Arquivo de 27 de Fevereiro de 2008

Os britânicos na armadilha iraquiana

Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio

Rémi Kauffer

“O governo que instalamos é de tipo britânico e sua língua é o inglês. Lá temos 450 agentes de execução para fazê-lo funcionar, sem nenhum responsável iraquiano. (…) Os 80 mil soldados que temos ali estão ocupados com tarefas policiais, não com a proteção das fronteiras. Eles mantêm o povo sob o nosso jugo. (…) Os iraquianos esclarecidos se sentem muito irritados por serem privados do privilégio de compartilhar a defesa e a administração de seu país. (…) Eles esperaram pela notícia de nosso mandato e a acolheram bem. (…) Agora, começam a duvidar de nossas boas intenções.”

Não, esse parágrafo não foi extraído de nenhum relatório contemporâneo de algum oficial do exército inglês servindo no Iraque. Ele foi escrito por Lawrence da Arábia em uma carta enviada ao chefe de redação do jornal The Times em 22 de julho de 1920. No entanto, tendo em vista o atoleiro no qual os americanos e ingleses se meteram no Oriente Médio depois da queda de Saddam Hussein, as linhas acima adquirem o status de uma verdadeira profecia. Outra carta de Lawrence, daquele mesmo ano, publicada na edição de 8 de agosto do jornal The Observer, pinta um quadro ainda mais sombrio: “O povo inglês foi presa, no Iraque, de uma armadilha da qual será difícil sair com dignidade e honra. (…) Quanto tempo ainda permitiremos o sacrifício de milhões de libras, de milhares de soldados do Império Britânico e de dezenas de milhares de árabes, em nome de uma forma de administração colonial que só beneficia seus administradores?”.

A aventura iraquiana da Inglaterra começou imediatamente após a declaração de guerra entre Istambul e Londres, em 5 de novembro de 1914. A Força D, pequeno corpo expedicionário constituído na Índia entre setembro e outubro daquele ano, desembarcou em 14 de novembro em Chat-al-Arab, o estreito onde os rios Tigre e Eufrates confluem antes de desembocarem no Golfo Pérsico. Foi a partir dali que as tropas comandadas pelo general Charles Townshend ocuparam o porto de Basra e marcharam sobre a Mesopotâmia, nome pelo qual a região onde atualmente está o Iraque era conhecida na época.

Uma vez instalados em Basra, os ingleses começaram a aumentar seu campo de ação a partir de agosto de 1915. O comandante-em-chefe britânico na Mesopotâmia lançaria a divisão Townshend bem mais ao norte, em direção à cidade de Kut al-Amara, localizada a 200 km de Bagdá. Tendo chegado até ali, por que não avançar sobre a capital? Foi nesse momento que a demonstração de força se transformou em invasão. Townshend tentou alertar sobre a modéstia de seus efetivos. O general contava então com 13 mil homens e, segundo suas próprias palavras, “para tomar Bagdá, necessitaríamos de um exército”. As ponderações de Townshend, porém, se perderam no vazio. Não havia muito o que fazer quando o diplomata e chefe do corpo expedicionário, Percy Cox, já declarara que a queda de Bagdá teria “a mesma importância que a de Constantinopla”. De fato, a armadilha acabou funcionando contra Charles Townshend: depois de avançar até Ctesifon, a 100 km de Bagdá, sua divisão teve de bater em retirada em face da contra-ofensiva das forças otomanas instruídas por oficiais alemães. Retrocedeu até Kut al-Amara onde, sitiada por cinco meses seguidos, de dezembro de 1915 a abril de 1916, acabou hasteando a bandeira branca.

Kut al-Amara foi a única capitulação de uma grande unidade britânica durante a Primeira Guerra Mundial. A derrota, no entanto, não impediu que as tropas de Sua Majestade criassem raízes no sul da Mesopotâmia. Nem poderia ser diferente: vários organismos da burocracia imperial traçavam seus planos para o Oriente Médio. De um lado estavam o Raj, governo britânico das Índias, e o Índia Office de Londres e de Bombaim. De outro, o Arab Bureau do Cairo, um serviço rival que apoiava a guerrilha antiturca que desde junho de 1916 eclodira no centro da Península Arábica. Os chefes da guerrilha, Hussein ibn Ali, o xerife de Meca, e seus quatro filhos pertenciam à prestigiosa linhagem dos hachemitas.

Foi nesse contexto que os britânicos retomaram a ofensiva no front da Mesopotâmia sob as ordens de um novo comandante-em-chefe, o major-general Stanley Maude. Esse experiente militar de 53 anos, que recebeu o merecido apelido de “Systematic Joe”, planejou a nova campanha meticulosamente. Em 24 de fevereiro de 1917, Kut foi retomada. Em 11 de março, a 13a divisão britânica arrancou Bagdá das mãos dos otomanos depois de dois dias de combate. Dia 18, cairia Bakuba e, no dia seguinte, Falluja.

Após a conquista restava decidir o que fazer com a Mesopotâmia, e os vários organismos britânicos envolvidos na operação se lançaram num debate que definiu três posições: de um lado, Maude e os militares, que desejavam manter a ordem; de outro, o India Office, que gostaria muito que o Iraque passasse para o controle do Raj; e, por fim, uma terceira linha defendida pelo Foreign Office, o War Office e o Arab Bureau, cuja estratégia consistia em criar um estado árabe no norte da Mesopotâmia, baseada no desejo da família dos hachemitas. Abdallah, segundo filho do xerife de Meca, subiria ao trono desse novo Estado, que seria batizado de Iraque, enquanto Faissal, o mais novo, ficaria com a Síria.

Essa divisão de poder entre as potências européias no Oriente Médio, porém, contrariava o acordo secreto assinado um ano antes pelo diplomata inglês sir Mark Sykes e seu colega francês, François Georges-Picot, que previa que a França, a Grã-Bretanha e, mais tarde, a Rússia iriam compartilhar a mesma Síria.

Em meio à complexa situação política da região, os britânicos precisavam decidir quem ficaria encarregado de administrar o Iraque. Inicialmente, o general Stanley Maude assumiu a responsabilidade, comprometendo-se a respeitar a autonomia iraquiana. Maude se engajou na construção da estrada de ferro Bagdá-Kut e adotou medidas sanitárias, que, ao menos para ele, não foram suficientes: em 14 de novembro de 1917, ao visitar uma escola israelita em Bagdá (a cidade contava então com uma das comunidades judaicas mais importantes do Oriente Médio), o major-general bebeu um copo de leite infectado e morreu de cólera quatro dias mais tarde.

Os partidários da Rule Britannia mais estrita aproveitaram-se da morte de Maude para retomar seus interesses. Uma nova oportunidade surgiria para eles em março de 1918, com a nomeação de Percy Cox para o posto de embaixador em Teerã. Este deixaria em Bagdá uma equipe composta pelo novo comissário civil, seu adjunto Arnold Wilson, conhecido como “AT”, de caráter excessivamente rígido, e de Gertrude Bell, a secretária oriental para questões administrativas.

Em abril de 1920, a Conferência de San Remo submeteu o Iraque e a Palestina a um mandato britânico por decisão da Liga das Nações, ancestral da ONU que concedeu à França um mandato análogo sobre a Síria e o Líbano. Em agosto do mesmo ano, ao mesmo tempo que Lawrence da Arábia redigia seu protesto ao Observer, dos 534 funcionários de postos elevados no alto comissariado britânico na Mesopotâmia, apenas 20 eram iraquianos. Entre os subalternos a proporção era de 2.167 autóctones contra 1.831 indianos. Como se não bastasse o elevado número de estrangeiros na administração do novo Iraque, os britânicos também tentaram transferir o poder das tradicionais estruturas tribais para uma nova aristocracia local baseada no modelo inglês. Junte-se a isso o fato de os ingleses terem destituído uma série de notáveis iraquianos em quem não confiavam e outros erros do mesmo calibre e teremos a receita perfeita para a insurreição que eclodiu naquele ano contra as forças de ocupação.

Iniciado em junho, o levante estendeu-se por toda a região rural do Iraque, com exceção do Curdistão. À frente da revolta estava a maioria xiita, encabeçada pelos dignitários religiosos das cidades santas de Nadjaf e Kerbala, e as tribos beduínas, em particular as do médio Eufrates. A resposta inglesa veio na forma de uma repressão impiedosa, em uma operação na qual os aviadores da Royal Air Force não hesitaram em lançar sobre os insurgentes o famoso gás mostarda que tantos estragos havia causado no front europeu. A ação tinha o respaldo do próprio ministro inglês da Guerra e do Ar, Winston Churchill, que em maio de 1919 havia afirmado ser favorável ao uso do gás envenenado “contra as tribos não civilizadas”. Segundo ele, “a perda de vidas deveria ser reduzida ao mínimo. Inútil se servir unicamente dos gases mais mortíferos: podemos utilizar outros que provoquem um sério desconforto e permitam semear uma boa dose de terror sem causar efeitos permanentes graves sobre aqueles que podem ser atingidos por eles”.

A situação logo assumiria contornos de pesadelo: cerca de 9 mil mortos e feridos do lado árabe contra 1.500 a 1.800 do lado britânico, sem contar os 600 desaparecidos. Diante do desastre, Churchill começou a cogitar uma retirada das tropas de Sua Majestade. Militarmente, a situação melhorou a partir de setembro, com a reconquista das regiões a norte, oeste e leste de Bagdá, o que permitiu o isolamento da zona rebelde do médio Eufrates. Nesse contexto, os ingleses decidiram reorientar sua política em relação ao Iraque e para isso sir Percy Cox foi chamado de volta às pressas, em outubro de 1920, para assumir o posto de alto-comissário no lugar de Arnold “AT” Wilson.

Partidário de um “autogoverno” árabe (“de fachada”, precisaria em suas cartas), Cox encarregou, em 11 de novembro de 1920, um notável bagdali, Mohammed al-Kailani, da formação de um gabinete autóctone, o primeiro governo árabe no Iraque desde o saque de sua capital pelos mongóis, em 1258. A iniciativa, naturalmente, tinha segundas intenções: o objetivo dos britânicos era contemplar seus fiéis aliados hachemitas. Em julho de 1920, Faissal, terceiro dos quatro filhos do xerife de Meca, havia sido expulso do trono da Síria pelo exército francês três meses após sua coroação em virtude dos acordos Sykes-Picot e da Conferência de San Remo. Imediatamente, Londres procurou um reino substituto para esse fiel aliado. Inicialmente a Mesopotâmia estava prometida para o filho mais velho do xerife de Meca, Abdallah, mas como este havia montado por conta própria um feudo na Transjordânia (ver glossário), o futuro Iraque surgiu como uma ótima opção para contemplar Faissal.

A política do Império Britânico para o Oriente Médio foi sacramentada em uma conferência realizada em março de 1921, na cidade do Cairo, no Egito, sob a presidência do recém-empossado secretário de Estado britânico nas Colônias, Winston Churchill. Foi essa reunião que definiu a divisão de poderes na região: para Abdallah foi dada a coroa da Transjordânia, para Faissal, a do Iraque. Agora, só restava garantir o aval dos próprios iraquianos para a decisão. Essa, porém, não seria uma tarefa fácil, como bem observou o perspicaz secretário de Estado para a Índia, Edwin Montagu, já que os funcionários britânicos no Iraque continuavam a privilegiar a minoria sunita em detrimento dos xiitas, sempre muito renitentes, e a usar os curdos como “tampão” face aos turcos, confinando-os nas regiões montanhosas.

