Arquivo de Março de 2008

Avanço do euro esbarra na Europa

Estudo prevê que reservas superem as em dólar, mas continente, desunido, não ameaça hegemonia dos EUA

União Européia não tem posição comum em temas de política externa, mas economista diz que isso não impede escalada da moeda

MARCELO NINIO

Uma simulação feita por dois economistas americanos acendeu o alerta: em menos de dez anos o euro poderá substituir o dólar como principal moeda internacional. A tendência recebe agora o empurrão da crise mundial iniciada nos EUA, cujo legado pode deixar de ser só econômico para ganhar dimensões geopolíticas.
Ao flexionar em excesso seu músculo militar e aumentar o seu déficit, os EUA teriam embarcado numa rota semelhante à que tomou o império britânico até a libra esterlina ser superada pelo dólar como moeda predominante nas reservas mundiais, em 1945.
Os autores da simulação, Jeffrey Frankel, de Harvard, e Menzie Chinn, da Universidade de Winsconsin, dizem que 25 anos de déficit em conta corrente nos EUA e mais de 30 de desvalorização do dólar ajudaram a corroer a hegemonia da moeda americana. Mas observam que isso não basta para provocar a mudança que vislumbram no sistema.
“O mais importante é que agora existe um rival confiável para liderar as reservas de câmbio, o euro, que tem muitas das características desejadas de uma moeda internacional”, afirma o estudo.
Na Europa, entretanto, as notícias da morte do dólar são consideradas um exagero. Quase dez anos depois de sua entrada em circulação, o euro é forte como moeda, mas fraco como símbolo político, e isso é visto como o maior empecilho para que a projeção de Frankel e Chinn se torne realidade.
“O problema central é que não há um governo europeu por trás do euro, e provavelmente não haverá”, diz Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos de Políticas Européias, em Bruxelas, afirmando que falta representatividade para a moeda comum européia ter peso. “O euro nem sequer tem um representante nas instituições financeiras internacionais.”
Essa carência é reflexo de uma disfunção estrutural que costuma paralisar o processo decisório da União Européia, sobretudo em assuntos de política externa. Isso ficou claro nas crises internacionais recentes, como a independência de Kosovo e os distúrbios no Tibete, quando o bloco de 27 países mais uma vez rachou.
Essa desunião não invalida a previsão sobre a ascensão do euro, diz um dos autores do estudo. “Ser otimista sobre o euro não significa ser otimista em relação à Europa”, disse Frankel à Folha, por e-mail. “O euro não precisa de uma política externa comum para prosperar.”

Múltipla personalidade
Embora o Tratado de Lisboa, aprovado em dezembro, preveja modificações para corrigir o problema, como a nomeação de um presidente e de um chanceler, a UE ainda sofre o transtorno da múltipla personalidade. O mesmo que levou o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger à famosa pergunta: “Quero telefonar para a Europa, para onde ligo?”
A dúvida que intrigava Kissinger em 1970, quando a integração européia ainda dava seus primeiros passos, com apenas 12 membros, hoje é um desafio que se estendeu à moeda comum, usada por 15 dos 27 membros da UE.
“É hora de discutir o papel político do euro”, diz Paola Subbachi, chefe do Departamento de Economia Internacional do Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres. Ela também acha que o vácuo de autoridade impede que o euro substitua o dólar como moeda global. “Basicamente não há ninguém responsável pelo euro. Certamente esse papel não é do BCE [Banco Central Europeu], cujo mandato se limita a controlar a inflação.”
O ceticismo em relação ao poder do euro parece restrito aos europeus. Em setembro do ano passado o ex-presidente do Fed (banco central dos EUA), Alan Greenspan, deixou claro que a hegemonia da moeda americana já não era tão sólida. Segundo ele, o dólar havia perdido boa parte da vantagem que tinha sobre as demais moedas.
Ainda assim, ela continua confortável. O Fundo Monetário Internacional calcula que 70% das reservas mundiais estejam em dólar, contra 25% em euro. Frankel e Chinn acham que essa proporção pode virar antes de 2015, devido ao desgaste econômico, ao esgotamento militar e à deterioração do sistema financeiro nos EUA.
Se mais países decidissem converter os dólares de suas reservas em euros, isso estimularia a mudança em outras transações financeiras internacionais, apostam os economistas, o que aceleraria o fim da hegemonia da moeda americana.
“Economicamente, os EUA perderiam o privilégio exorbitante que lhe permite dar dólares a estrangeiros em troca de bens, serviços e investimentos”, diz Frankel. “E geopoliticamente o país também perderia poder.”
Para Subbachi, o fortalecimento do euro não significa necessariamente o fim da hegemonia do dólar. “Não vejo euro e dólar em rota de colisão”, diz ela, apontando para uma nova ordem financeira, em que as duas moedas se complementarão. “Estamos caminhando para um sistema de dois pilares.”

Fonte: Folha De S. Paulo Mundo

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Nossa terra amazônica: devastada

Lúcio Flávio Pinto

Em abril de 1982 vieram a Belém o secretário-geral do Programa Grande Carajás, Nestor Jost, e o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Eliezer Batista. Foi para o lançamento de um programa que implantaria um pólo siderúrgico e metalúrgico em torno de Marabá, com base no minério de ferro da serra dos Carajás. Mas, para que as usinas de silício metálico, ferro liga e ferro gusa pudessem funcionar, era preciso oferecer-lhes um novo energético: o carvão. Carvão a ser extraído da floresta.

“Ao invés de destruirmos a floresta com fogo, como tem sido muito comum, vamos usá-la para produzir carvão”, sentenciou o presidente da CVRD, então estatal, e seu principal executivo em todos os tempos — “como se queimar a floresta na produção de carvão vegetal representasse muita vantagem sobre o simples incêndio”, escrevi na ocasião, na minha coluna diária em O Liberal.

Depois de ouvir as exposições dos dois renomados técnicos sobre as fontes de suprimento de carvão vegetal (os babaçuais do Maranhão e o florestamento e reflorestamento no Pará, que substituiria a mata nativa), anotei na coluna:

“Isso significa que na área próxima a Marabá surgirão grandes plantios de espécies exóticas destinadas a se transformarem em carvão. A atual floresta, densa, rica, heterogênea, formada ao longo de séculos, está condenada ao desaparecimento se alguma coisa em contrário não for realizada. Os castanhais, em duas décadas, serão referência museológica.

Antes que os srs. Jost e Batista fizessem suas palestras, os responsáveis pelo programa Carajás já haviam espalhado pelo país dois estudos bem impressos, fartamente ilustrados, sobre a floresta amazônica, de responsabilidade de três técnicos muito conhecidos: Glycon de Paiva (inspirador do Polamazônia, entre muitas façanhas, que incluem o estudo sobre as jazidas de manganês de Serra do Navio, no Amapá), Edson Antônio Balloni e Helládio do Amaral Mello.

Os dois trabalhos procuram demonstrar que a substituição da floresta nativa amazônica por um plantio homogêneo com espécies exóticas é vantajoso e, ecologicamente, um avanço. Para tanto, os autores recorrem a dados defasados, superdimensionando a extensão da cobertura florestal em relação à área total da Amazônia e subdimensionando a produção madeireira da região. Fica a sugestão de que esse acervo botânico é inútil ou ocioso. O raciocínio do trio, com maior sofisticação, é o mesmo dos executivos de Carajás. A floresta de Marabá que se acautele”.

Passados mais de 25 anos, sem acautelamento, a floresta desapareceu ou está desaparecendo. Mas nunca houve uma mobilização igual à que o governo federal, em conjunto com o governo estadual, desencadeou em torno de Tailândia contra os vorazes desmatadores. Quem batizou a cidade, três décadas atrás, pensava em torná-la um centro agropecuário da fronteira, com ocupação ordenada pelo impulsionador dessa frente, o Iterpa, que ali montou um núcleo pioneiro para a colonização oficial dirigida. Mas acabou prevalecendo a matriz asiática, que emprestou inspiração circunstancial ao batismo.

Na sucessão de cenas (bloqueio de estrada, atos de vandalismo, repressão policial armada aos manifestantes furiosos e tropa de ocupação, com 300 homens, chegando com maior aparato bélico para confiscar os produtos da selvageria e da ilicitude), é impossível não remeter a memória à Indochina. Somos a fronteira de um país que nos quer, nos respeita e nos admira, ou a possessão colonial a ser submetida, amansada, vencida, transformada à imagem e semelhança do colonizador e da sua cultura?

É um absurdo que um bem fabricado ao longo de séculos pela natureza, com esmero e capricho, depois de posto abaixo e serrado vire tábua para a construção civil usar ao deus-dará e depois repassar para a pizzaria ou a padaria da esquina lançar ao fogo. Se vai mesmo ao fogo, que vire carvão vegetal, propuseram Jost & Eliezer, dupla de homens ilustres, mas sem sangue amazônico, sem ethos amazônico. Agentes da ocupação ao modo asiático, sob despotismo oriental.

Sim, são positivas várias das iniciativas desencadeadas pelo governo a partir do sinal de alerta do crescimento de 10% do desmatamento na Amazônia no último ano. Algumas até são inéditas e outras atendem o clamor de muitos anos dos especialistas e dos diretamente interessados na matéria. Mas mudarão o rumo traçado pelos distintos senhores um quarto de século atrás — e por outros tantos distintos senhores mais anos antes? Índio bom é índio morto, dizia o colonizador americano, 38 em punho. O nosso teve que conter essa selvageria, mas ainda pode dizer: floresta boa é floresta abatida. Junto com a pistola, a motosserra, atualização tecnológica do machado.

A floresta é o nosso bem mais precioso, que estamos a desperdiçar com um barbarismo de causar engulhos a Átila, o huno (se aceitamos nossa versão etnocêntrica). Não será com tropa armada (embora mal municiada, mal alimentada e sem-diárias), com espalhafato, com medidas no papel, e mesmo com algumas providências certas, que se desviará a floresta do destino que a aguarda, geralmente de tocaia: virar madeira sólida, extraída sem deixar maiores marcas; financiando com isso a formação do pasto, que virá depois (e já então de forma escancarada, que qualquer satélite fotografa, identificando plenamente este vilão); permitir que serrarias se multipliquem, fornecendo resíduos para a siderurgia transformar em carvão, até que, em sendo o estupro inevitável, relaxando-se e aproveitando, começarem a surgir fornos primitivos às dezenas, centenas e milhares, sangrando a terra, sangrando o homem, revivendo da miséria. E, como cobertura requintada, o agronegócio, mais intensivo em capital, menos exposto à caracterização do crime, mais sofisticado. Embora não menos letal.

Quem já viu tudo isso revê o novo “isso” com enfado, desalento, indignação e revolta. Todos passarão, exceto a floresta, que ficará, insepulta, na forma de cinzas ligeiramente nutrientes, carvões, tábuas e outros traços degenerados de sua existência exuberante e promissora. Enquanto o governo e o colonizador não conhecerem a Amazônia e a respeitarem, e, quem sabe, a amarem, passarão por ela como furacões de motosserras e aceiros, de homens armados e justiceiros velozes. Não ficará o que é perene e consistente, como campi de centros de graduação e pós-graduação no meio da mata, com gente jovem e competente que aprenda fazendo, olhada por verdadeiros mestres, com infra-estrutura e apoio financeiro, sob a proteção devida, fazendo manejo florestal de verdade, com o melhor da mais avançada ciência, a demonstrar que floresta se utiliza sem devastar — e que assim se ganha muito mais dinheiro.

Daqui a 25 anos, se ainda houver floresta, as palavras se tornarão proféticas sem querer. Mas não só proféticas: irão adquirir o significado amargo de epitáfio. Pela mata que desapareceu e pela nossa inteligência, que nunca deu o ar da sua graça na nossa terra devastada. Que não será mais nossa nem nada. Nonada.

Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006) e Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007).

