Sobre duas rodas, a luta por reconhecimento em São Paulo
TRANSPORTE Motoboys de São Paulo enfrentam o perigo, o preconceito dos motoristas e a repressão do prefeito Gilberto Kassab (DEM)
Renato Godoy de Toledo
ELES SÃO uma categoria de 150 mil trabalhadores, somente na cidade de São Paulo. O ofício apresenta o maior índice de periculosidade do Brasil, superando categorias como as dos cortadores de cana-de-açúcar ou trabalhadores de minas. Em sua maioria são jovens e moradores das periferias. Eles são os motociclistas transportadores de pequenas cargas, os populares motoboys.
Desde os anos 1990, na capital paulista, percebe-se um acirramento dos ânimos com relação a essa categoria que cresce exponencialmente. De um lado, os motoboys mostram-se cada vez mais unidos e solidários, de outro, os motoristas de carro sentemse ameaçados pelo comportamento violento de alguns trabalhadores das duas rodas.
O prefeito Gilberto Kassab (DEM), em ano eleitoral e carente de apoio na classe média, apresentou um pacote de medidas para o trânsito que foi rechaçado pelos motoqueiros. Estes reagiram com protestos capazes de piorar o trânsito na cidade. A intenção de Kassab é proibir a circulação de motos nas marginais Tietê e Pinheiros, principais vias da cidade e que circundam o centro expandido. A justificativa da Prefeitura é reduzir os acidentes, mas ela não apresenta alternativas para a circulação dos trabalhadores motociclistas – de fato, as marginais têm os maiores índices de acidentes, tanto com motos, quanto com outros tipos de veículos.
No pacote de Kassab também constam a obrigatoriedade de faixas luminosas no capacete, que deve ter selo do Inmetro, e o aumento do seguro obrigatório de R$ 183,84 para R$ 254,16. Outra medida de Kassab deve onerar muito os motoboys. Para realizar suas entregas e fretes, o motoboy será obrigado a pilotar uma moto registrada em seu nome e que tenha menos de nove anos de uso.
Única opção
Se aprovada a lei, a Honda XLE ano 1999 de Gilmar Martins estaria com os dias contados. “Escolhi ela porque é mais baratinha”, diz Gilmar, com o olhar voltado para seu veículo amarelo, com a pintura já desgastada pelos seus nove anos de rodagem. Dos seus 25 anos, apenas oito meses foram dedicados ao ofício de entregador de comida chinesa e italiana, na zona oeste da capital paulista. O jovem diz que sua família, assim como ele, tem medo da sua profissão, mas o motoboy lamenta não ter tempo para fazer um curso ou para procurar outro emprego. Aliás, Gilmar segue a mesma linha de argumentação dos demais motoboys ouvidos pelo Brasil de Fato: a escolha pelo ofício se justifica pelo salário razoável e a quantidade de ofertas de emprego no setor, não por uma opção profissional. Ele revela que, fazendo entregas numa área delimitada, como é o seu caso, o motoboy acaba conhecendo to- da a região e seus riscos. “Mas o perigo está em todo o lugar”, pondera.
Acidentes
Isaías Dias Santos tem sete anos de profissão. Nesses anos já perdeu amigos motoqueiros em acidentes e, como caso mais próximo, cita seu primo: ele teve a perna amputada e foi obrigado a abandonar a profissão. É difícil encontrar um motoboy que não tenha uma história trágica para contar, sem ter que forçar muito a memória. Com “sorte”, a única lesão de Isaías em sua profissão foi uma torção de tornozelo após uma queda.
Entre quedas e colisões mais graves, cerca de 70 acidentes envolvendo motocicletas são registrados diariamente em São Paulo, segundo o maior sindicato da categoria. O número de mortes aumenta anualmente. Em 2006, morreram 380 motoqueiros, mais de uma morte por dia.
Seguridade
Isaías diz pertencer a uma parcela privilegiada dos motoboys, de certa forma. Com rendimento mensal que gira em torno de R$ 1000 e carteira assinada, ele se sente mais seguro do que em outros tempos. Isso porque ele já trabalhou como “cachorro louco” que, no glossário da categoria, são aqueles que trabalham informalmente na entrega de documentos, passagens e “de dia estão em Campinas, de tarde na zona leste e para onde mais te mandarem”.
Isaías compara o seu atual ofício, entregador de comidas, tal como Gilmar, com os seus tempos de “cachorro louco”. “Aqui é mais tranqüilo, quando sai a comida você tem que entregar em 15 minutos, dá tempo. Agora, para o ‘cachorro louco’ a empresa fala assim: ‘essa passagem tem que chegar na mão do cliente em uma hora’, aí você tem que ‘chinelar’, não tem jeito”. Isaías acredita que a principal causa de acidentes é a pressão que as empresas exercem sobre os motoboys, obrigandoos a “chinelar” todo o tempo.
A segurança que Isaías sente não se dá apenas pelo ritmo de trabalho mais maneiro, mas também pela sua formalidade no emprego. É um fato sabido que a informalidade gera a rotatividade e a instabilidade no emprego, mas Isaías ilustra isso de forma concreta. “Hoje eu tenho uma carta assinada, ainda bem. Mas o cara que não tem, se sofre um acidente, no dia seguinte tem outro no lugar dele. Se, Deus me livre, eu sofro um acidente aqui, eles nem vão me ligar para perguntar como é que eu estou. Só querem saber deles, sendo que nós é que damos o lucro pra eles”.
Carona
Há um projeto de lei, aprovado na Câmara Municipal e vetado pela ex-prefeita Marta Suplicy, que prevê a proibição da circulação de mais de uma pessoa na moto. O projeto é do vereador Jooji Hato (PMDB), que o redigiu após sofrer um assalto de dois ocupantes de uma moto.
Ele estava sozinho em uma moto de 600 cilindradas. “Não era nenhuma CG 125”, comenta Aldemir Martins de Freitas, o Alemão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas, referindose ao modelo da Honda mais popular entre os motoboys. O sindicato tem se posicionado contra os projetos de Kassab e apresentado alternativas para a segurança.
Mesmo entre aqueles que não costumam ceder espaço para o carona em suas motos, há um consenso em repudiar este projeto de lei, que voltou a ser discutido na cidade. “Eu, particularmente, não gosto de levar ninguém. Mas tem muita gente que precisa levar a esposa no trabalho”, afirma José Cecílio, indicando com a cabeça um exemplo deste caso, o seu colega Isaías.
Descontraídos com a presença da reportagem, os motoboys brincam entre si e solicitam uma edição do jornal para ver suas fotos e relatos. Em tom de brincadeira, um deles afirma: “Aí poderemos mostrar pros nossos filhos um dia. ‘Olha aqui, seu pai já foi alguém um dia, já saiu no jornal’”. Com sorriso contido, Gilmar Martins questiona: “Você acha que seu filho vai gostar de ver que você era motoboy?”
Fonte: Brasil De Fato
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 442.