Arquivo de 26 de Fevereiro de 2008

Egito, um vulcão prestes a explodir

O desemprego, os altos preços e a pobreza acirram as tensões sociais

Ángeles Espinosa

Na quinta-feira à tarde o City Stars do bairro de Heliópolis, no Cairo, fica cheio de gente e atividade. Centenas de famílias da incipiente classe média egípcia que fez fortuna trabalhando nas monarquias petroleiras da península arábica dão testemunho de que seus gostos e aspirações não diferem muito dos de seus semelhantes em qualquer capital ocidental. Esse gigantesco templo do consumo é um exemplo visível dos 7% de crescimento anual que o governo de Mubarak exibe como prova de seu sucesso econômico. Mas toda moeda tem sua cruz.

Algumas horas antes, no outro extremo da cidade, duas longas filas rodeiam o escritório do registro civil do distrito de Pirâmides, uma de homens e outra de mulheres. Aqui, os que não se beneficiaram com o boom da liberalização, das privatizações e do turismo esperam para obter um dos novos cartões de racionamento que lhes dão acesso a produtos subvencionados. Esse cupom de óleo, açúcar, arroz e lentilhas constitui o único alívio vital para os 44% da população egípcia que, segundo um relatório recente do Banco Mundial, vivem abaixo da linha de pobreza.

A linha de pobreza significa menos de US$ 1 por dia, ou 165 libras egípcias (20 euros) por mês, mas quantos mais dos 76 milhões de egípcios não superam as 200 ou 500 libras mensais? “Não sei como fazem”, admite A.I., uma viúva, profissional liberal e mãe de dois filhos, em uma das modernas cafeterias do City Stars. “Eu tenho um bom salário, cerca de 300 euros por mês, mas só na educação de meus filhos gasto quase 600. Se não trabalhasse também para uma empresa estrangeira, mal sobreviveríamos.” O emprego múltiplo é a norma entre os que têm a sorte de ser qualificados.

Mas inclusive como capataz de obra Abdel Gayyed ganha só 400 libras. Por isso não é oficialmente um pobre. “Descontado o aluguel do apartamento, restam 325 para comer e dar educação a meus quatro filhos”, declara. “Como crê que posso chegar ao fim do mês com estes preços?”, pergunta enquanto espera a sua vez na fila.

“O nível de pobreza dá medo”, afirma Ibrahim Eissa, diretor do jornal independente “Al Dostur” e uma das vozes mais críticas do governo. “A sociedade foi abandonada a sua sorte e até agora a corrupção compensava a inflação, mas desde o ano passado os preços aumentam em um ritmo que não há suborno que compense”, ele elabora. “Até alguns anos atrás também ajudavam as remessas dos imigrantes, dois milhões no Iraque, um milhão no golfo Pérsico, mas eles voltaram, há muito desemprego, os recursos são limitados e não há desenvolvimento.”

A ansiedade que essa situação gera ficou patente em 2007, que os comentaristas batizaram como “o ano das sentadas”. Segundo uma contagem jornalística, houve 700 greves e protestos trabalhistas em um país onde as manifestações são proibidas. E a tendência continua. “A população está ferida”, interpreta Eissa, “mas carece de organização política ou sindical; não há um partido ou uma corrente capaz de canalizar esse mal-estar”. O comentarista se preocupa com essa situação. “Sem dúvida está contribuindo para o aumento do fundamentalismo, do jihab (lenço islâmico), da violência, da corrupção, das tensões inter-religiosas e inclusive da criminalidade”, acrescenta. Em novembro, durante a última conferência do Partido Nacional Democrático (PND, no governo), o governo sondou a possibilidade de suprimir os subsídios (que no ano passado chegaram a cerca de 7 bilhões de euros) por uma ajuda em espécie. O risco de explosão popular não só conteve o projeto como levou a ampliar em 15 milhões um benefício que até agora chegava a 40 milhões.

“O Egito é como um vulcão prestes a explodir”, diz Eissa. O mais grave, na opinião dele, é que “o Estado não tem ferramentas para atacar a situação, porque está negando a realidade”. Por isso continua descartando a participação política dos Irmãos Muçulmanos (a única oposição com apoio popular, embora não tanto quanto eles pretendem e o governo diz temer) ou evitando o tema da sucessão.

Depois de Mubarak, quem?
O que vem depois de Mubarak? “El Marg”, respondem os egípcios com seu habitual senso de humor. El Marg é a última parada na linha 1 do metrô, cuja estação central se chama Mubarak. Além da piada, os egípcios estão preocupados com a sucessão de Hosni Mubarak.

Prestes a completar 80 anos, ele não nomeou um vice-presidente (que segundo a Constituição deveria substituí-lo em caso de morte, como ele fez com Sadat), nem permitiu que surja uma figura capaz de substituí-lo. Salvo seu filho Gamal, de 44 anos, que ambos negam que tenha aspirações à presidência.

Talvez, mas para quem não as tem está seguindo uma preparação política esmerada. Desde o início de 2000, quando seu pai o nomeou membro da secretaria geral do PND, sua influência dentro do aparato do partido não deixou de aumentar. A ponto de que em 2004, quando o primeiro-ministro Ahmed Nazif nomeou sua equipe de governo, foi chamado de Gabinete de Gamal, porque a maioria dos novos ministros procedia do comitê de ação política do PND, que ele preside. Há um ano, Gamal foi encarregado de anunciar a retomada do projeto nuclear egípcio no congresso do partido.

“Estão desenhando as regras do jogo de forma que tudo o favoreça”, aponta Ibrahim Eissa, referindo-se à emenda constitucional que estabeleceu as condições para ser candidato à presidência. Mas Eissa parece menos preocupado com essa possibilidade do que com a permanência de Mubarak. “Não importa quem virá; quero que ele saia”, resume, convencido de que sem seu pai “Gamal não pára nem um táxi”. “A rejeição a Gamal é generalizada, não só entre a oposição”, afirma Diaa Rachwan, do Centro de Estudos Estratégicos do jornal “Al Ahram”. “Sua única qualidade é ser filho do presidente”, explica, antes de comentar sua falta de carisma ou de senso de humor.

Outros analistas, porém, apontam que a chave para a sucessão é o exército, cuja posição neste e em outros assuntos é um grande mistério para os observadores.

El País
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A desastrosa “pax americana”

Rotulando todo e qualquer conflito na região como um confronto global entre o Bem e o Mal, a política neoconservadora dos Estados Unidos estabeleceu vínculos antes inexistentes entre crises locais, municiou o fanatismo islâmico e criou o maior foco de instabilidade do planeta

Alain Gresh

“Há dez anos, a Europa era o epicentro da política externa norte-americana. Era nesse pé que as coisas estavam, de abril de 1917, quando Woodrow Wilson enviou um milhão de tropas ao front ocidental, até a intervenção do presidente Clinton em Kossovo, em 1999. Durante a maior parte do século 20, a Europa foi nosso foco principal, vital. […] Desde então, tudo mudou. […] O Oriente Médio em particular hoje ocupa — para o presidente Bush e a secretária de Estado Rice, assim como para seus sucessores — o lugar outrora reservado à Europa pelas diferentes administrações do século 20”. Assim se expressou, em 11 de abril de 2007, Nicholas Burns, o subsecretário de Estado norte-americano [1].

Como martelou o presidente Bush: “O desafio enfrentado no Oriente Médio estendido é mais do que um conflito militar. É a batalha ideológica decisiva de nosso tempo. De um lado, estão aqueles que acreditam na liberdade e na moderação. Do outro lado, estão os extremistas que matam inocentes e declararam sua intenção de destruir nosso estilo de vida” [2].

Desde o 11 de setembro, esse broader Middle East — uma região de contornos vagos, que se estende do Paquistão ao Marrocos, passando pelo Chifre da África — tornou-se o principal terreno de mobilização de tropas norte-americanas, o campo de batalha decisivo, melhor dizendo, único, disso que a Casa Branca qualifica de conflito mundial. Por causa de suas fontes petrolíferas, de sua posição estratégica, da presença de Israel, a região sempre figurou entre as prioridades dos Estados Unidos, principalmente depois de 1956 e a progressiva saída de cena da França e do Reino Unido. De agora em diante, como explicou Philippe Droz-Vincent em sutil análise do “momento americano” no Oriente Médio, a região substitui a América Latina como “quintal imediato” [3] dos Estados Unidos. Com uma dimensão suplementar que o mundo latino-americano jamais teve: a de campo de batalha vital de uma terceira guerra mundial.

E a paisagem do lugar ficou de pernas para o ar. Era sem dúvida o objetivo das estratégias do Pentágono e dos neoconservadores, mas é de se duvidar se os resultados estão conformes a seus sonhos de remodelar a região para aí estabelecer permanentemente seus empreendimentos — como haviam feito os governantes franceses e britânicos após a Segunda Guerra Mundial.

