União Européia procura o seu “George Washington”
Henri de Bresson
Quem será o futuro presidente do Conselho Europeu? Tony Blair, o flamejante britânico, Jean-Claude Juncker, o sábio do Luxemburgo, Anders Fogh Rasmussen, o “azarão” dinamarquês? Ou alguma outra personalidade ainda por surgir entre os nomes que têm sido lançados aqui e lá?
Cada um desses nomes tem a sua história, que reflete uma concepção própria daquilo que deverá ser o novo presidente da Europa. Este deverá supostamente assumir em 1º de janeiro de 2009, para um mandato de dois anos e meio que poderá ser renovado uma vez, quando o tratado de Lisboa entrará em vigor, mas as suas atribuições ainda estão de longe de serem definidas.
“A Europa deve sair à procura do seu George Washington (o primeiro presidente dos Estados Unidos), ou até mesmo inventá-lo”, comentou com entusiasmo Valéry Giscard d’Estaing, na quarta-feira (20/02), em Hamburgo. O antigo presidente da convenção que havia sido encarregada de elaborar a “falecida” Constituição européia argumentou em favor da idéia de incluir a opinião pública ao processo de escolha. “Nós não podemos fracassar nem decepcionar no processo da designação do primeiro presidente da história da Europa! Nós estamos perfeitamente cientes de que muitos dirigentes se satisfariam com uma personalidade apagada, que não viesse ofuscar as suas próprias atividades no plano nacional. Mas isso equivaleria a um retrocesso, ou, pior ainda, a uma ferida grave que seria infligida ao belo sonho de união”, disse.
Por ocasião da convenção, duas concepções haviam se enfrentado: a de um presidente “chairman” (mais simbólico), encarregado de coordenar as atividades do Conselho Europeu, que reúne quatro vezes por ano os chefes de Estado e de governo dos 27 países-membros, mas cuja visibilidade ficaria limitada; e aquela de um presidente “líder”, mais atuante, que encarnaria a União junto aos cidadãos, uma opção mais próxima das idéias francesas.
Foi isso que conduziu Nicolas Sarkozy a lançar o nome de Tony Blair, 54 anos, um homem pouco inclinado a se limitar a exercer apenas funções decorativas. O executivo francês lembra que o ex-primeiro-ministro inglês é de um país que sempre se mostrou cético em relação à Europa, um país que não é membro nem da zona do euro, nem do espaço Schengen (que aboliu as fronteiras entre os países da União Européia) - o que torna Blair inadequado para o cargo, segundo muitos. Porém, prossegue Sarkozy, Blair sempre se mostrou convencido do lugar ocupado pela Grã-Bretanha na Europa, lançando o programa de defesa européia em 1998. Contra Tony Blair recai o número excessivo de inimigos, principalmente por causa do papel que exerceu na guerra no Iraque.
Atualmente, o candidato de consenso é o primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, 53 anos, que preside as reuniões dos ministros das finanças da zona do euro. De formação cultural dupla, francesa e alemã, ele sabe manejar um humor feroz, mas se caracteriza acima de tudo por ser um conciliador nato; além de apresentar a vantagem de ser natural de um pequeno país.
“Um candidato quase perfeito demais”, dizem em Paris. Mas Nicolas Sarkozy daria preferência, segundo observadores, para alguém menos em destaque na cena européia, como o primeiro-ministro dinamarquês, o liberal Anders Fogh Rasmussen, 54 anos. O seu país costuma ser citado como modelo por ter sido capaz de conciliar as reformas liberais com o Estado de bem-estar. Líder de um governo que depende da extrema-direita, ele precisaria apresentar garantias da sua fé na Europa. Ele planejou organizar um referendo em setembro para que sejam suprimidas as restrições da Dinamarca, que não participa nem da defesa européia, nem adotou o euro.
As funções do futuro ministro das relações exteriores da União, que será chamado de “alto representante da União para as relações exteriores e a política de segurança”, também são objetos de negociações. Essas discussões apresentam uma complicação: o ministro será também o vice-presidente da Comissão. Este, por sua vez, deverá ter o nome aprovado pelo Parlamento Europeu. O atual titular do cargo, o espanhol Javier Solana, um antigo secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico-Norte), aceitaria retomar a função. Ele encarna a continuidade de uma política externa mantida sob o controle dos grandes Estados, que querem se manter nos comandos do jogo.
O eurodeputado ecologista Daniel Cohn-Bendit citou por diversas vezes o nome do seu amigo, o ex-ministro alemão das relações exteriores Joschka Fischer. Também foram mencionados o francês Michel Barnier e o atual primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt, cuja candidatura à presidência da Comissão em 2004 havia sido vetada pelos seus adversários.
Da mesma forma que para a presidência do Parlamento europeu, a escolha do presidente da Comissão deverá esperar até as eleições européias de 2009. No caso de uma vitória da direita, o português José Manuel Barroso reúne todas as chances para ser reconduzido para um segundo mandato: ele é simpatizante dos anglo-saxões, é defensor da aliança atlântica e representa um pequeno país… Além de tudo, ele conta com o apoio de Nicolas Sarkozy.
Fonte: Le Monde
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