livres, com motivações diferentes de um país para outro?

As respostas a essas questões, bem como outras, são fornecidas por uma obra consagrada à Al-Qaeda, sem dúvida uma das melhores publicadas recentemente, The looming tower [4], de Lawrence Wright, que acaba de ganhar o Prêmio Pulitzer. Wright, universitário, cronista na revista New Yorker, cujo trabalho foi premiado várias vezes, baseia-se em informações de primeira mão: documentos inéditos redigidos por dirigentes da Al-Qaeda, entrevistas que feitas com 483 agentes ou testemunhas (das quais ele fornece a lista), incluindo os próximos de Bin Laden, terroristas arrependidos, especialistas em Islã, antigos membros da CIA e do FBI. Sua pesquisa o levou, em cinco anos, à Arábia Saudita, Egito, Afeganistão, Paquistão, Sudão, Iêmen e também vários países ocidentais. Ele descreve em detalhes as origens da organização transnacional, sua ideologia, suas lutas internas, suas ilusões e desilusões.

Os retratos que ele nos deixa dos dirigentes e seus ambientes sociais e familiares, revelam os motivos de seus comportamentos. A personalidade de Bin Laden, descrita por aqueles que o conhecem bem, é dissonante: marginal no seio de uma família de milionários, de uma extrema modéstia, ele leva uma vida monástica no fundo de cavernas; atencioso com respeito às suas quatro esposas, das quais duas concluíram doutorado — uma em psicologia infantil, outra em lingüística. Pai irrepreensível de uma quinzena de crianças; nacionalista saudita antes de se tornar globalmente anti-norte-americano, passa por ter capacidade intelectual limitada, daí a influência que exerce, sobre ele, o egípcio Ayman al-Zawahiri — seu adjunto e cabeça pensante da Al-Qaeda — sobre ele. Seu credo comum é aquele de seu mestre pensador, o ideólogo egípcio Sayed Qutb, enforcado sob o regime de Nasser, segundo o qual “o homem branco dos Estados Unidos e da Europa esmaga o povo colonizado”. O mundo para Sayed Qutb se divide em dois campos antagonistas, o Islã e a jahiliyyah (período pré-islâmico pagão e decadente), referente aos regimes “desertores” sujeitos ao imperialismo.

O Islã condena os atentados de 11/9. A mídia silencia sobre isso
Sem dúvida, não é fato do acaso se a organização transnacional iniciou suas atividades por volta dos anos 1990, enquanto a maior parte dos movimentos islâmicos (nacionais) renunciavam à violência (da qual eles sofriam conseqüências negativas), para se integrar à vida política de seus respectivos países. O abismo entre as duas correntes se manifesta durante o atentado contra as torres gêmeas e o Pentágono. A quase totalidade dos movimentos islâmicos, legais ou clandestinos, e todas as autoridades religiosas muçulmanas, condenaram os crimes cegos dos jihadistas, assim como sua ideologia, denunciada como contrária aos preceitos do Alcorão. O cisma foi largamente ocultado pela mídia, mas o acontecimento não impede a islamofobia de se espalhar pela opinião pública ocidental. Esta tende a se confundir com auxílio do vocabulário da mídia e dos antigos preconceitos – Islã, islamismo, fundamentalismo, jihadismo e terrorismo.

A caricatura do profeta Maomé coberto por uma bomba, publicada em um jornal dinamarquês, não é nada mais do que a expressão eloqüente desse amálgama. Os debates legítimos que se seguiram sobre o “direito de criticar o islã” [5], ocultaram uma outra discussão necessária, sobre as múltiplas causas do terrorismo, as frustrações e as cóleras sucessivas suscitadas pela hegemonia norte-americana, pelos regimes ditatoriais que proíbem toda liberdade de expressão, pela corrupção e as injustiças sociais, pela crise de identidade dos imigrantes. As elites “judaico-cristãs” bem sabem que o Islã, como todas as outras religiões, comporta ingredientes que podem ser explorados politicamente para justificar tanto o bem quanto o mal.

Estrategistas norte-americanos previram que, na era pós-soviética, o Islã tomaria o lugar do comunismo como ameaça existencial. A dimensão geopolítica do acontecimento é medida por Adrian Guelke, professor no Centro para Estudos de Conflitos Étnicos, em Belfast, em seu livro Terrorism and Global Disorder [O Terrorismo e a Desordem Global] [6]. Ele sustenta que o governo norte-americano, seguida por vários politólogos, não tem razão em considerar os atentados contra as torres de Nova Iorque e contra o Pentágono como uma guinada na história contemporânea.

Para Guelke, foi a queda da União Soviética que abriu caminho a uma nova forma de resistência à hegemonia todo-poderosa dos Estados Unidos — a saber, o terrorismo internacional. A importância política dos acontecimentos do 11 de setembro foi aumentada para justificar as “guerras” do presidente Bush? Esse acusa a Al-Qaeda de tentar “estabelecer um império islâmico da Espanha à Indonésia”.

Os atentados do 11 de setembro constituiriam uma “divina surpresa” para os neoconservadores. Permitem-lhes a retomada de seu programa imperial: ocupação do Afeganistão e do Iraque, que irá preceder a do Irã; reforço da presença militar na Ásia Central e no Golfo Pérsico; colocar sob tutela as fontes petrolíferas; “democratização” ou relocação dos regimes recalcitrantes à “nova ordem internacional”. Tudo em nome da “guerra contra o terrorismo”, planetária, total e de duração ilimitada.

Tolerância frente a “nossa” violência favorece o terror
Tendo, enfim, consciência das implicações negativas dessa apelação, o Foreign Office tem, em uma circular difundida em abril, recomendado aos diplomatas britânicos não utilizá-la. Sem dúvida, a extraordinária audácia dos seqüestradores dos aviões, a amplitude pavorosa do número de suas vítimas, a emoção suscitada pelo mundo, contribuíram para empurrar – ao menos inicialmente – a “comunidade internacional” para a tábua escorregadia sobre a qual se encontram pendurados os Estados Unidos. As conseqüências, sabemos, foram catastróficas.

A implosão do Estado iraquiano, a anarquia em paralelo aos sucessos militares dos talibãs no Afeganistão, a colocada em xeque dos exércitos norte-americanos em ambos os países não são mais que os resultados espetaculares do aventureirismo neoconservador. O balanço real é muito mais pesado. O governo Bush lucra com a conjuntura multiplicando as leis repressivas, lembrando o clima da época macartista. Ainda aprova o comportamento dos Estados policiais quando esses reprimem a oposição ou minorias oprimidas. Aos olhos de Washington, são terroristas os movimentos que resistem à hegemonia norte-americana; já os que aceitam essa hegemonia, não.