Esse broader Middle East se transformou em uma “zona de guerra desmesurada”, marcada pelos inúmeros conflitos sangrentos e sua simultaneidade — bem como pela participação direta dos exércitos ocidentais. O Afeganistão mergulhou no caos conforme as tropas norte-americanas e da Otan se afundaram no país. O Iraque assiste ao mesmo tempo a uma resistência e a uma ocupação estrangeira e a conflitos internos religiosos e étnicos que fizeram centenas de milhares de vítimas — mais, segundo observadores, que o genocídio ruandês —, abrindo feridas que serão difíceis de cicatrizar.

No Líbano, foi instaurada uma guerra civil silenciosa que opôs o governo de Fuad Siniora à oposição agrupada em torno do Hizbollah e da Corrente Patriótica Livre de Michel Aun; e a confrontação com Israel pode ser retomada a qualquer momento, a despeito da presença de enormes contingentes das Forças Interinas das Nações Unidas no país. Na Palestina, a colonização e a repressão aceleraram não só o fracionamento do território, como também a desagregação da sociedade e o esfacelamento, talvez irreversível, do movimento nacional. Após a intervenção etíope de dezembro de 2006, apoiada por Washington, a Somália conquistou o duvidoso título de “novo front na guerra contra o terrorismo”. E poderíamos ainda lembrar de Darfur, das tensões no Paquistão, da “ameaça terrorista” no Magreb ou da possibilidade de um novo choque entre Síria e Israel.

Esses conflitos, que possuem cada um uma história própria e causas locais, inscrevem-se doravante em uma perspectiva norte-americana que lhes atribui um “sentido”. No tempo da guerra fria, os Estados Unidos (assim como a União Soviética) interpretavam toda crise sob o prisma do confronto entre o Ocidente e o Oriente. Assim, a Nicarágua das décadas de 70 e 80 não era o território da luta da Frente Sandinista contra uma ditadura brutal a fim de construir uma sociedade mais justa, mas um país sob risco de se bandear para os lados do Império do Mal [4], a URSS — interpretação que custou ao povo nicaragüense dez anos de guerra e destruição. Para Washington, o problema palestino não existe mais, assim como a crise do Estado somali ou a instabilidade religiosa no Líbano, e sim um confronto mundial entre o Bem e o Mal. Reflexo disso, esse discurso alimentou o da Al-Qaeda para uma guerra sempre recomeçada contra “os cruzados e os judeus”.

Tal dicotomia simplificadora acabou se tornando, em parte, uma profecia auto-realizável; e que é usada como instrumento pelos atores locais a fim de reforçar suas posições. O exemplo da Somália é, nesse aspecto, esclarecedor [5]: o governo federal transitório somali, composto de líderes de guerra corrompidos e incompetentes, “vendeu” para a Casa Branca a idéia de que o país era um campo de atividades do “terrorismo internacional”. Washington, desse modo, encorajou a intervenção militar de Addis-Abeba para se desembaraçar dos Tribunais Islâmicos que haviam tomado conta de Mogadíscio seis meses antes. As dinâmicas internas foram negligenciadas em prol das análises globalizantes. E essa invasão de um país muçulmano pela Etiópia, país cristão (convém lembrar), empresta credibilidade aos grupos islâmicos mais radicais [6].

Outro exemplo é o Líbano, Estado frágil, que repousa sobre uma sutil alquimia religiosa. Ao apoiar sem matizações um dos lados e uma metade do país contra a outra, os governos dos Estados Unidos e da França tornaram mais difícil qualquer solução local. Desde então, o país se tornou nada mais que um território de confronto entre, de um lado, o Ocidente e seus aliados e, de outro, o Irã e a Síria — qualquer comprometimento, por mais indispensável que seja, arrisca-se a parecer uma “vitória do Mal”.

Se as guerras são múltiplas, mil e um liames são tecidos de agora em diante entre elas. Homens, armas, técnicas cruzam as fronteiras cada vez mais porosas, às vezes na esteira de centenas de milhares de refugiados levados ao exílio pela ferocidade dos combates. Assim, no Afeganistão, disseminam-se, após dez anos, formas de luta surgidas no Iraque, principalmente os atentados suicidas, inexistentes durante a ocupação soviética (encontram-se esses mesmo métodos hoje na Argélia), ou o uso de bombas IED (improvised explosive devices) contra o transporte de tropas.

No campo de Nahr El-Bared, no Líbano, centenas de combatentes, dentre eles inúmeros estrangeiros que receberam treinamento militar no Iraque, fizeram frente por mais de três meses ao exército libanês. E milhares de combatentes árabes, paquistaneses, centro-asiáticos, formados no Iraque, vêm proliferando desde então. Não nos esqueçamos que, após a guerra conduzida contra os soviéticos no Afeganistão, combatentes formados pelos exércitos norte-americano e paquistanês juntaram-se a grupos terroristas no Egito, na Argélia e outros lugares, constituindo o grosso dos batalhões da Al-Qaeda. Essas guerras, por outro lado, alimentaram um tráfico rentável: armas dadas às forças de segurança iraquianas encontram-se assim nas mãos de criminosos na Turquia [7].

Nesse contexto, os Estados da região, já enfraquecidos por décadas de ditadura e corrupção, vêem seu papel diminuir. Em alguns casos, como no Afeganistão, eles pura e simplesmente desapareceram. No Iraque, a desagregação atual não é simplesmente resultado da guerra, mas também dos quase treze anos de embargo (1990-2003) que esvaziaram o Estado de toda a sua essência. Foi nessa época que a influência salafista sunita começou a se reforçar no país, principalmente por meio das rotas clandestinas com a Jordânia, por onde passavam não apenas alimentos e remédios, como também armas e idéias radicais [8]. Nenhum país vizinho — seja a Arábia, o Irã, a Turquia ou a Síria — pode permanecer indiferente à instabilidade em suas fronteiras: cada um, pelos próprios interesses, aí intervém direta ou indiretamente. No Líbano, as tentativas de reconstrução de um poder central fracassaram. Na Palestina, a Autoridade Nacional só sobreviveu graças à ajuda militar e econômica estrangeira e ao apoio do governo israelense. Territórios inteiros, do Curdistão a Gaza, ganharam autonomia, atiçando ainda mais aspirações de independência, dos curdos da Turquia aos balúchis do Irã e do Paquistão.

O papel das milícias armadas nunca foi tão importante, tornando qualquer negociação mais complexa. Tanto no Afeganistão como no Iraque ou na Somália, são elas que ditam as regras. No Líbano, é o Hizbollah; em Gaza, é o Hamas. Essas organizações mostram-se de uma eficácia temível. No Iraque, levaram à derrota o principal exército ocidental; e, no Afeganistão, a Otan foi incapaz de dobrá-las. No Líbano, o Hizbollah não só resistiu durante 33 dias à intervenção de Israel, como também mudou as regras do jogo: pela primeira vez desde 1948-49, uma parte substancial da população israelense foi forçada a abandonar seus lares.

Mesmo o Hamas, confinado a Gaza, é capaz de atacar uma cidade israelense como Sderot [9]. A utilização de armamentos, rudimentares mas eficazes e facilmente substituíveis (IED, foguetes Qassam, armas anticarro etc.), determinam os limites do poderio americano e israelense. Zeev Schiff, o analista militar recentemente desaparecido do jornal israelense Haaretz, fez uma constatação realista: “Mesmo que declaremos dezenas de vezes que o Hamas está sob pressão e que deseja o cessar-fogo, isso não eliminará o fato de que, na batalha de Sderot, Israel saiu na verdade derrotado. […] Israel viveu em Sderot algo que não vivia desde a guerra de independência, e que talvez jamais vivera: o inimigo conseguiu reduzir ao silêncio uma cidade inteira e interrompeu toda a vida normal” [10].

O impasse político na Palestina, a desarticulação dos Estados, as intervenções militares sucessivas dos Estados Unidos favorecem o desespero suicida e municiam de argumentos as promessas extremistas da Al-Qaeda. Logo após o seqüestro em Gaza de dois jornalistas da rede norte-americana Fox News por um grupo até então desconhecido, o jornal saudita Al-Watan publicou, em 31 de agosto de 2006, um artigo sobre “a terceira geração” de militantes islâmicos, que emerge na Palestina e passou a questionar o Hamas e a jihad islâmica. O autor assim a caracteriza: ela não tem base popular; recusa qualquer acordo; não se sente ligada às regras do jogo político; não visa somente os israelenses; suas reivindicações não se limitam à Palestina. Que grupos sob a proteção da Al-Qaeda possam se desenvolver no Iraque e no Afeganistão, enxamear pelos campos palestinos do Líbano, se instalar no Magreb ou na Somália confirma a pressão de uma ideologia extremista em um momento em que as fronteiras regionais se fraturam.

O nacionalismo que havia estruturado a região depois da Primeira Guerra Mundial é hoje contestado pelo ressurgimento das identidades étnico-religiosas — ressurgimento que Washington encoraja, por negligência ou cálculo. O general David Petraeus, atual comandante-em-chefe das tropas norte-americanas no Iraque, estava à testa da 101ª Divisão aerotransportada que tomou Mossul em 2003. Uma de suas primeiras decisões foi criar um conselho eleito por voto censitário para representar a cidade: instalaram-se urnas separadas para curdos, árabes, turcos, cristãos etc. Os “iraquianos” haviam desaparecido.