O próprio Faissal, como todos os hachemitas, era sunita, e a primeira coisa que fez ao desembarcar no Iraque em junho de 1921 foi realizar um hábil périplo pelas cidades santas xiitas de Nadjaf e Kerbala, antes de chegar a Bagdá. Em julho, um “referendo” faria dele o futuro rei, com 96% de aprovação da população. O resultado, no entanto, tinha pouco de espontâneos, os ingleses haviam manipulado a consulta lançando mão de artifícios como o de fazer eleitores iletrados acreditar que se tratava de uma consulta sobre o abastecimento de açúcar ou convencer os xiitas de que os hachemitas eram partidários de sua concepção do Islã.

Em 23 de agosto, Faissal foi coroado na presença de Percy Cox e do general Aylmer Haldane ao som de uma fanfarra que tocava God save the King, o hino nacional do Reino Unido. A mensagem foi plenamente compreendida e correspondida pelo recém-empossado soberano, que em 10 de outubro de 1922 assinaria o primeiro tratado de amizade anglo-iraquiana. O mandato britânico sobre o Iraque expiraria em setembro de 1932, mas a influência inglesa permaneceria graças a pessoas como Gertrude Bell, que havia sido a principal conselheira britânica do rei Faissal, e Kinahan Cornwallis, veterano do Arab Bureau transformado em “conselheiro especial” do ministro iraquiano do Interior. Apoiada pelo poder inglês, a dinastia hachemita permaneceria no poder por mais 25 anos após a morte de Faissal, em 1933. Esse período, porém, se encerraria abruptamente em 14 de julho de 1958 com o assassinato do rei Faissal II e de sua família por militares golpistas. O atentado iniciaria o ciclo de agitações políticas que conduziram Saddam Hussein ao poder em 1979.

CRONOLOGIA

1914
Tomada do porto iraquiano de Basra por um corpo expedicionário britânico durante a Primeira Guerra Mundial

1916
Assinatura do acordo Sykes-Picot. Otomanos derrotam as tropas inglesas no Iraque em abril, na cidade de Kutal-Amara. O xerife de Meca, Hussein ibn Ali, e seus filhos iniciam uma guerrilha antiturca no centro da Península Arábica com o apoio de Londres

1920
Liga das Nações coloca o Iraque e a Palestina sob mandato britânico

1921
Faissal, filho de Hussein ibn Ali, é eleito rei do Iraque

1945
Os britânicos deixam o Iraque

1979
Saddam Hussein sobe ao poder

1991
Iraque invade o Kuait e Estados Unidos interferem, dando início à Guerra do Golfo

2003
Invasão do Iraque pelo exército americano com o apoio dos ingleses

GLOSSÁRIO
TRANSJORDÂNIA: compreendia o território da atual Jordânia mais a Cisjordânia.

ACORDO SYKES-PICOT: acordo secreto firmado em 1916 pelos governos da Inglaterra e da França para estabelecer as zonas de influência de cada país sobre os territórios do antigo Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.

História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Fed inclinado a continuar com reduções de juros para tranqüilizar o mercado

Chris Flood

O espectro ameaçador da recessão indica que há uma grande expectativa de que o Federal Reserve dos Estados Unidos (o banco central norte-americano) reduza ainda mais as taxas de juros na quarta-feira, depois da redução de emergência da semana passada, em 75 pontos-base. A única incerteza parece ser a de saber se são necessários outros 25 pontos-base ou 50 pontos-base de tranqüilidade monetária.

Os números de quarta-feira sobre o produto nacional bruto dos EUA vão mostrar que o crescimento se desacelera drasticamente, mas os dados desta semana podem revelar se os receios dos investidores sobre a aparentemente inevitável recessão são totalmente justificados pelos dados mais atuais de atividade econômica.

As esperanças de que o mercado imobiliário americano esteja chegando a um ponto de virada foram disseminadas por um encorajador declínio no estoque de casas à venda em dezembro, anunciado na semana passada.

As vendas de casas novas tiveram uma retração para seu nível mais baixo em quase 13 anos e uma nova queda é esperada, de 647.000 em novembro, para 645.000 nos dados de dezembro, que serão divulgados esta segunda-feira (28). Mais fragilidade nos preços de imóveis parece ser inevitável, com a queda em relação ao ano anterior, no indicador Case-Shiler Home Price, que será divulgado na terça-feira, e se espera que vá de 6,1% em novembro para 7,2% em dezembro.

Prevê-se que a confiança do consumidor americano, a ser divulgada na terça-feira, caia de 88,6 em dezembro, para 87 em janeiro, refletindo os elevados custos da energia e a desaceleração no mercado de trabalho dos EUA.

A previsão de consenso para o PIB do quarto trimestre, que sai na quarta-feira, é de que o crescimento anualizado se desacelere de 4,9% no terceiro trimestre para 1,2%. Os mercados monetários estão avaliando os preços com uma nova redução nas taxas de juros nos EUA para 2,5% até o final do ano e a declaração do Fed, acompanhando o anúncio da taxa na quarta-feira será vital para avaliar se já foi calculado o preço de um excesso de tranqüilidade monetária.

As pressões inflacionárias serão fundamentais para o julgamento dos responsáveis pelas instâncias decisórias, com a medida de inflação preferida do Fed, esperando-se que o deflator do núcleo do consumo pessoal fique em 2,2% em dados de dezembro a serem divulgados na quinta-feira.

A desaceleração no mercado de trabalho americano é evidente com a alta na taxa de desemprego de 4,4% em março para 5% em dezembro. Os ganhos em empregos forneceram um apoio crucial para gastos com consumo, e um grau mais elevado de sensibilidade da parte dos investidores pode ser esperado ante qualquer novo abrandamento no crescimento de empregos. A previsão de consenso para as folhas de pagamento do setor não-agrícola de janeiro, que sai na sexta-feira, é de uma alta de 55.000 depois de uma desanimadora alta de 18.000 em dezembro.

A atividade industrial está se enfraquecendo, esperando-se que a medida da pesquisa do Institute of Supply Management (ISM) a ser divulgada na sexta-feira mostre queda de 47.7 em dezembro, para 47 em janeiro.

Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

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O impacto dos mergulhos

Áreas que concentram atividades, como aulas ou exploração turística, podem estar ameaçadas e por isso mesmo exigem controle maior

Daniela Muramatsu e Fábio Lang da Silveira

O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

Estudos sobre a reprodução de corais pétreos brasileiros surgiram apenas recentemente, entre o fim da década de 90 e início de 2000. Das 16 espécies que vivem em profundidades até 30-40 metros, ou em águas rasas descritas para o Brasil, metade já foi estudada quanto a seus aspectos reprodutivos. Esse tipo de abordagem geralmente envolve a coleta de animais em seus habitats marinhos, o que exige planejamento adequado e deve levar em conta não só os objetivos finais da pesquisa, mas também os potenciais impactos negativos, principalmente na etapa de coleta (Quantas coletas? Quantos corais por coleta? Qual o tamanho desses corais? Como vamos coletar?).

Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação. Além disso esses distúrbios podem ocorrer com grande freqüência e intensidade, pondo em xeque a capacidade desses animais de se adaptarem às condições não familiares em um curto período de tempo. Por isso mesmo é importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem.

Essa preocupação em minimizar os impactos surgiu logo no início do desenvolvimento do projeto de mestrado de um dos autores deste artigo (Daniela Muramatsu), realizado na área de zoologia da Universidade de São Paulo (USP) entre os anos de 2004 e 2007. O projeto envolveu a coleta (devidamente autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama) com mergulho autônomo (scuba, em inglês) de colônias do coral pétreo Madracis decactis, que ocorrem na baía de Ilha Grande, RJ, na Estação Ecológica de Tamoios.

O primeiro passo para a elaboração da metodologia foi um levantamento bibliográfico dos estudos sobre a reprodução de corais que utilizavam uma metodologia parecida com a que iríamos empregar. Esse passo inicial foi fundamental para a definição de um número mínimo de coletas e de corais e seu devido tamanho, o que garantiria o desenvolvimento da pesquisa ao mesmo tempo que produziria o menor impacto possível. Entretanto, logo no início dos mergulhos, observamos que alguns aspectos da metodologia estabelecida deveriam ser ajustados à realidade que encontramos no ambiente de coleta (na baía da Ilha Grande, RJ). O objetivo desse cuidado foi o de minimizar esses impactos. Assim, por exemplo, optamos por coletar colônias que já estavam soltas em vez de quebrar partes maiores de corais e reduzimos o tamanho das amostras, pois percebemos que não havia necessidade de analisar amostras grandes para o tipo de estudo que faríamos.

As áreas marinhas protegidas são, atualmente, um dos melhores instrumentos de gerenciamento para a conservação de comunidades coralíneas e recifes de corais e por isso atraem tanto pesquisadores como turistas mergulhadores, permitindo um contato íntimo e inesquecível com a vida marinha. Durante o desenvolvimento do trabalho observamos muitos turistas mergulhadores no local de coleta (muitos deles iniciantes em treinamento), principalmente nas estações de verão e primavera, o que nos chamou a atenção sobre os potenciais impactos dos mergulhos turísticos na região.
Impacto Subestimado

O mergulho autônomo já foi considerado uma prática com impacto irrelevante para os ecossistemas marinhos se comparado a outras atividades, como as práticas extrativistas. No entanto, evidências recentes demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas quando submetidas a planos de manejo malfeitos, ou a intensa atividade turística. Muitos trabalhos têm demonstrado que a recuperação de recifes degradados é muito mais lenta que a de recifes saudáveis. A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir e restabelecer-se após eventos de distúrbios.

Assim, já que os nossos ambientes coralíneos são impotentes para impedir as alterações climáticas globais, como a acidificação (ou a perda da alcalinidade) e a elevação da temperatura do mar, é importante que ao menos os conservemos saudáveis para resistir e/ou se recuperar desses eventos. Em 1998, por exemplo, a elevação média da temperatura do mar eliminou cerca de 16% dos corais mundiais de águas rasas, incluindo recifes no Pacífico Oeste, na Austrália e no oceano Índico, considerados os mais bem cuidados e protegidos do mundo.

Quem teve a oportunidade de mergulhar em águas claras e passou alguns minutos apreciando a beleza do fundo do mar pode não saber dos potenciais impactos negativos que alguns de seus comportamentos podem provocar. Não se trata de poluir o ambiente com o lançamento indiscriminado de lixo ou coletar clandestinamente animais e plantas. Esses comportamentos talvez até sejam evitados por orientação dos próprios profissionais do mergulho. Estamos falando dos impactos que muitas vezes passam despercebidos pelo mergulhador e até pelas próprias empresas de mergulho.