Fonte: Acessa.com

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Cinco anos após a invasão no Iraque, soldados americanos procuram um sentido para sua missão

Robert W. Gee

Esta semana marca o quinto aniversário do início da guerra no Iraque, o que a torna um dos mais longos conflitos militares no exterior da história americana.

O capítulo inicial da guerra de choque e temor há muito perdeu espaço para novas narrativas dos erros do governo Bush, uma insurreição sangrenta e um crescente número de iraquianos e americanos mortos. Um marco mais macabro deverá ser atingido neste mês ou no próximo: 4 mil baixas militares americanas.

É por este prisma que as lembranças da invasão, antes saudada como uma missão cumprida, são passadas a limpo. Mas aqueles que travaram a primeira guerra há cinco anos lembram da derrota de Saddam Hussein com orgulho.

Cinco soldados da Companhia Charlie, 1º Batalhão, 64º de Blindados da 3ª Divisão de Infantaria, cujos tanques lideraram a marcha americana a Bagdá, consideram suas experiências e a guerra cinco anos depois.

‘Era como se a guerra tivesse acabado’

Cinco anos depois, Brett Waterhouse está de volta ao Iraque para lutar em uma guerra que ele e seus companheiros achavam ter vencido.

“Era como uma visita familiar, só que tínhamos tanques”, lembrou Waterhouse de suas visitas a lares em Bagdá nos dias que se seguiram à tomada da capital iraquiana pelas forças americanas, em abril de 2003.

A Companhia Charlie operava os checkpoints, incluindo um na entrada de um rico bairro de Bagdá naquela que viria a se tornar a Zona Verde, o centro internacional fortificado da cidade.

Os moradores do bairro freqüentemente vinham receber os soldados com presentes como alimentos, chá e flores, ele lembrou.

“Nós aceitávamos tudo e comíamos bem”, disse Waterhouse, atualmente com 40 anos e um 1º sargento, originalmente de Gainesville, Flórida. “O tempo todo que passamos lá foi como se fosse uma grande família. (…) Era como se a guerra tivesse acabado.”

Os iraquianos recorriam aos soldados para proteção, oferecendo dicas, se apresentando voluntariamente para servirem como intérpretes e até mesmo ajudando a espalhar o arame farpado pelo bairro. “Nós aprendemos às pressas como sermos uma força de paz e embaixadores”, disse Waterhouse.

Considerando a recepção calorosa, ele disse: “Eu não achei que voltaríamos para Bagdá”.

Os administradores americanos que entraram em Bagdá conseguiram uma reversão dos ganhos iniciais, e os soldados que substituíram sua unidade, ele disse, “estragaram a ligação que desenvolvemos” ao tratarem todos os iraquianos como inimigos. Mas agora, ele disse, a guerra “parece estar seguindo na direção certa”.

Ainda assim, ele e seus companheiros estão praticamente fazendo o mesmo hoje que fizeram há cinco anos, freqüentemente com menos sucesso: tentando fornecer segurança ao país e trabalhando para conquistar a confiança dos iraquianos.

‘Todo mundo volta diferente’
Há cinco anos, Jose Mercado era 1º sargento da Companhia Charlie, seu soldado alistado mais graduado. Ele foi sargento de pelotão durante a Guerra do Golfo de 1991. Ele atualmente está servindo de novo em Bagdá, desta vez como sargento ajudante.

Dentre seus quase 27 anos no Exército, ele disse sobre a invasão ao Iraque em 2003: “Aquela foi a maior”.

“Aquilo foi o Super Bowl (a final do futebol americano). Todo soldado quer entrar em combate. A maioria quer entrar em combate por causa dos filmes que assistiu. A forma como Hollywood a retrata.”

Mas ele disse que os efeitos psicológicos a longo prazo de combate intenso freqüentemente são ignorados.

“Você não pensa nas mortes, nas pessoas inocentes que matará e nos efeitos posteriores que terá quando voltar para casa. Você não é mais a mesma pessoa”, disse Mercado. “Todo mundo volta diferente. Ela muda você completamente.”

Durante a guerra, os combatentes reprimem as emoções para sobreviver, ele disse.

“Mesmo após todo este tempo, eu diria que consegui 50% das minhas emoções de volta”, disse Mercado no mês passado, em seu escritório no quartel-general da 3ª Divisão de Infantaria, no Campo Vitória, em Bagdá.

Mercado, 45 anos, que cresceu em Nova York e Porto Rico, disse que planeja se aposentar do Exército no próximo ano e espera poder lecionar matemática. Seu filho, Jonathan, está na Guarda Nacional Aérea, e sua filha, Melissa, serve na Guarda Costeira.

Ele defendeu a decisão de invadir o Iraque -”Valia a pena. Nós fizemos a coisa certa”, ele disse- mas ele se tornou filosófico sobre a natureza da guerra.

“Por que as pessoas querem matar umas às outras? Por que um homem deseja matar outro homem?”, ele disse.

Ele ganhou um senso de mortalidade, ele disse, e um apreço pelos desafios da vida cotidiana nos Estados Unidos. Tudo, ele disse, é “um problema pequeno em comparação a ser baleado”.

‘Eu quero que termine’
Roger Gruneisen se formou em West Point em 2001, serviu como tenente e líder de pelotão durante a invasão de 2003 e voltou em 2005 para uma segundo turno no Iraque. Em junho de 2006, ele deixou o Exército como capitão, após concluir o serviço exigido.

Os dois outros líderes de pelotão da Companhia Charlie também se aposentaram do Exército, ressaltando a atual dificuldade das forças armadas em manter oficiais com experiência em combate.

Gruneisen disse que sua segunda filha nasceu durante seu segundo turno e que decidiu partir para poder dedicar mais tempo para criá-la.

“Há muito sentimento conflitante. Eu teria dificuldade em deixar minha filha agora”, disse Gruneisen, que vive em Lexington, Kentucky, e trabalha como gerente de qualidade para a General Electric.

“Ver a 3ª (Divisão de Infantaria) voltar para lá me deixa com um leve sentimento de culpa. Mas servi dois turnos de dois anos.”

Apesar de ter deixado o Exército, ele disse que acompanha atentamente as notícias da guerra, ouvindo sobre as baixas americanas e se perguntando se reconhecerá os nomes.

“Eu apenas espero que a gente consiga deixar aquele país com alguma estabilidade, cientes de que alguns desses rapazes morreram e que realmente significou algo. Não que algum dia terá valido totalmente a pena”, ele disse. “Em grande parte eu quero que termine para que possa prosseguir com minha vida e parar de acompanhá-la.”

‘Os rapazes sabiam como matar’
Jabari Williams, na época um sargento assistente, liderou os soldados na oração antes de cruzarem a fronteira entre o Kuwait e o Iraque em meio à neblina antes do amanhecer de 21 de março de 2003.

Também foi uma exortação: “Foi para isto que treinamos. Nós estamos prontos. Agora é para valer”, ele disse aos seus companheiros.

“A partir daquele momento estava valendo”, ele lembrou recentemente em Bagdá, para onde voltou para seu terceiro turno.

“Eu estava orgulhoso. Eu sabia que daquele momento em diante, nós faríamos história.”

Dentro das fileiras do Exército, e especialmente no Iraque, os soldados tendem a ver sua missão com metas táticas em mente, isolada dos aspectos políticos e morais mais amplos de uma guerra justa. Williams parecia indiferente a como a história poderia julgá-lo hoje.

“Eu não me interesso muito por política, mas minha medida de sucesso é levar todos meus rapazes para o Iraque e trazê-los todos de volta para casa”, disse Williams.

Para os soldados em combate, a sobrevivência se torna o motivo para travar a guerra.

“Como chefe de artilharia, eu tinha confiança de que os rapazes sabiam como matar. Eu me orgulhava e me empolgava em ver como transcorreria”, disse Williams, 31 anos, de McDonough, Geórgia, que foi promovido a 1º sargento e ainda serve no mesmo batalhão.

A unidade de 79 soldados não perdeu nenhum homem. Dois sofreram ferimentos graves. Oito soldados foram condecorados. Eles sobrepujaram seu adversário, matando um número incontável de iraquianos em uma série de batalhas, incluindo as duas incursões em Bagdá, o ataque decisivo contra a capital do Iraque.

‘Eu apenas quero que os soldados voltem para casa’
Jeremy England, 29 anos, que era um tenente líder de pelotão em 2003 e que deixou o Exército para trabalhar no setor de construção em Mobile, Alabama, passou a questionar a guerra.

“O argumento para a guerra era falho desde o início”, ele disse. “Nós provavelmente estaríamos bem mesmo sem ter ido para lá. Mas agora que estamos lá, nós temos um compromisso.”

Ainda assim, ele disse, “eu só me interesso pelos soldados. Eu apenas quero que os soldados voltem para casa. Trazê-los de volta para casa”.

Ele disse que sua nova carreira como dono de um pequeno negócio é muito mais complicada do que servir como soldado, mas que considera sua experiência de cinco anos atrás no Iraque como o momento definidor de sua vida.

“Eu estava muito orgulhoso do que vivenciei lá. Nós fomos, lutamos na guerra, o fizemos bem e sobrevivemos”, ele disse. “Eu penso nisso todo dia.”

Fonte: Cox Newspapers

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D. João VI é o Homem do Ano

Deonísio da Silva

Para se ter uma idéia do “interesse” do brasileiro na História do Brasil, o melhor livro sobre a vinda da Família Real – Dom João VI no Brasil, de Oliveira Lima –, lançado em 1908, no primeiro centenário, teve até agora quatro edições. A segunda foi em 1945 e a terceira em 1996. A quarta, da Editora Topbooks, com prefácio de Wilson Martins, saiu apenas em 2006.

Ninguém ignora que nas últimas décadas tem havido no Brasil uma esterilização da História. Lêem-se pilhas e pilhas de livros, mas ninguém fica sabendo de nada, já que o propósito dos autores é exibir erudição em pormenores ou defender sua “tese”. Reconheçam-se as exceções, que as há, mas a norma tem sido esta: não dizer nada.

Laurentino Gomes, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, deu uma lição ao retomar um modo de escrever que, sem falsear a História, troca em miúdos para o leitor a matéria que, se os doutores a conhecem, não sabem como ensiná-la… Nascido em Maringá (PR), Laurentino tem 51 anos, 30 deles de atividade profissional como repórter e editor em jornais e revistas de grande porte, entre os quais O Estado de S.Paulo e a revista Veja. Atualmente, dirige uma unidade da Editora Abril responsável pela publicação de 23 revistas segmentadas. O jornalista tem paixão por temas da História.

Apesar da apelação do subtítulo desjeitoso (”Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”) que tem o fim de chamar a atenção do público, o livro 1808 (Editora Planeta, 408 páginas, R$ 39,90) já é um dos melhores momentos dessa efeméride, ao conciliar pesquisa e modo de revelar o que foi descoberto.

Bom conselho

Efemérides são boas oportunidades para o leitor ficar sabendo de tudo. A celebração dos 200 anos da vinda da Família Real para o Brasil vem ensejando, não somente às editoras, mas também à mídia, múltiplas oportunidades de informar e formar o leitor.

Aquilo que a escola não tem dado nas últimas décadas, do ensino fundamental, passando pelo segundo grau, agora juntos na expressão “ensino médio”, até chegar ao curso superior, vem sendo suprido de forma admirável por outro tipo de ensino a distância: aquele oferecido por jornais, revistas, livros, rádio, televisão, internet.

Devido às fortes tempestades enfrentadas no caminho, algumas naus vieram diretamente para o Rio, enquanto aquela em que viajava Dom João VI foi parar em Salvador. O então príncipe regente só chegaria ao Rio de Janeiro no dia 7 de março.

