Kosovo: a nova província dos EUA

EUROPA Para controlar países dos Bálcãs, Estados Unidos patrocinam a independência unilateral de Kosovo da Sérvia; UE também oferere benesses

Achille Lollo

NO DIA 10 de dezembro, o narcotrafi cante Hashim Thaqi - líder do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) e agente da CIA e do serivço secreto britânico M15 desde 1985 - anunciava que, em fevereiro, “seu governo” proclamaria a independência unilateral de Kosovo, violando, assim, a resolução nº 1.244 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que garante a soberania da Sérvia na província autônoma de Kosovo.
Assim, Condoleezza e Bush pretendem implementar uma solução geo-estratégica - traiçoeira e perigosa - para legitimar a definitiva dependência estratégica da União Européia (UE) aos Estados Unidos e concretizar a perda de autonomia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujas “missões de paz” (de interesse dos EUA) passariam a ser gerenciadas pela OTAN.
A Rússia de Putin logo vetou a manobra dos Estados Unidos de debater a proposta de independência de Kosovo no Conselho de Segurança. Diante disso, o presidente francês Sarkozy - falando em nome dos países da União Européia - apelou para uma ampliação deste organismo deliberativo das Nações Unidas com países membros “amigos” (Brasil, África do Sul, Alemanha e Índia) de forma a isolar definitivamente a Rússia e a China.
Em resposta, o presidente conservador da Sérvia, Boris Tadic, e o primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, líder do Partido Democrático da Sérvia (nacionalista e pró-russo) já tomaram distância dos Estados Unidos, declarando com firmeza: “os acordos internacionais assinados pela Sérvia, que incluem o Acordo de Estabilização e Associação com a União Européia, devem respeitar a soberania e a integridade territorial do país”.
Por sua parte, o Ministro da Defesa da Sérvia, Dragan Sutanovac, declarou que “esta não é uma declaração de guerra prévia, mas, apenas, um aviso dirigido em particular aos países centrais da União Européia que, agora, pretendem oferecer à Sérvia a admissão “mais rápida” no bloco, recebendo em troca uma declaração de renúncia da soberania no Kosovo que, assim, poderia proclamar-se independente sem violar as normas do direito internacional.”

Os EUA nos Bálcãs A provocação do narcotraficante Hashim Thaqi (1) é a última fase de um múltiplo processo de desestabilização da Federação Socialista Iugoslava - iniciado em 1989, com a proclamação da soberania e da autonomia unilateral da Eslovênia e da Macedônia, seguidas pelo desmembramento étnico na Croácia e Bósnia-Herzegovina, ocasionando sangrentas guerras étnicas que justificaram a crescente intervenção das tropas da OTAN (sob liderança dos Estados Unidos), a destruição de 90% do parque industrial da Sérvia, em 1999, e do próprio Estado iugoslavo.
Uma opção militar que, para os EUA, era a necessária solução geo-estratégica para impor a presença estadunidense nos Bálcãs, no momento em que a União Européia estava criando as condições para sua abertura às antigas nações do Pacto de Varsóvia, da URSS.
De fato, na época, o “democrata” Bill Clinton, para justificar os lançamentos dos mortíferos foguetes com urânio empobrecido contra os alvos civis da Iugoslávia, afirmava: “Se os Estados Unidos recuarem nos Bálcãs, na realidade, será o princípio do recuo da potência hegemônica no mundo”. Por sua parte, Madeleine Albright, secretária de Estado do governo Clinton, após ter conseguido inviabilizar o acordo de Rambuillet em 1995 declarava: “Finalmente a OTAN poderá atacar a Iugoslávia para salvaguardar os habitantes de Kosovo!”.
Com a “Operação Kosovo” (março de 1999), o democrata Clinton oficializava a política hegemônica e intervencionista que o presidente Bushpai havia proposto com a primeira guerra contra o Iraque de Saddam. A partir desse período, todos os orçamentos votados pelo Congresso estadunidense registraram sensíveis aumentos para a “manutenção e modernização dos sistemas de defesa”. Uma fórmula política - utilizada por democratas e republicanos - adotada pelos aliados europeus (sejam eles de direita ou de centro-esquerda) para transformar a OTAN em uma nova Task Force oposta a Rússia de Putin e preparada para intervir em todos os países da Europa do Leste ou da Ásia Menor, onde os conflitos locais poderiam ameaçar o fornecimento energético ao Ocidente.