Alguns trabalhos têm discutido o efeito do mergulho turístico em ambientes recifais. A pouca flutuabilidade dos mergulhadores, somada à falta de aviso das escolas e operadoras de mergulho sobre os cuidados a serem tomados (e até o próprio desconhecimento dessas empresas a respeito dos danos potenciais de mergulhadores mal preparados), podem provocar impactos nas comunidades visitadas. A quebra de partes da colônia de corais é um dos exemplos mais comuns desse efeito. Pesquisadores estimaram que num mergulho autônomo típico de 60 minutos, entre 4 a 8 metros de profundidade nos recifes de Eilat, no mar Vermelho, um mergulhador quebrava cerca de 1,7 ± 4,9 corais. Multiplicado pelo número de mergulhadores que visitaram esses recifes em 1996, os pesquisadores estimaram mais de 400 mil quebras de colônias de corais por ano.

No Brasil, a maioria das espécies de corais pétreos tem forma maciça e robusta e, portanto, devem ser mais resistentes à quebra. Entretanto, os mergulhos podem afetar os corais sem necessariamente quebrá-los fisicamente.

Sedimentos e Âncoras

A abrasão dos tecidos parece ser suficiente para favorecer a suscetibilidade a doenças infecciosas, resultando muitas vezes em alta mortalidade e perda da cobertura de corais. Outro episódio bastante comum é a ressuspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo inconsolidado. Aquelas nuvens de sedimentos que se formam quando tocamos as nadadeiras no fundo não prejudicam apenas a visibilidade e o mergulho de outros mergulhadores. Estudos mostraram que corais expostos a curtos períodos de sedimentação (principalmente de grânulos muito finos, do tamanho de siltes) são estressados, apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Em recifes onde prevalecem correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal uma vez obtida a flutuação neutra. Dessa maneira, suas nadadeiras não tocam os recifes com muita freqüência e poucas quebras de colônia ou ressuspensão são observadas. Mas parece que, nessa situação, os mergulhadores muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles, principalmente para fotografar. Além dos impactos trazidos pelo mergulho em si, as próprias embarcações também podem provocar distúrbios aos ambientes turísticos com a poluição das águas e o lançamento indiscriminado de âncoras sobre os recifes.

O turismo subaquático cresceu muito nas últimas décadas e por isso é fundamental estabelecer um nível de uso adequado, em que o ecossistema seja capaz de lidar com certo limite de distúrbios e stress, acima do qual a degradação começa a manifestar-se, uma vez que mesmo níveis baixos de stress crônico ou repetitivo podem ter impactos severos na reprodução e nas taxas de crescimento dos corais. Alguns pesquisadores sugerem que, na ausência de dados específicos para um determinado local, uma boa regra seria manter o uso em níveis até um máximo de 5 mil a 6 mil mergulhos/ano.

Com freqüência, os ambientes marinhos não têm um “preço ambiental” a ser pago pelos consumidores, e a conseqüência disso é que podem permanecer por um preço muito baixo, o que leva a uma sobrecarga. Quando o acesso é livre, usuários individuais (mergulhadores) provavelmente não são incentivados à conservação, o que pode resultar na sensação de que a propriedade de todos é responsabilidade de ninguém.

Um bom gerenciamento de ecossistemas perturbados pelo homem é extremamente necessário, e decisões difíceis terão de ser tomadas com os limitados recursos para conservação. Por isso, estudos mais específicos a respeito do impacto de mergulhos são importantes, principalmente em locais com grande demanda turística e/ou muito utilizados para aulas de mergulho autônomo, com a presença de aprendizes com pouco controle de flutuabilidade e com maior potencial de danos ao ambiente.

Essas decisões difíceis devem passar por ações diretas, como a limitação do número de mergulhos por local/ano, a transferência dos cursos de mergulho e dos mergulhos introdutórios de locais com comunidades marinhas mais frágeis para locais onde as comunidades marinhas são menos diversificadas (por exemplo, sobre fundos arenosos com baixa cobertura de organismos vivos), a instrução de escolas e operadoras de mergulho a respeito dos impactos causados por mergulhadores mal preparados e a conscientização da necessidade do trabalho em conjunto para a conservação desses ambientes, dos quais as escolas e operadoras também dependem de forma direta, justamente pelo atrativo natural propiciado pela vida marinha.

CONCEITOS-CHAVE

É importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem.

- Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem, muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação.

- A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir, reorganizar-se e restabelecer-se após eventos de distúrbios.

- O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

AMEAÇAS SUTIS
Um conjunto de atitudes quase sempre desconsideradas pode provocar danos irreversíveis aos corais. É o caso do contato com luvas, ou ainda mais graves, de lançamento de âncora, capaz de produzir rupturas na estrutura. A suspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo estressa os corais, que apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Nos recifes com correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal. Nessa situação, eles muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles.

A abrasão dos tecidos favorece a suscetibilidade a doenças infecciosas, implicando alta mortalidade e perda da cobertura de corais.

As embarcações também podem prejudicar os locais de mergulho, pois provocam a poluição das águas e o lançamento de âncoras sobre os recifes.

PARA CONHECER MAIS
Reef Check – Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil(http://www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/historico.php).

Projeto Coral Vivo. Aplica estudos recentes sobre reprodução, recrutamento e distribuição de corais brasileiros no estabelecimento de práticas de recuperação das populações de corais de recifes degradados (www.coralvivo.org.br).

Projeto Recifes Costeiros. Realiza pesquisa, experimentos de manejo, educação ambiental e implementação dos Conselhos Municipais de Defesa do Meio Ambiente (www.recifescosteiros.org.br/prc).

Programa de Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil publicado pelo Ministério do Meio Ambiente – Série Biodiversidade 18, de autoria de Beatrice P. Ferreira e Mauro Maida (http://www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/download.php).

Biologia marinha. Renato Crespo Pereira e Abílio Soares-Gomes (organizadores). Interciência, 2002.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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MUITO POUCO PARA VIVER

A miséria da discussão sobre o salário mínimo

Robert Kurz

É a retoma do miserabilismo. A duvidosa sorte do “emprego” transformou muitos até agora desempregados apenas em trabalhadores com baixos salários, em diversas categorias, graças à pressão desmesurada dos serviços de emprego. O que até há poucos anos era considerada uma “relação de trabalho atípica” é agora a normalidade para quase metade dos assalariados: trabalho a tempo parcial, ocupação marginal, trabalho subcontratado, contratos a prazo abaixo dos acordos sectoriais, falsa autonomia na base de recibos verdes, os chamados estagiários. Uma grande parte destas relações de trabalho precarizadas é ultimamente classificada como emprego com segurança social obrigatória, de tal modo que o aumento estatístico deste já não significa o regresso à antiga normalidade. E a maioria destes estimados colaboradores de segunda classe ganha entre “menos de 9 euros” e “menos de 4,5 euros por hora”. Muito pouco para viver, demasiado para morrer.

A miséria do debate sobre o salário mínimo reside sobretudo no facto que ele parece estar bem agarrado nas mãos da classe política. Com um piscar de olho ao rebanho eleitoral, de olho nas sondagens, naturalmente; afinal vem aí uma série de eleições. A posição eleitoral tem que ser ajustada. Portanto, apertar aqui um pouco o parafuso da justiça social, ali desabafar um pouco a frustração. E sobretudo nunca magoar o imprescindível capitalismo. Uma difícil tarefa de spin doctor. A grande coligação chegou de facto a um acordo, após prolongada demora, para um salário mínimo nos correios entre 8 e 9,8 euros. Trata-se de uma concessão para que no sector de ex-serviço público, após a queda do monopólio postal, não ocorra nenhum desassossego, como na Telekom e nos caminhos-de-ferro. Agora prossegue a saga para a fixação do salarial mínimo (cada vez mais baixo) em cada sector. Um salário mínimo legal geral é recusado fundamentalmente pela CDU. O SPD exige-o mostrando músculo para o palco mediático, de olho nas sondagens, sabendo porém, para seu descanso, que o mesmo não é realizável em qualquer coligação presentemente imaginável.

Em qualquer constelação política a questão é sempre a mesma: a despeito de todas as falinhas mansas sociais, o consenso neo-liberal que inclui todos os partidos políticos impôs limites estritos ao discurso sobre o salário mínimo. Os concorrentes dos Correios Alemães, S.A. protestaram contra o acordo do salário mínimo. Ele prejudicaria a concorrência e colocaria em causa a abertura do mercado no sector. Por outras palavras: estas empresas privadas de distribuição de correspondência, segundo as suas próprias declarações, apenas são viáveis no mercado se pagarem salários abaixo do mínimo de existência. Em vez de se tirar a conclusão lógica de que tais empresas não têm direito à existência, força-se a original lógica de que qualquer trabalho de miséria com salário de fome seria “melhor do que nada”. O Grupo Pin (da editora Springer-Verlag) já anunciou, qual gesto ameaçador, o despedimento de milhares de mal pagos. Parece portanto que o salário mínimo constitui uma linha de resistência contra a tarefa “exigida” pelos serviços de emprego, de que os desempregados se devem enfronhar no salário de miséria a qualquer preço, de modo a deixarem de causar custos e desaparecerem das estatísticas. Por isso o acordo havido nos correios quanto à elevação do salário mínimo deve constituir a grande excepção.

“Os salários mínimos são inofensivos se forem baixos”, nas palavras do conhecido presidente do Instituto IFO, Hans-Werner Sinn. E ele aponta com agrado o caso dos Estados Unidos, onde o seu valor se fica por uns notáveis 4 euros. Em Espanha e na Europa Oriental ainda fica um pouco abaixo. Só em comparação com estes casos e com situações extremas aqui na Alemanha, que surgem apenas nas áreas da limpeza e da restauração, é que parece à primeira vista aceitável a exigência do SPD, apoiada pelos sindicatos, de um salário mínimo legal de 7,5 euros. Para uma semana de 40 horas de trabalho isso perfaz 1.200 euros por mês, ilíquidos naturalmente. Na periferia das grandes cidades só a renda da casa custa mais de metade disso. E será isso um “bom pagamento para um bom trabalho” (Müntefering)? Na melhor das hipóteses tratar-se-ia de progredir da miséria para a pobreza. Todo o debate mostra apenas até que ponto já chegaram as relações de descaramento. O capitalismo já não paga “um salário justo para um dia de trabalho justo”, pelo contrário, é óbvio que a única resposta adequada à situação caiu manifestamente no mais completo esquecimento. Se o nível de reivindicação não é para descer abaixo do nível da relva, é preciso um “abanão” à sociedade, mas seguramente em sentido completamente diferente do que o ex-presidente federal Herzog tinha em mente. (1)

(1) Referência ao dito do referido personagem, mencionado no capítulo I do Manifesto contra o Trabalho: “Enquanto para uns o desemprego se deve a reivindicações exageradas, à falta de disponibilidade ou de flexibilidade, outros acusam os «seus» gestores e políticos de incompetência, de corrupção, de ganância ou de traição a determinadas regiões. Mas, ao fim e ao cabo, toda essa gente está de acordo com o ex-presidente da Alemanha, Roman Herzog: seria preciso um «abanão» em todo o país, exactamente como se o problema fosse idêntico à falta de motivação de uma equipa de futebol ou de uma seita política. Todos devem, «de uma forma ou de outra», agarrar-se ao remo com força, mesmo que o remo tenha desaparecido há muito, e todos devem, «de uma forma ou de outra», pôr mãos à obra, mesmo que já não haja nada para fazer (ou só coisas sem sentido). O subtexto desta mensagem triste é inequívoco: aquele que, apesar da sua aplicação, não obtiver as boas graças do ídolo trabalho é responsável por essa situação, e não tem que haver problemas de consciência em abatê-lo ao activo ou pô-lo na rua.” http://obeco.planetaclix.pt/mctp.htm (NT)

Obeco
http://obeco.planetaclix.pt/

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Sem perdão

Don Aucoin

A qualquer momento Grace Akallo dará a luz ao seu primeiro filho. Os médicos informaram que será um menino.