Aqui se tornaria rei de Portugal, do Brasil e de Algarves, e passaria à História como um rei bondoso, meio atrapalhado, comedor de frango assado, com medo de tomar banho de mar, quando foi em verdade, apesar de tais usos e costumes talvez fazerem parte de sua complexa personalidade, um soberano sagaz, receptivo ao povo, com grande visão de estadista.

Lembremo-nos do conselho que deu ao filho, Dom Pedro I, quando aqui o deixou, voltando a Portugal: “Pedro, meu filho, põe a coroa em tua cabeça antes que algum aventureiro o faça!”.

Roteiro infiel

O brasileiro, sempre jocoso, inclusive consigo mesmo e um pouco mais com os portugueses, com freqüência é atacado, não apenas de saudável irreverência, que o faz rir de si mesmo, mas de um masoquismo que vê tudo de pior no Brasil e no que diz respeito ao nosso país.

Ora, o próprio Napoleão reconheceu em Dom João VI um inimigo difícil de combater. E já no exílio, o outrora temido e poderoso imperador reconheceu que o príncipe português foi o único que não o venceu, mas o enganou.

Assim, em vez de fuga atabalhoada, como nos fazem crer diversos historiadores, a vinda da Família Real foi uma das maiores retiradas, senão a maior, de toda a História.

Infelizmente veio do cinema uma contribuição sinistra e inverídica. O filme de Carla Camuratti, Carlota Joaquina, falseia a História para angariar simpatias bobas e meio autoflageladoras. O perfil de Dom João VI, representado pelo grande ator que é Marco Nanini, não é fiel à História e nem às tradições portuguesas e brasileiras. Nem mesmo o de Carlota Joaquina, representação igualmente magistral de Marieta Severo, é fiel à soberana espanhola. Os atores são ótimos, mas o roteiro e os diálogos apoiaram-se em bibliografias que falsearam a História. Ou então foram mal digeridas…

Ínvios caminhos

Dom João VI era de uma memória prodigiosa, como, aliás, todos os da Casa de Bragança. Em rápidas ou demoradas conversas, mostrava saber coisas relevantes sobre a vida de quem o procurava para despachos no beija-mão. Ao lado do trono, ficava uma mesinha onde eram depositados os requerimentos e pedidos.

Todas as noites, por volta de 21h, o rei, com muito gosto, recebia todos para a cerimônia do beija-mão, sem dispensar os ritos próprios.

Todos eram iguais perante o rei, naquela solenidade tão curiosa. Um general poderia estar atrás de um simples sapateiro, cozinheiro ou lavrador das cercanias, pois valia o princípio da fila – uma das maiores instituições do Brasil e das mais estáveis.

Quem chegasse primeiro ficava em melhor posição para beijar a mão do soberano. Naturalmente, algumas doenças também eram transmitidas nessas ocasiões… de saliva em saliva.

Quem fundou o Brasil foi o único rei que superou Napoleão em estratégia. Num tempo em que reis eram depostos, humilhados, vencidos ou até decapitados – como ocorreu ao soberano francês pouco mais de duas décadas antes da vinda da Família Real –, Dom João salvou a si mesmo, a seus familiares, à Corte e, por ínvios caminhos, também o povo, português e brasileiro.

Fonte: Observatório da Imprensa

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Guerra do Iraque prova que somos incapazes de resolver conflitos pelo diálogo

Jorge Ramos*

“Há forma de libertar os seres humanos do destino da guerra?”

Não, esta pergunta não foi feita por uma das milhões de pessoas que atualmente são contrárias à guerra no Iraque, que neste mês completará seu quinto aniversário.

Ela foi feita em uma carta de 1932 escrita por Albert Einstein, o físico americano nascido na Alemanha, para Sigmund Freud, o psiquiatra austríaco que fundou a psicanálise. A carta foi escrita enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda fermentava.

Freud respondeu que “seria apenas possível evitar as guerras com certeza se os seres humanos chegassem a um acordo para criar um poder central, ao qual seria dada a responsabilidade de solucionar todos os conflitos de interesse”.

Mas nem a Liga das Nações, criada em 1919, nem sua sucessora, a Organização das Nações Unidas, que foi formada em 1945, foram capazes de impedir todas as guerras. Mais do que um “poder central”, como Freud previa, a ONU reflete apenas a vontade de seus membros, e uma postura belicosa predomina em muitos deles.

Todavia, Freud também acreditava que para acabar com todas as guerras “uma postura cultural (antiguerra) e um temor bem fundamentado das conseqüências de uma futura guerra, seriam necessários”.

Nós precisamos reconhecer o fato de que antes do início da Guerra no Iraque não havia uma postura cultural antiguerra. Pelo contrário, havia o desejo de atacar antes mesmo de descobrir se o adversário realmente possuía armas de destruição em massa. Não foi permitido aos inspetores internacionais que concluíssem seu trabalho. E apesar dos Estados Unidos não terem obtido o número necessário de votos no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, para aprovação da guerra, o presidente George W. Bush foi em frente e deu a ordem para atacar. O que prevalecia na época era uma cultura de guerra.

Como então explicar para uma criança que não de deve bater em outro menino, quando ela vê na TV e na Internet que adultos usam de violência e guerra para resolver seus problemas? A guerra é aprendida em casa. Quando diálogo e tolerância são substituídos por um soco, uma surra ou um tapa na cara em casa, nós estamos criando futuros promotores da guerra e da agressão.

Mas se não é possível incutir uma postura antiguerra em uma geração, pelo menos é possível -como Freud sugeriu- gerar horror e medo da guerra. E é aí que entra o papel dos jornalistas.

A Guerra do Golfo Pérsico de 1991 foi a primeira a ser coberta ao vivo pela televisão. Eu ainda me lembro dos repórteres da “CNN” descrevendo as primeiras bombas americanas caindo em Bagdá. O exército iraquiano que invadiu o Kuwait foi forçado a se retirar e foi derrotado em meras 100 horas.

Mas o público na TV nunca viu os corpos mutilados ou o sangue. Em vez disso, ele viu alguns vídeos filmados de uma grande altitude de bombas explodindo a distância. As imagens lembravam videogames aos jovens. Foi a primeira guerra “asséptica”. As pilhas de soldados e civis mortos em decomposição, que eu testemunhei como jornalista na cidade do Kuwait, não foram vistas pelos espectadores de TV ao redor do mundo.

Atualmente também estão tentando “limpar” a guerra no Iraque, apesar de quase 4 mil soldados americanos e mais de 81 mil civis iraquianos já terem morrido (segundo dados da www.iraqbodycount.org).

Nós quase nunca vemos mortos ou feridos na mídia. Vários governos proíbem que cadáveres ou caixões de soldados mortos na guerra sejam filmados. Isto em respeito às famílias dos mortos, insistem as autoridades, e para evitar uma queda do moral das tropas.

Mas isto mantém o público ignorante da brutalidade da Guerra no Iraque. Nós apenas vemos as notícias esterilizadas que permitem que a matança continue. Eu acho que se pudéssemos ver, um dia após o outro, como um corpo é despedaçado após um ataque suicida ou uma explosão de bomba de estrada, a guerra no Iraque teria acabado há muito tempo. Toda criança morta, todo inocente ferido, seria uma apunhalada na consciência daqueles que continuam obstruindo a possibilidade de um acordo de paz real e a retirada de nossas tropas do Iraque.

A guerra é brutal. Como deveria ser a cobertura da guerra pela imprensa. Ela deveria -se fôssemos seguir o conselho de Freud- deixar o espectador nauseado. Ela deveria revirar as entranhas do espectador até ele ser forçado a desligar a TV e ter os piores pesadelos. Ela deveria nos incomodar tanto a ponto de finalmente gritarmos: Basta!

Nós jornalistas somos duplamente culpados por permitir a evolução da guerra no Iraque. Primeiro, por não termos feito as perguntas difíceis, desconfortáveis, para aqueles que iniciaram a guerra contra um país que não atacou os Estados Unidos e nem esteve envolvido nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. E agora, por não mostrarmos ao público a selvageria monstruosa da guerra.

Todos os sinais são de que a guerra no Iraque continuará pelo menos até que Bush deixe o governo em 20 de janeiro de 2009. Depois disso, quem sabe? Mas o que está muito claro agora é que nossas preocupações em como colocar um fim aos conflitos armados são as mesmas que as de Einstein e Freud durante o período entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial.

Cerca de 76 anos após aquela troca de cartas, nós não aprendemos muito. A Guerra no Iraque é uma confirmação absoluta de que fomos reprovados, de que não somos capazes de resolver nossos conflitos por meio de diálogo e diplomacia. A guerra representa o fracasso total.

* Jorge Ramos, um jornalista ganhador do prêmio Emmy e autor, é o principal âncora de noticiário da Univision Network, o programa de notícias de língua espanhola mais assistido nos Estados Unidos. Ramos, nascido no México, é autor de seis livros best seller, incluindo “La Otra Cara de America”, “Atravesando Fronteras”, “La Ola Latina”, “Morir en el Intento” e recentemente “El Regalo del Tiempo”. Ele foi listado como um dos 25 latinos mais influentes nos Estados Unidos pela revista “Time”.

Fonte: The New York Times

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TRANGÊNICOS: TODAS AS RAZÕES PARA NÃO CONSUMIR

10 BOAS RAZÕES PARA EVITAR O CONSUMO DE ALIMENTOS QUE CONTENHAM TRANSGÊNICOS
1. Ainda hoje não existem dados produzidos por pesquisa que indicam o impacto causado pelo consumo de transgênicos em seres humanos. O que existe são dados científicos possibilitados pela pesquisa com outros animais, como ratos, por exemplo, os quais, por sua vez, servem de bom argumento para rejeição de tais alimentos. Mesmo, embora, os transgênicos sendo largamente consumidos a não rotulação impede, por sua vez, não só que as pessoas escolham ou não consumi-los, como, concomitantemente qualquer pesquisa de impacto que o consumo de tais excrescências venham a ocasionar a saúde humana.
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2. Seus efeitos sobre o meio ambiente e sobre culturas agrícolas não-transgênicas são alarmantes. Em fevereiro de 2008, o jornal espanhol El País aponta que o milho transgênico está contaminando e acabando com os cultivos de milho ecológico na Espanha. A contaminação acontece pela polinização disseminada pelos ventos e o grande perigo que se corre dá-se em causa da extinção de variedades não transgênicas e da dependência dos produtores agrícolas das multinacionais do transgênico na mesma medida em que essa homogeneização ocorre, dado que as variedades transgênicas não se reproduzem bem na segunda geração e a produtividade sofre um impacto direto. O artigo do El País compôs inclusive o material que fora encaminhado para CTNBio e a CNBS, o qual, já sabemos fora ignorado.
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3. As pesquisas com sementes e produtos transgênicos realizadas pelas multinacionais da biotecnologia, visam apenas o lucro. Logo, não participa da consideração das mesmas o impacto que o consumo e a cultura de tais variedades venham a ocasionar ao meio ambiente e a saúde de humanos e animais. O que importa a essas multinacionais é o controle e o monopólio do mercado de sementes e, por conseguinte, o de agrotóxicos produzidos por cada qual e fundamentalmente necessários para a produtividade da lavoura transgênica.
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4. Não há nenhuma prova concreta de que as sementes transgênicas são mais produtivas e adequadas ao equilíbrio da natureza do que as sementes criollas, melhoradas e desenvolvidas pelos agricultores de acordo com os microclimas e as culturas.
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5. Cerca de 97% das sementes transgênicas existentes no mercado têm sua utilização e produtividade casadas com o uso de algum tipo de agrotóxico, herbicida, inseticida, etc. Esses venenos prejudicam o meio ambiente.
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6. Muitas sementes transgênicas possuem o componente terminator, que as esteriliza para utilização como sementes no ano seguinte. Isso obriga os agricultores a ficarem dependentes da empresa fornecedora. São as chamadas sementes suicidas.
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7. O monopólio da biotecnologia e o uso dos transgênicos estão levando a um processo de controle oligopólico das sementes em todo o mundo, por 10 grandes corporações multinacionais. Na década de 1970, 7 mil indústrias produziam sementes no mundo. Em 2006, as 10 maiores corporações do setor abocanharam 57% do mercado de vendas, sendo que as três maiores (Monsanto, Dupont e Syngenta) ficaram com 39%. A Monsanto, por exemplo, é líder mundial de sementes transgênicas e controla sozinha 88% do mercado global de transgênicos.
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8. O impacto social da cultura de variedades transgênicas é do mesmo modo arrasador. A massificação do uso de sementes transgênicas vai impor uma padronização dos tipos de alimento em todo o mundo, ferindo as culturas locais e trazendo conseqüências futuras inimagináveis. Atrelada a grande produção o modelo de apropriação de terras que prevê é o latifúndio voltado para exportação, expropria famílias do campo, promove o êxodo rural, a precarização da vida humana e a perseguição e extermínio de trabalhadores rurais no campo. Todos esses são fenômenos observáveis em nossa realidade há um tempo.
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9. Os transgênicos não vão acabar com a fome do mundo. Existem estudos que apontam que a produção de alimentos no mundo é 5 vezes superior ao consumo humano e isso não se deve a produção de alimentos transgênicos. Mesmo considerando que há um grande montante orientado para a engorda de animais de corte o problema é a própria categorização do alimento como mercadoria, o que, por sua vez, cria dificuldades de acesso a este direito primordial. Dentro da estrutura capitalista a desproporcional e acentuada má distribuição da renda no país agrava ainda mais tal quadro.
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10. É possível com sementes e alimentos sadios proporcionar alimento saudável para toda humanidade, respeitando o meio ambiente e livre de transgênicos. Dados do IBGE servem para ilustrar tal afirmação, mostrar o potencial e em qual estrutura devemos amparar a nossa produção agrícola: a agricultura familiar (menos de 100 hectares) ocupa 21% do território agrícola brasileiro, mas realiza 38% do investimento total do setor, empregando 81% da mão de-obra no meio rural. Responde, ainda, por 47% do valor da produção agropecuária, incluindo aí o suprimento de 56% de alimentos e matérias-primas vegetais e de 67% da oferta interna de alimentos de origem animal. “Numa palavra, é ela que gera comida e emprego. Sem precisar desses trangênicos”

