Arquivo de 7 de Abril de 2008

A farra da legalização da grilagem

O governo Lula vende ao agronegócio 60 milhões de hectares de terras públicas do Incra na Amazônia que deveriam ser reservadas para a reforma agrária

Ariovaldo Umbelino

A grilagem das terras públicas na Amazônia continua nos noticiários. Agora, se trata da Medida Provisória 422, que dispensa de licitação a venda de terras públicas do INCRA até 1.500 hectares. E, por de traz dela, está a estratégia de ação do agrobanditismo em sua sanha de se apropriar das terras públicas griladas daquela região.

Em outro artigo neste site, mostrei que a grilagem das terras públicas da Amazônia sempre veio alimentada pelas políticas públicas dos diferentes governos nos últimos cinqüenta anos. Mas, como a legislação constitucional impede que isso se faça, o caminho passou a ser tentar conseguir através de subterfúgios jurídicos sua legalização. Como a Constituição de 1988, manda compatibilizar a destinação das terras públicas com o plano nacional de reforma agrária, uma nova estratégia passou a ser montada para continuar favorecendo os grileiros do agronegócio.

Uma banda podre dos funcionários do INCRA, particularmente os que “cuidam” do Cadastro, passaram a “oferecer” e “reservar” as terras públicas do INCRA para os grileiros e indicar o caminho “legal” para obtê-las. Portanto, quem está realizando esta “grilagem legalizada” é uma parte dos próprios funcionários corruptos do INCRA e dos órgãos estaduais de terra. A denúncia destes fatos, já levou a Polícia Federal a fazer a Operação Faroeste no Pará e o Ministério Público Federal mover ação para cancelar os “assentamentos da reforma agrária laranja” da regional do INCRA de Santarém-PA. O motivo é sempre o mesmo: a tentativa de “oficializar” a grilagem das terras públicas.

Em 2003, o INCRA possuía na Amazônia Legal mais de 60 milhões hectares, assim distribuídas pelos estados: Amazonas 20,9 milhões de hectares; Pará 17,9 milhões; Roraima 9,2 milhões; Acre 6,2 milhões; Mato Grosso 5,7 milhões; Rondônia 4,9 milhões; Maranhão 1,7 milhões e Tocantins 1 milhão de hectares.

Entretanto, os grileiros do agrobanditismo “cercaram e se apropriaram privadamente” de tudo, pois, os funcionários corruptos do INCRA “venderam” para eles ilegalmente todo este patrimônio público. Agora, estão junto como o governo Lula, propondo “soluções jurídicas” para legalizar o crime cometido. A história é a seguinte.

No final do ano de 2005, conseguiram através do artigo 118 da Lei nº 11.196 de 21/11/2005 (a chamada “Medida Provisória do bem”) alterar a lei de licitações públicas (Lei Nº 8.666, de 21/06/1993) conseguindo a permissão para regularizar, através da venda, a aqueles que tinham grilado as terras públicas do INCRA na Amazônia Legal com área de até 500 hectares. Não custa lembrar que o artigo 191 da Constituição de 1988, autoriza a posse apenas até 50 hectares, quando a terra é devoluta, porque as terras públicas não são passíveis de usucapião (artigo 200 do Decreto-Lei 9760 05/09/1946, § 3º do artigo 183 da Constituição de 1988).

Em 17/05/2006 o INCRA baixou a Instrução Normativa nº 32, que fixou os procedimentos legais para que este crime da grilagem das terras públicas até 500 hectares pudesse começar a ser legalizado. Era o início da farra da legalização da grilagem.

Mas, a banda podre dos funcionários do INCRA não se deu por satisfeita, e, afrontando a Constituição que manda destinar as terras públicas para a reforma agrária, baixou a Instrução Normativa nº 41 em 11 de junho de 2007 (publicada no DOU em 18/06/2007) estabelecendo “critérios e procedimentos administrativos referentes à alienação de terras públicas em áreas acima de 500 hectares limitadas a 15 (quinze) módulos fiscais mediante concorrência pública.”

Mas, a sordidez destes delapidadores do patrimônio público não tem limite. Primeiro, com auxílio do agrobanditismo paraense, conseguiram que o deputado Asdrúbal Bentes (PMDB) apresentasse em 24/10/2008 um projeto de lei que ampliava para até 15 módulos fiscais (mais ou menos 1.500 hectares) a dispensa de licitação e conseqüente autorização para venda aos grileiros das terras do INCRA.

Agora, a desfaçatez do governo do PT parece que não tem mais limite. Lula e Cassel, descaradamente, em nome da reivindicação da base aliada, transformaram (plagiaram) o projeto de lei do deputado Asdrúbal Bentes, na Medida Provisória nº 422. Assim, esta MP que já está em vigor, altera novamente a Lei nº 8.666, permitindo a dispensa de licitação para alienar os imóveis públicos da União até 15 módulos fiscais.

Isto quer dizer que, como 39% da área dos municípios da Amazônia Legal têm módulos fiscais de 100 hectares, esta dispensa de licitação atingirá áreas griladas até 1.500 hectares. Estes municípios estão principalmente nos estados do Amazonas, Acre, Roraima, Mato Grosso e Pará, todos repletos de exemplos da grilagem de terras do INCRA. Outros 38% da área dos municípios que têm módulos entre 75 e 90 hectares, e, a dispensa de licitação atingirá áreas griladas entre 1.125 e 1.350 hectares dos estados anteriores e do Tocantins e Maranhão. Ou seja, as terras griladas que serão regularizadas têm área acima de mil hectares, e é o próprio INCRA que reconhece o crime lesa pátria: “assim, entre 70 e 80% das posses de até 15 módulos fiscais estará em torno de 1000 ha, ou menos” in “A MP 422 legaliza e protege a floresta” (http://www.incra.gov.br).

A audácia do diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, Roberto Kiel, é de uma adesão total ao agrobanditismo: “agora eles poderão comprar do governo federal as terras que já ocupavam há anos e não vão precisar de concorrer com outros interessados” in “Assinada MP para regularização fundiária da Amazônia” (http://www.incra.gov.br).

Outra parte desta engenhosa operação para legalização da grilagem de terras do INCRA na Amazônia Legal foi o aproveitamento do aumento do desmatamento naquela região para fazer o recadastramento dos imóveis. Ele vai permitir que os grileiros que ainda não tinham cadastrados as terras públicas que grilaram até dezembro de 2004, pudessem agora fazê-lo, e assim se habilitarem para “comprar” as terras griladas sem licitação. Aliás, a notícia no site do INCRA sobre o recadastramento já, de forma absurda reconhece os grileiros como posseiros: “Os donos ou posseiros de áreas maiores que quatro módulos fiscais […] terão que levar ao Incra, de 3 de março a 2 de abril, documentos que comprovem a titularidade ou posse pacífica da terra, plantas e memoriais descritivos com a correta localização geográfica dos imóveis rurais” (http://www.incra.gov.br).

Dessa forma, é preciso deixar claro que as verdadeiras posses das famílias camponesas ribeirinhas ou não na Amazônia não ocupam mais de 100 hectares, portanto, estes atos do INCRA são para regularizarem as grilagens das terras públicas do próprio INCRA que seus funcionários corruptos “venderam” para ao agrobanditismo.

Vale lembrar que apenas duas vezes na história do Brasil a grande posse foi legalizada, na Lei de Terra de 1850 e na ditadura militar entre 1964/1984.

Por isso volto a repetir, a MP 422 é uma afronta aos princípios constitucionais e ao patrimônio público: o governo Lula está fazendo o que nenhum governo, depois dos militares, fez, “vendendo” ao agronegócio/agrobanditismo mais de 60 milhões de hectares de terras públicas do INCRA na Amazônia que deveriam ser reservadas para a REFORMA AGRÁRIA, à demarcação de terras indígenas e ou quilombolas, e a criação de unidades de conservação ambiental.

PELA REVOGAÇÃO IMEDIATA DA MP 422.

*Professor titular de Geografia Agrária, do Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo).

Fonte: Brasil De Fato

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Reforma financeira nos EUA favorece Wall Street

Jenny Anderson

Há mais de um ano, quando os mercados estavam em alta, um coro de alarme soou em Wall Street. Falava-se que os Estados Unidos corriam o risco de perder sua vantagem no mundo financeiro.

Mas a ameaça que muitos executivos viam não era a crise de crédito que se aproximava -era a ameaça de disputas judiciais excessivas e um aumento da regulação. Wall Street pressionava Washington a relaxar.

O setor financeiro não conseguiu o que queria naquele momento, mas pode conseguir o que deseja agora.

Se for adotada, a ampla reforma do sistema de supervisão do sistema financeiro americano proposta na segunda-feira pelo secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., poderia dar aos bancos de investimento de Wall Street uma grande vitória aos seus anos de esforços para reduzir a regulação.

Apesar de que dificilmente o plano obterá aprovação do Congresso tão cedo, e poderá não ir a lugar nenhum em um ano eleitoral, ele apresenta muitas das mudanças aparentemente sutis mas profundas pelas quais Wall Street faz lobby há muito tempo.

Uma mudança desejada por Wall Street é que os reguladores deixem de policiar o setor com regras duras e rápidas -faça isto, não faça aquilo- e passem a adotar “princípios” mais flexíveis que possam estar abertos a interpretação. Outra visa modernizar a miscelânea de reguladores estaduais e federais que às vezes se sobrepõem e competem uns com os outros.

O plano de Paulson daria um passo na direção de ambas as mudanças ao consolidar os reguladores do setor bancário e de seguros e potencialmente fundir a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) com a Comissão de Comércio de Commodities e Futuros (CFTC, na sigla em inglês), assim como despojando a entidade combinada de grande parte de sua autoridade reguladora. Muitos em Wall Street aplaudiram estas propostas.

“Eu acho que é um grande passo à frente”, disse Thomas A. Russo, diretor legal chefe da Lehman Brothers, sobre a proposta. “O mundo se tornou homogeneizado, mas a estrutura reguladora permanece dentro da mesma camisa de força.”

Os defensores da abordagem de princípios dizem que ela é mais eficiente. Eles apontam para a ascensão meteórica de Londres como centro financeiro global, o que alimenta o temor de que algum dia Nova York possa perder seu título de capital mundial do capital. A Autoridade de Serviços Financeiros, o principal órgão regulador financeiro britânico, se apóia mais em princípios do que em regras.