Essa redução da região a um mosaico de “minorias” domina toda política norte-americana; ela força cada um a se identificar com sua comunidade, em detrimento de qualquer sentimento de inclusão nacional (ou outra [11]), enfraquece a integridade dos Estados e desencadeia conflitos sem fim: hoje, no Iraque; amanhã, quem sabe, na Síria ou no Irã. Encoraja também toda ingerência externa, regional ou internacional, cada um manipulando os atores locais em benefício de seus próprios interesses. Israel aliás vem desempenhando, desde os anos 80, um papel preponderante na elaboração dessa estratégia [12].

Durante o primeiro mandato do presidente Bush, os neoconservadores não hesitaram em propor uma estratégia de “instabilidade construtiva” para o Oriente Médio [13]. “O que estamos vendo aqui, em certo sentido, é o crescimento, as dores do parto de um novo Oriente Médio, e seja lá o que fizermos, temos de nos assegurar de que estamos avançando em direção ao novo Oriente Médio, não retrocedendo ao antigo”, atreveu-se a afirmar Condoleezza Rice durante a guerra do verão de 2006 no Líbano, enquanto o país era arrasado pelas bombas da aviação israelense. Se o cinismo de uma tal declaração, na época, suscitou alguns comentários amargos, de certa forma a secretária de Estado americana estava com a razão: isso que, após o 11 de setembro, apresentou-se ao mundo diante de nossos olhos, é sem dúvida um “novo Oriente Médio”, que não só não se parece em nada com o que os dirigentes americanos haviam imaginado, como também veio a se tornar um fator de instabilidade maiúsculo e permanente de toda a política mundial.

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[1] Ver.

[2] Discurso sobre o estado da União, 11 de janeiro de 2007.

[3] Philippe Droz-Vincent: Vertiges de la puissance — Le “moment américain” au Moyen-Orient, Paris, La Découverte, 2007.

[4] Foi em 8 de março de 1983, em um discurso pronunciado em Orlando, Flórida, que Ronald Reagan evocou o Império do Mal. Dirigindo-se à Associação Nacional dos Evangélicos, ele os advertiu contra “a tentação de […] rotular os dois lados como igualmente errados, ignorar os fatos da história e os impulsos agressivos de um Império do Mal, simplesmente chamando a corrida armamentista de um enorme mal-entendido”.

[5] Ver Gérard Prunier, “Algo estranho em Mogadíscio”, Le Monde Diplomatique Brasil, setembro de 2006.

[6] Ver Roland Marchal, “Somalie: un nouveau front antiterroriste?”, Les Etudes du CERI, n.º 135, junho de 2007, Centre d’Études et de Recherches Internationales, Paris.

[7] “U.S. guns sent to Iraq used for crimes in Turkey”, International Herald Tribune, 31 de agosto de 2007.

[8] Ver Vali Nasr, The Shia revival: how conflict within Islam will shape the future, Nova York, Norton, 2006.

[9] Em 7 de outubro, um míssil do tipo Katyusha partiu de Gaza em direção a Israel. É um míssil de porte maior que os foguete Qassam e mais preciso.

[10] “An Israeli defeat in Sderot”, Haaretz, Tel Aviv, 8 de junho de 2007.

[11] Inúmeras confederações tribais compreendiam tribos sunitas e xiitas. E o fato de pertencer a tal ou tal confederação vinha antes do fato de pertencer ao sunismo ou ao xiismo.

[12] Georges Corm, “La balkanisation du Proche-Orient”, Le Monde Diplomatique, janeiro de 1983.

[13] Ver Walid Charara, “A política de “instabilidade construtiva” de Bush”, Le Monde Diplomatique Brasil, julho de 2005.

Jornal Le Monde
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Das fábricas aos shoppings

Do Diário OnLine

Até meados de 1970, a região era líder absoluta na produção de veículos no território nacional. Porém, com a alta carga tributária, as facilidades da tecnologia moderna e a mudança de comportamento dos trabalhadores, que passaram a reivindicar melhorias, muitas indústrias gradativamente deixaram a região para se instalarem em cidades do interior paulista onde, além incentivos fiscais, encontram mão-de-obra mais barata, comparando com regiões metropolitanas.

De acordo com o jornalista e memorialista do Diário do Grande ABC, Ademir Médici, foi a partir do final desta década que a região começou a ter um perfil social e profissional com trabalhadores que questionavam e lutavam por seus direitos. “Nos últimos 20 anos o Grande ABC se consagra como um grande laboratório de idéias. A informática é assimilada e absorvida. Um novo perfil econômico e social se cristaliza. É hora da diversificação econômica, de espaço para o terciário. A sociedade descobre que é um fórum permanente. Questiona. Percebe que as soluções de todos os problemas partem, obrigatoriamente, da sua organização como um todo”, descreve Medici em um de seus textos que discute o surgimento do Grande ABC.

É na década de 90 que a indústria entra em crise. Grande parte delas fecharam as portas definitivamente e a região passa a ser um grande centro comercial. “É tempo do Consórcio Intermunicipal, integrado pelos sete prefeitos e do Fórum da Cidadania, inspirado no movimento ‘Vote no Grande ABC’ (do início dos anos 90). Cabe à região criar e dar consistência à primeira Câmara Regional do Estado, lançada oficialmente em 12 de março de 1997 e que deu origem a iniciativas como o da Agência de Desenvolvimento Regional”, afirma o memorialista em texto produzido em 1999, após pesquisas da década que marcou as mudanças da região.

Assim, a região passa a ter outra cara. É época da popularização do setor de serviços terceirizados e da febre dos shoppings, que ocupam os prédios das antigas fábricas. “Tivemos que desenvolver o comércio, acompanhar a evolução e transformar o ABC no que ele é hoje, uma região que evoluiu e tornou-se tão desenvolvida quanto a capital”, comenta Odair Vituri, 63, que nasceu em São Caetano, onde vive até hoje, e acompanhou toda a transformação da região.

Vituri ressalta: “Atualmente, a região não pode mais ser caracterizada como pólo industrial, mas as lembranças do tempo em que as pessoas podiam escolher a fábrica na qual queriam trabalhar, ficará para sempre na memória de grande parte dos moradores que viveram aquela época”.

Imes
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Périplo entre Israel e Egito revela idiossincrasias locais

Busca de acesso a Gaza inclui burocracia, barreiras, beduínos e palco de atentado

Com território palestino isolado por Israel há meses, restrições aumentam e jornada vira microcosmo do Oriente Médio atual

MARCELO NINIO

Seis dias entre Tel Aviv e o Cairo podem revelar muito sobre a teia de interesses e dramas que envolvem a crise na faixa de Gaza, além de lições sobre poder e leis de mercado. No caso desta reportagem, expõem nuances tragicômicas do triângulo político formado por Israel, Egito e palestinos, que lembram uma peça do teatro do absurdo.
A missão parecia relativamente simples para alguém que já tinha feito mais de uma cobertura em Gaza: entrar no território para acompanhar o último capítulo do conflito e como ele afetaria a população local e a dinâmica explosiva das relações entre Israel e o grupo fundamentalista Hamas. Um dia antes, militantes apoiados pelo Hamas haviam derrubado, à base de explosivos, parte do muro que separa Gaza do Egito. Uma multidão de palestinos em busca de suprimentos e novos ares logo cruzou a fronteira e ganhou manchetes mundiais.