BENJAMIN, César. Caros Amigos, 09/2003.

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Kosovo: a nova província dos EUA

EUROPA Para controlar países dos Bálcãs, Estados Unidos patrocinam a independência unilateral de Kosovo da Sérvia; UE também oferere benesses

Achille Lollo

NO DIA 10 de dezembro, o narcotrafi cante Hashim Thaqi - líder do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) e agente da CIA e do serivço secreto britânico M15 desde 1985 - anunciava que, em fevereiro, “seu governo” proclamaria a independência unilateral de Kosovo, violando, assim, a resolução nº 1.244 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que garante a soberania da Sérvia na província autônoma de Kosovo.
Assim, Condoleezza e Bush pretendem implementar uma solução geo-estratégica - traiçoeira e perigosa - para legitimar a definitiva dependência estratégica da União Européia (UE) aos Estados Unidos e concretizar a perda de autonomia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujas “missões de paz” (de interesse dos EUA) passariam a ser gerenciadas pela OTAN.
A Rússia de Putin logo vetou a manobra dos Estados Unidos de debater a proposta de independência de Kosovo no Conselho de Segurança. Diante disso, o presidente francês Sarkozy - falando em nome dos países da União Européia - apelou para uma ampliação deste organismo deliberativo das Nações Unidas com países membros “amigos” (Brasil, África do Sul, Alemanha e Índia) de forma a isolar definitivamente a Rússia e a China.
Em resposta, o presidente conservador da Sérvia, Boris Tadic, e o primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, líder do Partido Democrático da Sérvia (nacionalista e pró-russo) já tomaram distância dos Estados Unidos, declarando com firmeza: “os acordos internacionais assinados pela Sérvia, que incluem o Acordo de Estabilização e Associação com a União Européia, devem respeitar a soberania e a integridade territorial do país”.
Por sua parte, o Ministro da Defesa da Sérvia, Dragan Sutanovac, declarou que “esta não é uma declaração de guerra prévia, mas, apenas, um aviso dirigido em particular aos países centrais da União Européia que, agora, pretendem oferecer à Sérvia a admissão “mais rápida” no bloco, recebendo em troca uma declaração de renúncia da soberania no Kosovo que, assim, poderia proclamar-se independente sem violar as normas do direito internacional.”

Os EUA nos Bálcãs A provocação do narcotraficante Hashim Thaqi (1) é a última fase de um múltiplo processo de desestabilização da Federação Socialista Iugoslava - iniciado em 1989, com a proclamação da soberania e da autonomia unilateral da Eslovênia e da Macedônia, seguidas pelo desmembramento étnico na Croácia e Bósnia-Herzegovina, ocasionando sangrentas guerras étnicas que justificaram a crescente intervenção das tropas da OTAN (sob liderança dos Estados Unidos), a destruição de 90% do parque industrial da Sérvia, em 1999, e do próprio Estado iugoslavo.
Uma opção militar que, para os EUA, era a necessária solução geo-estratégica para impor a presença estadunidense nos Bálcãs, no momento em que a União Européia estava criando as condições para sua abertura às antigas nações do Pacto de Varsóvia, da URSS.
De fato, na época, o “democrata” Bill Clinton, para justificar os lançamentos dos mortíferos foguetes com urânio empobrecido contra os alvos civis da Iugoslávia, afirmava: “Se os Estados Unidos recuarem nos Bálcãs, na realidade, será o princípio do recuo da potência hegemônica no mundo”. Por sua parte, Madeleine Albright, secretária de Estado do governo Clinton, após ter conseguido inviabilizar o acordo de Rambuillet em 1995 declarava: “Finalmente a OTAN poderá atacar a Iugoslávia para salvaguardar os habitantes de Kosovo!”.
Com a “Operação Kosovo” (março de 1999), o democrata Clinton oficializava a política hegemônica e intervencionista que o presidente Bushpai havia proposto com a primeira guerra contra o Iraque de Saddam. A partir desse período, todos os orçamentos votados pelo Congresso estadunidense registraram sensíveis aumentos para a “manutenção e modernização dos sistemas de defesa”. Uma fórmula política - utilizada por democratas e republicanos - adotada pelos aliados europeus (sejam eles de direita ou de centro-esquerda) para transformar a OTAN em uma nova Task Force oposta a Rússia de Putin e preparada para intervir em todos os países da Europa do Leste ou da Ásia Menor, onde os conflitos locais poderiam ameaçar o fornecimento energético ao Ocidente.

Bósnia, Kosovo, Albânia Após 12 anos de “independência”, a Bósnia-Herzegovina continua um “protetorado” da OTAN, incapaz de ter uma administração própria, tanto que o primeiro-ministro da Eslovênia e presidente em exercício da União Européia, Janez Jansa, admitiu: “No Kosovo, o que se vai passar é claro, a questão é saber como chegar lá. Porém, é o futuro da Bósnia-Herzegovina que, hoje, representa uma ameaça “mais grave” para a estabilidade dos Bálcãs do que Kosovo, visto que não é possível ter um Estado que não consegue administrar-se a si mesmo e necessita, ainda, de governadores internacionais”.
De fato, o governo da Bósnia é formado por representantes da Federação croatomuçulmana e da comunidade sévio-bosniaca (República Srpska). Porém, a verdadeira administração do país é exercida por Miroslav Lajcak, Alto Representante da Comunidade Internacional na Bósnia, que coordena as atividades atividades das missões da União Européia, os projetos de financiamentos vindos da Europa (oficiais ou através de ONGs), enquanto 26 mil soldados da OTAN garantem a aparente convivência entre as duas comunidades. Em Kosovo, a OTAN mantém, ainda, outra força de ocupação, chamada KFOR, com 16.500 soldados, e nunca desarmou as milícias do ELK (albanês- islâmicos). Dessa forma, no interior da província, é praticado um silencioso terror étnico contra os sérvioskosovares (de religião ortodoxa), que provocou a fuga de quase 600 mil destes em direção à Sérvia, sem receberem nenhuma compensação da UE, enquanto foram destinados 5 bilhões de dólares aos 900 mil refugiados kosovares, no ano 2.000. Hoje, os europeus contribuem com 1,5 bilhão de dólares para a “estabilidade de Kosovo”. Uma doação que justifica a extrema simpatia dos islâmicoskosovares pelos Estados Unidos e União Européia.
A verdade é que, com o governo do narcotraficante Hashim Thaqi, o Kosovo se transformou em um grande quartel, com a função de controlar os países dos Bálcãs.
Aliás, é nessa lógica que, nos arredores da capital, Prístina, foi construída uma grande base aérea que, “após a independência”, será administrada unicamente pelos homens da Força Aérea dos Estados Unidos e ampliada para poder receber os caças-bombardeiros com ogivas nucleares, bem como os “aviõesfantasma” que realizam operações de espionagem no Leste europeu.
Do ponto de vista econômico, Kosovo sobrevive, apenas, com a ajuda financeira da União Européia e das despesas da OTAN para a manutenção dos corpos expedicionários. Por isso, as diferentes máfias (albanesa, macedônias, búlgara, romena italiana e turca) instalaram no território de Kosovo sofisticados laboratórios para a fabricação de heroína e de outras drogas químicas.
A Albânia, por exemplo, pode ser considerada a Colômbia da Europa. Suas características são: a exportação de gangues criminosas especializadas na venda de qualquer tipo de entorpecente - do haxixe à cocaína, da heroína ao êxtase - na prostituição, no contrabando de cigarros e produtos industriais e, até, no comércio de órgãos humanos.

Geo-estratégia dos EUA
Os Estados Unidos utilizaram a Guerra Fria para impor aos países europeus um grau de “colaboração estratégico-militar” que, em muitos casos, criou complexos modelos institucionais para garantir o controle preventivo dos países da OTAN. Porém, com a dissolução da URSS em 1989 e a conseqüente desarticulação do Pacto de Varsóvia, a OTAN, no lugar de encolher, se expandiu em função da “Doutrina Powell”(2), segundo a qual “a intervenção estadunidense deve ser uma espécie de antídoto contra os conflitos locais, que, por efeitos conjunturais ou circunstâncias locais diferenciados podem se multiplicar e ampliar o campo operativo em uma dimensão regional e atentar até contra a segurança mundial”.
Por isso tudo, a permanência militar em Kosovo com aviões, bases logísticas e milhares de soldados estadunidenses e dos países europeus da OTAN exige a criação de um estado-fantoche e um presidente narcotraficante como Hashim Thaqi. Os líderes políticos de Grã- Bretanha, Alemanha, França e Itália - sejam eles de direita ou de centro-esquerda - sabem que, ao contrariar o projeto estratégico dos Estados Unidos nos Bálcãs, correriam o risco de serem excluídos da gestão do poder. É oportuno lembrar que, em 1999, a secretaria de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright, realizou negociações secretas com o primeiro-ministro italiano, o ex-comunista Massimo D’Alema, para manter a Itália alinhada aos EUA no processo de desestabilização da Iugoslávia e, sobretudo, para participar na guerra de Kosovo. Em resposta, Massimo D’Alema demonstrou ser tão “atlantista” como o trabalhista Tony Blair e o social-democrata Schoreder que, juntos, fizeram de tudo para demonstrar a Clinton - e hoje a Bush - serem mais belicosos que os próprios conservadores. De fato, o historiador Eric Hobsbawm questiona a atitude do governo D’Alema sublinhando: “Se a Itália tivesse ousado recusar ser transformada em um porta-aviões da OTAN, certamente a guerra teria tomado outros rumos, mas o primeiro ministro “progressista” certamente seria outro”.
Com a chancela dos ministros “social-neoliberais de centro-esquerda”, os conflitos locais que explodiram nos Bálcãs, no Iraque, na África e na Ásia Menor foram denominados “guerras humanitárias necessárias”, que as televisões e jornais de Berlusconi, Murdoch, Fox, CNN e Globo apresentavam como “conflitos pela reconquista da democracia e a implementação dos direitos humanos”. Nesse contexto, somente a esquerda mais esclarecida e fiel a suas origens rejeitou a mistificação das “guerras humanitárias”, que enriquecem a indústria militar e os bancos. O resto, inclusive os progressistas dos governos de centroesquerda, apoiou cegamente a lógica da Casa Branca.
Para os analistas, a proclamação unilateral de Kosovo abre um perigoso precedente, visto que no Leste europeu há dezenas de minorias que podem ser manipuladas para fragmentar ainda mais a Rússia de Putin. Também na região do Mar Cáspio, as comunidades étnicas das novas repúblicas islâmicas, ricas em gás e petróleo, podem ser facilmente manipuladas. Mas o mais complicado será convencer os partidos nacionalistas de Euskadi (País Basco), Ilhas Canárias, Escócia, Córsega, República Árabe Saharaui Democrática (RASD), Irlanda do Norte, e Flamingos (Bélgica) de que somente o Kosovo tem direito a uma legislação especial e uma independência financiada diretamente pela União Européia.
Diante disso, em Roma, Luciano Pettinari, líder da Sinistra Democrática alertava o primeiro-ministro Prodi: “Não queremos que a Itália entre em outro confuso projeto militar. Esperamos que o governo não esqueça a experiência da dita missão civil e de polícia, que, para a Itália foi e é uma dura lição”. Será que Prodi e D’Alema vão dizer não a Condoleezza Rice depois que o presidente Napolitano confirmou com Bush a plena integração da Itália, na geo-estratégia da OTAN? Enfim, sonhar é bom e não custa nada.

