O estratégico Oriente Médio

Lejeune Mirhan

Em linguagem econômica, a região do Oriente Médio produz uma das commodities mais estratégicas no planeta hoje, ainda que não renovável: o petróleo, commoditie que atinge a marca astronômica dos US$100.00 por barril.

MohamedAbou[1]

Há um debate entre cientistas e pesquisadores sobre por quanto tempo ainda o petróleo vai durar para abastecer o mundo. Se por dez mil anos seguidos a humanidade consumiu uma média diária de 20 Watts de energia (equivalente a uma lâmpada de árvore de natal ligada por 24h seguidas), e hoje consome cem vezes mais, isso se deve à descoberta da exploração do petróleo a partir de 1859 por Edwin Drake, nos Estados Unidos, num campo da Pensilvânia.

Alguns falam que as reservas mundiais dariam para 40 anos, outros para os próximos 75, e alguns ainda mencionam que durante o século XXI inteiro não haverá problema de falta de petróleo no mundo. Independente da verdade dessas afirmações, o que queremos demonstrar aqui é o potencial estratégico das reservas petrolíferas do Oriente Médio, particularmente dos países árabes (excluídas as reservas do Irã, país persa).

Os números podem variar de fonte para fonte, mas em números redondos, é seguro que todas as reservas dos países árabes significam hoje 60% de todas as reservas mundiais, estimadas num total de um trilhão de barris (nosso Brasil, nesse cenário, antes das descobertas dos campos gigantes, estava na faixa de no máximo 1% das reservas mundiais provadas). Os países árabes têm, portanto, pelo menos 600 bilhões de barris provados e em exploração comercial. Pela ordem de grandeza, os seguintes países árabes são produtores e exportadores de petróle/ Arábia Saudita (com 25% de todo o petróleo do planeta), Iraque (11%), Emirados Árabes Unidos (9,3%), Kuwait (9,2%), Líbia (2,8%), Qatar (1,5%), Argélia (0,9%), o que totaliza exatos 59,4% já mencionados.

Os países árabes, ao todo 23, sabem que precisam diversificar seu comércio internacional, exportar e importar produtos além da conta-petróleo. Estão fazendo investimentos em indústria pesada, mas jogam pesado na questão turística. Uma grande força na região. Nos Emirados Árabes, que acabam de inaugurar a primeira linha aérea direta entre Brasil e um país árabe, com seis vôos diários (a empresa aérea é a Fly Emirates, cuja sede fica em Dubai, capital do país), tem o único hotel sete (!) estrelas do mundo, cuja diária no quarto mais barato custa astronômicos mil dólares (algo como R$1,7 mil reais). Esse grande hotel está contratando garçons de vários países, vários deles brasileiros inclusive, para trabalhar (paga-se pouco, a miséria de 400 dólares, menos da metade da diária mais barata).

Como disse um diplomata brasileiro ouvido pelo Estadão, em reportagem alusiva ao potencial comercial dos países árabes com o Brasil: estamos chegando tarde à região. As potências do mundo inteiro sabem disso e lá investem e mantêm relações comerciais intensas. Em contrapartida, os países árabes investem seus petrodólares em negócios, empresas, bancos e indústrias dos países desenvolvidos. O Brasil precisa se preparar – e está se preparando – para receber esses investimentos em dólares originados da riqueza do petróleo da região.

Lula, depois de Dom Pedro II, foi o único chefe de Estado brasileiro a visitar um país árabe e compreender a importância desse comércio bilateral. Tanto que realizou a 1ª Cúpula dos Países árabes com a América do Sul em maio de 2005, em Brasília, após o seu primeiro giro pela região no final de 2004, onde visitou nove países e foi efusivamente recebido.

As exportações do Brasil para os países árabes vêm crescendo a cada ano. Se compararmos 2006 e 2007, veremos um incremento de 12% de crescimento na movimentação de recursos em dólares. Delegações imensas de empresários brasileiros visitam mensalmente os países árabes, participam de feiras para vender seus produtos e vice-versa. Exportamos em 2007 mais de sete bilhões de dólares em produtos de diversas naturezas. Não devemos deixar de lembrar que quando Lula tomou posse, as exportações em 2002 eram de 2,6 bilhões de dólares e hoje quase que triplicaram. Mas têm potencial para crescer ainda mais como avaliam os analistas em comércio exterior e a própria Câmara do Comércio Árabe-Brasileira. A estimativa de crescimento para 2008 é de pelo menos 10%. Isso será ainda mais incrementado com a realização da 2ª Cúpula de Países Árabes e da América do Sul (em país ainda a ser definido). A nossa pauta de exportações é tão diversificada que, segundo dados da Câmara, atingiu em 2007 mais de 2,2 mil produtos diferentes.

O presidente Lula planeja a sua terceira rodada para os países árabes ainda neste ano. E deve levar consigo os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e de Minas Gerais, Aécio Neves, que têm grandes interesses no comércio bilateral. Falta a discussão detalhada das tarifas de importação e exportação, de forma a não prejudicar nenhuma empresa de nenhum setor no Brasil e em algum país árabe. É a política positiva exterior do nosso país, incrementada pelo presidente Lula que, sem desprezar a importância e o comércio bilateral com os países do Norte desenvolvido, passou a olhar mais e com prioridade os países do Sul. É o chamado comércio Sul-Sul, ao qual apoiamos que siga ocorrendo dessa forma e com mais intensidade se possível, para que se desenvolvam mais e mais as nossas economias e que a riqueza produzida possa ser bem distribuída entre as que a produziram, desejo de todos nós.

O Icarabe publicou na edição 135 de sua newsletter o artigo “A política não faz mais heróis”, de Mohammed Salah, uma reflexão sobre a atitude de Mohamed Abu Treika, jogador egípcio que, ao comemorar um gol na Copa Africana das Nações, mostrou uma camisa com os dizeres “Solidarize-se com Gaza”. A foto foi banida do Google. A informação, atribuída ao jornal saudita Al-Watan, é de que Israel pressionou o site de procura a remover todas as imagens do gesto do egípcio. De fato, em Imagens, se digitar “Sympathize with Gaza”, as fotos não aparecerão. Acima, a foto que documentou o momento em que o atleta ergue o uniforme e mostra a mensagem de apoio aos palestinos.

* As fontes de dados deste artigo, editado de publicação original no site www.vermelho.org.br, foram a Câmara de Comércio Árabe-Brasil, http://www.ccab.org.br/site/, e Artigo “Brasil busca petrodólares dos países do Golfo”, publicado no Estadão no dia 6 de fevereiro de 2008, página B6, Economia.

Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association.

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