Liberdade para o topo do mundo
Encravado nas encostas do Himalaia, o Tibete sofre com a dominação de potências estrangeiras desde o século XIII. Há quase 100 anos, luta contra a supremacia chinesa sobre seu território
Charles Meyer
O país das neves eternas, abençoado pelos deuses. É assim que os tibetanos vêem sua terra natal. Situado no Himalaia, entre a China e a Índia, o Tibete entrou na história oficial apenas no início do século VII, quando se tornou um reino poderoso, que estendeu seu domínio desde a Alta Birmânia até o Turquistão. Um século depois, o budismo invadiu suas fronteiras e mudou para sempre a região. A conversão em massa acalmou os ardorosos guerreiros e grandes monastérios espalharam-se por seu território.
A partir daí, a trajetória desse pequeno reino encravado nas montanhas oscilou entre a dominação e a liberdade. No século XIII, foi conquistado pelos mongóis sob o comando de Gêngis Khan. Duzentos anos depois, livre da supremacia estrangeira, o poder passou aos dalai-lamas (ver glossário). Mas, no século XVIII, os imperadores chineses da dinastia Manchu anexaram o território tibetano e transformaram-no em província, mantendo dois ministros permanentemente encarregados de vigiar e controlar o governo local. Além disso, a China instalou lá uma força armada de 3 mil homens – mil em Lhasa, mil em Xigatse e mil nas fronteiras. O Tibete tornou-se assim um protetorado chinês, sob a autoridade de fachada do dalai-lama.
No século XIX, o país recuperou boa parte de sua independência quando a China enfrentou as intervenções armadas de potências européias e do Japão, que começaram a despedaçar o império dos Qing. No início do século XX, o problema do Tibete passou a ser a Grã-Bretanha: senhores das Índias, os ingleses desejavam o planalto tibetano, cobiçado também pelos russos engajados no Turquistão. Em 1904, a capital Lhasa foi ocupada por tropas britânicas que forçaram o governo a aceitar um tratado comercial com a Índia, já aceito pela China. O coronel Younghusband estava no comando e assim permaneceu até 1908, com uma centena de soldados britânicos e milhares de mercenários nativos, além de 10 mil carregadores e 30 mil animais de carga sob suas ordens.
Dois anos depois, um acordo anglo-chinês reconheceu a soberania da China sobre o Tibete, que imediatamente vivenciou um levante popular. Os chineses determinaram o restabelecimento da ordem a qualquer custo e designaram o comissário imperial Shao Erfeng para a missão. Com pulso de ferro, ele recebeu o apelido de “matador de lamas” depois de ter cumprido sua tarefa com precisão.
Para escapar dos ingleses e dos chineses, o 13o dalai-lama refugiou-se na Índia. Em 1911, com a proclamação da República da China, o líder voltou a Lhasa e declarou que se sentia libertado dos laços de submissão que ligavam seu país ao império deposto. Mas, em resposta, o governo de Pequim rapidamente disse que o Tibete ainda integrava seu território.
MINORIA ÉTNICA
Até 1932 a paz foi relativa. Mesmo com as querelas internas da China, entre os tibetanos não havia a impressão de que o compromisso dos dois países duraria muito. Porém, em 1927, o Tibete central foi proibido aos estrangeiros e conservou suas estruturas medievais e teocráticas durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e até o fim da guerra civil entre nacionalistas e comunistas (1927 a 1949).
Nesse interím, em 1935, o 14o e atual dalai-lama foi escolhido e levado ao trono aos 6 anos, conforme a tradição. A ascensão de Mao Tse-tung em 1949 iria transformar esse quadro: em outubro de 1950, o exército chinês ocupou o país. Um acordo de “libertação pacífica” com 17 pontos, assinado em Pequim em 23 de maio de 1951, incorporou o Tibete à República Popular da China como uma “minoria étnica gozando de autonomia interna”. O texto assegurava que as autoridades centrais não modificariam o sistema político existente no Tibete, “tampouco as funções e os plenos poderes existentes do dalai-lama”. Além disso, “os funcionários das diversas categorias” permaneceriam “em seus postos”. E reafirmava a liberdade de crenças e a proteção dos monastérios, “no respeito às tradições existentes”. A Índia aprovou, o dalai-lama ratificou.
O novo regime de força instalado em Pequim, no entanto, pretendia impor sobre o Tibete o peso da autoridade, como todos os seus predecessores. Para a maioria dos tibetanos, monges ou laicos, a retomada do controle chinês ainda parecia uma espécie de fatalidade histórica e periódica, que não afetava muito sua vida cotidiana. Cinco anos depois, ficou evidente que a tutela política implicaria a integração dos tibetanos à nova sociedade comunista, para a qual ninguém os havia preparado, e a implementação de uma “modernização” que não fazia sentido para eles. A intromissão chinesa na vida econômica, social e cultural, as pressões sobre o dalai-lama e seu governo e a formação ideológica forçada da juventude também colaboraram para suscitar revoltas locais.