Notas
(1) Em 1985, o grupo de Hashim Thaqi realizou vários atentados terroristas na província iugoslava de Kosovo. Isso chamou a atenção da CIA e do M15, que estavam monitorando os grupos anticomunistas croatas e eslovenos. Logo, a Freedom House apontou Hashim Thaqi como o líder do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cuja principal atividade é provocar o Exército iugoslavo com chacinas de cidadãos sérvios, que a imprensa ocidental silencia. Após a ocupação de Kosovo por parte da OTAN, os homens do ELK tornaram-se narcotraficantes, passando a gerenciar redes de tráfico que levam heroína do Afeganistão e da Turquia para a Europa.
(2) Colin Powell, general e Chefe de Estado Major do Exército dos EUA formulou novos conceitos estratégicos pelos quais os EUA devem utilizar a “força máxima” para enfrentar um conflito cujo desempenho ofensivo não admite interrupções ou indecisões sobre a forma de conclui-lo.

Achille Lollo é jornalista italiano, editor da TV Adia e autor dos DVDs: RCTV, fim de um império midiático e Por que o MST é contrário aos Transgênicos e ao Biodiesel.

Fonte: Brasil De Fato

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A metástase do sistema financeiro

Incumprimento maciço de dívidas: Banco de investimentos gigante da Wall Street internado nos “cuidados intensivos” pelo chefe do Fed em pânico

Mike Whitney

Na sexta-feira [14 de Março] o Bear Stearns explodiu [NR] . Foi a pior notícia possível no pior momento possível. Um dia antes, o politicamente conectado Carlyle Capital hedge fund não honrou US$16,6 mil milhões da sua dívida. O grupo Carlyle jactava-se de uma carteira com US$21,7 mil milhões de títulos apoiados por hipotecas residenciais com classificação AAA, mas foi incapaz de cumprir uma opção (margin call) de apenas US$400 milhões. (Para onde foram os US$21,7 mil milhões?) A notícia sobre o Bear foi a última gota. O mercado de acções começou a cambalear imediatamente, caindo 300 pontos em menos de uma hora. Então, milagrosamente, a maré mudou e o mercado começou a retomar. Se houvesse algum momento para a Equipe de Protecção de Mergulho (Plunge Protection Team) de Paulson vir em socorro, era este. Durante semanas os mercados foram assolados com más notícias. As vendas a retalho estão baixas, o desemprego é alto, a confiança do consumidor está na fossa, a inflação está a crescer, o dólar está nas cordas, e o esmagamento do crédito espalhou-se até mesmo aos cantos mais seguros do mercado. A enfrentar ferozes ventos contrários, os mandarins de Washington e os pesos pesados financeiros tiveram de decidir entre cruzar os braços e deixar que um pequeno banco de investimentos derrubasse todas as acções do mercado numa tarde ou então comprar furtivamente uns poucos futuros e viver para combater mais um dia? Escolha difícil, não é?

Nunca saberemos isso com certeza, mas foi o que provavelmente aconteceu.

Nunca saberemos também se a intenção real de Bernanke ao estabelecer o seu novo instrumento de leilão de US$200 mil milhões era proporcionar aos bancos chicoteados por falta de cash um lugar onde pudessem descarregar o lixo apoiado por hipotecas que a Carlyle despejara sobre o mercado quando foi à falência. Aquilo funcionou bem, não é? Agora os bancos podem comerciar estes títulos MBS sem valor com o Fed em troca de Títulos do Tesouro dos EUA quase ao seu pleno valor. Que grande negócio! Este deve ter sido o plano desde o princípio.

A salvação de emergência do Bear Stearns ateou uma tempestade de controvérsias acerca do azar moral e de se o Fed deveria estar a actuar prodigalizando as suas dádivas entre bancos de investimento. Mas o Fed não tinha escolha. Não se trata de um banco a desmoronar devido às suas más apostas. Todo o sistema financeiro está a balouçar e um fracasso no Bear teria trazido uma onda de ruína ao mercado accionário e remetido as acções por todo o mundo para uma violenta espiral da morte.. O New York Times resumiu assim na edição de domingo:

“Se o Fed não houvesse actuado esta manhã e o Bear não cumprisse as suas obrigações, então isto poderia ter disparado um pânico generalizado e potencialmente um colapso do sistema financeiro”.

Bingo.

Então, o que torna o Bear tão especial? Como é que um dos mais pequenos bancos de investimento pode colocar uma tal ameaça a todo o sistema?

Esta é a questão que será tratada nas próximas duas semanas e as pessoas não vão gostar da resposta. Durante a última década ou mais os mercados foram reconfigurados de acordo com um novo modelo de “finanças estruturadas” o qual transformou as interacções entre instituições e investidores. O foco tem sido maximizar o lucro através da criação de uma vasta galáxia de instrumentos de dívida exóticos que aumentam o risco global e a volatilidade em condições de mercado em desmoramento. O comércio de derivativos que, segundo o Bank of International Settlements , agora excede os US$500 milhões de milhões (trillions), costurou juntas as várias instituições de empréstimos e investimentos de um modo em que um fracasso pode por os dominós derivativos em movimento e deitar abaixo toda a armação financeira. Eis porque o Fed está envolvido e (acredito) abordou o Congresso numa sessão a portas fechadas (a qual supõe-se ter sido acerca da legislação FISA) para informar os legisladores acerca da crescente possibilidade de um grande colapso económico se as condições nos mercados de crédito não se estabilizassem rapidamente.

As perturbações no Bear e o perigo que elas apresentam para o sistema global foram explicitadas num artigo do editor de Counterpunch , Alexander Cockburn, em Novembro de 2006: “Lame Duck: The Downside of Capitalism”:

“Num documento de informação sob o casto título de ‘Private Equity: A discussion of Risk and Regulatory Engagement’ , o FSA toca o alarme.

“Alavancagem excessiva. A quantidade de crédito que os prestamistas estão desejosos de conceder a transacções privadas de acções aumentou substancialmente. Estes empréstimos podem, em certas circunstâncias, não ser inteiramente prudentes. Dados os níveis actuais de alavancagem e desenvolvimentos recentes no ciclo económico/creditício, o incumprimento de uma grande companhia privada apoiada por acções ou de um conjunto de companhias mais pequenas apoiadas por acções parece inevitável. Isto tem implicações negativas para prestamistas, compradores da dívidas, ordem dos mercados e, concebivelmente, em circunstâncias extremas, estabilidade financeira e elementos da economia do Reino Unido”.

Tradução: Isto está prestes a explodir!

“A duração e o impacto potencial de qualquer evento de crédito pode ser exacerbado por questões operacionais que tornam difícil identificar que finalmente possui o risco económico associado a uma compra alavancada (leveraged buy out) e como estes proprietários reagirão numa crise. Estas questões operacionais decorrem do uso extensivo de práticas de transferência de risco opacas, complexas e consumidoras de tempo tais como transferência de direitos (assignment) e sub-participação, juntamente com a utilização acrescida de derivativos de crédito. Estes derivativos de crédito não podem ser confirmado de um modo atempado e a quantia comerciada pode exceder substancialmente a quantia dos activos subjacentes” (citação)

Tradução: “O sistema de crédito do mundo é um vasto caixote de lixo de transacções não rastreáveis de valor brutalmente inflacionado”.

O problema é que a supervisão e estabilidade do sistema de crédito mundial já não está mais ao alcance de instituições internacionais familiares como o Fundo Monetário Internacional ou o Bank of International Settlements. Negociantes privados estão agora instalados em todos os nós estratégicos, a jogar com somas estratosféricas em pirâmides especulativas como o mercado de derivativos de crédito o qual era quase não existente em 2001, mas que atingiu os US$17,2 milhões de milhões no fim de 2005. Warren Buffett, o mais famoso investidor da América, denominou os derivativos de crédito “armas financeiras de destruição em massa”. (Alexander Cockburn, “Lame Duck: The Downside of Capitalism” counterpunch.org)

O artigo de Cockburn antecipa os problemas actuais do Bear e mostra porque o Fed não pode deixá-lo apodrecer e infeccionar todo o sistema. Todos os bancos de investimento e correctores fazem negócios uns com os outros, tomando partido em transacções como contrapartes. Se um jogador afunda isto aumenta a probabilidade de mais falências. Assim, o problema tem de ser contido.

O volume de contrato de derivativos, cujas maiores transacções não são comerciadas publicamente, explodiu nos últimos poucos anos. Estas transacções não regulamentadas, que Bill Gross da Pimco denomina sistema bancário sombra, assumiram o centro do cenário no momento em que as condições do mercado continuam a deteriorar-se e o ciclo baixista de desalavancamento começa a acelerar-se. O massacre em curso no imobiliário deixou o mercado de investimento estruturado em estado de congelamento, o que significa que os blocos das fundações (isto é, títulos apoiados por hipotecas) sobre os quais repousa toda esta alavancagem excessiva, está a começar a desmoronar. É a confusão geral.

O comércio de derivativos, particularmente em Credit Default Swaps (CDSs), frequentemente excede o valor dos activos subjacentes muitas vezes mais. Os CDSs são instrumentos financeiros baseados sobre empréstimos e títulos que especulam sobre a capacidade de uma companhia de reeembolsar dívida (um tipo de seguro não regulamentado). O mercado de CDSs é de aproximadamente US$45 milhões de milhões, apesar de o valor agregado do mercado hipotecário americano ser apenas de US$11 milhões de milhões, quatro vezes menor. Isso é um bocado de alavancagem e pode ter um efeito bola de neve quando as transacções de CDSs começarem a desatar-se.

Na verdade, o maior risco para o sistema financeiro é o risco de contraparte, a possibilidade de que algum grande banco de investimento, como o Bear, vá abaixo e succione o resto do mercado consigo devido à magnitude das suas perdas. No ano passado o Bear era a 12ª maior contraparte para transacções de CDSs segundo as classificações Fitch. Se elas desaparecesem subitamente, os efeitos para o resto do sistema seriam catastróficos.