Essa possibilidade faz com que surja um sorriso radiante na face de Akallo. “É uma bênção”, diz ela. Após uma breve pausa, acrescenta: “E ele vai estar comigo onde quer que eu vá”.

Os instintos protetores de uma futura mãe? Talvez. Ou talvez isso seja uma resposta ao fato de que parte da infância de Akallo foi roubada. Quando ela tinha 15 anos de idade, Akallo foi seqüestrada de uma escola católica para meninas no norte de Uganda e obrigada a lutar em um exército rebelde. Antes de escapar, após sete meses, ela foi brutalizada, enterrada viva e obrigada a marchar centenas de quilômetros descalça, dispondo de tão pouca comida que por vezes teve que comer lagartixas e ratos para sobreviver.

Ela viu coisas terríveis serem feitas com outras crianças presas. Ela foi obrigada a ser a “mulher” de um comandante rebelde que tinha três vezes a sua idade. Houve momentos em que a morte parecia preferível à vida: em duas ocasiões ela tentou matar-se com a sua própria arma, como presenciou diversas outras crianças fazerem.

Mas, de alguma forma, Akallo, 27, sobreviveu com o seu espírito e a sua humanidade intactos, e acabou conseguindo chegar aos Estados Unidos. Ela recentemente formou-se pela Universidade Gordon, em Wenham. Akallo conheceu e casou-se com Jonathan Baiden, nascido em Gana e funcionário de uma casa de repouso em Worcester. Ela está se preparando para inscrever-se para um curso de direito. E em breve o bebê nascerá.

No fim das contas, ela conseguiu recuperar a sua vida e garantir um futuro, algo que parecia um sonho impossível durante o longo tormento que passou como presa. Não obstante, mais de uma década após Akallo ter escapado dos seus algozes, ela continua assombrada, não só pelo sofrimento a que foi submetida, mas também por dois fatos que está determinada a mudar.

Primeiro, milhares de “soldados infantis” ugandenses, incluindo duas amigas de Akallo que foram capturadas com ela em 1996, ainda estão em cativeiro. E, segundo, o mundo parece não se importar com isso.

“As minhas amigas ainda estão lá”, diz Akallo, com a voz ficando ainda mais suave. “Elas nunca viram os pais; nunca viram as suas casas. Eles não libertaram as crianças”. Akallo é co-autora de um livro sobre as suas experiências, “Girl Soldier” (”Menina Soldado”), que ela espera que provoque a ação internacional no sentido de libertar os soldados infantis. Durante anos após a sua fuga, ela repetiu a mesma oração: “Deus, por que não me dá asas para que eu possa voar e ajudar as minhas amigas”.

“Deus não me deu asas”, diz ela. “Mas, talvez, o livro…”. Ela não termina a sentença, como se tivesse medo de ter muita esperança.

“Deus, estou pronta para morrer”
Apenas algumas horas antes da chegada dos rebeldes, as meninas da escola estavam dançando.

Era o dia 9 de outubro de 1996 - Dia da Independência de Uganda -, de forma que Akallo e suas colegas da Escola Saint Mary sintonizaram uma estação de rádio e dançaram para comemorar. No início do ano, Akallo foi matriculada na Saint Mary, uma escola católica para garotas de 13 a 16 anos em uma cidade chamada Aboke.

Ela foi criada em uma vila no nordeste de Uganda, onde a partir dos sete anos de idade Akallo ajudou a tomar conta dos quatro irmãos mais novos, além de trabalhar na agricultura com a mãe. O pai abandonou a mãe para casar-se com outra mulher e deixou de mandar dinheiro para a sua primeira família. Mesmo assim, Akallo diz: “Eu era feliz”.

“Eu vivia em paz quando morava com a minha família”, lembra-se ela. “As crianças não tinham medo. Nós caminhávamos até a escola, que ficava a 16 quilômetros, sem a companhia de nenhum adulto”.

Mas quanto Akallo chegou na Saint Mary, no início de 1996, com 15 anos de idade, as crianças eram baixas freqüentes na guerra entre o governo ugandense e os rebeldes liderados por Joseph Kony, cujo objetivo declarado era criar um Estado administrado segundo os Dez Mandamentos. Kony e o seu chamado Exército da Resistência de Deus seqüestraram grupos inteiros de crianças, submetendo-as a uma brutalidade incansável e transformando-as em assassinos frios.

Naquela noite de outubro, enquanto Akallo dormia, uma janela foi quebrada próxima a ela, deixando-a coberta de cacos de vidro. Coronhas de rifles golpearam as portas. As garotas aterrorizadas começaram a rezar e a gritar, chamando pelas mães. Lá fora, centenas de figuras armadas, muitas delas crianças, brandiam armas, desde facões a fuzis de assalto. Eles avisaram às meninas que caso não abrissem as portas imediatamente, jogariam uma granada no dormitório.

“Todas estavam tão apavoradas”, recorda Akallo. “Eles nos arrancaram da escola. Começamos a andar com eles em uma caminhada que durou a noite inteira. Todas choravam com vozes diferentes, pedindo a Deus que as ajudasse a escapar”.

Ao todo, 139 meninas foram raptadas na Saint Mary. “Algumas das garotas tinham dez ou 11 anos”, conta Akallo. Ao recordar-se disso, ela parece que vai chorar. “E eles eram tão brutos”, acrescenta com uma voz que é quase um sussurro.

Os rebeldes acabaram libertando 109 das garotas, mas mantiveram 30 cativas. Akallo foi uma destas.

O objetivo dos rebeldes era aumentar o tamanho do seu exército com crianças e adolescentes capazes de ser doutrinados mais facilmente do que adultos para combater o governo ugandense e os seus aliados. “A fim de nos intimidar, de forma que não tentássemos escapar, eles nos espancavam violentamente. Éramos espancados o tempo inteiro. E éramos ameaçados de morte a todo momento: ‘Vamos lhe matar’”.

Uma semana após o seqüestro de Akallo, uma menina de 12 anos tentou escapar. Os rebeldes ordenaram que as outras crianças a espancassem até a morte, se não quisessem elas próprias morrer. Akallo não conseguiu fazer tal coisa. Enquanto as outras começaram a bater com porretes na criança, ela pegou a menor vara que conseguiu encontrar e golpeou a garota, mas apenas nas pernas. Um rebelde percebeu o que Akallo estava fazendo e a golpeou na cabeça, fazendo com que ela desmaiasse. “Quando acordei, a garota estava morta”.

A brigada rebelde, que incluía adultos, matava qualquer pessoa que entrasse no seu caminho quando vagava de uma vila a outra, seqüestrando mais centenas de crianças. As crianças prisioneiras acabaram sendo divididas em dois grupos. O grupo de Akallo foi forçado a marchar até o sul do Sudão, onde os rebeldes contavam com bases protegidas. Durante o caminho, eles eram constantemente enviados em longas jornadas em busca de comida e água, coisas que eram escassas ou inexistentes. “Você via pessoas apoiadas em uma árvore, e achava que estavam descansando. Mas elas tinham partido. Estavam mortas”, diz Akallo.

Assim que chegaram ao Sudão, os rebeldes distribuíram armas aos cativos, em preparação para a batalha. Mas algumas das crianças desesperadas encontraram um outro uso para as armas. “As pessoas começaram a se matar”, narra Akallo. “Uma garota estourou a cabeça na nossa frente. Ela estava cansada, sedenta e faminta”.

Akallo participou de mais de dez batalhas. Viu centenas de pessoas morrerem à sua volta, tanto crianças como adultos. Ela disparou a sua arma diversas vezes, e, como resultado, também foi alvo de tiros. Ela não sabe se atingiu alguém. Uma noite, após uma batalha particularmente sangrenta, Akallo desmaiou de exaustão. Os seus colegas, todos soldados infantis, achando que Akallo estava morta, removeram as suas roupas e a enterraram em uma cova rasa. Akallo acordou horas mais tarde, no meio da noite, debaixo da terra fofa. Tomada pelo pânico, ela conseguiu escapar da sepultura. “Fazia frio. Tudo estava quieto. Eu me encontrava sozinha”, conta Akallo. Ela começou a caminhar até que finalmente alcançou os outros soldados infantis.

No final da primavera de 1997, ela foi novamente enviada em uma jornada em busca de comida e água. Aos 16 anos de idade, Akallo estava emagrecida, e era um verdadeiro esqueleto ambulante. Durante os sete meses em que estivera prisioneira, cinco das suas colegas do Saint Mary haviam sido mortas. Naquele dia, Akallo também teve a impressão que chegara ao fim da linha. “Foi naquele momento que eu disse: ‘Deus, estou pronta para morrer’”, conta ela. “Estava cansada de correr, cansada de ser obrigada a lutar”. Ela sentou-se perto de uma árvore, determinada a não se mexer. “Então”, conta, “ouvi uma voz me dizendo que levantasse e andasse… Creio que foi Deus me mandando fugir”.

Ela decidiu tentar escapar. Viveu no mato durante três dias sem comida, sobrevivendo com o orvalho que encontrava sobre as folhas. Alguns outros soldados infantis juntaram-se a ela na tentativa de fuga. Eles caminharam quatro dias, e finalmente chegaram a uma vila. Jogaram fora as armas e entraram caminhando na aldeia, no sul do Sudão, com Akallo na frente, gritando: “Não somos pessoas ruins. Fomos raptados da escola em Uganda! Precisamos de ajuda!”.

Divulgando uma mensagem
Akallo não usa sapatos ao sentar-se no sofá no seu apartamento. Seus pés têm manchas e cicatrizes, como conseqüências das inumeráveis caminhadas forçadas pela floresta.

Após escapar, ela teve que tomar mais de 30 injeções para o tratamento de diversas doenças de pele que voltavam com freqüência. Quanto à sua recuperação psicológica, Akallo diz, “Rezei muito”. As freiras forneceram um apoio emocional crucial quando ela retornou ao Colégio Saint Mary. “As irmãs me encorajaram bastante, e me disseram: ‘Este não é o fim do seu futuro’”, conta Akallo.

Após se formar no Saint Mary em 2001, ela freqüentou a Universidade Cristã de Uganda, onde conheceu estudantes de intercâmbio da Universidade Gordon, uma instituição cristã. Curiosa quanto ao que eles disseram a respeito da universidade, ela solicitou transferência para lá em 2005, tendo obtido uma bolsa de estudos integral. Akallo formou-se em comunicação, porque isso a ajudaria a aprender “maneiras de falar e escrever a respeito do que passei”.

Quando precisa de um intervalo para os estudos, ela encontra uma válvula de escape meio incomum assistindo a episódios antigos da série “Walker, Texas Ranger”. A sua ex-colega de quarto, Megan Thompson, 21, recorda: “Akallo costumava ficar acordada até as duas da manhã para assistir àquele programa. Ela dizia: ‘Esse é o programa no qual o cara bom sempre vence’”.