Bósnia, Kosovo, Albânia Após 12 anos de “independência”, a Bósnia-Herzegovina continua um “protetorado” da OTAN, incapaz de ter uma administração própria, tanto que o primeiro-ministro da Eslovênia e presidente em exercício da União Européia, Janez Jansa, admitiu: “No Kosovo, o que se vai passar é claro, a questão é saber como chegar lá. Porém, é o futuro da Bósnia-Herzegovina que, hoje, representa uma ameaça “mais grave” para a estabilidade dos Bálcãs do que Kosovo, visto que não é possível ter um Estado que não consegue administrar-se a si mesmo e necessita, ainda, de governadores internacionais”.
De fato, o governo da Bósnia é formado por representantes da Federação croatomuçulmana e da comunidade sévio-bosniaca (República Srpska). Porém, a verdadeira administração do país é exercida por Miroslav Lajcak, Alto Representante da Comunidade Internacional na Bósnia, que coordena as atividades atividades das missões da União Européia, os projetos de financiamentos vindos da Europa (oficiais ou através de ONGs), enquanto 26 mil soldados da OTAN garantem a aparente convivência entre as duas comunidades. Em Kosovo, a OTAN mantém, ainda, outra força de ocupação, chamada KFOR, com 16.500 soldados, e nunca desarmou as milícias do ELK (albanês- islâmicos). Dessa forma, no interior da província, é praticado um silencioso terror étnico contra os sérvioskosovares (de religião ortodoxa), que provocou a fuga de quase 600 mil destes em direção à Sérvia, sem receberem nenhuma compensação da UE, enquanto foram destinados 5 bilhões de dólares aos 900 mil refugiados kosovares, no ano 2.000. Hoje, os europeus contribuem com 1,5 bilhão de dólares para a “estabilidade de Kosovo”. Uma doação que justifica a extrema simpatia dos islâmicoskosovares pelos Estados Unidos e União Européia.
A verdade é que, com o governo do narcotraficante Hashim Thaqi, o Kosovo se transformou em um grande quartel, com a função de controlar os países dos Bálcãs.
Aliás, é nessa lógica que, nos arredores da capital, Prístina, foi construída uma grande base aérea que, “após a independência”, será administrada unicamente pelos homens da Força Aérea dos Estados Unidos e ampliada para poder receber os caças-bombardeiros com ogivas nucleares, bem como os “aviõesfantasma” que realizam operações de espionagem no Leste europeu.
Do ponto de vista econômico, Kosovo sobrevive, apenas, com a ajuda financeira da União Européia e das despesas da OTAN para a manutenção dos corpos expedicionários. Por isso, as diferentes máfias (albanesa, macedônias, búlgara, romena italiana e turca) instalaram no território de Kosovo sofisticados laboratórios para a fabricação de heroína e de outras drogas químicas.
A Albânia, por exemplo, pode ser considerada a Colômbia da Europa. Suas características são: a exportação de gangues criminosas especializadas na venda de qualquer tipo de entorpecente - do haxixe à cocaína, da heroína ao êxtase - na prostituição, no contrabando de cigarros e produtos industriais e, até, no comércio de órgãos humanos.

