Recessão americana poderá ser uma das piores desde 1945

Eric Leser

A maioria dos economistas americanos está convencida hoje de que os Estados Unidos entraram em recessão. Para Martin Feldstein, presidente do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, cuja missão consiste em determinar os períodos de recessão, não somente esta já começou como será uma das mais graves desde a Segunda Guerra Mundial. Alan Greenspan, que foi presidente do Federal Reserve (Fed) de 1987 a 2006, cita a crise mais “wrenching” (dolorosa) desde 1945.

O principal risco, segundo Kenneth Rogoff, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor da Universidade de Harvard, é ver a recessão se ampliar e se auto-alimentar. A famosa espiral negativa que Ben Bernanke, o atual presidente do Fed, tanto teme. Rogoff estima em 50% a probabilidade desse cenário: a contração da atividade poderia então continuar até 2009. “O cenário cor-de-rosa seria de dois ou três trimestres de recessão moderada, seguidos de uma lenta retomada, mas seria preciso ter sorte para que se realize”, ele estima.

O ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers também está preocupado. O enfraquecimento do consumo deverá pesar sobre a rentabilidade das empresas, que poderiam por sua vez reduzir seus investimentos e demitir, ampliando assim a recessão. Esse fenômeno está aparecendo no setor automobilístico. A firma especializada JD Power revisou para baixo esta semana suas previsões de vendas de carros nos EUA este ano, de 15,7 milhões para 14,9 milhões.

Seria o nível mais baixo desde 1994. “O mercado de automóveis entrou em uma verdadeira fase de recessão”, afirma Bob Schnorbus, economista-chefe da JD Power. Isso obrigaria os fabricantes, já em situação difícil, a eliminar mais postos de trabalho.

O problema mais grave vem do mercado de crédito. A crise financeira surgida com o colapso dos empréstimos imobiliários de risco (subprimes) se transmitiu para a economia real através de uma rarefação e um encarecimento do crédito para os consumidores e as empresas, pois os estabelecimentos financeiros são confrontados com uma grande crise de liquidez. O Countrywide Financial, maior estabelecimento de crédito imobiliário americano, quase deixou de emprestar em fevereiro. Para evitar um bloqueio total do mercado de crédito, o Fed se agita.

Depois de ter sido criticado em 2007 por sua reação lenta, hoje Bernanke é elogiado por sua energia. No âmbito de seus trabalhos universitários sobre a depressão dos anos 1930, esse ex-professor de Princeton desenvolveu a teoria do “acelerador financeiro”. Ela mostra que os prejuízos dos bancos, depois de uma inversão brutal do ciclo de crédito, os levam a deixar de emprestar e assim aumentam a desaceleração da atividade e a queda do valor dos bens sobre os quais são avaliados os empréstimos concedidos.

Foi por isso que o Fed reduziu rapidamente o custo do dinheiro dia a dia, de 5,25% para 2,25%, desde setembro e ao mesmo tempo injetou mais de US$ 400 bilhões em liquidez para financiar o sistema bancário.

Mas os instrumentos de política monetária têm limites. As reduções de juros levam meses para se difundir na economia e são apenas um meio indireto de sustentar os mutuários. As vendas de casas não vão se recuperar enquanto os potenciais compradores estiverem convencidos de que os preços vão baixar ainda mais.

Uma intervenção do Estado federal talvez fosse necessária. Uma primeira etapa foi vencida com a decisão anunciada na quarta-feira de permitir que os dois grandes estabelecimentos públicos de crédito, Fannie Mae e Freddie Mac, emprestem US$ 200 bilhões suplementares graças à redução em um terço dos capitais com que eles devem garantir seus compromissos. No Congresso, os parlamentares refletem sobre a possibilidade de o Estado comprar maciçamente os empréstimos imobiliários. Depois ele daria condições de reembolso mais favoráveis aos mutuários em dificuldade. Mas a situação hoje não é julgada suficientemente drástica para que o governo possa justificar politicamente a compra de US$ 2 a 3 trilhões em créditos imobiliários.

Fonte: Le Monde

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2 Comentários »

  1. disse,

    10 de Abril de 2008 @ 12h 35m

    Para entender um pouco mais sobre os subprimes, leiam este post:
    http://www.monacoonline.com.br/blog/?p=49

  2. Rafael Bezerra disse,

    8 de Outubro de 2008 @ 11h 38m

    Essa crise já se apresenta no Brasil no tocante aos juros para financiamentos futuros, estamos antecipando a crise do crédito…é uma pena que nosso sistema bancário não está livre dos especuladores abutres americanos…

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