Akallo sabe que a vida real não é tão simples, mas se agarra à sua crença no poder da fé, e no poder de uma voz humana denunciadora. Akallo acabou tornando-se uma porta-voz da World Vision, uma organização cristã de ajuda e desenvolvimento que é ativa em Uganda. Tom Slicklen, diretor da World Vision na Nova Inglaterra, afirma que as congregações das igrejas da área de Boston ficam invariavelmente “emocionadas e dispostas a agir” ao ouvirem Akallo.

Em 2004, esperando atrair atenção para os problemas do seu país, Akallo contou a sua história no “The Oprah Winfrey Show”. Naquele ano ela discursou na reunião anual da Anistia Internacional. No ano passado depôs perante um subcomitê parlamentar, pedindo “intervenção em alto nível” do governo dos Estados Unidos para ajudar a acabar com o conflito.

A última de várias interrupções do combate foi declarada recentemente em Uganda, e as negociações de paz estão em andamento entre o governo e os rebeldes. Mas o trauma nacional está longe de ter acabado. Akallo é apenas uma das cerca de 30 mil crianças seqüestradas durante uma guerra de duas décadas que provocou milhares de mortes. O Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia, emitiu ordens para a prisão de Kony e de quatro dos seus comandantes, acusando-os de crimes de guerra. Em junho o procurador-geral do tribunal disse que uma investigação provou que “os principais comandantes do Exército da Resistência de Deus foram pessoalmente responsáveis pelo recrutamento e pela escravização de crianças, pelo massacre de famílias, tendo forçado o deslocamento de milhões de pessoas dos seus lares”.

Akallo pensa constantemente na sua terra natal. Ela espera um dia visitar Uganda e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a nação a se recuperar. Até tal dia, Akallo continuará divulgando uma mensagem que ela espera que o livro “Girl Soldier” amplifique. De fato, parte da sua mensagem parece estar expressa no subtítulo do livro: “A Story of Hope for Northern Uganda’s Children” (”Uma História de Esperança para as Crianças do Norte de Uganda”).

“Quero que as pessoas saibam o que está acontecendo em Uganda e que façam algo para ajudar”, afirma Akallo. “As pessoas devem trabalhar arduamente para acabar com essas atrocidades, porque as crianças não merecem isso. Se ficarmos calados, estaremos permitindo que tais coisas continuem ocorrendo”.

The Boston Globe
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/boston/

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O Dilúvio Ambientalista

Ativistas do Greenpeace, o mais conhecido dos movimentos ambientalistas que atuam no planeta, colocaram uma réplica da Arca de Noé nos altos do Monte Ararat. Segundo a imemorial narrativa, foi nessa montanha do Cáucaso que ela ancorara após o refluxo do Dilúvio bíblico. Querem que sirva como um alerta para a catástrofe que se avizinha: um novo afogamento da humanidade, vitimada pelo “aquecimento global”. Qual seria o motivo da persistência da imortalidade deste mito que atravessa os séculos e que prevê a aproximação de uma punição coletiva, monstruosa, decretada por forças sobrenaturais para punir as espécies de um modo tão cruel como o que provocado por uma pavorosa inundação?

Os deuses devastam a Terra

Por ser um bom homem, probo e trabalhador, os deuses enviaram-lhe sinais imperceptíveis aos demais. Foi assim, ouvindo um sussurrar estranho, alarmante, dos caniços das beiras do rio Eufrates, que Utanapishtin e seus familiares, alertaram-se e conseguiram sobreviver ao dilúvio que logo desabou por sete dias seguidos sobre a Babilônia (Poema de Gilgamesh, 11ª tábua). Praticamente a mesma narrativa deu-se com Noé. Esse mito tão fascinante quanto atormentador, – afinal trata-se de um holocausto da humanidade - já mereceu mais de 400 versões em todas as culturas que se conhecem.

Num dos tantos episódios da Ilíada, por exemplo, em que os deuses olímpicos intervêem abertamente no destino dos homens, Homero registra (nos começos do Canto XII) o momento em que , quando finda a guerra com a cidade de Príamo saqueada e destruída, Poseidon e Apolo, associados, decidem inundar tudo. Agiram como se fossem dois encarregados de limpeza que com seus baldes de água e esfregões tratam de remover todo o detrito e sujeira acumulada que encontram pelo chão marcado por sangrentas batalhas:

“….resolveram destruir a muralha” ,narrou então Homero, “lançando contra ela o poderio de todos os rios que correm das montanhas de Ida para o mar…em cujas margens muitos escudos de couro de boi e elmos empenachados caíram no pó, assim como uma raça de heróis semidivinos. Febo Apolo uniu todos esses rios em sua foz e, durante nove dias, lançou a inundação contra a muralha, e Zeus fez chover constantemente, a fim de que a força das águas mais cedo empurrasse a muralha para o mar. O próprio abalador da terra, empunhando o tridente, arrasou com ondas todos os alicerces de madeira e de pedra que os aqueus tinham levantado com grande labor, e fez uma lisa planície ao longo do Helesponto de forte corrente e cobriu de areia a vasta praia, depois de ter varrido toda a muralha. E fez os rios voltarem aos leitos onde antes corriam suas belas águas”.

Este mini-diluvio foi, pois, a maneira encontrada pelos Grandes dos Céus de demonstrarem seu desagrado com o enorme banho de sangue, saque e destruição causada pelos dez anos de guerra entre os gregos e os troianos, fazendo com que o cenário das batalhas, o teatro dos heróis famosos, simplesmente desaparecesse para sempre tragado por um turbilhão de rios furiosos e aguaceiro sem fim.

O mito do terrífico aluvião purificador, tão fascinante quanto atormentador (afinal trata-se do holocausto da humanidade) já mereceu mais de 400 versões em todas as culturas que se conhecem. Até o poeta Ovídio, que morreu nos começos do século I quando estava em seu triste exílio numa praia em Timos, não deixou de referir-se à impiedosa torrente de água que, engendrada por Júpiter em conluio com Netuno, caiu dos céus para purgar a Terra do ingrato gênero humano (Metamorfosis 1, 253-312).

Marxismo e Ambientalismo

Quando, todavia, se supunha que, sob o influxo do Iluminismo, a crença na possibilidade da Terra vir a se desandar, vitimada por um colossal flagelo, era vista como uma assombração do passado supersticioso, eis como que coube a Karl Marx reavivá-la. Ainda que não prevendo a destruição do planeta mas sim a de um sistema econômico que se tornara universal: o capitalista (O Capital, I, XXIV).

Para ele, inevitavelmente o mundo do lucro estava condenado. A velha cobiça humana associada à emergência da ganância dos capitalistas, aflorada desde a Revolução Industrial do século XVIII - concentrando riqueza de um lado e a miséria do outro -, seria a principal responsável pela inevitável destruição do sistema. Os pecadores mesmos é que naufragariam no seu pecado. Como expoente maior da Zusamenbruchstheorie, a teoria da ruína inevitável do capitalismo, Marx assegurou que as massas (o redentor dilúvio humano) se libertariam dos seus exploradores, encontrando o seu destino no comunismo.

Não pode o observador de hoje eximir-se em constatar que justamente quando o cataclismo do capitalismo previsto por Marx não se realizou (deu-se o contrário pois quem, de fato, soçobrou na década de 1990 foi a economia soviética, erguida sob os fundamentos do marxismo), seguido do recente abandono da possibilidade de uma hecatombe provocada por uma guerra nuclear, um novo fim-de-mundo rapidamente os substituiu: o dos ambientalistas.

Segundo eles, uma espécie de dilúvio terceirizado nos aguarda. A inundação que se aproxima decorrerá do “aquecimento global” (resposta catastrofista à otimista globalização capitalista), provocador do derretimento das geleiras polares e do conseqüente o avolumar dos oceanos, tendo como resultado, entre outros horrores, a submersão das populações ribeirinhas e até de países inteiros (para o Brasil chegaram a prever, com espantosa precisão matemática, que abalaria com a vida de exatamente 52 milhões de habitantes!).

Tudo, evidentemente, gerado pela avidez e pela venalidade desatada do consumismo capitalista dos dias de hoje. Deste modo, milhares de anos depois da aparição do primeiro Mito do Dilúvio, os modernos apocalípticos engendraram uma nova paranóia para sobressaltar a humanidade por inteiro.

Bibliografia

Anônimo - A Epopéia de Gilgamesh. São Paulo. Editora Martins Fontes, 2001.

Friedrich, Otto - O Fim do Mundo. São Paulo: Editora Record, 2001.

Homero - Odisséia. São Paulo: Difel, 1960.

Ovídio - Metamorfoses. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Ryan, William e Pitman, Walter C. - El Dilúvio Universal. Madri: Editora Debate. 1999.

Terra Educação
http://noticias.terra.com.br/educacao

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Protestos e engarrafamento

Duas pessoas morreram e milhares de caminhões ficaram presos em um engarrafamento na fronteira entre a Polônia e a Ucrânia nesta semana, depois que funcionários da alfândega entraram em greve. Eles reclamam de baixos salários, excesso de trabalho e falta de preparo para lidarem com a zona Schengen

Siobhán Dowling

Milhares de veículos estão presos em um engarrafamento na fronteira, funcionários da alfândega estão em greve, a população local está protestando e duas pessoas morreram - nesta semana as coisas não estão exatamente tranqüilas na borda oriental da União Européia.

A zona Schengen, na qual pode-se viajar viagens sem a necessidade de passaporte, foi expandida em 21 de dezembro do ano passado, para incluir a Polônia, a República Tcheca, a Hungria, a Eslováquia, a Eslovênia, a Estônia, a Letônia, a Lituânia e Malta. Como parte da sua inclusão na área Schengen, esses países, que são membros da União Européia desde 2004, deveriam fortalecer a segurança de fronteiras nas bordas daquilo que os críticos das políticas da união para as suas regiões fronteiriças chamam de “Fortaleza Europa”.

Mas isso provocou tensões em locais onde tradicionalmente existe um tráfego maciço e nos quais a movimentação era relativamente desimpedida antes de 21 de dezembro. Um desses locais problemáticos é a fronteira entre a Ucrânia e a Polônia, onde as pessoas agora precisam aguardar durante horas em filas no consulado para obterem vistos. Agora esse caos aumentou devido a uma greve dos funcionários de alfândega poloneses, que deixou milhares de veículos, a maioria deles caminhões comerciais, paralisados na fronteira.

Segundo o sindicado polonês de caminhoneiros, o ZMPD, 3.000 caminhões estão presos no engarrafamento aguardando uma oportunidade para entrar na Ucrânia; muitos estão parados lá há dias. Uma porta-voz do ZMPD disse à “Spiegel Online” que acredita que esse número aumentará para 4.000 no final de semana. “Esperamos que o problema seja resolvido logo, mas não sabemos quando nem como isso ocorrerá”, disse ela.

Enquanto isso, cerca de 400 veículos e 1.500 vagões ferroviários estão paralisados do lado ucraniano da fronteira. A greve ilegal dos funcionários de alfândega também está afetando as travessias de fronteira para a Belarus.