O terrorismo de Estado é tolerado e encorajado, se exercido segundo o interesse norte-americano. São fatores que favorecem os partidários da violência. Os seguidores da Al-Qaeda (que contava com menos de cem membros ativos, há dez anos) implantam-se no Iraque, e multiplicam-se em diversos países, notadamente na África do Norte e na Europa.

Podemos concluirk com a leitura das obras citadas, que, em um mundo unipolar, o terrorismo permanece como a única arma de que os fracos dispõem para assediar os poderosos em conflitos assimétricos. Somente um tratamento político do fenômeno é capaz de atenuar sua sorte.

—————————————–

[1] Matthew Carr, Unknown Soldiers. How Terrorism Transformed the Modern World, Profile Books, Londres, 2006

[2] Phil Rees, Dining with Terrorists. Meetings with the World’s most wanted militants, Macmillan, Londres, 2005

[3] Exemplo mais atualizado: a liberação sob fiança, em 11 de abril, nos Estados Unidos, de Luis Posada Carriles. Cubano anticastrista que participou da tentativa de invasão da baía dos Porcos (15 de abril de 1961), por muitos anos agente da CIA, ele é, entre outros crimes, autor intelectual do atentado a bomba que em 1976 destruiu em vôo um avião da Cubana de Aviación, causando a morte de 73 passageiros. Retornando ilegalmente aos Estados Unidos em 2005, foi acusado apenas de ter violado as leis de imigração, o que o colocou em segurança em relação às demandas de extradição enviadas por Cuba e pela Venezuela (de onde decolou o vôo em questão).

[4] Laurence Wright, O vulto das torres, Companhia das Letras, 2007.

[5] Ler Agnès Callamard, “Temos o direito de dizer tudo?”, Le Monde Diplomatique - Brasil, abril de 2007.

[6] Adrian Guelke, Terrrorism and Global Disorder. Political Violence in the Contemporary World, I.B. Tauris, Londres, 2006

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários (1)

Goya e a Espanha do seu tempo (parte IV)

Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774.

Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

Galdós descreve as represálias de Maio de 1808

“Uma vez que tomaram o parque -continuou João de Deus- entraram nessa casa da esquina e em outra da rua de São Pedro para prender todos os que haviam ateado fogo, e tiraram até duas dúzias de infelizes. Ai, Gabriel, que consternação! Eu entrava na taverna para jogar um pouco de água na mão… porque saberás que uma bala me levou os dois dedos… entrava na taverna e vi que tiravam Inês. A pobrezinha chorava como uma criança e voltava as vistas para todos os lados, sem dúvida me procurando com seus olhos. Me aproximei, e falando em francês, roguei ao sargento que a soltasse; porém me deram tão forte pancada que quase perdi o sentido.
Se visses como chorava o pobre anjo, e como olhava para todos os lados, procurando-me sem dúvida!… Eu enlouqueço, Gabriel. O bom eclesiástico subia a escada quando o pegaram, e dizem que levava uma faca na mão. Todos os da casa estão presos. Os franceses disseram que desde ali haviam lhe jogado uma panela de água fervente. Gabriel, se não põem em liberdade a Inês, eu morro, eu me mato, eu lhes direi aos franceses que me matem.” (B.P.Galdós “Episodios Nacionales III: El 19 de marzo – El 2 de mayo”, p.292)

Nota: os acontecimentos do Dois de Maio também atraíram o novelista cubano Alejo Carpentier que no seu livro El Siglo de las Luces, de 1962, faz seus dois personagens, os jovens Esteban e Sofia desaparecerem em meio aos tumultos.

Bibliografia

Anes, Gonzalo – El Antiguo Régimen: Los Borbones, in Historia de España Alfaguara IV.Madri.Alianza Editorial, 1975.

Artola, Miguel – La Burguesia Revolucionaria (1808-1874). Madri. Alianza Editoral.1973.

Bennassar, Bartolomé – Historia de los españoles. Barcelona: Editorial Crítica, 2v.1989.

Bozal Fernández, Valeriano; Goya y el gusto moderno. Madri: Alianza Editorial, 1994.

Carr, Raymond – España: 1808-1939. Barcelona: Editorial Ariel, 1969.

Carpentier, Alejo – O Século das Luzes, São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Elorza, Antonio – La ideología liberal en la ilustración española. Madri: Tecnos, 1970.

Galdós, Benito Pérez – Episodios Nacionales III : El 19 de marzo – El 2 de mayo.

Madri: J.Noguera&Martinez, 1875.

Gassier, Pierre - Dibujos de Goya : Los Albumes. Friburgo: Office du Livre, 1973.

Hagen, Rainer – Goya. Taschen/Paisagem, 2004.

Herr, Richard - España y la Revolución del siglo XVIII. Madri: , Aguilar, 1975.

Hughes, Robert – Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Kamen, Heny – A Inquisição Espanhola. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.

Kamen, Henry – Império: la forja de España como potencia mundial. Madri.Editora Aguilar, 2003.

Pinedo, E.Fernandez de ( e outros) – Centralismo,ilustración y agonia del antiguo régimen (1715-1833), in Historia de España. Barcelona:.Editorial Labor, 1983.

Moreno, Ceferino (org.) – Grabados Españoles de los Siglos XVIII y XIX.Madri: Dirección General de Relaciones Culturales del Ministerio de Asuntos Exteriores, 1982.

Ortega Y Gasset, José - Preludio a un Goya e Sobre la Leyenda de Goya. Madri: Revista de Occidente, 1958.

Ortiz, Antonio Domínguez - Sociedad y Estado en el siglo XVIII español. Barcelona: Ariel, 1981.

Sarrailh, Jean – La España ilustrada de la segunda mitad del siglo XVIII. México: Fondo de Cultura Económica, 1992.

Seco Serrano, Carlos – Godoy: el hombre y el político. Madri: Epasa-Calpe, 1978.

Tizón, Héctor – La España Borbonica. Madri:Altalena D.L., 1978.

Torri, Julio – La Literatura Española. México: Fondo de Cultura Económica, 1952.

Wilson-Bareau, Juliet – Goya. Yale University Press, 1997.