Bernanke, o presidente de Fed, tinha assento na direcção do Federal Open Market Committee (FOMC) quando os gurus do investimento e os vivaços da corretagem configuravam os mercados de um modo que beneficiava as suas próprias fortunas pessoais enquanto aumentava os riscos de fracasso sistémico. Os SIV , os conduits , os derivativos opacos, as operações fora do balanço, as lagoas negras, a alavancagem maciça e a precipitada expansão do crédito; tudo isso emergiu durante o seu mandato (e de Greenspan). O Federal Reserve é amplamente responsável pelo incêndio florestal que actualmente tenta extinguir.

Agora, mais uma vez, Bernanke está a actuar para além do seu mandato e a recorrer a uma lei que não tem sido utilizada desde a década de 1960 a fim de que o Fed possa tornar-se o credor de uma instituição que tentou enriquecer-se através de apostas especulativas selvagens com investimentos tóxicos dúbios e que agora são absolutamente sem valor. Se isto não é uma razão boa e suficiente para abolir o Federal Reserve, então o que será?

Os mercados mais transparentes e lucrativos do mundo foram transformados num reles carnaval administrado por vendedores ambulantes, trapaceiros e artistas da fraude. O salvamento do Bear é mais um exemplo gritante de um sistema a que falta toda a credibilidade e está a auto-destruir-se rapidamente.

Fonte: http://resistir.info/

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Jean-Claude Guillebaud

Para o ensaísta francês, é preciso combater todo tipo de clericalismo, principalmente o econômico

Eduardo Socha

A palavra está um pouco fora de moda, mas Jean-Claude Guillebaud, 68, é acima de tudo um polímata. Recusando a estreita visão de mundo que caracteriza a fragmentação contemporânea do saber (hoje celebrada principalmente na figura do “especialista”), Guillebaud não teme escrever sobre tudo aquilo que considera fonte dos grandes impasses morais vividos pela condição pós-moderna. Sim, parece genérico demais, e tal ousadia envolve certamente o perigo de encontrar, a qualquer momento, o ridículo de um pensamento diletante e estéril. Porém, nos seis livros lançados até agora - que tematizam desde questões bioéticas até as consequências dos movimentos libertários e hedonistas da década de 1960 e 1970, passando pelas convulsões atuais do embate entre fé e razão no início deste século - Guillebaud apresenta a destreza intelectual garantida pelo intenso trabalho de leitura e pesquisa, ou seja, a destreza de quem já superou há algum tempo o risco de diletantismo.

Antes de se tornar um dos ensaístas mais respeitados na França (venceu o prêmio Jean-Jacques Rousseau e o disputado prêmio Renaudot na categoria ensaio), Guillebaud foi repórter especial do jornal Le Monde e editor de humanidades das Éditions du Seuil, de onde saíram os livros de Lacan, Barthes, Deleuze, Morin, Serres, entre outros. A experiência consolidada por estas duas atividades ao longo de mais de trinta anos resultou num estilo claro, dinâmico, carregado de estatísticas, constatações de fatos e de detalhes do dia-a-dia, que consegue dialogar, ao mesmo tempo, com as correntes sociológicas e filosóficas mais polêmicas da cena atual.

Seu último livro, A força da convicção (Editora Bertrand Brasil), lançado há poucos meses no Brasil, faz parte desse projeto cuja unidade pretende fornecer um amplo diagnóstico sobre as grandes mutações da pós-modernidade. Dividido em três partes, o autor examina inicialmente o suposto esvaziamento das crenças no âmbito moral e político, que teria mesmo motivado o surgimento de expressões como a “era do vazio” e o “fim da história”. Guillebaud constata que as antigas convicções, na realidade, deram lugar a “patologias da crença” e defende a necessidade de uma reflexão de essência teológica para compreender as formas regressivas de credulidade que se disseminam com o avanço do capitalismo global: a idolatria pelo individualismo de consumo, o dogmatismo dos processos de privatização, a cultura transitória do zapping e da devoção publicitária, a transcendência religiosa presente nos discursos elogiosos à globalização, são apenas algumas delas. Na terceira parte do livro, o autor propõe o fortalecimento institucional de crenças, mas de crenças paradoxalmente amparadas na razão, distantes do dogmatismo e da idolatria. Pois o que interessa a Guillebaud é atacar toda forma regressiva da religiosidade, não a própria religiosidade, denunciando assim o caráter absurdo do ateísmo militante.

Nesta entrevista, gentilmente concedida à CULT por telefone, Guillebaud conversou sobre os principais temas do seu último livro: a crença patológica na economia, o terrorismo fundamentalista, a falta de projetos da União Européia, terrorismo, e principalmente a reativação contemporânea do debate entre fé e razão.

CULT - O senhor foi repórter durante muitos anos do jornal Le Monde e atualmente contribui para a revista Nouvel Observateur. Como sua experiência no jornalismo influenciou sua atividade de ensaísta?
JCG - Trabalhei como jornalista até meados dos anos 80, quando resolvi abandonar a carreira para coordenar a seção de Ciências Humanas das Editions du Seuil, em Paris. Nessa época, tive contato com os trabalhos de Edgar Morin, Michel Serres, René Girard, acompanhando de perto todos os grandes colóquios internacionais junto a estes pensadores, inclusive dois encontros no Brasil, em Campinas e no Rio. Fui me envolvendo cada vez mais com esse trabalho editorial, cobrindo deste antropologia até ciências cognitivas. Depois de dez anos, disse para mim mesmo que talvez valesse a pena fazer meus próprios livros, tirando proveito daquilo que aprendi no jornalismo, ou seja, ser claro e tornar acessíveis algumas das questões contemporâneas que à primeira vista nos parecem difíceis. Então comecei este projeto de escrever sobre aquilo que chamo de distúrbios contemporâneos, as grandes mutações que estamos vivendo. Comecei a publicar em 1995, e A força da convicção é o sexto livro deste projeto.

CULT - Já no início do livro, nota-se que seu método rejeita toda interpretação setorizada da realidade, propondo uma visão totalizante, quer dizer, indo na contra corrente da tendência contemporânea que privilegia a figura do especialista. Esse tipo de abordagem faz alusão ao conceito do “pensamento complexo”, de Edgar Morin. De que forma Morin orientou seu trabalho?
JCG - Fui editor do Morin por quase vinte anos, então conheço muito bem a produção dele. Morin sempre se preocupou com esta fragmentação crescente do conhecimento. Ou seja, quando as discussões se limitam a pensamentos parciais e especializados, quando os economistas só falam de economia, os geneticistas só falam de genética, os sociólogos só de sociologia, corremos o risco de não dispormos mais de uma representação consistente do mundo. O verdadeiro perigo, que Morin e eu discutíamos na época, é aquilo que hoje se convenciona sob o nome de reducionismo, o modo que cada um tem de explicar tudo através de sua própria especialidade.

CULT - Seu livro critica as teorias recentes que afirmam um certo esgotamento das crenças no plano moral e político, sobretudo após os movimentos libertários dos anos 1960 e após o colapso político do antigo bloco socialista; ou seja, a tese de que estaríamos vivendo uma “era do vazio”, segundo a expressão de Gilles Lipovetsky, ou ainda, o “fim da história”, segundo a de Francis Fukuyama. Qual a ilusão fundamental nestas teorias que o senhor procura denunciar?
JCG - A ilusão fundamental é acreditar que uma sociedade pode se organizar apenas mediante um certo padrão de racionalidade. Nos anos 1980, acreditaram - e essa era justamente a tese de Lipovetsky, mas também de muitos outros - que a crença era um fenômeno arcaico, que iria desaparecer em pouco tempo. Pensaram que já fazia parte do passado, e que as sociedades modernas seriam governadas não mais por crenças, mas pelo saber tecnocientífico, de um lado, pelo jogo dos interesses e pelo jogo transitório das convicções, de outro. Mas foi um erro espantoso ter cogitado isso, pois é evidente que quando as crenças são expulsas pela porta da frente, voltam corrompidas pelas janelas…

CULT - É o que o senhor chama de “patologias da crença”?
JCG - Sim, voltam da pior forma possível, como as seitas New Age, a tirania publicitária, o fascismo do marketing. Ou seja, em vez de grandes religiões, seitas. Em vez de padres, gurus. É ilusório pensar que isso se refere a credulidades inofensivas. Na Europa, aumentou enormemente nos últimos anos a onda do esoterismo, da paranormalidade, da astrologia, destes abrigos da fé. Cada dia novas formas de credulidade aparecem. É como se houvesse uma carência e uma demanda de crenças que não pudessem mais ser satisfeitas. Fiquei muito surpreso ao constatar estatisticamente essa proliferação de credulidades. Mas existe algo mais grave do que isso. Boa parte do conhecimento que geralmente se apresenta como saber racional, por exemplo, o economicismo, carrega uma série de crenças mal disfarçadas, ancoradas na mais ingênua credulidade. É flagrante.

CULT - Como assim?
JCG - O discurso econômico está todo impregnado de crenças. De início, a moeda já está fundamentada numa crença, num acordo social. Até aí, sem problemas. Mas quando a economia passa a se apresentar como ciência, como se explicasse algo próprio à natureza das coisas, aí se trata de uma impostura. Aqui na França, toda semana aparecem artigos nos jornais falando sobre a disposição moral do cidadão francês, resumindo, se o cidadão está alegre ou triste. Nesta semana, por exemplo, o humor do francês está em baixa, e os editorialistas de jornais importantes, como Le Monde e Nouvel Observateur, comentam esse dado com uma seriedade que me assusta. O curioso é que ninguém se pergunta como este dado é calculado. Aí você faz uma busca rápida no site do Institut National de la Statistique et des Études Économiques (órgão público para estatísticas) e descobre que este indicador para a disposição moral do francês, acredite ou não, é calculado de acordo com seu desejo de compra. Quer dizer, se o cidadão está com vontade de comprar, então significa que está de bom humor. Mas não poderíamos dizer o contrário? Afinal, quantas pessoas não falam “ah, hoje estou deprimido, acho que vou comprar um par de sapatos”. É uma crença tão tola quanto a crença em cartomantes, mas isso não impede que ela apareça em jornais sérios e se apresente como verdade científica. Veja outro exemplo. Todo dia, mas o dia inteiro mesmo, a mídia fala sobre o tal crescimento econômico. Dizem à população francesa que se o PIB crescer 2,2% em 2008, será o paraíso. Se a taxa for de 1,8%, será o inferno. A gente tem a impressão às vezes de que a taxa de crescimento substituiu o purgatório. Mas aí a gente descobre como se calcula o crescimento e percebe que a metodologia utilizada é no mínimo estranha. O naufrágio do petroleiro “Erika” na região da Bretanha, um dos maiores desastres ecológicos do mundo, poluiu cerca de 500 km da costa francesa. O processo judicial contra a empresa responsável começou recentemente e provavelmente ela será condenada. Penso que o naufrágio de um petroleiro que polui 500 km da costa marítima, mata mais de 200 mil pássaros, é uma catástrofe enorme, não? Pois bem, do ponto de vista econômico, não foi. Na verdade, foi algo formidável. Porque o naufrágio fez aumentar a atividade de várias empresas de limpeza e de setores associados, com seus caminhões e equipamentos para retirar os dejetos, o que ativou um ciclo de produção altamente lucrativo. Tanto que contabilizaram o desastre ecológico como algo positivo para o crescimento econômico.

CULT - Não há revisão destes indicadores? O governo mesmo não reavalia seus parâmetros?
JCG - É difícil entender como isso acontece. O presidente Sarkozy chamou agora dois economistas bastante conhecidos, dois Prêmios Nobel de Economia, Amartya Sem e Joseph Stiglitz. Ele deu a missão de revisar os parâmetros que medem o crescimento e reconsiderar principalmente o “critério qualidade de vida”. Quer dizer, foram necessários mais de 30 anos para se dar conta disso. Tudo para mostrar que esses números do economicismo, que se apresentam diariamente como dados científicos, não passam de credulidades temporárias.