Mas alguns ex-reguladores americanos se perguntam se Wall Street merece uma rédea mais frouxa, especialmente em um momento caótico nos mercados e na economia como um todo. Afinal, o setor financeiro enfrentou muitas complicações com os reguladores nos últimos anos, desde fraudes contábeis e de ações até investimentos hipotecários questionáveis.

“Alguns dos proponentes querem princípios amplos que não serão aplicados”, disse Harvey J. Goldschmid, um ex-comissário democrata da SEC que atualmente leciona na Escola de Direito de Colúmbia. “Adote esta abordagem e os problemas do subprime e da securitização parecerão pequenos ressaltos em comparação ao estrago que teremos no futuro.”

Richard C. Breeden, o presidente da Comissão de Valores Mobiliários e presidente da Breeden Capital Management, questiona se as propostas do Tesouro mais prejudicarão do que ajudarão o público investidor. “Eu não vejo o que há a favor do público neste plano”, disse Breeden. “O que há a favor dos contribuintes e dos clientes destas firmas?”

Mas Wall Street, um dos setores mais ricos e politicamente astutos nos Estados Unidos, sente uma oportunidade.

Em novembro de 2006, o Comitê para Regulação dos Mercados de Capital divulgou um relatório concluindo: “É do entender do comitê de que o equilíbrio da intensidade reguladora foi perdido para desvantagem competitiva dos mercados financeiros americanos”.

Um segundo relatório, divulgado dois meses depois pelo prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, e pelo senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, declarava que os Estados Unidos estavam ficando para trás.

“A última coisa que Nova York e o país precisam é acordar um dia e descobrir que não somos mais a capital financeira do mundo”, disse Schumer na época.

Hal S. Scott, professor da Escola de Direito de Harvard que dirigiu o Comitê de Regulação dos Mercados de Capital, disse na segunda-feira que concordava com muitas das recomendações a curto prazo do Tesouro. Mas ele argumentou que o governo não devia perder tempo com as propostas de médio prazo, mas sim buscar diretamente uma reforma mais radical com um sistema baseado em princípios.

“Com freqüência demais nós temos um problema e dizemos: ‘Eis aqui uma regra’, e então as pessoas encontram uma forma de contornar a regra”, disse Scott. “Nos sairíamos melhor com um princípio.”

Ainda assim, Wall Street prosperou até recentemente apesar -e às vezes por causa- do atual sistema regulador. Os mercados para alguns investimentos complexos, como obrigações de dívida com colateral, não parecem ser policiados por ninguém. E nenhuma agência na prática supervisionou a imensa alavancagem no sistema, um problema que contribuiu seriamente para a atual crise.

De fato, enquanto o setor aumentava seus lucros em razão geométrica nos últimos anos, o tamanho de agências como a SEC não acompanhou o ritmo. Como conseqüência, os reguladores tinham dificuldade em reagir às mudanças sísmicas no setor, como a ascensão dos fundos hedge e a proliferação de produtos financeiros que são comercializados nas sombras entre as firmas, em vez de abertamente nas bolsas. Isto faz ex-comissários da SEC se perguntarem como a transformação da comissão em uma agência diferente melhoraria as coisas.

“É o apogeu do desrespeito pelos investidores americanos a extinção de uma agência que faz algo para proteger o público dos impulsos mais vis de Wall Street”, disse Breeden.

Mas ele reconheceu que a mudança é difícil. “Não está tão claro que o simples traçar de mapas organizacionais mais simples fará o sistema funcionar melhor”, ele disse.

Fonte: The New York Times

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Recessão americana poderá ser uma das piores desde 1945

Eric Leser

A maioria dos economistas americanos está convencida hoje de que os Estados Unidos entraram em recessão. Para Martin Feldstein, presidente do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, cuja missão consiste em determinar os períodos de recessão, não somente esta já começou como será uma das mais graves desde a Segunda Guerra Mundial. Alan Greenspan, que foi presidente do Federal Reserve (Fed) de 1987 a 2006, cita a crise mais “wrenching” (dolorosa) desde 1945.

O principal risco, segundo Kenneth Rogoff, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor da Universidade de Harvard, é ver a recessão se ampliar e se auto-alimentar. A famosa espiral negativa que Ben Bernanke, o atual presidente do Fed, tanto teme. Rogoff estima em 50% a probabilidade desse cenário: a contração da atividade poderia então continuar até 2009. “O cenário cor-de-rosa seria de dois ou três trimestres de recessão moderada, seguidos de uma lenta retomada, mas seria preciso ter sorte para que se realize”, ele estima.

O ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers também está preocupado. O enfraquecimento do consumo deverá pesar sobre a rentabilidade das empresas, que poderiam por sua vez reduzir seus investimentos e demitir, ampliando assim a recessão. Esse fenômeno está aparecendo no setor automobilístico. A firma especializada JD Power revisou para baixo esta semana suas previsões de vendas de carros nos EUA este ano, de 15,7 milhões para 14,9 milhões.

Seria o nível mais baixo desde 1994. “O mercado de automóveis entrou em uma verdadeira fase de recessão”, afirma Bob Schnorbus, economista-chefe da JD Power. Isso obrigaria os fabricantes, já em situação difícil, a eliminar mais postos de trabalho.

O problema mais grave vem do mercado de crédito. A crise financeira surgida com o colapso dos empréstimos imobiliários de risco (subprimes) se transmitiu para a economia real através de uma rarefação e um encarecimento do crédito para os consumidores e as empresas, pois os estabelecimentos financeiros são confrontados com uma grande crise de liquidez. O Countrywide Financial, maior estabelecimento de crédito imobiliário americano, quase deixou de emprestar em fevereiro. Para evitar um bloqueio total do mercado de crédito, o Fed se agita.

Depois de ter sido criticado em 2007 por sua reação lenta, hoje Bernanke é elogiado por sua energia. No âmbito de seus trabalhos universitários sobre a depressão dos anos 1930, esse ex-professor de Princeton desenvolveu a teoria do “acelerador financeiro”. Ela mostra que os prejuízos dos bancos, depois de uma inversão brutal do ciclo de crédito, os levam a deixar de emprestar e assim aumentam a desaceleração da atividade e a queda do valor dos bens sobre os quais são avaliados os empréstimos concedidos.

Foi por isso que o Fed reduziu rapidamente o custo do dinheiro dia a dia, de 5,25% para 2,25%, desde setembro e ao mesmo tempo injetou mais de US$ 400 bilhões em liquidez para financiar o sistema bancário.

Mas os instrumentos de política monetária têm limites. As reduções de juros levam meses para se difundir na economia e são apenas um meio indireto de sustentar os mutuários. As vendas de casas não vão se recuperar enquanto os potenciais compradores estiverem convencidos de que os preços vão baixar ainda mais.

Uma intervenção do Estado federal talvez fosse necessária. Uma primeira etapa foi vencida com a decisão anunciada na quarta-feira de permitir que os dois grandes estabelecimentos públicos de crédito, Fannie Mae e Freddie Mac, emprestem US$ 200 bilhões suplementares graças à redução em um terço dos capitais com que eles devem garantir seus compromissos. No Congresso, os parlamentares refletem sobre a possibilidade de o Estado comprar maciçamente os empréstimos imobiliários. Depois ele daria condições de reembolso mais favoráveis aos mutuários em dificuldade. Mas a situação hoje não é julgada suficientemente drástica para que o governo possa justificar politicamente a compra de US$ 2 a 3 trilhões em créditos imobiliários.

Fonte: Le Monde

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Entrevista com Ariovaldo Oliveira

Escute a entrevista com o geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira (USP), especialista na questão agrária na rádio CBN neste 07 de abril, sobre as mudanças na legislação de ocupação do solo na Amazônia que provocarão o aumento da devastação da floresta.

Ricardo Alvarez

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O relógio e o calendário

Luiz Weis

Eric Alterman, o repórter de mídia da revista semanal New Yorker, escreveu um dos melhores artigos concebíveis sobre a disputa entre jornalismo impresso e jornalismo online nos Estados Unidos – e olhe que o que o assunto já rendeu não está escrito, como se diz. Na linha das matérias de fundo da revista, o artigo é grande em sentido literal também: tem 6.600 palavras, ou 10 telas em Times New Roman 12.

Chama-se “Out of print” (fora de circulação, ou esgotado), com o sub-título esperto “The death and life of the American newspaper” (a morte e a vida do jornal americano). Pode ser lido em http://www.newyorker. com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman.

Antes de ir às idéias – as dele e as que ele inspira -, os números da crise do jornalismo-diário-como-o-conhecemos:

As editoras de jornais cujas ações são negociadas em bolsa perderam 42% do seu valor de mercado nos últimos três anos.

O patrimônio acionário da New York Times Company diminuiu 54% desde o fim de 2004.

A contar de 1990, 25% das vagas na imprensa diária americana foram fechadas.

O tempo médio gasto na leitura dos jornais nos Estados Unidos não chega a 15 horas por mês. (Portanto, nem 30 minutos por dia.)

Oito em cada dez americanos entre 18 e 34 anos nem batem os olhos num jornal.

O leitor típico tem 55 anos – e tende a ficar ainda mais velho.

Quase 40% das pessoas com menos de 35 anos ouvidas numa pesquisa disseram que esperam usar a internet no futuro para se informar. Só 8% falaram em se informar pelos jornais.

Menos de 20% dos americanos acham que se pode acreditar em todos ou na maioria dos relatos da mídia.

Muitíssimos mais americanos acreditam em discos voadores do que na imparcialidade da imprensa.

O site jornalístico progressista Huffington Post (sobre o qual Alterman escreve extensamente) emprega em tempo integral 46 pessoas (“muitas das quais mal chegaram à idade de poder alugar um carro”), publica textos de mais de 1.800 blogueiros (sem contar os famosos), e é acessado por 11 milhões de “visitantes únicos” por mês. Ultimamente, só perde para as versões online de oito jornais.

O New York Times emprega mais de 1.200 pessoas em atividades jornalísticas. O Washington Post e o Los Angeles Times, entre 800 e 900.

Só a sucursal de Bagdá custa ao Times US$ 3 milhões por ano.

Aos argumentos – do autor e do leitor.

Uma das causas da crise da mídia impressa – não necessariamente a primeira, muito menos desvinculada de outras, apenas a mais óbvia ­– é o advento da internet, que faz parecer o jornal diário um anacronismo, pesado, lento e incapaz de sacar com rapidez as demandas (em mutação) do público.

A internet – mas, de novo, não só ela – também expôs o que os críticos da grande imprensa convencional consideram o seu elitismo, arrogância, parcialidade, desdém pelo homem comum.