Até o momento houve duas fatalidades. Um motorista de caminhão polonês de 50 anos de idade perdeu a consciência e morreu na última quarta-feira após aguardar no engarrafamento da fronteira desde a segunda-feira. E, segundo a agência de notícias ucraniana ZIK, um motorista que aguardava do lado ucraniano morreu na quinta-feira quando o seu caminhão pegou fogo.

As autoridades ucranianas enviaram uma ambulância e um caminhão de bombeiros para a fronteira com a Polônia, e as forças armadas instalaram uma cozinha de campanha na área. Já as autoridades polonesas estão mandando alimentos para os motoristas que aguardam no engarrafamento.

A raiz do problema é o movimento do Sindicato dos Funcionários de Alfândega da Polônia. O sindicato disse a “Spiegel Online” que o movimento de protesto começou em 11 de outubro de 2007, sendo motivado principalmente por questões relativas a excesso de trabalho, falta de salários decentes e número insuficiente de funcionários. O salário inicial de um funcionário da alfândega é de ? 325. Após três anos, esse valor pode chegar a um máximo entre ? 425 e ? 500.

Os funcionários da alfândega também reclamaram de que não estavam adequadamente preparados para lidar com o tráfego maciço entre a Polônia e os seus vizinhos orientais após 21 de dezembro de 2007. O jornal diário liberal polonês “Gazeta Wyborcza” está prevendo problemas há meses, e afirma que a Polônia contou com bastante tempo para reorganizar o seu sistema de controle de fronteiras.

A situação enfureceu tanto os caminhoneiros poloneses que o sindicato ZMPD está cogitando declarar a sua própria greve. O sindicato pretendia bloquear tanto as travessias de fronteira quanto as ruas da capital, Varsóvia, neste fim de semana. No entanto, na tarde de sexta-feira (25/01), o sindicato anunciou que estava cancelando a greve devido ao luto nacional na Polônia motivado pela morte de 20 militares em um desastre aéreo ocorrido na noite da última quarta-feira.

Porém, a ação pode ainda seguir em frente: na tarde de sexta-feira, o canal polonês de notícias TVN24 noticiou que o ZMPD havia anunciado que os seus membros bloqueariam todas as estradas em direção ao leste, bem como estradas em Varsóvia, a partir do meio-dia da próxima segunda-feira, caso até lá a situação não melhore.

Houve também protestos no lado ucraniano da fronteira. Pessoas que moram perto da fronteira estão exigindo que o sistema de vistos seja revogado para aqueles que vivem a uma distância de até 50 quilômetros da divisa. Na semana passada, muitos deles fizeram um protesto em frente ao consulado polonês em Lviv, onde cerca de 1.300 pessoas fazem fila diariamente para pedirem vistos.

A fronteira com a Ucrânia sempre foi um dos maiores focos de preocupação na União Européia quando a área Schengen foi ampliada para o leste. Em dezembro do ano passado, Hugo Brady, pesquisador do Centro para Reforma Européia, disse à “Spiegel Online” que “aquele é um ponto frágil na fronteira, porque ele atrai pessoas de toda parte, incluindo do Iraque e da Rússia”.

Mas as duras medidas para as regiões fronteiriças, incluindo uma nova taxa para emissão de vistos de ? 35, não só engarrafou o tráfego entre os dois países, mas também afetou a vida econômica de ambos os lados da fronteira. Muitos ucranianos que moram em vilas na fronteira ganham a vida comprando e vendendo produtos nos dois países, mas o custo do visto passou a ser proibitivo para eles. A indústria de turismo polonesa tem reclamado do desaparecimento dos turistas ucranianos, enquanto a indústria de construção civil do país sofre com a perda do trabalho barato ucraniano.

A Frontex, a organização da União Européia que trabalha com os países membros no sentido de coordenar a segurança de fronteiras, repele as sugestões de que a confusão na fronteira polonesa deve-se ao mal planejamento por parte da união.

“A ampliação do acordo Schengen nada mudou nos pontos de travessia das fronteiras externas, a não ser pelo fato de que agora os países membros do acordo usam os sistemas de informação Schengen”, disse na sexta-feira o porta-voz da Frontex, Michal Parzyszek, à “Spiegel Online”. “É simplesmente uma obrigação dos Estados membros realizar as operações de fronteira da forma apropriada”.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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O tráfego aéreo norte-americano

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O tráfego aéreo europeu

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O Conto da dívida externa

Paulo Passarinho  
26-Fev-2008

O governo de Lula tem no seu dom de iludir uma de suas maiores virtudes, ou melhor, características.

Também, pudera. Tendo chegado ao governo em 2003, com todo o simbolismo de ter saído do seio do povo e da classe operária, à frente de um partido de lutas e denúncias contra a direita e o neoliberalismo e, ao "chegar lá", ter adotado como linha de governo as exigências de banqueiros e corporações transnacionais, além de ter escolhido como aliados preferenciais as figuras mais espúrias da política nacional, somente com muito ilusionismo – e um enorme grau de indigência e oportunismo da "esquerda" que o apóia – seria possível continuar a se apresentar como um político com um mínimo de credibilidade.

A última pérola de sua triste obra é a versão da dívida externa zerada. A partir do fato de as reservas internacionais do país – o total de moeda estrangeira conversível, aceita no mercado internacional - terem superado o montante da dívida externa, pública e privada, em títulos, criou-se a versão fantasiosa da superação do problema do endividamento externo.

Por que se trata de uma ilusão, mentira ou manipulação essa versão? Porque o endividamento externo no Brasil de hoje, governado por Lula, assumiu características muito mais complexas do que há 20 ou 30 anos.

O endividamento externo de hoje – do Brasil escancarado financeiramente à livre movimentação cambial de empresas estrangeiras e nacionais - não pode ser aferido apenas a partir da dívida externa formal, em títulos e contratos do governo e de empresas privadas.

A dívida externa junto aos agentes econômicos estrangeiros, e somente passível de ser saldada com moeda conversível, deve ser avaliada em conjunto com a situação da dívida interna em títulos públicos, a chamada dívida mobiliária federal.

Isto se dá por força do fato de ser hoje extremamente viável a troca de títulos da dívida externa por papéis da dívida pública do Tesouro brasileiro. Não somente viável como especialmente lucrativo para os credores desses papéis, é bom que se diga, além de extremamente prejudicial para as finanças públicas.

A coisa vem funcionando, no governo Lula, beneficiário da calmaria e alta liquidez do mercado financeiro internacional nos últimos anos, da seguinte forma: houve um fortalecimento expressivo da formação de reservas internacionais pelo Brasil, em decorrência dos saldos comerciais obtidos pela alta de preços – puxada pelo crescimento da demanda mundial de commodities – de produtos com forte peso nas nossas exportações, e também pelo fato de a taxa básica de juros brasileira, que garante a remuneração dos títulos públicos, ser muito elevada em relação ao praticado por outros países. Isto faz com que haja um interesse muito grande dos investidores externos em negócios com os papéis da dívida pública brasileira.

Alimenta também uma ciranda financeira muito nociva para o nosso endividamento: como há um diferencial muito grande nas taxas cobradas por empréstimos no exterior em relação à taxa brasileira, torna-se um excelente negócio (para grandes investidores, para grandes empresas, tanto nacionais quanto estrangeiras) captar recursos no exterior, a taxas mais baixas, e aplicar esses recursos, a taxas mais elevadas, na dívida pública interna. Mais "interessante", ainda: o governo Lula isentou os fundos institucionais estrangeiros, que venham a aplicar recursos em títulos públicos, do imposto de renda sobre os rendimentos auferidos. Com isso, aumentou em muito a entrada de recursos em moeda forte no país – moeda conversível –, fazendo com que as nossas reservas dessem um salto expressivo.

Porém, é importante a lembrança de que o custo financeiro dessa formação de reservas é elevadíssimo. Estamos remunerando os credores dessa nossa dívida em cerca de 12% ao ano, fazendo com que a carga de juros que temos de pagar aos detentores desses títulos seja crescente e impagável. É essa carga de juros que faz com que a dívida interna em títulos cresça sem parar, ultrapassando hoje a cifra de R$ 1,3 trilhão. É também essa carga de juros que inviabiliza o orçamento público, enquanto uma fonte de recursos para a melhoria da máquina pública, realização de investimentos na infra-estrutura e nas políticas sociais.

Com a expressiva entrada de dólares no país, e a conseqüente valorização do real frente à moeda norte-americana, tornou-se um bom negócio para as empresas privadas anteciparem os seus pagamentos de dívidas acumuladas em moeda estrangeira, ao mesmo tempo em que esse acúmulo de reservas, para o Estado brasileiro, passa a ter um custo elevadíssimo.

Além de tudo, em termos de compromissos externos que temos de pagar com moeda forte, o passivo externo do país ultrapassa em muito os pagamentos relativos à dívida externa.

Há de se assinalar que esse processo gerado pela política econômica tem as suas conseqüências no plano produtivo. Com essa abertura financeira sem limites à ação do capital estrangeiro, estamos assistindo a uma acelerada desnacionalização do nosso parque produtivo. De uma forma crescente, o PIB brasileiro é formado por empresas cujos acionistas principais são estrangeiros. Com isso, os lucros e dividendos dessa produção são transferidos ao exterior, para a remuneração dos controladores dessas empresas. Ao mesmo tempo, a permanente entrada de dólares na economia brasileira valoriza o real em relação ao dólar, barateando importações e tornando nossas exportações menos competitivas.

Com isso, os resultados das nossas contas externas já começam a apresentar uma inflexão importante em relação aos últimos anos, quando tivemos um superávit no resultado da chamada conta-corrente do balanço de pagamentos do país. O balanço de pagamentos nada mais é que a contabilidade de todas as transações do país no mercado internacional, em moeda conversível, sejam elas de natureza financeira, comercial ou de serviço. O resultado da conta corrente é relativo ao balanço de todas as transações de comércio (exportações e importações) e de serviços (pagamento de juros, remessa de lucros e dividendos, pagamento de royalties, despesas com viagens internacionais).

Agora, em janeiro deste ano, acumulamos nos últimos 12 meses anteriores um déficit – o primeiro desde 2003 – de US$ 1,169 bilhão. O que está ocorrendo é que o saldo comercial do país diminui, ao mesmo tempo em que remessas de lucros, despesas com viagens e pagamento de royalties se elevam rapidamente. Com isso, o próprio Banco Central já estima que voltaremos a apresentar um déficit nas transações correntes do país, neste ano de 2008, em torno de US$ 4 bilhões.

Os dirigentes do governo, bem como os seus porta-vozes na "imprensa livre" brasileira, sabem muito bem o que acontece e as conseqüências financeiras dessa opção em curso, mas preferem destilar otimismo com os resultados da economia, até porque, convenhamos, no meio dessa turma tem muita gente ganhando dinheiro, beneficiando-se de cargos públicos, utilizando-se de informações privilegiadas para os seus negócios e ficando em paz com o sistema financeiro e as grandes empresas beneficiárias da ciranda financeira e da desnacionalização do parque produtivo nacional.

Dá-se o nome de governabilidade para essa impostura.

Paulo Passarinho é economista.

Correio da Cidadania

Comentários

Reservas externas são mito face à liberalização cambial e financeira

Gabriel Brito

26-Fev-2008

Em entrevista ao Correio da Cidadania, o economista Ricardo Gonçalves criticou abertamente as posturas do governo brasileiro diante da crise, rebateu a tese de não existir mais dívida externa e mostrou-se preocupado com o futuro do país a curto prazo.