Em 1956, o exército cercou e bombardeou o monastério de Litang. Em 1958, os khampas, população de formação guerreira que habita a região do Khan, no leste, foram finalmente submetidos ao domínio estrangeiro, enquanto a tensão aumentava no sul. Nesse quadro de ebulição, o governo tibetano denunciou o acordo forçado de 1951 e foi imediatamente substituído por um “comitê preparatório para a região autônoma do Tibete”, que engajaria o país “na edificação do socialismo”, impondo de forma autoritária medidas incompreensíveis e insuportáveis para a maioria dos tibetanos. Mao Tse-tung reconheceu que eles “eram teimosos e não tinham nenhuma tendência a mudar suas idéias”. O alto clero budista, seguido por dezenas de milhares de monges, formou uma resistência passiva às transformações da sociedade tradicional e até à abolição da servidão.
Em 17 de março de 1959, o dalai-lama se refugiou entre os indianos, e dois dias depois, Lhasa foi tomada por uma insurreição. O levante seria derrotado em 72 horas pelo exército chinês, que bombardeou os palácios de Potala e Norbulinka. Os combates fizeram milhares de vítimas. Mais de 20 mil monges e laicos refugiaram-se na Índia e no Nepal. Chamada a responder pela “questão tibeteana”, a ONU (Organização das Nações Unidas) contornou o fato com uma resolução embaraçosa. No final de 1960, o exército chinês investiu sobre o grande monastério de Tashi Lhunpo, fundado em 1429, expulsando de lá seus 4 mil monges.
Quatro anos depois, o Tibete iniciaria uma longa agonia de 10 anos pela revolução cultural que agitava a China. Seus cultos foram proibidos e 2 mil monastérios e templos lamaístas, repletos de tesouros artísticos e grandiosas bibliotecas, foram saqueados. Os monges e os fiéis, perseguidos, tiveram de enfrentar o trabalho forçado no campo e muitos faleceram.
Em 1965, o governo central conferiu ao Tibete o estatuto de “região autônoma do Xizang” e declarou, mais uma vez, que ele seria para sempre “uma parte inalienável da China”. O termo se endereçava ao mundo chinês com o objetivo de reafirmar a unidade, e aos tibetanos, para adverti-los contra qualquer tentativa de independência.
A morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, colocou um ponto final na revolução cultural. Entretanto, seria necessário esperar ainda cinco anos para que os dirigentes chineses tecessem um relatório dos méritos e dos erros do “Grande Timoneiro”, que “estava fora da realidade, confundindo o que era e o que não era justo…”, cujo “comportamento subjetivo e autoritário tinha se acentuado com a idade”. O governo central restabeleceria a liberdade dos cultos e da educação tradicional, restituindo aos camponeses os bens e os direitos que lhes foram confiscados. O panchen-lama, que havia passado nove anos e oito meses nos cárceres chineses, voltou às suas funções. Houve também tentativas de reaproximação com o dalai-lama e os exilados, convidados a voltar ao Tibete. Entre 1979 e 1987, cerca de 40 emissários enviados de Dharamsala – o vilarejo indiano onde o governo refugiado do Tibete está instalado –foram a Pequim, mas as negociações não resultaram num acordo.
As pequenas possibilidades de entendimento terminaram nos dias 27 de setembro e 1o de outubro de 1987, quando manifestações de jovens lamas que reclamavam a independência se transformaran em motim, reprimido com um banho de sangue. Um pouco antes, o dalai-lama havia elaborado o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete, um projeto para a pacificação da região que foi apresentado oficialmente no Congresso dos Estados Unidos. Da proposta constava a transformação de todo o Tibete em uma zona de paz; a cessação da política chinesa de transferência de população, considerada uma ameaça a existência dos tibetanos como povo; o respeito pelos direitos humanos fundamentais dos tibetanos, bem como de suas liberdades democráticas; a restauração e proteção do ambiente natural tibetano e abandono do uso de seu território para produção de armas nucleares para a China; e o início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibete e das relações entre os povos chinês e tibetano. Porém, o governo chinês nunca deu uma resposta sobre o documento.
LEI MARCIAL
A efervescência voltaria no ano seguinte. Antes de sua morte, em janeiro de 1989, o panchen-lama enviou uma advertência ao governo central em que alertava para a dificuldade de encontrar uma solução caso a força continuasse sendo utilizada. Mas, em 5 de março, foi proclamada a lei marcial, que vigorou até 1o de maio de 1990.
Quase duas décadas se passaram e agora a situação é muito mais perversa: em vez da anexação pela força, o Tibete sofre com a pressão econômica. Há 30 anos, os chineses introduziram no país um modelo de desenvolvimento irreversível em comunicações – 21 mil km de estradas, rotas aéreas, televisão –, educação e saúde pública, o que modificou profundamente essa sociedade. Resta aos próprios tibetanos a sabedoria para conciliar a modernidade emergente e a conservação de seus valores culturais, que fazem parte do patrimônio da humanidade – sem intervenções exteriores “bem-intencionadas”.
CRONOLOGIA
127 a.C.
Ascensão da dinastia militar que reinará no Tibete por oito séculos
617 d.C.