Terra Educação

Comentários

Goya e a Espanha do seu tempo (parte III)

Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

Espanha e França

As relações da Espanha monárquica com a França revolucionária, tema central na época de Goya, podem ser divididas em três momentos distintos. Num primeiro, logo que chegou a confirmação da execução de Luís XVI por ordem da Convenção Jacobina, ocorrida em 21 de janeiro de 1793, a Coroa espanhola decidiu-se pela guerra visto que Luís pertencia à mesma família reinante ao sul dos Pirineus. Carlos IV manifestava assim uma reação à morte de um parente seu, algo que não poderia deixar passar em brancas nuvens. De curta duração, foi encerrada em 22 de julho 1795, com a assinatura da Paz de Basiléia, sem que as armas espanholas tivessem tido qualquer sucesso.

Além disso, indispor-se com a França, inimiga do Império Britânico, implicava em expor as colônias americanas ao poderio dos ingleses sem haver apoio de qualquer outro aliado. Uma Espanha já bastante enfraquecida não podia enfrentar a esquadra britânica que então dominava boa parte dos mares e oceanos sem que de algum modo não contasse com o amparo dos franceses, fossem eles revolucionários ou não.

O artífice dessa nova política pró-francesa, de selar o destino da Espanha aos sucessos do Diretório e depois ao de Napoleão, que vai se estender por treze anos, foi Manuel de Godoy. Este era um jovem comandante da Guarda Real que ascendera a posições extraordinárias junto à corte de Carlos IV e da sua esposa, a rainha Maria Luísa. Intitulado como “Príncipe da Paz” e “Ministro Universal”, ele governou o reino como seu virtual ditador, ainda que benigno. De certo modo, Godoy, um protetor de Goya que, como o pintor, não tinha origem aristocrática, estava totalmente adequado aquele momento histórico. Tratava-se de um daqueles “homens novos” que proliferaram então pela Europa como símbolo da Nova Era provocada pela Queda da Bastilha que projetou tipos ambiciosos, sem vínculos com a fidalguia governante, e que eram tidos como “aventureiros”, pelo olhar das classes conservadoras.

A política externa pró-francesa, ainda que conduzida pela lógica do pragmatismo, não era bem vista pelos espanhóis em geral, na medida em que deixava Madri politicamente subalterna aos interesses gerais do Império Napoleônico. Feria-lhes o orgulho e o sentimento de honra ver o seu soberano depender dos humores do general corso, além de amarrar-lhes o destino à política de conquistas da França.

Tudo de certo modo foi tolerado até ocorrer o desastre naval de Trafalgar, durante a Segunda Guerra contra a Grã-Bretanha (1805-1808). Batalha travada em águas da Espanha, no dia 21 de outubro de 1805, na qual marinha real aliada à esquadra francesa, foi fragorosamente batida pelos navios do almirante Nelson, dando início à decadência do império marítimo dos Bourbon espanhóis, o que abriu caminho para a terceira e derradeira etapa daquele relacionamento difícil, quando os desentendimentos internos entre o rei e o príncipe da Espanha conduziram ao motim de Aranjuez, de 19 de março de 1808, seguida da violenta intervenção militar francesa a partir de 2 de maio de 1808.

No entendimento dos iberos, fossem fidalgos ou gente comum, não haviam mais sentido em manter-se ao lado de Napoleão pois aquela aliança em nada garantira a segurança dos mares e a manutenção dos territórios coloniais, como logo iriam constatar com a eclosão da revolta geral do Novo Mundo contra os vice-reis da Espanha.

Buenos Aires, por exemplo, capital do longínquo Vice-Reino do Prata, ameaçada pela esquadra inglesa do comodoro Popham e pelo desembarque do general Beresford, entre 1806-1807, deles se livrou com um levante popular em que milícias urbanas de portenhos, comandadas pelo capitão honorário Manuel Belgrano, tiveram papel ativo na expulsão do inimigo, sem que a metrópole lhes pudesse auxiliar no que fosse (acontecimento que antecipou o que iria ocorrer em seguida na própria Madri, em 2 de maio de 1808, quando o povo da metrópole por igual insurgiu-se contra os estrangeiros, no caso, os franceses). Tudo então conduziu para um aberto enfrentamento entre os antigos aliados: os regimentos de Napoleão não eram mais bem vindos na Espanha.

O Motim de Aranjuez

Trafalgar não fez afundar somente as esperanças da esquadra espanhola, levou consigo igualmente o pouco prestígio que ainda restava a Manuel Godoy, o valido do rei Carlos IV. O mal estar reinante depois da derrota, a busca por um culpado pelas mazelas nacionais, fez com que o ministro “afrancesado” se visse alvo do ódio de todos. O que havia de ruim que estava acontecendo no reino devia-se aquele homem. Explorando em seu proveito o descontentamento crescente, Fernando, o Príncipe das Astúrias, aliando-se a inúmeros nobres e militares descontentes, propôs abertamente remover do trono o seu pai, o rei Carlos IV. A oportunidade surgiu quando Godoy, sentido um clima cada vez mais pesado cercando o rei, tentou fazer com que a corte - imitando o ocorrera em Portugal invadido pelos franceses, ocasião em que o príncipe João e seus cortesãos foram removidos pela esquadra britânica para o Brasil – fosse removida de Madri para Sevilha ou, talvez, para transportá-la para a América.

A notícia do abandono da capital por Carlos IV gerou uma grande revolta. No 19 de março de 1808, multidões tomaram as ruas. O Palácio Real em Aranjuez, situado a 48 quilômetros de Madri, viu-se cercado por multidão amotinada. Não queriam que o rei partisse. Não só isso, exigiram que ele renunciasse ao trono. Enquanto isso, grupelhos mais extremados invadiram a residência de Godoy arrasando com tudo. Em menos de 24 horas o poder do Ministro Universal, acusado de “despotismo ministerial”, se esvaiu para sempre. Este episódio frente ao Palácio Real ficou na história da Espanha como o equivalente a Tomada da Bastilha. Carlos IV era o segundo monarca Bourbon, depois de Luís XVI, a vir abaixo por motivo de uma sublevação generalizada do povo.

O vexame de Bayone e o Levante de Dois de Maio

Até aquele momento, as tropas franceses acampadas na Espanha - de acordo com o Tratado de Fontainebleau, de 27/10/1807 - em apoio à campanha contra Portugal, comandadas pelo marechal Murat, não haviam ainda sido envolvidas nas confusões espanholas. Todavia isso não perdurou por muito. Insatisfeito com a situação, com a instabilidade que começou a se alastrar pela península inteira devido a briga dos soberanos, Napoleão convocou os dois reis da Espanha, Carlos IV e Fernando VII, para um encontro em Bayone, no sul da França, em 20 de abril de 1808, para encontrar uma solução. A dele foi a pior possível.