O jornalista de nariz empinado não está nem aí para onde o calo do leitor aperta, com perdão da dupla metáfora anatômica. Ou, dito de outro modo, por que um jornalista, para onde quer que aponte o seu nariz, saberia necessariamente mais do que o público qual é o interesse público?

De todo modo, o que mais se lê na internet, em matéria de jornalismo, são – em toda parte, ao que se saiba – as edições online de jornais, revistas, informativos de rádio e TV.

E não se perca de vista: nos Estados Unidos foi a direita quem primeiro saiu atirando essas acusações aos jornalões. O elitismo, a arrogância, a parcialidade, o desdém pelo homem comum seriam indissociáveis do “viés liberal” (progressista) dos que, controlando o noticiário e as páginas de opinião, mas sendo uma minoria ideológica, impingiam aos americanos, de cima para baixo, as suas noções do que é notícia e do que é bom para o país.

Um dos principais alvos da Contra-Revolução Conservadora nos Estados Unidos – que começou com Reagan e chegou ao auge com Bush – era a desmoralização dos jornais como o New York Times, Washington Post, Los Angeles Times. Porque, lembra Alterman, eles de fato pregavam a necessidade de um governo forte e ativo e a responsabilidade moral de garantir a ampliação dos direitos das mulheres e das minorias étnicas e raciais.

Quando a internet ainda engatinhava, a direita americana já gastava incontáveis milhões de dólares para convencer o povo de que a imprensa não prestava.

Esse clima de opinião explica em parte – quem sabe em boa parte – como se originou a erosão da credibilidade da velha mídia americana. E tanto ela ficou acuada que acabou tendo o papel abjeto de papaguear as mentiras do bushismo para justificar a guerra ao Iraque. O que fechou o círculo vicioso: também a parcela progressista da sociedade passou a acusar os jornalões – com carradas de razão – de facciosismo, dessa vez como correias de transmissão da propaganda oficial.

É o contexto em que vai às núvens a popularidade dos sites jornalísticos e a própria idéia – acolhida acriticamente por tanta gente boa – do “jornalismo-cidadão”.

E é o contexto em que, em 2005, Arianna Huffington, uma milionária da Califórnia, divorciada de um político republicano e tendo mudado de lado, lançou com mais duas pessoas o Huffington Post, agregando notícias políticas e fofocas e criando um blogão grupal com colaboradores escolhidos da “alarmante coleção de amigos e conhecidos” de Arianna, segundo Alterman.

Jonah Peretti, um dos criadores do que passou a ser chamado ‘HuffPost”, diz que o site é “um empreendimento compartilhado entre os que o produzem e os que o consomem” – uma espécie de Wikipédia jornalística, portanto. Ou, quem sabe, Wikinews.

O pessoal do HuffPost acha que a sua forma de fazer jornalismo está transformando o conceito de notícia do mesmo modo que a CNN o transformou há 30 anos.

Pode ser. Mas um dos seus ingredientes essenciais – a participação dos consumidores de que fala Peretti – “muitas vezes lembra os graffiti de um banheiro público”, observa Alterman. E “muitas das notas dos blogueiros que o site publica não merecem o esforço nem mesmo de um clique de mouse”, fulmina.

O pior, como na esmagadora maioria dos sites do gênero, não são os insultos e as idéias malpassadas dos leitores que escrevem duas vezes antes de pensar. São as informações falsas que vão ao ar sem passar pelo pente fino dos editores.

No caso do HuffPost o caso mais famoso foi o da antropofagia em Nova Orleans depois da devastação causada pelo furacão Katrina. Um comentarista mandou ver, sem checar evidentemente, a história de que vítimas da tragédia “comiam cadáveres para sobreviver”.

A própria Arianna Huffington entrou no circuito para apagar a enormidade – e fez um auê em cima da rapidez da correção. Foi rápida, sim, mas não o bastante para impedir que a assombrosa invencionice fosse reproduzida a torto e a direito na internet.

Comparando: naturalmente, um jornal leva pelo menos 24 horas para corrigir no papel uma barbeiragem – quando quer fazê-lo, mas essa é outra história. Só que, se o erro não for copiado na internet, se espalhará mais vagarosamente.

O problema do erro – de boa ou má-fé, não vem ao caso neste instante – é o problema essencial. Com todos os seus defeitos, que não são poucos, nem devem ser minimizados, e a par todos os outros fatores, um jornal sério tende a errar menos do que um site ou um blog que hipoteticamente divulgue o mesmo número de informaçôes em igual período.

Pela simples, ou não tão simples razão de que o processo editorial na imprensa-como-a-conhecemos impõe a repórteres e editores – profissionais, portanto - a servidão de checar as histórias a serem publicadas. Sim, essa checagem já não é o que era desde que as redações passaram a ter menos jornalistas trabalhando mais.

Ainda assim, o princípio da verificação prévia está entranhado na técnica do ofício. Ao passo que na web esse controle de qualidade é feito, se é feito, quando Inês é morta – e depende muitas vezes de que um leitor, mais bem informado sobre o assunto em questão, despache um alerta restabelecendo a verdade.

Para ficar no HuffPost, um senhor site. A maioria dos textos que ali se podem ler em dado momento não passaram pelo crivo de nenhum editor. Este só consuma entrar em campo quando um leitor adverte que tal ou qual colaboração é mentirosa, difamatória ou ofensiva.

Alterman:

“A vasta maioria dos repórteres e editores dedicou anos, se não décadas, a entender as questões de que tratam as suas matérias.”

“Reportagens de verdade, especialmente do gênero investigativo, são caras. Agregação [de textos] e opinião são baratas.”

Há iniciativas para profissionalizar o jornalismo na internet. Uma delas é a criação de fundos para financiar reportagens feitas por jornalistas tarimbados para este ou aquele site.

Vai demorar, aqui um pouco mais, ali um pouco menos, mas os dois modelos jornalísticos tendem a convergir. É por isso que o título do excelente artigo de Alterman fala em “a morte e a vida” do jornal impresso e não na sua “vida e morte”.

No fundo, quem diz muito com poucas palavras é o editor do Times, Bill Keller, citado no artigo.

Segundo ele, o jornalismo na net está para a modalidade convencional como o relógio para o calendário.

A comparação embute uma pá de significados. E uma conclusão: não podemos dispensar nenhum deles; devemos – os jornalistas e os leitores – é melhorá-los.

Fonte: Observatório da Imprensa

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Família de Obama simboliza a globalização

*Roger Cohen

No mês passado, lá estava eu sentado embaixo de uma mangueira no Quênia ocidental, quando a meia-irmã Auma do senador Barak Obama me disse: “O pai de minha filha é britânico. O irmão da minha mãe é casado com uma russa. Eu tenho um irmão na China noivo de uma chinesa.”

Meu entendimento é que esse meio-irmão vivendo na China é Mark. Ele é filho do pai de Obama e de uma mulher americana chamada Ruth, a quem este conheceu quando freqüentava Harvard nos anos 60, e trouxe para o Quênia. Isso foi depois que o casamento com a mãe de Obama no Havaí terminou. Outro filho da união com Ruth, chamado David, morreu num acidente de motocicleta. Ao todo, o pai de Obama teve oito filhos com quatro mulheres.

Tenho pensado nisso porque ainda não se escreveu o suficiente sobre a família de Obama. Como Auma sugeriu, ela é bastante incomum pela combinação de países, a mistura religiosa e a fusão de cores. Mas essa família de anúncio da Benetton é menos incomum do que pode parecer. Vivemos numa era de famílias enormes, globalizadas.

É preciso escrever mais porque se Obama conseguir a nomeação democrata, é sabido que a máquina de ataque republicana, com insinuações e outros recursos, irá atrás de sua identidade como foi atrás da identidade do senador John Kerry em 2004.

A diferença é que Obama é muito mais seguro e confiante de quem ele é do que Kerry era. Ele construiu sua identidade num mundo em transformação. Seu pastor radical em Chicago contribuiu para essa jornada. Agora que Obama se sobrepôs a ele, isso não me causa preocupação.

Mas, já se podem ler as manchetes: Obama tem irmão na China! Já se pode ouvir os murmúrios sobre um pai polígamo. O fato de não ter sido escrito o suficiente sobre a sua família é estranho porque o próprio Obama dedicou um livro notável, Dreams From My Father (Sonhos de meu pai), à sua busca em preencher o vazio deixado por um pai ausente.

Como Auma me disse: “Ele estava tentando descobrir quem ele era. Precisava estar inteiro para poder fazer o que está fazendo. Ele foi no caminho certo. Uma grande porção de sua vida estava faltando. É muito saudável que ele saiba que tem suas raízes aqui.”

Essas raízes foram descobertas na primeira visita de Obama ao Quênia há duas décadas. Durante essa viagem, como narrou em suas memórias, ele conheceu Ruth em Nairóbi. Ela é descrita como uma mulher branca de queixo comprido e cabelos grisalhos.”

Mas quem é Ruth, uma mulher que se divorciou do pai de Obama, tornou a casar-se e deu o sobrenome de seu segundo marido a seus dois filhos com o pai de Obama? No livro, ela diz com bem pouco tato a Obama: “Mas a sua mãe tornou a casar-se. Eu me pergunto por que ela teve de conservar o seu nome?”

Quanto ao filho de Ruth e meio-irmão de Obama, Mark, o que está na China, ele é descrito como estudante de física em Stanford nos anos 80. Mark manifesta um interesse limitado em seu pai comum, que morreu em 1982 aos 46 anos: “A vida já é bastante dura sem todo o excesso de bagagem”, ele brinca.

Se for nomeado, a bagagem da família de Obama será vasculhada. Há quatro anos, o pessoal de George W. Bush chamou Kerry de antiamericano por falar francês. Mas, as coisas são diferentes. Hoje, os americanos estão menos temerosos e menos dispostos a se deixar manipular.

Nunca o futuro americano esteve tão ligado ao mundo. Os americanos percebem isso. Quando sua hipoteca é embalada em algum tipo de título engenhoso que é vendido a um banco alemão antes de o esquema se desfazer e você perder sua casa, o globo parece menor.

Quando cerca de 30% da receita de corporações americanas vêm do exterior e os chineses estão comprando dívida americana, e mais de sete milhões de pessoas foram naturalizadas americanas na última década, é mais difícil separar o destino dos EUA do destino de outros países. O isolacionismo não é apenas errado, ele é impossível.