Fonte: Revista Cultural

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Energia oceânica é a próxima onda verde da Europa

A irlandesa OpenHydro e a alemã RWE estão investindo milhões nas iniciativas para transformar a energia das ondas em eletricidade

Mark Scott

Neste momento em que o preço do petróleo atinge valores recordes quase que diariamente e o aquecimento global assume uma importância cada vez maior na agenda pública, a necessidade de fontes de energia alternativa nunca foi tão urgente. Mas embora as energias eólica e solar tenham dominado a recente corrida para o investimento em fontes energéticas renováveis, os analistas do setor percebem que este pode ser o momento de a energia oceânica brilhar.

A energia oceânica - o uso da energia das ondas e das marés para a produção de eletricidade - está amadurecendo rapidamente como um recurso verde viável que poderia contribuir para que fossem alcançadas as metas para a redução dos gases causadores do efeito estufa e da dependência dos combustíveis fósseis.

Companhias de energia da Europa e da América do Norte, tais como a Emera, do Canadá, e a RWE, da Alemanha, estão investindo milhões no financiamento de projetos eólicos e de marés. Esse investimento tem conduzido à criação de novas tecnologias mais eficientes, e dezenas de protótipos deverão estar prontos para o lançamento comercial nos próximos cinco anos. “Há um interesse enorme pelas tecnologias de geração de energia das ondas e das marés”, afirma Thomas Boeckmann, analista de energias limpas da firma de pesquisas de mercados StrategyEye, em Londres. “Esse setor está recebendo muita atenção das empresas de energia, que poderão oferecer apoio financeiro e conhecimentos técnicos para essas tecnologias pioneiras”.

Os investidores estão interessados
Não é de se surpreender que as companhias de eletricidade estejam ansiosas para explorar a energia marinha. Segundo o Carbon Trust do Reino Unido, um grupo de assessoria e pesquisa financiado pelo governo britânico, os oceanos do planeta contam com uma capacidade de produção de 4.000 terawatts horas por ano de eletricidade - o que equivale a dez vezes à necessidade do Reino Unido.

É claro que há um longo caminho a percorrer até que se atinja tal patamar. Os analistas acreditam que até 2020 a Europa contará com uma capacidade instalada de usinas para produção de energia elétrica a partir das ondas e das marés de 2.000 a 5.000 megawatts. Isso equivale a entre quatro e dez usinas termoelétricas movidas a carvão.

O potencial de crescimento já está atraindo investimentos. A OpenHydro, com sede em Dublin, por exemplo, recebeu um total de mais de US$ 80 milhões de empresas de energia e investidores desde 2005 para desenvolver um novo tipo de turbina instalada no fundo do mar e que gira para produzir eletricidade à medida que a maré sobe ou desce. Entre os investidores está a Emera, do Canadá, que é detentora de 7% das ações da companhia.

Parcerias com companhias de eletricidade podem ajudar
A OpenHydro já conta com um protótipo de 250 quilowatts nas águas ao largo da costa da Escócia, e pretende instalar uma usina de um megawatt no Canadá em 2009. O presidente-executivo da companhia, James Ives, diz que o maior obstáculo para a energia marinha é persuadir os investidores de que ela é capaz de produzir eletricidade de forma consistente. “É preciso mostrar que essa tecnologia é confiável até mesmo nas piores condições”, explica Ives.

Os analistas acreditam que as parcerias com companhias de eletricidade podem ajudar as empresas que exploram a energia marinha a superar esses problemas. Um dos motivos para isso é o fato de as firmas tradicionais de eletricidade contarem com grande experiência na construção de cabos e gasodutos subaquáticos. Parceiros ricos também poderiam ajudar a reduzir as lacunas entre pesquisa, desenvolvimento e comercialização das tecnologias marinhas. “A cooperação com as empresas de eletricidade é importante porque ela proporciona uma injeção de verbas que demonstra que as companhias de energia estão levando o setor a sério”, afirma Stephan Wyatt, gerente de aceleração de tecnologias do Carbon Trust.

Esta é sem dúvida a esperança da Wavegen, do Reino Unido. Em 2000, esta subsidiária da alemã Voith Siemens Hydro instalou a primeira usina de geração de energia a partir da força das ondas do mar que foi conectada à rede de energia elétrica. O protótipo incomum utiliza o vento - as fortes brisas geradas pelas ondas - para movimentar geradores localizados em uma estrutura marítima. A Wavegen trabalha agora em conjunto com o Departamento Basco de Energia para construir uma usina de testes maior na costa norte da Espanha. Além disso, uma outra, totalmente comercial, deverá estar em funcionamento na Escócia em 2010.

A energia das ondas é amiga do meio ambiente
É claro que as experiências com a energia marinha são feitas há décadas. Uma das primeiras usinas do mundo a explorar a energia das marés, situada em La Rance, na Bretanha, está em operação desde 1966. Construída na foz de um estuário no qual as marés são poderosas, a usina de 240 megawatts produz eletricidade quando a água deslocada pelas marés passam pelas turbinas instaladas na barreira.

As tecnologias experimentais de hoje tendem a ser mais ecologicamente sensíveis do que as do passado. A Pelamis Wave Power, da Escócia - que antigamente chamava-se Ocean Power Delivery - criou uma “fazenda de ondas” amiga do meio ambiente na costa de Portugal em parceria com a empresa de eletricidade latino-americana Enersis (ENI). A instalação já produz 2,25 megawatts de eletricidade.

Agora a Pelamis e a Enersis, uma unidade da empresa espanhola de eletricidade Endesa, pretendem expandir a usina para que ela produza 20 megawatts. Max Carcas, o diretor de desenvolvimento de negócios da companhia, também visa a América do Norte para a expansão das suas operações, e acredita que até 2012 a energia das ondas será responsável por uma indústria de US$ 10 bilhões anuais.

A maré está mudando
É bem verdade que existem muitos riscos para as firmas de energia marinha. Altos custos iniciais, competição de outras fontes renováveis e o temor dos investidores quanto à forma como essas tecnologias funcionarão na prática são fatores que podem prejudicar a inserção da energia oceânica na lista dos meios bem aceitos para a geração de energia elétrica. Além do mais, é necessário um apoio governamental generoso e consistente para possibilitar que esta indústria incipiente decole. Atualmente energia elétrica derivada da energia marinha custa pelo menos dez vezes mais do que a eletricidade produzida por meio das fontes tradicionais. Países como Reino Unido e Espanha oferecem subsídios à energia marinha, mas o temor de que tal apoio possa ser reduzido confundiu ainda mais os investidores que desejam financiar esses projetos.

Apesar dessa incerteza, os investidores e as empresas de eletricidade não deixaram de inundar o setor com verbas, em busca de tecnologias pioneiras. De fato, Boeckmann, da StrategyEye, prevê que, graças aos crescentes investimentos, a energia oceânica poderá se constituir em 20% dos recursos totais renováveis da Europa até 2020, comparados aos 40% previstos para a energia eólica.

Isso é uma boa notícia para companhias de todo o continente que esperam que os seus projetos possam ser a próxima grande onda no setor energético. Embora as energias eólica e solar tenham captado a maior parte dos investimentos nas fontes renováveis até o momento, a maré está mudando em favor da energia oceânica.

Fonte: Der Spiegel

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União Européia procura o seu “George Washington”

Henri de Bresson

Quem será o futuro presidente do Conselho Europeu? Tony Blair, o flamejante britânico, Jean-Claude Juncker, o sábio do Luxemburgo, Anders Fogh Rasmussen, o “azarão” dinamarquês? Ou alguma outra personalidade ainda por surgir entre os nomes que têm sido lançados aqui e lá?

Cada um desses nomes tem a sua história, que reflete uma concepção própria daquilo que deverá ser o novo presidente da Europa. Este deverá supostamente assumir em 1º de janeiro de 2009, para um mandato de dois anos e meio que poderá ser renovado uma vez, quando o tratado de Lisboa entrará em vigor, mas as suas atribuições ainda estão de longe de serem definidas.

“A Europa deve sair à procura do seu George Washington (o primeiro presidente dos Estados Unidos), ou até mesmo inventá-lo”, comentou com entusiasmo Valéry Giscard d’Estaing, na quarta-feira (20/02), em Hamburgo. O antigo presidente da convenção que havia sido encarregada de elaborar a “falecida” Constituição européia argumentou em favor da idéia de incluir a opinião pública ao processo de escolha. “Nós não podemos fracassar nem decepcionar no processo da designação do primeiro presidente da história da Europa! Nós estamos perfeitamente cientes de que muitos dirigentes se satisfariam com uma personalidade apagada, que não viesse ofuscar as suas próprias atividades no plano nacional. Mas isso equivaleria a um retrocesso, ou, pior ainda, a uma ferida grave que seria infligida ao belo sonho de união”, disse.

Por ocasião da convenção, duas concepções haviam se enfrentado: a de um presidente “chairman” (mais simbólico), encarregado de coordenar as atividades do Conselho Europeu, que reúne quatro vezes por ano os chefes de Estado e de governo dos 27 países-membros, mas cuja visibilidade ficaria limitada; e aquela de um presidente “líder”, mais atuante, que encarnaria a União junto aos cidadãos, uma opção mais próxima das idéias francesas.

Foi isso que conduziu Nicolas Sarkozy a lançar o nome de Tony Blair, 54 anos, um homem pouco inclinado a se limitar a exercer apenas funções decorativas. O executivo francês lembra que o ex-primeiro-ministro inglês é de um país que sempre se mostrou cético em relação à Europa, um país que não é membro nem da zona do euro, nem do espaço Schengen (que aboliu as fronteiras entre os países da União Européia) - o que torna Blair inadequado para o cargo, segundo muitos. Porém, prossegue Sarkozy, Blair sempre se mostrou convencido do lugar ocupado pela Grã-Bretanha na Europa, lançando o programa de defesa européia em 1998. Contra Tony Blair recai o número excessivo de inimigos, principalmente por causa do papel que exerceu na guerra no Iraque.

Atualmente, o candidato de consenso é o primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, 53 anos, que preside as reuniões dos ministros das finanças da zona do euro. De formação cultural dupla, francesa e alemã, ele sabe manejar um humor feroz, mas se caracteriza acima de tudo por ser um conciliador nato; além de apresentar a vantagem de ser natural de um pequeno país.

“Um candidato quase perfeito demais”, dizem em Paris. Mas Nicolas Sarkozy daria preferência, segundo observadores, para alguém menos em destaque na cena européia, como o primeiro-ministro dinamarquês, o liberal Anders Fogh Rasmussen, 54 anos. O seu país costuma ser citado como modelo por ter sido capaz de conciliar as reformas liberais com o Estado de bem-estar. Líder de um governo que depende da extrema-direita, ele precisaria apresentar garantias da sua fé na Europa. Ele planejou organizar um referendo em setembro para que sejam suprimidas as restrições da Dinamarca, que não participa nem da defesa européia, nem adotou o euro.

As funções do futuro ministro das relações exteriores da União, que será chamado de “alto representante da União para as relações exteriores e a política de segurança”, também são objetos de negociações. Essas discussões apresentam uma complicação: o ministro será também o vice-presidente da Comissão. Este, por sua vez, deverá ter o nome aprovado pelo Parlamento Europeu. O atual titular do cargo, o espanhol Javier Solana, um antigo secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico-Norte), aceitaria retomar a função. Ele encarna a continuidade de uma política externa mantida sob o controle dos grandes Estados, que querem se manter nos comandos do jogo.