Obrigou a que o pai e o filho, que descendiam de uma dinastia que reinava há mais século, renunciassem à coroa e indicou para ocupar o lugar deles ninguém mais senão que o seu irmão José, entronando-o como José I de Espanha, apelidado pelo povo de Rei Intruso. Até uma nova magna carta ele mandou redigir: a Constituição de Bayone. Esta manobra desastrada, ofensiva aos brios nacionais, foi demais para a insuportável amargura da gente ibera. A Espanha não somente perdera Trafalgar, e o que restava do domínio dos mares, como ainda era constrangida a assistir o Palácio Real vir a ser ocupado por um rei estrangeiro. A tensão na capital subiu então a níveis inauditos, visto que os sentimentos patrióticos atiçados pela arrogância de Napoleão viram-se arrastados na lama.

Então, assim do nada, explodiu o Dois de Maio de 1808. As patrulhas de Murat logo foram atacadas de todos os lados. Tiros partiam das janelas enquanto água e azeite fervendo eram jogados do alto das sacadas contra os soldados estrangeiros. Pelas ruas, empunhando o que tinham a mão, fossem foices, achas, pás, facões ou simples porretes, turbas de patriotas vagavam, coléricos, dando caça aos franceses. Muitos deles, extraviados, foram linchados. Junto, naquela orgia desbaratada de violência, eram por igual perseguidos os afrancesados, os que colaboravam com Napoleão ou lhe eram simpáticos.

Foi uma revolta anárquica sem comando ou direção. A intenção de muitos madrilenos era conseguir fechar as portas da cidade para que os franceses não pudessem mais entrar nela. Dai ter havido um memorável combate corpo a corpo na Porta Del Sol e no Parque Monteleón. Era o chuço contra a espada.

Bravura popular que não demorou a ser cruelmente reprimida pelas brigadas ocupantes, inclusive contando com tropas polonesas e muçulmanas. As ruas e vielas de Madri tornaram-se um matadouro em céu aberto. O Marechal da França fez a cidade calar-se aterrorizada. Goya, impotente, segundo um criado dele, assistiu as execuções por detrás das venezianas da sua casa.

O próprio Napoleão viu-se obrigado a se deslocar para península para por um término na insurreição geral que ameaçava o seu domínio. Se conseguiu reverter a situação nas cidades maiores, como Valladolid, Santander, Saragoça, Sevilha e Cádis, no campo proliferaram ações de “partidas” formadas por camponeses e pequenos fazendeiros armados. Os franceses que tinham 80 mil homens em 1808, ampliaram-nos para 200 mil em 1811, o que de pouco lhes adiantou. “Exasperamos os povoados”, escreveu um general ao Imperador, “e não sabemos ganhar os indivíduos”.

Ninguém captou melhor o sentimento de ódio e de vingança pelas humilhações sofridas pela gente de Madri naquela ocasião como Goya o fez numa série de 82 estampas denominadas de Los desastres de la guerra (1810-1820).Como ele escreveu ao rei na ocasião em que o trono havia sido recuperado por Fernando VII, o Desejado, “sentia o desejo mais ardente de eternizar com o pincel as cenas mais honrosas do nosso levante contra o tirano”.

Como registro literário do ocorrido, o poeta, Don Juan Nicasio Gallego (1777-1853), deixou o seguinte verso:

O Dois de Maio
Noite, tenebrosa noite, eterno asilo
do miserável que esquivando o sono
em teu silêncio pavoroso geme,
não desdenhes minha voz: narcótico letal
empresta as minhas têmporas, e em teu horror sublime
empapada a ardente fantasia,
dá a meu pincel fatídicas cores
com que o tremendo dia
trace ao fulgor de vingadora tocha
e o ódio irrite da pátria minha,
e escândalo e terror ao orbe seja…

Quando José I por fim, em 5 de dezembro de 1808, entrou na capital, apoiado na Guarda Imperial de Napoleão para assumir o trono de Espanha, o país estava exausto mas longe de querer depor as armas. Ao contrário, tomou fôlego para a longa Guerra da Independência espanhola que se estendeu até 1814, quando por fim os franceses recuaram em definitivo, assolados por nuvens de guerrilheiros, “simples labriegos, artesanos anonimos”, liderados por Juan Martin El Empecinado, e pelo cura Merino. Na Península Ibérica repetia assim, com seus padres e pobres do campo rebelados, a guerra da Vendéia de 1793.

Fernando VII, convertido a uma posição ultra-reacionária, então voltaria ao trono em Madri para impor um longo reinado (1814-1833) de poucas luzes, atraso e imobilismo. Situação da qual a nação somente se recuperou ao redor de 1850.

Terra Educação

Comentários

Goya e a Espanha do seu tempo (parte II)

Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

A suspensão das reformas

Reforma essa que se petrificou e até reverteu por efeitos dos pavores gerados pela Revolução de 1789, pois então ficou explícito que as propostas progressistas dos iluminados fatalmente promoveriam uma insurreição em massa, acompanhada por banhos de sangue, como acontecia na França naquela época, a “França pestilenta”, segundo o bispo Menendez de Luarca, o que contribuiu para que o a elite espanhola, tomada de pânico, acreditasse que o tradicionalismo e o imobilismo social e religioso do reino era um mal menor perante a fúria dos jacobinos. Os monges inquisidores lhes assumiram então como menos nocivos e sanguinários do que os comissários guilhotinadores de Robespierre. Frustração essa que provavelmente serviu de inspiração indireta a conhecida gravura de Goya “Os sonhos da razão produzem monstros” (1798).

Além disso, para uma reforma iluminista poder deitar raízes ela deveria contar com a existência da presença de uma classe média empreendedora, com profissionais liberais de relevo e gente do negócio e da indústria. Algo que visivelmente o país não dispunha.

Por isso, pelos destemperos dos acontecimentos de Paris, pelo radicalismo crescente da revolução, os políticos reformistas e os humanistas espanhóis, que, afinal, sempre foram minoritários, pagaram um preço alto: o banqueiro liberal Cabarrus (cujo conselho resumia-se no dito “Poucas leis, deixai fazer e observar”) foi confinado pela Inquisição, mesmo destino teve Mariano Luis de Urquijo, tradutor de Voltaire, seguido do escritor e ensaísta Gaspar de Jovellanos, um asturiano amigo de Goya, desterrado para a ilha de Maiorca entre 1800 e 1808, Pablo de Olavide, por sua vez, que fora detido por “heresia”, teve que fugir para o exterior, enquanto que, reforçados pela retomada da censura geral, os tribunais do Santo Ofício voltavam à plena atividade, apoiados por manifestações públicas dos seus familiares que saiam às ruas com seus capuzes pontudos e com tochas na mão para esconjurar os demônios vindos de fora que queriam tomar conta da sua Espanha.(*)

A política antiiluminista então adotada no reino de Carlos IV (1788-1808), sucessor de Carlos III, visou principalmente os livros. As alfândegas receberam ordens terminantes de impedir que qualquer volume vindo do exterior pudesse vir a entrar no território peninsular. A Espanha tradicionalista, fidalga e carola, procurava assim calafetar qualquer possível abertura que viesse a colocá-la em perigo. Novamente tudo indicava que a velha sociedade parecia novamente reproduzir a vitória que tivera nos séculos anteriores, na época do Renascimento, quando os teólogos reacionários aliados aos inquisidores esmagaram a influencia do humanismo erasmista entre a elite acadêmica espanhola, no século XVI.