Se eleito, Obama será o primeiro líder genuinamente do século 21. A teia envolvendo China, Indonésia, Quênia, Grã-Bretanha e Havaí espelha um mundo em fluxo. No Quênia, seu tio Sayid, um muçulmano, me contou: “Meu islamismo é híbrido, uma mistura de elementos, incluindo minha formação escolar cristã e até alguns modos africanos. Muitos valores estão dissolvidos em mim.”

O instinto de Obama para construir pontes provém de algum lugar. Ele é enraizado e provado. Para um mundo cheio de expectativa e com freqüência alienado, ele tem um importância fundamental.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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A VEZ DA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA

Cristiano Catarin

O século XXI revela um domínio curioso de regimes governamentais chamados de esquerda nos principais países do continente americano como: Brasil, Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile. Esta preferência está ligada, muitas vezes, a um forte desgaste nos partidos políticos tradicionais, ditos de direita.

Sustentado por movimentos de resistência, os países latino-americanos estão experimentando a liderança estabelecida por regimes governamentais (reconhecidos pela forte oposição praticada aos modelos neoliberais do século XX) com objetivo de avançarem rumo ao desenvolvimento político-econômico sólido e equilibrado.

A década de 1980 representou um cenário de desenvolvimento do modelo neoliberal, adotado por muitos países latino-americanos. O neoliberalismo gerou grande expectativa para a América Latina que estava em busca de estabilidade política e consolidação da economia.

Por outro lado, nesse mesmo período iniciou-se uma grande resistência social estabelecendo forte oposição ao modelo neoliberal. Entretanto, a crescente presença de oposição ao neoliberalismo não conseguiu frear a quebra econômica de países como Brasil, Chile, Colômbia, etc. Em 1975 os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, fato que abalou sensivelmente o governo americano. Em 1976, o então presidente dos EUA, Jimmy Carter mostrou-se defensor do fim da ditadura militar na América Latina e favorável ao regime democrático com objetivo de estabelecer novas diplomacias político-econômicas.

Na verdade, quando um país está sob regime de ditadura militar, um dos primeiros sintomas negativos a ser revelado fica por conta do aumento significativo na dívida externa e também, uma gradual redução salarial do trabalhador (perda do poder de compra). As “páginas da História” revelam que o período pós-ditadura representou aos latino-americanos forte expectativa pela democracia e surgimento de características como: liberdade de imprensa, fortalecimento do sindicalismo, greves freqüentes e a criação de novos órgãos, novos partidos políticos.

O experimento da democracia trouxe paradigmas aos países da América Latina. A expectativa certa de justiça mostrou-se insuficiente para provocar melhorias no cenário econômico desses países. A democracia não evitou, por exemplo, o aparecimento de moratórias, crise financeira e aumento considerável do desemprego.

Diante deste panorama, os partidos tidos como tradicionais (em sua grande maioria conhecidos como de “direita”) começaram a perder espaço e a apresentar enfraquecimento de sua credibilidade no cenário político. Esse mesmo desgaste acabaria fornecendo elementos que mais tarde explicariam a presença de partidos políticos de “esquerda” ou ditos de esquerda sagrando-se vitoriosos em diversos processos eleitorais.

O neoliberalismo somou-se à democracia e abriu espaço para um crescimento muito freqüente de movimentos sociais. A resistência popular passou a fazer parte de maneira mais presente na história da América Latina. Na Argentina de 2001 pôde-se ter uma idéia desta reação popular frente à crise econômica e política instalada no país.

A Venezuela, sob governo de Chávez, é um exemplo de governo de esquerda que beneficiou-se do desgaste de partidos ditos tradicionais venezuelanos. Mesmo com a tentativa do Golpe de Estado sofrido 1992, o presidente venezuelano mostrou-se ainda mais forte após ter ficado por 72 horas preso. Chávez procurou popularizar às “diretrizes oficiais do Estado”, fornecendo acesso da informação as classes mais pobres do país. O presidente venezuelano também traçou um plano de melhor distribuição de renda baseado na redefinição dos lucros obtidos pela PDVSA (uma espécie de Petrobrás da Venezuela). Vale lembrar que a Venezuela é o atual 4º produtor de petróleo mundial. O maciço apoio manifestado pela população na época da tentativa de Golpe ficou conhecido como chavismo.

Parte dos recursos da empresa petrolífera foram destinados a programas sociais. Chávez conseguiu aliar sua proposta política a satisfação da massa populacional mais necessitada (certa de 79% da população) reduzindo o índice de analfabetismo e de pobreza dos venezuelanos.

O Brasil do século XXI é outro modelo onde revela também o desgaste de partidos tradicionais como PSDB, PFL, PL, dentre outros. Diante do enfraquecimento da credibilidade desses partidos, o PT – partido dos trabalhadores (tido como principal oposição à direita) sagrou-se vitorioso ao conseguir eleger seu candidato, Luis Inácio Lula da Silva, a presidente da república em 2002. Sua eleição mostrou superioridade constante em comparação aos principais adversários, ganhou com folga de 62% dos votos válidos em relação ao principal candidato do PSDB, José Serra. Em 2006, Lula foi reeleito e mais uma vez venceu com tranqüilidade seu adversário mais “perigoso”, também do PSDB, Geraldo Alkimin.

Em meados de 2001 a Argentina foi protagonista de um fracasso político liderado pelo então presidente De la Rúa, defensor do regime neoliberal amparado pelo programa de ampla privatização das empresas estatais. Em 2001, cerca de 80% da população argentina estava mergulhada na miséria e 20% detinham toda riqueza produzida pelo país. A privatização da petrolífera YPF foi o maior golpe proferido ainda pelo governo de Carlos Saul Menem ao país. Com a privatização, milhares de empregos foram fechados e o endividamento externo da Argentina aumentou de maneira impressionante. Néstor Kirchner pegou a “batata quente” e tomou varias medidas com objetivo de conter a crise argentina. Uma das primeiras medidas foi negociar o pagamento da dívida externa do país. Kirchner apostou nas exportações de grãos, setor que movimenta bilhões de dólares para o país devido à super valorização dos produtos comercializados.

As providências tomadas por Néstor podem não terem sido suficientes, mas foi o bastante para “ganhar” a aprovação do povo, tanto que desde 10 de dezembro de 2007, Cristina Kirchner passou a ser presidente da Argentina e ninguém tem dúvidas de que ela dará continuidade ao programa político e econômico iniciado anteriormente.

Há 60 anos que a América Latina não apresentava freqüente reação social, freqüente oposição aos governos. A política de “esquerda”, ou dita esquerda, nunca tomou tanto espaço no cenário político dos países latino-americanos. Isto não quer dizer que seja o caminho certo, ou o caminho da reação da democracia. As enormes reservas de dólares no Brasil atual não refletem uma melhora na condição da população mais carente. Talvez reflita sim, numa redução da dívida externa, que seria tão bom senão tivesse aumentando significativamente a dívida interna do país.

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Março de 2008
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O ‘cibervoyeur’ vigia e grava o que você faz

O auge dos telefones celulares com câmera traz problemas de privacidade - lugares como academias e piscinas o proíbem. Sua proliferação criou um novo perfil de voyeur

María R. Sahuquillo

Você faz topless na praia? Discute com a namorada - ou pior, com a amante - no meio da rua? Tenha cuidado. Você pode ser flagrado em qualquer lugar e em qualquer situação. Na sociedade mais vigiada de todos os tempos, todo mundo tem uma câmera à mão. Basta pegar o celular. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, viveu isso no sábado (23/02). Um jornalista usou um celular para gravar uma discussão do presidente com um agricultor numa feira. Na Espanha, os celulares também se proliferam. Hoje, 60% dos telefones móveis vendidos têm câmera. O sucesso dos aparelhos fez com que eles fossem proibidos em alguns lugares por motivos de privacidade. Também deu origem a um novo tipo de voyeur, o cybervoyeur, que além de observar, grava imagens com o celular e as publica na rede.

Fotos de férias, festas de aniversário, colegas de trabalho… Além de imagens de gente tomando sol na praia, de bebedeiras ou de famosos em situações comprometedoras. 74% das fotos tiradas na Espanha em 2007 foram feitas com celular, segundo um relatório da consultoria internacional GFK. Os telefones já superam as câmeras digitais compactas. São pequenos, facilmente manuseáveis e cada vez mais avançados. Muitos deles ainda têm um flash tão potente como o de qualquer câmera de bolso. Outros ainda têm uma outra vantagem: “a possibilidade de publicar as fotos na Web instantaneamente”, diz José María Cuéllar, gerente do segmento de Novas Tecnologias da Telefónica espanhola.

Num mundo cercado por objetivas surge um outro problema: é legal tirar foto dos outros? E publicá-las na Internet? Não, não é… se você for um transeunte. “Todo cidadão tem o direito sobre sua imagem. Ninguém pode utilizá-la sem sua permissão. Independente de onde esteja, mesmo que seja num lugar público”, explica Artemi Rallo, presidente da Agência de Proteção de Dados. Portanto, nada de fotos. Nem de vídeos. E muito menos publicar as imagens na Internet. “A prática de tirar fotos de pessoas na praia ou em qualquer outra situação e depois divulgá-las é contra a lei de proteção de informações”, diz Rallo. E dependendo de como forem as imagens, podem violar inclusive o direito à intimidade. Há, entretanto, duas exceções: as imagens feitas por motivos de segurança e as captadas dentro do chamado direito à informação, nas quais se enquadrariam as imagens como as da pequena discussão de Sarkozy.

Mas o problema, sobretudo para os cidadãos comuns, é que a onipresença e a discrição dos aparelhos celulares fazem com que seja muito difícil saber quando se está sendo filmado. “A rua Orense tem uma área verde onde ficam vários casais e também rapazes urinando. Lugares com arbustos onde é possível se esconder”. Esta é uma mensagem de um fórum de voyeurs na Internet, entre outros tantos que existem na rede. Os sites, além de divulgarem fotos e vídeos de pessoas nuas (roubados ou não) e de casais tendo relações sexuais, sugerem lugares propícios para dar uma espiadinha. Provadores de lojas, praias ou descampados. Lugares para ver sem ser visto, e poder, assim, gravar imagens. Alguns casais, advertem os internautas do fórum, permitem ser observados. Outros não percebem. A maior parte das imagens do fórum foi feita com celular.

Não é difícil. O mercado está tomado por eles. Em 2006, a Nokia, um dos líderes de fabricantes de celular, vendeu mais de 100 milhões de aparelhos com câmera integrada. Em 2007, esse número dobrou, segundo os dados da companhia. Na Espanha esses celulares também fazem sucesso. Dos 22 milhões de celulares da operadora Movistar, 9 milhões podem captar imagens. E ainda há mais por vir. 85,2% dos espanhóis preferem um telefone com câmera integrada, segundo um estudo da loja The Phone House. “Quase todos os celulares que oferecemos têm câmera. Exceto os simples - aparelhos fáceis de usar - e outros três modelos”, diz um porta-voz da Vodafone.