Também professor da UFRJ, Reinaldo explicou por que o Brasil deverá estar sob forte dependência dos EUA, ainda que indireta, o que já deixaria o país atado às conseqüências da crise internacional da mesma forma que os demais.

De acordo com ele, as atuais política e estratégia econômicas do governo Lula favorecem ao mesmo grupo de sempre, enquanto que a classe trabalhadora sofreria as conseqüências mais dolorosas dessa nova recessão que se avizinha. "Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado", afirmou, não sem antes desqualificar os argumentos de segurança financeira, supostamente garantida por nossas reservas internacionais.

Sem ser apocalíptico, mas sem se distanciar da realidade das decisões governamentais, Reinaldo acredita e enumera soluções que poderiam desvincular o Brasil da recessão mundial, porém não as vê palpáveis no cenário atual. Algo compreensível em quem enxerga no presidente Lula alguém que apenas dá prosseguimento às mesmas políticas econômicas da gestão anterior.

Correio da Cidadania: O Brasil diz agora que não existe dívida externa. Porém, temos a interna. Como o senhor vê isso?

Reinaldo Gonçalves: Primeiro lugar: o Brasil tem um alto grau de vulnerabilidade externa, sua capacidade de resistir a pressões, fatores de desestabilização, continua muito limitada. O país tem um dos maiores riscos do mundo. Os indicadores disso, o chamado ‘spread’, aumentaram muito nos últimos meses. Esse é um aspecto importante. Segundo aspecto importante é que o Brasil do ano passado teve uma regressão das contas externas, dos fluxos; nós tínhamos um superávit e nesse ano vamos ter um déficit, ou seja, estamos dependendo cada vez mais dos fundos de capitais internacionais. Terceiro lugar: nossa balança comercial apresentou um resultado de 40 bilhões de reais no ano passado. Para esse ano há uma projeção de queda. A tendência é que ao longo dos próximos anos a situação se fragilize. Todo mundo sabe disso. Quando nós olhamos pelo ponto de vista dos capitais, o Brasil, com a taxa de juros muito alta, é cada vez mais o foco para o capital especulativo de curto prazo. Isso faz com que o Brasil fique muito sujeito a ataques não só no mercado de capitais, na bolsa de valores, mas também nas aplicações.

O que o governo tem defendido são dois argumentos equivocados. O primeiro tem a ver com a questão das exportações para os Estados Unidos. O argumento é que dependemos menos do mercado americano do que em anos atrás. Na verdade, caiu de cerca de 22% a participação dos EUA em nossas exportações para cerca de 17%. Esse argumento é equivocado por uma razão muito óbvia, muito banal: há outros países mais importantes para a gente, que é o caso do México, do Chile, da China. Qual é o problema? Esses países são altamente dependentes dos EUA, em alguns inclusive a dependência aumentou . Então, indiretamente, nós continuamos muito dependentes dos Estados Unidos. Nós exportamos menos para eles, mas exportamos mais para a China, que exporta para os EUA. Na verdade, a China depende dos EUA, e aí, como nós dependemos demais da China, passamos também a depender mais dos EUA. Então o Brasil, que era um vagão de segunda classe, virou um vagão de terceira classe. Outro aspecto importante, ainda nessa dependência aos EUA: o grau de abertura da economia aumentou. Para girarmos 100 reais da renda, dependemos mais do mundo que cinco anos atrás. Por causa disso, coisas que acontecem no mundo acabam afetando mais a renda, o emprego, o investimento no país. O argumento dessa blindagem brasileira, olhando nossa relação com os EUA, não é, portanto, verdadeiro, é equivocado por uma questão simplesmente de olhar os efeitos diretos e indiretos com relação aos Estados Unidos.

Segundo argumento que tem sido usado é o de que nossas reservas internacionais são equivalentes à dívida externa. Isso é um erro grosseiro, por uma razão muito simples: o que é nossa dívida externa? É toda a renda que nós temos, os brasileiros, e que está denominada em dólar. O Banco Central argumenta que temos reservas hoje de 190 bilhões de dólares e uma dívida externa de 190 bilhões de dólares. E com isso você paga a dívida externa e ela fica zerada. Só que esse é um erro muito grosseiro, porque na realidade qualquer pessoa no Brasil, seja brasileiro ou estrangeiro, que não tem nenhuma dívida externa, pode ganhar na mega-sena, pegar seu dinheiro, vender o apartamento, carro, sua empresa, pode tirar dinheiro do seu fundo de renda fixa, vender ações… Pode pegar esse dinheiro, converter, comprar dólar e mandar para fora. Isso significa o seguinte: num país que tem a liberalização cambial e financeira que o Brasil tem, as reservas internacionais não significam necessariamente uma blindagem para esse sistema, porque qualquer residente no país pode converter real, ação monetária, em dólar e mandar para fora. Ou seja, a dívida vai ficar exatamente a mesma coisa e as reservas internacionais, em poucas semanas, vão a zero, simplesmente porque pessoas que têm aplicação no fundo de renda fixa, ações, vendem, convertem isso em dólar e mandam para fora. É simples assim. Então, esse argumento é tecnicamente tolo, nenhum economista não adestrado diria que essa proteção elimina o problema da dívida externa. Pelo contrário, a dívida externa continua como um problema gravíssimo para o Brasil.

CC: E qual a profundidade e durabilidade da crise internacional em sua opinião?

RG: O consenso é de que há uma incerteza muito grande. Ela pode constituir um cenário com ‘cheiro de 29 no ar’, ou seja, uma recessão muito profunda; ou, numa visão mais otimista, uma crise profunda, onde as políticas monetária e fiscal do governo americano serão suficientemente eficientes a ponto de frearem a recessão dos EUA; ou mesmo não haver uma depressão e sim uma recessão moderada. Independentemente de uma ação mais realista, pessimista ou otimista, o fato é que há um consenso de que o mundo em 2008 não será tão favorável ao Brasil quanto foi em 2007, 2006, 2005, 2004. Ou seja, o futuro previsível desse 2008-09 será bem menos favorável, na melhor das hipóteses, havendo a possibilidade de ser um quadro muito desfavorável.

CC: E o Brasil não está mesmo preparado para essa crise, a blindagem parece ser frágil.

RG: Eu vejo que a blindagem do Brasil é de papel crepom, ou seja, é uma blindagem muito frágil, porque o Brasil tem uma abertura financeira e uma liberalização cambial que deixam o país extraordinariamente vulnerável frente à conjuntura internacional. Então, como uma crise hoje pode ser muito mais profunda do que a crise de 2002, 2001, o Brasil de fato tem uma blindagem de papel crepom. Eu acho que o fato de não terem se alterado os pilares da economia brasileira deixa o país muito vulnerável. O argumento tolo que o Brasil fundamenta hoje é o mesmo de 2002, 2001, 1999, 1998, 1997, 1995… Os fundamentos estavam corretos, mas o Brasil entrou em crise cambial. Portanto, os fundamentos não estão corretos; o Brasil continua com problemas fiscais, monetários, problemas do lado real gravíssimos. E a vulnerabilidade continua. Ou seja, o Brasil não está blindado. Se vier uma tempestade séria, uma crise internacional mais forte, o Brasil vai ficar nu, vai ter uma crise econômica grave.

CC: E, levando-se em conta esse cenário, o discurso do governo em relação ao tema parece ser um falso discurso.

RG: O governo Lula está fazendo o mesmo discurso que o Fernando Henrique fez ao longo do outro governo. E sempre que mudou a conjuntura internacional houve uma crise. Como as políticas econômicas do Lula são exatamente as mesmas do Fernando Henrique, a única diferença é que mudou a conjuntura e melhorou a situação do ponto de vista, digamos, dos indicadores de vulnerabilidade externa conjuntural. Mas é só mudar a conjuntura que a situação retorna com aquela mescla de tragédia e farsa que nós observamos no governo FH. Reproduzir-se-á o mesmo no governo Lula, porque os pilares da estratégia, da política econômica, são exatamente os mesmos e a liberalização cambial e financeira no governo Lula é até maior.

CC: Quais serão algumas das conseqüências mais imediatas da crise no Brasil?

RG: Se vier uma crise profunda, o governo volta a aumentar as taxas de juros. Na realidade, já houve aumento, pois os americanos baixaram as taxas de juros internacionais e o Brasil não alterou sua taxa de juros; portanto, o cupom cambial aumentou, a margem de arbitragem aumentou. O que vai acontecer é que o governo vai usar o instrumento ortodoxo dos juros altos, arrocho fiscal, segurar salário. E isso tem efeitos negativos sobre investimentos, economias, contratos, e já aparece hoje. Tudo que foi divulgado pelo Banco Central, um relatório atual, nessa última semana de fevereiro, mostra claramente que, para 2008-09, as previsões são de uma desaceleração da economia.

CC: Em sua opinião, quais serão os países mais afetados pela crise?

RG: Certamente o Brasil, alguns países da Europa Central que abriram muito suas economias e outros países da América Latina que não fizeram as proteções necessárias. O México é um candidato natural, o Brasil é outro; Ucrânia, Turquia também estão na lista. São países que, de uma forma ou de outra, continuam com uma liberalização financeira e cambial forte, o que os torna muito vulneráveis.

CC: E dentro do Brasil, quem serão os maiores afetados?

RG: Com os juros altos, arrocho fiscal, restrição de crédito, certamente a classe trabalhadora. Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado.

CC: Como o Brasil poderia se proteger dessa crise?

RG: Basicamente mudando os pilares da política macroeconômica. Essa política de meta inflacionária é muito rígida. É uma orientação do Lula que torna muito rígida a política monetária. Então, em primeiro lugar, é preciso eliminar a meta inflacionária rígida. Em segundo lugar, eliminar o mega-superávit fiscal. Em terceiro lugar, acabar com o regime de câmbios flutuantes. E, por último, o fundamental é acabar com essa liberalização financeira e cambial, incompatível com a fragilidade da economia brasileira.

CC: Então o senhor, apesar de tudo, enxerga saídas e recursos para o país superar a crise. Há alguma possibilidade de o governo adotá-los?

RG: Há sempre alternativas. O que existe é uma escolha do governo Lula de manter a estratégia do governo Fernando Henrique e, portanto, manter o Brasil com uma vulnerabilidade externa estrutural muito elevada. Eu diria até que a vulnerabilidade externa estrutural do Brasil de hoje é maior que a do Brasil de cinco anos atrás.

CC: E não há mesmo chance alguma de existir um descolamento em favor do Brasil?

RG: Não, pelo contrário, não há descolamento nenhum. A crise vai pegar o Brasil pela proa. Vai pegar o Brasil porque o país continua com elevado grau de vulnerabilidade externa, ou seja, uma baixa capacidade de resistir a pressões e fatores desestabilizadores que vierem de fora. Não tenho a menor dúvida. A própria interrupção do processo de queda das taxas de juros do governo Lula e a própria idéia de aumentar impostos têm a ver com essa preocupação com a conjuntura internacional.

