Os britânicos na armadilha iraquiana
Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio
Rémi Kauffer
“O governo que instalamos é de tipo britânico e sua língua é o inglês. Lá temos 450 agentes de execução para fazê-lo funcionar, sem nenhum responsável iraquiano. (…) Os 80 mil soldados que temos ali estão ocupados com tarefas policiais, não com a proteção das fronteiras. Eles mantêm o povo sob o nosso jugo. (…) Os iraquianos esclarecidos se sentem muito irritados por serem privados do privilégio de compartilhar a defesa e a administração de seu país. (…) Eles esperaram pela notícia de nosso mandato e a acolheram bem. (…) Agora, começam a duvidar de nossas boas intenções.”
Não, esse parágrafo não foi extraído de nenhum relatório contemporâneo de algum oficial do exército inglês servindo no Iraque. Ele foi escrito por Lawrence da Arábia em uma carta enviada ao chefe de redação do jornal The Times em 22 de julho de 1920. No entanto, tendo em vista o atoleiro no qual os americanos e ingleses se meteram no Oriente Médio depois da queda de Saddam Hussein, as linhas acima adquirem o status de uma verdadeira profecia. Outra carta de Lawrence, daquele mesmo ano, publicada na edição de 8 de agosto do jornal The Observer, pinta um quadro ainda mais sombrio: “O povo inglês foi presa, no Iraque, de uma armadilha da qual será difícil sair com dignidade e honra. (…) Quanto tempo ainda permitiremos o sacrifício de milhões de libras, de milhares de soldados do Império Britânico e de dezenas de milhares de árabes, em nome de uma forma de administração colonial que só beneficia seus administradores?”.
A aventura iraquiana da Inglaterra começou imediatamente após a declaração de guerra entre Istambul e Londres, em 5 de novembro de 1914. A Força D, pequeno corpo expedicionário constituído na Índia entre setembro e outubro daquele ano, desembarcou em 14 de novembro em Chat-al-Arab, o estreito onde os rios Tigre e Eufrates confluem antes de desembocarem no Golfo Pérsico. Foi a partir dali que as tropas comandadas pelo general Charles Townshend ocuparam o porto de Basra e marcharam sobre a Mesopotâmia, nome pelo qual a região onde atualmente está o Iraque era conhecida na época.
Uma vez instalados em Basra, os ingleses começaram a aumentar seu campo de ação a partir de agosto de 1915. O comandante-em-chefe britânico na Mesopotâmia lançaria a divisão Townshend bem mais ao norte, em direção à cidade de Kut al-Amara, localizada a 200 km de Bagdá. Tendo chegado até ali, por que não avançar sobre a capital? Foi nesse momento que a demonstração de força se transformou em invasão. Townshend tentou alertar sobre a modéstia de seus efetivos. O general contava então com 13 mil homens e, segundo suas próprias palavras, “para tomar Bagdá, necessitaríamos de um exército”. As ponderações de Townshend, porém, se perderam no vazio. Não havia muito o que fazer quando o diplomata e chefe do corpo expedicionário, Percy Cox, já declarara que a queda de Bagdá teria “a mesma importância que a de Constantinopla”. De fato, a armadilha acabou funcionando contra Charles Townshend: depois de avançar até Ctesifon, a 100 km de Bagdá, sua divisão teve de bater em retirada em face da contra-ofensiva das forças otomanas instruídas por oficiais alemães. Retrocedeu até Kut al-Amara onde, sitiada por cinco meses seguidos, de dezembro de 1915 a abril de 1916, acabou hasteando a bandeira branca.
Kut al-Amara foi a única capitulação de uma grande unidade britânica durante a Primeira Guerra Mundial. A derrota, no entanto, não impediu que as tropas de Sua Majestade criassem raízes no sul da Mesopotâmia. Nem poderia ser diferente: vários organismos da burocracia imperial traçavam seus planos para o Oriente Médio. De um lado estavam o Raj, governo britânico das Índias, e o Índia Office de Londres e de Bombaim. De outro, o Arab Bureau do Cairo, um serviço rival que apoiava a guerrilha antiturca que desde junho de 1916 eclodira no centro da Península Arábica. Os chefes da guerrilha, Hussein ibn Ali, o xerife de Meca, e seus quatro filhos pertenciam à prestigiosa linhagem dos hachemitas.
Foi nesse contexto que os britânicos retomaram a ofensiva no front da Mesopotâmia sob as ordens de um novo comandante-em-chefe, o major-general Stanley Maude. Esse experiente militar de 53 anos, que recebeu o merecido apelido de “Systematic Joe”, planejou a nova campanha meticulosamente. Em 24 de fevereiro de 1917, Kut foi retomada. Em 11 de março, a 13a divisão britânica arrancou Bagdá das mãos dos otomanos depois de dois dias de combate. Dia 18, cairia Bakuba e, no dia seguinte, Falluja.
