Família de Obama simboliza a globalização

*Roger Cohen

No mês passado, lá estava eu sentado embaixo de uma mangueira no Quênia ocidental, quando a meia-irmã Auma do senador Barak Obama me disse: “O pai de minha filha é britânico. O irmão da minha mãe é casado com uma russa. Eu tenho um irmão na China noivo de uma chinesa.”

Meu entendimento é que esse meio-irmão vivendo na China é Mark. Ele é filho do pai de Obama e de uma mulher americana chamada Ruth, a quem este conheceu quando freqüentava Harvard nos anos 60, e trouxe para o Quênia. Isso foi depois que o casamento com a mãe de Obama no Havaí terminou. Outro filho da união com Ruth, chamado David, morreu num acidente de motocicleta. Ao todo, o pai de Obama teve oito filhos com quatro mulheres.

Tenho pensado nisso porque ainda não se escreveu o suficiente sobre a família de Obama. Como Auma sugeriu, ela é bastante incomum pela combinação de países, a mistura religiosa e a fusão de cores. Mas essa família de anúncio da Benetton é menos incomum do que pode parecer. Vivemos numa era de famílias enormes, globalizadas.

É preciso escrever mais porque se Obama conseguir a nomeação democrata, é sabido que a máquina de ataque republicana, com insinuações e outros recursos, irá atrás de sua identidade como foi atrás da identidade do senador John Kerry em 2004.

A diferença é que Obama é muito mais seguro e confiante de quem ele é do que Kerry era. Ele construiu sua identidade num mundo em transformação. Seu pastor radical em Chicago contribuiu para essa jornada. Agora que Obama se sobrepôs a ele, isso não me causa preocupação.

Mas, já se podem ler as manchetes: Obama tem irmão na China! Já se pode ouvir os murmúrios sobre um pai polígamo. O fato de não ter sido escrito o suficiente sobre a sua família é estranho porque o próprio Obama dedicou um livro notável, Dreams From My Father (Sonhos de meu pai), à sua busca em preencher o vazio deixado por um pai ausente.

Como Auma me disse: “Ele estava tentando descobrir quem ele era. Precisava estar inteiro para poder fazer o que está fazendo. Ele foi no caminho certo. Uma grande porção de sua vida estava faltando. É muito saudável que ele saiba que tem suas raízes aqui.”

Essas raízes foram descobertas na primeira visita de Obama ao Quênia há duas décadas. Durante essa viagem, como narrou em suas memórias, ele conheceu Ruth em Nairóbi. Ela é descrita como uma mulher branca de queixo comprido e cabelos grisalhos.”

Mas quem é Ruth, uma mulher que se divorciou do pai de Obama, tornou a casar-se e deu o sobrenome de seu segundo marido a seus dois filhos com o pai de Obama? No livro, ela diz com bem pouco tato a Obama: “Mas a sua mãe tornou a casar-se. Eu me pergunto por que ela teve de conservar o seu nome?”

Quanto ao filho de Ruth e meio-irmão de Obama, Mark, o que está na China, ele é descrito como estudante de física em Stanford nos anos 80. Mark manifesta um interesse limitado em seu pai comum, que morreu em 1982 aos 46 anos: “A vida já é bastante dura sem todo o excesso de bagagem”, ele brinca.

Se for nomeado, a bagagem da família de Obama será vasculhada. Há quatro anos, o pessoal de George W. Bush chamou Kerry de antiamericano por falar francês. Mas, as coisas são diferentes. Hoje, os americanos estão menos temerosos e menos dispostos a se deixar manipular.

Nunca o futuro americano esteve tão ligado ao mundo. Os americanos percebem isso. Quando sua hipoteca é embalada em algum tipo de título engenhoso que é vendido a um banco alemão antes de o esquema se desfazer e você perder sua casa, o globo parece menor.

Quando cerca de 30% da receita de corporações americanas vêm do exterior e os chineses estão comprando dívida americana, e mais de sete milhões de pessoas foram naturalizadas americanas na última década, é mais difícil separar o destino dos EUA do destino de outros países. O isolacionismo não é apenas errado, ele é impossível.

Se eleito, Obama será o primeiro líder genuinamente do século 21. A teia envolvendo China, Indonésia, Quênia, Grã-Bretanha e Havaí espelha um mundo em fluxo. No Quênia, seu tio Sayid, um muçulmano, me contou: “Meu islamismo é híbrido, uma mistura de elementos, incluindo minha formação escolar cristã e até alguns modos africanos. Muitos valores estão dissolvidos em mim.”

O instinto de Obama para construir pontes provém de algum lugar. Ele é enraizado e provado. Para um mundo cheio de expectativa e com freqüência alienado, ele tem um importância fundamental.

Jornal Estado de S. Paulo
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