Correio da Cidadania

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Reservas externas são mito face à liberalização cambial e financeira

Gabriel Brito

26-Fev-2008

Em entrevista ao Correio da Cidadania, o economista Ricardo Gonçalves criticou abertamente as posturas do governo brasileiro diante da crise, rebateu a tese de não existir mais dívida externa e mostrou-se preocupado com o futuro do país a curto prazo.

Também professor da UFRJ, Reinaldo explicou por que o Brasil deverá estar sob forte dependência dos EUA, ainda que indireta, o que já deixaria o país atado às conseqüências da crise internacional da mesma forma que os demais.

De acordo com ele, as atuais política e estratégia econômicas do governo Lula favorecem ao mesmo grupo de sempre, enquanto que a classe trabalhadora sofreria as conseqüências mais dolorosas dessa nova recessão que se avizinha. "Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado", afirmou, não sem antes desqualificar os argumentos de segurança financeira, supostamente garantida por nossas reservas internacionais.

Sem ser apocalíptico, mas sem se distanciar da realidade das decisões governamentais, Reinaldo acredita e enumera soluções que poderiam desvincular o Brasil da recessão mundial, porém não as vê palpáveis no cenário atual. Algo compreensível em quem enxerga no presidente Lula alguém que apenas dá prosseguimento às mesmas políticas econômicas da gestão anterior.

Correio da Cidadania: O Brasil diz agora que não existe dívida externa. Porém, temos a interna. Como o senhor vê isso?

Reinaldo Gonçalves: Primeiro lugar: o Brasil tem um alto grau de vulnerabilidade externa, sua capacidade de resistir a pressões, fatores de desestabilização, continua muito limitada. O país tem um dos maiores riscos do mundo. Os indicadores disso, o chamado ‘spread’, aumentaram muito nos últimos meses. Esse é um aspecto importante. Segundo aspecto importante é que o Brasil do ano passado teve uma regressão das contas externas, dos fluxos; nós tínhamos um superávit e nesse ano vamos ter um déficit, ou seja, estamos dependendo cada vez mais dos fundos de capitais internacionais. Terceiro lugar: nossa balança comercial apresentou um resultado de 40 bilhões de reais no ano passado. Para esse ano há uma projeção de queda. A tendência é que ao longo dos próximos anos a situação se fragilize. Todo mundo sabe disso. Quando nós olhamos pelo ponto de vista dos capitais, o Brasil, com a taxa de juros muito alta, é cada vez mais o foco para o capital especulativo de curto prazo. Isso faz com que o Brasil fique muito sujeito a ataques não só no mercado de capitais, na bolsa de valores, mas também nas aplicações.

O que o governo tem defendido são dois argumentos equivocados. O primeiro tem a ver com a questão das exportações para os Estados Unidos. O argumento é que dependemos menos do mercado americano do que em anos atrás. Na verdade, caiu de cerca de 22% a participação dos EUA em nossas exportações para cerca de 17%. Esse argumento é equivocado por uma razão muito óbvia, muito banal: há outros países mais importantes para a gente, que é o caso do México, do Chile, da China. Qual é o problema? Esses países são altamente dependentes dos EUA, em alguns inclusive a dependência aumentou . Então, indiretamente, nós continuamos muito dependentes dos Estados Unidos. Nós exportamos menos para eles, mas exportamos mais para a China, que exporta para os EUA. Na verdade, a China depende dos EUA, e aí, como nós dependemos demais da China, passamos também a depender mais dos EUA. Então o Brasil, que era um vagão de segunda classe, virou um vagão de terceira classe. Outro aspecto importante, ainda nessa dependência aos EUA: o grau de abertura da economia aumentou. Para girarmos 100 reais da renda, dependemos mais do mundo que cinco anos atrás. Por causa disso, coisas que acontecem no mundo acabam afetando mais a renda, o emprego, o investimento no país. O argumento dessa blindagem brasileira, olhando nossa relação com os EUA, não é, portanto, verdadeiro, é equivocado por uma questão simplesmente de olhar os efeitos diretos e indiretos com relação aos Estados Unidos.

Segundo argumento que tem sido usado é o de que nossas reservas internacionais são equivalentes à dívida externa. Isso é um erro grosseiro, por uma razão muito simples: o que é nossa dívida externa? É toda a renda que nós temos, os brasileiros, e que está denominada em dólar. O Banco Central argumenta que temos reservas hoje de 190 bilhões de dólares e uma dívida externa de 190 bilhões de dólares. E com isso você paga a dívida externa e ela fica zerada. Só que esse é um erro muito grosseiro, porque na realidade qualquer pessoa no Brasil, seja brasileiro ou estrangeiro, que não tem nenhuma dívida externa, pode ganhar na mega-sena, pegar seu dinheiro, vender o apartamento, carro, sua empresa, pode tirar dinheiro do seu fundo de renda fixa, vender ações… Pode pegar esse dinheiro, converter, comprar dólar e mandar para fora. Isso significa o seguinte: num país que tem a liberalização cambial e financeira que o Brasil tem, as reservas internacionais não significam necessariamente uma blindagem para esse sistema, porque qualquer residente no país pode converter real, ação monetária, em dólar e mandar para fora. Ou seja, a dívida vai ficar exatamente a mesma coisa e as reservas internacionais, em poucas semanas, vão a zero, simplesmente porque pessoas que têm aplicação no fundo de renda fixa, ações, vendem, convertem isso em dólar e mandam para fora. É simples assim. Então, esse argumento é tecnicamente tolo, nenhum economista não adestrado diria que essa proteção elimina o problema da dívida externa. Pelo contrário, a dívida externa continua como um problema gravíssimo para o Brasil.

CC: E qual a profundidade e durabilidade da crise internacional em sua opinião?

RG: O consenso é de que há uma incerteza muito grande. Ela pode constituir um cenário com ‘cheiro de 29 no ar’, ou seja, uma recessão muito profunda; ou, numa visão mais otimista, uma crise profunda, onde as políticas monetária e fiscal do governo americano serão suficientemente eficientes a ponto de frearem a recessão dos EUA; ou mesmo não haver uma depressão e sim uma recessão moderada. Independentemente de uma ação mais realista, pessimista ou otimista, o fato é que há um consenso de que o mundo em 2008 não será tão favorável ao Brasil quanto foi em 2007, 2006, 2005, 2004. Ou seja, o futuro previsível desse 2008-09 será bem menos favorável, na melhor das hipóteses, havendo a possibilidade de ser um quadro muito desfavorável.

CC: E o Brasil não está mesmo preparado para essa crise, a blindagem parece ser frágil.

RG: Eu vejo que a blindagem do Brasil é de papel crepom, ou seja, é uma blindagem muito frágil, porque o Brasil tem uma abertura financeira e uma liberalização cambial que deixam o país extraordinariamente vulnerável frente à conjuntura internacional. Então, como uma crise hoje pode ser muito mais profunda do que a crise de 2002, 2001, o Brasil de fato tem uma blindagem de papel crepom. Eu acho que o fato de não terem se alterado os pilares da economia brasileira deixa o país muito vulnerável. O argumento tolo que o Brasil fundamenta hoje é o mesmo de 2002, 2001, 1999, 1998, 1997, 1995… Os fundamentos estavam corretos, mas o Brasil entrou em crise cambial. Portanto, os fundamentos não estão corretos; o Brasil continua com problemas fiscais, monetários, problemas do lado real gravíssimos. E a vulnerabilidade continua. Ou seja, o Brasil não está blindado. Se vier uma tempestade séria, uma crise internacional mais forte, o Brasil vai ficar nu, vai ter uma crise econômica grave.

CC: E, levando-se em conta esse cenário, o discurso do governo em relação ao tema parece ser um falso discurso.

RG: O governo Lula está fazendo o mesmo discurso que o Fernando Henrique fez ao longo do outro governo. E sempre que mudou a conjuntura internacional houve uma crise. Como as políticas econômicas do Lula são exatamente as mesmas do Fernando Henrique, a única diferença é que mudou a conjuntura e melhorou a situação do ponto de vista, digamos, dos indicadores de vulnerabilidade externa conjuntural. Mas é só mudar a conjuntura que a situação retorna com aquela mescla de tragédia e farsa que nós observamos no governo FH. Reproduzir-se-á o mesmo no governo Lula, porque os pilares da estratégia, da política econômica, são exatamente os mesmos e a liberalização cambial e financeira no governo Lula é até maior.

CC: Quais serão algumas das conseqüências mais imediatas da crise no Brasil?

RG: Se vier uma crise profunda, o governo volta a aumentar as taxas de juros. Na realidade, já houve aumento, pois os americanos baixaram as taxas de juros internacionais e o Brasil não alterou sua taxa de juros; portanto, o cupom cambial aumentou, a margem de arbitragem aumentou. O que vai acontecer é que o governo vai usar o instrumento ortodoxo dos juros altos, arrocho fiscal, segurar salário. E isso tem efeitos negativos sobre investimentos, economias, contratos, e já aparece hoje. Tudo que foi divulgado pelo Banco Central, um relatório atual, nessa última semana de fevereiro, mostra claramente que, para 2008-09, as previsões são de uma desaceleração da economia.

CC: Em sua opinião, quais serão os países mais afetados pela crise?

RG: Certamente o Brasil, alguns países da Europa Central que abriram muito suas economias e outros países da América Latina que não fizeram as proteções necessárias. O México é um candidato natural, o Brasil é outro; Ucrânia, Turquia também estão na lista. São países que, de uma forma ou de outra, continuam com uma liberalização financeira e cambial forte, o que os torna muito vulneráveis.

CC: E dentro do Brasil, quem serão os maiores afetados?

RG: Com os juros altos, arrocho fiscal, restrição de crédito, certamente a classe trabalhadora. Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado.

CC: Como o Brasil poderia se proteger dessa crise?

RG: Basicamente mudando os pilares da política macroeconômica. Essa política de meta inflacionária é muito rígida. É uma orientação do Lula que torna muito rígida a política monetária. Então, em primeiro lugar, é preciso eliminar a meta inflacionária rígida. Em segundo lugar, eliminar o mega-superávit fiscal. Em terceiro lugar, acabar com o regime de câmbios flutuantes. E, por último, o fundamental é acabar com essa liberalização financeira e cambial, incompatível com a fragilidade da economia brasileira.

CC: Então o senhor, apesar de tudo, enxerga saídas e recursos para o país superar a crise. Há alguma possibilidade de o governo adotá-los?

RG: Há sempre alternativas. O que existe é uma escolha do governo Lula de manter a estratégia do governo Fernando Henrique e, portanto, manter o Brasil com uma vulnerabilidade externa estrutural muito elevada. Eu diria até que a vulnerabilidade externa estrutural do Brasil de hoje é maior que a do Brasil de cinco anos atrás.

CC: E não há mesmo chance alguma de existir um descolamento em favor do Brasil?

RG: Não, pelo contrário, não há descolamento nenhum. A crise vai pegar o Brasil pela proa. Vai pegar o Brasil porque o país continua com elevado grau de vulnerabilidade externa, ou seja, uma baixa capacidade de resistir a pressões e fatores desestabilizadores que vierem de fora. Não tenho a menor dúvida. A própria interrupção do processo de queda das taxas de juros do governo Lula e a própria idéia de aumentar impostos têm a ver com essa preocupação com a conjuntura internacional.

Correio da Cidadania

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