O imperador Songtsen Gampo, 33o rei do Tibete, cria o alfabeto, estabelece o sistema legal e colabora com a expansão do budismo, construindo vários templos
755
Durante o reinado de Trisong Detsen (755 a 797), o budismo é estabelecido como religião oficial. Desenvolvem-se estudos em matemática, medicina, política, arquitetura e poesia
Século XIII
O Tibete é incorporado ao Império Mongol
1355
Nasce Tsongkhapa, um dos grandes reformadores do budismo tibetano e fundador da escola Gelug, de onde surgirão os dalai-lamas
1419
A morte de Tsongkhapa marca uma grande rivalidade entre as escolas budistas do Tibete. Segue-se então um período de lutas pelo poder entre as famílias nobres de Ü e Tsang, e a dinastia Ming (1368-1644), que reinava na China, toma territórios tibetanos nas fronteiras
1790
Guerra contra o Nepal
1904
Ingleses ocupam Lhasa e forçam o governo tibetano a aceitar o tratado comercial com a Índia. Tubten Gyatso, 13o dalai-lama parte para o refúgio e volta apenas cinco anos depois
1910
Tropas chinesas ocupam Lhasa
1937
O 14o dalai-lama é descoberto
1949
É fundada a República Popular da China
1951
O governo chinês impõe o Acordo pela Libertação Pacífica do Tibete
1959
Milhares de pessoas protestam contra a invasão chinesa. O dalai-lama foge para a Índia, onde pede asilo político
1987
O dalai-lama propõe o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete
1989
Declarada lei marcial no Tibete
1995
O menino tibetano Gedün Chökyi Nyima é reconhecido como o 11o panchen-lama. O governo chinês seqüestra Gedün por “motivos de segurança”, tornando-o o prisioneiro político mais jovem do mundo, segundo a Anistia Internacional
FONTE: COMITÊ BRASILEIRO DE APOIO AO TIBETE
MIAMAR: UM ENCONTRO COMPLEXO
Bem próximo ao Tibete, outro país vivencia a resistência pacífica dos monges budistas contra um regime autoritário: Mianmar. O território, antes conhecido como Birmânia, ganhou as páginas dos jornais no segundo semestre de 2007, quando religiosos saíram às ruas para reivindicar o fim da repressão militar que já dura duas décadas. Na ocasião, o dalai-lama divulgou uma nota em apoio aos manifestantes em que, “na qualidade de monge budista”, pedia “aos membros do regime militar que acreditam no budismo que atuassem com espírito de compaixão e não-violência”.
Os protestos começaram em repúdio ao aumento do preço dos combustíveis, imposto pelo governo. O transporte coletivo e os gêneros de primeira necesidade ficaram mais caros, o que provocou um impacto muito forte na vida cotidiana. Depois dos primeiros dias de levante, a pauta foi expandida e os manifestantes passaram a exigir a redemocratização do país. Antes disso, a última manifestação pró-democracia havia sido realizada em agosto de 1988 e foi duramente reprimida, deixando mais de 3 mil mortos. Desta vez, centenas de pessoas foram presas e feridas. Há também registros de assassinatos cometidos pelas tropas governamentais.
Os monges foram essenciais para que o levante crescesse. Em Mianmar, cerca de 90% da população é budista, e os religiosos exercem, muitas vezes, o papel de líderes comunitários. A sua influência política já é antiga, remonta à ocupação britânica no final do século XIX, quando os monges adotaram uma postura de conflito com os estrangeiros, inicialmente pela recusa deles em retirar os sapatos ao entrar nos templos budistas, sinônimo de desrespeito à religião. Além dos britânicos, os mongóis e os japoneses ocuparam o país, em uma história que esbarra na do Tibete. (Da redação)
GLOSSÁRIO
DALAI -LAMA: líder político e religioso do Tibete, é um monge formado pela escola Gelug e reconhecido por todas as escolas do budismo tibetano. “Dalai” significa oceano, em mongol, e “lama” é a palavra tibetana para mestre, guru. “Oceano de Sabedoria” é o título dado pelo regime mongoliano à Altan Khan, o terceiro dalai-lama, e agora aplicado a cada encarnação na sua linhagem. Qualificados de “preciosos soberanos”, são reconhecidos como reencarnações de Avalokistesvara, o Sábio da Compaixão. O atual e 14o dalai-lama é Tenzin Gyatso.
PANCHEN-LAMA: reencarnações de Amintabha, o Buda da Luz Infinita. No século XVII tornam-se conselheiros espirituais dos dalai-lamas.
História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 450.
Vieira disse,
29 de Fevereiro de 2008 @ 16h 04m
Viva Ricardo Alves!
Estou a gostar bastante dos temas que vou lendo no seu sítio e também quero retribuir as agradáveis palavras que me dirigiu por e-mail.
Vamos em frente porque realmente o mundo precisa de atender às aspirações mais genuinas para se chegar a uma verdadeira democracia.
Se fôr do seu agrado, pode colar vídeos meus no seu site:
http://br.youtube.com/taveiras
http://aboimdanobrega.blogspot.com/
http://formiguinhademarco.blogspot.com/
Um abraço lusitano,
Félix Vieira