Barrado em Erez
Quinta-feira, 24 de janeiro, fim da tarde, véspera de fim de semana no Oriente Médio. Sob a fiscalização de um dirigível do Exército israelense que acompanha cada movimento na fronteira, a reportagem da Folha é barrada no posto de Erez, a única porta para Gaza. Falta uma permissão do Escritório de Imprensa do Governo (EIG). O credenciamento apresentado, apesar do aval da ONU, é insuficiente.
O pior: supostamente por contenção de gastos, o EIG deixou há anos de manter plantões para credenciamento de urgência nos fins de semana, apesar de as urgências jornalísticas serem tão comuns em Israel quanto camelos no deserto. “Volte domingo”, diz a fiscal de fronteira, recém-saída da adolescência, com ar de enfado.
Enquanto isso, o palestino Wael Alqarra, escalado para trabalhar com a reportagem em Gaza, dispara telefonemas ansiosos. “El Arish está uma festa”, conta, ao descrever o clima na maior cidade egípcia na fronteira com Gaza. “As pessoas estão voltando carregadas de mercadorias. Compram tudo o que podem, como se o mundo fosse acabar.”
Sem chance de entrar em Gaza por Erez pelos próximos dois dias, o jeito é fazer uma escala em Tel Aviv para preparar o plano B: uma incursão pela “porta dos fundos” -pelo Egito. Um desvio longo, custoso e imprevisível, já que ninguém sabe por quanto tempo os egípcios permitirão que a passagem de Rafah, a que teve o muro explodido, siga como corredor livre para os palestinos.
Tel Aviv, a apenas 1h30 de viagem de Erez, parece outro planeta. A mais cosmopolita das cidades israelenses faz questão de ignorar o que acontece em Gaza. Não é à toa que a cidade ficou conhecida em Israel como a “bolha”, título de um filme recente que fez sucesso internacional ao retratar a vida de jovens que poderiam estar em Amsterdã, São Paulo ou Los Angeles. Até que um palestino entra em cena para estourar a bolha. Literalmente.
“Precisamos nos afastar do conflito para manter a lucidez”, defende-se a assessora de imprensa Hila Efrati, 34, típica moradora de Tel Aviv. “Somos nós que mantemos a sanidade mental deste país.”
O plano B logo vira fumaça. Em meio às notícias sobre a iminente divulgação do relatório da comissão de inquérito sobre o comportamento do governo na guerra do Líbano, em 2006, é anunciado o fechamento temporário da única fronteira terrestre entre Israel e Egito. Sem vôos à vista, resta esperar até domingo, obter a permissão em Jerusalém e voltar a Erez. E torcer para que a fronteira de Rafah continue aberta.
Mais um telefonema de Wael, que conta com uma felicidade quase infantil: “Está cheio de carros egípcios em Gaza!” Para um território acostumado ao isolamento, que só recebeu visitantes estrangeiros nos últimos anos durante as incursões de tanques israelenses, a animação é compreensível.
A presença egípcia em Gaza não é nova. Até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando foi conquistado por Israel, o território era controlado pelo Egito. Ironicamente, em 1979, quando Israel e Egito assinaram o acordo de paz, o premiê israelense, Menachem Begin, considerou um trunfo conseguir manter o controle de Gaza.

Identidade antiga
De volta à fronteira de Erez, com a permissão exigida pelo Exército, novo contratempo. No controle de passaportes, o policial detecta que o repórter já tivera um número de identidade local, quando vivera no país, 12 anos antes, trabalhando como correspondente e fazendo mestrado na Universidade de Jerusalém. Entrada vetada.
Na interpretação do governo, esse número de residente temporário equivalia ao de um cidadão israelense, cuja entrada em Gaza estava proibida, por motivos de segurança. Não é uma discussão simples, tanto que recentemente chegou à Suprema Corte do país -quando jornalistas israelenses impedidos de entrar em Gaza para cobrir a crise recorreram à instância máxima, sem sucesso.
O advogado da embaixada brasileira em Tel Aviv foi acionado, o Exército e os órgãos do governo envolvidos receberam protestos, mas a proibição não se reverteu. De volta ao plano B, ou melhor, plano E: Egito.
A essa altura, depois da euforia consumista que os palestinos haviam vivido nos primeiros dias, Wael parece se aproximar da ressaca. “Os egípcios já começaram a fechar as brechas na fronteira”, contou, em tom bem menos entusiasmado. “É melhor você chegar logo.”

Palco de atentado
Um vôo de 40 minutos de Tel Aviv até Eilat, no extremo sul de Israel, parece a solução mais viável. De lá é preciso cruzar a fronteira e convencer um taxista egípcio a ir até Rafah. A passagem pelo lado israelense da fronteira ocorre sem sobressaltos, após a advertência de uma policial gorducha de que o deserto do Sinai está “cheio de terroristas” fugidos de Gaza. Três turistas, apesar do aviso, seguem rumo ao Sinai.
No lado egípcio surge um novo e imprevisto obstáculo: devido às ameaças terroristas, o governo passara a exigir visto para o norte do Sinai, onde fica a fronteira com Gaza, embora para o resto da península a entrada esteja liberada. Tarde demais para voltar ao consulado egípcio em Eilat, resta a alternativa de passar a noite em Taba, cidade egípcia a poucos metros da fronteira.
Ao entrar no Hilton Taba, o visitante é tomado pelo cheiro inconfundível de carpete novo. “Mudamos tudo recentemente para combinar com o que havia sido trocado após o atentado”, diz Mohamad, recepcionista e sobrevivente da explosão de um carro-bomba que, em 2004, deixou 33 mortos e destruiu boa parte do resort debruçado sobre o mar Vermelho.
Se o espetacular cenário natural foi mantido, o mesmo não ocorreu com a paisagem humana. De lá para cá os israelenses, que eram os principais clientes do hotel, desapareceram, sendo substituídos por novos-ricos russos e ucranianos. “Pagamos US$ 700 por uma semana com duas refeições por dia”, diz Olya, estudante de arquitetura que convenceu os pais a trocar as temperaturas negativas de Moscou pela ensolarada Taba.
No dia seguinte, de posse do visto, é hora de partir rumo a Rafah. Em linha reta o percurso não tem mais que 250 km. Mas, dentro das medidas de segurança da ditadura egípcia, há estradas em que estrangeiro não entra. O resultado é um desvio monumental, que obriga o motorista a ir até o canal de Suez e voltar em direção a Gaza, entre inúmeras barreiras policiais, tempestades de areia e um fluxo permanente de caminhões na mesma direção.

Corrida do ouro
A abertura momentânea de Gaza e a avidez dos palestinos em encher a despensa deflagrou uma verdadeira “corrida do ouro” no Egito. Centenas de fazendeiros e pequenos comerciantes viram uma chance de faturar muito em pouco tempo. Os preços dispararam.
“Alguns fizeram pequenas fortunas em poucos dias”, contou Abdel Fatah, enquanto esperava a polícia liberar seu caminhão, repleto de bezerros. “Eu mesmo já estou na terceira viagem. Compro cada cabeça a 2.500 libras egípcias (US$ 500) e vendo pelo dobro.” Um maço de Marlboro, que custa 7,5 libras egípcias, passou a valer 35 na fronteira com Rafah. Um litro de gasolina pulou de 1,5 para 10 libras egípcias.
Alarmado com a súbita inflação e o desabastecimento, que começaram a atingir a população pobre das proximidades de Gaza, o governo egípcio passou a restringir o fluxo de mercadorias. Com as restrições aos bens, veio também o veto à circulação de pessoas. No posto policial de El Qantara, a pouco menos de 200 km de Rafah, depois de passar por seis barreiras militares, a reportagem da Folha foi barrada.
“Permissão para jornalistas só no Ministério da Informação, no Cairo”, disse um jovem e truculento policial, depois de consultar seus superiores usando o celular de um beduíno que esperava permissão para passar com um caminhão abarrotado de alface. Ao esgotar os créditos do telefone, joga o aparelho no peito do dono e arranca um novo de outro fazendeiro, sem pedir permissão.
“É melhor me dar o telefone, se não quiser passar a noite no frio”, diz o policial, sem nenhum pudor, diante da resistência do fazendeiro.

Jornal Folha de S. Paulo
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“A Europa precisa retornar ao multiculturalismo”, defende primeiro-ministro belga

Jean-Pierre Stroobants

Le Monde - A Bélgica deixou os seus parceiros europeus preocupados ao longo dos últimos meses. Na qualidade de chefe de um governo interino, e no momento em que o seu país está empreendendo um novo debate institucional, será que o senhor está em condições de tranqüilizá-los?
Guy Verhofstadt - Não foi o fato de a reforma das instituições belgas começar a ser discutida que os surpreendeu. Onde quer que ele exista, o federalismo é sempre um fenômeno evolutivo. Em contrapartida, os nossos vizinhos se perguntaram por que, em função desta revisão, nós não estávamos conseguindo formar um governo dotado de plenos poderes. Isso explica por que eu optei por estabelecer uma distinção entre estes dois processos e formar rapidamente uma equipe ministerial, como primeira etapa rumo à resolução da crise. A segunda etapa é a discussão sobre o futuro institucional.

Vale notar que em 2007, o nosso balanço foi muito positivo: o crescimento progrediu, o desemprego diminuiu, passando para 7,3%, os investimentos estrangeiros bateram recordes, enquanto a nossa dívida pública continuou se reduzindo. A única exceção foi o orçamento, que se desequilibrou ligeiramente, o que resultou num déficit público de 0,3%, sendo a primeira vez que isso ocorre após oito anos de equilíbrio. Mas eu estou plenamente consciente de que a verdadeira questão é de saber se nós conseguiremos concluir um novo acordo institucional, de maneira a proporcionar estabilidade para o futuro governo e o nosso país.

Le Monde - Será que esta tarefa é mesmo possível?
Verhofstadt - Eu creio que este processo será muito diferente dos precedentes. A Bélgica era um país unitário que evoluiu rumo ao federalismo, transferindo um grande número de meios financeiros e outorgando uma ampla autonomia para as regiões e as comunidades. Isso engendrou vinte anos de estabilidade política e permitiu que fosse resolvida a situação dramática das nossas finanças públicas. Desta vez, eu creio que também seja necessário consolidar o Estado federal: não será contando apenas com um rei e um primeiro-ministro que nós conseguiremos estabilizar uma estrutura como a nossa. É possível transferir competências, principalmente no campo sócio-econômico, para se tentar alcançar a eficiência. Mas, paralelamente, é preciso também estudar a implantação de uma circunscrição eleitoral federal - de modo a criar uma classe política e uma opinião no âmbito federal -, adaptar o sistema de financiamento e melhorar a cooperação entre as entidades federadas. Eu entreguei para o rei um relatório neste sentido, com o objetivo de acabar com a tensão que marcou esta situação, que havia deixado os participantes esgotados, mas que não permitiu alcançar algum resultado.