“O problema desses aparelhos é sua indiscrição. Qualquer um pode tirar fotos ou fazer um vídeo e fingir que está enviando uma mensagem ou consultando algo”, diz o sociólogo especialista em novas tecnologias Artemio Baigorri. Há alguns meses um vigilante de um centro comercial em Astúrias descobriu um cliente que estava tirando fotos debaixo das saias de várias mulheres com seu celular. Não é um caso isolado, a rede está cheia de imagens desse tipo.

Por esse motivo já há lugares em que é proibido entrar com um celular. É o caso dos várias academias do Reino Unido, Tóquio ou Madri, que proibiram o uso do celular em algumas salas para respeitar a privacidade de seus clientes, em muitos casos famosos. Uma imagem de uma celebridade levantando pesos ou correndo na esteira pode ser vendida por milhares de euros para programas de TV ou revistas de fofoca. Além do mais, tirar uma fotografia de boa qualidade não é muito difícil. Hoje se podem encontrar no mercado celulares com câmeras que vão desde 0,3 megapíxel, nos mais simples, até 5 megapíxel, nos aparelhos mais incrementados. Também existem miniobjetivas que podem ser adaptadas à lente da câmera do telefone.

Mas será que isso também é uma violação à lei de proteção de informação? “Os casos com famosos são muito complicados, já que tirar fotos ou gravar vídeos pode ser uma infração ou não, dependendo das circunstâncias concretas em que eles foram filmados e se eles já comercializaram sua privacidade anteriormente. No caso de uma pessoa anônima, em qualquer circunstância, já se trata de um atentado contra a privacidade”, diz Alonso Hurtado, advogado do escritório X-novo, especializado em novas tecnologias.

Também algumas piscinas e vestiários de vários países vetam a entrada dos celulares com câmera. Na Arábia Saudita eles estão proibidos há pouco tempo. No Japão, as autoridades criaram vagões especiais para mulheres com o objetivo de evitar que, com a superlotação do transporte público, os homens as tocassem ou tirassem fotos com o celular por debaixo de suas saias. Na Espanha, durante algum tempo, não se podia entrar com celulares nas instalações de vários tribunais. “Na maioria dos países é proibido entrar com telefones em reuniões importantes das grandes companhias, já que se pode fotografar ou gravar documentos e incitar conflitos de espionagem industrial”, conta Hurtado.

Entretanto, o problema para a vítima não são tanto as imagens, mas sua distribuição em massa. Hoje a Internet e as redes sociais permitem compartilhar fotografias e vídeos com milhões de internautas. Isso, aliado ao fato de que a maioria das pessoas sempre leva o celular consigo transformou o uso que fazemos das imagens. “Agora podemos tirar fotos em circunstâncias que normalmente não tiraríamos. É tudo mais espontâneo. Além disso, poder colocar nossas fotos na Internet e compartilhá-las de forma quase instantânea dá muita satisfação”, diz Alexis Bonte, especialista em Internet e novas tecnologias.

Como explica Bonte, qualquer um pode compartilhar suas imagens na rede. Mas isso também é problemático. O internauta pode publicar tanto as suas próprias fotos e vídeos quanto os de outra pessoa. Os sites não têm nenhum tipo de controle. E isso acarreta um problema de privacidade. Uma fotografia clandestina tirada num momento indelicado pode ter suas conseqüências. Também pode converter alguém como R. P., de 61 anos, em um personagem famoso. Este madrilenho participou há alguns meses de uma sessão de sexo sadomasoquista em uma festa privada. Uma reunião tão seleta, em que os participantes eram obrigados a apresentar a carteira de identidade para entrar. Apesar disso, semanas mais tarde, navegando na rede, encontrou um vídeo seu gravado naquela noite. O vídeo havia sido feito com um discreto celular. O caso de R. P. não é o único. A situação dele é mais comum do que parece. Há um ano um diretor de uma companhia britânica solicitou a um site de vídeos que retirasse do ar imagens em que ele aparecia bêbado em uma festa. Ele havia sido filmado e fotografado com um celular e as imagens foram divulgadas na Internet. Imagens que, segundo ele, poderiam prejudicar sua carreira.

O que muitos ignoram, mas esse diretor sabia, é que cada vez mais caçadores de talentos nas grandes companhias usam a rede para buscar informações sobre seus candidatos. E com as redes sociais ou a Internet, é fácil encontrar imagens dos mesmos. Positivas ou não. “Com as redes sociais como o Facebook, cada vez que um amigo coloca uma foto sua na rede, todos os seus contatos pessoais, e em alguns casos suas conexões profissionais, podem tomar conhecimento e ver a imagem. E isso pode causar situações constrangedoras”, conta Alexis Bonte.

Mas o que se pode fazer se alguém descobre uma foto ou um vídeo seu, feito sem autorização, circulando pela Internet? “Tentar localizar o proprietário do domínio e solicitar a retirada da Web”, explica a Associação de Internautas. Para Hurtado, a melhor solução, e a mais rápida, é procurar a Agência de Proteção de Dados. Foi o que fez hoje José Martín Roldán depois de pedir várias vezes para que o YouTube tirasse um vídeo em que seu filho Román, que é deficiente mental, aparecia. As imagens, em que o menino aparecia vestido de índio, haviam sido gravadas com um telefone celular.

O vídeo de Román foi retirado, mas é provável que ele continue na rede. O problema mais grave começa quando as imagens são linkadas em outros sites ou trocadas através das redes P2P. “Então fica muito difícil acabar com elas. A Internet é uma das principais fontes de agressão da privacidade”, diz o diretor da Agência de Proteção de Dados. O departamento estuda como reagir à difusão de imagens pela rede. “Temos conversado com vários sites sobre a necessidade de implantar mecanismos preventivos ou filtros, mas isso implica muitas dificuldades. Desde a tênue linha da censura, à dificuldade proporcionada pelas ferramentas tecnológicas. A cada segundo caem milhões de vídeos e fotografias na rede”, diz Artemi Rallo.

Imagens como as que aparecem no YouTube, MSN Vídeo ou em sites especializados em voyeurismo, como www.pillados.com. “Fotografar ou gravar com o celular está na moda. Além disso, ter um telefone que faz isso tornou-se comum. Desde o ano passado recebemos muito mais imagens que antes, principalmente vídeos. Também vejo muito mais gente gravando com celulares na praia ou em parques”, explica um dos responsáveis pelo site. Ele diz, entretanto, que 90% do material de sua página foi gravado pessoalmente, e que ele controla muito as imagens que difunde.

“Elas têm de cumprir uma série de requisitos: terem sido feitas em lugar público, com gente ao redor e iluminado. A maior parte das minhas fotos e vídeos são de pessoas que não se importam de ser gravadas, ou então, que gostam de se exibir. Mesmo assim, eu cubro os rostos, tatuagens e outros sinais que possam identificá-las”, diz.

Mas o celular não serve somente para captar cenas de sexo ou de bebedeiras. É cada vez mais comum ver cenas de ciberbullying, assédio escolar gravado com o telefone e depois difundido na Internet, ou então de vídeos de brigas ou destruição do patrimônio público. Os aparelhos também se convertem em espectadores silenciosos de acidentes ou calamidades. “A onipresença comunicativa em que vivemos também tem suas vertentes positivas. Desde a possibilidade de a qualquer momento podermos tirar fotos de coisas muito positivas, até o fato de que agora há testemunhas para quase qualquer coisa”, diz Artemio Baigorri. Há alguns dias a polícia divulgou as imagens de vários jovens que destruíram os retrovisores de alguns carros estacionados em uma rua de Valência. Os rapazes haviam filmado tudo com um celular e colocado as imagens na Internet. Talvez não suspeitassem que, graças a elas, poderiam ser identificados.

Baigorri diz que dentro de dez anos os problemas de intimidade e privacidade irão se multiplicar. “Em um futuro não muito distante, não somente os celulares terão câmeras, mas quase qualquer lugar e qualquer pessoa terão algum dispositivo que grave e estarão conectados simultaneamente à rede. Todos nós vamos ver uns aos outros continuamente, o que é um outro tipo de problema”, diz o sociólogo. Segundo ele, a sociedade terá de se acostumar a viver num mundo repleto de olhos que a tudo vêem. De grandes irmãos que vigiam. “Em breve viveremos a imagem que foi antecipada pelo filme Blade Runner, um mundo em que tudo está sendo registrado e assistido por milhares de telas”.

Tradução: Eloise De Vylder

El País
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No início da segunda etapa da crise global

A corte de admiradores do capitalismo global, que ao longo dos últimos anos nos encheu com suas reiterações sobre a solidez do sistema, hoje está em pleno recuo tático; seus integrantes já não negam a crise, mas tentam diminuir seu caráter dramático e reduzir suas raízes e extensão. A análise é do economista argentino, Jorge Benstein.

Jorge Beinstein*

ALAI AMLATINA, 11/02/2008, Buenos Aires - A recessão já se instalou no centro do Império; agora, o debate gira em torno da sua profundidade, duração e alcance mundial. A corte de admiradores de direita ou progressistas do capitalismo global, que ao longo dos últimos anos nos encheu com suas reiterações sobre a solidez do sistema, hoje está em pleno recuo tático; seus integrantes já não negam a crise, mas tentam diminuir seu caráter dramático e reduzir suas raízes e extensão. Alguns deles ensaiam explicações anedóticas, outros dizem tratar-se de uma “crise cíclica” —que é o mesmo que dizer passageira— e a maior parte deles refugia-se na explicação simplista que reduz o fenômeno a uma grande perturbação financeira combinada com um surto pessimista dos consumidores norte-americanos, provocado pelos devedores inadimplentes dos Estados Unidos (aqueles que não pagam seus créditos imobiliários) e por aqueles que deram a eles empréstimos generosos demais.

Segundo esse pessoal, os problemas serão superados em breve, graças às intervenções da Reserva Federal, da Casa Branca e das autoridades políticas e monetárias das outras grandes potências. O mítico estandarte do poder invencível dos amos do sistema ainda flameja nas alturas, mesmo que esteja ficando esfiapado rapidamente, no ritmo das trovoadas globais.