Geo-estratégia dos EUA
Os Estados Unidos utilizaram a Guerra Fria para impor aos países europeus um grau de “colaboração estratégico-militar” que, em muitos casos, criou complexos modelos institucionais para garantir o controle preventivo dos países da OTAN. Porém, com a dissolução da URSS em 1989 e a conseqüente desarticulação do Pacto de Varsóvia, a OTAN, no lugar de encolher, se expandiu em função da “Doutrina Powell”(2), segundo a qual “a intervenção estadunidense deve ser uma espécie de antídoto contra os conflitos locais, que, por efeitos conjunturais ou circunstâncias locais diferenciados podem se multiplicar e ampliar o campo operativo em uma dimensão regional e atentar até contra a segurança mundial”.
Por isso tudo, a permanência militar em Kosovo com aviões, bases logísticas e milhares de soldados estadunidenses e dos países europeus da OTAN exige a criação de um estado-fantoche e um presidente narcotraficante como Hashim Thaqi. Os líderes políticos de Grã- Bretanha, Alemanha, França e Itália - sejam eles de direita ou de centro-esquerda - sabem que, ao contrariar o projeto estratégico dos Estados Unidos nos Bálcãs, correriam o risco de serem excluídos da gestão do poder. É oportuno lembrar que, em 1999, a secretaria de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright, realizou negociações secretas com o primeiro-ministro italiano, o ex-comunista Massimo D’Alema, para manter a Itália alinhada aos EUA no processo de desestabilização da Iugoslávia e, sobretudo, para participar na guerra de Kosovo. Em resposta, Massimo D’Alema demonstrou ser tão “atlantista” como o trabalhista Tony Blair e o social-democrata Schoreder que, juntos, fizeram de tudo para demonstrar a Clinton - e hoje a Bush - serem mais belicosos que os próprios conservadores. De fato, o historiador Eric Hobsbawm questiona a atitude do governo D’Alema sublinhando: “Se a Itália tivesse ousado recusar ser transformada em um porta-aviões da OTAN, certamente a guerra teria tomado outros rumos, mas o primeiro ministro “progressista” certamente seria outro”.
Com a chancela dos ministros “social-neoliberais de centro-esquerda”, os conflitos locais que explodiram nos Bálcãs, no Iraque, na África e na Ásia Menor foram denominados “guerras humanitárias necessárias”, que as televisões e jornais de Berlusconi, Murdoch, Fox, CNN e Globo apresentavam como “conflitos pela reconquista da democracia e a implementação dos direitos humanos”. Nesse contexto, somente a esquerda mais esclarecida e fiel a suas origens rejeitou a mistificação das “guerras humanitárias”, que enriquecem a indústria militar e os bancos. O resto, inclusive os progressistas dos governos de centroesquerda, apoiou cegamente a lógica da Casa Branca.
Para os analistas, a proclamação unilateral de Kosovo abre um perigoso precedente, visto que no Leste europeu há dezenas de minorias que podem ser manipuladas para fragmentar ainda mais a Rússia de Putin. Também na região do Mar Cáspio, as comunidades étnicas das novas repúblicas islâmicas, ricas em gás e petróleo, podem ser facilmente manipuladas. Mas o mais complicado será convencer os partidos nacionalistas de Euskadi (País Basco), Ilhas Canárias, Escócia, Córsega, República Árabe Saharaui Democrática (RASD), Irlanda do Norte, e Flamingos (Bélgica) de que somente o Kosovo tem direito a uma legislação especial e uma independência financiada diretamente pela União Européia.
Diante disso, em Roma, Luciano Pettinari, líder da Sinistra Democrática alertava o primeiro-ministro Prodi: “Não queremos que a Itália entre em outro confuso projeto militar. Esperamos que o governo não esqueça a experiência da dita missão civil e de polícia, que, para a Itália foi e é uma dura lição”. Será que Prodi e D’Alema vão dizer não a Condoleezza Rice depois que o presidente Napolitano confirmou com Bush a plena integração da Itália, na geo-estratégia da OTAN? Enfim, sonhar é bom e não custa nada.

Notas
(1) Em 1985, o grupo de Hashim Thaqi realizou vários atentados terroristas na província iugoslava de Kosovo. Isso chamou a atenção da CIA e do M15, que estavam monitorando os grupos anticomunistas croatas e eslovenos. Logo, a Freedom House apontou Hashim Thaqi como o líder do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cuja principal atividade é provocar o Exército iugoslavo com chacinas de cidadãos sérvios, que a imprensa ocidental silencia. Após a ocupação de Kosovo por parte da OTAN, os homens do ELK tornaram-se narcotraficantes, passando a gerenciar redes de tráfico que levam heroína do Afeganistão e da Turquia para a Europa.
(2) Colin Powell, general e Chefe de Estado Major do Exército dos EUA formulou novos conceitos estratégicos pelos quais os EUA devem utilizar a “força máxima” para enfrentar um conflito cujo desempenho ofensivo não admite interrupções ou indecisões sobre a forma de conclui-lo.

Achille Lollo é jornalista italiano, editor da TV Adia e autor dos DVDs: RCTV, fim de um império midiático e Por que o MST é contrário aos Transgênicos e ao Biodiesel.

Fonte: Brasil De Fato

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