Le Monde - Ninguém pode negar que uma grande desconfiança predomina até hoje entre os flamengos e os cidadãos de língua francesa, no interior do seu próprio governo…
Verhofstadt - Isso não constitui nenhuma anomalia, considerando-se tudo aquilo que nós vivenciamos: uma campanha eleitoral muito disputada, seis meses de discussões, o retorno ao poder de partidos que já se consideravam como de oposição… Eu estou tentando restaurar a confiança entre os líderes mais importantes, nós vamos ter de preparar um orçamento, o relatório institucional que eu apresentei foi recebido de maneira bastante positiva pelo lado flamengo, assim como pelo lado de língua francesa. Eu acredito que a filosofia geral deste documento - a consolidação da autonomia regional de forma alguma entra em contradição com a consolidação do Estado federal - está sendo aceita. Apenas os opositores tradicionais e os extremistas se opuseram a ela.

Le Monde - O senhor determinou como prazo a data de 23 de março para entregar o seu cargo de chefe do governo para Yves Leterme. E se nenhum acordo tiver sido alcançado naquele momento, o que poderia acontecer?
Verhofstadt - Eu me recuso a sequer levar em conta um cenário como este. Acredito na possibilidade de que teremos alcançado um acordo em torno das grandes linhas naquele momento. O mais importante não é nem tanto o tempo disponível, mas sim a vontade política.

Le Monde - Será que a região de Flandres admitirá, num futuro próximo, o princípio das transferências de dinheiro, dos ricos para os menos ricos?
Verhofstadt - Os separatistas formam uma pequena minoria em Flandres, e o seu número, paradoxalmente, diminuiu no decorrer dos meses de crise. Mas não vejo nada anormal no fato de que num Estado federal, no qual as transferências existem, seja colocada a questão das contrapartidas - seja por meio de uma maior autonomia, seja por meio de uma responsabilização das entidades - e da eficiência das políticas que são conduzidas por todos os protagonistas.

Le Monde - O senhor ainda tem ambições européias?
Verhofstadt - Possivelmente ser candidato a eurodeputado. Antes do meu retorno ao poder, para voltar a tratar das questões belgas, eu estava planejando escrever um livro sobre a Europa, ainda que por um ângulo cultural e étnico. No século 19, a Europa constituía uma mistura de culturas, de religiões e etnias, num grande número de lugares. Durante o século 20, esta riqueza se perdeu, por razões conhecidas - o genocídio dos judeus, o retorno forçado dos alemães, as guerras dos Bálcãs, etc. O princípio segundo o qual “cada povo tem de ter seu Estado” acabou vingando, enquanto a força do cosmopolitismo foi menosprezada. Eu me pergunto se o século 21 não deveria retornar aos valores do multiculturalismo, aos Estados mais ricos porque múltiplos.

Le Monde - Será esta uma comparação com a situação do seu país…
Verhofstadt - Sem dúvida… Mas a minha idéia consiste, sobretudo, em visitar novamente Gdansk, Odessa, Sarajevo ou Istambul. Eu terei de esperar até o dia 23 de março para poder fazer isso, e quero sublinhar que a minha decisão de desistir do cargo de primeiro-ministro naquele momento é definitiva.

Jornal Le Monde
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Depois da informática, Bangalore sonha em ser a capital mundial da rosa

Julien Bouissou

A alguns quilômetros dos campi das universidades de informática de Bangalore, o vilarejo de Hosur abriga o parque Tanflora, o maior roseiral da Ásia. Lá onde há apenas cinco anos a terra árida havia sido abandonada pelos camponeses, Najeeb Ahmed, um antigo advogado, decidiu deixar de lado o direito penal para apostar na horticultura. Debaixo dos 34 hectares de estufas que ele construiu, 70 milhões de flores passaram a ser cultivadas anualmente.

O sucesso no plantio de rosas se deve em primeiro lugar às condições climáticas do sul da Índia. “A temperatura está sempre entre 22 e 28 graus, enquanto a taxa de umidade é sempre a melhor possível; além disso, as flores são beneficiadas por estarem expostas a pelo menos doze horas de luz natural diariamente”, explica Najeeb Ahmed. Destinadas à exportação para o Oriente Médio, a Europa e a Ásia, as rosas poderão em breve ser despachadas a partir do aeroporto internacional de Bangalore, cuja abertura está prevista para março de 2008.

O vilarejo de Hosur goza do estatuto de zona econômica especial. A agência governamental do Tamil Nadu, um Estado do sul da Índia, é proprietária de 50% do parque Tanflora, e participou, junto com Najeeb Ahmed, dos investimentos na infra-estrutura. Rodovias foram construídas, reservatórios destinados a proteger a água das impurezas foram importados da Holanda, enquanto o sistema de irrigação foi inspirado naqueles que existem em Israel.

Isso porque o cultivo das rosas exige muita água: cerca de 2,5 milhões de litros são necessários todo dia. O precioso líquido é tirado dos poços dos vilarejos vizinhos ou das reservas que foram represadas durante as monções. Um rio pode até ser desviado em breve para alimentar as estufas.

Vinte e cinco horticultores alugam a infra-estrutura à disposição. Esses cultivadores de um novo gênero, que passam o restante da semana nas torres de vidro de Bangalore, construíram a sua fortuna no setor da informática e entregaram a supervisão das suas culturas a engenheiros agrícolas. “Eu quis conciliar a paixão pelos investimentos com o fascínio pelas rosas. Com a melhora do nível de vida, os indianos passaram a levar uma garrafa de vinho quando vão visitar amigos. Em breve, eles também levarão rosas”, prevê Sudhakar Shetty, um analista financeiro e cultivador.

Às vésperas do dia da São Valentim (14 de fevereiro), os pedidos vieram do mundo inteiro, principalmente este ano, quando as importações do Quênia desmoronaram em razão dos distúrbios políticos ocorridos neste país. Em função disso, dezenas de mulheres foram recrutadas para trabalharem nas estufas de Tanflora e atenderem ao aumento da demanda. Trajando o sári (peça que cobre todo o corpo), elas percorrem metodicamente os roseirais, munidas de uma tesoura para podar as plantas. “Somente elas sabem cortar o caule de uma rosa com delicadeza”, sussurra o contramestre. Cabe aos homens transportarem as rosas até os caminhões.

Dentro de um imenso hangar, as flores são então selecionadas manualmente, e depois armazenadas em câmaras refrigeradas. As variedades variam em função do seu destino. “Os russos preferem as rosas de pétalas largas, embora elas tenham uma vida mais curta, enquanto os europeus dão preferência às flores mais modestas, mas que duram por mais tempo”, comenta Najeeb Ahmed.

Além disso, para que seja respeitada a tradição “da pesquisa e do desenvolvimento”, uma câmara refrigerada para “testes” foi instalada a 40 quilômetros de Bangalore. Ela abriga as novas flores que são suscetíveis de serem lançadas nos mercados do mundo inteiro. Nela, a comprida rosa Taj Mahal é mantida numa temperatura européia, entre 14 e 16 graus.

Por conta do custo reduzido da mão-de-obra - a remuneração dos operários é de 2 euros por dia (pouco mais de R$ 5), em média - as rosas são vendidas a um preço duas vezes inferior ao praticado na Europa. Nos bancos de dados do parque Tanflora, todas as festas nacionais do mundo inteiro são cadastradas. De 8 de maio a 11 de novembro, passando pelo Dia das Mães.

Contudo, é principalmente durante o inverno que os cultivadores indianos são mais procurados. Neste período do ano, os seus concorrentes holandeses e franceses precisam aumentar as suas despesas com energia, de modo a conservarem as rosas na temperatura adequada e banhá-las com luz artificial.

O parque Tanflora exportou neste ano 3 milhões de rosas para o dia da São Valentim e espera triplicar a produção para o inverno deste ano. “A Índia possui com o Taj Mahal o monumento do amor. Agora, só nos resta inundar o mundo com rosas do amor”, comenta Najeeb Ahmed, antes de concluir: “O crescimento econômico da Índia não se resume mais apenas à informática”.

Jornal Le Monde
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Países da América do Sul enfrentam problemas com o fornecimento de gás

Jude Webber

Até maio do ano passado, mais de 10% do metanol do planeta era produzido em uma usina no Estreito de Magalhães, no extremo sul do Chile. Mas agora faz oito meses que três quartos da usina estão parados.

A Methanex, do Canadá, depende da Argentina para 60% do gás que necessita para a sua usina de metanol Cabo Negro, mas as reservas da Argentina secaram em junho do ano passado.