Crédito, consumo e dívidas

Uma vez que a crise está circunscrita ao estouro da “bolha imobiliária” norte-americana e aos seus impactos colaterais nos Estados Unidos e no resto do mundo, a “solução” parece clara: estimular os consumidores e investidores, aumentar o gasto público e injetar liqüidez no mercado.

É isso que estão fazendo agora o governo Bush e a Reserva Federal: o presidente acabou de promover uma redução de impostos e um gasto público recorde para 2009 — que chega a mais de 3 trilhões de dólares — e que, portanto, vai gerar um déficit fiscal gigantesco; ou seja, que a dívida pública logo vai superar os 10 trilhões de dólares. É claro que Bush faz tudo isso sempre a partir da direita: as reduções fiscais beneficiam basicamente os ricos e a classe média alta, o aumento do gasto público vai privilegiar as Forças Armadas, que terão o maior orçamento de toda a história dos EUA: o gasto militar total dos Estados Unidos chegou, em 2008, a quase 1,2 trilhões de dólares (se somamos as verbas do Departamento de Defesa e as dos outros setores do Estado), segundo o projeto de orçamento enviado ao Parlamento por Bush, em 2009 essa cifra será muito mais alta. Por sua vez, a Reserva Federal reduz ainda mais a taxa de juros.

O que eles estão fazendo agora é uma espécie de repetição, em condições infinitamente mais graves, do que já fizeram em 2001. Eles não têm nenhum roteiro diferente. Só que naquela época a dívida pública norte-americana chegava a 5,7 trilhões de dólares e agora está muito próxima de 9,2 trilhões e se somarmos a isso o resto do endividamento dos setores públicos e privados chegaremos aos 50 trilhões de dólares (equivalente ao Produto Bruto Mundial). E ainda é preciso acrescentar a acumulação de déficit fiscais e comerciais e um volume de gastos militares totais que em 2009 poderia chegar a representar 10% do PIB norte-americano.

Em 2001 a situação era difícil, mas havia margens econômicas e políticas que permitiram que o Poder (mediante auto-atentado terrorista) saísse da recessão acelerando as tendências dominantes do sistema: hipertrofia especulativa, concentração de renda, consumismo (com forte queda da poupança pessoal), crescimento das dívidas públicas e privadas e keynesianismo militar. Todos esses aspectos foram ficando exarcebados ao extremo nos últimos sete anos, as aventuras coloniais na área euro-asiática terminaram num impasse (o aparato militar aparece agora como uma pesada máquina, tão sofisticada e cara quanto incompetente) enquanto o Estado e a população estão afogados em dívidas.

A recessão norte-americana é mais uma crise de dívida do que uma depressão causada pela retração do consumo; a primeira é o fundamento da segunda. A super dívida estatal chegou a um ponto tal que sua expansão entrou no círculo vicioso que entrelaça de modo perverso as emissões de título públicos e os dólares cada vez mais desvalorizados, a alternativa estaria em que o Estado reduzisse seus gastos e/ou aumentasse a arrecadação fiscal, o que poderia afundar a economia em uma recessão ainda mais profunda.

Por sua vez, a população de média e baixa renda tem sofrido as conseqüências do congelamento (e para um importante setor, até a queda) dos seus salários reais, a renda familiar média é, atualmente, menor que no ano 2000. Quando a “bolha imobiliária” começou a se formar, com uma avalanche de créditos baratos, ao mesmo tempo se estava restringindo a solvência a médio prazo de uma grande massa de devedores e a serpente neoliberal acabou mordendo o próprio rabo: em meados de 2006 o mercado imobiliário estava saturado, os preços de imóveis começaram a cair e, em 2007, explodiu a inadimplência. O que veio a seguir é bem conhecido.

Nos anos em que estava no auge, o tema do iminente esgotamento do crescimento da economia norte-americana, sobrecarregada por dívidas, foi abertamente ignorado ou negado por jornalistas, especialistas, grandes empresários e dirigentes políticos dessa superpotência. Os negócios iam bem e quem teria ousado, nesse período, dizer que os grandes lucros da época seriam a base de um próximo desastre? Os poucos que ousaram foram marginalizados e ridicularizados, apontados como catastrofistas, pessoas amargas ou amantes dos terremotos.

Mas se a direita pretende fazer mais da mesma coisa, os progressistas imperais não vão muito mais longe. Joseph Stiglitz, uma das vozes desse setor, acabou de propor uma variação “popular” do remédio, também orientada para a reabilitação do consumo aumentando o gasto público e, consequentemente, o déficit fiscal e a dívida. Segundo essa proposta, os beneficiários não seriam os militares e os ricos, mas os desempregados, os programas de desenvolvimento de infra-estrutura, do setor educacional, da saúde, de economia de energia e de redução da contaminação ambiental. A aspirina progressista (incompatível com o atual sistema de poder dos EUA) e a repetição conservadora não passam de pequenos band-aids impotentes diante de uma realidade desbordante.

Recessão e inflação

Agora que a recessão chegou ao centro da economia mundial, suas autoridades entram em pânico, percebem que suas ações são ineficazes ou, inclusive, contraproducentes. As medidas anti-recessão, como os cortes fiscais que estão em curso, as drásticas quedas nas taxas de juro ou o aumento do gasto público, certamente trarão mais déficit e dívidas e, caso cheguem a ter algum sucesso, mesmo que seja medíocre, trarão um aumento da inflação. Em ambos os casos, darão impulso à desvalorização internacional do dólar. A recessão e a inflação chegam juntas porque a crise financeira converge com a crise energética que faz subir o preço do petróleo, puxando para cima um amplo leque de matérias-primas. Os custos de produção aumentam não só quando a economia mundial cresce, fazendo aumentar a demanda por esses produtos, mas também quando ela fica parada, ou mesmo quando sofre quedas. Isso ocorre porque a extração de petróleo no mundo está chegando ao seu nível máximo e, logo atrás dela, as de outros recursos energéticos não renováveis, como o carvão e o urânio, que seguirão o mesmo caminho a mais longo prazo, mas bem antes de meados do século XXI. E, como já sabemos, a substituição do petróleo pelos biocombustíveis leva a um rápido encarecimento generalizado da produção agrícola, especialmente de alimentos.

Em síntese, as autoridades norte-americanas sabem que se tentarem reverter a recessão reanimando o mercado estarão dando fôlego à inflação e à queda do dólar, o que, cedo ou tarde, trará mais recessão; mas também sabem que se tentarem conter a inflação esfriando a economia, a recessão vai se aprofundar: um beco sem saída.

Alguns especialistas, por enquanto discretos, começam a alimentar ilusões com a possibilidade de uma paralisação prolongada mas ordenada, sem explosões sociais nem crises institucionais graves. O modelo para isto seria o Japão dos anos 1990, mas eles esquecem que se tratava de uma potência de segunda ordem que contou, nesse momento, com duas tábuas de salvação externas que ajudaram a suavizar a aterrissagem: em primeiro lugar, as “bolhas” de prosperidade do leste da Ásia, que deram fôlego ao Japão até a crise de 1997, e, principalmente, os Estados Unidos, seu principal cliente comercial, cujo mercado absorveu exportações e investimentos japoneses. Mas os Estados Unidos é um país grande demais, não existe uma tábua de salvação externa à sua medida. O resto do mundo vinha amortecendo seus desajustes fiscais e comerciais, acumulando montanhas de papeis dolarizados que a cada dia valem menos, mas essa capacidade está quase esgotada.

A ilusão do descolamento

Na última reunião de Davos houve muita discussão em torno do possível “descolamento” entre os Estados Unidos e as outras potências industriais que, deste modo, ficariam distanciadas do naufrágio do seu irmão maior.

Até hoje, a globalização era apresentada pela propaganda neoliberal como uma rede da qual ninguém podia escapar. Agora, sem maiores explicações, dizem o contrário: pelo visto, a rede global permite que uma ampla variedade de países fujam do desastre. Dirigentes e comunicadores de algumas economias desenvolvidas incluem seus países na lista de sobreviventes e inclusive em muitos países periféricos as mídias locais tentam tranqüilizar suas populações explicando que, graças ao nível das suas reservas (em dólares), à natureza das suas exportações, à sua localização geográfica ou a outra benção do destino, essa nação não será afetada pela recessão norte-americana (ou será muito pouco).

Mas acontece que — para desgraça dos neoliberais— os neoliberais tinham razão: as interdependências econômicas mundiais são tão densas que, como estamos comprovando todos os dias, não há maneira de “descolar” as sacudidas norte-americanas (bancárias, da bolsa, etc.) do funcionamento financeiro internacional. A “bolha imobiliária” norte-americana foi a vanguarda de uma variada série de outras bolhas parecidas em diversos lugares do planeta, países como Espanha, Inglaterra, Holanda, Austrália, Irlanda e Nova Zelândia fizeram parte ativa desta festa. Na Espanha, a bolha já começou a murchar: recentemente, Carlos March, cabeça de um dos grupos financeiros decisivos desse país, declarou que “a crise imobiliária (espanhola) vai durar muito tempo, pelo menos três anos”. Por outro lado, numerosos bancos europeus e asiáticos estão sendo atingidos pela desvalorização de títulos norte-americanos atrelados a dívidas hipotecárias de alto risco, que compraram por atacado em pleno auge especulativo. A recessão norte-americana já afeta o Japão, intimamente associado à superpotência nos níveis comercial, financeiro, político-militar, etc. O Japão e os EUA compram o grosso das exportações industriais da China e são a coluna vertebral da sua prosperidade econômica, a qual, por outro lado, acumula mais de 1,4 trilhões de dólares e papéis dolarizados em suas reservas e também tem suas próprias bolhas (da bolsa, imobiliária, etc.).

Muito mais fortes são as inter-relações entre a União Européia e os Estados Unidos… o que não impediu o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, de declarar (no início de fevereiro de 2008 e sem mexer um só músculo da cara) que “na Europa não há risco de recessão, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos”.

* Economista argentino, professor na Universidade de Buenos Aires. É autor, entre outros livros, de “Capitalismo senil, a grande crise da economia global”.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Fonte: Outro Brasil

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“Revolução técnico-científica questiona capitalismo”

Do Jornal Brasil de Fato

As frases são carregadas de conteúdo não só discursivo. Têm emoção, histórias. Trajetória de quem além de pensar sobre a dependência, foi testemunha e participante.

Vânia Bambirra chegou ao Chile exilada. Ao lado de intelectuais, como Rui Mauro Marini, Andre Gunter Frank, Theotônio dos Santos, formulou a Teoria da Dependência, uma leitura marxista, crítica, não-dogmática, dos processos de reprodução do subdesenvolvimento na periferia do capitalismo.