(*) A Inquisição criada pelos reis católicos Fernando e Isabel em 1478 para estabelecer uma política de uniformização da fé nas áreas recém conquistadas dos mouros,levada a cabo primeiramente pelo cardeal Torquemada, foi uma das instituições mais nefastas da história ocidental. Por meio dos Tribunais do Santo Ofício e de Autos-de-fé, a Igreja e o Estado perseguiram e submeteram aos tormentos por mais de três séculos a todos a quem considerava ser uma ameaça étnica ou religiosa, particularmente os judeus e os mouriscos. Tornou-se símbolo da intolerância e da opressão oficial, procurando sufocar todo o pensamento e a criatividade da sociedade ibérica.Apesar dos liberais das Cortes de Cádis tentarem sua supressão em 1812, somente foi de fato encerrada em 1843, após 365 anos de funcionamento.

Pão e touros

Reagindo contra tal maré tradicionalista e reacionária, circularam panfletos e outros escritos de jovens inconformados com o retrocesso, denunciando aquela situação de retomada da ditadura monárquico-católica sobre o pensamento ilustrado. Numa delas, Marchesana, um ex-estudante de Salamanca, no seu chamamento “A la nación española”, escreveu:

“Já não é tempo da nação sacudir o intolerável jugo da opressão sobre o pensamento?Não é tempo para que o governo suprima um tribunal de trevas que envergonha até mesmo o despotismo?…Igualdade, humanidade, fraternidade, tolerância, espanhóis, este é em quatro palavras o sistema dos filósofos que alguns perversos os fazem olhar como se fossem monstros.”

Num outro libelo, intitulado ao modo de Juvenal, “Pan y toros” (Pão e touros), escrito por Leon de Arroyal, em 1793, denunciando o obscurantismo que novamente baixou sobre as terras espanholas, reduzindo a população à sobrevivência básica e à diversão nas arenas, concluiu que:

Haya pan y haya toros, y más que no haya otra cosa. Gobierno ilustrado: pan y toros pide el pueblo. Pan y toros es la comidilla de España. Pan y toros debes proporcionarla para hacer en lo demás cuanto se te antoje in secula seculorum. Amen

.(Há pão e há touros, e não há mais outra coisa.Governo ilustrado: pão e touros pede o povo. Pão e touros é a diversão da Espanha. Pão e touros deves lhes proporcionar enquanto e coloquem antolhos pelos séculos que ainda haverão de vir. Amém)

Letras e Tintas

Afastada de muito longe do tempo da Idade do Ouro das letras espanholas (entre 1500 – 1660) - contemporânea à expansão e apogeu do império ultramarino, que então contou com um Cervantes (+1616), um Garsilaso de la Vega (+1616),um Góngora (+1627), um Lope de Vega (+1635), um Quevedo (+1645), encerrando-se com Saaveda Fajardo (+1648) e a publicação do Idea de un Príncipe - a época de Goya mostrou-se pobre em obras significativas. Aquela grande literatura que legara à cultura ocidental, personagens como o cavaleiro louco Don Quixote, o esfaimado pícaro Lazarillo de Tormes, e o infatigável conquistador de mulheres Don Juan, não deixara sucessores à altura.

Tanto assim que nomes de escritores, poetas , ensaístas e eruditos, contemporâneos de Goya, tais como Nicolas F. de Moratín(+ 1780), o padre José Francisco de Isla(+1781), José Cadalso (+1782), Nicasio Cienfuegos (+ 1787), Tomás de Iriarte (+1791), Juan Pablo Forner (+ 1797), d. José Cerda y Rico (+1800), Félix Maria Samaniego (+ 1801), o já citado Gaspar de Jovellanos (+1811), Juan Meléndez Valdés (+1817), hoje só são lembrados pelos historiadores e estudiosos da literatura hispânica. De certo modo isso é a demonstração sociológica de como as artes de um modo geral se articulam com a situação material e política das nações, pois a mediocridade das letras contemporâneos ao grande pintor combinou com a decrepitude do império, abalado por guerras perdidas e por derrotas irrecuperáveis, além da estagnação econômica generalizada.

Situação que veio a se agravar ainda mais com a crise política provocada entre os monarcas espanhóis Carlos IV e seu filho Fernando, o Príncipe das Astúrias, envolvendo Napoleão Bonaparte, o que acarretou a invasão da península pelas forças francesas em 1808, desastre que se estendeu até 1814.

O mesmo poderia se dizer da pintura. O último grande nome espanhol das palhetas tinha sido Diogo Velásquez, falecido em 1660, quase um século antes do nascimento de Goya. Os temas e as cores que foram celebres, vivas e audazes, nos tempos dos Habsburgo, los Austrias (1504 – 1700), como muitos preferem chamá-los na Espanha, pareciam ter esmaecido na época dos Bourbon (iniciada com Felipe de Anjou, em 1700). Este esvaziamento dos talentos de certo modo obrigou a Corte a buscar artistas franceses (Miguel Ângelo Houasse e Jean Rance, Louis Michel van Loo) e italianos (Giacomo Amiconi, Corrado Giauinto, Antônio Rafael Mengs, Giovani Baptista Tieopolo). Muitos deles, além de retratarem o monarca e seus familiares e inúmeras cenas de caçadas, se dedicaram à feitura de cartões para que servissem como modelo para a fábrica de tapetes Santa Bárbara que Filipe V mandara fundar para suprir a demanda nacional. Foi para ela que o nome de Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), então um jovem artista aragonês, nascido em Saragoça, foi indicado, tendo produzido um número considerável deles entre 1775 e 1791. Aquele foi o primeiro passo para que ele viesse ocupar o lugar vazio deixado por Velásquez de Pintor Del Rei.

