A mudança de Obama tem a consistência da bolha das empresas pontocom
A ascensão do democrata Barack Obama significa uma vitória alarmante de estilo sobre substância. Como a loucura das pontocom, sua campanha promete mais do que pode oferecer. A única coisa que seus eleitores podem ter certeza é que, no fim, ficarão desapontados
Gabor Steingart
O pré-candidato democrata presidencial Barack Obama faz muitos pensarem no ex-presidente John F. Kennedy ou no líder de direitos civis Martin Luther King. Mas quando eu o ouço falar, ele me remete à loucura da Nova Economia.
Era uma época mágica, até para os executivos mais “pé no chão”. Por vários anos, promessas incríveis pareciam ser a moeda mais valiosa em circulação. Lucros? Sem problemas! Experiência? Não precisa! Realismo? É mais um obstáculo do que qualquer coisa. Alguns empresários sem dúvida tinham modelos realistas e talento administrativo, mas a maior parte estava simplesmente vendendo idéias.
A produção econômica mundial cresceu 80% em termos reais entre 1980 e 2000. Mas o valor das ações aumentou cerca de 1.000% no mesmo período. O mercado atingiu seu zênite no dia 10 de março de 2000, e então a bolha estourou. Subitamente, as empresas de bilhões de dólares listadas no Nasdaq desinflaram como suflês frios. Bernie Ebbers, ex-diretor da Worldcom e um dos astros na nova economia, não aparece mais no Larry King Live. Em vez disso, ele está atualmente cumprindo pena em Louisiana por fraude e conspiração.
O futuro é um bem fortemente negociado na campanha presidencial dos EUA em 2008. Os eleitores estão esfomeados por mudança e por um distanciamento radical de um presente que agora percebem como medíocre, especialmente depois de sete anos magros sob o atual presidente, George W. Bush. Um homem como Barack Obama sabe tirar vantagem deste desejo. Ele fala frases bonitas que massageiam a alma, como: “É por nós que estivemos esperando” e “nosso destino não vai ser escrito para nós, mas por nós”.
Em suas aparições de campanha, Obama e seus adoradores jogam seu lema de campanha, “sim, podemos”, de um lado para o outro até o salão ficar frenético. Seus eventos lembram as trocas nos cultos de domingo entre um pastor animado e sua congregação entusiasta, exceto que as multidões de Obama são ainda mais efervescentes.
Quem consegue enxergar através da retórica do candidato de 46 anos, entretanto, tem uma sensação de dúvida crescente -dúvida que Obama facilmente consegue reprimir em seu próximo discurso, ou no outro. O sucesso do senador nas primárias também tem um efeito intoxicante. Obama se define como um novo tipo de político, alguém que se recusa a ser julgado pelos antigos padrões.
A retórica também soa estranhamente familiar. Nos tempos da Nova Economia, a análise tradicional do valor das ações, baseada em seus fundamentos -indicadores econômicos cruciais como lucro, vendas e número de funcionários- subitamente se tornou coisa do passado e foi substituída pelo método chamado de momentum. A empresa passava a ser vista como um bom negócio se sua ação aumentasse e um excelente negócio se suas ações aumentassem rapidamente. O provérbio do dia? Eu cresço, portanto, eu sou. Bernie Ebbers era considerado um bom administrador. O preço das ações de sua empresa subiu de menos de US$ 5 (cerca de R$10) nos primeiros dias para uma alta de US$ 62 (em torno de R$ 124) em 1999. Ebbers estava nas alturas. Ele tinha momentum.
O jovem vendedor de idéias de Chicago está vivenciando o mesmo impulso, enquanto corre de um sucesso eleitoral ao próximo. O sucesso alimenta o sucesso. Obama também tem momentum.
As minas terrestres da política externa
Mesmo assim, se Obama for eleito, eventualmente vai ser forçado a desapontar seus eleitores. A política em uma sociedade democrática é um equilíbrio de interesses, não uma reunião de renascimento. É preciso elegância, experiência e o poder de transformar idéias em realidade. Esperança e otimismo podem reforçar essas qualidades, mas não podem substituí-las. A mensagem de Obama está mais para uma promessa de curar a nação do que para uma plataforma de campanha.
O futuro promissor de Obama parece velado e indistinto. Ele quer mudar as regras do engajamento na política, mas esquece de explicar como e em qual direção. Ele quer escrever uma nova página nos livros de história, mas com qual letra planeja fazê-lo? Ele quer expulsar lobistas, mas se o fizer, quem vai defender os interesses dos sindicalistas, veteranos de guerra e corporações químicas? Ele quer negociar com os ditadores do mundo, mas com que objetivo, exatamente?
De fato, as minas explosivas mais perigosas de Obama estão escondidas na política externa. Uma retirada rápida do Iraque? Parece ótimo. Mas o erro de ter começado essa guerra em primeiro lugar não pode ser corrigido terminando-a em uma correria louca para sair do Iraque. Uma retirada rápida dos militares americanos provavelmente seria seguida por uma guerra civil sangrenta. A Al Qaeda ia conseguir abocanhar o Iraque de uma vez por todas. O Irã ia se regozijar. Osama Bin Laden e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, seriam os verdadeiros vencedores das eleições presidenciais americanas de 2008.
Ainda por cima, Obama, tentando mostrar força, criou um novo teatro para as forças armadas americanas. Ele fala de operações militares no Paquistão, que tem poder nuclear. Ele, como chefe do Estado maior, ia ordenar essas operações mesmo sem a aprovação da ONU. Essa é “a guerra que precisamos vencer”, repete sem parar.
Na realidade, contudo, uma campanha militar no Paquistão seria loucura, apesar de muitos na mídia americana terem decidido cuidadosamente ignorar os comentários de Obama. Uma comparação com o presidente John F. Kennedy, que tinha 43 anos quando foi eleito, revela que Kennedy de fato não queria entrar em guerra no Vietnã. Foi uma guerra para a qual o presidente inexperiente escorregou; se foi um presidente de guerra, foi por acidente, não por projeto.
No entanto, não há espaço para considerações no mundo turbulento da obamamania. Hillary Clinton, sua rival na luta pela nomeação democrata, sofre dos mesmos problemas que tiveram as empresas tradicionais da indústria automotiva e de engenharia quando confrontadas com a febre da Nova Economia. Ela perdeu o contato com seus defensores. Ela usa palavras para explicar, enquanto Obama usa retórica para intoxicar. Ela diz aos eleitores o que está trazendo à mesa. Ele diz a eles o que podem se tornar. Se Clinton é uma ação firme, Obama é uma opção. Se ela é um investimento seguro, ele é especulação.
Quando a Nova Economia atingiu sua conclusão, as pessoas subitamente entenderam que suas esperanças caíram por terra e seus desejos por fortunas rápidas não foram satisfeitos. Em 2002, o preço da ação da Worldcom caiu para menos de US$ 0,10 (cerca de R$ 0,20).
Se a democracia funcionar pelo menos um pouco como a economia de mercado, a bolha de Obama vai estourar. A questão é: quando? Acontecerá antes da nomeação democrata em agosto -ou só depois?
Der Spiegel
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