Em 1961, inscreveu-se com um grupo de intelectuais, entre eles Theotônio, como voluntária para defender a revolução cubana. Participou da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (ORM-Polop), organização que lutou contra o regime militar de 1964.

No Chile, integrou o Centro de Estudos Sócio-econômicos (CESO) com um grupo de marxistas que desenvolveu uma nova leitura da realidade latino-americana. Elaboraram um instrumental analítico da realidade que influenciou o programa da Unidade Popular, partido de Salvador Allende, eleito presidente em 1970.

Três anos depois, assiste o assassinato do primeiro presidente de esquerda eleito democraticamente em um golpe de Estado promovido pelas forças militares, com apoio dos Estados Unidos. Novo exílio, dessa vez no México, onde leciona na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Volta ao Brasil apenas nos anos de 1980.

Mais conhecida na América Hispânica do que no próprio Brasil, tem apenas dois livros publicados em terras tupiniquins. Ainda não se encontra nas livrarias uma de suas mais famosas obras, “A Revolução Cubana – uma reinterpretação”, tido como um dos melhores trabalhos produzidos fora de Cuba sobre o processo revolucionário.

Hoje vive no Rio de Janeiro, com sua filha e seu neto. Em entrevista ao Brasil de Fato, concedida no final de novembro, Bambirra expõe suas idéias sobre os processos capitalistas contemporâneos, as transformações na América Latina e a decepção com o governo Lula.

A Teoria da Dependência foi formulada na década de 1960. O que mudou hoje na relação dos países da América Latina com o resto do mundo?

É preciso dizer que a Teoria da Dependência, que surgiu nos anos 1960, sofreu um baque com o golpe do Chile (1973). Foi muito criticada porque teria influenciado o governo de Salvador Allende; de fato, influenciou o seu programa. E seus críticos diziam que, assim como a experiência fracassou, a Teoria da Dependência teria tido o mesmo destino. Ela entrou em uma crise, não houve mais produção a partir a partir de então. E ela não captou as mudanças que ocorreram nos 1980. O que aconteceu depois? (Ronald) Reagan teve dois mantados (1980-1988) e consolidou o neoliberalismo na América Latina. A Teoria da Dependência não processou essa fase porque já estava em baixa. O próprio Rui Mauro Marini faz reflexões em vários artigos, mas não há uma análise profunda e sistemática do neoliberalismo. O mundo mudou, sim. O imperialismo transformou o mundo globalizado. A globalização é uma palavra moderna para esse fenômeno.

Você entende que hoje está em curso uma redivisão internacional do trabalho, com China e Índia assumindo um papel mais fabril no mercado global e os outros países passando por uma espécie de desindustrialização?

Não acho que seja por aí. O que ocorre é o processamento da revolução científico-tecnológica que em alguns países está muito mais avançado do que em outros. No caso da Índia, do ponto de vista de informática, está muito avançado. Eles exportam mão-de-obra. E, ao mesmo tempo, é um país atrasadíssimo. Uma miséria massiva, uma marginalização da maioria que não sabe ler, escrever. Essa realidade convive com um setor de elite. O problema é muito grave porque a revolução científico-tecnológica conduz inexoravelmente a um questionamento do capitalismo. É uma revolução típica nem de uma sociedade socialista, mas sim comunista, porque tira a mão-de-obra do processo produtivo, coloca a ciência como principal força produtiva. É a contradição absoluta que o capitalismo não pode resolver. A mais-valia vem da exploração do trabalho humano, e não dos robôs, de cérebros eletrônicos. O capitalismo é reacionário porque não pode produzir progresso. E o socialismo como etapa de transição, que não é uma sociedade sem classes, pois conserva elementos fundamentais do capitalismo e até por isso que entrou em crise, também foi incapaz de trazer esse progresso. Esse é o grande problema do mundo que está aí. E que sem um instrumental marxista as pessoas não conseguem entender. São contradições que vão se acirrando. As forças produtivas querendo se desenvolver e, ao mesmo tempo, impossibilitadas de se desenvolver porque o capitalismo tem de manter a exploração do ser humano.

Reacionário no sentido de não permitir a ampliação dos avanços das forças produtivas?

A tendência é se acabar com o trabalho humano, que é o que gera mais-valia. Mas, sem isso, não há como o capitalismo sobreviver.

E a resposta do capitalismo é a massa desempregados?

Claro, e esses problemas absurdos de segurança. Eu dizia na sala de aula: se visse um filho meu com fome, eu roubava. É uma questão de sobrevivência do ser humano. Isso é uma caricatura que tenho coragem de dizer. O que está acontecendo com nossa população marginalizada, os pobres que não têm sequer acesso ao trabalho? Essa população quer sobreviver, é um instinto, e para isso tem de se alimentar.

O ingresso de massas trabalhadoras nos parques industriais da China e da Índia e a redução do trabalho operário na Europa, nos países centrais, trazem mudanças no conceito de superexploração?

Traz, evidentemente. Na China, por exemplo, essas massas que deixam o campo e vão para as cidades recebem salários irrisórios. Por que as coisas feitas na China são tão baratas? Porque há uma intensificação da superexploração. Remunera-se o trabalho muito abaixo. É uma hipersuperexploração. Quanto é o salário de um trabalhador na China? 30 dólares? Vão surgindo nesse país, que foi socialista, as mazelas típicas das sociedades capitalistas. É uma população que não estava acostumada com isso. Por que na Rússia, na Alemanha e em ex-repúblicas socialistas começa a surgir um saudosismo daqueles velhos tempos? Isso se manifesta, claro, entre os mais idosos. Mas é muito significativo isso. Porque a hecatombe foi em 1990, não foi há tanto tempo assim. Eles vivem uma sociedade de consumo, mas não podem desfrutar dela.

Uma pesquisa feita na antiga Alemanha Oriental mostrou exatamente isso: 92% dos mais velhos (35 e 50 anos) preferem o comunismo ao atual capitalismo; entre os mais novos, 60% disseram o mesmo.

Quando eu morava no México, um amigo cubano veio me visitar durante um congresso e, quando chegou, viu aqueles hipermercados, com prateleiras imensas. Ele ficou deslumbrado. No dia seguinte, me disse que não dormiu direito, sonhou com aquilo. E me contou: “Mas, pensando bem, eu acho que nós cubanos não temos do que nos queixar. O que adianta ter tudo aquilo se para adquirir qualquer coisa eu preciso de dinheiro”. Você vê tudo o que você pode consumir, mas só tem acesso a uma ínfima parte.

As senhora acredita que há alguma forma de superar essa etapa neoliberal nos marcos do próprio capitalismo, como a reativação do Estado de bem-estar social, o neokeynesianismo?

Nenhuma viabilidade. Como é que vai superar, se o progresso vai na direção de superar o trabalho humano? É nesse sentido que o capitalismo é reacionário, porque precisa do trabalho humano. E o socialismo tampouco conseguiu essas respostas. Veja bem, Marx, os clássicos, pensavam o socialismo em uma sociedade desenvolvida. Foi uma audácia fazer a Revolução Russa. Os bolcheviques foram muito atrevidos, porque ousaram tomar o poder e tentar construir o socialismo em uma sociedade cheia de vestígios feudais que não tinha tido um desenvolvimento suficiente do capitalismo. A Rússia era muito atrasada. E ainda mais grave: foi um país cercado, bloqueado, dizimado fisicamente, invadido pelos países desenvolvidos europeus. A infra-estrutura incipiente capitalista que existia lá foi fisicamente destruída. Começou-se a construir sob os escombros. Então era para dar no que deu, todo mundo torcia que não. Era uma epopéia incrível. O socialismo completa quase 100 anos. E quantos anos o capitalismo demorou para se desenvolver? O socialismo ainda é uma experiência muito rudimentar, frágil, porque triunfou em países muito débeis.

Como em Cuba?

Sim, veja bem, o socialismo cubano é um socialismo heróico. Mas ele se manteve porque teve ajuda soviética. Sem isso, Cuba seria inviável. Uma ilha não só no sentido físico. Era atrasada, o cabaré dos Estados Unidos. Que viabilidade tinha para construir o socialismo ali? E, contudo, Cuba existe, está lá. Precisou da ajuda soviética, veio a hecatombe em 1990, Cuba continuou sobrevivendo. Buscou formas de negociar o que tinha, açúcar, charuto. E foi sobrevivendo, e o povo se sacrificou. Sem nenhuma dúvida. A concepção do socialismo não é a generalização da miséria. O que o socialismo quer e sobretudo a etapa superior, o comunismo, é que todas as pessoas possam usufruir das benesses. Todo mundo quer comer bem, presentear seus amigos, andar com bons meios de transportes. A pessoa quer viver bem. E em uma sociedade capitalista isso é um luxo, só poucos podem ter. Na sociedade do futuro, a idéia é que todos tenham tudo isso. Essa é a utopia marxista. O problema é que até agora o socialismo triunfou em outros países. Já pensou uma revolução socialista na Inglaterra? Ou na Alemanha?

Como a senhora coloca a questão do consumismo nisso? Por exemplo, fala-se que seria inviável expandir para o planeta o padrão de consumo estadunidense ou europeu.

O modelo de vida da maioria dos americanos, e a maioria é classe média, é modesto. Não vamos esquecer que os Estados Unidos têm milhões e milhões de miseráveis, sendo o país mais rico do planeta. Vamos falar da classe média americana. Eles têm um modelo de vida muito restrito, muito medíocre. Nova York é uma cidade violentíssima, muito perigosa, com níveis de violência que não fazem inveja ao Rio de Janeiro. Entre no Central Park à noite para ver o que ocorre. A maior parte dos americanos tem uma vida medíocre, mas vive no país mais rico do mundo. É um absurdo. É um povo que não usufrui em sua maioria das riquezas que o sistema produtivo conquistou.

Na América Latina, discute-se o socialismo do século 21. No entanto, esses processos não tem seguido os processos tidos como padrão de movimentos revolucionários, como a criação de um partido de massas, a formação política do povo…

É muito interessante o que está acontecendo hoje. Todos foram eleitos, Evo (Bolívia), Rafael (Equador), Chávez (Venezuela)… Eu fico entusiasmada, mas com um pé atrás. A gente tinha muita esperança em Allende, que também foi eleito, sobretudo porque a direita se dividiu naquela época. Bolívia, Equador e Venezuela são os três casos mais impactantes, mas estão ocorrendo fenômenos de questionamento da ordem também quando se elege na Nicarágua um antigo sandinista. Eu acho que o povo está querendo mudança.