Terra Educação

Comentários

Goya e a Espanha do seu tempo

Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

Tempos Extraordinários

Goya, em sua vida adulta, transcorrida entre os anos de 1766 e 1828, ano da sua morte, conheceu tempos extraordinários. Uma época marcada por violentos e contraditórios acontecimentos na qual Tradição e Iluminismo, Absolutismo e Liberalismo, Inquisição e Tolerância, Revolução e Reação, Império e Nacionalismo, Colonialismo e Independência, Barroco e Classicismo, Academicismo e Romantismo, travaram batalhas formidáveis, verdadeiramente titânicas, para a conquista da hegemonia sobre a Europa e o Novo Mundo bem como sobre os destinos dos povos.

Ainda que poder declinante, periférico, o Império Espanhol – o maior de todos em extensão - viu-se cenário daqueles embates todos, quando não foi palco vivo das desavenças que abalavam o Mundo Ocidental até os seus fundamentos, fazendo que a obra artística do gênio do pintor refletisse tudo aquilo.

Ele já era homem maduro quando chegaram as notícias de que o povo de Paris, insurgido em 14 de julho de 1789, havia tomado de assalto a fortaleza da Bastilha, símbolo do despotismo de Luís XVI, dando início “a guerra das cabanas contra os palácios”, confronto que se espalhou por larga parte da Europa. Acontecimento extraordinário que circulou de boca em boca visto que o Conselho de Castela, assustado, decidira impor a censura prévia à imprensa e, um pouco depois, em fevereiro de 1791, determinou inclusive a proibição de toda a venda de jornais que não fossem os oficiais.

Era Goya já sexagenário e bem surdo ao saber dos levantes ocorridos no Novo Mundo, quando os antigos vice-reinos espanhóis da Américas (Nova Espanha, Nova Granada, Peru e Prata) foram sacudidos pelos gritos de independência, que desde 1810 iriam arrastar a Coroa da Espanha para uma longa guerra - travada desde a meseta mexicana até a bacia do rio da Prata - contra os caudilhos republicanos insurgentes (San Martin, Bolívar, Sucre, Iturbide), que somente culminou quinze anos na derrota do exército real em Ayacucho, no Peru, e na aceitação do fato consumado: Madri perdera a maior parte do seu império americano.

O impacto do Iluminismo na Espanha

Ainda que por muito tempo absorta em si mesmo, distanciada das coisas da Europa pela cordilheira dos Pirineus e pelo ultraconservadorismo da sua Igreja, a Espanha do rei, dos padres e dos camponeses, das touradas e do flamenco, por ser sede de um império mundial, não ficou a margem da contundência das idéias que estavam provocando ebulição nos meios cultos e nas cortes mais avançadas dos reinos vizinhos.

O Movimento Iluminista, que tomara fôlego desde a França, estava patrocinando uma mudança radical das mentalidades. Os homens deviam ser despertados da sua longa letargia mental e da subordinação que devotavam à tradição e aos costumes. Começar a ousar, a pensar por si mesmos com total autonomia, sem recorrerem a nenhuma outra autoridade senão que a autorizada pela Razão.

Na época de Goya a população espanhola pouco ultrapassava os 10 milhões de habitantes, conquanto que Madri tinha talvez uns 150 mil moradores. A Igreja Católica, por sua vez, dispunha de uma quantidade enorme de sacerdotes, frades e freiras, calculadas em 200 mil pessoas (três vezes mais do que a França e duas vezes mais do que a Itália), e altamente desproporcional ao país. Havia ainda uns 400 mil chefes de família da fidalguia que controlavam as terras, sendo que os aristocratas formavam em geral uns 10% da população dominando os 22 mil pueblos que compunham as comunidades espalhadas pelo país.

Segundo a opinião de um embaixador francês daquela época “na Espanha o povo baixo tem um gosto vil; se dedica sobretudo às proceissões, corridas de touros e ao amor na sua forma mais brutal. A burguesia está descontente e sobre de um empobrecimento geral. O clero é ignorante e a nobreza morre de fome num solo somente cultivado pela metade.” (”Goya” de Rose-Marie e Rainer Hagen, 2003, p.27).

O Estado que era entendido pelo Absolutismo como um meio de reforçar o poder do monarca, ainda que à custa dos sacrifícios dos súditos, foi percebido desde então como um poderoso instrumento para auxiliar o povo a sair da miséria. Era uma ferramenta a ser utilizada pelo soberano para executar políticas filantrópicas e solidárias, um magnífico agente da reforma política, social e econômica, exigida pelos novos tempos, que tinha por meta implantar a felicidade de todos, ainda que os procedimentos por ele empregados fossem autoritários. Nascia assim, sob a égide do pensamento de muitos filósofos do século XVIII, o Despotismo Ilustrado, com a função de impor o esclarecimento das coisas, mesmo que de cima para baixo, para afastar os súditos, homens e mulheres, daquele clima opressivo criado pela pregação religiosa carola e sem fim e pelo mandonismo senhorial exercido pela nobreza, visto que um povo de beatos jamais alcançaria a ilustração.

Os ilustrados de Carlos III

Em Madri, coube a Carlos III (reinou entre 1759-1788), terceiro filho de Fernando V com a bela Isabel de Farnese, assumir a bandeira das reformas para arrancar a sociedade espanhola do arcaísmo a que ela parecia estar condenada. Uma série de ministros dele (os ilustrados Marquês de Esquilache, Aranda, Campomanes, Floridablanca, Wall y Grimaldi), entre 1760 e 1790, foram os executores, por vezes contraditórios, do que podemos denominar de política espanhola do esclarecimento.

Entre elas estava a dinamização das indústrias e do crescimento material e tecnológico, estimulada pela proliferação de Sociedades de Economia (a primeira foi fundada pelo conde de Campomanes, em 1775), estimulo à dignidade do trabalho com valorização do artesão, impulso a que a fidalguia decidisse melhor a produtividade das grandes propriedades ao tempo em que retirava da pequena nobreza o privilégio de não ter que trabalhar(*), projeto de colonização nas terras abandonadas da Igreja (que Pablo de Olavides tentou levar à prática), a fundação de hospitais e hospícios, a melhoria do ensino superior, a limitação dos poderes da Igreja Católica, a diminuição da autoridade dos Tribunais do Santo Ofício e, como conseqüência, uma maior tolerância para com a as opiniões divergentes.

Chegaram ao ponto, os reformistas, de determinar pela Pragmática de 2/04/1767 a expulsão da Companhia de Jesus (inimiga jurada dos Iluministas, acusada de fomentar a rebelião popular da “capa e do sombreiro”, também conhecida como a Revolta de Esquilache, eclodida em Madri em 1766), ao tempo em que procuraram inutilmente acelerar a integração dos ciganos como súditos com direitos equivalentes aos demais espanhóis, desde que deixassem de falar o caló, seu idioma peculiar, e abandonassem a vida nômade (Pragmática de 1783).