Segundo a companhia isso significou que ela deixou de produzir 600 mil toneladas apenas no quarto trimestre de 2007. O metanol, que é usado para a fabricação de garrafas recicláveis de plástico, tintas e aditivos de combustíveis, está custando US$ 698 (cerca de R$ 1,4 mil) a tonelada - mais do dobro do preço de junho passado.

Os infortúnios da Methanex são um exemplo contundente de como o Chile, que produz mais de um terço do cobre mundial, é o último elo vulnerável de uma tensa cadeia de fornecimento de gás em uma região na qual políticas populistas têm prejudicado a exploração das reservas energéticas.

A crise de energia está pesando sobre as previsões de crescimento do Chile, no momento em que o país procura assegurar uma vaga na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Espera-se que a economia cresça 4,6% neste ano, comparados aos 5,2% do ano passado. Maria Olivia Recart, a sub-secretária de Finanças do Chile, afirmou neste mês que as restrições relativas ao gás provocaram uma redução de 0,5% a 1% do produto interno bruto do país.

Héctor Castillo, presidente da Associação de Proprietários de Indústrias, diz que algumas companhias chilenas estão deslocando a produção para o Peru ou a Argentina devido aos custos.

Um tópico que estará na agenda dos presidente da Argentina, do Brasil e da Bolívia neste fim de semana será como fazer com que as reservas em declínio da América do Sul supram a demanda.

O Chile, que depende de combustíveis fósseis para mais da metade das suas necessidades energéticas, importa todo o seu gás da Argentina, mas Buenos Aires reduziu as exportações no ano passado a fim de atender à crescente demanda doméstica estimulada pelo subsídio dos preços da energia elétrica.

A escassez de reservas nos dois países significa que as usinas geradoras de energia elétrica trocaram o gás pelo diesel, que é cerca de três vezes mais caro. “O gás da Argentina é coisa do passado”, afirma Juan Carlos Guajardo, diretor executivo da Cesco, uma organização vinculada à indústria de cobre do Chile. Ele teme um “risco bastante real de problemas de produção” para o cobre chileno neste ano, já que a escassez de gás é agravada pela carência de chuvas, que afetará a produção hidroelétrica, gerando a possibilidade de apagões.

Na Argentina, os baixos preços da energia elétrica afastaram os investimentos em projetos para o aumento da produção doméstica de gás, e o governo tem apelado para as importações suplementares da Bolívia. Mas a Bolívia não consegue atrair capital estrangeiro para incrementar a sua produção desde que enviou tropas para nacionalizar a sua indústria de gás em 2006, e agora admite ser incapaz de atender aos ambiciosos acordos de exportações firmados com a Argentina e o Brasil, o seu outro cliente estrangeiro.

A Bolívia firmou contratos para o fornecimento de até 30 milhões de metros cúbicos de gás diários ao Brasil e de 7,7 milhões à Argentina. No momento, ela só está fornecendo cerca de 27 milhões de metros cúbicos diários ao Brasil e três milhões ou menos à Argentina. À medida que aproxima-se o inverno do hemisfério sul, a demanda de ambos os países aumenta.

A Argentina está enfrentando graves racionamentos de energia, e luta para conter a demanda de eletricidade, apesar de um programa governamental para a economia de energia elétrica. De acordo com a consultoria Fundelec o consumo de eletricidade atingiu níveis recordes em janeiro deste ano, alcançando um patamar que foi quase 5% superior ao mesmo mês do ano passado.

No Brasil, onde a maior parte da energia elétrica é gerada por usinas hidroelétricas, a baixa pluviosidade fez com que aumentasse a dependência das usinas movidas a gás. Na semana passada a Bolívia tentou persuadir o Brasil a aceitar uma redução das suas importações de gás para permitir que a Argentina recebesse uma quantidade maior do produto, já que este país sofreu apagões no início do verão e uma crise de abastecimento de energia elétrica no inverno passado, quando o governo ordenou às fábricas que reduzissem o consumo. Mas o Brasil mantem-se relutante.

Emilio Apud, ex-secretário de Energia da Argentina, diz que o Chile adotou várias medidas para enfrentar a crise. Os chilenos estão construindo duas usinas de gás natural liqüefeito, projetadas para acabar com a dependência da energia argentina no ano que vem, quando usinas movidas a carvão deverão suprir de eletricidade no médio prazo a região de mineração de cobre no norte do país.

A Argentina está planejando construir o seu próprio terminal de gás natural liqüefeito e possui um projeto do mesmo tipo com o Uruguai. Este projeto está bastante atrasado. “Creio que a Argentina terá problemas com o fornecimento de gás… Não tenho dúvida de que os apagões do inverno passado voltarão a ocorrer”, afirma Apud.

Ironicamente, o Chile poderá em breve socorrer a Argentina. Enrique Dávila, diretor da Enap, a companhia estatal chilena de eletricidade, prevê que o Chile poderá ser capaz de exportar um excedente de gás natural liqüefeito para a Argentina em 2010.

Financial Times

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Descrédito do mercado

Falta de conhecimento do ensino superior brasileiro é apontada pelos especialistas como a principal causa para que os bancos não financiem os estudos universitários

Marta Avancini

No Brasil, aproximadamente 72% dos alunos matriculados no ensino superior - ou seja, 3,2 milhões - freqüentam uma instituição privada. Deste total, uma minoria conta com algum tipo de financiamento para arcar com os estudos: o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), o maior do país, mantido pelo Ministério da Educação, possui 431 mil contratos ativos, de acordo com a Secretaria de Ensino Superior do MEC. Desse total, estima-se que 171 mil correspondam a alunos matriculados num curso de graduação. Ou seja, somente 5,3% do alunado da rede privada é atendido pelo Fies. Há ainda aqueles beneficiados pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), que consiste na troca de isenção de alguns impostos por bolsas de estudo a alunos carentes selecionados pelo governo. Esses são cerca de 310 mil, segundo dados oficiais.

Além do Fies e do ProUni, algumas das alternativas existentes no mercado são o Crédito Pravaler (da Ideal Invest, existente desde o início de 2007), o Programa de Financiamento Privado do Ensino (Profipe), da empresa mineira de consultoria em educação Editau e lançado no segundo semestre do ano passado, o Programa de Amparo Financeiro Temporário do Centro Brasileiro de Desenvolvimento do Ensino Superior (Cebrade), entidade sem fins lucrativos ligada ao Semesp, e o Crédito Educativo do Instituto Educar, empresa que administra programas de crédito.

Da população-alvo da educação superior, os jovens de 18 a 24 anos, somente 11% chegam à universidade, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2005, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Em contrapartida, o Plano Nacional de Educação (PNE) determina que até 2010, 30% deste grupo etário deve freqüentar o ensino superior. Não é difícil perceber o enorme esforço que deve ser feito por parte das instituições e, principalmente, do governo no sentido de ampliar o acesso. Vale enfatizar que o PNE é uma lei que está em vigor desde 2001.

Em outros termos, a demanda por ensino superior no Brasil é muito grande. Apesar disso, faltam políticas públicas de larga escala e capazes de transformar esse público potencial em universitários. “O problema da desigualdade de acesso à educação superior é importante em muitos países, até mesmo no Brasil. E é muito injusto que haja barreiras financeiras para os estudantes de famílias pobres. Então, há duas possibilidades: ou bolsas para os estudantes ou o crédito educativo. Em muitos países há limitações no orçamento do governo para conceder bolsas suficientes, então os créditos podem ser complementares”, explica Jamil Salmi, diretor global para Educação Superior do Banco Mundial.

É o que ocorre nos Estados Unidos, país em que 85% dos estudantes financiam seus estudos. No Reino Unido, onde existem empréstimos subsidiados, o mercado de crédito estudantil movimentou quase 20 milhões de libras (equivalente a R$ 72,5 milhões) no biênio 2005-2006. Já no Chile existe um sistema de financiamento estudantil consolidado desde os anos 1980, sustentado por recursos oriundos do governo e da devolução dos próprios financiamentos.

Enquanto em várias partes do mundo o financiamento para estudantes em larga escala é uma realidade, no Brasil a situação é outra. O sistema oficial de financiamento é limitado quando confrontado com a demanda. A empresa Ideal Invest calcula que 4,5 milhões de pessoas gostariam de fazer um curso superior, mas nem chegam a prestar vestibular porque sabem que não têm como pagar a mensalidade. Estima-se ainda que há cerca de 1,5 milhão de inadimplentes que estão dentro do sistema de ensino e querem quitar suas dívidas. Ou seja, são cerca de 6 milhões de pessoas que, teoricamente, estão interessadas nesse tipo de financiamento, e os programas oficiais não demonstram ter fôlego para atendê-las, até por causa das condições impostas.

Mas se o potencial do crédito estudantil é tão grande, se as alternativas existentes são restritas e a experiência de quem está ingressando nessa área é positiva, por que os bancos não exploram esse mercado de modo mais agressivo? A reportagem procurou cinco grandes bancos que atuam no Brasil para saber se oferecem algum tipo de crédito para estudantes. Desses, apenas um, o Santander, declarou estar finalizando o desenho de um financiamento para alunos de graduação que será lançado em 2008 - os demais possuem, contudo, financiamento para a pós-graduação (leia box acima). O Banco do Brasil oferece, dentro da linha de crédito regular, a possibilidade de financiar estudos, mas não possui uma estratégia específica para esse segmento.