Após a conquista restava decidir o que fazer com a Mesopotâmia, e os vários organismos britânicos envolvidos na operação se lançaram num debate que definiu três posições: de um lado, Maude e os militares, que desejavam manter a ordem; de outro, o India Office, que gostaria muito que o Iraque passasse para o controle do Raj; e, por fim, uma terceira linha defendida pelo Foreign Office, o War Office e o Arab Bureau, cuja estratégia consistia em criar um estado árabe no norte da Mesopotâmia, baseada no desejo da família dos hachemitas. Abdallah, segundo filho do xerife de Meca, subiria ao trono desse novo Estado, que seria batizado de Iraque, enquanto Faissal, o mais novo, ficaria com a Síria.
Essa divisão de poder entre as potências européias no Oriente Médio, porém, contrariava o acordo secreto assinado um ano antes pelo diplomata inglês sir Mark Sykes e seu colega francês, François Georges-Picot, que previa que a França, a Grã-Bretanha e, mais tarde, a Rússia iriam compartilhar a mesma Síria.
Em meio à complexa situação política da região, os britânicos precisavam decidir quem ficaria encarregado de administrar o Iraque. Inicialmente, o general Stanley Maude assumiu a responsabilidade, comprometendo-se a respeitar a autonomia iraquiana. Maude se engajou na construção da estrada de ferro Bagdá-Kut e adotou medidas sanitárias, que, ao menos para ele, não foram suficientes: em 14 de novembro de 1917, ao visitar uma escola israelita em Bagdá (a cidade contava então com uma das comunidades judaicas mais importantes do Oriente Médio), o major-general bebeu um copo de leite infectado e morreu de cólera quatro dias mais tarde.
Os partidários da Rule Britannia mais estrita aproveitaram-se da morte de Maude para retomar seus interesses. Uma nova oportunidade surgiria para eles em março de 1918, com a nomeação de Percy Cox para o posto de embaixador em Teerã. Este deixaria em Bagdá uma equipe composta pelo novo comissário civil, seu adjunto Arnold Wilson, conhecido como “AT”, de caráter excessivamente rígido, e de Gertrude Bell, a secretária oriental para questões administrativas.
Em abril de 1920, a Conferência de San Remo submeteu o Iraque e a Palestina a um mandato britânico por decisão da Liga das Nações, ancestral da ONU que concedeu à França um mandato análogo sobre a Síria e o Líbano. Em agosto do mesmo ano, ao mesmo tempo que Lawrence da Arábia redigia seu protesto ao Observer, dos 534 funcionários de postos elevados no alto comissariado britânico na Mesopotâmia, apenas 20 eram iraquianos. Entre os subalternos a proporção era de 2.167 autóctones contra 1.831 indianos. Como se não bastasse o elevado número de estrangeiros na administração do novo Iraque, os britânicos também tentaram transferir o poder das tradicionais estruturas tribais para uma nova aristocracia local baseada no modelo inglês. Junte-se a isso o fato de os ingleses terem destituído uma série de notáveis iraquianos em quem não confiavam e outros erros do mesmo calibre e teremos a receita perfeita para a insurreição que eclodiu naquele ano contra as forças de ocupação.
Iniciado em junho, o levante estendeu-se por toda a região rural do Iraque, com exceção do Curdistão. À frente da revolta estava a maioria xiita, encabeçada pelos dignitários religiosos das cidades santas de Nadjaf e Kerbala, e as tribos beduínas, em particular as do médio Eufrates. A resposta inglesa veio na forma de uma repressão impiedosa, em uma operação na qual os aviadores da Royal Air Force não hesitaram em lançar sobre os insurgentes o famoso gás mostarda que tantos estragos havia causado no front europeu. A ação tinha o respaldo do próprio ministro inglês da Guerra e do Ar, Winston Churchill, que em maio de 1919 havia afirmado ser favorável ao uso do gás envenenado “contra as tribos não civilizadas”. Segundo ele, “a perda de vidas deveria ser reduzida ao mínimo. Inútil se servir unicamente dos gases mais mortíferos: podemos utilizar outros que provoquem um sério desconforto e permitam semear uma boa dose de terror sem causar efeitos permanentes graves sobre aqueles que podem ser atingidos por eles”.
A situação logo assumiria contornos de pesadelo: cerca de 9 mil mortos e feridos do lado árabe contra 1.500 a 1.800 do lado britânico, sem contar os 600 desaparecidos. Diante do desastre, Churchill começou a cogitar uma retirada das tropas de Sua Majestade. Militarmente, a situação melhorou a partir de setembro, com a reconquista das regiões a norte, oeste e leste de Bagdá, o que permitiu o isolamento da zona rebelde do médio Eufrates. Nesse contexto, os ingleses decidiram reorientar sua política em relação ao Iraque e para isso sir Percy Cox foi chamado de volta às pressas, em outubro de 1920, para assumir o posto de alto-comissário no lugar de Arnold “AT” Wilson.