Terra Educação

Comentários

"A Internet está se tornando o principal meio de comunicação", diz criador da Netscape

Em entrevista ao Spiegel, Marc Andreessen, co-fundador de 36 anos do Netscape, discute a aquisição da Yahoo pela Microsoft, as últimas tendências na Web e a busca pela próxima grande coisa.

Frank Hornig

Spiegel - Senhor Andreessen, a idéia de uma firma enorme Microsoft-Yahoo o assusta?
Andreessen -
Não, de forma alguma. Se a fusão acontecer, vai exigir dois anos de integração. No final, será uma empresa combinada que fará algumas coisas bem e outras mal. Enquanto isso, haverá quantidade tremenda de trabalho a ser feito por outras empresas como nós. E isso significa que haverá muitas oportunidades.
Spiegel - O senhor acredita que isso deixaria apenas dois grandes agentes na Internet -Microsoft-Yahoo e Google- que dominariam a indústria?
Andreessen -
É totalmente impossível prever as conseqüências dessa fusão ou prever a posição das empresas envolvidas. E é impossível prever quais empresas surgirão nesse período. É isso precisamente o que torna esta indústria tão divertida.
Spiegel - O que deu errado na Yahoo? Por que eles sempre perderam mercado para o Google e assim acabaram se tornando alvo de aquisição hostil?
Andreessen _
Uma das conseqüências de ser uma empresa pública é que esse tipo de coisa acontece. Eu fundei duas empresas e tornei-as públicas, mas minha terceira, Ning, não é pública. Isso é uma das coisas boas sobre a empresa, e acho que o Facebook também está apreciando isso, que ninguém pode atacá-lo dessa forma. Você também consegue se concentrar completamente no que está fazendo - não há pressões para ganhos nem tomadas hostis. Eu gosto de não ser uma empresa pública.

SOBRE MARC ANDREESSEN

Marc Andreessen tinha 22 anos quando desenvolveu seu primeiro software amplamente usado para a World Wide Web. Até aquele ponto, a Web era considerada um deserto que só podia ser navegado pelos iniciados. Pela primeira vez, o Netscape Navigator de Andreessen permitiu aos usuários "surfarem" pelas páginas coloridas da Internet sem dificuldades. A mudança marcou o início da revolução das pontocom. Este americano é considerado um dos mais importantes pioneiros da Internet moderna.
A oferta pública inicial da Netscape, em 1995, foi um sucesso surpreendente, mas a decadência da empresa iniciou-se pouco depois. Uma longa e sangrenta guerra de programas levou o Netscape a perder mercado e valor na bolsa. Em 1998, a AOL adquiriu a empresa por mais de US$ 4 bilhões (em torno de R$ 8 bilhões). Um ano depois, Andreessen iniciou uma empresa provedora de Internet que a Hewlett-Packard comprou em 2007 por US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 3,2 bilhões). Em 2004, ele fundou a Ning, com a sócia Gina Bianchini. A empresa fornece uma plataforma para redes sociais e já inclui mais de 170.000 redes -grupos ilustres e diversos que vão desde bombeiros até fãs de pingüins ou pacientes de diabetes.