Embora ainda não tenha lançado oficialmente um produto para a graduação, a assessoria de imprensa do Banco Real, que há anos se aproxima dos universitários por meio de campanhas especificamente direcionadas a esse público, admite que a instituição está “analisando novas linhas de crédito que atendam ao mercado educacional”.

Para Jamil Salmi, uma das explicações para a escassez de financiamento é que os sistemas de crédito educativo não são fáceis de administrar, por serem ao mesmo tempo instrumentos financeiros e sociais. “É um equilíbrio difícil entre as duas partes. Os bancos comerciais têm regras de lucro, então não se interessam em dar crédito subsidiado com taxas de juros mais baixas”, diz. O diretor do Banco Mundial admite que em todos os países nos quais a instituição atua em parceria com governo e iniciativa privada a experiência deu certo. “As instituições de crédito educativo requerem uma boa equipe de gestão”, argumenta.

Além da viabilidade do negócio - ou seja, a possibilidade de gerar lucros - a ausência dos bancos no segmento de financiamento estudantil no Brasil está relacionada a uma questão de posicionamento no mercado. Este é o ponto de vista do vice-presidente do Santander Universidades, Jamil Hannouche. A partir da experiência com o mercado universitário, o Santander decidiu atrair alunos que estejam passando por dificuldades momentâneas, e não aqueles que estão fora da graduação. “Estamos procurando dar alternativas para que o aluno não pare de estudar um semestre caso perca o emprego, por exemplo. Outra discussão é a entrada dessa parcela de alunos que está fora do ensino superior. Tem um público que precisa de financiamento eventual. A discussão do acesso deve ser feita em outro fórum, que é o da sociedade”, acredita Hannouche. O Santander prevê atender entre 40 mil e 50 mil alunos em dois anos.

Claiton Muriel, diretor da Editau, concorda que o fator que dificulta o ingresso dos bancos decorre de um curto-circuito no relacionamento entre as instituições de ensino e financeiras: as primeiras não sabem lidar com o rcado e as segundas não entendem a linguagem das faculdades. Por isso, o Profipe foi concebido com o objetivo de desatar esse nó: a empresa que mantém o programa funciona como um intermediário entre as instituições/alunos e instituições financeiras, “fazer a ponte” entre eles. Mas a tarefa de atrair as instituições bancárias nem sempre é simples: é preciso sinalizar para os bancos que o negócio é seguro e que tem potencial. Desse modo, no caso do Profipe, o número de matrículas das 40 instituições que aderirão ao programa - 150 mil - funcionam como uma espécie de garantia do potencial de negócios.

O raciocínio de Oliver Mizne, sócio da Ideal Invest, segue uma linha parecida: em sua opinião, os grandes bancos não investem em crédito para estudantes porque o universo de clientes com que trabalham é muito maior do que a clientela potencial do financiamento para cursos de graduação, além do fato de que as estruturas das instituições bancárias dificultam a criação de produtos adequados. “Os bancos oferecem produtos adaptados que ou são caros para os alunos ou são ruins para as faculdades”, diz. “Para entrar nesse mercado é preciso ter em mente que se está fazendo uma ação social e montar um produto adequado a essa realidade”, conclui.

Contudo, o problema do crédito estudantil não diz respeito apenas a uma questão de mercado ou de renda da clientela potencial das instituições de ensino superior. Trata-se, também, da maneira como o governo conduz as políticas para esse segmento, avaliam gestores. “O setor é muito regulamentado pelo MEC, o que assusta as instituições financeiras já que as regras podem e mudam a todo momento”, acredita o diretor-executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), Rodrigo Capelato.

Para o presidente da Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), Gabriel Mario Rodrigues, a atual desconexão deve mudar. “Com a tendência de queda de juros, mais bancos terão condições de oferecer crédito estudantil em condições melhores do que os empréstimos convencionais”, prevê. Marcelo Silva, gerente financeiro da Universidade Anhembi Morumbi, também vê boas perspectivas para o futuro. “A ampliação do crédito estudantil no mercado irá acontecer à medida que as instituições financeiras tiverem maior conhecimento do público-alvo (estudantes e pais) e também sobre o ‘produto’ educação privada.”

São muitas as alternativas e arranjos possíveis e a melhor alternativa depende da situação de cada país. O fato é que, num contexto de massificação do ensino superior, o crédito para estudantes é um elemento relevante, ao lado das ações reguladoras do poder público para promover a eqüidade do acesso e a qualidade da educação, conforme analisa o professor Pedro Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, em Portugal.

Jamil Salmi, do Banco Mundial, lembra o caso de países como o Chile e a Polônia, onde o setor público se uniu ao setor privado para criar um sistema de crédito misto, em que o governo pode intervir para reduzir taxas de juros e oferecer a garantia em caso de inadimplência.

Além disso, o crédito, por si só, não é suficiente para ampliar o acesso ao ensino superior. “O Brasil precisa de uma visão e de um plano estratégico de desenvolvimento da educação superior”, analisa Salmi. Paralelamente, é preciso assegurar mais eqüidade e esta é uma das missões fundamentais do poder público, analisa o professor Teixeira, da Universidade do Porto. “É necessário desenvolver políticas eficazes para promover a inclusão social”, ressalta. Isso perpassa uma política de financiamento do ensino superior que estimule as contribuições dos estudantes e das famílias, ao mesmo tempo que são criadas condições para os que não podem pagar se beneficiarem de apoios. Outro dado importante é a mudança de mentalidade. “O Brasil é um país muito imediatista, onde as políticas são pensadas no curto prazo”, diz Claiton Muriel. Além da falta de visão de longo prazo, acrescenta Marcos Valdívia, do Cebrade, o futuro do ensino superior, com mais eqüidade de acesso, depende da eliminação dos “retalhos burocráticos” sistematicamente emitidos pelo governo. (Colaborou Juliana Holanda)

Pós-graduação atrai bancos

Se ainda são raros os bancos que mantêm linhas de financiamento para a graduação, o mesmo não pode ser dito sobre a pós-graduação. Muitos já colocaram no mercado produtos específicos para atender aos jovens interessados em fazer uma pós-gradua­ção strito sensu, um MBA ou mesmo uma especialização.

A Caixa Econômica - que administra o Fies para o governo federal - disponibiliza uma linha de crédito para a pós-graduaçao desde maio de 2006. O banco criou esse produto em pesquisas de mercado realizadas desde 2001 e que apontam para uma tendência de aumento da oferta de pós-graduação no Brasil, com grande potencial para captação de clientes em busca de aperfeiçoamento de sua formação ou que almejam ascensão profissional. Atualmente, são 139 contratos ativos, mas a Caixa diz que esse número vai crescer.

O Real é outro banco que está investindo em financiamento para a pós-graduação por meio do CDC para MBA desde 2003. De acordo com o banco, a demanda por esse tipo de financiamento vem aumentando ano a ano. Os interessados podem financiar 100% do curso num custo máximo de até R$ 40 mil.

O Santander anunciou, no final do ano, a redução para 1,95% a.m. da taxa de juros do Crédito Educação Continuada, voltado para o financiamento de cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado e MBA. Os clientes podem financiar até 100% do valor, com prazo máximo de 36 meses. Segundo o vice-presidente do Santander Universidade, Jamil Hannouche, o banco planeja anunciar mais novidades para o programa de financiamento da pós-graduação em 2008.

Revista Ensino Superior
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Um evento esportivo pode atrair um recorde de um bilhão de espectadores ao vivo

Eric Pfanner

Em anos ímpares, os Estados Unidos dominam. Nos pares, o resto do mundo vence.
Assim acontece no mundo dos esportes, ou pelo menos nas estatísticas que mais interessam a muitos marqueteiros de esportes: o público de televisão. O evento esportivo mais visto globalmente em 2007 foi o Super Bowl, com uma média de 97 milhões de espectadores assistindo ao jogo ao mesmo tempo no inverno passado, segundo a Initiative, uma agência que ajuda marqueteiros a planejar estratégias de mídia.

Mas o campeão de 2008 será um evento com abrangência bem mais global, segundo Kevin Alavy, diretor de análise matemática na Initiative Sports Futures, a divisão que realizou o relatório. A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, este ano, pode tornar-se o primeiro evento esportivo a atrair um recorde de audiência total de um bilhão de pessoas, ele disse, mesmo se em nenhuma oportunidade durante a transmissão, toda essa quantidade de pessoas esteja assistindo à TV simultaneamente.

Enquanto outras emissoras que transmitem esportes já tenham alardeado um público de mais de um bilhão, tais números em geral são exagerados. “Para aumentar a importância de um evento para os prováveis patrocinadores, os números sobre o público são às vezes inflados ao incluir espectadores como aqueles assistem aos programas com os melhores momentos”, disse Alavy.