O eurodeputado ecologista Daniel Cohn-Bendit citou por diversas vezes o nome do seu amigo, o ex-ministro alemão das relações exteriores Joschka Fischer. Também foram mencionados o francês Michel Barnier e o atual primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt, cuja candidatura à presidência da Comissão em 2004 havia sido vetada pelos seus adversários.

Da mesma forma que para a presidência do Parlamento europeu, a escolha do presidente da Comissão deverá esperar até as eleições européias de 2009. No caso de uma vitória da direita, o português José Manuel Barroso reúne todas as chances para ser reconduzido para um segundo mandato: ele é simpatizante dos anglo-saxões, é defensor da aliança atlântica e representa um pequeno país… Além de tudo, ele conta com o apoio de Nicolas Sarkozy.

Fonte: Le Monde

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DEMOCRACIA E JUSTIÇA SOCIAL, SÓ COM ESCOLA PÚBLICA

João Alberto Capiberibe (*)

Elas e eles tinham jogado a toalha depois de uma derrota acachapante, dessas que nós não esquecemos tão cedo. Aconteceu em junho deste ano, no segundo mês da greve dos professores. Reunidas em uma sala, além de mim havia dezesseis pessoas – treze professoras e três professores da rede pública estadual. A discussão girava em torno do desgaste político do governo que não aceitava conversar, muito menos atender às reivindicações salariais da categoria. Eu era o único não professor, limitava-me a ouvir o desfile de argumentos, até que lá pelas tantas me dirigi ao grupo:

- Ouçam! Por favor, ouçam! Posso lhes fazer uma pergunta? – Em uníssono eles me responderam:

- Claro!

- Quem entre vocês tem filhos estudando na escola privada?

Que goleada. Doze a quatro. Apenas quatro resistentes mantinham seus filhos na escola onde atuavam. Senti que, para se contrapor esse resultado desanimador, seria necessário bem mais que retórica política.

Na seqüência da conversa fui informado de que o sindicato exigia 10% de aumento, mas o governo só queria dar 4%. A partir daí entramos em outra linha de reflexão sobre a luta da categoria. Mesmo que a paralisação terminasse em vitória e fossem obtidos os 10% pretendidos, ainda assim o aumento na receita familiar não daria para cobrir uma única mensalidade na escola privada. Considerando ainda que ali a maioria tinha mais de um filho, era fundamental então focar as reivindicações na melhoria da qualidade do ensino para que seus filhos voltassem a estudar na escola pública gratuita.

Essa posição ganhou adesões e análises mais aprofundadas. Uma professora relatou que seus vizinhos são contra a greve porque só se fala em aumento de salários e que a categoria não está nem aí para qualidade do ensino.

- Na hora que colocarmos nossos filhos na escola pública, nós todos vamos travar a luta pela qualidade, aí então, tenho certeza que a comunidade vai estar do nosso lado na luta por melhores salários – concluiu a professora.

É isso mesmo, interveio outra, que acrescentou:

- O professor da escola privada é o mesmo da escola pública, com uma diferença, aqui o governo paga muito, mais muito melhor mesmo!

Finalmente uma voz masculina decidiu quebrar o silêncio, disse ele:

- Se o professor é o mesmo, se o salário do governo é melhor, porque então a qualidade do ensino público é pior? Por que tenho que matricular meu filho em uma escola particular?

É essa a questão que precisamos responder.

Na verdade quem está respondendo com precisão e ousadia a essa pergunta é o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Ele sabe, como eu sei e tantos outros sabem, que o problema da escola pública é político. Por isso, ele está apresentando um projeto de lei que obriga os detentores de mandato popular a matricular seus filhos na rede pública de ensino básico. Nada mais democrático do que o filho do gari estudar na mesma escola do filho do prefeito, do governador ou do senador. Bravo! Esse é o país dos meus sonhos.

Já imagino o protesto dos contrários que alegarão cerceamento do direito de escolha, de falta de liberdade e democracia. Para esses, a solução é pra lá de simples: basta não se candidatarem, ninguém é obrigado. No entanto, uma vez candidato por livre e espontânea vontade, uma vez eleito pela vontade do povo, ele passa então a ocupar espaço público; logo, deve se submeter à obrigatoriedade. Por último, sugiro que a lei passe a valer para os próximos eleitos, nada de mudar as regras na metade do jogo.

Concluo dizendo que isso me parece uma sacada genial desse brasileiro que não desiste nunca da utopia da educação com qualidade e para todos. Vamos que vamos, um dia chegaremos lá.

(*) João Alberto Capiberibe, 60 anos, ex-preso e exilado político, ex-prefeito de Macapá (AP), ex-governador e ex-senador do Amapá, é vice-presidente nacional do PSB.

Fonte: Fazendo Media

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Garimpeiros brasileiros buscam ouro na Guiana Francesa

Laurent Marot

A chuva cai sobre a centena de “carbets” da aldeia, abrigos sumários cobertos por lonas de plástico preto que se erguem aqui e lá, à beira de um caminho lamacento. Já faz vários meses, este lugar é utilizado como um local de passagem, de abastecimento e de entretenimento pelos garimpeiros clandestinos que buscam ouro na Alta Mana, no coração da floresta guianense, que fica a vários dias de piroga (um barco indígena) da costa atlântica.

Sentado na margem do rio, Edilson, 57 anos, está aguardando uma embarcação para retornar ao litoral, e voltar para casa, no Brasil, no Estado do Maranhão, um dos mais pobres do país. “Eu tive duas costelas quebradas quando uma parede desmoronou no garimpo. Vou procurar atendimento médico no Brasil, e depois descansar”, diz, com o olhar perdido nas águas lamacentas do rio Mana, poluídas pelos resíduos químicos dos garimpos clandestinos nos arredores. Há sete anos que Edilson está em busca da fortuna na floresta guianense, ele que já foi garimpeiro - sempre em busca de ouro - em seu país. “Primeiro, a gente trabalha com as mãos, como os veteranos, e depois a gente compra um motor, quando isso se torna possível, a prestações e passa a trabalhar com cinco ou seis pessoas”, explica este pequeno patrão. “Os operários recebem 30% do valor do ouro, eu pago as despesas - o combustível, alimentos - e o que sobrar é para mim, mas, em muitos casos, não sobra grande coisa”, confessa. Isso é suficiente para financiar a escola ou a universidade para os três filhos. “Eles não precisarão levar a vida que eu levo, eles estão estudando”, comemora o garimpeiro.

“Aqui, 90% das pessoas são analfabetas. Eu mesmo, mal consigo escrever o meu nome”, explica Josué, cerca de 40 anos, magro e desdentado, que busca ouro há vinte anos, primeiro no Brasil e agora na Guiana. “No Brasil, quando uma pessoa não tem diploma, ela não consegue encontrar um emprego bem remunerado, e o salário mínimo - que hoje vale R$ 390 - não é suficiente para sustentar a família”, diz. No espaço de seis meses, ele diz ter enviado para a sua família cerca do dobro do que ele teria ganhado com um salário mínimo brasileiro.

Para mudarem de vida, todos eles sonham encontrar um veio, igual àquele que foi descoberto no ano passado a vinte quilômetros dali, num terreno que já é bastante conhecido de todos os garimpeiros clandestinos da Guiana. “O rapaz que descobriu aquela jazida foi embora com 100 kg de ouro. Então, nós fomos até lá e montamos uma cooperativa, relata Lourivaldo, um dos sócios da “cooperativa”. “Nós conseguimos extrair 200 kg de ouro; eu mesmo obtive um lucro de 4 kg”, diz, exibindo uma pedra daquele garimpo na qual brilham palhetas de ouro. O homem não circula pela área sem o seu fuzil calibre 12, e ele se diz cansado da insegurança que passou a predominar em volta do garimpo, onde três pessoas foram mortas nos últimos meses, em conseqüência de roubos e de brigas.

A grande maioria dos garimpeiros da Guiana nunca conhecerá a felicidade que se sente ao descobrir um veio, e gastará no mesmo local os poucos gramas de ouro arrancados da floresta. Na aldeia há um comércio que inclui uma padaria, cantinas, um joalheiro, pequenas quitandas. Durante a noite, há mulheres que dançam nas discotecas improvisadas e vendem o seu corpo por alguns gramas de ouro.

“Aqui, tudo é muito caro”, se queixa Josué. “O quilo de arroz custa um grama e meio de ouro - cerca de 27 euros (R$ 69) com base na cotação do ouro na floresta, não refinado -, o pão, um meio-grama de ouro (9 euros, R$ 23), um ovo, dois décimos de grama (3 euros, R$ 7,66)…”, enumera. Essas tarifas exorbitantes podem ser explicadas pelo custo elevado do transporte das mercadorias de contrabando, a partir de Paramaribo, a capital do Suriname vizinho. “É preciso desembolsar 300 gramas de ouro, ou seja, cerca de 5.000 euros (R$ 12.760), para mandar vir clandestinamente quatro toneladas de frete de Albina, no Suriname; este material é encaminhado de carro até Saut Sabbat, e depois de barco pelo rio Mana”, explica Isaias, que mantém um “carbet” quitanda na aldeia. “A viagem costuma demorar oito dias, mas pode durar o dobro quando as águas estão mais baixas, o que torna as coisas muito difíceis”, confessa o jovem rapaz. “É igual a um jogo, às vezes você ganha, e então, de vez em quando você perde”, prossegue, fazendo alusão aos riscos de naufrágio, ou às barragens de policiais militares. “Os policiais já confiscaram o meu barco, queimaram as minhas mercadorias, e até mesmo o meu ‘carbet’”, explica Luisa, a sua vizinha de “carbet”, que também compra mercadorias no Suriname para trazê-las para a aldeia. Então, o frete é encaminhado até os garimpos; os homens o carregam nas costas ou por meio de “quads”, pequenas motos de quatro rodas capazes de transportar barris de combustível de 200 litros, e que permitem utilizar uma rede de pistas clandestinas, encobertas pela floresta.

A vinte minutos a pé da aldeia, um garimpeiro nos conduz para ver os restos de um garimpo, de fato um buraco repleto de água em plena floresta. “Nós evitamos derrubar as árvores”, explica, “para nos manter escondidos dos policiais”. Tão logo se ouve o ruído de um helicóptero, os olhos escrutam o céu. “Aqui, as pessoas temem a qualquer momento uma intervenção, e por via das dúvidas, todos eles saem para esconder as suas mercadorias na floresta, ou os motores dentro da água”, comenta o nosso guia. “Quando vocês chegaram à aldeia, muitos deles foram se esconder, acreditando que vocês eram policiais”, prossegue.

Dois dias antes da nossa chegada, uma operação chamada de “Anaconda” tomou como alvo um garimpo a alguns quilômetros de lá. A notícia se espalhou rápido, por meio da rede de rádio HF que cobre o interior da Guiana. Em cada aldeia, o “carbet” da rádio é o local onde os garimpeiros costumam comparecer para entrar em contato com a família, por intermédio de uma operadora de telefonia brasileira, mas também para alertar a todos no caso de uma aproximação dos policiais. O transmissor serve também para entrar em contato com uma equipe do pronto-socorro, para organizar evacuações de emergência rumo ao hospital de Caiena, quando ocorrem acidentes nos garimpos, ou ainda surtos de malária. Para um bom número de garimpeiros, o sonho não raro acaba num beco sem saída, em pleno coração da floresta, longe da sua família.

“Muitos vêm para cá com o objetivo de se tornarem muito ricos, mas no fim das contas, eles acabam sem um tostão, e sem terem como retornar ao seu país. Eles ficam doentes e não conseguem ir embora”, comenta Luisa, que deixou os dois filhos no Brasil para tentar a aventura do contrabando nos garimpos clandestinos. “Conheço alguns deles que estão aqui há três ou quatro anos”, acrescenta, “e, sem meios, nunca mais retornaram para casa. Eu mesma tenho medo de que isso aconteça comigo”.

Fonte: Le Monde

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