Spiegel - Quais tendências causaram esse tipo de jogo de bilhões de dólares na sua indústria?
Andreessen - Primeiro de tudo, a Internet está se tornando real agora de uma forma que nunca foi antes. Ela está se tornando o principal meio utilizado pelos consumidores para obterem informações e se comunicarem. Você pode ver que isso está acontecendo na propaganda, você pode ver que isso está acontecendo em telecomunicações, no vídeo com YouTube, na música, jornais e revistas. Tudo está se transferindo em massa, e os consumidores estão basicamente se mudando para Internet. Nós falamos sobre isso nos anos 90, mas não aconteceu na época. Eram apenas experimentos. Agora está realmente acontecendo.
Spiegel - A quantidade de propaganda off-line ainda é muito maior que a quantidade de propaganda online.
Andreessen -
Você sabe que haverá uma migração nos próximos cinco a dez anos. As grandes empresas -Google, Microsoft e Yahoo- têm importantes papéis a desenvolver nessa transição. Elas vão se beneficiar muito disso. Mas eu também acho que há toda uma nova geração de empresas que vai se beneficiar disso.
Spiegel - Mas quem sabe qual é a próxima grande coisa? A News Corp. comprou o MySpace, Google investiu na AOL, a Microsoft comprou ações da Facebook e agora está lutando para adquirir a Yahoo. Parece que o bolo logo estará cortado e distribuído.
Andreessen -
Não! Eu acho que o ritmo de mudança está se acelerando. A televisão e a imprensa sempre funcionaram com um mesmo conjunto de regras e padrões técnicos. A Internet, porém, se baseia em software. Qualquer um pode criar um novo programa na Internet que, anos mais tarde, um milhão de pessoas estarão usando. Minha teoria é: a cada ano, surge uma nova aplicação incrível. Um ano é Ebay, no próximo é Craigslist, depois é Napster, depois Paypal, YouTube, Facebook, MySpace e assim por diante. Eu investi em uma série de novas empresas -todas candidatas a se tornarem uma dessas novas grandes coisas. A Digg, por exemplo…
Spiegel -… um portal de informações no qual os editores são substituídos por usuários que votam nos artigos, vídeos, podcasts e qualquer outra forma de conteúdo digital para determinar a colocação da notícia na página inicial do site.
Andreessen -
Talvez em cinco anos estaremos recebendo nossas notícias dessa forma. Certamente é possível, mas talvez não. Essa mutação e evolução contínuas basicamente significam: não acho que existe um estado estável. Eu não acho que haverá um momento no qual poderemos dizer: está bem, a Google faz isso, a Microsoft faz aquilo. No passado, quando falávamos de televisão nos EUA, tínhamos sempre CBS, NBC e ABC. E a imprensa era o "New York Times", o "Washington Post" e o "Los Angeles Times". Acho que esses tempos se foram.
Spiegel - E os usuários estarão criando todo esse conteúdo sozinhos, enquanto o entretenimento profissional e o jornalismo clássico perdem seu significado?
Andreessen -
Temos um ditado: "isso e US$ 3 lhe comprarão um café no Starbucks". Os jornais com circulação em declínio podem reclamar o quanto quiserem sobre seus leitores e até mesmo dizer que eles têm mau gosto. Mesmo assim, sairão do ramo com o tempo. Um jornal não é um bem público -tem um modelo de negócio que funciona ou não.
Spiegel - O que o senhor faria diferente?
Andreessen -
Bem, se as empresas de jornal se auto-destruírem porque não conseguiram lidar com essa transição, então é problema delas. As pessoas que fabricavam charretes não foram as que abriram fábricas de automóveis. Mas o ponto é o seguinte: há uma enorme demanda de mercado por informação. Simplesmente tem que ser preenchida de uma forma que se encaixe com a tecnologia de nossos tempos. Também abrirá muitas oportunidades para uma nova geração de empresas de mídia, em geral nascidas na Internet. Neste instante, elas estão surgindo em toda parte - como a Talking Points Memo, um blog político de esquerda que parece uma volta ao jornalismo anterior à Segunda Guerra Mundial, quando era esperado que os jornais fossem parciais. Nenhuma delas é enorme, mas é assim que se cria uma indústria. Talvez em dez anos vejamos enormes organizações de notícias nascidas de experimentos que estão acontecendo neste instante e que não têm nada a ver com a CNN.
Spiegel - Sua mais jovem empresa, Ning, é um abrigo de redes sociais. Os usuários criaram redes para fãs de vegetais crus, de jogadores de beisebol ou até de Madonna. Não é um pouco tarde para se iniciar um portal?
Andreessen -
O MySpace e o Facebook estão se saindo muito bem -os dois estão crescendo incrivelmente rápido. Mesmo assim, em grande parte, ainda estão presos a conceitos rígidos. Tomamos a posição oposta, ou seja: enlouqueça, crie o que quiser. Existem dezenas de milhões de pessoas por aí que estão se familiarizando com o conceito de rede social. Em algum ponto, elas vão querer sua própria coisa. E é aí que nós entramos. Nosso site, neste instante, só faz crescer e se consolidar. Para cada pessoa que entra para uma rede, duas outras entrarão. Assim, 1.000 usuários vão se tornar 3.000; 3.000, 9.000 e assim por diante. Nossos servidores estão simplesmente contando tiques.
Spiegel - A oferta pública inicial do Netscape, em 1995, foi um enorme sucesso. O senhor tinha 24 anos na época e ganhou milhões de dólares. A Ning é minúscula em comparação. Por que o senhor continua começando do zero?
Andreessen -
Eu amo o vale do silício. Sinto-me um homem de sorte por estar aqui. Eu me criei no Centro-Oeste, onde quase não há novas empresas. Isto é um lugar mágico. Aqui, uma pessoa sem experiência em negócios como eu pode criar uma nova tecnologia e iniciar uma empresa, vê-la crescer e se tornar um sucesso. É simplesmente impressionante.
Spiegel - Há cerca de dois anos, a Web 2.0 tornou-se a nova frase de efeito da Internet. Na sua opinião, como será a Web 3.0?
Andreessen -
Essas são expressões vazias, que tentam agrupar as coisas. A Internet sempre foi e sempre será uma caixa mágica. Se alguém aparece e diz que quer iniciar uma empresa de Web 2.0, eu digo "próximo!", porque essa pessoa não tem uma idéia forte sobre o que está fazendo e não tem um modelo de negócio claro.
Spiegel - Há cerca de 9 anos, a AOL pagou bilhões de dólares pelo Netscape que o senhor desenvolveu. No início de março, o serviço de suporte para o uso desse software será interrompido. O senhor está desapontado?
Andreessen -
De fato, ele foi fechado em 1999! De 1999 até 2008, foi uma catástrofe. Foi parte da catástrofe da AOL Time Warner.
Spiegel - A World Wide Web existe há mais de 15 anos. Algum de seus aspectos tornou-se grande demais?
Andreessen -
A informação. Eu certamente tenho informação demais. Fico louco. Por isso entrei numa dieta de informação.
Tradução: Deborah Weinberg

Visite o site do Der Spiegel

Comentários

Por um populismo mais autêntico

A origem de Lula lhe confere uma aura popular. Só falta ele se comprometer com a democracia

Fábio Wanderley Reis*

Pesquisas de opinião voltam a mostrar forte e crescente apoio a Lula e a intrigar muita gente: a que se deverá? O notável no espanto suscitado é o destaque freqüente de que o apoio ocorre “apesar dos cartões corporativos”. Se denúncias como as do mensalão não conseguiram impedir a grande vitória de Lula em 2006, caberá mesmo esperar que o artificialismo do escândalo da tapioca venha a abatê-lo aos olhos do eleitorado? Afinal, não obstante a crise da economia estadunidense e as ameaças resultantes, o País se vê inundado de boas notícias no plano econômico, com aspectos como os da renda crescente, do crédito mais acessível e do crescimento do emprego, que não podem senão reforçar, em termos de apoio popular ao governo, os efeitos do êxito da política social em geral. É elementar reclamar que o uso dos cartões corporativos ou de contas “B” seja apropriadamente fiscalizado, com os abusos neutralizados e punidos; mas é inegável o que há de excesso por parte da imprensa e de jogo político por parte da oposição no alvoroço do momento sobre o assunto.
A avaliação de dados como os da pesquisa CNT/Sensus de agora se vê fatalmente envolvida por algo que surgiu com força inédita na eleição presidencial de 2006: a intensa correlação entre o apoio a cada um dos dois principais candidatos e a posição socioeconômica dos eleitores, em que crescem os votos de Lula e minguam os de Alckmin à medida que se desce nas escalas de renda e educação. Com as projeções regionais dessa correlação, tivemos, na verdade, análises em que se insinuava a desqualificação do eleitorado lulista - e, especialmente no azedume anti-Lula de certa “opinião pública” que há muito povoa a internet de vídeos sarcásticos, a contestação ao menos latente da própria legitimidade da presença de Lula na Presidência.
Isso ecoa um tema insistente nos debates acadêmicos sobre o processo político-eleitoral brasileiro, o da suposta “volatilidade” do eleitor. Mesmo se se destacam os erros da idealização do eleitorado popular e a relevância política das deficiências intelectuais que nossa desigualdade lhe impõe, os resultados de estudos sistemáticos não justificam falar de volatilidade, que, naturalmente, fatos como a fidelidade aparentemente duradoura a Lula também negam. Por certo, o eleitor pode mostrar-se consistente, em vez de “volátil”, por melhores ou piores razões: desde a avaliação informada e sofisticada das opções oferecidas pelo jogo político-eleitoral, em sua correspondência com interesses ou mesmo valores de maior importância, até a percepção míope de ganhos mais ou menos imediatos ou de vagas afinidades em termos de id