E o Lula?

Isso é a continuidade de Fernando Henrique, é o neoliberalismo, sim. E aí eu acho mais inconcebível. Não sou moralista, não vou entrar na história de “mensalão”, corrupção, isso é secundário. O que é substantivo é a amizade que ele tem com Bush. Eu votei nele e não votei num cara que iria ser o amiguinho número 1 do Bush. Não votei em um cara que quer transformar o campo brasileiro em zona de produção de agrocombustível para abastecer os Estados Unidos. Tirar comida da boca do povo brasileiro para dar combustível para os países desenvolvidos? Isso não.

Essa política focada na agroexportação reconduz o país a uma condição primário-exportadora?

Não, não acho. O parque industrial brasileiro é fantástico, apesar de o Fernando Henrique ter tentado sucatear tudo. O Brasil produz aviões; equipamentos de prospecção submarinas de petróleo em águas profundas. Isso é um produto de tecnologia de ponta. É diferente da Venezuela, por exemplo, que tem de importar tecnologia. Brasil, México, Argentina, Chile e Uruguai têm mais autonomia. Romper a dependência, para essas nações, é uma questão política. O socialismo seria muito menos doloroso no Brasil, México e Argentina do que no Equador, Bolívia e Venezuela. Mas é lá que está ocorrendo o fenômeno. Porque nesses países as contradições se tornaram incontroláveis. O sistema está invertido.

A senhora acha que esses países caminham para uma saída mais desenvolvimentista ou para uma transformação mais radical?

Olha, o ritmo da radicalização é marcado pela contra-revolução. Assim foi em Cuba. É contra-partida. Se a direita avança, força esse processo. Isso está ocorrendo assim na Bolívia, querem tornar independentes as regiões mais ricas. Não somos nós que definimos o ritmo das mudanças. E como quem é proprietário privado nunca vai abrir mão, a tendência é sempre essa, de radicalização. Já vimos esse filme antes. O Evo vai chegar a um ponto em que precisará entregar ao povo as defesas daquilo que conquistou. As respostas a gente já conhece. E nenhum processo avança se não tem a confiança do povo em definitivo. Em Cuba, por exemplo, se a população quisesse depor Fidel Castro, tinha feito isso. Mas eles o adoram. Saúde de altíssimo nível, escola, comida, mesmo que racionada, porque é um país que importa alimentos, não produz. Não há uma abundância generalizada em Cuba.

Cuba vive hoje um debate interno, impulsionado por Raúl Castro, no qual a população está opinando sobre os rumos da revolução…

Com a enfermidade do Fidel Castro, os Estados Unidos têm a expectativa de que ele morra e de que o país vai mudar. É exatamente nesse momento que Cuba tem espaço para abrir mais. Sempre houve consulta popular. O problema é que parece inacreditável que o povo adore Fidel. Isso não se transfere para Raul, mas ele não pensa diferente de Fidel. Tenho só a impressão de que está atuando sem tanta pressão.

Ainda sobre o mundo socialista, há pesquisadores que apontam a existência de um suposto imperialismo soviético sobre as outras repúblicas socialistas…

Essa é uma visão de direita. A questão é que a União Soviética salvou Cuba; sem o petróleo, a revolução não teria sucesso. Para os soviéticos, interessava o sucesso da revolução. Mas é óbvio que, junto com esse apoio, veio toda um influência. Os cubanos passaram a adotar típicos manuais soviéticos nas universidades. E foram assimilando certas mazelas do sistema soviético. Isso é inquestionável. Foi um período terrível, à beira de uma guerra nuclear. A primeira vez que fui a Cuba foi em 1963. Eu conheci intelectuais cubanos que tinham uma independência muito grande em seu pensamento. Claro, não podiam expressar isso. Uma revista como Pensamiento Crítico acabou fechada, o que foi terrível, muito ruim. Mas foi um preço alto que se teve de pagar pela manutenção da revolução cubana. Um preço alto. Valeu a pena? Eu acho que valeu. Porque o exemplo de Cuba está aí e é onde a Venezuela se inspira. A bandeira do socialismo está lá hasteada, em uma ilha. O país tem uma das melhores taxas de mortalidade infantil do mundo, está exportando médicos, acabou a miséria.

Voltando ao Brasil e ao governo Lula. A senhora acha que, levando em conta tamanha a presença do capital internacional no país, haveria espaço político para um governo caminhar para uma ruptura?

Eu acho que sim, e acho também que Lula exerce um papel um pouco de ópio do povo. O Bolsa Família, que chega aos grotões, no Nordeste inteiro, dá uma miséria. Mas o povo precisa. O problema é que o Lula com isso está se transformando em um baita populista, assistencialista, difícil derrotar. Sou pessimista a curto prazo, acho que o PSDB ganhará as eleições. Mas, a médio prazo, sou mais otimista. O problema é que não temos uma alternativa de esquerda viável. A burguesia brasileira é de alto nível. Dão aqueles minutos de televisão e o povo não vota em desconhecido. O candidato do partido pequenininho fica com essa votação mínima. Se a gente lançar uma candidatura de esquerda mesmo, o povo não vai conhecer.

E como a senhora entende, hoje, a questão dos partidos?

Eu acho fundamental. Não sou dinossauro, nem nada, cabeça bem aberta, tentando analisar as coisas objetivamente. Partido é um grande instrumento para se formar quadros, organizar militância. Partido nada mais é do que um instrumento, mas um instrumento muito importante de organização do povo. Senão caímos no anarquismo, o que não leva nada em nenhum lugar. Os anarquistas tinham uma força histórica tremenda no começo do século no Brasil, fizeram greves sensacionais, mas levaram alguma coisa? Não levaram nada. Na revolução mexicana, o Pancho Villa e Emilliano Zapata tomaram o Zócalo (praça central da Cidade do México, onde fica o Palácio Nacional, sede do governo), tiram fotos e, depois, vão embora. Não tinham o que propor para o conjunto da sociedade. O partido é muito importante. Não o operário, vamos modernizar essa concepção, mas sim um partido que englobe todas as forças progressistas.

Você falou do México. Há uma frase muito famosa do subcomandante Marcos, “O poder está vazio”, pela qual ele se referia às limitações hoje do Estado capitalista, no sentido de que os governos estão tão amarrados com os instrumentos jurídicos e econômicos que tomar o poder não é uma finalidade…

Mas então qual é a finalidade? Sem esse poder, não se faz nada. Foi a grande discussão que se teve no Chile, na época do governo Allende. “Nós não tomamos o poder, chegamos ao governo”. O poder não é o governo, são as instâncias. O governo é o Executivo. Você tem o Legislativo, o Judiciário, os movimentos sociais, as Forças Armadas, uma série de instâncias que conforma o poder. Você tem de controlar isso para tomar o poder. Sabemos que precisamos destruir esse poder para construir um outro, socialista. Mas isso não se faz do dia para a noite. Tarefas construtivas coexistem com um processo de destruição. O desafio é construir uma nova sociedade. Quando você tiver se apoderado das partes cruciais, dos eixos, aí sim você vai poder mudar. Mas com as armas na mão também. Porque nenhum poder se mantém sem armas na mão. Eu já vi muita história ser derrotada quando estávamos com arma na mão, mas com menos armas que os outros. No golpe de 1964, a Marinha dos Estados Unidos estava em nossa costa. Não desembarcaram porque não precisou. Esse é um período em que estamos questionando muitas coisas, mas os pontos cruciais postos pela experiência revolucionária são os mesmos.

Que lembranças você tem dos anos 1960 em termos de luta, militância e atividade?

A lembrança dos anos 1960. Para destacar algo, eu me lembro muito do grupo de pesquisa na Universidade do Chile, onde elaborávamos em debates a Teoria da Dependência. E a minha melhor lembrança é a do Rui Mauro Marini, um intelectual brilhante. Organizamos um seminário de leitura do Capital. Eu já tinha lido, mas individualmente. A leitura coletiva é mais rica. Foi um contato muito marcante, do ponto de vista acadêmico e político.

E como a senhora avalia hoje a relação entre a questão de gênero e luta de classes?

Há muito tempo, eu escrevi em um artigo que a mulher trabalhadora tem a dupla jornada – um emprego fora e os afazeres domésticos – e é duplamente superexplorada em um ambiente social e doméstico. Por isso, eu acho que ela tem uma dupla razão para ser revolucionária e transformar esse sistema. Tem um potencial de luta fantástico. Mas o machismo é uma coisa muito forte. Na Revolução Cubana, por exemplo, a Vilma Espín e outras mulheres eram para ser mais destacadas. Elas foram destacadas apenas por serem mulheres. A Vilma Espín era mulher do Raul. Virou presidente da Federação de Mulheres Cubanas. Ela pegou em armas, tinha capacidade estratégica. Em uma pesquisa, uma vez, eu a entrevistei e fiz isso também com outras comandantes cubanas, salvadorenhas… As mulheres tiveram posições cruciais nas revoluções, mas desaparecem da história.

Os dois governos de Fernando Henrique colocaram em prática as idéias proposta do debate que ele tinha com Rui Mauro? Você conviveu com ele, no Chile…

A Teoria da a Dependência de Fernando Henrique nunca foi marxista, ele conhecia o marxismo, mas sempre foi weberiano. Quando eu o conheci no Chile, uma coisa interessante é que ele nunca discutia nada político; apenas o acadêmico. Ele freqüentou minha casa no Chile, cheguei a me despedir dele no aeroporto quando fui embora do país. Ele falava em sociologia o tempo todo, era um chato. Quando voltei ao Brasil, ele veio jantar conosco e era senador. Mas eu acho que ninguém esperava que fosse fazer um governo tão neoliberal, tão traiçoeiro. Entregar todas as jóias da Coroa, as empresas nacionais, lucrativas. Entregar tudo a preço de banana, literalmente. O que ele fez com a Vale do Rio Doce? Eu chorei quando ele vendeu a empresa, trabalhava em uma assessoria técnica na Câmara dos Deputados. Eu não esperava que chegasse a esse ponto de ser tão reacionário. Mas queria encerrar a pergunta afirmando o seguinte: tive decepção com Fernando Henrique, sim; mas tive mil vezes mais decepção com o Lula. O Fernando Henrique eu sabia que não era um cara de esquerda, era um cara progressista à época. Um liberal-progressista. Mas o Lula era do PT; claro, eu sempre fiz crítica ao PT, mas era um operário e terminar como amigo do Bush? Seguir uma linha tão entreguista? É o fim.

Fonte: MST

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