Partidário de um “autogoverno” árabe (“de fachada”, precisaria em suas cartas), Cox encarregou, em 11 de novembro de 1920, um notável bagdali, Mohammed al-Kailani, da formação de um gabinete autóctone, o primeiro governo árabe no Iraque desde o saque de sua capital pelos mongóis, em 1258. A iniciativa, naturalmente, tinha segundas intenções: o objetivo dos britânicos era contemplar seus fiéis aliados hachemitas. Em julho de 1920, Faissal, terceiro dos quatro filhos do xerife de Meca, havia sido expulso do trono da Síria pelo exército francês três meses após sua coroação em virtude dos acordos Sykes-Picot e da Conferência de San Remo. Imediatamente, Londres procurou um reino substituto para esse fiel aliado. Inicialmente a Mesopotâmia estava prometida para o filho mais velho do xerife de Meca, Abdallah, mas como este havia montado por conta própria um feudo na Transjordânia (ver glossário), o futuro Iraque surgiu como uma ótima opção para contemplar Faissal.
A política do Império Britânico para o Oriente Médio foi sacramentada em uma conferência realizada em março de 1921, na cidade do Cairo, no Egito, sob a presidência do recém-empossado secretário de Estado britânico nas Colônias, Winston Churchill. Foi essa reunião que definiu a divisão de poderes na região: para Abdallah foi dada a coroa da Transjordânia, para Faissal, a do Iraque. Agora, só restava garantir o aval dos próprios iraquianos para a decisão. Essa, porém, não seria uma tarefa fácil, como bem observou o perspicaz secretário de Estado para a Índia, Edwin Montagu, já que os funcionários britânicos no Iraque continuavam a privilegiar a minoria sunita em detrimento dos xiitas, sempre muito renitentes, e a usar os curdos como “tampão” face aos turcos, confinando-os nas regiões montanhosas.
O próprio Faissal, como todos os hachemitas, era sunita, e a primeira coisa que fez ao desembarcar no Iraque em junho de 1921 foi realizar um hábil périplo pelas cidades santas xiitas de Nadjaf e Kerbala, antes de chegar a Bagdá. Em julho, um “referendo” faria dele o futuro rei, com 96% de aprovação da população. O resultado, no entanto, tinha pouco de espontâneos, os ingleses haviam manipulado a consulta lançando mão de artifícios como o de fazer eleitores iletrados acreditar que se tratava de uma consulta sobre o abastecimento de açúcar ou convencer os xiitas de que os hachemitas eram partidários de sua concepção do Islã.
Em 23 de agosto, Faissal foi coroado na presença de Percy Cox e do general Aylmer Haldane ao som de uma fanfarra que tocava God save the King, o hino nacional do Reino Unido. A mensagem foi plenamente compreendida e correspondida pelo recém-empossado soberano, que em 10 de outubro de 1922 assinaria o primeiro tratado de amizade anglo-iraquiana. O mandato britânico sobre o Iraque expiraria em setembro de 1932, mas a influência inglesa permaneceria graças a pessoas como Gertrude Bell, que havia sido a principal conselheira britânica do rei Faissal, e Kinahan Cornwallis, veterano do Arab Bureau transformado em “conselheiro especial” do ministro iraquiano do Interior. Apoiada pelo poder inglês, a dinastia hachemita permaneceria no poder por mais 25 anos após a morte de Faissal, em 1933. Esse período, porém, se encerraria abruptamente em 14 de julho de 1958 com o assassinato do rei Faissal II e de sua família por militares golpistas. O atentado iniciaria o ciclo de agitações políticas que conduziram Saddam Hussein ao poder em 1979.
CRONOLOGIA
1914
Tomada do porto iraquiano de Basra por um corpo expedicionário britânico durante a Primeira Guerra Mundial
1916
Assinatura do acordo Sykes-Picot. Otomanos derrotam as tropas inglesas no Iraque em abril, na cidade de Kutal-Amara. O xerife de Meca, Hussein ibn Ali, e seus filhos iniciam uma guerrilha antiturca no centro da Península Arábica com o apoio de Londres
1920
Liga das Nações coloca o Iraque e a Palestina sob mandato britânico
1921
Faissal, filho de Hussein ibn Ali, é eleito rei do Iraque
1945
Os britânicos deixam o Iraque
1979
Saddam Hussein sobe ao poder
1991
Iraque invade o Kuait e Estados Unidos interferem, dando início à Guerra do Golfo
2003
Invasão do Iraque pelo exército americano com o apoio dos ingleses
GLOSSÁRIO
TRANSJORDÂNIA: compreendia o território da atual Jordânia mais a Cisjordânia.
ACORDO SYKES-PICOT: acordo secreto firmado em 1916 pelos governos da Inglaterra e da França para estabelecer as zonas de influência de cada país sobre os territórios do antigo Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.
História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