Algumas vezes os organizadores incluem o potencial mundial de espectadores - ou seja, incluindo o número total de domicílios que têm a probabilidade de vir a assistir o evento. Devido à disseminação dos sistemas de televisão digital que oferecem centenas de canais, esse total cresce o tempo todo.

E, no entanto apenas um punhado das melhores competições realmente atrai audiências globais. O jogo final de um dos maiores eventos esportivos do ano passado, a Copa do Mundo de rúgbi, atraiu apenas 33 milhões de espectadores globalmente, segundo a Initiative. Mesmo que isso tenha sido o suficiente para um quarto lugar, foi menos da metade do público para os eventos que ficaram em segundo e terceiro lugar, o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 e a final da Liga dos Campeões.

Em comparação, a partida final da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, por exemplo, teve um público médio de 260 milhões; a final do torneio Euro 2004 de futebol atraiu 161 milhões de espectadores.

Para marqueteiros multinacionais, a dúvida no patrocínio é saber quais dos eventos esportivos aumentaram em importância, tendo em vista preocupações quanto ao declínio da eficácia da publicidade tradicional. O patrocínio - ganhar o direito a apresentar um logotipo num estádio, por exemplo - pode criar uma exposição ampla para uma marca que espera alcançar novos públicos, e os gastos nesse tipo de marketing estão crescendo mais rapidamente que os gastos com a publicidade tradicional.

Enquanto isso, o acompanhamento, ao vivo, dos eventos esportivos ajuda os anunciantes a contornar o problema da tecnologia que “pula” os anúncios, como os gravadores digitais de vídeo, porque os espectadores não podem apertar a tecla de avanço rápido durante os comerciais.

O número real de pessoas que assistem aos eventos esportivos tem aumentado lentamente, se é que o faz, segundo números da Initiative, que são compilados de agências oficiais de medição de audiência em 54 países, representando mais de 90% dos gastos globais em anúncios.

O Super Bowl de 2006, por exemplo, atraiu um milhão a mais de espectadores que a versão de 2007, descobriu a Initiative. Mais de 90% dessas pessoas estavam nos Estados Unidos, acrescentou Alavy. Por causa do público, na sua maior parte norte-americano, o Super Bowl tem a vantagem de números estáveis de audiência, uma das razões pelas quais o jogo transformou-se em um vitrine para os anunciantes dos EUA, sem qualquer equivalente real, por enquanto, em outros mercados.

Os espectadores para eventos mais internacionais, como as Olimpíadas, oscilam bastante, com base em fatores como o tamanho do país que recebe o evento ou o fuso horário de onde ele é realizado. A final da Copa do Mundo de 2006, com uma audiência ao vivo de 17 milhões nos Estados Unidos, atraiu mais espectadores nos EUA que o Super Bowl consegue no restante do mundo, disse Alavy.

“Em geral, os esportes norte-americanos têm um público muito pequeno ao vivo, internacionalmente,” disse Alavy. “Os EUA estão mantendo suas características excepcionais no mundo do esporte.”

Bem, como se diz no mundo do esporte vamos esperar até o próximo ano. Em 2009, um ano ímpar, o Super Bowl pode triunfar de novo.

Herald Tribune
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Máquina de regurgitar automóveis

Em São Paulo, sobrados cedem lugar a edifícios. Em cada novo apartamento, dois novos carros. Uma conta rápida e temos o caos

Benedito Lima de Toledo*

“O urbanismo é a arte de satisfazer as funções vitais do homem assegurando uma comunicação satisfatória entre essas funções e os próprios homens. Não se trata de preencher os vazios deixados em um projeto uma vez traçadas as vias expressas e avenidas triunfais.” Devemos a definição a Bernard Oudin, de seu livro Plaidoyer pour la Ville (1972).
O mesmo autor observa que não há necessariamente relação entre largura das vias e largura de visão. É um tributo pago ao deus Circulação.
Entre nós prevaleceu o conceito de que grandes administradores são homens que abrem grandes avenidas, ou alargam as existentes com sacrifício das calçadas reservadas aos pedestres (a exemplo do canteiro central da Avenida Rebouças, em São Paulo).
São homens tidos como de visão pela simplória iniciativa de tamponar rios, privando a cidade desse valioso patrimônio paisagístico (como a proposta para tamponar o córrego da Água Espraiada e outros que já desapareceram da paisagem paulistana).
Locais que “contam o passado ao presente” e marcos arquitetônicos são apresentados como testemunhas do atraso. Um estacionamento certamente representará maior rentabilidade, afinal o carro é súdito do deus Circulação.
Algumas empresas chegam a exigir que seus funcionários graduados utilizem carros dos últimos modelos. Manobristas de alguns restaurantes evitam estacionar à porta carros mais antigos ou malconservados de seus clientes.
Não é possível assistir a um noticiário de televisão que não seja interrompido, quatro ou cinco vezes, para apresentação dos últimos modelos de carros potentes vistos circulando em velocidade por estradas vazias, deixando para trás folhas secas esvoaçantes de plátanos. Que tal mostrar o mesmo veículo em um desses congestionamentos quilométricos de fim de tarde? Seria, então, possível constatar que toda essa potência a ser utilizada no transporte individual é impotente no trânsito.
O fenômeno gera frustração, estresse e comportamento agressivo, na premissa de que o cidadão que se sentou no carro deixou a educação em casa.
A música no trânsito foi utilizada por Gershwin em seu Um Americano em Paris, com o som claro de buzinas. Muito diversas são as buzinadas dos neuróticos que imaginam poder, com esse expediente, empurrar o trânsito auxiliados pelo som de um enxame de motoqueiros.
As perspectivas nesse quadro são preocupantes. O número de carros que ingressa no trânsito não encontra correspondência nos que são retirados de circulação. Os carros velhos passam a ser utilizados como veículos de carga pelos pedreiros, encanadores, pintores e seus familiares aos domingos.
A especulação imobiliária é outro grande agente desse desequilíbrio. Ruas ocupadas por residências unifamiliares vêem seus sobrados ceder lugar a edifícios. Como cada novo apartamento contará com dois carros, é só fazer a conta para verificar por que as ruas ficam sufocadas com edifícios regurgitando veículos.
Em ruas onde há comércio (a exemplo da Avenida Padre Antônio José dos Santos, no Brooklin, São Paulo), as calçadas são loteadas pelos comerciantes. Somente a “seus clientes” é permitido estacionar entre as faixas demarcadas no solo. Os pedestres que se danem pelas sarjetas, disputando lugar com os motoqueiros.
Como se vê, urge a retomada da cidade por seus legítimos donos: os cidadãos. O grau de civilização de um povo pode ser medido pela liberdade com que as pessoas podem desenvolver suas potencialidades, por tudo que as cidades lhes têm a oferecer. A urbs é o local de convívio, do encontro em lugares públicos onde as crianças podem se beneficiar da boa insolação que não contam em seus apartamentos.
Keneth Frampton lembra que a palavra edifício nos remete ao verbo edificar, que não significa apenas construir, mas, igualmente, educar, estabelecer, fortificar, instruir. Da mesma forma, podemos acrescentar, a palavra urbanidade carrega muito mais riqueza do que aparenta.
As relações dos veículos motorizados com as cidades referidas como históricas (por acaso há alguma cidade fora da história?) podem ser catastróficas, a exemplo do que vem ocorrendo com aquelas conhecidas como do “ciclo do ouro”.
São cidades erigidas a partir de riachos onde se bateava ouro, e que foram se expandindo. Não conheceram traçado regulador em sua origem e se desenvolveram escalando morros. As ladeiras são traço marcante em sua estrutura. O visitante perceberia melhor o assentamento urbano, as serras, os riachos, se circulasse como os garimpeiros do século 18, a saber, a pé ou no lombo da mula. É outro ritmo, outra escala. O ruído das ferraduras das mulas no piso empedrado, ou o ruído solitário da água da fonte na noite silenciosa são insubstituíveis.
Mas, ao circular de carro com seu ar condicionado ligado, privado de todo contato com o ambiente pela blindagem dos vidros ou pela luz filtrada dos bloqueadores solares, tudo se reduz à preocupação com as manobras em ladeiras sinuosas, fato que está na origem de danos a monumentos como chafarizes e pontes.
Em algumas das antigas aldeias de Portugal, proíbe-se a entrada de veículos. Monsaraz e Óbidos são bons exemplos. Há estacionamento fora dos muros à disposição dos visitantes. Desfruta-se de uma tranqüilidade ao se transitar pelas ruas e vielas e ao se sentar ao fim da tarde para um copo de vinho a acompanhar um prato de borrego.

*Benedito Lima de Toledo é professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É autor, entre outros, de São Paulo: Três Cidades em um Século (Cosac Naify)

QUINTA, 21 DE FEVEREIRO
Frota atinge seis milhões

Com média de 800 novos veículos emplacados por dia, a cidade de São Paulo atinge, este mês, 6 milhões de unidades em circulação. O aumento da frota coincide com o crescimento dos congestionamentos e o recorde de arrecadação do IPVA.

Estado de S. Paulo

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